Balaio de Ideias: Albergaria, nosso Boca do Inferno II

postado por Cleidiana Ramos @ 10:23 AM
11 de julho de 2015
O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott

O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott. Foto:  Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 10.5.2005

 

Luiz Mott

Professor titular de Antropologia da Ufba

Conheci Roberto Albergaria quando ingressou no Departamento de Antropologia da Ufba, há uns 30 anos atrás. Tive o privilégio de dar o parecer reconhecendo sua tese de doutorado defendida em Paris. Sempre disse e reafirmo: Albergaria era o mais culto, inteligente, provocativo e anarquista professor da Ufba. Infelizmente publicou pouco, mas deixou centenas de horas de entrevistas e gravações em rádio e televisão, material riquíssimo que merece virar tema de tese de mestrado e doutorado.

Com seu corpanzil e quase dois metros de altura, tinha a delicadeza de um gay, embora fosse confirmado mulherengo miseravão. Generoso, presenteou-me dois insólitos mimos: belíssimo chifre de um veado galheiro e um chicote de binga de boi – segundo ele, usado pelos cornos do sertão para castigar mulher adúltera. Em meu último aniversário, mandou-me esta mensagem, parece que psicografada pela mesma irreverência piadista de Gregório de Mattos, o Boca do Inferno:

“69 anos é a idade ideal para um putoso – putão idoso! O pururuca do Luizinho já pode broxar sem ter que justificar que ‘isto nunca me aconteceu antes’. Já pode andar com a braguilha aberta, pois ‘em casa de defunto a porta fica sempre aberta’. Já pode deixar de cumprir qualquer obrigação chata sob o pretexto de que se esqueceu: ‘estou ficando gagá mesmo!’ Já pode liberar um dedinho no furico só na manha, sem ter que botar no jornal que está sacrificando seu pobre tobinha apenas para dar um exemplo de militância política, porque menino que dá está brincando de troca-troca, é só estripulia, enquanto velhusco patusco de calça arriada está só esculhambando… pra alegrar seus últimos dias de picardia. E viva a descaração, desencuecada ou não. E viva a brincadeiragem, brincadeira com sacanagem: as melhores dádivas desta triste puta vida que nos pariu!”

Luiz Mott escreve no jornal A TARDE, quinzenalmente, aos sábados  


Bahia perde ícone da inteligência risonha

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
4 de julho de 2015
Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto:  Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/  29.04.2010

Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/
29.04.2010

MORTE/ ANTROPÓLOGO/ ALBERGARIA/ BAHIA

Cleidiana Ramos

Uma das cobranças clássicas a um repórter é o distanciamento ao que se reporta. Em tese, portanto, eu não deveria escrever o obituário de Roberto Albergaria de Oliveira, 63 anos, historiador, antropólogo e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (Ufba), um dos meus amigos mais queridos.

Mas precisei quebrar o cânone para lhe render a homenagem que me foi possível. Além disso, desafiar regras era com ele mesmo.

Nasceu em Cachoeira, embora às vezes dissesse ser de Muritiba para “pirraçar”, segundo ele, cachoeirenses como Ordep Serra, colega na antropologia e na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba.

Doutor em antropologia pela Universidade de Paris VII, a hoje Paris Diderot, Albergaria foi um dos mais brilhantes intelectuais baianos. Recebeu a orientação no doutorado de Michel de Certau (1925-1986), respeitado cientista social da escola francesa.

Sua tese para obter o grau de doutorado mergulha nas imagens simbólicas que o Brasil inspirou, a partir da sua condição de colônia portuguesa. Trata-se de uma análise com profunda inserção em teoria antropológica, mas ele repelia elogios ao seu preparo intelectual. Achava pedante, sem falsa modéstia.

Por isso criou o personagem iconoclasta. Com o tempo percebi que era disfarce para se livrar da chatice dos pretensiosos das mais variadas matizes.

Albergaria gostava de rir, mas tinha uma racionalidade que chocava os desavisados. Era extremamente pragmático, mas generoso.

O problema congênito – um tipo avançado de espinha bífida– foi o seu martírio até o fim. Além de impedir o movimento de uma das pernas, com o tempo desarrumou o sistema nervoso central, o que lhe fez vítima de vários distúrbios, como insônia crônica.

Foi essa dificuldade em lidar com as alterações no sono que o fizeram pedir a aposentadoria da universidade, pois acordava indisposto.
Crítica
Andava chateado com o que considerava a disseminação da “moral de jegue”, seu nome em baianês para falsos moralistas e fazia dos comentários na rádio Metrópole seu instrumento de desabafo contra esse mal.

Dizia invejar em nós, jornalistas, a capacidade de síntese, o que lhe era impossível. Falava pelos cotovelos e o didatismo de professor o fazia enviar complementos em longos textos via fax e depois por e-mail.

Albergaria era consultado por repórteres porque dominava os meandros da teoria antropológica. Conseguia opinar, com propriedade, sobre quase tudo, o que incomodava alguns que confundiam capacidade de explicar de forma didática pensamentos complexos com superficialidade.

