Um monumento em honra de Milton Santos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
13 de julho de 2010

O professor Milton Santos foi um dos grandes intelectuais brasileiros. Foto: Arquivo A TARDE

Jaime Sodré

Permitam-me apresentar o currículo; Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas das USP; pesquisador 1A do CNPq; visiting professor, Stanford University, 1997/98; bacharel em direito, Universidade Federal da Bahia, 1948; doutor em geografia, Université de Strasbourg, França, 1958; doutor honoris causa das universidades de Toulouse, Buenos Aires, Complutense de Madrid, Barcelona, Nacional de Cuyo-Barcelona, Federal da Bahia, de Sergipe, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, Estadual de Vitória da Conquista, do Ceará, Unesp e de Passo Fundo.
Prêmios: Internacional de Geografia Vautrin Lud, 1994; USP/1999(orientador de melhor tese em ciências humanas); Mérito Tecnológico, 1997 (Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo); Personalidade do Ano, 1997 (Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro); Jabuti, 1997 (melhor livro de ciências humanas: A Natureza do Espaço, Técnica e Tempo).

Medalhas: Mérito Universitário de La Habana, 1994; Comendador da Ordem Nacional do Mérito Cientifico, 1995; Colar do Centenário do Instituto Histórico e Geográfico de  São Paulo, 1997; Anchieta, da Câmara  Municipal de São Paulo, 1997; Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, 1997; Lecionou nas universidades de Toulose, Bordeaux, Paris, Lima, Dar-es-Salaam, Columbia, Venezuela e do Rio Janeiro. Consultor da ONU, OIT, OEA e Unesco, junto aos governos da Argélia e Guiné-Bissau e ao senado da Venezuela.

Publicou mais de quarenta livros e trezentos artigos em revistas cientificas em português,francês, inglês e espanhol. Baiano de família de professores, com o avô e avó professores primários, mesmo antes da abolição, que o ensinaram a olhar mais para frente do que para trás. Família remediada, os pais ensinaram boas maneiras, francês e álgebra. Foi aluno interno e neste ambiente começara a ensinar antes da faculdade. Foi para a faculdade de Direito formado-se em 1948.

O fato: segundo o mesmo, seu maior desejo era a Escola Politécnica, mas havia uma ideia generalizada que esta escola “não tinha muito gosto de acolher negros, então fui aconselhado fortemente pela família – tinha um tio advogado – a estudar Direito, e daí mudei para a Geografia, que comecei a ensinar desde os quinze anos”. Havia uma crença na sociedade da época que na Politécnica os obstáculos eram maiores. Escrevera no jornal A Tarde, como correspondente na região do Cacau onde lecionava, por iniciativa do ministro Simões Filho que o descobriu para a imprensa. Ensinara na Universidade Católica e preparava-se para entrar na pública, onde fez concurso em 1960, após o doutorado em Geografia na França.

O pleito: Quando saíamos do Colégio Central em turma na direção da Sé, era comum a brincadeira entre as estátuas do Barão do Rio Branco e Castro Alves. Os mais espirituosos diziam: “Castro Alves estendia a mão em direção ao Barão pedindo uns trocados para libertar os negros. Rio Branco, com a mão no bolso, dizia tenho mas não dou”. Coisas da juventude.

Recentemente a Semur solicitou-me uma relação de estátuas e monumentos de negros e negras, em nosso espaço urbano. Inspirou-me para o que segue. Diante do currículo exposto do Professor Dr. Milton Santos, sinto-me autorizado a pleitear, quem sabe à própria Semur, a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação.

Ainda de posse de uma das suas brilhantes frases, que estaria no monumento merecido – “Quem ensina, quem é professor, não tem ódio” – em tempo de cotas, melhor local não seria adequado, se não em pleno ambiente acadêmico da Escola Politécnica, cumprindo um desejo do grande mestre, calado outrora pela mentalidade maldosa, inibidora da época.

Aposso-me de uma frase, lugar comum neste gesto, na certeza do apoio de muitos, “ao mestre com carinho”. Esta justíssima homenagem, traduzirá, com certeza, a admiração do povo brasileiro aos seus filhos ilustres, registrando aqui homenagem a alguém que o mundo não se cansou de reconhecer e homenagear. Placidez, serenidade, sorriso permanente aberto, humanidade, sabedoria, sem perder a ternura diante das dificuldades, poderão inspirar o escultor a modelar em material nobre este nobre baiano.

Jaime Sodré é historiador, escritor, professor universitário e religioso de candomblé

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6 Respostas to “Um monumento em honra de Milton Santos”

  1. Aléxis Góis  Says:

    Uma homenagem como essa a Milton Santos já devia ter sido realizada, ainda em vida. Não é só necessário homenageá-lo, como lembrar suas ideias. Infelizmente, em uma terra que mal registrou o falecimento do grande intelectual, em uma terra que se discute homenagem a Michael Jackson no Pelourinho, creio que será bem difícil conseguir tal feito.
    Tenho a impressão que a Bahia é o lugar em que Milton Santos é menos lembrado. Temos de mudar isso.

  2. Rogério Queiroz  Says:

    Apoiado!!!!

  3. marília  Says:

    Brilhante como sempre Jaime Sodré, relembra-nos do nosso querido Milton, sou geografa hoje inspirada que fui pelo mestre no qual tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Uma ótima idéia do também mestre sodré no qual vem nos últimos anos me mostrado a importâcia dos estudos afro.

  4. Olivia  Says:

    Pois é Aléxis, A Bahia tem uma dívida enorme com o Professor Milton Santos, esse monumento já deveria estar erguido em praça pública há tempos, uma pena que nossos representantes sejam tão medíocres. Mas, ainda há tempo pera recuperarmos brutal omissão.

  5. Ana Paula Fanon  Says:

    Olá Professor Jaime,

    Boa Tarde !

    Que bom que o senhor esta de volta .Sempre provocando os leitores do mundo afro !ótima Lembrança ! O professor Milton Santos revolucionou a geografia através da dinâmica do seu pensamento crítico.
    Quanto ao monumento, aprovado !Ah, sugiro modificar o nome do colégio central para colégio professor Drº Milton Santos, pois os negros e negras desta cidade precisam saber o alcance do pensamento deste intelectual subversivo.

  6. LUCIANO DE ALMEIDA LOPES  Says:

    Car@s Colegas, Caro prof. Jaime Sodré:

    Bem, quero começar concordando com a Olívia, pois o monumento precisa ser erguido em praça pública da centralidade urbana, pois a mesma SEMUR que te solicita, professor, também já colocou na Pça. da Sé uma estátua de Zumbi dos Palmares. Portanto, apreciemos esta proposta. Como pudemos ajudar?

    Sou professor na rede pública estadual de ensino, nos confins do município soteropolitano, na Valéria. Neste mesmo bairro há uma escola municipal cujo nome é do mestre. Não a conheço fisicamente mas, se não tiver lá algum monumento, merece um busto dele por lá também!!!

    Concordo com o Aléxis. E por que não pensar na possibilidade de uma estátua de corpo inteiro na frente da Casa de Jorge Amado? Já em relação a Ana Paula Fanon, talvez fosse interessante cunhar o nome de alguns colégios, principalmente da rede pública estadual de ensino, com o nome de heróis negros e índios que construíram nossa nação, em contraposição ao monopólio nominal dos CMLEM’s!!!

    Um abraço à todos!!!

    Luciano de Almeida Lopes
    Professor de Geografia
    Geógrafo CREA-BA 46599/D

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