Casos de racismo envolvendo famosos em alta

postado por Cleidiana Ramos @ 6:03 PM
29 de março de 2011

Cantora vai processar deputado por racismo. Foto: Margarida Neide | Ag. A TARDE

Raramente, no Brasil, os casos de racismo atingiram tantos famosos em sequência como nos últimos dias. A mais nova vítima é a cantora Preta Gil.

A cantora sentiu-se ofendida com uma resposta do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) – que, infelizmente, ainda encontra quem lhe dê mandato e espaço na mídia para destilar seu crime contra os direitos humanos ao ofender homossexuais – de que não ia discutir “promiscuidade” ao ser questionado o que faria se um filho seu namorasse uma negra. O imbróglio foi ao ar via o programa CQC.

Diante da repercussão e da afirmação de Preta Gil de que vai processá-lo, o deputado afirmou que não entendeu direito a pergunta, mas não pediu desculpas. 

Já no último dia 22, o deputado Júlio Campos (DEM-MT) referiu-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, o único negro da corte de justiça, como “moreno escuro”.

No futebol, o jogador Roberto Carlos, foi saudado em campo na Rússia com  bananas, numa referência clara a macacos. O mesmo já havia acontecido com o jogador quando atuava no espanhol Real Madrid. 

Outro episódio semelhante atingiu o  jogador Neymar em partida da Seleção Brasileira contra a Escócia, em Londres, no último domingo.

No Carnaval deste ano o cantor Márcio Victor da banda Psirico foi chamado de “negro”, “favelado” e “gay” por um folião no Camarote do Reino.

Os episódios talvez sirvam para acabar de vez com o argumento ingênuo usado por muitos de que racismo inexiste para negros que ascenderam do ponto de vista econômico. Os exemplos acima, que exceto o de Márcio Victor aconteceram no mês em que se faz campanha contra a discriminação racial,  dizem exatamente o contrário.          


O jogo que descortinou o Zimbábue

postado por Cleidiana Ramos @ 12:27 PM
4 de junho de 2010

Amistoso disputado pela Seleção Brasileira contra o Zimbábue voltou as atenções para o país africano. Foto: Eduardo Martins | AG. A TARDE

Um dos amistosos mais polêmicos realizados pela Seleção Brasileira nos últimos tempos foi o disputado contra o Zimbábue na última terça-feira. E isto não só pelo hobby nacional de criticar Dunga _ “infrutífero”, “os jogadores podem ter lesão”, etc- mas também pelo adversário, afinal o governo do país é classifcado como ditadura. O presidente de lá, Robert Mugabe, está no poder há 30 anos.

Foi por conta deste amistoso que soube isto e algumas outras coisas sobre o país africano. Cronistas esportivos disseram tudo o que puderam: desde a inflação galopante que ultrapassa a casa dos milhares até um que acha que este é o melhor exemplo da “miséria” africana. A África tem miséria, mas também tem riqueza, ora pois. Infelizmente,  os estereótipos sobre o nobre e antigo continente vão continuar a ser uma tônica destes dias de Copa.

Mas o que mais me fez pensar sobre este amistoso, que do ponto de vista técnico foi apenas um aperitivo do que os amantes de bom futebol continuarão a sofrer nos próximos dias com esta formação da equipe canarinha, é que nós, jornalistas, fazemos de conta que o continente africano não existe.

Até mesmo para criticar as relações diplomáticas do Brasil com uma ditadura foi preciso um jogo de futebol. Do contrário as diatribes de Mutabe que ganhou um gelo do técnico da Seleção Brasileira, impedindo que ele não faturasse mais em cima de um jogo para o qual pagou à CBF uma pequena fortuna- U$ 1,3 milhões, o que dá quase R$ 2,6 milhões — estariam no limbo. Os jogadores não apareceram ao lado do ditador em nenhum momento e Dunga driblou Mutabe, inclusive evitando sua visita à concentração brasileira.

Claro que não estou querendo que o Zimbábue ganhe uma coluna diária dos jornais, mas porque a gente sabe tão pouco de uma diatadura com a qual o Brasil matém relações, mesmo diante do gelo do resto do mundo? Que tipo de intresses circulam em torno deste ponto?

Esse exemplo é apenas uma amostra do desinteresse que mantemos em relação a outros países africanos. Eles só entram na pauta em situações que o mundo inteiro volta as atenções para lá. A África do Sul, por exemplo, só está sendo lembrada por conta do campeonato mundial de futebol organizado pela Fifa.

Mas se esse seria o momento que teríamos para aprofundar a divulgação deste conhecimento sobre um continente que tem países dos quais uma parte significativa da população brasileira herdou parte da sua base cultural, as informações que estão chegando não conseguem fugir do trivial.

