Balaio de Ideias:O Dia de Oxoguian: para a festa não ter fim…

postado por Cleidiana Ramos @ 1:21 PM
26 de janeiro de 2011

Vilson Caetano relata características de Oxaguiã. Foto: Fernando Amorim | Ag.A TARDE| 22.09.2006

Vilson Caetano

Oguian, ou simplesmente Oxoguian, é um dos orixás mais emblemáticos do candomblé. Sobre ele também recai uma série de segredos rituais guardados pelos terreiros, embora muitas coisas já se tenham escrito. Acredita-se que Oxoguian liga-se à música e, como os orixás Xangô e Oxun, adora festas, razão pela qual ele recebe musicas especiais nas nações ijexá e fon, reinos africanos que emprestaram seus nomes a ritmos.

Anteriormente já mencionamos que Oxun combinou os sons, formou as notas e inventou a música. De acordo com uma de suas histórias, ela teria dançado pela primeira vez na presença do rei e fez todo o mercado lhe acompanhar. Teria sido por este motivo que Iya Caetana, filha de Oxun, a fim de agradar Oxoguian, certa ocasião, enviou clarins para  homenagear o orixá de sua amiga Massi, então Iyalorixá do Engenho Velho, ato que vem se popularizando nos terreiros de candomblé de todo o  Brasil.

Os mitos afro-brasileiros sobre este ancestral nos permitem perceber que Oguian liga-se a comida. A sua festa é o ponto culminante do  chamado Ciclo das Águas, representado pelos inhames novos presenteados pela terra após um período de dificuldades. Oxoguian, assim, é o dono do pão. É ele quem garante o nosso sustento de cada dia representado pelas raízes.

Oxoguian em momentos de crise representa a estabilidade; em ocasiões de guerras, a estratégia; na tristeza é a alegria, no fim é o recomeço.

Oxoguian é o orixá do renascimento. Tudo que forma um ciclo se mantém graças a ele. Este é o motivo pelo qual no dia a ele consagrado se realiza uma pequena procissão. Ele representa a volta para a casa, a estabilidade dos grupos que até então vagavam sem destino.

Oxoguian põe um ponto final no fim e inaugura aquilo que é infinito, pois diante dele tudo é recomeço. Está explicado o porquê, após a sua festa, a liturgia afro-brasileira passa a celebrar os orixás considerados civilizadores como Exu, Ogun, Ode, Ossain e Obaluaiyê.

Oxoguian realiza a passagem entre os chamados ancestrais fundadores da humanidade e aqueles que se ligam à fixação dos primeiros reinos. Este fato é ilustrado na história que diz que Oxoguian saiu pelo mundo a fim de expandir a sua cidade e ao retornar transformou Ejigbô numa grande cidade.

Desta maneira, Oguian liga-se a vários ancestrais. De acordo com suas histórias, ele teria passado em Irê, a terra de Ogun e graças à sua inteligência idealizou armas forjadas pelo ferreiro dos orixás. A amizade entre o povo de Ejigbô foi tanta que Ogum, certa ocasião, se ofereceu para ir à frente de uma batalha lutar pelo povo de Oguian que na volta foi aclamado senhor.

Diz-se também que o orixá que adora inhames é amigo inseparável de Oyá, com quem anda sem pisar no chão, levado pelo vento que lhe conduz a todos os lugares.

Com o orixá Xangô, coluna central do culto reorganizado no Brasil pelos iorubas e seus descendentes, Oguian se relaciona como outrora os reinos de Ejigbô e Ifon estavam ligados à Oyó, fato relembrado pelo pilão, instrumento de vital importância para a fixação dos grupos na terra.

O pilão como o ferro ilustra uma nova etapa da história da humanidade. A partir dele, pode-se falar em comidas mais elaboradas, preparar  a farinha e conservar melhor os  alimentos. Se o pilão é o centro do mercado, a mão de pilão é o instrumento que repete o movimento que liga o céu à terra, garantindo a nossa permanência através da comida, do pão dado em forma de presente por Oxoguian.

