Balaio de Ideias: Omi-as Águas Lustrais

postado por Cleidiana Ramos @ 11:43 AM
12 de setembro de 2011

Jaime Sodré faz alerta sobre poluição das águas em Salvador. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE| 01.11.2010

Jaime Sodré

O professor Manoelito, homem bom e velejador, avisou-me: “Nem passe lá, ela está uma fera”. Não era nada comigo, Diolinda Santana da Conceição Soares e Souza é a nossa querida Dona Dió, fervorosa na fé e na prática. Estatura magra e miúda, mas de temperamento forte, que o Caboclo, certa feita, a fez fechar a mão, rígida, com uma nota de cem e ninguém conseguiu abri-la ou arrancá-la.

Nesta cidade pouca coisa lhe interessava, nada de VLT, BRT, Metrô, Modal, Via Exclusiva, Copa… o negócio dela são as águas.

Aborrecida estava, pois o sacerdote consultado receitou flores amarelas, postas respeitosamente em um riacho, caudaloso, limpo e vivo em Salvador. A sua ira se justificava: onde encontrar tal relíquia aquática? Preparara o belo e vistoso arranjo sob a supervisão de Binho, sobrinho e militante ecológico, que advertira: “Tia, tudo biodegradável, viu?”. Veio o impasse, onde “arriar”? O tempo de águas límpidas era só lembrança.

Dona Dió é assim, uma espécie de mãe de “nós todos”, aconselha-nos desde as sequelas da “espinhela caída”, como na atuação no campo da “psicanálise popular” a desvendar os nossos intricados sonhos, inclusive com sugestões lotéricas, deixando-nos pilotar uma xícara esmaltada do seu saboroso café.

Um filho desta solidária senhora “não foge à luta”, decide buscar ajuda com os “universitários”, os professores Bete Santos, Luiz Roberto Moraes e José Antonio Pinho. Mergulhei no livro Caminhos das Águas em Salvador, elaborado levantamento das bacias hidrográficas e fontes urbanas, mapeando e delimitando os bairros soteropolitanos.

O principal objetivo desta publicação consiste em caracterizar a qualidade das “doces águas” daqui, alertando para barrar urgentemente o processo de degradação, este a olhos vistos.

A pesquisa abordou várias bacias e em 60 pontos foram realizadas coletas, inclusive nas ilhas, e encaminhadas para o laboratório da Embasa analisando-se coliformes, termo tolerantes, condutividade, fósforo total, nitrato, óleos, graxas etc. Atribuindo notificação de péssimo, ruim, regular, aceitável e bom. Salvador tem hoje 12 bacias hidrográficas (ver livro).

Ao longo do tempo foram lançados esgotos, fonte principal de poluição, e resíduos tóxicos nestas águas mortificando a fauna e a flora. É fácil constatar que estamos perdendo uma riqueza natural fantástica. Esgotos, resíduos industriais indiscriminadamente lançados além da urbanização depredatória, parecem indicar a ausência de uma política para as águas somada à insensibilidade dos maus cidadãos.

Na Europa, rios foram recuperados o que, guardando as devidas realidades, nos serve de exemplo. A eficiente repórter Camila França nos fornece subsídios para analisarmos a possibilidade do enfretamento do problema, informando que a Sucom tem apenas “99 fiscais para cerca de três milhões de habitantes”, e aponta como uma das regiões mais degradadas e críticas da cidade de Salvador a Bacia do Mané Dendê. Considerado espaço sagrado das religiões de matrizes africanas, de importância histórica e cultural, conhecida como Parque de São Bartolomeu, uma área de proteção ambiental com seus rios e cachoeiras poluídos.

O trabalho aqui mencionado preocupou-se com as fontes dos terreiros de uso ritual, que também apresentou problemas. Aucimaia Tourinho, da Escola de Engenharia da UFBA, merece honrosa citação, pois fora responsável pelo trabalho de caracterização das fontes, defendendo tese.  Munido de argumentos fui enfrentar a “fera D. Dió”.

“Nosso Senhor mandou bom dia”. “Vá entrando, que Deus te abençoe, vou preparar o café”. Informei-lhe da tragédia das águas e a impossibilidade dela realizar a oferenda aqui na Capital, mas trouxe-lhe uma boa notícia, os rios da Ilha de Maré e Ilha dos Frades estão com boa qualidade de água.

Disse-me, alegre: “É pra lá que vou, o santo está em todo lugar. Mas nós, que cultuamos as águas, precisamos defendê-la. Eu agora só arreio presente bio… ah, com esse negócio aí que Binho falou”. Exaltada, D. Dió intimou-me a entrar na luta ecológica. Já estou dentro.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do Candomblé


Para adoçar o final de semana

postado por Cleidiana Ramos @ 5:06 PM
17 de junho de 2011

Escolhi como vídeo de hoje, Maria Bethânia cantando Ofá e É D´Oxum. Permitam-me um pouquinho de nepotismo nessa homenagem à Senhora das Águas Doces. Tenho certeza que meu amigo Marlon Marcos, colaborador do Mundo Afro, vai ficar duplamente feliz.


Festa no Terreiro Santa Bárbara

postado por Cleidiana Ramos @ 8:32 PM
28 de abril de 2011

Pai Valdemir comanda o Terreiro Santa Bárbara. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 22.06.2009

O Terreiro Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, está em festa neste final de semana. No sábado, dia 30, às 20 horas, tem a comemoração para Mutalambô.

No domingo dia 1º, acontece o tradicional presente para Oxum. O cortejo sai do terreiro em direção à Lagoa do Abaeté, a partir das 15 horas.

