Seminário destaca história da nação angola na Bahia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:21 AM
21 de outubro de 2010

Seminário destaca história da nação angola na Bahia, com destaque para a vertente denominada angolão paquetan que tem Tata Mutá Imê como um dos representantes. Foto: Aristides Alves| Divulgação

Hoje, às 19 horas, no Museu Carlos Costa Pinto, Corredor da Vitória, tem o seminário sobre a nação angola na Bahia. O debate vai ser conduzido pelo Tata de Inquice, Mutá Imê, o  doutor em Antropologia, Renato da Silveira, eu e a diretora do Ceao e coordenadora do Grupo de Capoeira Nzinga, Paula Barreto.

O seminário é mais uma atividade para marcar o lançamento dolivro A Casa dos Olhos do Tempo que Fala da Nação Angolão Paquetan. A publicação traz artigos sobre a história do candomblé angola na Bahia, a linhagem do Terreiro de Mutá Lambô ye Kaiongo, comandado por Tata Mutá, informações sobre etno-botânica religiosa, dentre outras.

No museu também estão em exposição as fotografias sobre o terreiro feitas pelo fotógrafo Aristides Alves que é o coordenador da publicação.  A exposição fica até o dia 20 de novembro e pode ser visitada de segunda a sábado, exceto na terça-feira, das 14h30 às 18 horas


Homenagem à Nação Angola

postado por Cleidiana Ramos @ 11:41 AM
19 de outubro de 2010

Livro apresentação detalhes sobre a Nação Angolão Paquetan. Foto: Aristides Alves | Divulgação

Hoje temos, às 19 horas, no Museu Carlos Costa Pinto, Corredor da Vitória, um lançamento de um livro que promete marcar história: A Casa dos Olhos do Tempo que fala da Nação Angolan Paquetan.  O destaque da publicação é contar um aspecto da história do candomblé angola que tem tão poucos estudos disponíveis, apesar da sua importância e pioneirismo no candomblé.

Publicada com o apoio do Ministério da Cultura, via Fundação Cultural Palmares, e organizada pelo fotógrafo Aristides Alves, a obra traz artigo de Renato da Silveira sobre as origens do culto angola no Brasil; um assinado por mim que fala da história da família de santo do Terreirro Mutá Lambô ye Kaiongo; uma análise etnobotânica dos biólogos Aion Sereno Alves da Silva e Ana Paula de Sales A. Alencar, além de ilustrações do professor Marco Aurélio Damasceno.

Além disso, o livro tem um belíssimo ensaio fotográfico feito por Aristides Alves e informações sobre culinária, ferramentas sagradas e um CD que traz os cânticos da nação.

Amanhã tem mais celebração com a abertua da exposição fotográfica de Aristides sobre o Terreiro de Mutá Lambô ye Kaiongo. A exposição fica até o dia 20 de novembro e pode ser visitada de segunda a sábado, exceto na terça-feira, das 14h30 às 18 horas também no museu.

Na quinta-feira tem um seminário sobre a nação angola na Bahia a partir das 19h30 com a participação do Tata de Inquice Mutá Imê; Renato da Silveira, eu e Paula Barreto, diretora do Ceao e coordenadora do grupo de capoeira Nzinga.

Para saber mais sobre o livro, que terá distribuição gratuita, dêem uma olhada na edição do Caderno 2+ da edição de hoje de A TARDE que traz um artigo do jornalista e antropólogo Marlon Marcos.


Consciência Negra 2009: Irmandades negras e poder político

postado por Cleidiana Ramos @ 8:07 AM
23 de novembro de 2009
Renato da Silveira destaca o importante papel político das irmandes negras. Foto: Haroldo Abrantes|AG. A TARDE

Renato da Silveira destaca o importante papel político das irmandes negras. Foto: Haroldo Abrantes|AG. A TARDE

Renato da Silveira

O advento da irmandade negra brasileira tem sido interpretado por muitos estudiosos  influentes como instrumento de conservação da ordem escravista, mero recurso de enquadramento da massa escrava pela política estatal e eclesiástica. Na década de 1940 pesquisadores prestigiosos criaram e nas décadas seguintes outros tantos caucionaram a versão ainda predominante: as irmandades afro-brasileiras teriam assumido um caráter étnico porque assim foram organizadas pela Igreja para facilitar a catequese e pelo Governo para aplicar uma máxima maquiavélica: dividir para reinar.

