Viva a Santo Antônio

postado por Cleidiana Ramos @ 7:33 PM
13 de junho de 2011

Hoje é dia de festa para Santo Antônio. Foto: Fernando Amorim| Ag. A TARDE| 10.06.2011

Hoje não poderia faltar aqui uma homenagem especial a Santo Antônio, afinal ele é, talvez, o mais popular e mais querido dentre os santos católicos. A menção especial foi também reforçada por algo que vi em Iaçu, minha doce e cada vez mais empolgante terra, onde estive neste final de semana.

Pois não é que cheguei exatamente a tempo de assitir uma das noites da famosa trezena na casa de dona Judite? Foi como se passasse um filme na minha cabeça. Revi tantas e tantas cenas da minha infância, quando, depois de participar das trezenas na igreja matriz, íamos em bando para a casa de dona Judite.

Nós, as crianças, confesso, não tínhamos lá muito interesse na devoção ou em pedir ao santo casamenteiro um bom partido – isso era para as meninas que estavam ficando “mocinhas”–. O nosso esforço na saudação ao “glorioso Santo Antônio” era conseguir as guloseimas servidas após as cantigas e rezas (mugunzá, pipoca, bolo de milho, pastel e tantas outras).

E o barato é que nesse final de semana descobri que a tradição continua firme, forte e com renovação. Acreditem, mas essa trezena de dona Judite já tem mais de 60 anos. Fica aqui, inclusive, uma sugestão à prefeitura de Iaçu para que a inclua na categoria de patrimônio imaterial local.

Tudo isso me leva a mais uma vez pensar no porquê da associação que foi feita entre Santo Antônio e o orixá Ogum ou “convênio” como diz o professor Ordep Serra.

Com Ogum não se toma liberdades, mas com Santo Antônio a coisa  corre solta indo  de castigos leves como colocar a sua imagem  com o rosto virado para a parede até surras homéricas como faz uma parente minha.

E olhem que até Irmã Dulce costumava apelar para este tipo de convencimento, pois é de largo conhecimento que a primeira baiana reconhecida como beata e, portanto, a um degrau de se tornar a primeira brasileira aclamada oficialmente santa, também recorria a esses expedientes quando precisava de uma forcinha a mais do “seu padrinho”. Até na chuva, conta-se, Irmã Dulce já colocou a imagem e foi imediatamente atendida em seu pedido de cobertores para os seus pobres e doentes.

O que alguns podem entender, portanto, como “tomar liberdades” além da conta com um santo nada mais é do que uma deliciosa brincadeiragem (termo preferido do professor Albergaria) do povo nordestino que só demonstra o tamanho do carinho dedicado ao “santo das causas impossíveis”.

Continuo em dúvida dos motivos para a associação com o orixá dos caminhos e tão guerreiro. A hipótese mais aceita é por conta dos títulos que Santo Antônio (já santificado e tudo) ganhou no Exército brasileiro, inclusive com patentes que variaram de alferes a capitão, incluindo soldo.

Além disso, ele tinha a  fama de defender Portugal nas guerras tendo até sido visto materializando-se em campos de batalhas. Para quem não sabe Santo Antônio de Pádua, que tem como nome de batismo Fernando, é português, na verdade. Pádua, Itália, é o lugar onde morreu.

Portanto, Santo Antônio com fama de soldado foi aproximado, na Bahia, de Ogum, o senhor das ferramentas, dos caminhos e das batalhas. Lá, no Rio, o convênio de Ogum é com São Jorge.

E como é que um santo que foi de uma ordem religiosa e, portanto, com o compromisso de “voto de castidade” tornou-se padroeiro de romances e até casamento?

Mas conhecendo a inteligência dos meus ancestrais africanos, como diz o professor Jaime Sodré “debaixo desse angu” tem carne. A hipótese do professor é que essa associação “disfarça” uma tentativa ou um discreto convênio de Santo Antônio também com Exu, orixá da comunicação, que gosta de irreverência e é também ligado à fecundidade.

A discrição teria sido motivada por uma interpretação errônea de alguns que apressadamente chegaram a compreender Exu como representação do mal,  uma heresia para o povo de candomblé.

Daí, portanto, teria sido melhor deixar mais evidente a ligação com Ogum, que tem certa proximidade com Exu. É uma boa hipótese para se pensar, mas não muito, afinal a festa de Santo Antônio tem a liberdade exata de unir fé e alegria, com muita comida gostosa. Ora pois, portanto, vivas a Santo Antônio.

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