Cinco ônibus serão disponiblizados para o transporte dos participantes. O Terreiro Santa Bárbara fica na Rua do Araqui, 22, Lauro de Freitas (3369-0013).


Balaio de Ideias:O Dia de Oxoguian: para a festa não ter fim…

postado por Cleidiana Ramos @ 1:21 PM
26 de janeiro de 2011

Vilson Caetano relata características de Oxaguiã. Foto: Fernando Amorim | Ag.A TARDE| 22.09.2006

Vilson Caetano

Oguian, ou simplesmente Oxoguian, é um dos orixás mais emblemáticos do candomblé. Sobre ele também recai uma série de segredos rituais guardados pelos terreiros, embora muitas coisas já se tenham escrito. Acredita-se que Oxoguian liga-se à música e, como os orixás Xangô e Oxun, adora festas, razão pela qual ele recebe musicas especiais nas nações ijexá e fon, reinos africanos que emprestaram seus nomes a ritmos.

Anteriormente já mencionamos que Oxun combinou os sons, formou as notas e inventou a música. De acordo com uma de suas histórias, ela teria dançado pela primeira vez na presença do rei e fez todo o mercado lhe acompanhar. Teria sido por este motivo que Iya Caetana, filha de Oxun, a fim de agradar Oxoguian, certa ocasião, enviou clarins para  homenagear o orixá de sua amiga Massi, então Iyalorixá do Engenho Velho, ato que vem se popularizando nos terreiros de candomblé de todo o  Brasil.

Os mitos afro-brasileiros sobre este ancestral nos permitem perceber que Oguian liga-se a comida. A sua festa é o ponto culminante do  chamado Ciclo das Águas, representado pelos inhames novos presenteados pela terra após um período de dificuldades. Oxoguian, assim, é o dono do pão. É ele quem garante o nosso sustento de cada dia representado pelas raízes.

Oxoguian em momentos de crise representa a estabilidade; em ocasiões de guerras, a estratégia; na tristeza é a alegria, no fim é o recomeço.

Oxoguian é o orixá do renascimento. Tudo que forma um ciclo se mantém graças a ele. Este é o motivo pelo qual no dia a ele consagrado se realiza uma pequena procissão. Ele representa a volta para a casa, a estabilidade dos grupos que até então vagavam sem destino.

Oxoguian põe um ponto final no fim e inaugura aquilo que é infinito, pois diante dele tudo é recomeço. Está explicado o porquê, após a sua festa, a liturgia afro-brasileira passa a celebrar os orixás considerados civilizadores como Exu, Ogun, Ode, Ossain e Obaluaiyê.

Oxoguian realiza a passagem entre os chamados ancestrais fundadores da humanidade e aqueles que se ligam à fixação dos primeiros reinos. Este fato é ilustrado na história que diz que Oxoguian saiu pelo mundo a fim de expandir a sua cidade e ao retornar transformou Ejigbô numa grande cidade.

Desta maneira, Oguian liga-se a vários ancestrais. De acordo com suas histórias, ele teria passado em Irê, a terra de Ogun e graças à sua inteligência idealizou armas forjadas pelo ferreiro dos orixás. A amizade entre o povo de Ejigbô foi tanta que Ogum, certa ocasião, se ofereceu para ir à frente de uma batalha lutar pelo povo de Oguian que na volta foi aclamado senhor.

Diz-se também que o orixá que adora inhames é amigo inseparável de Oyá, com quem anda sem pisar no chão, levado pelo vento que lhe conduz a todos os lugares.

Com o orixá Xangô, coluna central do culto reorganizado no Brasil pelos iorubas e seus descendentes, Oguian se relaciona como outrora os reinos de Ejigbô e Ifon estavam ligados à Oyó, fato relembrado pelo pilão, instrumento de vital importância para a fixação dos grupos na terra.

O pilão como o ferro ilustra uma nova etapa da história da humanidade. A partir dele, pode-se falar em comidas mais elaboradas, preparar  a farinha e conservar melhor os  alimentos. Se o pilão é o centro do mercado, a mão de pilão é o instrumento que repete o movimento que liga o céu à terra, garantindo a nossa permanência através da comida, do pão dado em forma de presente por Oxoguian.

Oxun é verdadeiramente o coração de Oguian. Ela dança também para ele. É Oxun quem vai a frente das mulheres da terra de Ijexá que inventaram um tipo de tambor apenas tocado por elas. Instrumento na sua origem feminino como as cabaças, cujo som remete ao mesmo produzido na vida uterina.

Oxun teria ensinado estes sons para a humanidade, escutando a sua própria barriga. Oxoguian como já falamos, relaciona-se também com os orixás caçadores e caçadoras. Daí a sua relação com Oxossi, considerado líder e cabeça da grande caçada.

Mantém relações também com Ewá, ilustrada  através de uma das passagens míticas mais emblemáticas. Ewá, aquela que tem o poder de transformar-se em qualquer coisa, lhe teria salvo da morte, garantindo assim a continuidade do ciclo da vida.

O orixá que carrega todas as armas, ora caçador, ora rei, ora a guerra, mantém relações também com Iyá ori, conhecida como   Iyemanjá, pois ela é responsável pelo equilíbrio. Iyemanjá é o principio ancestral do significado. Em outras palavras, o mundo só é inteligível, graças àquela que mantém as nossas cabeças.

Por fim, Oguian relaciona-se a Oxalá e todos os ancestrais que representam o começo da humanidade. Talvez tenha sido por isso que os africanos quando reorganizaram o seu culto no Brasil, lhe aproximaram tanto destes, a ponto de em alguns momentos ser confundido com eles.

Oxoguian anda através de passos mais rápidos, determinados. A guerra,a prontidão, o alerta nunca lhe precedem, pois ele é a própria luta, relembrada num de seus títulos de pronúncia mais evitada:  “Baba lorogun”, literalmente “pai da guerra”.