Oxun é verdadeiramente o coração de Oguian. Ela dança também para ele. É Oxun quem vai a frente das mulheres da terra de Ijexá que inventaram um tipo de tambor apenas tocado por elas. Instrumento na sua origem feminino como as cabaças, cujo som remete ao mesmo produzido na vida uterina.

Oxun teria ensinado estes sons para a humanidade, escutando a sua própria barriga. Oxoguian como já falamos, relaciona-se também com os orixás caçadores e caçadoras. Daí a sua relação com Oxossi, considerado líder e cabeça da grande caçada.

Mantém relações também com Ewá, ilustrada  através de uma das passagens míticas mais emblemáticas. Ewá, aquela que tem o poder de transformar-se em qualquer coisa, lhe teria salvo da morte, garantindo assim a continuidade do ciclo da vida.

O orixá que carrega todas as armas, ora caçador, ora rei, ora a guerra, mantém relações também com Iyá ori, conhecida como   Iyemanjá, pois ela é responsável pelo equilíbrio. Iyemanjá é o principio ancestral do significado. Em outras palavras, o mundo só é inteligível, graças àquela que mantém as nossas cabeças.

Por fim, Oguian relaciona-se a Oxalá e todos os ancestrais que representam o começo da humanidade. Talvez tenha sido por isso que os africanos quando reorganizaram o seu culto no Brasil, lhe aproximaram tanto destes, a ponto de em alguns momentos ser confundido com eles.

Oxoguian anda através de passos mais rápidos, determinados. A guerra,a prontidão, o alerta nunca lhe precedem, pois ele é a própria luta, relembrada num de seus títulos de pronúncia mais evitada:  “Baba lorogun”, literalmente “pai da guerra”.

No último domingo, o Terreiro Pilão de Prata celebra a sua principal festa. A casa fundada a meio século cobre-se de azul e branco para homenagear Oxoguian, ancestral a quem o Babalorixá Air José foi consagrado por Tia Massi e sua tia consangüínea Caetana Bangbose.

Este ano, os clarins introduzidos por Mãe Caetana na Casa Branca, soaram mais fortes, pois a casa chamada Ilê Odô Ogê,  completa cinqüenta anos. Segundo o Pai Air, são cinquenta anos de dedicação aos orixás. Cinqüenta anos de gratidão a Oxun. Cinqüenta anos de compromisso com o axé Bangbose.

São cinquenta anos que convidam a comunidade a refletir não sobre os anos que passaram, mas sobre a sua trajetória de vida. Assim, a celebração é de toda casa. Afinal, durante este meio século de história, o maior patrimônio constituído foram as pessoas que em torno do Pilão se reúnem para reafirmar o compromisso de nunca interromper esta festa, garantindo assim a eterna alegria de Oxoguian, verdadeiramente orixá do sorriso.

Vilson Caetano é pós-doutor em antropologia e professor da Ufba


Balaio de Ideias: Odun Adorin de Pai Air de Oxaguiã

postado por Cleidiana Ramos @ 8:22 PM
24 de setembro de 2010

Artigo celebra os 70 anos de Pai Air. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 09.12.2004.

Vilson Caetano

No último dia 20 de setembro completou 70 anos de vida o Babalorixá Air José Sousa de Jesus,  que recebeu de sua Iyalorixá e tia consangüínea, Caetana Souwzer, o nome carinhoso de Aizinho. Pai Air como é conhecido pelas pessoas é filho de Tertuliana Sousa de Jesus e neto de Felisberto Sowzer,  último Babalawo que a cidade de Salvador teve notícias. Benzinho como era conhecido era homem letrado, falava fluentemente inglês e nas suas viagens feitas, sobretudo ao Rio de Janeiro iniciou várias pessoas. Todavia, a sua maior contribuição para as religiões de matriz africana no Brasil foi a sistematização do método advinhatório chamado Bara ou Merindilogum.

