Balaio de Ideias: Precisamos de respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 10:07 AM
18 de novembro de 2015
Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Ao escrever este texto no mês de novembro não posso deixar de falar dos mortos, ou seja, dos espíritos e ancestrais, apesar de achar que eles podem ser homenageados em qualquer período. Diariamente, morrem milhares de pessoas, assim como nascem outras. Mas o comércio sempre aproveita datas comemorativas para vender mais. Com o Dia de Finados ocorre a oportunidade de usar a homenagem para se obter lucro. Acontece o mesmo com o Natal, São João e demais ocasiões festivas.
Portanto, em 2 de novembro os mortos são homenageados, mas eu, particularmente, não acredito que espíritos, ancestrais ou eguns fiquem presos em um caixão ou túmulo.
Imagino que as pessoas quando partem para o estado que considero de origem permanecem onde desejam ficar, inclusive no coração de parentes e amigos. Às vezes conversamos com eles, que nos escutam do lugar onde estamos. Daí que ir ao cemitério considerando que ali estão as pessoas que nos são queridas e partiram torna-se complicado, principalmente em um mundo repleto de fraudes.
São muitas as histórias de famílias que pagaram, anualmente, pelos serviços de limpeza dos túmulos onde deixaram os restos mortais de seus ancestrais, mas não ficaram sabendo quando eles foram transferidos de local para acomodar outros, diante da falta de espaço no cemitério. Infelizmente, coisas assim têm acontecido.
Mas ainda em novembro comemora-se a Proclamação da República, como aconteceu no último domingo. Esse dia foi o escolhido pelas comunidades dos terreiros de candomblé do bairro do Engenho Velho da Federação para realizarem uma caminhada reivindicando respeito às religiões afro-brasileiras. Digo respeito pois não gosto da expressão “tolerância”. Ninguém precisa aprender a nos “tolerar”, mas, sim, respeitar.
Respeito é algo que nós, povo de candomblé, aprendemos e ensinamos dentro dos nossos terreiros. Convivemos com a diversidade tranquilamente. Aliás, está escrito na Constituição brasileira que todo cidadão tem o direito de professar a religião que deseja. Nosso direito, portanto, é adquirido.
Além de reivindicar respeito pela nossa religião, pedimos também pela paz do mundo; do nosso país, estado, cidade e bairro. Estamos em um momento em que precisamos nos juntar como irmãos para trocarmos energia. Essa possibilidade de unir forças é um dos momentos mais importantes dessas caminhadas, como aconteceu agora em sua 11ª edição.
Na próxima sexta-feira estaremos comemorando o Dia Nacional da Consciência Negra. Tenho dúvidas se há muito para festejar com tanta desigualdade social e centenas de jovens negros morrendo, todos os dias, no Brasil.
Para a população negra, o acesso à saúde e segurança é precário. Nossas crianças passam metade do ano letivo sem ter aulas. As escolas que as acolhem seguem em reforma ou com os professores em greve reivindicando melhores salários, pois são muito mal remunerados. Portanto, são questões para refletir.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Viva o meu pai Ayrá!

postado por Cleidiana Ramos @ 2:25 PM
7 de outubro de 2015
Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch- Ialorixá do Terreiro do Cobre

Escrever este artigo no mês de outubro é muito gratificante. É o mês em que fui iniciada no candomblé para o orixá Ayrá. Falar desse senhor para mim é uma honra. Costumo dizer que pode existir uma energia igual a ele, mas maior só a de Deus, o todo poderoso. Amo tanto meu pai Ayrá que tenho certeza de que ele me ama também. Ele me orienta, ensina, educa, protege e se faz presente nos momentos mais difíceis da minha vida. Aliás, ele está presente diariamente. Tanto que durmo e acordo me entregando a ele. Eu vivo para ele. Tenho tanta fé em Ayrá que, se isso for indício de fanatismo, posso dizer que sou fanática.

Quando meus filhos dizem que ele é lindo, fico muito feliz, mas com inveja de não poder também conhecê-lo quando está na terra. Já o vi em sonho, mas é diferente de ver como meus filhos o veem. Por coincidência, o aniversário do meu caboclo também é neste mês.

Quando fui iniciada, 12 de outubro não era feriado em homenagem à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Também não era forte a lembrança do Dia das Crianças, mas eu sempre tive uma boa relação com elas. Quando trabalhava em uma escola, onde fazia a merenda, às vezes comprava ossos e verduras para incrementar a sopa e não deixá-las com fome. Há algum tempo, portanto, resolvi fazer no Terreiro do Cobre uma festa para a garotada.

A comemoração começou quando Ayrá recebeu um presente em forma de dinheiro de um filho de santo. Pensei: “Comprar um presente para Ayrá? O que eu vou comprar?”. Como é o aniversário dele e dia de festa para as crianças, resolvi adquirir lembrancinhas e docinhos. Fiz 50 kits, mas, mesmo sem divulgar, apareceram muitas, e algumas ficaram sem receber. Fiquei tão triste que até chorei.

No ano seguinte, comecei a pedir aos meus filhos de santo e amigos ajuda para fazer os kits, sempre contendo brinquedos, porque é o que toda criança, além de alimentação, gosta de ganhar. Sei que elas não conseguem entender por que não podem ter os caros e cheios de tecnologia que veem na televisão. Em muitos casos, seus pais não podem dar nem os mais simples. Aí é que está o perigo. Elas podem crescer e tentar possuir o que desejam de uma forma negativa. Mas graças a Deus e a Ayrá, com a ajuda de alguns filhos e amigos, a edição do ano passado teve pula-pula, piscina de bolinhas, escorregadeira, sorvetes, cachorro-quente e até uma animadora de festas profissional.

Distribuímos 250 kits de brinquedos. Isso para mim é muito gratificante, pois tenho a oportunidade de fazer crianças sorrirem. Na minha infância não ganhava brinquedos caros. Por isso sei o que uma criança sente em um dia como esse.

Portanto, que a Nossa Senhora dos católicos proteja todas as crianças do mundo. E que a bola de fogo, que é o meu pai Ayrá, aqueça o coração das pessoas; dono da Justiça, que ele a faça aos injustiçados; orixá da alegria, que a distribua ao mundo; que ele traga a paz, pois é quem carrega Oxalá quando este está presente em cerimônias; como é o Xangô mais velho, que dê sabedoria aos seres humanos. Viva a voz da experiência. Viva meu pai Ayrá!

