Pequen@s guerreir@s: Zumbi e o sonho de liberdade

postado por Cleidiana Ramos @ 6:33 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Francisco nasceu livre, em 1655, em Palmares,  e, como outras crianças do quilombo, conviveu com seus pais, brincando e ouvindo histórias até os cinco anos de idade quando foi raptado com outros quilombolas, numa das investidas dos portugueses.

O nome Francisco, lhe foi dado por um padre quando o batizou, mas certamente a criança era chamada por outro nome.

Francisco nunca desistiu de retornar à sua terra. Ele certamente ouvia dizer que em Palmares além de africanos que fugiram da escravidão, havia também índios, mulatos e até brancos; que em Palmares a terra era de todos e, embora tivesse alcançado o número de 20 mil pessoas, tinha ainda lugar para muita gente se espalhar entre as palmeiras.

Francisco ouvia também contar que desde a formação de Palmares não se parava de tentar destruir o sonho de liberdade de tantos homens e mulheres. Assim, quando completou 15 anos, ele fugiu e retornou à terra de seus pais onde se tornaria, com o nome de Zumbi, o líder de um dos maiores projetos de liberdade construído pelos africanos no Brasil.

Vilson Caetano é babalorixá do Ilê Obá L´Okê,  doutor em antropologia e professor da Ufba

Foto:  Fernando Amorim | Ag. A TARDE | 24.09.2009.

Foto: Fernando Amorim | Ag. A TARDE | 24.09.2009.


Balaio de Ideias: Orixá Ilu e Orixá Igbó

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
21 de abril de 2011

Antropólogo faz reflexão sobre a associação religiosa. Foto: Fernando Amorim| Ag.A TARDE| 22.09.2006

Vilson Caetano

Neste texto vamos abordar o desconfortável tema do sincretismo afro-católico. Desconfortável não por ser algo revisitado suficientemente por outros autores, mas pela série de estigmas que ao longo da história das religiões de matriz africana no Brasil, este conferiu a estas. Desta maneira, gostaríamos de iniciar esta reflexão retomando a afirmação de que o fenômeno do sincretismo é universal e por isso acompanha os grandes modelos religiosos do inicio de sua formação aos dias de hoje.

Pena que tal tema, nos estudos afro-brasileiros, ao aparecer na década de 30, serviu, dentre outras coisas, para legitimar a idéia da suposta inferioridade do pensamento africano, elaborada no século XIX a partir das teorias racistas. Assim por muito tempo, tal assunto quando apareceu nos estudos afro-brasileiros sugeriu leituras preconceituosas que desautorizavam as visões de mundo africana, graças a relação que estas desde cedo estabeleceram com o catolicismo português.

As leituras limitadas de tais relações se deram a partir da concepção de uma teoria conspiratória. Em outras palavras, alguns estudos apresentam as relações entre negros e brancos no Brasil colônia a exemplo de um campo de futebol: de um lado os negros, do outro lado os brancos. É certo que na colônia, como ainda hoje, as relações entre os não brancos e os que designaram-se brancos ainda continuam sendo algo predefinido. Atentar-se a isso talvez seja o primeiro passo para desmascarar o racismo brasileiro, racismo sutil, silencioso, cordial, camarada que empurra o homem e a mulher negra para o mundo do “deixa disso”, do “para com isso”, mas que sempre está ali constituindo as relações mais “familiares”.

Essa suposição da teoria conspiratória, ou da ação dos indivíduos a partir de “um lugar” sugeriu a teoria da dissimulação, que seria uma espécie de “faz de conta”. Desta maneira, as relações estabelecidas desde cedo entre o universo religioso africano com outros grupos seria explicada a partir desse faz de conta onde, por exemplo, os santos católicos através de um jogo de correspondências, de analogias externas, seriam uma espécie de máscara branca no rosto de ancestrais africanos.

Tal idéia nos anos 80, a partir da caminhada de quase vinte anos de movimentos negro e da presença de alguns intelectuais nos terreiros provocou uma espécie de mal estar no universo afro-brasileiro, ao menos para os participantes da II Conferência Mundial da Tradição Orixá e Cultura, realizada na cidade de Salvador. Quando se refletia sobre a o retorno à África, foi elaborado um documento, na forma de manifesto, que afirmava a fim de garantir à África mítica e pureza africana, ser necessário romper com o sincretismo afro-católico, expresso através da correspondência entre santos católicos e orixás, da ida das comunidades terreiros ao recinto católico por ocasião de algumas festas e da presença de altares católicos no barracão dos terreiros.

Não estamos bem certos se o objetivo do documento produzido no encontro era mesmo desconstruir as relações entre o candomblé e catolicismo a fim de legitimar o primeiro como religião, mas com certeza quando algumas lideranças religiosas assinaram tal texto, transformado pela mídia num Manifesto anti-sincretismo, era a defesa de suas tradições como religião que tinham em mente. Esse fato foi abordado pela Prof. Dra. Josildeth Gomes Consorte que estudou tal documento durante dez anos.

A partir das contribuições de seu trabalho realizamos uma pesquisa publicada sob forma de livro intitulado: Orixás Santos e Festas, onde chamamos a atenção para o fato de, diferentemente de como se apresenta, o fenômeno do sincretismo é sentido de forma diversa pelas pessoas. Em outras palavras, ao contrário da idéia de “faz de conta”, mistura, fusão, justaposição, jogo de correspondências, analogias, confusão, dentre outras, o fenômeno do sincretismo tem a ver mesmo com atribuição de significados, com sentimentos.

Desta maneira, a menos nas religiões de matriz africanas deve ser entendido como algo além das máscaras e disfarces, até mesmo porque não se reduz  apenas a vivências externas, ao contrário, em alguns momentos chega a ser constituidor de ritos específicos reconstruídos no Brasil, como fez o próprio Cristianismo quando se deparou com as religiões antigas, contemporâneas a sua formação.

Dizer que o sincretismo afro-católico não pode ser reduzido a relações exteriores, nem ao faz de conta explicado a partir da teoria da dissimulação é ao mesmo tempo reconhecer a capacidade que homens e mulheres negros tiveram de, contrariando a teoria conspiratória, romper com os lugares impostos a estes na sociedade e intervir a partir de seus lugares, tornando-os livres para criar, reinventar e dar continuidade a universos fragmentados pela escravidão que não foram destruídos graças à capacidade de diálogo com elementos simbólicos que se depararam numa verdadeira colônia.

O viver em colônia facilitou o diálogo entre africanos, ameríndios, portugueses, mouros, ciganos, cristãos novos, espanhóis, holandeses e muitos outros povos. O resultado foi a produção de modelos religiosos onde símbolos provenientes de várias matrizes culturais não apenas circulam externamente, mas dentro do corpo dos próprios iniciados. É interessante também observar que tais relações só foram possíveis, graças à dinâmica de juntar do pensamento africano somado à proximidade do universo católico português.