Parei de me irritar com esse tipo de crítica, quando percebi que essas análises e até certos tipos de censura, o divertiam. A sua segurança intelectual lhe deu a imunidade necessária.

Não fez adversários ou inimigos. “Minha filha, eu sempre fui tido como maluco. Ninguém briga com doido”, explicava.

Não se casou ou teve filhos. Dizia só ter capacidade para amar mulheres de comportamento irreverente: as “miseravonas”.

Padilhas
Pegou em armas contra a ditadura quando integrou o PCBR. Foi preso durante uma ação frustrada de assalto a banco. Quando saiu da penitenciária foi para o exílio na França.

Não tinha uma crença religiosa, mas admirava o culto aos caboclos e a Exu no candomblé, e as padilhas da umbanda. Em sua casa tinha uma coleção de estátuas dessas entidades.

Nos últimos meses, declarou-se herege, no lugar de ateu. “É que tenho certa imaginação”. Portanto, acredito que essa capacidade o levou a achar o lugar ideal para que sua energia mental descanse em paz.

É tudo o que posso dizer agora

Cláudio Luiz Pereira  

Recebi, consternado, a notícia que Roberto Albergaria está morto. Fico imaginando como isto de fato empobrece a nós todos, retirando-nos certa capacidade de enfrentar com indignação e bom humor esta nossa realidade tão medonha. Morreu provavelmente de overdose de lucidez, recusando toda a carga de tédio que poderia entorpecê-lo, anulá-lo, ou aliená-lo numa velhice que poucos conseguem aceitar, ainda mais ele tão persistentemente jovem no seu pensamento irreverente, loquaz, cheio de uma ciência gaiata.

Para intelectuais como ele o melhor pensamento será sempre uma ação racional perante o mundo real.

Meu respeito por ele como intelectual deriva do fato de que ele fez escolhas, saltando do confortável mundo acadêmico, onde muitos intelectuais atolam numa mediocridade confortável, para o mundo da crítica cultural através do rádio, com sua dinâmica aleatória, delirante, e tão completamente carnavalesca. Provavelmente foi isto que permitiu que ele vivesse os últimos anos de sua vida dignamente, com trabalho, criatividade e, possivelmente, até alguma felicidade intima. Falo daquela felicidade possível aos homens muito inteligentes.

Meu respeito por ele vem também de sua personalidade idiossincrática, de suas ideias mirabolantes e engraçadas, de suas concatenações inesperadas, de suas abstrações lógicas ou ilógicas, mas que nos faziam pensar. Vem, também, do testemunho que posso dar de sua generosidade, do seu senso de justiça, e do seu empenho em apoiar moralmente todos àqueles que eram perseguidos e vilipendiados.

Morreu fazendo uma escolha, dentro das escolhas possíveis com que ele poderia reafirmar sua própria dignidade.

 

 Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do MAE/Ufba


Mostra traz filmes sobre religião

postado por Cleidiana Ramos @ 12:05 PM
21 de maio de 2009
Sodré é um dos palestrantes da mostra de cinema sobre religião. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré é um dos palestrantes da mostra de cinema sobre religião. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Final de semana com boas opções culturais dentro deste universo afro.  De amanhã, sexta,  até o próximo dia 28, na Sala Alexandre Robatto (Biblioteca Pública dos Barris), acontece uma mostra de filmes sobre religião.

As produções são todas sobre ritos de passagem. A organização é da Arquidiocese de Salvador, via a sua Pastoral da Comunicação, em parceria com a  Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Dimas).

O evento chega a Salvador, com curadoria de César Sartorelli, organizador de uma das cinco maiores mostras sobre o tema no mundo.

São 31 filmes. A primeira exibição,  às 19 horas de amanhã, é de Dança das Cabaças – Exu no Brasil feito por  Kiko Dinucci. Também serão exibidas obras originárias de países como Canadá, Irã, Israel, Itália, Bangladesh, Holanda, França, México, Suíça, Rússia e Uzbequistão.

Além dos filmes, o público pode conferir debates sobre os temas abordados. No sábado, às 17 horas,  a discussão é sobre a importância dos ritos de passagem na dinâmica da vida e da morte, com a participação  do professor Jaime Sodré, do sheik Ahmad Abdul e do padre Clóvis Santos.

No domingo, no mesmo horário, o debate é sobre os ritos de passagem e a visão das ciências, com palestras da psicóloga Ana Cecília de Sousa Bittencourt Bastos e do antropólogo Roberto Albergaria. A entrada é gratuita. Para a programação completa e mais informações clique aqui .

Já no Teatro tem mais um temporada de Cabare da RRRRaça, encenado pelo Bando de Teatro Olodum. A primeira sessão é amanhã, sexta, e as apresentações prosseguem até o dia 31, no Teatro Vila Velha. 

A discussão sobre racismo e suas consequências é embalada por um humor cortante e números musicais. Cada dia tem um convidado especial. A primeira é  Mariene de Castro seguida de Juliana Ribeiro, Magary, Pretubom, Graça Onasilê (do Ilê Aiyê) e Manuela Rodrigues. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)