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: O poder da palavra e o mês das festas

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
9 de setembro de 2015
Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto:  Joá Souza/ Ag. A TARDE Data: 20/03/2015

Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto: Joá Souza/ Ag. A TARDE
Data: 20/03/2015

Valnizia Pereira Bianch 

Ialorixá do Terreiro do Cobre

A palavra é muito poderosa. Ela pode criar, destruir, alegrar, entristecer, abrigar, desabrigar, aconselhar, trazer a felicidade, mas também infelicidade. A palavra também tem o poder de matar e salvar; de educar e alfabetizar. Aproveitando o cortejo, é bom ressaltar que, ontem, dia 8, comemoramos o Dia da Alfabetização, que é a base da vida, porque, sem educação, não se tem o poder da palavra nem um bom futuro. Infelizmente, no Brasil, a educação é muito precária. Vamos pedir a Deus que melhore, pois só com educação podemos formar cidadãos para um futuro melhor.

A palavra é tão importante quanto a primavera que está chegando e trazendo o verde das árvores, a beleza e o colorido das flores, além da calmaria das folhas. Elas param de cair com o vento do inverno, que só a poderosa Oyá pode conduzir, pois ela comanda o vento e as tempestades. Vamos pedir a ela que nos traga bons ventos para o nosso futuro.

Além dessas duas ocasiões que citei, setembro celebra o Dia da Juventude Brasileira, no dia 6; a Independência do Brasil, dia 7; a imprensa, dia 10; a paz – algo que o país está precisando muito –, no dia 16; e as árvores, no dia 21. Tem ainda o dia 27, quando se comemoram os santos Cosme e Damião, que, na cultura do sincretismo, simbolizam os Ibejis. Esta festa traz boas recordações da minha infância. Era época em que as pessoas ofereciam caruru, mesmo sem ser de candomblé.

Rezava-se também a ladainha de são Cosme e, quando terminava, tinha samba de viola a noite toda. Sete crianças sentavam em uma esteira estendida no meio da casa e no centro de onde elas estavam colocava-se uma bacia ou um alguidar com todas as comidas e um pedaço de frango para cada criança.

Era uma folia: cada um queria pegar a galinha do outro e, por isso, era o que se comia primeiro. Quando a gente acabava, bebia aruá e recebia doces. Era uma grande festa para as crianças. A dona da casa se vestia de branco e as crianças, depois de comer, limpavam as mãos na sua roupa. É pena que esse tipo de celebração está se perdendo. Hoje, as pessoas preferem dar doces ou colocam o caruru em quentinhas para ser distribuído às crianças ou a quem quiser comer, mas na rua.

Antigamente se colocava o caruru nas folhas de banana ou em uma folha que as pessoas chamavam de “prato de Oxum”, porque parecia com uma concha. Todos comiam com a ajuda das mãos e as limpavam nas pernas para atrair saúde.

Geralmente, nos terreiros de candomblé, se faz cerimônia para os Ibejis dentro do ciclo de festas e não necessariamente no mês de setembro. No Cobre, por exemplo, se comemora a Corda de Ibeji. Na festa, em uma corda que está no teto do barracão, desde o tempo de minha bisavó, são pendurados frutas e doces.Depois dos cantos rituais, as pessoas podem pular e pegar as frutas e doces e é distribuído o caruru. O engraçado é que as crianças chegam para a festa carregando os saquinhos onde vão guardar as frutas. Que os santos Cosme, Damião e os Ibejis protejam todas as crianças dando-lhes uma boa sorte.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Coisas da Vida

postado por Cleidiana Ramos @ 7:22 AM
1 de julho de 2015
Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé  / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

As festas de Santo Antônio, São João e São Pedro passaram, e na vida continuo pulando fogueiras, lembrando de histórias e vivendo tantas emoções. Uma lembrança que trago dessa fase era o amanhecer do dia, com a fogueira já em chamas bem baixas e as pessoas assando milho verde e chouriça enrolada em papel pardo. Quando o papel pardo pegava fogo, a chouriça estava assada, e se fazia uma farofa com o café adoçado que tinha que estar frio para não embolar a farinha. Quando pronta, se comia a chouriça com essa farofa e um café quentinho.

Saímos dessas festividades e vamos para uma data histórica, o Dois de Julho, quando comemoramos a Independência da Bahia. Nesse dia ou em outra data deste mês, vários terreiros de candomblé fazem homenagem para os caboclos.

A influência dos caboclos é tão importante na religião de matriz africana que antigamente as pessoas que não tinham terreiro de candomblé faziam reunião para cultuá-los nas suas casas. Muitas não eram nem feitas de santo, mas trabalhavam com os caboclos. Eles atendiam e não cobravam nada, ensinavam até remédios e ebós. Na maioria das vezes só batiam palmas ou em tabuinhas. Hoje já não se veem mais cultos aos caboclos como esses.

Interrompi o texto que falava sobre essas festividades juninas e históricas quando uma importante egbomi, tia do meu terreiro, foi convidada por Iku para ir do Aiyê para o Orum. É difícil em tão poucas palavras falar de alguém como minha estimada tia e egbomi Cutu, que era uma pessoa tão alegre e partiu justamente num dia da festa de Xangô Ayrá, um dos orixás de que ela mais gostava.

Tia Cutu foi uma pessoa muito importante na minha vida religiosa e também na do terreiro Engenho Velho Ilê Axé Iyá Nassô Oká Casa Branca. Ao longo de 60 anos ou mais, ela contribuiu de forma séria e dedicada. Durante quatro décadas, tive o privilégio de vivenciar momentos ora alegres, ora tristes, de reflexão e de aprendizagem.

Eu costumava chamá-la de “sargento”. Era uma mulher de Ogum, um “sargento” alegre, que fará muita falta, pela dedicação incansável e pela resistência de manter uma hierarquia do tempo dela. Ela brigava como uma forma de zelar pelo axé. E, assim, continuava a sobreviver diante de todas as mudanças que as gerações trazem.