Que a África do Sul tem belos parques a gente já sabe. Que a alegria africana é contagiante e a vuvuzela é símbolo disto já está ultrapassando os limites do que é clichê. Que a Copa do Mundo é a chance do país mostrar como está depois do apartheid é óbvio. Ele não investiria tanto em um campeonato se não tivesse razões políticas fortes para tal.

Mas cadê o povo sul africano, seu dia-a-dia, mais detalhes da política pós apertheid, os embates entre religiões oficiais e tradicionais, a condição da mulher, etc? Futebol é cultura exatamente porque é feito e direcionado a pessoas.

Esta Copa do Mundo poderia ser um momento de fazer melhor o pouco que foi feito em relação ao Zimbábue: mostrar um pouco mais de como anda este continente que é mãe da humanidade, mesmo que alguns rejeitem esta maternidade.

Quando Robinho disse que nem sequer sabia pronunciar o nome do país contra cuja seleção disputaria o amistoso ou quando o presidente Lula se assustou com a limpeza das ruas da Namíbia não foram gafes para virar pautas de programas de humor ou provas da irreverência do jogador e da quase impossibilidade do mandatário brasileiro em evitar dizer de pronto o que pensa.

Não são razões para a gente rir, mas se envergonhar por saber tão pouco sobre uma parte do mundo com o qual muitos de nós carrega um parentesco que diz muito do que somos. Tomara que nós, formadores de opinão como adoramos ser chamados, despertemos do trivial ainda a tempo.   Ah sim! O próximo amistoso do Brasil será contra a Tanzânia na segunda-feira. Esperemos, então, notícias de lá.


Fé e Futebol

postado por Cleidiana Ramos @ 5:44 PM
5 de maio de 2010

Para lançar o segundo uniforme da Seleção Brasileira, a Nike escolheu o tema Mandingas e lançou um vídeo  com esse nome que vocês podem conferir aí em cima.

Achei interessante, pois foi a única vez em que vi uma referência, que pode ter vários questionamentos, claro, a elementos das religiões afro-brasileiras de uma forma que não é totalmente jocosa no campo dos esportes.

Uma curiosidade do vídeo é que o jogador Robinho conta que seu avô era pai-de-santo e que previu o seu futuro como atleta. Prestem também atenção no rapper que Luis Fabiano canta no fim.

A mística que cerca a camisa azul da Seleção Brasileira tem base num episódio ocorrido em 1958: pega de surpresa por não ter um segundo uniforme, a delegação teve que improvisar colocando o escudo da amarelinha num conjunto azul. Para justificar e levantar o moral do grupo, o chefe da delegação discursou dizendo que aquela era a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A seleção ganhou o jogo por 5X2 e sagrou-se campeã mundial  pela primeira vez na até hoje maior goleada em finais de Copa.

O Brasil já tinha jogado de azul em 1938, mas não pegou. Predominava um uniforme branco que foi aposentado após a fatídica derrota para o Uruguai em 1950. A partir daí o amarelo reinou soberano.

Não é de hoje que jogadores utilizam símbolos religiosos no momento que fazem o gol apontando os dedos para cima, por exemplo. Nos últimos anos virou moda as  camisetas dos que são evangélicos com declarações de amor a Jesus.

Mas a Fifa não anda muito satisfeita com tanto fervor religioso. Logo após a última edição da Copa das Confederações, os jogadores brasileiros se uniram no centro do campo para ajoelhados rezarem o Pai Nosso. O gesto não pegou bem, pois países que defendem a laicidade do Estado- e as seleções representam nações- reclamaram, porque temem que o esporte se torne uma arma perigosa de propaganda religiosa e consequentes enfrentamentos.

Uma das confederações que se insurgiu contra a prática dos brasileiros foi a Federação da Dinamarca. Circulou a notícia de que a Fifa chegou a repreender a CBF pedindo menos fervor religioso. Vamos observar o que vai acontecer durante os jogos da Copa.

Eu, particularmente, confesso que fico incomodada, não com a demonstração de fé, pois isso é questão de consciência, mas com o discurso de alguns jogadores que parecem pregação religiosa. Na fala de alguns parece que Deus privilegia determinadas equipes em detrimento das demais.

No ano passado inclusive, uma declaração da mulher do jogador Kaká botou mais lenha nessa fogueira. De acordo com o vídeo que circulou no youtube a moça considerava a venda do marido, uma das maiores da história, um “milagre de Deus”, em tempos de crise. Os dois são da Igreja Renascer. Segundo notícias, a direção do Real Madrid pediiu ao  atleta para ter cuidado com este tipo de associação.