No último domingo, o Terreiro Pilão de Prata celebra a sua principal festa. A casa fundada a meio século cobre-se de azul e branco para homenagear Oxoguian, ancestral a quem o Babalorixá Air José foi consagrado por Tia Massi e sua tia consangüínea Caetana Bangbose.

Este ano, os clarins introduzidos por Mãe Caetana na Casa Branca, soaram mais fortes, pois a casa chamada Ilê Odô Ogê,  completa cinqüenta anos. Segundo o Pai Air, são cinquenta anos de dedicação aos orixás. Cinqüenta anos de gratidão a Oxun. Cinqüenta anos de compromisso com o axé Bangbose.

São cinquenta anos que convidam a comunidade a refletir não sobre os anos que passaram, mas sobre a sua trajetória de vida. Assim, a celebração é de toda casa. Afinal, durante este meio século de história, o maior patrimônio constituído foram as pessoas que em torno do Pilão se reúnem para reafirmar o compromisso de nunca interromper esta festa, garantindo assim a eterna alegria de Oxoguian, verdadeiramente orixá do sorriso.

Vilson Caetano é pós-doutor em antropologia e professor da Ufba


Mundo Afro de volta

postado por Cleidiana Ramos @ 12:41 PM
10 de janeiro de 2011

Pessoal:o Mundo Afro está de volta. Renovado e carregado de torcida positiva assim como 2011.

Para comemorar a nossa volta confiram o vídeo com Gerônimo, Mariene de Castro e Armandinho entoando É d´Oxum, afinal a rainha do ano é a senhora das águas doces.


Balaio de Ideias: Odun Adorin de Pai Air de Oxaguiã

postado por Cleidiana Ramos @ 8:22 PM
24 de setembro de 2010

Artigo celebra os 70 anos de Pai Air. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 09.12.2004.

Vilson Caetano

No último dia 20 de setembro completou 70 anos de vida o Babalorixá Air José Sousa de Jesus,  que recebeu de sua Iyalorixá e tia consangüínea, Caetana Souwzer, o nome carinhoso de Aizinho. Pai Air como é conhecido pelas pessoas é filho de Tertuliana Sousa de Jesus e neto de Felisberto Sowzer,  último Babalawo que a cidade de Salvador teve notícias. Benzinho como era conhecido era homem letrado, falava fluentemente inglês e nas suas viagens feitas, sobretudo ao Rio de Janeiro iniciou várias pessoas. Todavia, a sua maior contribuição para as religiões de matriz africana no Brasil foi a sistematização do método advinhatório chamado Bara ou Merindilogum.

Como filho de Ogun, Benzinho reuniu  dezesseis caminhos chamados Odus com suas respectivas histórias e preparou cadernos posteriormente divulgados ora desconhecendo ou ignorando a sua participação nos mesmos. Felizberto Souwzer era filho de Julia Martins Andrade, tia Júlia, filha consangüínea de Rodolpho Martins Andrade, Bangboxe Obiticô, o jovem trazido por uma das sacerdotisas que estava à frente do Candomblé do Engenho Velho para ajudar a sistematização do culto a Xangô.

Tio Bangboxe participou da iniciação de Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, que em 1910 criou o Ilê Axe Opô Afonjá, hoje centenário. Acredita-se também que o Tio Bangboxe também esteve presente na ocasião da estruturação do  Sítio do Pai Adão em Pernambuco. Pai Air é assim, herdeiro da tradição de sua família, da extensa família de Xangô entrada no Brasil com os primeiros yorubás chegados entre final do século XVIII e meados do século XIX vindos do reino de Oyó recém destruído pelos povos vizinhos.

Pai Air desde cedo sentiu essa responsabilidade. Iniciado ainda quando criança por três mulheres de Oxun, fato que lembra com orgulho, começou desde cedo acompanhar a sua tia e Iyalorixá, Mãe Caetana.  Em 1961 no alto do Caxundé, atual bairro da Boca do Rio, sobre uma duna, quando na região havia apenas poucas casas de taipa cobertas com folhas de coqueiro ou de zinco,Pai Air  com apenas 21 anos de idade concretizou um sonho que completará no próximo ano, cinqüenta anos:  o Ilê Odô Ogê. Uma casa dedicada a Oxoguian, ancestral a quem foi consagrado, a Oxun e a Xangô.

De patrimônio arquitetônico, artístico, histórico  e imaterial inquestionável, o Terreiro Pilão de Prata, como é conhecido,  foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) no ano de 2004. Além de um acervo bibliográfico sobre as religiões de matriz africana, a casa com recursos próprios mantém um Memorial e instalações prontas para serem implantadas oficinas voltadas à comunidade.

Foi o primeiro terreiro a instalar o bosque sagrado, um espaço onde se cultiva algumas plantas rituais que estão em estágio de desaparecimento. Considerado sempre a frente de seu tempo Pai Air é sempre reportado pelo seu bom gosto, requinte, estilo, amor e carinho com que trata os Orixás que sempre quando se refere, faz questão de lembrar: “os Orixás são a minha vida.”

Pai Air é um homem extremamente metódico, acompanhá-lo exige disciplina. É também um homem de poucas palavras, de passos firmes, mas silenciosos, razão pela qual está sempre surpreendendo, até quando se coloca alguém para vigiá-lo. Esse é um dos principais motivos porque, dificilmente, seus filhos conseguem organizar festas surpresas.