Como filho de Ogun, Benzinho reuniu  dezesseis caminhos chamados Odus com suas respectivas histórias e preparou cadernos posteriormente divulgados ora desconhecendo ou ignorando a sua participação nos mesmos. Felizberto Souwzer era filho de Julia Martins Andrade, tia Júlia, filha consangüínea de Rodolpho Martins Andrade, Bangboxe Obiticô, o jovem trazido por uma das sacerdotisas que estava à frente do Candomblé do Engenho Velho para ajudar a sistematização do culto a Xangô.

Tio Bangboxe participou da iniciação de Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, que em 1910 criou o Ilê Axe Opô Afonjá, hoje centenário. Acredita-se também que o Tio Bangboxe também esteve presente na ocasião da estruturação do  Sítio do Pai Adão em Pernambuco. Pai Air é assim, herdeiro da tradição de sua família, da extensa família de Xangô entrada no Brasil com os primeiros yorubás chegados entre final do século XVIII e meados do século XIX vindos do reino de Oyó recém destruído pelos povos vizinhos.

Pai Air desde cedo sentiu essa responsabilidade. Iniciado ainda quando criança por três mulheres de Oxun, fato que lembra com orgulho, começou desde cedo acompanhar a sua tia e Iyalorixá, Mãe Caetana.  Em 1961 no alto do Caxundé, atual bairro da Boca do Rio, sobre uma duna, quando na região havia apenas poucas casas de taipa cobertas com folhas de coqueiro ou de zinco,Pai Air  com apenas 21 anos de idade concretizou um sonho que completará no próximo ano, cinqüenta anos:  o Ilê Odô Ogê. Uma casa dedicada a Oxoguian, ancestral a quem foi consagrado, a Oxun e a Xangô.

De patrimônio arquitetônico, artístico, histórico  e imaterial inquestionável, o Terreiro Pilão de Prata, como é conhecido,  foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) no ano de 2004. Além de um acervo bibliográfico sobre as religiões de matriz africana, a casa com recursos próprios mantém um Memorial e instalações prontas para serem implantadas oficinas voltadas à comunidade.

Foi o primeiro terreiro a instalar o bosque sagrado, um espaço onde se cultiva algumas plantas rituais que estão em estágio de desaparecimento. Considerado sempre a frente de seu tempo Pai Air é sempre reportado pelo seu bom gosto, requinte, estilo, amor e carinho com que trata os Orixás que sempre quando se refere, faz questão de lembrar: “os Orixás são a minha vida.”

Pai Air é um homem extremamente metódico, acompanhá-lo exige disciplina. É também um homem de poucas palavras, de passos firmes, mas silenciosos, razão pela qual está sempre surpreendendo, até quando se coloca alguém para vigiá-lo. Esse é um dos principais motivos porque, dificilmente, seus filhos conseguem organizar festas surpresas.

Pai Air, não obstante o seu significado para as religiões de matriz africana no Brasil, é muito simples. Várias vezes o ouvi afirmar: “se a pessoa chega até aqui ela não pode sair sem ouvir uma palavra”. Quanto a outras tradições religiosas, Pai Air sempre lembra: “não conheço candomblé, o que sei é aquilo que Mãe Caetana me ensinou”. Com os ensinamentos de sua Mãe de quem nunca se separou, Pai Air segue dizendo: “Orixá para mim é a água que eu bebo, o ar que eu respiro e os olhos que eu enxergo. Oxun para mim é tudo. Ela é a minha maior riqueza”.

Este ano, as comemorações do seu aniversário foram também modestas. Pai Air recebeu  telefonemas e agradeceu aos orixás pela extensa família de santo e amigos que conseguiu acumular durante estes anos, anos de todos os dias dedicados aos Orixás. Isso porque ele sabe que a cada ano que se dobra, a responsabilidade aumenta, agora ele cuida do mundo como Oxoguian e Oxun que toma conta de nós como a galinha protege os pintinhos debaixo de suas asas.

