Lições de fé, resistência e respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de agosto de 2015

Que espetáculo incrível foi o encontro entre a 17ª Caminhada Azoany e a procissão de São Roque ocorrido ontem na esquina da Escola Politécnica da Ufba, na Federação. Duas manifestações religiosas diferentes, mas que demonstraram como se constrói e mantém o mútuo respeito religioso.

Ao se deparar com a procissão, a caminhada, que vem do Pelourinho, parou e seu carro de som começou a tocar a música Jesus Cristo, de Roberto Carlos. Os católicos aplaudiram. Em seguida, a imagem de São Roque, que seguia em um andor, foi saudada pelos clarins. Após as saudações mútuas, cada uma seguiu o seu roteiro.

A Caminhada Azoany é organizada por Albino Apolinário que ajudou a ampliar um evento iniciado por um morador do Pelourinho, seu Martin Fontes, 85 anos, como pagamento de promessa aos orixás Omolu e Obaluaê, senhores da cura e proteção contra as doenças e que dominam os mistérios sobre a vida e a morte.

Ainda hoje, durante a caminhada do Pelourinho ao Santuário de São Lázaro e São Roque, seu Martin segue firme com seu tabuleiro repleto de pipocas, em silêncio e concentrado em sua relação com seus deuses.

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

O culto a São Roque acontece em uma igreja que tem como marca amparar aqueles que sofrem por problemas de saúde e também pelo peso do passar dos anos. É uma história bonita de resistência de um culto em torno da solidariedade e que encontrou traços muito fortes da filosofia africana que o humanizou, sedimentou e ressignificou.

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Esse ano, como repórter, tive o privilégio de cobrir a caminhada, mas também de conhecer o ogã Arivaldo Vivas que toma conta da Casa de Omolu e Obaluaê, uma gruta que fica na encosta atrás do hotel Othon Palace e que é ponto de romarias e agradecimento de gente que encontra na fé a força para cura. Lições preciosas, inclusive, para os dias de tanta intolerância.

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag.  A TARDE

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Vivas, portanto a São Roque, Omolu, Obaluâe, Azoany, Kavungo e todo a nossa força ancestral.


A cura através da espiritualidade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
12 de agosto de 2015
Mãe Valnizia faz análise sobre  força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia faz análise sobre força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Neste mês de agosto, os católicos homenageiam são Roque e também são Lázaro, que, no sincretismo, simbolizam Omolu ou Obaluaê, o orixá da cura. Mesmo quem não é de candomblé tem o costume de distribuir pipocas todas as segundas-feiras em casa e também pelas ruas com tabuleiros. Sei que no candomblé são Lázaro ou são Roque não são Omolu nem Obaluaê, mas os mais velhos não sabiam, mesmo porque foi o que impuseram a eles nas senzalas. Isto, de uma forma ou de outra, serviu como escudo durante muitos anos para que eles pudessem cultuar o sagrado em que acreditavam.

Com toda perseguição e dificuldades, mas com inteligência, usavam as imagens dos santos católicos e escondiam os elementos da natureza embaixo delas para poder cultuar sua crença ao longo dos anos, e a foram passando de pai para filho. Aí está o sincretismo.

Penso que, de uma forma ou de outra, acreditar ou cultuar a espiritualidade é importante para o ser humano, pois viver somente do material sempre deixa a sensação de que está faltando alguma coisa na vida. Seja qual for a religião, o importante é acreditar no sagrado, pois ele é que ajuda a nos curar.

Existem vários tipos de cura. Uma se adquire através da família, porque ela é equilíbrio por mais difícil que seja. Todo grupo familiar tem momentos bons de convivência. Mesmo quando não é com todos os parentes, sempre tem algum que dá alegria ao estar perto.

Existe a cura por meio do amor de amigos, porque a amizade é tão importante quanto a família. Às vezes, uma boa amizade em determinado momento da nossa vida ajuda a nos curar.