Em outras palavras, o catolicismo chegado da Península Ibérica, ao contrário do que havia se afirmado no século XIX era, por exemplo, tão sensual quanto o pensamento africano, basta olharmos para os santos barrocos que se não choravam nas igrejas, lamentavam a má sorte em alguns oratórios ao serem submetidos a um verdadeiro ritual de tortura pelos devotos. Depois, como chamou a atenção certa ocasião a Yalorixá Olga do Alaketu, orixás e santos da igreja no Brasil eram estrangeiros. Isso no seu entender significava o primeiro passo para o dialogo e entendimento de relações que não podiam ser reduzidas a algo superficial e externa.

Em alguns terreiros de candomblé de tradição jeje-nagô guarda-se ainda a expressão igbó para designar os não negros. Tal palavra também era utilizada por alguns povos de língua yorubá para chamar os seus vizinhos, os estrangeiros, aqueles vistos como “de fora”, categoria bem entendida pelas ciências sociais. Quanto às relações que desde cedo os universos africanos estabeleceram com os “estrangeiros” é algo que ainda esta para ser melhor estudada. Fato é que se não foram confundidos, desde cedo estes estrangeiros submetidos também à distância de suas terras de origem foram incorporados no universo religioso reconstruído no Brasil como estrangeiros, à semelhança dos ancestrais africanos.

Talvez esse fato comece a explicar a presença não somente de altares católicos em locais públicos onde se realizam as festas de candomblé, como também a tradução de rezas católicas para as línguas africanas, sem falar na evocação de orações católicas e alguns santos em momentos rituais protegidos dos olhares até mesmo daqueles que elaboraram a teoria do faz de conta. Verdade é que até mesmo os santos católicos apresentados aos africanos no contexto da escravidão, não foram vistos por eles como seus senhores.

Isso deu a possibilidade destes serem invocados ao lado dos orixás Ilu. Ilu, a terra distante, aquela deixada para trás, trazida apenas na memória e nas lembranças. Foram essas terras, o sentimento de fidelidade a elas que possibilitou às religiões de matriz africana juntar num mesmo sentimento religioso os orixás ilu com os orixás igbó, transformando essa experiência em algo que ainda hoje continua desafiando o pensamento ocidental greco-romano-cristão acostumado a dividir as coisas, a vida e o mundo.

Vilson Caetano é doutor em antropologia, professor da Ufba e religioso do candomblé


Balaio de Ideias:O Dia de Oxoguian: para a festa não ter fim…

postado por Cleidiana Ramos @ 1:21 PM
26 de janeiro de 2011

Vilson Caetano relata características de Oxaguiã. Foto: Fernando Amorim | Ag.A TARDE| 22.09.2006

Vilson Caetano

Oguian, ou simplesmente Oxoguian, é um dos orixás mais emblemáticos do candomblé. Sobre ele também recai uma série de segredos rituais guardados pelos terreiros, embora muitas coisas já se tenham escrito. Acredita-se que Oxoguian liga-se à música e, como os orixás Xangô e Oxun, adora festas, razão pela qual ele recebe musicas especiais nas nações ijexá e fon, reinos africanos que emprestaram seus nomes a ritmos.

Anteriormente já mencionamos que Oxun combinou os sons, formou as notas e inventou a música. De acordo com uma de suas histórias, ela teria dançado pela primeira vez na presença do rei e fez todo o mercado lhe acompanhar. Teria sido por este motivo que Iya Caetana, filha de Oxun, a fim de agradar Oxoguian, certa ocasião, enviou clarins para  homenagear o orixá de sua amiga Massi, então Iyalorixá do Engenho Velho, ato que vem se popularizando nos terreiros de candomblé de todo o  Brasil.

Os mitos afro-brasileiros sobre este ancestral nos permitem perceber que Oguian liga-se a comida. A sua festa é o ponto culminante do  chamado Ciclo das Águas, representado pelos inhames novos presenteados pela terra após um período de dificuldades. Oxoguian, assim, é o dono do pão. É ele quem garante o nosso sustento de cada dia representado pelas raízes.

Oxoguian em momentos de crise representa a estabilidade; em ocasiões de guerras, a estratégia; na tristeza é a alegria, no fim é o recomeço.

Oxoguian é o orixá do renascimento. Tudo que forma um ciclo se mantém graças a ele. Este é o motivo pelo qual no dia a ele consagrado se realiza uma pequena procissão. Ele representa a volta para a casa, a estabilidade dos grupos que até então vagavam sem destino.

Oxoguian põe um ponto final no fim e inaugura aquilo que é infinito, pois diante dele tudo é recomeço. Está explicado o porquê, após a sua festa, a liturgia afro-brasileira passa a celebrar os orixás considerados civilizadores como Exu, Ogun, Ode, Ossain e Obaluaiyê.

Oxoguian realiza a passagem entre os chamados ancestrais fundadores da humanidade e aqueles que se ligam à fixação dos primeiros reinos. Este fato é ilustrado na história que diz que Oxoguian saiu pelo mundo a fim de expandir a sua cidade e ao retornar transformou Ejigbô numa grande cidade.

Desta maneira, Oguian liga-se a vários ancestrais. De acordo com suas histórias, ele teria passado em Irê, a terra de Ogun e graças à sua inteligência idealizou armas forjadas pelo ferreiro dos orixás. A amizade entre o povo de Ejigbô foi tanta que Ogum, certa ocasião, se ofereceu para ir à frente de uma batalha lutar pelo povo de Oguian que na volta foi aclamado senhor.

Diz-se também que o orixá que adora inhames é amigo inseparável de Oyá, com quem anda sem pisar no chão, levado pelo vento que lhe conduz a todos os lugares.

Com o orixá Xangô, coluna central do culto reorganizado no Brasil pelos iorubas e seus descendentes, Oguian se relaciona como outrora os reinos de Ejigbô e Ifon estavam ligados à Oyó, fato relembrado pelo pilão, instrumento de vital importância para a fixação dos grupos na terra.

O pilão como o ferro ilustra uma nova etapa da história da humanidade. A partir dele, pode-se falar em comidas mais elaboradas, preparar  a farinha e conservar melhor os  alimentos. Se o pilão é o centro do mercado, a mão de pilão é o instrumento que repete o movimento que liga o céu à terra, garantindo a nossa permanência através da comida, do pão dado em forma de presente por Oxoguian.

Oxun é verdadeiramente o coração de Oguian. Ela dança também para ele. É Oxun quem vai a frente das mulheres da terra de Ijexá que inventaram um tipo de tambor apenas tocado por elas. Instrumento na sua origem feminino como as cabaças, cujo som remete ao mesmo produzido na vida uterina.

Oxun teria ensinado estes sons para a humanidade, escutando a sua própria barriga. Oxoguian como já falamos, relaciona-se também com os orixás caçadores e caçadoras. Daí a sua relação com Oxossi, considerado líder e cabeça da grande caçada.

