Balaio de Ideias: Não dá para ser mais ou menos a favor da vida

postado por Cleidiana Ramos @ 10:21 AM
24 de agosto de 2015
Maíra Azevedo analisa debate sobre aborto. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Maíra Azevedo analisa debate sobre aborto. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Maíra Azevedo

Em defesa da vida! Esse é um dos primeiros argumentos utilizados pelas pessoas e grupos que se posicionam contra a legalização do aborto no país. Sim, é importante defender o direito a vida e assegurar que todas as pessoas tenham, de fato, a condição de manter-se vivo.

A cada dois dias, uma brasileira (pobre e ouso afirmar que seja também negra) morre por ter sido submetida a um aborto inseguro. Esse sim, um problema de saúde pública associado à criminalização da interrupção da gravidez e à violação dos direitos da mulher. São elas que são culpadas e responsabilizadas cada vez que um aborto é realizado. O nome dos seus parceiros, dos pais das crianças, não entram no processo. Por isso, criminalizar o aborto é condenar essas mulheres várias vezes, que já sofrem com o abandono dos homens, pelo atendimento nos hospitais públicos, pelo preconceito instaurado e pela dor de ter que escolher pela vida.

Outra situação que merece ser desmistificada é que nem todo aborto clandestino é inseguro. Existem clínicas especializadas em interromper gravidez instaladas em bairros nobres, que cobram caro pelos seus “serviços”. Afinal, fazem o procedimento com todas as condições de higiene, por médicos treinados, basta a mulher ter dinheiro para pagar. O aborto inseguro é aquele realizado sem nenhum tipo de higiene ou condição necessária, muitas vezes em locais insalubres. E é aí que novamente condenamos apenas as mulheres pobres.

E depois de condenar as mulheres pela prática do aborto, é chegado o momento de negar o direito de se manter vivo aos seus filhos. É no mínimo contraditório defender o direito de nascer e em seguida matar a nossa juventude. Sim, matam nossa juventude cotidianamente, eliminam-se talentos,quando se defende a redução da maioridade penal ou se cala diante ao genocídio da juventude negra.

É preciso ter coerência, defender um Estado que assegure todos os direitos. Acesso a saúde pública, a segurança, educação, cultura, lazer. Não se pode ser mais ou menos a favor da vida.

Maíra Azevedo é jornalista do grupo A TARDE