Tem a cura do amor no campo dos relacionamentos românticos, que dá equilíbrio e felicidade, e aquela que vem do trabalho, pois alguém que está profissionalmente realizado também fica curado. No candomblé, por exemplo, existem várias formas de cura, além das obrigações, porque às vezes basta chegar ao espaço sagrado e ficar um pouco com os orixás, inquices, voduns e caboclos, dependendo dos seus segmentos, e rezar para sair recuperado. Depende da fé de cada um, até mesmo porque a fé é algo muito individual. Ninguém pode inseri-la no coração ou na cabeça das pessoas. Cada um acredita por si mesmo.

A fé é uma das coisas que mais curam o ser humano. Eu tenho a minha própria experiência nesse sentido. Quando passei por momentos muito difíceis ao perder quase toda minha família em pouco tempo, se não tivesse uma religião e minha fé, não aguentaria. Posso dizer, tranquilamente, que, além da medicina, a fé também é capaz de curar.

Também acredito que todas as pessoas que trabalham com a cura acabam por também se curar. E a forma de recuperação que acho mais importante é a que fazemos com nós mesmos, ou seja, a da consciência, que envolve nossos atos.

A cura do retorno e também do bate-volta é o que acontece com a nossa vida todo o tempo.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Visitante Indesejado(Conto do Livro Sete Histórias de Negro-II)

postado por Cleidiana Ramos @ 7:11 PM
13 de agosto de 2010

No santuário de São Lázaro e São Roque em Salvador duas tradições religiosas se encontram: candomblé e catolicismo. Foto: Xando Pereira|Ag A TARDE| 05.08.2002

Ubiratan Castro de Araújo

Outro caso doloroso era o da Tia Zefinha. Nossa tia-avó tinha mais de 80 anos, a mais velha da família. Ela era magrinha, de cabelos lisos e grisalhos, penteados em uma rodilha presa por longos grampos, atrás da cabeça. Exímia costureira, tinha o dom de transformar roupa velha em roupa nova. Costurava para fora, mas também costurava em domicílio. Por força de sua profissão, passava longas temproadas nas casas das brancas da Barra. Justiça seja feita, ela sempre foi fascinada pela Casa Grande. Nascida ainda no tempo da escravidão, absorveu todos os preconceitos contra os negros. Ela discriminava ostensivamente as irmãs, sobrinhas e sobrinhos netos de pele mais escura.

Racismo à parte, era uma velhinha fascinante. Viúva sem filhos, desenvolveu a arte de contar histórias da carochinha e histórias do tempo antigo, o tempo da escravidão. A pequena loja de subsolo em que morava, na Rua do Desterro, era um verdadeiro baú de preciosidades. Para as meninas, as grande tentações eram as caixinhas de costura, muito arrumadinhas, delicadamente enfeitadas, cheias de miudezas. Também faziam sucesso as antigas revistas de moda, em sua maioria francesas, com fotos de manequinas e “debuxos” de vestidos. Par aos meninos, a paixão eram livros de contos de fadas e a fabulosa coleção dos fascículos de uma revista chamada Eu Sei Tudo, tradução brasileira da Que Sais-je? Ela também guardava uma coleção completa do Tesouro da Juventude.

Era uma velha sábia. Mesmo asism Bernardo a perseguia. Desde a morte de seu marido, o marceneiro João Guarani, criou uma relação de clientela com uma família da Barra.  Pssava dias e mais dias remontando, encurtando e ajustando velhas roupas a novas modas e a novos corpos. O pagamento variava sempre em função da sorte do dono da casa, no jogo. Segundo O DIVA, a casa dele vivia sempre aberta à jogatina. Até a honra da filha foi jogada na mesa do carteado. Apesar de tudo, nunca lhe faltou o sustento, nem a pose de rico. Para Tia Josefina, faltava.