Pai Air, não obstante o seu significado para as religiões de matriz africana no Brasil, é muito simples. Várias vezes o ouvi afirmar: “se a pessoa chega até aqui ela não pode sair sem ouvir uma palavra”. Quanto a outras tradições religiosas, Pai Air sempre lembra: “não conheço candomblé, o que sei é aquilo que Mãe Caetana me ensinou”. Com os ensinamentos de sua Mãe de quem nunca se separou, Pai Air segue dizendo: “Orixá para mim é a água que eu bebo, o ar que eu respiro e os olhos que eu enxergo. Oxun para mim é tudo. Ela é a minha maior riqueza”.

Este ano, as comemorações do seu aniversário foram também modestas. Pai Air recebeu  telefonemas e agradeceu aos orixás pela extensa família de santo e amigos que conseguiu acumular durante estes anos, anos de todos os dias dedicados aos Orixás. Isso porque ele sabe que a cada ano que se dobra, a responsabilidade aumenta, agora ele cuida do mundo como Oxoguian e Oxun que toma conta de nós como a galinha protege os pintinhos debaixo de suas asas.

E para que melhor presente do que ter o mundo todo desejando que Iyemanjá transforme os anos que virão em algo  incontável como as areias da praia? Acredito que esse é o desejo de todos e todas que compõem  as extensas famílias do terreiro do Luis Anselmo fundado por Tia Júlia atualmente sobre a liderança de Tia Irenea Sowzer;  do candomblé do Engenho Velho; da casa de Mãe Caetana, chamada Lajuomim e do terreiro Pilão de Prata, casa fundada sobre a proteção do Orixá que desde os primórdios tomou para si a responsabilidade de cuidar do mundo.

Vilson Caetano é doutor em antropologia


Opô Afonjá é invadido novamente

postado por Cleidiana Ramos @ 6:30 PM
2 de janeiro de 2010

A gravidade do assunto me obriga a interromper o recesso do Mundo Afro que iria até a segunda-feira: Voltaram a invadir e profanar um quarto sagrado do Ilê Axé Opô Afonjá.

O colega jornalista, editor de Opnião de A TARDE e blogger do Jeito Baiano, Jary Cardoso, foi quem me ligou para dar esta notícia, pois tinha acabado de receber um e-mail com um relato sobre o acontecimento.  Acabo de confirmar a nóticia com o presidente do Conselho Civil da Sociedade Cruz Santo do Ilê Axé Opô Afonjá, Ribamar Daniel.

Desta vez profanaram o quarto de Oxum e, logo num sábado, dia em que ela é celebrada.  Tudo indica que a invasão foi pela manhã. Remexeram tudo, muito semelhante à invasão que aconteceu em novembro no quarto de Oxalá.

Não é possível que desta vez  não serão adotadas providências enérgicas para conter esta barbaridade. É necessária uma investigação minuciosa para esclarecer quem ou o que está por trás disso.

Vale lembrar que o  Ilê Axé Opô Afonjá é considerado patrimônio nacional, pois tem o reconhecimento nesta categoria pelo Iphan, um órgão do governo brasileiro.

Ninguém desconhece que o Estado é laico, mas ele tem o dever de proteger não só a liberdade de culto, um princípio constitucional, como também o patrimônio cultural do Brasil, categoria em que os templos afro-brasileiros estão incluídos.


Feliz 2010

postado por Cleidiana Ramos @ 4:02 PM
29 de dezembro de 2009

Caros navegantes do Mundo Afro: agradeço a companhia de vocês durante esse primeiro ano e quatro meses de existência deste blog.

Procurei neste período abrir um espaço para a boa informação e o debate saudável sobe questões que interessam à preservação da  cultura, tradição e ancestralidade negras.

Espero contar com a companhia de vocês no próximo ano. Vou estar de licença até o dia 4, para descansar um pouco da minha  jornada anual que foi bem intensa.

Para celebrar este nosso ano juntos postei acima um vídeo com Mariene de Castro e Gerônimo cantando juntos saudações, principalmente, a Oxum, afinal 2010 já começa sob o signo das águas.

No mais, um ano cheio de paz, saúde e votos de que o racismo e a intolerância religiosa sejam vencidos de uma vez por todas. Axé!


Festa no Terreiro Santa Bárbara

postado por Cleidiana Ramos @ 2:10 PM
3 de novembro de 2009
Terreiro liderado por Pai Valdemir festeja Gongobira e Dandalunda. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Terreiro liderado por Pai Valdemir festeja Gongobira e Dandalunda. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Este final de semana é especial para o Terreiro Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas. No sábado a partir das 20 horas, tem festa para Gongobira, uma divindade do candomblé angola que é parecida com  Oxóssi da nação ketu.

Já no domingo completam-se os 25 anos do presente em homenagem a Dandalunda que é depositado pela comunidade do terreiro nas águas da Lagoa do Abaeté. O cortejo vai sair às 9 horas . O Santa Bárbara está reabrindo após mais um ano de luto por conta da morte de Mãe Dazinha, que era a mãe-pequena da Casa.

As festas de Pai Valdemir são famosas pela beleza. Quem quiser saber como chegar ao terreiro Santa Bárbara é só ligar para 3379-3412.             


Afro Imagem 2: Homenagens para Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 8:05 PM
17 de setembro de 2009

 

Foto: Uran Rodrigues | Divulgação

Foto: Uran Rodrigues | Divulgação

Mãe Stella recebeu como um dos presentes pelos seus 70 anos de iniciação religiosa o show de Margareth Menezes, realizado ontem à noite. A programação comemorativa, inciada na semana passada, incluiu a concessão do título de doutor honoris causa da Uneb à ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, inauguração de praça com seu nome nas dependências do terreiro e uma grande festa em homenagem a Oxóssi que é o orixá ao qual ela foi consagrada por Mãe Senhora de Oxum.    