Guardo dessa mulher guerreira, além da minha história de irmandade do Engenho Velho, a relação com o Terreiro do Cobre. Há anos ela me contou que quando criança muitas vezes vinha andando da Curva Grande (região onde estão localizados o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues e o 5º Centro de Saúde Clementino Fraga, na avenida Centenário) ao Engenho Velho da Federação, pois a avó, Hortência de Omolu, era filha de santo de Iyá Flaviana, ialorixá do Cobre e minha bisavó.
Tínhamos muitas coisas em comum. Essa mulher guerreira, festeira e que também era a líder religiosa do terreiro que dirigia em Mussurunga deixa a lembrança de muita alegria, traduzida nos festejos juninos e históricos desta época.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE  EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Precisamos ajudar o meio ambiente

postado por meire.oliveira @ 2:54 PM
3 de junho de 2015
Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

 Vamos aproveitar o próximo dia 5, quando se comemora o Dia do Meio Ambiente, para fazer algumas reflexões sobre as agressões que temos feito a ele, talvez, mesmo sem perceber. Milhares de pessoas, ao não ter saneamento básico, coleta de lixo, luz elétrica e viver em condições muito precárias, acabam tomando medidas que o agridem.

São esses desfavorecidos, inclusive, que sofrem com os acidentes ambientais, embora nem sempre causem os maiores danos. Os mais pobres não têm fábricas para jogar produtos químicos nos rios e nos mares que matam os peixes e poluem o ar; nem fazendas que usam agrotóxicos nas grandes plantações; também não são eles que constroem mansões em cima de nascentes, embora paguem o preço e sofram bem mais quando vêm as tragédias e precisam reconstruir suas vidas.

Precisamos ensinar às nossas crianças práticas como jogar lixo no lugar devido, pois assim adultos conscientes e educados serão formados.

Nós, povo de candomblé, devemos ter uma preocupação ainda maior com o meio ambiente, pois cultuamos a natureza. Sem ela, nossa religião não existiria. Já está difícil, devido ao desmatamento, encontrar matas e outros locais ideais para fazer as nossas oferendas de uma forma que a própria natureza as absorva. Aliás, devemos ter cuidado com o que usamos para depositar nas ruas, no mar e nas matas para que não acabemos por fazer com que esses locais adoeçam.

Acredito que, com um pouco de consciência, cada um de nós vai ajudar a natureza. Não podemos desistir de plantar uma árvore e cuidar dos espaços em que vivemos. É importante, por exemplo, quando formos à praia, levar sacos para recolher o lixo, mesmo que não tenha um cesto por perto. Se cada um fizer a sua parte, o meio ambiente estará recebendo a ajuda que anda pedindo.

Como estamos perto das festas juninas, aproveito para lembrar sobre os riscos, para o meio ambiente, trazidos pelos balões. Na maioria das vezes, eles acabam provocando incêndios, assim como os fogos típicos dessa época, que ameaçam, principalmente, as crianças.

O São João tem coisas melhores para aproveitar como canjica, licor e o samba junino. É pena que muitas dessas tradições vêm perdendo espaço. Antigamente as pessoas saíam de porta em porta. Elas chegavam segurando pequenas tábuas que batiam enquanto cantavam: “Dona da casa, me dê licença/me dê seu salão para vadiar. E viva a São João”.

Quando a chama das fogueiras diminuía, saltava-se por cima delas acompanhado de alguém que se tornava a comadre ou o compadre de São João. Logo depois vinha o São Pedro, quando só as viúvas podiam fazer fogueiras na porta de suas casas.

Portanto, olha quanto coisa boa existe para se fazer durante as festas juninas sem soltar balões ou adotar práticas que agridem as pessoas e o meio ambiente. Portanto, já aproveitando o cortejo, felizes dias de festas.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Mãe é para ser celebrada diariamente

postado por Cleidiana Ramos @ 8:38 AM
6 de maio de 2015
Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto:  João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto: João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Sabemos que o comércio construiu o Dia das Mães, assim como outros feriados, para vender mais. Continuo achando que mãe é para ser festejada diariamente, desde que o homem começou a parir. Sim, na minha opinião, quem pare primeiro é o homem colocando o sêmen no útero da mulher para que ela gere o bebê, embora o avanço da medicina tenha encontrado novas formas de levar alguém a engravidar.
Mesmo com alterações no corpo e até risco de vida, as mulheres ficam muito felizes ao se descobrirem grávidas. Perceber o bebê mexer na barriga é uma sensação difícil de ser definida. Às vezes, a grávida está dormindo e acorda com os “chutes” e “cotoveladas” do filho.
Antes não existiam os exames que permitem saber o sexo do bebê durante a gravidez. Essa informação vinha do conhecimento de pessoas experientes que se baseavam em sinais, como o formato da barriga. Geralmente, eram as parteiras que apontavam se ia ser menino ou menina e quando o parto iria acontecer a partir da observação da lua.
Por isso se fazia um enxoval azul – para os meninos – e rosa para as meninas. Quem precisava economizar fazia tudo em amarelo, cor considerada neutra. A emoção continuava com o nascimento. O momento em que a criança abria o olhos – antigamente, elas levavam sete dias para abri-los – e o primeiro sorriso eram acontecimentos acompanhados de perto pelas mães. A experiência vinha da prática, pois muitas não tinham acesso ao pediatra.
Lembro que se a criança nascia com as pernas tortas, o que se chamava “cangalha”, a mãe esperava que ela começasse a andar e durante sete sextas-feiras a levava na praia. Lá cobria as pernas do filho com areia úmida. Dava certo.
Se o bebê não dormia, a mãe preparava chá com folhas, como melissa e erva-cidreira. Outra medida era colocar uma bacia com a infusão das ervas perto do local onde a criança dormia para que ela fosse inalando o perfume. Raramente, se apelava para remédios.
Se a mãe não tinha leite no peito, tomava mingau feito com café, manteiga e farinha ou de milho com manteiga. Essas eram formas de entender a maternidade como algo que exigia estar perto dos filhos, o que se tornou mais difícil, pois as mulheres têm que ficar fora de casa para trabalhar e estudar.
Eu me considero privilegiada, pois sou mãe de Vandréa e Júnior e avó de Aynã e Ayran, o que é maternidade em dose dupla. Ainda fui escolhida pelo destino para ser mãe espiritual de centenas de pessoas, o que me faz ter amor por elas e seus filhos, que considero netos, como se fossem de “sangue”.
Comemoro ainda uma coincidência. Nasci em um Dia das Mães e este ano meu aniversário vai ser celebrado nessa data. Pensando em tudo isso, quero pedir aos filhos que respeitem sua mãe e sempre digam para ela o quanto a amam. Não existe presente melhor. Também procurem ouvi-la, pois cada uma pressente quando algo de ruim vai acontecer com seus filhos. Desejo a todas as mães muita sorte. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Saudades da Semana Santa antiga

postado por Cleidiana Ramos @ 9:34 AM
8 de abril de 2015
Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Acabamos de passar pela Semana Santa, uma festa do cristianismo que considero muito importante, pois, apesar das mudanças, ainda consegue unir famílias. Lembro-me de que, há alguns anos, nesse dia não se podia fazer barulho, as pessoas pediam perdão, não se falava alto nem se batia nas crianças.