Muito orgulhosa, ela jamais pedia nada, apenas recolhia-se à sua casinha. Os parentes procuravam visitá-la com frequência para detectar os sinais da visita de Bernardo. De vez em quando, ela era sequetrada por algum sobrinho, para a alegria das crianças. Quando menos se esperava, ela fugia, sempre alegando o chamado de sua vasta freguesia. Um outro caso provocava uma verdadeira guerra fria na assembléia feminina, as simpatizantes dos russos comunistas contra as fascinadas habituês do cinema americano.

João da Cruz era um grnade militante sindicalista, membro filiado e dirigente do Partido Comunista. Era um negro alto, cabelo cortado à escovinha. Orador de verve tão empolgante quanto o Padre Sadoc, se admitirmos a verdade sociológica que Stalin representava para um o que Jesus Cristo representava para o outro. Estava sempre à frente da greves do sindicato e dos comícios e pichações de paredes organizadas pelo Partido. Nos anos da Aliança Nacional Libertadora, era o intrépido lançador de galinhas pintadas de verde nos comícios dos integralistas. Por sua militância, era um homem marcado pelo Dops e conhecido de todos os secretas do bairro.

A segurança para tanto arrojo era a certeza que o Partido cuidava do sustento e do bem estar de sua mulher e de sua filha, nas eventualidades de prisão ou de cladestinidade. Pois bem, essa não era a experiência de sua mulher Alzira e de sua filha Olga.

Lá um dia, João da Cruz sumiu de casa. Isto aconteceu logo depois do bate-boca entre Juraci e Prestes no Congresso Nacional. O presidente Dutra aproveitou a oportunidade para cassar o registro do Partido Cominista. Iniciava-se um novo ciclo de perseguições, que incidiram imediatamente sobre João, que era muito visado. Logo no primeira dia, apareceu um companheiro de partido, de codinome Berto. Disse que fora designado para dar assistência à família de João. Falou, falou, falou. Para não perder a viagem, foi logo dando uma entradas meio ousadas para o lado de Alzira, que o repeliu na tampa.

– Onde já se viu? Procurar ousadia com a mulher de um revolucionário! Não sou eu que vou dar o pretexto a nenhum burguês reacionário chamar meu marido de corno!

– Que é isso camarada! Você entendeu mal. E nunca mais apareceu.

Também os vizinhos e conhecidos se afataram, com medo de ficarem visados. Os investigadores de política, conhecidos como secretas, vigiavam permanentemente a casa, de tal forma que mãe e filha se sentiam em prisão domiciliar.

Um visitante conseguia furar o bloqueio policial: Bernardo. Nos três primeiros dias, acabaram-se o feijão, a farinha e a carne do sertão. sobrou um pouco de café e um saco demilho-alho, bom de fazer pipoca. E durante sete dias elas tomaram chafé com pipoca. Olguinha choramingava muito.

– Atotô, meu pai Omolu, não me abandone!

Em um sábado de manhã, bateram na porta. Era Pezão, filho de Abigail, a irmã mais velha de Alzira. Tinha vindo da feira de São MIguel, onde comprara os aviamentos para uma obrigção de orixá. Ele foi logo comentando:

- Cadê Tio João? Não estou gostando nada da cara de vocês. Vocês estão de Bernardo?

As duas não disseram nem que sim, nem que não. Sorrindo sem jeito, não escondiam a vergonha.

Pezão foi embora muito constrangido. Lá pelas 4 horas da tarde, ele apareceu de novo.

– Minha mãe está precisando de ajuda, pra festa de Omolu. Ela sabe que Tio João não gosta de Candomblé, mas ele nem está aí, não é? Olhe, minha tia, lá na roça não tem luxo não. É comida braba. Tem o Sobe-e-desce! É água, carne de sertão, quiabo e abóbora, subiu, desceu, comeu!

Olguinha riu muito. Alzira juntou os panos, pegaram o bonde do Retiro e deixaram Bernardo sozinho em casa.