E para que melhor presente do que ter o mundo todo desejando que Iyemanjá transforme os anos que virão em algo  incontável como as areias da praia? Acredito que esse é o desejo de todos e todas que compõem  as extensas famílias do terreiro do Luis Anselmo fundado por Tia Júlia atualmente sobre a liderança de Tia Irenea Sowzer;  do candomblé do Engenho Velho; da casa de Mãe Caetana, chamada Lajuomim e do terreiro Pilão de Prata, casa fundada sobre a proteção do Orixá que desde os primórdios tomou para si a responsabilidade de cuidar do mundo.

Vilson Caetano é doutor em antropologia


Centenário da Casa de Xangô

postado por Cleidiana Ramos @ 1:06 PM
28 de julho de 2010

Mãe Stella coordena as comemorações do centenário do Afonjá. Foto: Diego Mascarenhas| Ag. A TARDE

Essa semana, o Ilê Axé Opô Afonjá realiza uma série de atividades para comemorar o seu centenário. A programação começa na sexta-feira, a partir das 19 horas, é aberta, mas pede-se traje branco. Os eventos acontecerão no barracão de festas do terreiro.

Confiram abaixo as atividaes programadas:

Sexta-Feira, dia 30:

19h- Saudação à Casa: Alabês do Terreiro
19h20- Composição da Mesa de Abertura do Evento: Mãe Stella de Oxóssi e ogã José de Ribamar Feitosa Daniel, presidente da Sociedade Cruz Santo do Axé Opô Afonjá.
20h-Performance do dançarino e coreógrafo norte-americano Clyde Morgan.
20h30- Lançamento de selo personalizado e carimbo pelos Correios.
21h- Apresentação do afoxé Filhos de Gandhy e convidados.

Sábado, dia 31
8h- Inscrição e entrega de material aos participantes
9h- Saudação ritual aos ancestrais e inauguração do busto de Mãe Aninha
9h30-Saudação à Casa e boas vindas
9h40- Mesa Redonda: As Ialorixás do Ilê Axe Opô Afonjá
Mediadora: Professora Yeda Pessoa de Castro
Palestra: Mãe Aninha
Palestrante: Obá Muniz Sodré
Palestra: Tia Cantu- Iyá Egbe do Ase
Palestrante: Babalorixá Bira de Xangô (RJ)
Palestra: No Tempo de Mãe Bada
Palestrante: Ubiratan Castro

11h- Intervalo
11h20-Palestra: No Tempo de Mãe Senhora
Palestrante: Obá Luis Domingos
Palestra: No Tempo de Mãe Ondina
Palestrante: Egbón Adilson Almeida
Palestra: Mãe Stella, a Ialorixá dos 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
Palstrante: Jaime Sodré
13h- Engerramento do dia- Tarde Livre
17h- Lançamento de publicações- Livro de Contos, de Tia Detinha e Xangô, de Raul Lody
18h- Exibição do vídeo-memória E Daí Nasceu o Encanto: 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
20h- Apresentação do bloco Cortejo Afro e convidados

Domingo- 1º de agosto de 2010
9h- Abertura do Dia- Saudações/atabaques
9h30-Palestra: Em busca das raízes gurunsi do Ilê Axé Opô Afonjá: Uma jornada ao norte de Gana
Palestrante: Maria Paula Adinolfi
10h20- Apresentação dos alunos do grupo de Capoeira do Terreiro
11h- Apresentação dos alunos da oficina de dança do Ilê Axé Opô Afonjá
11h30- Apresentação da Banda Aiyê (Ilê Aiyê e convidados)


Afro Imagem: Vida longa ao Ilê Axé Opô Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 11:04 AM
14 de julho de 2010

A Câmara Muncipal de Salvador fez uma bela e justa homenagem aos 100 anos do Ilê Axé Opô Afonjá na noite de ontem. No registro do repórter fotográfico, Claudionor Júnior, da Agênica A TARDE, aparecem Ribamar Daniel, presidente da Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá; a ialorixá do terreiro, Mãe Stella de Oxóssi , e a vereadora Olívia Santana, que propôs a cerimônia.