O trabalho para o almoço da sexta tinha que ser adiantado na véspera: os cocos eram partidos e deixados em uma vasilha com água para não azedar até ser ralados, pois a maioria dos pobres não tinha geladeira para conservá-los e nem liquidificador.

Para ser moído, o camarão seco era colocado em uma toalha usada para enxugar prato, fechada e amarrada na ponta de uma mesa, ou usávamos o pilão. O feijão para o “feijão de leite” era partido em uma máquina manual. Já o peixe era limpo na sexta-feira porque esse trabalho não provoca muito barulho. Quem não tinha peixe preparava uma moqueca de ovo com chuchu de tronco, como era chamado o mamão verde.

Tudo isso para não se comer carne. Se bem que, com tanta gente ainda passando fome, acho que Cristo não liga para nada disso. São costumes da cultura que mulheres e homens criaram.

Eu gostava quando os vizinhos trocavam pratos de vatapá entre si. Além disso, ao entrar em uma casa, recebiam-se um pedaço de pão e um pouco de vinho. Era preciso aceitar esse agrado, mesmo que não se ficasse para almoçar.

Para as crianças, os adultos colocavam um dedo de vinho em um copo com água e açúcar e avisavam que isso era só para fazer a “obrigação”. À tarde, os irmãos mais velhos levavam os mais novos para tomar a bênção aos padrinhos, madrinhas, tios e tias.

Mas o melhor mesmo era o Sábado de Aleluia, porque a diversão estava garantida. As crianças guardavam latas e paus para fazer barulho quando chegasse as 10 horas. Nesse horário, os terreiros de candomblé abriam, queimava-se incenso, soltavam-se fogos e os atabaques eram tocados. À noite havia a Queima de Judas. As crianças iam dormir mais cedo para acordar à meia-noite e assistir ao espetáculo.

No domingo aconteciam brincadeiras, como pau de sebo. Um pedaço de madeira era ensebado e no seu alto colocavam-se balas e brinquedos. Quem conseguia fazer a escalada levava tudo.

Nessa época não eram comuns os ovos de Páscoa e, se existiam, nem todas as famílias podiam comprar para seus filhos. O máximo, nesse sentido, era uma caixa de bombons para ser dividida.

É uma pena que os jovens e crianças estejam perdendo esses valores que incentivavam as pessoas a ser solidárias umas com as outras, como na hora de trocar os pratos da ceia da Sexta-feira Santa ou as latas para saudar a Aleluia.

Sinto muita falta da Semana Santa antiga, pois a cada dia que passa essas características são perdidas. Meus netos, por exemplo, já não sabem que se tomava a bênção às pessoas mais velhas que encontrasse pela frente, inclusive dizendo assim: “Me perdoe alguns agravos”.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Mulheres lindas e guerreiras

postado por Cleidiana Ramos @ 9:53 AM
11 de março de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé | aul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre 

No último domingo comemoramos o Dia Internacional da Mulher, embora, para mim, essa data seja diária. Quero, portanto, falar de mulheres como minha bisavó Flaviana Bianch. Ela veio da África ainda pequena com a mãe, Margarida de Xangô, que instalou na Barroquinha o Terreiro do Cobre. Lá ele funcionou até que Flaviana, há 127 anos, o trouxe para o Engenho Velho da Federação, onde permanece até hoje.

Foram guerreiras, como a minha mãe Moura ou Maura – seu nome de batismo. Ela teve 13 filhos e criou a metade deles sem o companheiro e nosso pai, pois ele morreu quando eu tinha 11 meses. Para ganhar dinheiro, minha mãe carregou água, trabalhou como lavadeira, doméstica e fazia bolachinhas de goma e sequilhos para vender e poder completar a renda.

Desse grupo de batalhadoras fazem parte Mãe Tatá, ialorixá do Terreiro do Engenho Velho Casa Branca, conhecida pelo amor, carinho, respeito e dedicação aos orixás e à comunidade; a linda e saudosa Iyá Nitinha de Oxum, que ajudou muito o candomblé, deixando centenas de filhos iniciados; Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, que, com sua experiência e inteligência, enriquece a nossa tradição religiosa.

Vale também destacar: Lélia Gonzáles, que tanto lutou pelos movimentos negro e de direitos humanos; Vilma Reis, socióloga, que trabalha pela formação de mulheres jovens; Yeda Pessoa de Castro, sempre empenhada na construção de uma sociedade melhor; a professora Makota Valdina Pinto, educadora de tantos jovens do Engenho Velho da Federação e adjacências, que batalha pela valorização do candomblé de nação angola-banto; Alaíde do Feijão, que criou seus filhos vendendo sua deliciosa feijoada; professora Ana Célia da Silva, incansável militante do movimento negro; Ivone Lara e Clementina de Jesus, que com suas vozes lindas, fortes e únicas encantam os nossos ouvidos.

Quero homenagear ainda Olga Mettig, por sua luta pela valorização do magistério; santa Irmã Dulce, religiosa da Igreja Católica que dedicou a vida ao amparo dos mais pobres e doentes; Ana Alice Costa, fundadora do Neim-Ufba e militante pelos direitos das mulheres; Amabília Almeida, única mulher do grupo de parlamentares que redigiu a Constituição do nosso estado; e Lídice da Mata, primeira mulher a assumir a prefeitura de Salvador e ser eleita senadora pela Bahia.

Gostaria de citar outras, mas o texto tem limite. Portanto, a partir das citadas, parabenizo todas, em especial as mulheres do Engenho Velho Casa Branca, que são minhas irmãs, mãe e tias de santo, e as do Terreiro do Cobre, minhas lindas filhas. Peço a Deus que continue a fazer surgir mulheres como essas e que a sociedade reconheça os seus valores e dê o espaço que elas merecem. Imagino estar incluída nesse grupo de guerreiras, mas não posso ter a pretensão de falar sobre mim. Como acho que sou um ser humano do bem, vou deixar para que outros falem (risos). Que Deus abençoe essas mulheres e suas famílias, pois só Ele pode tomar conta dos filhos daquelas que, para trabalhar e estudar, precisam deixar suas crianças tomando conta umas das outras, em creches ou até sozinhas, à mercê dos perigos da vida.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá

postado por Cleidiana Ramos @ 10:16 AM
11 de fevereiro de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Este texto é sobre uma pessoa muito especial: Aristotelina Fiuza, conhecida como ebomi Telinha de Iemanjá. O que me leva a essa homenagem é o seu aniversário de 90 anos e a comida que ofereceu a Iemanjá, um momento único para o Terreiro do Cobre, onde ela tem uma história muito bonita. Telinha nasceu e cresceu no Cobre. É uma das poucas do tempo da minha bisavó Flaviana Bianch que ainda vive.