Mantém relações também com Ewá, ilustrada  através de uma das passagens míticas mais emblemáticas. Ewá, aquela que tem o poder de transformar-se em qualquer coisa, lhe teria salvo da morte, garantindo assim a continuidade do ciclo da vida.

O orixá que carrega todas as armas, ora caçador, ora rei, ora a guerra, mantém relações também com Iyá ori, conhecida como   Iyemanjá, pois ela é responsável pelo equilíbrio. Iyemanjá é o principio ancestral do significado. Em outras palavras, o mundo só é inteligível, graças àquela que mantém as nossas cabeças.

Por fim, Oguian relaciona-se a Oxalá e todos os ancestrais que representam o começo da humanidade. Talvez tenha sido por isso que os africanos quando reorganizaram o seu culto no Brasil, lhe aproximaram tanto destes, a ponto de em alguns momentos ser confundido com eles.

Oxoguian anda através de passos mais rápidos, determinados. A guerra,a prontidão, o alerta nunca lhe precedem, pois ele é a própria luta, relembrada num de seus títulos de pronúncia mais evitada:  “Baba lorogun”, literalmente “pai da guerra”.

No último domingo, o Terreiro Pilão de Prata celebra a sua principal festa. A casa fundada a meio século cobre-se de azul e branco para homenagear Oxoguian, ancestral a quem o Babalorixá Air José foi consagrado por Tia Massi e sua tia consangüínea Caetana Bangbose.

Este ano, os clarins introduzidos por Mãe Caetana na Casa Branca, soaram mais fortes, pois a casa chamada Ilê Odô Ogê,  completa cinqüenta anos. Segundo o Pai Air, são cinquenta anos de dedicação aos orixás. Cinqüenta anos de gratidão a Oxun. Cinqüenta anos de compromisso com o axé Bangbose.

São cinquenta anos que convidam a comunidade a refletir não sobre os anos que passaram, mas sobre a sua trajetória de vida. Assim, a celebração é de toda casa. Afinal, durante este meio século de história, o maior patrimônio constituído foram as pessoas que em torno do Pilão se reúnem para reafirmar o compromisso de nunca interromper esta festa, garantindo assim a eterna alegria de Oxoguian, verdadeiramente orixá do sorriso.

Vilson Caetano é pós-doutor em antropologia e professor da Ufba


Adendo sobre a exposição Ori Orixá

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
19 de janeiro de 2011

Pessoal: tem um adendo importante sobre a exposiçaõ Ori Orixá que começa na próxima sexta-feira: é preciso fazer a inscrição. Desculpe, mas  só hoje a comissão organizadora avisou.

Para se cadastrar é necessário enviar um mensagem para o seguinte  e-mail: sousaveronica@ig.com.br e informar nome completo e RG.


Exposição mostra importância da cabeça

postado por Cleidiana Ramos @ 1:21 PM
18 de janeiro de 2011

Detalhes de peças da exposição. Foto: Divulgação

Já respeitado por seu trabalho de pesquisa, o doutor em antropologia e professor da Ufba, Vilson Caetano, traz agora uma excelente iniciativa no campo das artes. Em conjunto com o artista plástico, figurinista, cenógrafo, carnavalesco e designer, Rodrigo Siqueira, idealizou o Projeto Brasil com Artes que busca valorizar a cultura afro-brasileira em suas variadas expressões. A primeira mostra do projeto  será inaugurada na próxima sexta-feira, 21, das 18 às 20 horas , na Galeria de Arte da Petrobras (Avenida Antônio Carlos Magalhães, 1113,Pituba).

Denominada Ori Orixá, a exposição reúne 18 peças elaboradas a partir do entendimento sobre a cabeça, uma área central em algumas civilizações africanas, mas o ponto de partida é a capital baiana.

Resina, pedras preciosas, metais, penas, búzios, conchas e corais são materiais usados nas peças.


Balaio de Ideias: Povo de Axé e Eleições

postado por Cleidiana Ramos @ 11:07 AM
21 de outubro de 2010

Filha-de-santo do terreiro Vodun Zo, Eliene Vale fez questão de votar no último dia 3. Foto: Marco Aurélio Martins| AG. A TARDE

Vilson Caetano

Acredito que a maioria das pessoas, como eu, cresceram ouvindo que religião e política são  coisas que não se discutem. Tal fala é bem característica do contexto brasileiro onde as relações entre negros e não negros são escondidas o tempo todo, ora através de um silêncio sobre a cor dos primeiros que se dissolve nas questões sociais ou mesmo pelo chamado racismo cordial que desde cedo determinou lugares e papéis para os negros. Assim, não poucas foram as vezes que ouvimos: ponha-se no seu lugar!

Religião e política se discutem sim. No caso da primeira, tivemos desde cedo que enfrentar os discursos preconceituosos sobre nós mesmos, sobre a maneira de vermos o Sagrado e nos colocarmos no mundo. Fomos chamados de bruxos, feiticeiras, supersticiosos, ignorantes, primitivos e assim por diante. A partir dos anos 70, se não bastasse a fala preconceituosa e discriminatória da imprensa no período anterior, amparada pela medicina emergente no século XIX, tivemos que enfrentar o contundente discurso das igrejas eletrônicas que acabavam de chegar reforçando as posturas “anti negro” utilizando a mídia e segmentos do setor empresarial para mais uma vez desconstruir as imagens positivas que havíamos construído sobre nós mesmos, através da demonização de nossos cultos.

Vinte anos depois, isso mobilizou o povo de candomblé que cansado de ver seus orixás, vodus, nkices e caboclos demonizados, seus templos invadidos, sem falar de crescentes agressões verbais, a levantar um movimento em torno da chamada intolerância religiosa que até então dentre nós parecia que só atingia o povo judeu, uma vez que tinham nos ensinado que religião não se discute, já que estávamos integrados no povo brasileiro.

Parece-nos que com o movimento contra a intolerância o povo de candomblé, ao menos os que se comprometeram com esta questão, começou a falar sobre religião e sobre as relações entre a sua religião e os outros modelos religiosos. A partir de agora não se tratava mais de reivindicar o reconhecimento do culto como religião, mas garantir o respeito à liberdade religiosa. Que bom que passamos a falar sobre religião. E como não citarmos o fato positivo de termos conseguido um dia para refletir sobre a intolerância religiosa? Salve o 21 de janeiro!

O segundo tema não é menos emblemático que o primeiro. Trata-se da política. Esta aqui entendida no sentido mais africano possível: as questões relacionadas à cidade, a todos que fazem parte do egbé, à sociedade, à vida em grupo. Para as comunidades africanas tal conceito desde cedo foi elaborado a partir da concepção de um poder letigimado através da coletividade. E aqui nos separamos da concepção ocidental da criação do estado como um monstro, responsável por domar os desejos dos indivíduos.