Na minha infância, nunca tive medo de diabo nem de inferno. Medo mesmo era de Bernardo. Por isto, saía das rezas muito confiante e vitorioso. Afinal, quando o francês  São Roque se juntava com o nagô Omolu, botavam o tal Bernardo pra correr.

Ubiratan Castro de Araújo é doutor em História, membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) e diretor da Fundação Pedro Calmon


Afro Imagem 2: Caminhos abertos para a Azoany

postado por Cleidiana Ramos @ 7:21 PM
16 de agosto de 2009
Foto:  Fernando Amorim |  AG. A TARDE

Foto: Fernando Amorim | AG. A TARDE

Em sua 11ª edição, a Caminhada Azoany ganhou as ruas num percurso iniciado no Pelourinho em direção à Federação,  onde se encontrou com a procissão de São Roque. Homenagem do povo de santo à fé nas divindades que presidem os mistérios da cura para os problemas de saúde.


Domingo tem festa para São Roque e Caminhada Azoany

postado por Cleidiana Ramos @ 4:25 PM
14 de agosto de 2009
São Roque tem forte associação religiosa com divindades dos cultos afro-brasileiros. Foto: Matheus Magenta | AG A TARDE

São Roque tem forte associação religiosa com divindades dos cultos afro-brasileiros. Foto: Matheus Magenta | AG A TARDE

Neste domingo em Salvador tem manifestação religiosa com um forte acento afro-brasileiro. É o dia da festa para São Roque, que alcançou uma grande popularidade na cidade por conta da sua associação com divindades como Obaluaê,  e também da  Caminhada Azoany. 

No Santuário de São Roque e São Lázaro (Federação), tem missa às 7 e às 9 horas (esta com elementos da cultura afro-brasileira). A missa solene será às 15 horas, seguida de procissão.

Já a programação da 11ª edição da Azoany começa às 9 horas com uma missa na Igreja do Carmo, Pelourinho, onde atualmente está sediada a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A igreja da irmandade está em reforma. As missas com a participação da confraria, como será o caso desta, tem um belíssimo rito inculturado, ou seja com elementos da cultura afro-brasileira. Logo após a missa tem a concentração na Praça do Reggae. A saída está marcada para às 13 horas, embalada pelo afoxé Kori Efan.

A caminhada segue para encontrar a procissão de São Roque. Para saber mais sobre a Azoany tem um post sobre ela aqui . Outra opção é  blog oficial da caminhada, que você acessa clicando neste espaço.


Novidades para a Caminhada Azoany

postado por Cleidiana Ramos @ 3:51 PM
12 de agosto de 2009
Cena da edição de 2005 da Caminhada Azoany . Foto: Fernando Amorim| AG. A TARDE

Cena da edição de 2005 da Caminhada Azoany . Foto: Fernando Amorim| AG. A TARDE

Tem novidades na preparação da já tradicional Caminhada Azoany, que reúne o povo de santo no dia da festa católica de São Roque. Azoany é uma das denominações jeje para as divindades Obaluaê e Omolu, do candomblé ketu e Kavungo do angola.

Este ano as  atividades começam mais cedo.  Amanhã, quinta-feira, com uma conferência na Casa do Benin das 14 às 16 horas. Na sexta, tem mais uma sessão de debates das 9 às 12 horas e a segunda das 14h30 às 17 horas. Todas elas serão ligadas a discussões sobre a religiosidade afro-brasileira.

No dia 16, as atividades começam com uma missa na Igreja do Carmo- sede provisória da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, pois a sua igreja está em reforma-, seguida da concentração para a caminhada na Praça do Reggae. As 13 horas é a saída embalada pelo afoxé Korin Efan. A marcha segue para a Federação onde se encontra com a procissão de São Roque.   

Ainda dá para conseguir a camisa da caminhada. Basta levar um quilo de alimento não perecível até a sede da associação Alzira do Conforto na sexta e no sábado das 9 às 12 horas e das 14 às 18 horas. A sede da Alzira do Conforto fica na Rua das Laranjeiras, 14, 1º andar, Pelourinho.