Herdeiros de Mãe Gilda vencem mais um round

postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
20 de agosto de 2009
Mãe Jaciara comanda uma batalha que já dura dez anos. Foto:  Claudionor  Junior |  AG.  A TARDE

Mãe Jaciara comanda uma batalha que já dura dez anos. Foto: Claudionor Junior | AG. A TARDE

O sorriso largo, que já é uma marca da ialorixá Jaciara de Oxum, está ainda mais luminoso. Na última terça-feira, Mãe Jaciara e os outros herdeiros de Mãe Gilda, venceram mais um round do processo que movem contra a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

Na última terça-feira, a Quarta Turma do tribunal rejeitou um pedido dos advogados dos herdeiros para aumento do valor da indenização de R$ 145,2 mil por danos morais. O que pode parecer uma derrota na verdade é ganho, pois o STJ ratificou a sua decisão de condenação da Iurd, publicada em setembro  do ano passado.

Para ficar mais claro: os advogados entraram com uma medida chamada embargo de declaração. Para os ministros do tribunal, a Lei que rege os processos não permite que este tipo de recurso arbitre sobre a questão de aumento da indenização, por exemplo.

Mas ao mesmo tempo os juízes mantiveram tanto a obrigatoriedade de que a Iurd pague aos herdeiros, como também publique na Folha Universal a sentença. Explicaram-me que isso chama-se manutenção do mérito da sentença, ou seja, mais uma confirmação da condenação, daí  porque os herdeiros têm motivo para festejar.

Mãe Jaciara e os outros herdeiros  têm contado com a assessoria jurídica dos integrantes da Associação de Advogados dos Trabalhadores Rurais do Estado da Bahia (AATR),uma entidade com uma longa história de defesa de comunidades que sem este apoio não poderiam ter acesso aos meandros da Justiça.

Ainda nesta questão jurídica vale esclarecer também um aspecto desta ação que muita gente questiona que é a diminuição dos valores da indenização que passou da primeira, fixada em R$ 1,4 milhão, para R$ 145,2 mil. O problema é que, num entendimento mais geral destes chamados tribunais superiores, indenização por danos morais não pode servir para fins de enriquecimento. Os ministros destes órgãos temem que isso gere uma avalanche de ações.

Além disso valorar um dano moral é um desafio do ponto de vista jurídico, afinal como estipular quanto custa a honra de alguém? Assim para o juiz Clésio Rômulo, responsável pelo julgamento em primeira instância, era necessário um pagamento de R$ 1 para cada exemplar que a Iurd declarou ter rodado do seu jornal onde aparecia a agressão a Mãe Gilda. 

A Iurd tinha declarado um total de 1,4 milhão de exemplares, daí a decisão do juiz por uma indenização de R$ 1,4 milhão. Só que todo mundo já sabia que à medida que a ação fosse avançando os valores iriam cair. Por isso não pensem que Mãe Jaciara e os outros herdeiros ficaram ricos.

A segunda fase do processo, no Tribunal de Jutiça da Bahia (TJ), fixou uma indenização de R$ 980 mil. Já o STJ fixou um parâmetro de R$ 145,2 mil.

Mas vale ressaltar que, indepedentemente dos valores, todas essas decisões são históricas, pois é a primeira vez que um caso de intolerância religiosa, envolvendo uma instituição, no caso a Iurd, ganha, além de repercussão, decisões judiciais muito claras. Nesta trajetória já lá se vão dez anos de batalha. Mãe Jaciara, incansável, agora fala mais aliviada após estas conquistas: 

“Passei por dificuldades e muito sofrimento. Eu cheguei a perder o emprego de gerente de uma grande rede de supermercados aqui em Salvador, além de receber ameaças por telefone, mas não desisti”, conta Mãe Jaciara. Em 2003, ela foi recebida em audiência pelo presidente Lula. “Essa vitória é de  todo o povo de santo. A nossa luta mostrou que é possível ver a Justiça acontecer neste país, mesmo enfrentando um grupo tão poderoso”, disse a ialorixá.

Em 2004, o dia da morte de Mãe Gilda ( 21 de janeiro) se transformou no Dia de Combate à Intolerância Religosa em Salvador, por conta de um projeto da vereadora Olívia Santana (PCdoB). O deputado federal, Daniel Almeida, com base no projeto de sua colega de partido, Olívia, criou uma medida semelhante que resultou no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que passou a vigorar a partir de 2007.  

Para quem não conhece a história, tudo começou em 1999 quando o jornal Folha Universal publicou uma matéria intitulada Macumbeiros Charlatães ameaçam a vida e o bolso dos clientes. A matéria era ilustrada por uma foto de Mãe Gilda que depois se apurou que foi tirada numa manifestação pelo impeachment de Collor em Salvador.

A ialorixá, que já tinha sofrido a agressão de duas invasões do seu terreiro por evangélicos, começou a apresentar mais problemas de saúde. Em 21 janeiro de 2000 ela morreu, após sofrer um infarto.

Em tempo:  a Iurd, apesar de procurada, não se pronunciou sobre o assunto.    


Seção em formato especial

postado por Cleidiana Ramos @ 11:04 AM
30 de abril de 2009

Como vocês vão notar aí abaixo o artigo da nossa seção Balaio de Ideias (desculpem, mas só agora percebi que estava usando a grafia anterior ao famigerado acordo ortográfico e, portanto, com acento, mas já corrigi) está maior do que de costume. A expcepcionalidade é porque o autor do artigo, o professor Jaime Sodré, disponibilizou um texto com base histórica sobre Mãe Menininha e que, como ele mesmo indicou, pode servir de base para conteúdos relacionados à aplicação da Lei 10.639/03.  O final do texto, inclusive, tem referências da origem das informações. Aproveitem então.  