Embora não fuja à concepção divina do poder, a exemplo do mito quer diz que no inicio chegaram a terra “sete príncipes coroados”, podemos encontrar ao menos em alguns grupos africanos que ajudaram  na nossa constituição, concepções como as de asogbá, mogbá, baba egbe e Iyalodê ao lado de outras que dividem com o rei ou rainha,  funções de estabelecer a integração entre o Sagrado e a coletividade, verdadeira ideia do poder. Os mitos antigos, por exemplo, quando falam sobre as questões que contemporaneamente chamamos de “riscos sociais”, interrogam-se sobre quem errou: se o rei, ou a coletividade.

Com estes exemplos parece que conseguimos demonstrar que desde cedo, africanos e africanas estabeleceram relações entre religião e política.  Em outras palavras, teologia e política, assim como teologia e economia, muito antes de Max Weber escrever  que existia uma relação entre o protestantismo e o modelo econômico emergente no século XIX conhecido como capitalismo. Dentre as concepções inspiradas pelos mundos africanos destaca-se a  Iyalodê, literalmente  a mãe que cuida, se ocupa das coisas da rua, do mundo de fora, das questões relacionadas ao mercado, a política e a saúde. A exemplo de mulheres que estavam a frente de reinos, como Nzinga em Matamba (Angola),  Acotirene, nos quilombos de Palmares, Zeferina no Quilombo do Urubu, Maria Felipa em Itaparica ao lado de tantas outras.

Tal fato para nós é bastante desafiador frente a conquista feminina de poder nos representar apenas a partir de 1933, ou seja há 77 anos, a menos de um século. Deste modo não é verdade que as mulheres apenas servem para governar o mundo da casa, ao contrário; porque governam o mundo da casa, são capazes de governar qualquer mundo, basta atentarmos para as “mulheres do partido alto.” Por fim, queremos refletir que ao lado da bancada evangélica ou da bancada celestial, seria bom também para nós termos no Congresso um bobologbô, uma espécie de reunião de notáveis que discutem sobre determinada questão e orienta o governante a tomar uma decisão coletiva. Aos poucos quando começamos a falar de religião e política e assumirmos a relação entre elas, vamos fazendo isso.

Enquanto esse fato não se torna realidade, bom mesmo é ficarmos atentos para os programas de governo que nos incluem ou aqueles que nos colocam para fora com a desculpa de que o estado brasileiro é laico e que religião é religião e cultura é cultura, outro tema que enfrentaremos futuramente. Afinal, os mesmos que nos ensinaram que religião e política não se discutem, a mesma elite que escondeu os feitos das mulheres do partido alto, dizendo que elas mal sabiam governar as suas cozinhas, nunca perderam estas questões de vista.  O resultado, porém, está ai, crescemos alimentados de seus sonhos, esperanças e desejos de seguir em frente.

Vilson Caetano é doutor em antropologia, professor da Ufba e religioso do candomblé


Balaio de Ideias: Odun Adorin de Pai Air de Oxaguiã

postado por Cleidiana Ramos @ 8:22 PM
24 de setembro de 2010

Artigo celebra os 70 anos de Pai Air. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 09.12.2004.

Vilson Caetano

No último dia 20 de setembro completou 70 anos de vida o Babalorixá Air José Sousa de Jesus,  que recebeu de sua Iyalorixá e tia consangüínea, Caetana Souwzer, o nome carinhoso de Aizinho. Pai Air como é conhecido pelas pessoas é filho de Tertuliana Sousa de Jesus e neto de Felisberto Sowzer,  último Babalawo que a cidade de Salvador teve notícias. Benzinho como era conhecido era homem letrado, falava fluentemente inglês e nas suas viagens feitas, sobretudo ao Rio de Janeiro iniciou várias pessoas. Todavia, a sua maior contribuição para as religiões de matriz africana no Brasil foi a sistematização do método advinhatório chamado Bara ou Merindilogum.

Como filho de Ogun, Benzinho reuniu  dezesseis caminhos chamados Odus com suas respectivas histórias e preparou cadernos posteriormente divulgados ora desconhecendo ou ignorando a sua participação nos mesmos. Felizberto Souwzer era filho de Julia Martins Andrade, tia Júlia, filha consangüínea de Rodolpho Martins Andrade, Bangboxe Obiticô, o jovem trazido por uma das sacerdotisas que estava à frente do Candomblé do Engenho Velho para ajudar a sistematização do culto a Xangô.

Tio Bangboxe participou da iniciação de Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, que em 1910 criou o Ilê Axe Opô Afonjá, hoje centenário. Acredita-se também que o Tio Bangboxe também esteve presente na ocasião da estruturação do  Sítio do Pai Adão em Pernambuco. Pai Air é assim, herdeiro da tradição de sua família, da extensa família de Xangô entrada no Brasil com os primeiros yorubás chegados entre final do século XVIII e meados do século XIX vindos do reino de Oyó recém destruído pelos povos vizinhos.

Pai Air desde cedo sentiu essa responsabilidade. Iniciado ainda quando criança por três mulheres de Oxun, fato que lembra com orgulho, começou desde cedo acompanhar a sua tia e Iyalorixá, Mãe Caetana.  Em 1961 no alto do Caxundé, atual bairro da Boca do Rio, sobre uma duna, quando na região havia apenas poucas casas de taipa cobertas com folhas de coqueiro ou de zinco,Pai Air  com apenas 21 anos de idade concretizou um sonho que completará no próximo ano, cinqüenta anos:  o Ilê Odô Ogê. Uma casa dedicada a Oxoguian, ancestral a quem foi consagrado, a Oxun e a Xangô.

De patrimônio arquitetônico, artístico, histórico  e imaterial inquestionável, o Terreiro Pilão de Prata, como é conhecido,  foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) no ano de 2004. Além de um acervo bibliográfico sobre as religiões de matriz africana, a casa com recursos próprios mantém um Memorial e instalações prontas para serem implantadas oficinas voltadas à comunidade.

Foi o primeiro terreiro a instalar o bosque sagrado, um espaço onde se cultiva algumas plantas rituais que estão em estágio de desaparecimento. Considerado sempre a frente de seu tempo Pai Air é sempre reportado pelo seu bom gosto, requinte, estilo, amor e carinho com que trata os Orixás que sempre quando se refere, faz questão de lembrar: “os Orixás são a minha vida.”

Pai Air é um homem extremamente metódico, acompanhá-lo exige disciplina. É também um homem de poucas palavras, de passos firmes, mas silenciosos, razão pela qual está sempre surpreendendo, até quando se coloca alguém para vigiá-lo. Esse é um dos principais motivos porque, dificilmente, seus filhos conseguem organizar festas surpresas.

Pai Air, não obstante o seu significado para as religiões de matriz africana no Brasil, é muito simples. Várias vezes o ouvi afirmar: “se a pessoa chega até aqui ela não pode sair sem ouvir uma palavra”. Quanto a outras tradições religiosas, Pai Air sempre lembra: “não conheço candomblé, o que sei é aquilo que Mãe Caetana me ensinou”. Com os ensinamentos de sua Mãe de quem nunca se separou, Pai Air segue dizendo: “Orixá para mim é a água que eu bebo, o ar que eu respiro e os olhos que eu enxergo. Oxun para mim é tudo. Ela é a minha maior riqueza”.