Os colonialistas portugueses teriam sido, além do mais, beneficiados pela ingenuidade política dos africanos escravizados, entretendo-os com solenidades pomposas e cargos fictícios em associações lançadas em competição umas contra as outras, impedindo a possibilidade de sua união contra a ordem escravista e assegurando a dominação da população branca minoritária: esta é a paupérrima interpretação oficial de uma riquíssima parte da nossa história.
Ora, tais irmandades eram integradas pelos “leigos”, pelos civis, diríamos hoje. Brancos, negros e mestiços, nobres e plebeus, todos tinham suas irmandades particulares; ao todo, no início do século XIX a cidade da Bahia contava com uma centena de irmandades, sendo trinta e seis integradas exclusivamente por negros, africanos e crioulos, escravos e libertos.

Ou seja, a quase totalidade da população urbana colonial pertencia a uma irmandade, verdadeira instituição do Antigo Regime, com numerosas funções sociais importantes. Considerada contudo como “instrumento”, a irmandade vê depreciado o seu caráter institucional, sua natureza complexa, seu papel de fundamento social durante séculos, em todas as sociedades cristãs, propondo-se em seu lugar um conceito de instituição como ferramenta, algo monolítico e estático que poderia ser manipulado pelos poderosos ao bel-prazer.

Entretanto, nas três últimas décadas uma reação vem sendo esboçada contra tal caricatura, bons pesquisadores de diversas origens têm trazido fartas contribuições para o conhecimento da sociedade escravista brasileira em todos os seus níveis. Assim, teorias mais avançadas reconhecem que, ao entrar em uma irmandade, o africano estava integrando-se a uma organização oficial talhada para a plebe negra discriminada, participando sem dúvida de modo subalterno da vida política da colônia, porém enquanto sujeito ativo, podendo tornar-se dirigente de uma organização capaz de tomar iniciativas imprevisíveis, deixando portanto essa sua participação de ser interpretada como prova incontestável de apatia e subserviência.

Movimentação Cívica

Sabemos hoje que a famosa “divisão” por etnias foi na verdade muito mais complexa do que tal interpretação artificiosa pretende. Em meados do século XIX a Irmandade do Rosário dos Pretos das Portas do Carmo (hoje Pelourinho), considerada angolana, tinha integrados ao seu quadro social membros provenientes de pelo menos oito grupos étnicos africanos; na Irmandade do Rosário de João Pereira os benguelas do sul de Angola, no ato de fundação, instituíram uma divisão do poder com os jejes da África Ocidental, que nem sequer eram seus vizinhos em território africano; já a Irmandade do Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção da paróquia da Praia (Cidade Baixa), fundada pelos jejes e oficializada em 1752, tornou-se posteriormente uma aliança entre os fundadores e os luandas da África Central, pluralizando-se em seguida, inclusive com a divisão do poder entre todos os participantes, brancos e negros, africanos e crioulos, para voltar a ser exclusivamente controlada pelos jejes em meados do século XIX.

Ou seja, a documentação revela uma movimentação cívica muito intensa da parte dos africanos, alianças entre grupos étnicos que só aqui travaram conhecimento, revela reservas de poder intituídas por grupos fundadores segundo critérios próprios, muito distantes portanto da divisão étnica obrigatória da versão oficial, imposta de cima para baixo. Porém, mesmo com a versão oficial cada vez mais desacreditada, alguns desencontros ainda podem ser flagrados nas teorias recentemente surgidas.

Por um lado temos a fragmentação das disciplinas científicas e os recortes promovidos pelos programas de pós-graduação, que separam arbitrariamente o que, no movimento da realidade, está indissoluvelmente ligado, empurrando para campos de estudo diferentes aquilo que na vida social é complementar. Por exemplo, importantes pesquisas recentes sobre o sistema imperial português têm priorizado o que a filosofia política clássica chama de “esfera da política”, ou seja, o Estado, o governo, os partidos políticos e as instituições da administração pública; e a Igreja, com toda uma gama de funções político-jurídico-administrativas imprescindíveis naquele contexto.Por essa pista grandes avanços foram realizados: hoje sabemos com detalhes do funcionamento, dos limites e das múltiplas contradições internas das organizações centrais do Estado….