Balaio de Ideias: Mãe Menininha do Gantois- Iyá Mi Oxum*

postado por Cleidiana Ramos @ 10:57 AM
30 de abril de 2009
Sacerdotisa inspirava a doçura característica de Oxum, orixá a qual era consagrada. Foto: Arquivo A TARDE

Sacerdotisa inspirava a doçura característica de Oxum, orixá a qual era consagrada. Foto: Arquivo A TARDE

Jaime Sodré

Para ser aplicado no uso da Lei 10.639/08.

“Os candomblés estão batendo/Foguetes explodem no ar/Em louvor a Menininha/Senhora Mãe e Rainha do Gantois/ Pelo seu aniversário/ De cinquentenário de iyalorixá/ Oh,oh,oh. Salve Mamãe Oxum/ Salve meu Pai Xangô/Cinquentenário de Batalha/Cinquentenário de fé/ Desde quando recebeu/ Os poderes de Maria dos Prazares Nazaré/ Sua vidência se alastrou Iyaô, Iyaô, Iyaô/Sacerdotisa de uma raça/Rainha de uma nação/Na luta em defesa dos descrentes/Ela sempre estendeu suas mãos/Hoje os candomblés estão batendo/Pra seu nome venerar/Iyami Modijubá/Salve o seu axé/seu candomblé/no alto do Gantois. .[1]

Ederaldo Gentil, inspirado compositor baiano, sintetizou, neste belíssimo samba, um acontecimento que mobilizou os diversos segmentos da Cidade de Salvador em 1972: o centenário de sacerdócio de Maria Escolástica Nazaré, a festejada Mãe Menininha do Gantois, a “Oxum mais bonita”, como afirmaram os versos de outro compositor famoso, Dorival Caymmi. Assim era Menininha, cantada em verso e prosa mas, acima de tudo, respeitada e reverenciada. Vamos nos valer de um depoimento efetivado por Mãe Menininha, junto ao etnólogo Valdeloir Rego, para nossas acertivas.

Nascida a 10 de fevereiro de 1894, na Rua da Assembléia, entre a Rua do Tira Chapéu e a Rua da Ajuda, no Centro Histórico de Salvador, Menininha teve como pais Joaquim e Maria da Glória Assunção. A sua família era dedicada ao culto dos Orixás, possuindo linhagem nobre, com raízes localizadas em Agbeokuta, na Nigéria, de onde vieram os pais de Maria Júlia da Conceição Nazaré, fundadora do Terreiro de “nação” Keto na Bahia, esse Terreiro que, da Barroquinha, zona central de Salvador, transferiu-se para um terreno, arrendado à família Gantois, localizado no bairro da Federação.[2]

Maria Escolástica, nascida no dia de Santa Escolástica, foi iniciada nos ritos africanos com a idade tenra de oito meses de nascida, oportunidade em que sua tia e antecessora, Pulcheria da Conceição Nazaré, conhecida como Kekerê, numa alusão à sua titulação hierárquica ocupando o cargo de Iya kekerê (Mãe pequena), vaticinou: “É filha de Oxum”, e a profecia concretizou-se. Oxum é a Deusa da beleza e do rio. Oxum, na Nigéria, é um Orixá muito popular e é cultuado em Salvador com extrema devoção.

A 18 de fevereiro de 1922, “a estrela mais linda do Alto do Gantois” inicia a sua trajetória religiosa, tendo recebido o poder místico diretamente de Oxóssi, Deus da Caça, rei de Keto, e de Xangô, Deus do Fogo e do Trovão, rei de Oyo, secular capital do povo yoruba.

Assumir a liderança do Ilê Iya Omin Axé Iyamassé, o Terreiro do Gantois, com pouca idade não se daria sem a natural polêmica. Além do mais, normalmente, o Axé, ou seja, o poder místico para exercer o cargo de Mãe-de-santo, é passado por outra Mãe-de-santo, qualificada para tal. Os ânimos foram apaziguados porque foram os Orixás que realizaram a escolha: “Os Orixás quiseram logo escolher quem ficaria tomando conta da Casa. E eles mesmos me deram posse, não foram pessoas não. Primeiro foi Oxóssi, depois Xangô, Oxum e Obaluaê. Eles me deram esse cargo de felicidade que estou ocupando até o dia em que Deus quiser,”[3]  comentava.

Menininha sucedeu Maria Pulchéria, que havia falecido, um grande nome, merecedor de um estudo aprofundado.De um candomblé situado no Barroquinha, fundado pelos africanos Babá Assiká, Babá Adetá e Iya Nassô, nasceu o Ilê Iya Nassô, conhecido como candomblé do Engenho Velho, a famosa Casa Branca, e o Axé Iyamassé, titulação litúrgica do também famoso Candomblé de Menininha. Maria Júlia da Conceição Nazaré, que carregava orgulhosamente sobre sua cabeça o Orixá Bayani, irmão de Xangô, foi a fundadora deste respeitado templo da religiosidade afro-brasileira.

O nome de Maria Júlia, em nagô, era Omonikê; sua mãe chamava-se Akalá e o seu pai Okanrindê, nascidos em Akê, local onde fica o Palácio do rei de Agbeokuta, na Nigéria. Akalá tinha como orixá (dono de sua cabeça) Nanã Buruku, e Okanrindê possuia como orixá Aganju e ocupava, junto ao rei, um alto cargo intitulado Assolu Obá.

Reafirmando sua qualidade de estar sempre integrada aos fatos do seu tempo, Mãe Menininha abordava diversos aspectos que interagiam com seu cotidiano, o que deslumbrava sua visão de mundo e o contexto social circundante às suas atividades de sacerdotisa.