Este ano, as comemorações do seu aniversário foram também modestas. Pai Air recebeu  telefonemas e agradeceu aos orixás pela extensa família de santo e amigos que conseguiu acumular durante estes anos, anos de todos os dias dedicados aos Orixás. Isso porque ele sabe que a cada ano que se dobra, a responsabilidade aumenta, agora ele cuida do mundo como Oxoguian e Oxun que toma conta de nós como a galinha protege os pintinhos debaixo de suas asas.

E para que melhor presente do que ter o mundo todo desejando que Iyemanjá transforme os anos que virão em algo  incontável como as areias da praia? Acredito que esse é o desejo de todos e todas que compõem  as extensas famílias do terreiro do Luis Anselmo fundado por Tia Júlia atualmente sobre a liderança de Tia Irenea Sowzer;  do candomblé do Engenho Velho; da casa de Mãe Caetana, chamada Lajuomim e do terreiro Pilão de Prata, casa fundada sobre a proteção do Orixá que desde os primórdios tomou para si a responsabilidade de cuidar do mundo.

Vilson Caetano é doutor em antropologia


Balaio de ideias: Candomblé e transplante- parte II

postado por Cleidiana Ramos @ 4:32 PM
16 de setembro de 2010

Os mitos sobre Exu ajudam antropólogo na reflexão sobre transplantes. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 28.12.2006.

Vilson Caetano

Em outro texto, quando iniciamos a discussão sobre este tema, trouxemos imagens sugeridas pelos mitos que falam sobre a imortalidade de Osiris e as que nos remetem às ideias de que somos partes do Sagrado. Assim demonstramos que o Todo é mais do que a soma das partes e, mais do que isso, cada parte contém o Todo. Desta maneira cada parte pode estar ou participar de qualquer outra, uma vez que somos nada mais do que fragmentos deste Divino.

Participamos dele através da idéia de “ara”- corpo. Em principio, não existe outra forma de estarmos no mundo prescindindo de nossa  corporeidade. A novidade está na suposição de que esta corporeidade não nos esgota, ou melhor, que os olhos nos informam parte da realidade, há outra que permanece invisível entrelaçada daquela que vemos. Até mesmo a realidade é entendida como corpo.

Na filosofia das religiões de matriz africana, Exu, principio de comunicação, é o dono do corpo. Exu é o próprio corpo. Desta maneira cabe a ele a função de fazer com que as partes se comuniquem, se juntem, mantendo a harmonia inicial.
Há um mito que explica esta função do orixá Exu. Aquele onde ele é evocado como “senhor(a) do corpo”, Elegbara. A história conta que após Orunmilá, um dos amigos do velho Oxala, trazer aquela criança para casa, ela começou a comer tudo. Exu comeu de tudo que a boca come. Comeu todas as aves, todos os peixes, todos os quadrúpedes, répteis, como diz o provérbio:  “meran mekun”- comeu tudo. Comeu a própria mãe.

Voltando para Orunmilá, este logo apressou-se em fazer uma oferenda e uma batalha sem fim travou-se entre os dois. O corpo de Exu era dividido pela espada de seu pai e, ao final, cada parte  voltava a ser o corpo inicial. Estava inventada a ideia de probabilidade e infinito.

Acabado de percorrer todos os espaços da terra, Orumilá e Exu fizeram um pacto. A partir daquele momento ele participaria de tudo como primeiro e assim foi feito. Orumilá foi ordenando e Elegbara foi vomitando tudo que havia engolido, mas agora cada ser tinha seu próprio ara, corpo e participava ao mesmo tempo de Elegbara, o corpo inicial, que, segundo outro mito, teria sido modelado pelo próprio Oxalá.

Desta maneira, Oxalá também se liga ao corpo. Ele é o nosso corpo ancestral, corpo presente nas pedras, nas folhas, na terra e nos antepassados. Desta maneira se diz que Oxalá rege a vida e a morte. Daí ele acompanhar todos os ritos de renascimento como um pano branco sem forma, sem costura, chamado alá. Sob o Alá de Oxalá somos todos iguais. Participamos de sua divindade, nos tornamos divinos.

Que outra ideia podemos evocar para sugerir novas leituras a respeito dos transplantes para o povo de candomblé? Lembrando de alguns mitos, me veio à memória, a história do Orixá Obá que teria tirado uma parte de seu corpo  e oferecido em forma de comida ao seu marido a fim de ser considerada por este como a predileta.

Este orixá ainda hoje, nas poucas aparições que faz nos terreiros de candomblé surge com uma folha que ao contrário de esconder o pedaço da orelha tirada, visa mesmo recompor, regenerar, substituir, parte daquele órgão. Isso só é possível graças à crença de que no universo todas as coisas podem ser representadas pelas outras, afinal, no começo somos iguais, a separação veio depois, como lembrou uma tia certa ocasião.

É este fato que dá possibilidade à folha de recompor a orelha de Obá, sem falar no fato que já lembramos que há folhas que representam o corpo todo. Acredito haver outras histórias contadas pelos nossos tios e tias que podem contribuir com esta discussão ou ao menos nos ajudar a romper o silêncio e o preconceito quando se trata de transplante e gente de candomblé.

No mais, para uma conversa inicial, acredito que trouxemos algumas provocações. Agora é refletir ao menos de que forma podemos marcar a nossa participação no mundo.

Vilson Caetano é doutor em antropologia


Balaio de Ideias: Candomblé e Transplante- Parte I

postado por Cleidiana Ramos @ 4:43 PM
8 de setembro de 2010

O corpo é tema central em artigo. Foto: Marisa Viana | Divulgação

Vilson Caetano

Em linhas gerais, entende-se por transplante o ato de implantar um órgão ou parte dele num outro indivíduo. Às vezes, a mesma pessoa doadora pode ser receptora dos próprios tecidos. É o que acontece em algumas cirurgias reconstrutivas. Tal ato para a sociedade ainda é cercado por preconceitos culturais, sociais e religiosos.

Esse assunto já esteve presente, embora abordado de forma tímida, em algumas reuniões do povo-de-santo que nas poucas vezes que é interrogado sobre o assunto, opta por não falar ou evoca o provérbio que lembra que “o corpo deve ser entregue à terra inteiro”.

Temos assim, diante de nós duas posturas: a do silêncio e a da omissão diante de algo tão importante para a vida de algumas pessoas. Verdade é que tal assunto não é simples nem fácil de ser enfrentado. Vamos, assim buscar outros caminhos, procurar outras leituras, ou simplesmente ouvir  falas menos preconceituosas.