Conheço Telinha desde que me entendo como gente, e ela me ajudou muito com sua sabedoria quando cheguei para reabrir o terreiro. É uma pessoa muito respeitada no Cobre e pela comunidade do bairro do Engenho Velho da Federação.

Quando eu era criança, no mês de junho, Telinha tirava reza de santo Antônio em várias casas do bairro. Acabada a reza, servia-se comida, principalmente para as rezadeiras, licor e amendoins. Ela tomava o seu licorzinho e dizia: “Não posso demorar, pois ainda vou tirar outras rezas”.

Durante o Carnaval, ia para o Terreiro de Jesus esperar a saída do afoxé Filhos de Gandhy, pois seu marido, Claudio, era um dos diretores. Acompanhava o bloco até o Campo Grande. No domingo, ela só ia embora depois que as escolas de samba desfilavam. Tinha as famosas, como Juventude do Garcia e Diplomatas de Amaralina. Naquele tempo não havia preocupação com transporte porque quem morava perto do circuito do Carnaval, como nós, ia andando. Não aconteciam assaltos nem mortes. Até os caretas, que saíam com o rosto coberto, após brincar tinham a obrigação de tirar a máscara e mostrar o rosto.

Outra lembrança que tenho de Telinha é da sua ida à praia de Armação com minha mãe e tias para a puxada de rede, onde pescadores, adultos e crianças pegavam o xaréu em meio a muitas cantorias. Após a puxada de rede, elas ganhavam os peixes. Aí preparavam um escaldado com quiabo, abóbora, maxixe, jiló e o molho nagô que era feito com as pimentas raladas, limão, quiabo, coentro, cebola, tomate e camarão seco, e degustavam tudo bebendo uma cachacinha. Era só alegria.

Ela também acompanhava a Romaria de São Lázaro, um evento que acontece no Engenho Velho da Federação há mais de 75 anos. Hoje fica na porta de sua casa segurando um prato de arroz perfumado para quando o santo passar jogar sobre ele. É compromisso.

Telinha foi criada por minha bisavó como uma neta, e tive a felicidade de encontrá-la para me orientar no terreiro. Costumo dizer a ela: “Tem que ficar comigo para tudo”, porque várias vezes foi até a minha casa chorando e pedindo para que eu fosse ver o terreiro quando ele estava fechado e a sua estrutura desmoronando.

Enfim, conviver com Telinha tem sido um dos melhores aprendizados que tive. Ela é uma mulher determinada e realiza o que quer. Lava, passa, cozinha e inspira os mais jovens, que dizem não aguentar fazer a metade das coisas que ela faz. Está sempre me dizendo que quando chegar a sua hora quer dormir, pois não consegue imaginar viver em uma cama dependendo de outras pessoas. Que Deus a ouça, Telinha de Iemanjá Ogunté.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Ano novo e novas esperanças

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
14 de janeiro de 2015
Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Valnizia Pereira Bianch, ialorixá do Terreiro do Cobre

Quando chega o ano novo, as pessoas têm expectativas e esperança de alcançar dias melhores. A espera é por conseguir realizar todos os objetivos que não foram alcançados no período que passou. Infelizmente, nem sempre tudo sai do jeito que cada pessoa quer ou acha que precisa. Às vezes o destino já colocou outras coisas em nossos caminhos ou aquilo que realmente estamos necessitados e não sabemos. Só não podemos desistir dos nossos sonhos. Temos que ter desejos e esperanças até mesmo porque os sonhos alimentam o futuro. Se deixarmos de sonhar como será que ficaremos? Só Deus sabe.

É necessário ter fé, paciência e determinação para lutar por aquilo que desejamos como se o amanhã fosse hoje. E, realmente, ele é. Dormimos e não sabemos se acordaremos. Nós sempre achamos que está faltando algo na nossa vida porque não temos o costume de andar olhando para trás. Mas se a nossa atenção estivesse voltada para o lado veríamos pessoas com problemas que não possuímos e aí iríamos agradecer o que conquistamos.

Se acordamos enxergando, andando, falando já estamos ganhando, pois existem outras pessoas que são cegas, surdas, cadeirantes e às vezes conseguem ser mais felizes do que aquelas que vivem sem nenhuma dessas deficiências, mas que reclamam de tudo e até de Deus ou do sagrado, dependendo da religião que seguem.

Claro que não podemos nos acomodar, sem luta não há vitória. Temos que lutar seja pelo que for – saúde, trabalho, amor – para que, quando chegar o ano seguinte, possamos realizar os nossos desejos porque onde há vida há esperança. O problema é que mantemos o costume de só lembrar das coisas ruins; as boas lembranças conservamos por poucos dias. Já as más passamos o ano todo remoendo.

Devido a essa angústia de querer que todos os problemas sejam resolvidos no novo ano, as pessoas, normalmente, querem saber qual é o orixá que vai governar os 365 dias, em busca de proteção. No candomblé, cada dia da semana simboliza um orixá, vodun, inquice ou caboclo. Às vezes, tem até dois no mesmo dia. Tudo isso é muito relativo, pois não é só o dia da semana que informa qual orixá é o comandante. Tem a numerologia, por exemplo, que diz alguma coisa.

Por isso eu prefiro não fazer jogo sobre essa questão, afinal cada pessoa vê de uma forma diferente. Mas diferente não é errado. É, simplesmente, diferente. O importante mesmo é cada um fazer o melhor que puder, até mesmo porque tudo na vida é bate e volta. Eu costumo dizer que ninguém planta abacaxi para colher banana. Então vamos plantar o que queremos colher.

Que todos os orixás, inquices, voduns e caboclos, portanto, nos deem um ano repleto de saúde e paz. Para o resto a gente corre de lado, porque atrás não alcança e na frente quem corre por nós é Exu, pois ele é o mensageiro e pode levar os nossos pedidos que devem ser bons e positivos. Costumam dizer que Exu faz isso ou aquilo, mas, na verdade, ele só leva o que as pessoas pedem e não tem culpa de nada. Nunca devemos esquecer que Exu é só um mensageiro. Axé.