E vocês? O que acham de religião misturada a futebol?


Sonhos de uma manhã de futebol

postado por Cleidiana Ramos @ 6:26 PM
14 de junho de 2009
Iraque e África do Sul abriram a Copa das Confederações. Foto: AFP PHOTO | ALEXANDER JOE

Iraque e África do Sul abriram a Copa das Confederações. Foto: AFP Photo | Alexander Joe

Sou daquelas que enxergam num jogo de futebol muito mais do que 20 homens correndo atrás de uma bola, dois tentando fazer que ela fique longe deles e três tentando colocar ordem no palco da peleja que é o gramado.

Naqueles 90 minutos que dura a partida costumo ter sentimentos contraditórios- raiva, desespero, frustração, alegria, esperança, leveza e tantas outras manifestações da paixão humana.

Mas sobretudo gosto de futebol pelo simbolismo de que algumas partidas se revestem. Nos gramados acontecem encontros felizes e triunfos quase impossíveis de acontecer na vida real. E digo isso ainda atordoada pela pancada de 5 X 0 que o Coritiba, chamado de Coxa, imaginem só!, aplicou no meu pobre e bagunçado Flamengo.

Ainda bem que, hoje pela manhã, antes de assistir ao vexame do meu adorado rubro-negro, pude presenciar um destes acontecimentos cheios de simbolismo do futebol durante a partida entre África do Sul X Iraque pela abertura da Copa das Confederações.

Claro que já passei da idade de ver apenas a poesia nas coisas e sei muito bem que o futebol é um centro do capitalismo mais feroz, movimentando milhões e dono de uma força política na maioria das vezes usada para o mal em seu sentido mais puro. Não é por bondade que a Fifa escolheu a África do Sul como país anfitrião desse torneio e para sede da milionária Copa do Mundo no ano que vem.

Mas o futebol também proporciona mesmo que por apenas 90 minutos coisas que o mundo fora dos estádios paga caro por não ver acontecer.

Assim, nesta manhã, estava no gramado um time sul-africano formado por dez jogadores negros e apenas um branco. Ali estavam eles representando um país onde a minoria branca oprimiu por décadas a maioria negra via o vergonhoso sistema de apertheid racial.

Aqueles rapazes de uniformes e calçados com chuteiras compunham a representação do resultado de uma luta digna e sofrida de muitos, dentre os quais Nelson Mandela, que é um guerreiro sobrevivente.

Um time sul-africano formado maciçamente por negros era algo impossível de acontecer há apenas alguns anos. Mas hoje eles estavam ali para mostrar que a irracionalidade acabou de forma oficial e a gente fica na torcida para que desapareça de fato.

 Do outro lado estavam os representantes de um povo não menos sofrido, por conta dos desmandos do seu ditador local, agora morto, mas também em consequência da loucura de George W. Bush que achava que podia mandar no mundo, sem limites, ao sentar no trono do governo americano.

Na era Bush, que já parece passado distante diante da histórica vitória de Barack Obama, o povo iraquiano viu cair sobre si a pecha do “mal maior” que amedronta o mundo ocidental, quando na verdade é mais uma vítima dos meandros da disputa de poder.

Por isso que os homens que hoje entraram em campo me comoveram. Eles não ganham milhões como os astros brasileiros das chuteiras Kaká e Robinho. Não atraem os astronômicos patrocínios das empresas esportivas. Além disso mostraram uma técnica anos luz distante da genialidade possível de um Pelé ou Garrrincha.

Apesar disso eles emocionaram esta pobre sonhadora a quilômetros de distância e me fizeram viajar na idéia de que a igualdade sul-africana é realmente possível.

Ela está provando ser capaz de ensinar a nós brasileiros, que convivemos com um apertheid racial, embora camuflado, principalmente para as suas maiores vítimas e por isso tão perverso.

Ali também eu vi que é possível imaginar que o povo iraquiano vai sobreviver ao horror que lhe persegue há anos se ainda há espaço para apostar nesta nostalgia que o esporte dá.

É por isso que gosto tanto de futebol. Ele, às vezes, ao menos nos faz lembrar que a humanidade pode corrigir as bobagens que apronta contra si mesma.

Em tempo: Para quem se interessa por este aspecto do futebol como geopolítica tanto do ponto de vista positivo como negativo, sugiro o documentário intitulado O Dia em que o Brasil Esteve Aqui

O  filme de Caíto Ortiz mostra o chamado jogo da paz entre a Seleção Brasileira e a do Haiti, realizado em 2004. Vi na HBO, mas é possível que esteja disponível também em locadoras.