Já há algum tempo venho refletindo sobre tal assunto, sobretudo quando me deparo com a triste realidade das filas de transplantes que reúne contingente significativo de  pessoas de baixa renda. Certa ocasião interroguei um babalorixá sobre o que ele achava sobre tal assunto. Até lhe questionei sobre a idéia que recentemente tinha escutado de que a pessoa que recebe um órgão ou parte de um órgão transplantado, começa a ser  influenciado pelo  doador. O sacerdote, sabiamente, fez um gesto com a cabeça, sorriu e disse: “olhe meu filho, no meu tempo não se falava sobre isso, por que não se tinha isso, ninguém nem falava, não se ouvia nem falar. Mas isso não quer dizer que não é certo ou errado.”

Na maioria das vezes, a oposição ao transplante é explicada pelo medo de ter a morte apressada em algumas ocasiões ou ainda incentivar o tráfico de pessoas para tal fim, situações conhecidas pelos negros e negras nas favelas das grandes cidades, diante da crescente onda de violência e tráfico de drogas que nos colocam em situações de risco.

Antes de tomarmos qualquer posição, devemos fazer uma leitura histórica. Afirmar que não é certo ou errado pressupõe a necessidade de um olhar atento sobre a história de grupos humanos que fizeram dos transplantes uma realidade antiga de suas civilizações. A fim de demonstrar isso, gosto de evocar o mito africano que narra a trajetória da vida de Isis e Osíris, perseguidos por Set, filho também do Sol.

Após prender vivo o irmão numa urna mortuária jogada rio abaixo, depois que descobriu que Isis havia conseguido imortalizar Osiris através dos seus perfumes e bálsamos, Set cortou o corpo de seu irmão em vários pedaços e o espalhou por todo Egito. Incansável, Isis percorre todo país e vai recuperando os pedaços do corpo de Osiris, exceto o pênis que havia sido devorado por um peixe.

O mito diz que Isis reconstruiu o pênis de Osiris com quem teve posteriormente Hórus, o deus que se ocupou de vingar a morte do pai. Esse mito, embora de forma bastante resumida, se não nos ajuda a construir uma opinião a respeito do transplante, ao menos serve para desconstruir a idéia de que os africanos ignoravam tal noção.

E que tal evocar a imagem de Olorum arrancando as partes do seu corpo para formar a terra, as casas, as pedras, as pessoas, as árvores, enfim tudo que existe? Esse mito é bastante sugestivo, pois nos permite pensarmos como Divinos, partes do Sagrado e ao mesmo tempo responsáveis pelos outros. Se lermos estes textos com mais atenção acredito que descobriremos outras possibilidades de compreensão dos transplantes. Afinal todos não somos parte do Divino?

E se ao invés de interpretarmos o provérbio: “o corpo deve ser entregue inteiro a terra” como algo individual e particular, o meu corpo; esse corpo pudesse ser entendido como algo mais amplo, em outras palavras, não como um corpo, mas um verdadeiro “ara”, algo que pode ser representado por tudo, pois tudo que existe participa dele, ou simplificando se parece com ele?

A integridade do corpo estaria ligada na verdade à permanência nesse corpo divino. Corpo primeiro, corpo inicial, corpo místico, corpo ancestral do qual partem todos os corpos. Ideia essa que atravessa as práticas mágicas religiosas dos terreiros de candomblé e constituem base para o tratamento e cura de doenças. Não seria essa a lógica da comunidade que cuida de uma recém nascida acometida de uma doença de pele, utilizando folhas de mamona, chamadas em algumas comunidades terreiros de ewe lara, “folha do corpo”?

A folha da mamoma ( Ricinus communis) para o povo de candomblé, mais do que representar o corpo humano, é o próprio corpo. Graças a isso ela é utilizada em algumas ocasiões para substituir ou estimular os tecidos da pele humana. Fato que só é possível graças à participação de todas as coisas no corpo inicial.

O provérbio que diz: “o corpo deve ser devolvido a terra inteiro” não pode ser entendido como uma  referencia ao mito que nos referimos anteriormente? “ cada vez que o corpo fragmentado de Olorun caía,  ia ganhando novas formas”? Estar inteiro aqui então não poderia ser um convite para refletirmos sobre a nossa participação como corpo, ara, no Corpo do Sagrado?

Se assim pensássemos não abriríamos uma possibilidade de dialogo para entendermos o transplante de maneira diferente? Fato é que a partir do universo afro-brasileiro dificilmente fundamentaremos alguns preconceitos que se opõem aos transplantes ou não permitem sequer pensar sobre práticas que acompanharam, se não a história das comunidades mais antigas, a vida daquelas que desde o começo entenderam o corpo, o ara, as pessoas e tudo que existe como algo amplo e de responsabilidade de todos, desta maneira elaborou sistemas sócio, culturais, políticos e econômicos entrelaçados com o Sagrado.

Afinal se somos pedaços do Divino, cada parte é este corpo inteiro, assim estamos e podemos estar em todos os lugares. Não parecemos com tudo que foi criado? Quem sabe esse segundo principio possa ser entendido a partir das histórias sobre Exu, dono do corpo, primeiro ara aiyê criado, presente em tudo que existe? Mais isso co’nversaremos em outro texto.

Vilson Caetano é doutor em antropologia e professor da Ufba


Balaio de Ideias: Sabor dos saberes

postado por Cleidiana Ramos @ 2:11 PM
23 de agosto de 2010

Professor sugere criação de roteiro gastronômico e cultural. Foto: Eduardo Martins| AG. A TARDE

Jaime Sodré

Perguntado sobre a capoeira Mestre Pastinha disse: “É tudo que a boca come”, ou seja, é PRAZER. COMER É SABOR E SABER. Dr. Carlos Costa Neto, brilhante humanista, amigo comum do Dr. Eraldo Moura Costa, bons de garfo: disse-me: “há coisa mais gostosa que comer?” Pois é, no 1º Seminário Nacional de Turismo Étnico Afro e 1ª Feira da Produção Associada ao Turismo Étnico Afro, realizado este mês no Centro de Convenções da Bahia, promovido pela Bahiatursa, abordei o nosso projeto de culinária nos terreiros, com a boca “cheia d’água” e a qualificada contribuição acadêmica do Prof. Dr. Vilson Caetano. Louvo neste momento o Professor Doutor Vivaldo da Costa Lima, o “Pai da Matéria”.

Pensar o turismo étnico, neste caso afro, exige uma postura de inclusão e valorização das populações afrodescendentes brasileiras, em especial na Bahia e Recôncavo baiano. Como prova de reconhecimento desta valorosa contribuição cultural, esta modalidade turística poderá ser a motivação primordial para a profissionalização, roteiros qualificados, sustentáveis, com preparação para atender a demanda dos prestadores de serviços, além de gerar emprego e renda, enfim preservar a cultura, dentro da sua dinâmica própria, difundir e gerar conhecimentos e uma boa imagem da saborosa Bahia. O nosso projeto teve o nome de “Um Sabor Sacrossanto – a culinária Afro-Baiana”. Permitam-me breve introdução. Culinária baiana seria aquela localizada no Recôncavo e litoral, caracterizada, principalmente, pelo azeite de dendê, leite de coco, pimenta, etc.

