Salvador faz festapara sua majestade, Lamidi Olaywola II, alafim de Oyó

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
31 de julho de 2014
Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Salvador está recebendo a visita de  Lamidi Olaywola Adeyemi III, o alafim de Oyó, estado nigeriano. De Oyó veio o culto ao orixá Xangô, patrono do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca, que é reconhecido como o mais antigo terreiro de nação Ketu do Brasil e que ele visitou na última terça-feira.  A Casa Branca e a sua história tem estreitas ligações com Oyó que foi um grande império na região onde hoje estão Nigéria e seu vizinho Benim, entre os séculos XVII e XVIII. Por uma questão cultural, Adeyemi III é reconhecido como um governante  local. Ele tem o título de alafin, o equivalente a um imperador ou rei.

Hoje à tarde, como último compromisso público na capital baiana, o alafim visita a pedra consagrada em Xangô, localizada em Cajazeiras.

A Nigéria é uma República, mas o título de alafim tem importância cultural e religiosa, pois ele é  representante de orixás na terra como Odudua, ancestral mítico de parte do povo iorubá.

O alafim veio à capital baiana em uma articulação de terreiros que inclui, além da Casa Branca, o Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), o Ilê Axé Opô Afonjá, o Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

Todos esses terreiros são reconhecidos como bens culturais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Inclusive, a visista de Adeyemi III motivou a realização de um seminário sobre patrimônio afro-brasileiro e trocas de experiências entre Brasil e Nigéria.

Abaixo vocês tem acesso a um texto de Meire Oliviera, publicado na edição de terça-feira do jornal A TARDE:

Meire Oliveira

Promover o intercâmbio acerca da preservação de bens culturais e fortalecer os laços históricos é o foco do 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria, que segue até a próxima quinta-feira.

A abertura do encontro – ocorrida ontem (terça-feira) no Salão Nobre do Fórum Ruy Barbosa – contou com a presença do rei do Império de Oyó, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, sua comitiva com 22 integrantes, além de lideranças religiosas do candomblé e autoridades políticas dos dois países.

“É lindo o trabalho de conservação feito aqui pelos templos religiosos, honrando a memória dos nossos antepassados, disseminando a religião tradicional e a identidade iorubá. Diante da ameaça constante, temos que nos unir no compromisso de preservar essa ancestralidade”, disse o rei de Oyó.

A iniciativa é promovida por cinco terreiros baianos, já reconhecidos no país como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan):  Ilê Axé Iyá Nassó Okà (Casa Branca), Ilê Axé Opo Àfonjá, Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

“A nossa meta é unir forças e fortalecer nossa cultura e religiosidade, além de preservar o culto na Nigéria e lutar pelo tombamento de Oyó pela Unesco”, disse Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, babalorixá da Casa de Oxumarê, que pretende realizar uma edição do seminário na Nigéria.

“O Brasil é guardião da nossa cultura. O objetivo é conhecer como se dá a preservação aqui e trocar experiências com a matriz, estreitando os laços”, disse o representante da Embaixada da Nigéria, Misah Wale Akanni.

Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, o evento visa criar mecanismos de preservação.

“É uma oportunidade de revisitar o que temos em comum e discutir o que pode ser feito para salvaguardar a herança que deve ser entendida como parte integrante da formação social, econômica e cultural do Brasil”, afirmou.


Panáfricas é uma nova ponte entre a África e sua Diáspora

postado por Cleidiana Ramos @ 11:59 AM
9 de novembro de 2010

Parte da equipe do Panáfricas: Paulo Rogério, Carlos Moore e André Santana. Foto: Divulgação

Uma equipe de jovens comunicadores, acompanhados pelo intelectual Carlos Moore, está fazendo um belíssimo trabalho sobre a África e sua Diáspora. Preferi transcrever abaixo um texto muito interessante sobre esta experiência, que pode também ser acompanhada em um blog que vocês acessam clicando aqui.

O eterno retorno à Terra Mãe

Até o próximo dia 16 de novembro, o Projeto Panáfricas estará na África registrando sons e imagens do continente de onde saíram para o mundo milhões de seres humanos, com sua rica cultura, arte, ciência e forma de vida. O material colhido na viagem à Nigéria, Gana e África do Sul – primeira etapa do projeto – integrará uma série de televisão sobre o panafricanismo e a diáspora africana.

Essa descoberta das origens dos afrodescendentes e sua luta pela cidadania está sendo conduzida pelo historiador cubano, Carlos Moore, grande conhecedor da trajetória de ícones da luta negra pelo mundo, com os quais conviveu em diferentes países,como Fela Kuti, Cheikh Anta Diop, Aimé Cesaire, Malcolm X, dentre outros.