A respeito de seu carinhoso apelido, dizia: “Não sei quem pôs em mim o nome de Menininha… Minha infância não tem muito o que contar… Agora, dançava o candomblé com todos desde os seis anos”, o que revela uma precocidade bem vinda e um acúmulo de conhecimentos, revelados importantes em sua idade madura, no exercício do cargo de Iyalorixá.

Referindo-se aos tempos sombrios do violento preconceito e perseguições ao culto afro-brasileiro, assim expressava-se: “Eu tinha 22 anos no tempo da perseguição violenta da polícia aos candomblés, não era Orixá nem Mãe-de-santo. Foi uma época dura.” Identificando os algozes deste período brutal, e caracterizando sua atuação, dizia: “Um delegado que conhecemos muito, Dr. Pedro de Azevedo Gordilho, incomodou muitos pequenos candomblés.”

Mais tarde, recebe a convocação para o exercício de sua vida de liderança religiosa: “Quando os Orixás me escolheram, não recusei porque respeito muito a seita… Esta obrigação é árdua, não é uma coisa que se pegue com uma mão só… Isso é uma coisa de grande responsabilidade”. Dizia, consciente da grande missão que os Orixás lhe reservaram.

Contemporânea de figuras memoráveis do candomblé, Mãe Menininha respeitava-as, porém sabia da sua capacidade e conhecimentos para uma tarefa tão importante: “Conheci os grandes candomblés da Bahia…  Conheci as grandes Mães-de-santo: a do Engenho Velho, Ursulina; a outra, Senhora Marcelina; dona Aninha do Axé Opo Afonjá… Apesar de ter sido escolhida pelos Orixás muito nova, nunca precisei pedir conselhos às outras Iyalorixás”, dizia com uma discreta ponta de orgulho, porém sem perder a humildade, sua maior característica.

Em reconhecimento à dedicação integral à sua missão sagrada, caracterizada pela solidariedade aos que a procuravam em busca de auxílio, pessoas de todos os níveis sociais eram atendidas em suas aflições e incertezas, seus amigos registraram os seus 50 anos de sacerdócio com uma placa de bronze, com a seguinte inscrição: “Nesta casa de Candomblé da Sociedade São Jorge do Gantois, Ilê Iya Omin Axé Iymassê, situado no Largo da Pulchéria, no Alto do Gantois, há 50 anos, Dona Maria Escolástica da Conceição Nazaré, Mãe–de-santo Menininha do Gantois, zela do alto do seu posto de Ialorixá, com exemplar dedicação e perene bondade, pelos orixás e pelo povo da Bahia”. Estava registrada em metal nobre, o bronze de Oxum, uma história de dedicação ao próximo, à tradição afro-brasileira e aos Orixás.

As atividades e responsabilidades decorrentes do cargo assumido alteraram, sobretudo, sua vida particular: “Meu marido, quando me conheceu, sabia que eu era do candomblé… A gente viveu em paz porque ele passou a gostar de Candomblé. Mas, quando fui feita Iyalorixá, passamos a morar separados. No meu terreiro, eu e minhas filhas. Marido não. Elas nasceram aqui mesmo”.

Mãe Menininha, como líder espiritual e pessoa sociável, conviveu com pessoas das mais diversas opções religiosas, num relacionamento respeitoso, no qual os pontos de vista sobre o mundo, observado de formas diferentes, não causavam nenhuma dificuldade para uma amizade sincera. O ex-Abade do Mosteiro de São Bento, Dom Timóteo Amoroso Anastácio, figura de destaque da vida social e religiosa e respeitadíssimo na comunidade baiana, expressou, por diversas vezes, sua admiração pela Iyalorixá, ressaltando a amizade de ambos, do que não pedia reservas e declarava publicamente, como exemplo de convivência a ser seguido no combate às intolerâncias.

Assim pensava, sobre o tema, Mãe Menininha: “Para mim, todas as religiões são verdadeiras, agora cada um na sua… Antigamente, as pessoas pensavam tantas coisas ruins do candomblé, mas ele é bom e não faz mal a ninguém. Os padres deveriam entender isso… África conhece o nosso Deus tanto quanto nós o conhecemos, com nome diferente, mas é o mesmo Deus com o nome de Olorum”, e acrescentava, numa postura sincrética, indiferente às posições contrárias a essa opinião: “Tenho um pouco da religião católica porque encontrei na minha família muita crença no catolicismo. Fiz minha primeira comunhão e ouvi missa.” [4]

Mãe Menininha não acreditava na possibilidade do candomblé desaparecer, perdendo suas características fundamentais, porém admitia que o mesmo sofrera transformações: “Antigamente, nós tínhamos mais fé nos Orixás, mais respeito também.” Sobre o perfil dos novos frequentadores do candomblé, observava: “O povo do candomblé é mais pobre, mas de uns tempos para cá muita gente rica tem aparecido… para mim, essa gente vem com mais curiosidade do que fé… Acho que as pessoas como eu, zeladoras do culto, devem ter o máximo de cuidado… Essas pessoas querem ver tudo, sem pertencer à seita.”

Sobre sua postura ética, assim expressava-se: “Eu aqui me meto em certos apuros porque só trabalho para a linha do bem” e diagnosticava: “sabe por que as pessoas têm mais problemas hoje? É a falta de Deus (Olorum).” Sua fama extrapolava a cidade de Salvador, na plenitude de sua dedicação e percorria o mundo. Muitos queriam vê-la, ouvi-la, e eram atendidos, ultimamente na medida de sua disponibilidade e estado de saúde. Porque ela fazia questão de atender, num grande esforço e dedicação.