Saboreada em comemorações religiosas, familiares, ou no cotidiano. Quanto ao preparo e preservação podemos estabelecer a dicotomia dentro e fora dos terreiros. Modernamente diríamos que esses pratos dialogam com a contribuição indígena e portuguesa. O processo de institucionalizações dos terreiros brinda com a sistematização das receitas e preservação, na obrigação religiosa, indo ao cotidiano. A fé e o sabor encontram harmonia em diversas opções religiosas, como é o caso dos sequilhos do Convento da Lapa e os deliciosos licores do Desterro. O turismo e o candomblé tiveram alguns momentos de conflitos e hoje se busca uma interação respeitosa, inclusive através dos parâmetros estabelecidos por Mãe Stela, regulando esta proximidade, que seja respeitosa, isenta de folclorização e exotismo.

Afinal, somos uma religião. Do Ponto de vista histórico Luis dos Santos Vilhena, falando sobre “as comidas de rua do século XVIII” nomeia: “saem… negros a vender pelas ruas, mocotós, carurus, vatapás, mingaus, pamonha, canjicas… acaçá acarajés, abara, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão-de-ló… roletes de cana, queimados…”, cruel, diz Vilhena, “o que mais escandaliza é a água suja feita com mel…que chamam aluá, que faz de limonada para os negros”.
Afrânio Peixoto, mais generoso, diz ser a Bahia um feliz consorcio entre o melhor de Portugal, da Costa da África e “o pouca coisa do Índio”. O negro brindou a cozinha baiana com o dendê, leite de coco, colorindo e saboreando o cotidiano, ensinou o vatapá, o caruru, mungunzá, etc. Nosso projeto tenciona aproximar o visitante aos sabores sagrados dos deuses, os permitidos, associados a um cardápio mais amplo das especificidades baianas.

O visitante, nos espaços sociais dos terreiros, através da formação de interlocutores da comunidade religiosa, saberá da história e apreciará a sua culinária. Para êxito do projeto a Bahiatursa, através da sua competência, realizará capacitação, adequação das instalações com equipamentos, capital de giro, indumentária, intermediação com as agências credenciadas ou guias de turismo e selo de qualidade.

Um roteiro sugestivo foi exibido, tomando com referência o bairro da Federação. O circuito seria iniciado com um café da manhã em um terreiro, merenda das 10 em outro, almoço em outro, merenda das 15 em outro, mingaus e uma sessão de chás, digestivos ou não, em outros.  Um cafezinho será bem vindo. No mais, o resultado é  um bom apetite e conhecimento ampliado. Ah, para a sobremesa… Picolé Capelinha, coisas com a cara da  Bahia. Um aviso aos acolhedores: Dr. Costa Neto disse que posso comer feijão fradinho, mas controlado. Acabou a “quizila”. SALVE O PRAZER.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Consciência Negra 2009: Apoio pedagógico

postado por Cleidiana Ramos @ 1:27 PM
21 de novembro de 2009

Tem novidades sobre conteúdo integrado. Aí abaixo vocês podem conferir artigo do professor Vilson Caetano sobre a culinária afro-brasileira.

Os empreendimentos que giram em torno dela foi um dos temas abordados no especial Produtores de Owó que circulou no jornal A TARDE, ontem, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra.

O meu objetivo em continuar publicando artigos relacionados ao caderno especial é para auxiliar professores na aplicação da Lei 10.639/03 que prevê o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira em todos as escolas brasileiras.


Passeio pela história da comida afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 1:26 PM
21 de novembro de 2009
Vilson Caetano Júnior fala sobre as delícias da cozinha afro-brasileira. Foto: - Fernando Amorim | AG. A TARDE

Vilson Caetano fala sobre as delícias da cozinha afro-brasileira. Foto: - Fernando Amorim | AG. A TARDE

Vilson Caetano

Africanos e africanas desde cedo influenciaram a economia da cidade de Salvador e Recôncavo baiano. Um trabalho realizado nos arquivos da cidade de Cachoeira, por exemplo, foi capaz de nos revelar ocupações variadas. Certo é que muito antes da economia entrar em declínio no século XIX, homens e mulheres negras transitaram nas cidades com gamelas e tabuleiros, verdadeiros altares andantes onde iguarias africanas alternavam-se o tempo todo com comidas, ora de origem indígena,  portuguesa, ora moura, africanizadas pelos sentimentos e modos de preparar que faziam referência a um passado que a escravidão não foi capaz de apagar.

Autores como Pierre Verger e Roger Bastide nos legaram trabalhos bastante ilustrativos sobre a importância da arte de mercar e do mercado para os diversos grupos que nos constituíram. Mercado este, atravessado de sacralidade, fato que levou alguns autores à confusão entre a comida ritual e as vendidas nas ruas. É bem certo que muito antes da constituição dos cultos descritos a partir do século XIX, as ruas sempre conheceram “comidas africanas”.

O professor de grego Vilhena, nas suas famosas cartas, nos informa sobre algumas destas iguarias, pena que poucas delas permaneceram no tabuleiro, não cedendo espaço aos modismos e invenções que na atualidade acompanham a cozinha afro-brasileira.

Como esquecer das chamadas “carambolas”, mulheres citadas por Vilhena que regulavam senão a economia,  parte dela, impondo seus preços aos peixes comercializados numa das portas da cidades?  Chamadas de atravessadoras, estas libertas foram motivo de atenção.

E como não falar sobre as mulheres que vendiam nas suas gamelas carnes como mocotó, fato, sarapatel e outras iguarias ainda hoje condenadas pelo “nutricionismo”, ora amparado pelo discurso higienista, ora pela busca de comidas mais saudáveis?

Gosto muito de uma tela de Debret que retrata a venda nas ruas da cidade antiga do Rio de Janeiro. Vale a pena contemplar os tachos de angu justapostos, denotando que tal iguaria já havia caído no gosto popular. E o vatapá aclamado nas mesas parisienses, segundo Câmara Cascudo? Outro exemplo de iguaria afro-brasileira no mundo.

Não podemos deixar de citar o velho Gilberto Freyre que atento chamou a atenção para os doces dos tabuleiros que nas ruas de Recife rivalizavam com os que saiam dos conventos. Falando em doces, onde foi parar a “amoda”? Será que as doceiras “perderam o ponto”, ou a mistura de rapadura com farinha de mandioca e gengibre não sobreviveu aos novos gostos? E o aberém? Segundo Manuel Querino, transformado em refresco.

Este sim, ainda podemos encontrar em alguns terreiros de candomblé como comida litúrgica. Talvez a sua permanência  se explique por fazer parte de iguarias que ninguém tem acesso à sua feitura que não se vê nem a panela, nem o fogo e muito menos a  fumaça. É comida sobre a qual ninguém fala, ou não está autorizado a falar pelo “segredo”.Aberém também já foi comida de rua.