Mãe Valnizia escreve mensalmente em dia de Xangô, quarta-feira


Balaio de Ideias: o Natal e suas diversas famílias

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 AM
17 de dezembro de 2014

MÃE VALNIZIA DE AYRÁ / TERREIRO DO COBRE

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Começo a colaborar com este jornal no período próximo ao Natal, festa cristã que reúne as famílias. Quando eu era criança, Papai Noel quase nunca passava pela minha janela. Infelizmente, quando se comemora o nascimento de Cristo é alegria para uns e tristeza para outros, principalmente as crianças menos privilegiadas, que não entendem o que é o Natal e por que Papai Noel não passou pelas suas janelas para deixar presentes.
Como eu sabia que Papai Noel não ia passar na minha janela, eu e outras crianças da comunidade do Engenho Velho da Federação íamos pegar fichas para retirar os brinquedos distribuídos em uma garagem de ônibus na Vasco da Gama. Ficávamos em filas quilométricas debaixo do sol e tinha muita confusão. No dia seguinte, íamos buscar os brinquedos: para as meninas era uma boneca pequena que, no segundo dia, mesmo com todos os cuidados que eu e minhas amiguinhas tínhamos, perdia os cabelos. As bolas dadas aos meninos também esvaziavam no segundo dia, assim como os carros soltavam as rodas. Mas ainda assim éramos felizes.
As famílias se reuniam e os vizinhos eram considerados parte delas: era a comadre, o compadre. Cada um levava um prato para a casa do outro. Lembro que minha mãe fazia rabanada com pão duro passado em leite e ovos, fritava e depois colocava açúcar e canela em pó. Era uma delícia.
As casas, nessa época, tinham um cheiro que trazia a lembrança de que era Natal por conta das folhas de pitanga, são-gonçalinho e flores de angélica, que comprávamos na horta de Seu Lídio. O cheiro se misturava ao das frutas – abacaxi, manga, melancia e umbu. O chão de barro batido era molhado no dia anterior. Então colocávamos folhas de banana para deixar liso. À tarde tirávamos as folhas de banana e colocávamos areia, as folhas de pitanga e de são-gonçalinho.
Os vizinhos criavam juntos, durante o ano inteiro, um peru que, por isso, era chamado de “peru de meia”. Na véspera de Natal dava-se cachaça ao peru para então matá-lo. As crianças tinham que ficar no quarto para que não vissem a morte, mas sabiam o que estava acontecendo. No outro dia, ele era servido com farofa.
Mesmo com dificuldades, o Natal é um momento solene. Com muita comida, bebidas e presentes ou até mesmo sem nada disso, as famílias se reúnem e isso é muito importante. Quando estamos reunidos, como família, trocamos coisas boas, energias, saúde, alegria e até mesmo tristezas. Família é uma das coisas mais importantes da vida, pois só ela nos dá a base dos valores que servem para o resto da vida.
O povo de santo, ou seja, de candomblé, é privilegiado porque tem duas famílias: a consanguínea e a religiosa. Assim tem mais oportunidades para a confraternização familiar. Os que não têm a família consaguínea têm a outra. Muitas vezes, meus filhos de santo não têm parentes por perto, mas a qualquer necessidade têm seus irmãos religiosos para ajudar nos momentos de alegria e tristeza. Também temos mais oportunidades para confraternizar com ou sem Papai Noel deixando presentes nas janelas. Feliz Natal para todos com muita saúde, que é o bem maior da vida. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Mãe Valnizia é nova articulista do jornal A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 AM
3 de dezembro de 2014
Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

A partir do próximo dia 17, a ialorixá Valnízia Pereira de Oliveira passa a assinar, mensalmente, artigos nas páginas de Opinião de A TARDE. Dessa forma fica mantido o espaço para a abordagem de questões diversas sob o ponto de vista do candomblé, que, desde maio de 2011, eram apresentadas nos artigos de mãe Maria Stella de Azevedo Santos, ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.

“Será uma experiência nova e que dá continuidade à história iniciada nesse espaço por mãe Stella, uma pessoa muito experiente e sábia. Em nossa religião temos por base o respeito aos mais velhos por entender que isso significa também avanço em mais sabedoria”, diz mãe Valnízia.

De acordo com ela, escrever é uma forma de manter o diálogo entre as artes de aprender e ensinar. “Quando a gente escreve, coloca o que está pensando para a opinião de outras pessoas. Então escrever é aprender e ensinar. Eu, por exemplo, aprendi muito com os textos de mãe Stella”, completa mãe Valnízia.

Mãe Stella deixou a publicação regular dos seus artigos em A TARDE, que eram veiculados quinzenalmente, sempre às quartas-feiras. O último foi há 15 dias.

A decisão de interromper a colaboração foi por conta de suas muitas atividades religiosas e coordenação de projetos, como o denominado “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”. O projeto mantém uma biblioteca móvel audiovisual denominada “Animoteca” e especializada em diversidade religiosa.

O projeto foi sendo construído a partir de reflexões realizadas por mãe Stella também nos artigos publicados em A TARDE.

Trajetória

Líder do Terreiro do Cobre, localizado no Engenho Velho da Federação e que tem Xangô como patrono, mãe Valnízia, 55 anos, foi iniciada no candomblé no terreiro da Casa Branca para o orixá Ayrá. Ela é autora dos livros Resistência e Fé, publicado em 2009, e Aprendo Ensinando, de 2011.

Há 26 anos mãe Valnízia dirige o Cobre, fundado no fim do século XIX pela africana Margarida de Xangô, que iniciou a linhagem sacerdotal da família.

Mãe Valnízia é bisneta de Flaviana Bianchi, chamada por intelectuais como Jorge Amado e Édison Carneiro de “Flaviana, a grande”.

Consagrada a Oxum, mãe Flaviana é uma das personagens do livro Cidade das mulheres, escrito pela antropóloga americana Ruth Landes, publicado em 1947, e que é um dos clássicos da etnografia sobre o candomblé baiano.

Boas-vindas

Usando a palavra “difícil” para definir sua decisão de deixar de contribuir regularmente com os artigos em  A TARDE, mãe Stella explicou em texto, publicado dia 19, que está deixando essa atividade por conta de seus outros compromissos.

“Tomar decisões é sempre muito difícil, principalmente quando esta decisão implica deixar uma atividade que nos dá prazer e alegria. Foi o que aconteceu comigo quando precisei deixar de escrever artigos para este conceituado jornal. Foi no treinamento do desapego, que todo sacerdote precisa fazer, que encontrei a força que precisava”, diz.

A ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá diz que ficou tranquila quando soube que a ialorixá Valnízia Pereira vai escrever artigos para a seção de Opinião de A TARDE.

“A tranquilidade veio quando fiquei sabendo que o espaço do jornal que era utilizado por mim passará a receber, agora, os conhecimentos de outra líder religiosa. Que a ialorixá Valnízia Pereira tenha muita alegria ao empreender esta nova jornada e conte, como sei que sempre contou, com as bênçãos dos orixás”, acrescentou.


Lançamento do livro de Mãe Valnizia é amanhã

postado por Cleidiana Ramos @ 11:02 AM
11 de outubro de 2011

Amanhã é dia do lançamento do livro de Mãe Valnizia de Ayrá. Foto: João Alvarez/Divulgação

Meire Oliveira

História contada pelas próprias mãos. A premissa é a motivação da yalorixá Valnísia de Aiyrá,que lança o segundo livro, Aprendo Ensinando: experiências num espaço religioso, amanhã, às 18 horas, na Praça de Oxum do Terreiro da Casa Branca,Av. Vasco da Gama, 463.

Dois anos depois de iniciar o registro de sua trajetória em Resistência e Fé: fragmentos da vida de Valnízia de Aiyrá, de 2009, falando sobre pessoas que fizeram parte da sua vida, como a infância e a sua iniciação religiosa, a líder espiritual do Terreiro do Cobre, na nova obra,l ançada no dia do seu odún (data de iniciação), conta seu processo de aprendizagem com os erros, acertos, trocas e observações ao longo da formação e crescimento da família de axé.

A narração detalhada das situações com as dificuldades e êxitos demonstra a segurança de quem sabe e sente o que escreve, típico da experiência adquirida na academia da vida de onde faz questão de ser eterna aluna. Essa transparência é traduzida nas 100 páginas de discurso leve como uma conversa, tornando o leitor um amigo.

Desde o primeiro iniciado, Mãe Val conta a chegada e trajetória decadafilhoqueXangôdelegou a vida espiritual aos seus cuidados até hoje. Depois da primeira publicação, Mãe Val amplia o legado aos seus filhos e religiosos do Terreiro da Casa Branca (o mais o mais antigo terreiro da nação ketu no Brasil), onde foi iniciada.

O fato de conhecer detalhes de sua história por pesquisas antropológicas incomodou a sacerdotisa, que é tataraneta da africana Margarida de Xangô, que se instalou na Barroquinha,e bisneta de Flaviana Bianc de Oxum, que trouxe o Cobre para o Engenho Velho da Federação.

“Quero que meus filhos e os filhos e netos deles conheçam sua ancestralidade e o motivo de estar noTerreiro do Cobre por mim”. Convicta da importância de repensar suas ações, fazer o melhor e mudar no que for necessário,a autora abre espaço para filhos e amigos que expressam opiniões sobre o terreiro e sua líder em poesias e depoimentos. Atitude que revela a consciência do significado do registro na religião, que tem a oralidade e a vivência como meios básicos de repasse de conhecimento,e a consciência de ter muita história para contar.


Novo livro de Mãe Valnizia já está pronto

postado por Cleidiana Ramos @ 5:08 PM
27 de setembro de 2011

Mãe Valnizia lança novo livro no próximo dia 12. Foto: João Alvarez/Divulgação

Mãe é sempre motivo de orgulho e quando elas ultrapassam as nossas expectativas ainda mais. Assim é com a minha mãe espiritual, a ialorixá Valnizia de Ayrá, que não para de supreender.

Quando ainda estamos em festa com o lançamento de sua bela autobiografia intitulada Resistência e fé, eis que ela nós dá outro presente: Aprendo ensinando: experiências num espaço religioso.

No novo livro, ela conta as historias originadas da sua relação com os seus filhos espirituais do Terreiro do Cobre e também da sua vivência na Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo terreiro de nação ketu do Brasil, onde fez sua consagração religiosa.

O lançamento será no dia 12 de outubro, a partir das 18 horas, na Praça de Oxum no Terreiro Casa Branca.

Volto, claro, a falar mais do livro, logo, logo.    


Casa Branca reverencia Ayrá

postado por Cleidiana Ramos @ 6:28 PM
28 de junho de 2011

Casa Branca faz festa, amanhã, para Ayrá. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE| 11.03.2005

Amanhã tem uma festa muito especial na Casa Branca: a fogueira de Ayrá.

Senhor da luz, do fogo e membro da família de Xangô, o senhor que veste branco conquista a todos com sua aura de sabedoria, realeza e magnitude.

Quem já viu o Ayrá de Mãe Valnizia, ialorixá do Terreiro do Cobre e filha-de-santo da Casa Branca, sabe de toda a beleza e boas energias que cercam essa festa.

O rito começa às 20 horas e um lembrete importante: o traje é branco.


Mais uma rodada do projeto Respeito aos Mais Velhos

postado por Cleidiana Ramos @ 10:01 AM
25 de novembro de 2009
Mãe Valnizia é uma das participantes da palestra organizada pelo Bando de Teatro Olodum. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Mãe Valnizia é uma das participantes da palestra organizada pelo Bando de Teatro Olodum. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Ontem consegui, mesmo em meio à correria característica da minha rotina neste mês de novembro, conferir a segunda parte do ciclo de palestras organizado pelo Bando de Teatro Olodum dentro do seu novo projeto intitulado  Respeito aos mais Velhos.

Foi muito legal a mesa formada pela professora Isabel Reis, pelo professor Jaime Sodré e por Jaime Cupertino, liderança quilombola da Comunidade de Vazante que fica em Seabra, na Chapada Diamantina. 

Antes que digam que não avisei sobre o evento, lembro que o anunciei aqui no Mundo Afro com antecedência. Mas quem quiser conferir ainda dá tempo: hoje, a partir das 19 horas, no Teatro Vila Velha, tem mais uma mesa com a presença de Mãe Valnizia de Ayrá, ialorixá do Terreiro do Cobre, do cineasta Antônio Olavo e da contadora de histórias, Raimunda da Paixão, moradora de Itiúba, localidade do sertão baiano.

O seminário Respeito aos Mais Velhos é uma etapa do projeto homômino que serve de base para a nova montagem do Bando. A estréia está prevista para 2010. A primeira etapa do seminário foi realizada nos dias 17 e 18. 