No dia 13 de agosto de 1986, na plenitude de sua fé e perfeita intimidade com os Orixás, aos 92 anos de uma vida voltada à preservação e expansão do legado sagrado, herança deixada pelos nossos ancestrais africanos, Maria Escolástica Nazaré retorna ao Orum. Falece Mãe Menininha do Gantois e sobrevive sua obra. Segundo o antropólogo Júlio Braga, em função de viver permanentemente no “Lessé Orixá”, ou seja, aos pés ou na companhia da sua entidade protetora, a natureza da divindade passa a ser a natureza da pessoa, sendo que, para os adeptos das nações Keto, Angola, Jeje etc., Mãe Menininha era um Orixá que viveu no meio de nós. “Ela era um Orixá”, afirmava convicto o rei de Ijebu Ore, supremo sacerdote da religião na Nigéria, quando da sua visita à Iyalorixá, em julho de 1983.[5]

Legítima filha de Oxum e uma das sacerdotisas mais respeitadas do culto afro-brasileiro, essa era a opinião de intelectuais, políticos, artistas e o povo em geral, em especial dos adeptos do candomblé. No seu longo reinado de 64 anos à frente do Terreiro do Gantois, impôs respeito e admiração à religião dos Orixás: “Os integrantes do movimento negro, de caráter político, espalhado em todo Brasil, interpretam a fidelidade da Mãe Menininha à religião africana como um exemplo de resistência negra.”[6]

No dia 10 de fevereiro de 1991, em Salvador, na Bahia, local onde viveu e praticou sua fé, foi inaugurado o Memorial Menininha do Gantois, situado no Terreiro onde exerceu suas atividades, espaço que traduz, na exposição dos objetos que lhe pertenciam, as virtudes enquanto mulher e sacerdotisa.

Nesta oportunidade, assim expressou-se, entre outros ilustres, o escritor Jorge Amado: “Quando jogava ao búzios sobre a toalha rendada, os Orixás atendiam ao seu chamado, vinham das lonjuras para ela conversar em intimidade… Aqui continuas a zelar pelos Orixás e pelo povo da Bahia, Mãe Menininha do Gantois, aqui resplandece tua memória imortal.”

Caetano Veloso afirmara: “A memória de Mãe Menininha projeta-se para o futuro de um Brasil que há de merecer uma vida à altura dos deuses que vieram, pelo destino trágico do seu povo, habitar nossas florestas, nossas ruas, nossa língua e nossos sonhos… A memória de Mãe Menininha é a memória do que há de mais profundo  e mais denso em nossa formação cultural.” E sintetiza Nizan Guanaes: “Nem todo o Brasil conhece candomblé, mas todo mundo conhece Mãe Menininha.”[7]

No dia 3 de fevereiro de 1994, a prefeita de Salvador, Lídice da Mata, inaugurou, no Alto do Gantois, a Praça Pulchéria, em homenagem ao centenário de nascimento de Mãe Menininha. Participaram  artistas, intelectuais e o povo. Após o ato de inauguração, houve a bênção do padre Rubens, vigário da Paróquia do Divino Espírito Santo, à qual pertence a comunidade do Gantois, simbolizando a união de  culturas religiosas tão ao gosto da filha de Oxum, batizada Maria Escolástica. O governador Antônio Carlos Magalhães compareceu às vésperas da inauguração, sendo recebido por integrantes do Terreiro, tendo à frente Mãe Cleuza, sucessora, filha espiritual e de sangue de Mãe Menininha.

Zeno Millet, filho de Mãe Cleuza, afirmava: “Isso era desejo do marido de Mãe Menininha (também já falecido) homenagear a sua antecessora, tia Pulchéia,” e acrescentava: “O aniversário de minha avó não contará com cerimônias sagradas e restritas. Todas as atividades até o dia 10 serão abertas ao público.”[8]

Como se observa, o Terreiro Ilê Iya Omin, Terreiro do Gantois, tem a sua continuidade, zelando pelos mesmos parâmetros traçados pelas ilustres antecessoras. Foi e continua sendo um poço de sabedoria e acervo importante das tradições afro-brasileiras e exercício de tradição e negritude, superando suas dificuldades ou conflitos inerentes a qualquer vivência coletiva, administrado sob inspiração dos orixás e capacidade de suas lideranças, cultuando as suas memórias, patrimônio que inspirou Caymmi a dizer, em sinceros versos, amparados por uma bela melodia; “Ai, minha Mãe, minha Mãe Menininha, Ai, minha Mãe, Menininha do Gantois… Olorum quem mandou essa  filha de Oxum tomar conta da gente e de tudo cuidar, Olorum quem mandou ê ô, Ora yeyê ô.”

Jaime Sodré é doutorando em História Social,professor, poeta, compositor e religioso do candomblé.

Referências:

* Minha Mãe Oxum

[1] Música composta por Ederaldo Gentil e Aniso Felix para o enredo da Escola de Samba Filhos do Tororó, em 1972.

[2] Especula-se muito sobre a propriedade territorial dos Terreiros baianos, sendo, portanto, matéria merecedora de estudos.

[3] Revista Viver Bahia p. 3 a 8, s.n.t.

[4] VIEIRA, Hamilton. Jornal A Tarde. Suplemento Mulher, In Mãe Menininha – Os 100 Anos de uma Orixá , 28/5/1977, 2 Cad. P. 1.

[5] BRITO, Edvaldo. Jornal A Tarde, op. Cit.

[6] Jornal A Tarde p. 1 Cad. 2, op. Cit.

[7] Memorial Mãe Menininha do Gantois, Salvador, 1991

[8]  Tribuna da Bahia, Salvador, 1/2/1994, 3 Cad. P. 1.