Festa para o Ilê Axé Opô Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 1:06 PM
12 de julho de 2010

Terreiro comandado por Mãe Stella completa 100 anos. Foto: Diego Mascarenhas| Ag. A TARDE

O Ilê Axé Opô Afonjá está comemorando 100 anos. Fundado por Mãe Aninha em 1910, a casa consagrada a Xangô se tornou um dos mais importantes candomblés brasileiros com governos marcados pelo carisma de suas sacerdotisas.

A atual, Mãe Stella de Oxóssi, é admirada não só por seu saber religioso, mas também por sua inteligência aguda traduzida nos livros que escreve. Um deles, Meu Tempo É Agora, está em sua  segunda edição.

Amanhã, às 18 horas, na Câmara Municipal tem sessão especial para comemorar os 100 anos do Afonjá. A seção foi proposta pela vereadora Olívia Santana (PCdoB).

No final do mês tem mais comemorações. Dia 30, a partir das 19horas , acontecerá saudação à casa pelos alabês do terreiro, seguida de performance do dançarino e coreógafo norte-americano Clyde Morgan, lançamento de selo e carimbo pelos Correios e apresentação do afoxé Filhos de Gandhy. O traje pedido para participar da festa é branco.

No dia seguinte, a partir das 8 horas tem mesa redonda e palestras com a particpação de Yeda Pessoa de Castro, Muniz Sodré, babalorixá Bira de Xangô, Ubiratan Castro, Luis Domingos, Adilson Almeida e Jaime Sodré. Nesse mesmo dia  às 17  horas tem o lançamento do Livro de Contos de Tia Detinha e Xangô, de Raul Lody. Às 18 horas será exibido o vídeo-memória E Daí nasceu o Encanto: 100 anos do candomblé de São Gonçalo. Em seguida começa a apresentação do bloco Cortejo Afro e convidados.

No domingo, 1º de agosto, a partir das 9 horas tem palestra com Maria Paula Adinolfi, apresentação dos alunos do grupo de capoeira e da oficina de dança do terreiro e apresentação da Banda Aiyê e convidados.

No dia 26 de agosto o Afonjá vai sediar o encontro de secretários de educação dos municípios da Bahia para discutir a Lei 11.645/08 (que atualizou a Lei. 10.639/03 que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira). O evento chama-se Ofin ni Olope (Lei em Ação).

A Escola Eugênia Anna dos Santos que funciona no Afonjá é referência nacional na aplicação da Lei por conta de sua metodologia inovadora que parte de mitos africanos para aplicar todos os conteúdos.


Maroketu reabre hoje

postado por Cleidiana Ramos @ 9:59 AM
20 de janeiro de 2010
Mãe Cecília Soares assume hoje o Maroketu. Foto: Wilson Militão |Divulgação

Mãe Cecília Soares assume hoje o Maroketu. Foto: Wilson Militão |Divulgação

Hoje é dia da festa de reabertura de um tradicional terreiro de Salvador: o Ilê Axé Maroketu.  A cerimônia começa às 16 horas. A Casa será regida pela ialorixá Cecília Soares, filha de Mãe Pastora e neta da fundadora do terreiro, Cecília do Bonocô. 

O Maroketu foi fundado em 1943, na Ladeira do Bonocô, hoje denominada Rua Antônio Viana, em Cosme de Farias.  Cecília do Bonocô era consagrada a Azoani e filha religiosa de Damiana Oxalafalaqué que por sua vez foi iniciada pela legendária Iya Magebassan.

Segundo o histórico do tereiro os fundamentos do culto a Azoani, uma divindade com características próximas a Obaulaê da nação Ketu, foram preprados pelo célebre Martiniano do Bonfim.

Com referência à nação ketu, o terreiro tem raízes no culto jeje por conta de Azoni, mas também tem forte relação com o orixá Xangô. Cecília Soares vai suceder Mãe Pastora de Iemanjá Ogunté.

Além da sua tradicional herança religiosa, Mãe Cecília é também conhecida por sua carreira acadêmica. Professora da Uefs, é autora de estudos na área de história e antropologia, como o livro Mulher Negra na Bahia do Século XIX.