A Benção: Hora do livro de Mãe Valnizia

postado por Cleidiana Ramos @ 12:37 PM
8 de maio de 2009
Lançamento de livro escrito pela yalorixá será amanhã. Foto: Rejane Carneiro

Lançamento de livro escrito pela yalorixá será amanhã. Foto: Rejane Carneiro

Amanhã, sábado,  a partir das 17 horas, no Solar do Ferrão, Pelourinho (Rua Gregório de Mattos, 45), Mãe Valnizia de Ayrá estará lançando o seu  livro intitulado Resistência e Fé.

É a sua autobiografia, numa comemoração dos 50 anos de vida que ela completa no domingo. Estará ao alcance de todos o que nós, seus filhos espirituais do Terreiro do Cobre, conhecemos.

E há surpresas também, mesmo para quem tem o privilégio de estar sempre ao seu lado. Sim, porque partilhar da convivência com o dinamismo, tão próprio do povo da família de Xangô, mas também da tranquilidade, característica das divindades que vestem branco como o seu pai Ayrá, é presente vindo das divindades que cultuamos.

Mãe Valnizia sabe alternar a docilidade e a rigidez, própria das boas mães. Sabe o momento certo de passar a mão na cabeça e o de puxar a orelha. Às vezes passa estes sentimentos apenas com um olhar.

Tem aquele tipo de humor rápido e um poder de superação que nos surpreende diante das perdas de familiares queridos que a vida lhe impôs.  “Não é porque sou de candomblé que não vão acontecer coisas que me deixam tristes, pois antes de tudo eu sou humana”, ela me disse, certa vez.

E são estes exemplos de fé, força, iluminação e resistência que estão em cada página do seu livro. Quando vi os originais há poucos dias para construir a matéria que vai sair amanhã na edição do jornal A TARDE, no Caderno 2, eu me surpreendi com a transparência do seu relato.

 
Lá está não só a sacerdotisa, feita aos 16 anos na Casa Branca e que foi descobrindo que tinha a missão de continuar a história de liderança de uma casa fundada por uma sua ancestral, Margarida de Xangô, ainda no século XIX. Está também o crescimento como mulher, com as dúvidas próprias a cada uma de nós, mas o seu diferencial foi o de aprender a enfrentar melhor estes desafios a partir da religião que escolheu.

Ter aceitado a missão de assumir a continuidade do Cobre, inclusive com a necessidade da reconstrução física (os espaços haviam sido invadidos) já é um admirável ato de coragem e confessar suas dúvidas e inquietações para trilhar este caminho, como ela faz no livro, é mais corajoso ainda. E faz sentido uma observação feita pelo professor Jaime Sodré ao falar dela:

-Ali carrega uma ancestralidade milenar.

Realmente, minha mãe, e digo isso com a maior alegria, é daquelas jovens sacerdotisas que tem a postura  herdada dos seus mais velhos.

A forma como ela fala “de” e “com” as suas mais velhas, tanto as da Casa Branca, como Tia Telinha de Iemanjá, a mais antiga ebomi do Cobre, é lição sobre respeito à troca de saberes, um dos princípios que sustentam o candomblé.

Enfim, ao tornar possível Resistência e Fé, Mãe Valnizia, na verdade, é que está nos dando um presente na festa do seu aniversário.  

 


Boas notícias para o Terreiro do Cobre

postado por Cleidiana Ramos @ 5:08 PM
6 de maio de 2009
cobre

A secretária Maria Alice e o vice-prefeito Edvaldo Brito ao lado de Mãe Valnizia e de Tia Telinha de Iemanjá. Foto: Bárbara Lima | Ascom Semur

Esta semana promete ser inesquecível para a comunidade do Terreiro do Cobre. Além do esperado lançamento do livro Resistência e Fé, escrito por Mãe Valnizia de Ayrá, yalorixá da Casa, e que será lançado no próximo sábado, ontem mais  uma boa notícia chegou até lá.

Em visita oficial ao terreiro, o vice-prefeito Edvaldo Brito e a secretária municipal da Reparação, Maria Alice, deram  a Mãe Valnizia a notícia de que o processo pós-desapropriação de uma área pertencente ao Cobre, anunciada em 2008 no Diário Ofical ( Decreto 18158 de 13 de fevereiro de 2008),  começou a ser efetivado.

O terreno de 291,57 m² tem uma área edificada onde funcionava uma igreja evangélica. O decreto reconhece que a área pertence ao Cobre.

“Estamos aqui numa casa onde a sua yalorixá segue toda a tradição dos seus ancestrais, como também eu faço. É preciso garantir esta preservação por uma questão de Justiça, afinal este terreno e outros foram retirados do terreiro por conta da urbanização desordenada”, disse Edvaldo Brito.

  
A ação faz parte do denominado Programa de Valorização e Preservação da História da Cultura Afro Brasileira, desenvolvido pela Prefeitura.

Os próximos passos agora serão dados por meio da Procuradoria Geral do Município para ratificar a imissão de posse em nome da Sociedade Beneficente e Religiosa Filhos de Flaviana Bianc, que representa civilmente o terreiro.

“Trata-se de uma política de reparação. É uma iniciativa concreta da responsabilidade do Estado para com as religiões de matrizes africanas”, disse a secretária Maria Alice.

O advogado Samuel Vida, que é ogã da Casa, disse que a efetivação da desapropriação é responsabilidade do Estado, garantida em Lei, afinal o terreno era parte da propriedade do terreiro.

     
Mãe Valnizia comemora a boa notícia. “A área do nosso templo já foi bem mais extensa. Havia árvores e até um pequeno córrego. Hoje não temos nem mais 5% do que foi a nossa área. A vinda do vice-prefeito em nossa Casa significa que não iremos mais esperar tanto pela recuperação do que já foi nosso no passado”.

A questão da regularização fundiária é uma batalha antiga do povo-de-santo. Uma polêmica vem movimentando o meio político da cidade por conta das denúncias do vereador Gilmar Santiago (PT-BA) de que um projeto de lei sobre a questão que teria sido enviado à Câmara de Vereadores na época em que ele era secretário de governo não está na instituição.

No último dia 29 um novo projeto foi apresentado pela administração municipal, mas segundo Santiago foi modificado para incluir benefícios a templos de outras religiões.  A justifcativa da prefeitura é que o texto foi feito para contemplar o que manda a legislação e atender melhor aos objetivos do projeto.  Prometo que vou voltar ao assunto aqui em breve de uma forma a garantir um debate mais amplo sobre um tema tão importante.