Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá

postado por Cleidiana Ramos @ 10:16 AM
11 de fevereiro de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Este texto é sobre uma pessoa muito especial: Aristotelina Fiuza, conhecida como ebomi Telinha de Iemanjá. O que me leva a essa homenagem é o seu aniversário de 90 anos e a comida que ofereceu a Iemanjá, um momento único para o Terreiro do Cobre, onde ela tem uma história muito bonita. Telinha nasceu e cresceu no Cobre. É uma das poucas do tempo da minha bisavó Flaviana Bianch que ainda vive.

Conheço Telinha desde que me entendo como gente, e ela me ajudou muito com sua sabedoria quando cheguei para reabrir o terreiro. É uma pessoa muito respeitada no Cobre e pela comunidade do bairro do Engenho Velho da Federação.

Quando eu era criança, no mês de junho, Telinha tirava reza de santo Antônio em várias casas do bairro. Acabada a reza, servia-se comida, principalmente para as rezadeiras, licor e amendoins. Ela tomava o seu licorzinho e dizia: “Não posso demorar, pois ainda vou tirar outras rezas”.

Durante o Carnaval, ia para o Terreiro de Jesus esperar a saída do afoxé Filhos de Gandhy, pois seu marido, Claudio, era um dos diretores. Acompanhava o bloco até o Campo Grande. No domingo, ela só ia embora depois que as escolas de samba desfilavam. Tinha as famosas, como Juventude do Garcia e Diplomatas de Amaralina. Naquele tempo não havia preocupação com transporte porque quem morava perto do circuito do Carnaval, como nós, ia andando. Não aconteciam assaltos nem mortes. Até os caretas, que saíam com o rosto coberto, após brincar tinham a obrigação de tirar a máscara e mostrar o rosto.

Outra lembrança que tenho de Telinha é da sua ida à praia de Armação com minha mãe e tias para a puxada de rede, onde pescadores, adultos e crianças pegavam o xaréu em meio a muitas cantorias. Após a puxada de rede, elas ganhavam os peixes. Aí preparavam um escaldado com quiabo, abóbora, maxixe, jiló e o molho nagô que era feito com as pimentas raladas, limão, quiabo, coentro, cebola, tomate e camarão seco, e degustavam tudo bebendo uma cachacinha. Era só alegria.

Ela também acompanhava a Romaria de São Lázaro, um evento que acontece no Engenho Velho da Federação há mais de 75 anos. Hoje fica na porta de sua casa segurando um prato de arroz perfumado para quando o santo passar jogar sobre ele. É compromisso.

Telinha foi criada por minha bisavó como uma neta, e tive a felicidade de encontrá-la para me orientar no terreiro. Costumo dizer a ela: “Tem que ficar comigo para tudo”, porque várias vezes foi até a minha casa chorando e pedindo para que eu fosse ver o terreiro quando ele estava fechado e a sua estrutura desmoronando.

Enfim, conviver com Telinha tem sido um dos melhores aprendizados que tive. Ela é uma mulher determinada e realiza o que quer. Lava, passa, cozinha e inspira os mais jovens, que dizem não aguentar fazer a metade das coisas que ela faz. Está sempre me dizendo que quando chegar a sua hora quer dormir, pois não consegue imaginar viver em uma cama dependendo de outras pessoas. Que Deus a ouça, Telinha de Iemanjá Ogunté.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

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5 Respostas to “Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá”

  1. Lindinalva Barbosa  Says:

    Mais uma pérola narrativa de Mãe Val. Desta vez sobre a Estrela de Prata do Terreiro do Cobre: Mãe Telinha de Iemanjá! Peço a benção destas duas grandes mulheres do Engenho Velho de Cima.

  2. Arleth Marinho dos Santos Monteiro  Says:

    Axé Mãe Val!Texto muito lindo, principalmente por relatar sobre tia Telinha , pessoa extraordinária e de muita vontade de viver com alegria.
    Obrigada por nos oportunizar com a memoria escrita da vivencia com tia Telinha de Yemanjá a qual tive o oportunidade de conviver.
    Ao Jornal a Tarde é momento de abertura para colunista como Mãe Val poder comunicar com os diversos segmentos da sociedade.Já estou no aguardo do próximo texto….obrigada!

  3. Jandira Santana Mawusí  Says:

    Ler um belo texto sobre minha flor do mar – Ebomi Telinha, como carinhosamente a chamo, é um refresco em plenos tempos de agonias e tristezas lidos e vistos nos jornais, e em toda a mídia. As boas lembranças escritas pela querida Ya Valnizia, sobre Tia Telinha, nos faz viajar, e em meio a leitura ser transportada até ela, a seu soriso e vivacidade, e alegria no viver. Apesar de ser de outro terreiro, nosso respeito sempre as casas de Axé, seja ela de qualquer nação, e para justificar o que digo, é como sou tratada por Minha flor do mar – Telinha e Mãe Val, sempre que posso desfrutar da presença delas visitando ao Terreiro do Cobre. Aqui deixo meu desejo infinito de ler os escritos e historias, estorias de Mãe Val, e as lembranças do quanto sou feliz por ser e ter amiga como a merecedora do texto, Ebomi Telinha, Tia Telinha, Minha flor o mar!

  4. Railene  Says:

    Muito lindo, sou mulher do santo e me sinto feliz em ler algo tão bonito e singelo. Vida longa a esse simbolo da nossa religião!!!

  5. eliane costa santos  Says:

    É com grande emoção que leio mais um texto da mãe Val, em especial porque nesse momento ela escreve sobre uma estrela do mar do Terreiro do Cobre – nossa Tia Telinha. Revive histórias de vida, remonta um tempo em que as tantas festas de largo era possível ser frequentada pelas mães de família e quiça por pessoas idosas ( que, como bem explicitou no texto, não era o caso de Tia Telinha na época). Obrigada mãe Val, por presentear a sociedade com mais essa pedra. Parabéns Jornal ATRADE.

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