Agressão ao Ilê Axé Opô Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 2:00 PM
1 de dezembro de 2009
Área do Ilê Axé Opô Afonjá foi invadida. Foto: Geraldo Ataide |AG. A TARDE| 31.10.2002.

Área do Ilê Axé Opô Afonjá foi invadida. Foto: Geraldo Ataide |AG. A TARDE| 31.10.2002.

Uma notícia triste: o Ilê Axé Opô Afonjá, comandado por Mãe Stella de Oxóssi, foi invadido na madrugada de domingo por ladrões. Eles não respeitaram nem sequer os espaços sagrados pois reviraram o quarto de Oxalá à procura de objetos valiosos.

“Foi um episódio de vandalismo”, descreveu o ogã Ribamar Daniel para a matéria da minha colega repórter em A TARDE, Helga Cirino, publicada na edição de hoje.  Ribamar Daniel é o presidente da Sociedade Civil Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá, a representação civil do terreiro.

O episódio remete à questão de proteção pública para estes espaços. Claro que sabemos da laicidade do Estado, mas estes templos, assim como os de outras religiões, fazem parte do patrimônio material e imaterial do Brasil. O Afonjá é um dos mais conhecidos terreiros baianos, mas não é de hoje os pedidos reiterados da comunidade para a realização de uma obra de contenção que isole o espaço religioso de parte da via pública. Parte do terreno do templo já foi até usado para campo de futebol.  

Na visita que o ministro Edson Santos realizou em outubro a sete terreiros de candomblé da cidade, incluindo o Afonjá, todos os seus líderes fizeram queixas em relação a problemas de infra-estrutura. Por conta da própria expansão desordenada de Salvador, os  terreiros foram sufocados, perdendo a cada dia partes das suas áreas que em alguns casos formaram vários bairros.

É o caso, por exemplo, do Engenho Velho da Federação, que se formou no entorno de casas religiosas como o Bogum e o Cobre. O próprio Afonjá foi fundamental, sem dúvidas, para a expansão de São Gonçalo do Retiro. Tudo que era possível para a comunidade fazer foi feito, como o registro de queixa na polícia. Vamos agora acompanhar que tipo de providências será adotada.          


A benção: Parabéns ao Filho do Rei

postado por Cleidiana Ramos @ 11:34 AM
24 de agosto de 2009
Obaràyí completa, hoje, 50 anos de consagração ao candomblé. Foto: Marco Aurélio Martins| AG. A TARDE

Obaràyí completa, hoje, 50 anos de consagração ao candomblé. Foto: Marco Aurélio Martins| AG. A TARDE

O terreiro Ilê Axé Opô Aganju está em festa. Hoje, o seu babalorixá, Balbino de Xangô, Obaràyí, completa 50 anos da sua consagração religiosa. Na programação dos festejos está o lançamento de sua biografia, numa edição luxuosa, com 680 páginas e muitas, muitas fotos, quase mil. O lançamento será na próxima quinta, às 19 horas, no Palácio da Aclamação.

Na última sexta-feira tive a sorte de fazer uma longa entrevista com Obaràyí, que tem caracteristicas muito próximas daquelas atribuídas a Xangô, orixá a quem é consagrado: a postura de rei, o humor e a energia, próprias da divindade que controla o fogo e é o soberano de Oyó.

Para quem não viu a matéria na edição de domingo vou colocar aqui abaixo só o texto principal. Quem quiser ver o restante pode procurar no primeiro caderno da edição de domingo, página A6:

Festa para o Filho de Xangô

Balbino Daniel de Paula, 68 anos, é filho do orixá que tem posto de rei: Xangô, senhor de Oyó, tão celebrado na Bahia. Não é segredo que os homens e mulheres do candomblé baiano costumam  apresentar em seus gestos, mesmo os mais sutis, traços atribuídos às divindades a quem são consagrados. Neste caso não é diferente. Quando fala e gesticula, Obaràyí, o nome sagrado do babalorixá do Ilê Axé Opô Aganju, transpira a postura de rei. Como monarca seguro dos seus domínios, nada acontece no entorno do Aganju que ele não perceba e comente, mesmo quando parece absorvido nas memórias dos 50 anos de sacerdócio que comemora amanhã. 