Hoje a moda é o akarajé, não o akará bem parecido com os que ainda hoje podem ser encontrados nas ruas de algumas cidades africanas, mas o semelhante ao hambúrguer, acompanhado com o refrigerante de cola. Resguardadas as criticas, que bom que ele permaneceu, juntamente com o abará, a passarinha e o bolinho de estudante. Até a pimenta ficou menos picante, respeitando a exigência da demanda turística.

Não podemos deixar passar as “mulheres do mingau”. Mingaus de milho, tapioca, carimã que continuam presentes dando “sustança” aos  fregueses, sem falar no mungunzá e no cuscuz de tapioca que nunca deixaram de ser itinerantes. Hoje transitam nos carrinhos empurrados pelos “meninos”, resistindo a todo e qualquer “discurso higienista” que insiste sobre os perigos da contaminação através das “comidas de rua”.

Bom mesmo foi que estas comidas deram visibilidade nos últimos anos à inserção do homem negro e da mulher negra na economia da cidade de Salvador, os tirando do anonimato e da classificação na maioria das vezes preconceituosa do mercado informal, o que para nós é excelente, pois traz a memória de Maria de São Pedro, Cecília do Bonocô, Aninha e tantas outras mulheres que através do comércio de elementos rituais ou iguarias reforçaram os laços entre partes do Continente Africano, a Ásia e o Brasil.

Estas “mulheres de saia” merecem mesmo o título de “mulheres do partido alto”, ou “homens de elite” como Martiniano Eliseu do Bonfim e Felisberto Sowzer, exímio conhecedor de inglês, conhecido como Benzinho, descendente direto da família Bangboxé.

Homens e mulheres com seus balangandãs, que acumularam riquezas, retraçaram a própria cidade, que mesmo estigmatizados nos legaram a maior fortuna; o orgulho de nos sentirmos seus descendentes quando descobrimos que somos negros.

Vilson Caetano é pós-doutor em antropologia e professor da Ufba


Consciência Negra 2009: Detalhes de um saboroso negócio

postado por Cleidiana Ramos @ 5:58 PM
19 de novembro de 2009
Além do tempero, Dadá se destaca pela alegria. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

Além do tempero, Dadá se destaca pela alegria. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

A conhecida espontaneidade de Dadá e a análise do pós-doutor em antropologia e professor da Ufba, Vilson Caetano, renderam um bate-papo super gostoso, e a palavra é aqui bem apropriada, sobre negócios relacionados à culinária baiana. Para conferir o aúdio clique aqui para ver a parte 1 e aqui para ouvir a parte 2. 

Dentro da cobertura especial e multimídia que o Grupo A TARDE está realizando por conta do Dia Nacional da Consciência Negra estamos disponibilizando no Mundo Afro entrevistas em áudio todos os dias. A TARDE FM veicula spots desse material. Fiquem também ligados nas reportagens especiais da Web TV. Daqui a pouquinho vai estar no ar uma delas. Vocês podem encontrar  os links para todo este material acessando www.atarde.com.br    

Amanhã circula, encartado no jornal A TARDE, o caderno especial Produtores de Owó. Ele conta  a trajetória dos  negócios negros na economia de Salvador. São empreendimentos marcados pela criatividade e destinados a atender a população afrodescendente e quase sempre gerenciado por seus representantes.

O caderno mostra essa presença na moda afro, culinária, artigos religiosos, turismo étnico, mas também a exclusão no milionário negócio do Carnaval. Todas as reportagens são acompanhadas por um texto pedagógico preparado pela especialista em planejamento educacional, Josiane Clímaco. Este material auxilia no cumprimento da Lei 10.639/03.

Ao longo desta semana estarei disponibilizando aqui no Mundo Afro artigos sobre os temas abordados no caderno. É mais uma forma de fortalecer o material didático. Hoje vocês já encontram aqui um texto assinado pelo presidente do Instituto Pedra de Raio, Sérgio São Bernardo.     

Outra novidade deste especial foi a parceria de A TARDE com o Instituto Mídia Étnica.  Por meio desta cooperação o instituto indicou estudantes de jornalismo para trabalhar conosco. A escolhida, via um processo de seleção, foi Juliana Dias, que realizou reportagens para o nosso caderno. Amanhã ela conta aqui no Mundo Afro como foi esta experiência. Esse passo foi muito importante, pois estamos agora também fazendo escola na cobertura que para nós já é especializada nos temas relacionados à identidade negra.

No processo de elaboração do caderno repetimos a bem sucedida experiência do ano passado de discutir a sua pauta com representantes de órgãos públicos e de organizações da sociedade civil que participam da luta contra o racismo. Da edição deste ano participaram a secretária estadual de Promoção da Igualdade, Luiza Bairros; o secretário municipal da Reparação, Ailton Ferreira; Sérgio São Bernardo, presidente do Instituto Pedra de Raio; Paulo Rogério, diretor do Instituto Mídia Étnica; Mércia Lima, representante da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza (Sedes)  Juci Machado, jornalista da assessoria de comunicação da Sepromi e Josiane Climaco.

Aproveitem bem o material e não se esqueçam da agenda movimentada que teremos na cidade amanhã, com vários atos políticos e culturais acontecendo. Um bom dia da Consciência Negra para todas e todos e viva a nosso herói Zumbi, que se renova em muitos de nós ainda hoje.  

         


Domingo dos santos meninos

postado por Cleidiana Ramos @ 10:21 AM
26 de setembro de 2009
Amanhã é dia de festa para os santos meninos. Foto: Cleidiana Ramos

Amanhã é dia de festa para os santos meninos. Foto: Cleidiana Ramos

Amanhã é dia de São Cosme e São Damião.  Os santos canonizados pela Igreja Católica são adultos, irmãos, mas não necessariamente gêmeos. Só que na Bahia o encontro entre catolicismo e candomblé os transformou em meninos que gostam de caruru acompanhado de tantas outras iguarias.

Além disso, este aspecto da religiosidade popular criou um rico repertório cultural com cânticos, a famosa ladainha e  o samba que costuma acompanhar o antes e depois da distribuição da comida. Tanto na capital como no interior é dia dos devotos agradecerem a proteção dos santos recebendo em casa os seus convidados para partilhar um banquete.   

Esta preservação do culto a divindades infantis trazido pelos africanos  foi tão forte que alcançou o altar católico. Fiz uma matéria mostrando esta sacralização da infância, com base nos estudos do doutor em antropologia e professor da Ufba, Vilson Caetano. O texto traz também o pensamento da Igreja sobre este aspecto da religiosidade popular e a subversão dos códigos do comportamento ocidental à mesa que toma conta deste rito, afinal os meninos comem primeiro, o quanto quiserem, de mão e por aí vai.

A reportagem vai estar na edição de amanhã do jornal A TARDE. No mais, este domingo será de muito caruru e doces por esta Bahia de todos os encantados, inquices, orixás, santos e voduns.  Saudações aos meninos.