Mas nesse campo de estudos nenhuma atenção tem sido dada à relação dessas instâncias com as organizações segmentadas da população, particularmente com as “nações” africanas e as irmandades negras, que são algumas das bases políticas da sociedade escravista. Quando se sabe que, para alguém tentar uma carreira política, tinha de dar prova de competência como juiz de alguma irmandade, é um pedaço significativo do sistema político que é negligenciado.

Por outro lado o estudo das irmandades desenvolvido sob a etiqueta da cultura, com ênfase na festa africana no Brasil colonial, bem como a antropologia das religiões afro-brasileiras, salvo honorabilíssimas exceções, pouca ou nenhuma atenção têm dado à irmandade leiga enquanto aspecto fundamental da estrutura política do Império Português, precursora da organização burocrática moderna, antecipadora do que chamaríamos hoje de sociedade civil, lugar privilegiado para a formação de lideranças plebéias e legitimação das instâncias básicas de exercício dos poderes.

Na sua longa trajetória através da história da Europa a irmandade de leigos, sempre mantendo a forma de culto sagrado, preencheu diversas funções sociais importantes, funerárias e assistenciais, sindicais e recreativas, econômicas e financeiras, funções mantidas nas sociedades coloniais fundadas no Novo Mundo.

A importância de tal instituição vinha sem dúvida do seu caráter plurifuncional, sem o apoio que fornecia às necessidades básicas das massas urbanas, naquela época a vida em sociedade seria simplesmente inviável. Mas se ela foi, durante séculos, uma das principais organizações de reprodução da sociedade oficial, podendo por isso ser considerada uma instituição conservadora, por outro lado envolveu-se historicamente em vários tipos de conflito político, ficando cada vez mais claro que estamos tratando não só de um modo de enquadramento da base social antiga, mas também de uma retaguarda orgânica do movimento social, base operacional onde eram geradas lideranças alternativas, reivindicados direitos, reprocessada a cultura diaspórica africana, mantida uma ativa vida semiclandestina, e portanto uma organização potencialmente de contestação da ordem estabelecida.

Dessa maneira observada a irmandade negra ajuda a compor um quadro mais dinâmico e interessante do nosso passado, desmistificando, de quebra, outro estereótipo depreciativo ao enfatizar a trajetória de lutas do povo brasileiro.

Renato da Silveira é doutor em antropologia e professor da Ufba.


Sociedade Protetora dos Desvalidos festeja 177 anos

postado por Cleidiana Ramos @ 8:12 PM
17 de setembro de 2009
Um registro do salão nobre da sede da Sociedade, sediada no Largo do Cruzeiro de São Francisco em Salvador. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Um registro do salão nobre da sede da Sociedade, sediada no Largo do Cruzeiro de São Francisco em Salvador. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

No próximo domingo, a Sociedade Protetora dos Desvalidos comemora 177 anos de sua fundação.  A programação festiva  começa com uma missa às 9 horas, na capela da associação, seguida da cerimônia de posse da nova diretoria que tem como presidente Jesus Dias dos Santos.

A sede da Sociedade fica no Largo do Cruzeiro de São Francisco, nas proximidades do Terreiro de Jesus, no Centro Histórico de Salvador.  Na segunda-feira, às 9 horas, acontece a missa em memória dos sócios já falecidos.

A Sociedade dos Desvalidos é uma das instituições negras de solidariedade que funcionaram durante o período de escravidão. Sua principal função era dar assistência tanto para a compra de alforria como para casos de invalidez, além de oferecer amparo à família dos que morriam.

Criaram assim as bases para o que a gente conhece hoje como sistema de previdência e poupança. Os caixas- aquele sistema de juntar dinheiro entre amigos, favorecendo um a cada mês que hoje ainda acontecem- são uma tênue lembrança do modo como estas instituições administravam a contribuição dos sócios.

Quem deseja saber mais sobre associações como a Sociedade dos Desvalidos e a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ainda atuantes, deve conferir o livro O Candomblé da Barroquinha, do doutor em antropologia Renato da Silveira.