A festa que acontece, a partir das 10 horas, no Ilê Axé Opô Aganju, em Lauro de Freitas, é a segunda atividade de uma programação iniciada no sábado com uma missa na Igreja da Conceição da Praia. Na quinta-feira, a partir das 19 horas, no Palácio da Aclamação, tem o lançamento de Obaràyí- Babalorixá Balbino Daniel de Paula, que traz a biografia do religioso.

Esta série de atividades para a celebração dos 50 anos de sacerdócio de Obaràyí  caminha no estilo de Xangô, um orixá que transpira alegria. Suas aparições nos terreiros são marcadas por uma dança frenética, mas cheia da dignidade de quem sabe ser rei, a ponto de seus filhos serem conhecidos como “aqueles que têm pé de dança”. 

Mas Xangô é também o senhor da Justiça, um traço que Balbino diz, com segurança, ter herdado do seu orixá. “Não gosto de injustiça e sou justo. Às vezes tiro coisas de mim para dar para os outros sem esperar recompensa”, conta. Não custa lembrar que os bons líderes, realmente, sabem como equilibrar a autoridade com a generosidade e são lições desse tipo que o babalorixá tem colecionado ao longo de meio século no candomblé.

“Fico pensando sobre o que fiz na minha vida. Se fiz o bem ou se fiz o mal. Mas acho que fiz o bem, pois meu orixá não deixaria ser de outra forma”, diz Balbino.

A sua consagração no candomblé foi conduzida por uma das mais célebres sacerdotisas da Bahia: Mãe Senhora de Oxum, uma das ialorixás que comandaram o Ilê Axé Opô Afonjá.

Respeitada tanto no meio do povo-de-santo quanto nos círculos intelectuais de Salvador, Senhora reinou no Afonjá do final da década de 30 a 1967 quando morreu. “Conviver com ela era maravilhoso. Ela era como uma rainha”, conta Pai Balbino.

No entorno de Mãe Senhora estava alguém que iria marcar de forma especial a vida de Pai Balbino: o etnógrafo e fotógrafo, Pierre Verger. Ao se referir ao francês que  ganhou o sagrado nome de Fatumbi, a emoção toma conta de Balbino:

“Não tem como falar de Fatumbi sem usar o coração. Foi ele que me convenceu a abrir o terreiro, lembrando que eu tinha que manter a minha herança ancestral”. O Ilê Aganju foi fundado em 1972.

Inquietude – A amizade entre Balbino e Pierre Verger, que tinha o posto de mogbá, uma espécie de ministro de Xangô no Aganju, era antiga.

Foi por meio de Verger que Balbino pisou pela primeira vez em uma das terras com as quais a Bahia guarda relações sagradas: o Benim.  Isto por conta do filme Brasileiros da África e Africanos no Brasil, que teve Verger como roteirista e o babalorixá como ator principal. Além do Benim, Pai Balbino visitou, no continente africano, Nigéria, Senegal e Costa do Marfim. Mas foi também a países de outras partes do mundo,  pois o filho de Xangô é inquieto e viaja muito.

Seu lugar preferido, dentre os tantos que visitou? “Aquele onde me tratem bem”, responde, rápido, sem pensar. Aliás, acompanhar o seu ritmo é para quem tem muito pique. Vê-lo tranquilo, sentado numa cadeira, como fez para dar a entrevista para A TARDE e para a TVE, é raridade.

“Eu fiquei aqui uns 15 dias para gravar uma parte do filme e fiquei impressionado com o ritmo dele. Tinha dia que por volta de duas horas da manhã ele ainda estava conferindo as imagens no monitor”, narra o cineasta e diretor do Irdeb, Pola Ribeiro.

Pai Balbino assessorou a equipe de O Jardim das Folhas Sagradas, o novo trabalho de Pola, durante as filmagens no Aganju. Mas, pensando bem não é para ser surpresa tanto ritmo, afinal, outra conhecida atribuição de Xangô é a ciência de dominar a rapidez do raio.