O ativista Carlos Moore está retornando à África após mais de duas décadas, para fazer o lançamento da versão africana do livro: Fela: this bitch of the life, biografia de Fela Kuti, lançada originalmente em 1982 e que em breve terá sua versão em português. Trata-se da primeira biografia escrita sobre um artista africano.

A equipe do Panáfricas é formada pelo publicitário Paulo Rogério Nunes, produtor executivo do projeto, e pelos jornalistas André Santana, Lucas Santana e Mateus Damasceno, que também é cineasta e está sendo responsável pelas imagens. Damasceno é o presidente da Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV). Paulo Rogério e André Santana são diretores da série de TV Panáfricas e integram o Instituto Mídia Étnica, organização social que há cinco anos vem realizando projetos sobre mídia, tecnologia e relações étnicas, utilizando, inclusive, o audiovisual.

Alguns vídeos  produzidos pelo Instituto Mídia Étnica podem ser conferidos no Portal Correio Nagô (www.correionago.com.br). Mateus Damasceno e Lucas Santana fazem parte da produtora baiana Caranguejeira, que tem experiência na produção de cinema e vídeo, com produtos premiados como o documentário: Bolívia, para além de Evo, fruto da experiência dos profissionais no país latino-americano. Mateus é o diretor de fotografia da série Panáfricas e Lucas, o técnico de áudio e som direto.

Roteiro de viagem

A entrada na África aconteceu em 8 de outubro pela Nigéria, país de 140 milhões de habitantes. A pauta principal no país foi o legado político e musical de Fela Kuti, criador do Afrobeat e principal referência para os nigerianos. A equipe visitou as cidades de Abuja, capital da Nigéria, Abeokuta, onde Fela Kuti nasceu e Lagos, a segunda maior cidade da África e que tem o maior contigente negro do mundo. Foi em Lagos onde Fela criou uma comunidade chamada Kalakuta, que propunha a liberdade e solidariedade entre seus habitantes. Em Lagos também está o Africa Shrine, casa de show que se eternizou na história da música pelas apresentações de Fela e hoje é conduzida por seus filhos, a produtora Yeni e o músico Femi Kuti.

O Panáfricas entrevistou amigos, músicos e familiares de Fela, cinco dos seus filhos e duas das suas ex-esposas. Além de registrar o cotidiano de Lagos, com sua tumultuada rotina de megalópole (mais de 15 milhões de habitantes) e sua flagrante desigualdade social. Na segunda etapa da viagem, a equipe visitou Accra, capital de Gana,primeira nação africana a ser tornar independente do colonialismo europeu, em 1957.

A pauta principal em Gana foi a importância de Kwame Nkrumah, herói da independência e primeiro presidente do país livre e W.E.B. Du Bois, intelectual e ativista afro-americano, que escolheu viver em Gana. Ambos são considerados os pais do panafricanismo, pela contribuição ideológica e prática na luta pela soberania africana e união entre as nações africanas e os países da diáspora.

O Panáfricas registrou uma importante entrevista com Carlos Moore sobre o panafricanismo. As locações foram o Instituto de Estudos Africanos, da Universidade de Ghana, o Panafrican Centre, Memorial Kwame Nkrumah.

Em Gana, além da capital, a equipe visitou as cidades de Cape Coast e Elmina no litoral do país, onde registrou imagens dos fortes de onde embarcaram para as Américas milhares de africanos sequestrados pelo comércio escravista. A última parada dessa primeira etapa do Projeto Panáfricas está sendo a África do Sul, país que ficou marcado pelo regime segregacionista do apartheid, cujas leis estabeleciam as diferentes oportunidades e direitos entre brancos e negros, até o início da década de 1990. No país que sediou a última Copa do Mundo estão sendo enfocadas as contribuições de ativistas como Steve Biko e Nelson Mandela, através de entrevistas e registros nas cidades de Joanesburgo e Pretoria.

O Panáfricas fez imagens surpreendentes dos arredores de Joanesburgo, a mais desenvolvida cidade da África subsaariana, onde estão localizados os township (comunidades segregadas criadas pelo apartheid): Soweto e Lenasia. Assim como Soweto era o local reservado aos negros, tornando-se ícone da luta contra o apartheid, Lenasia mantinha a populacão indiana bem distante do centro de Joanesburgo.

A viagem começou no dia 8 de outubro e o retorno ao Brasil será no dia 16 de novembro. O projeto pretende filmar também em outros países africanos e da diáspora negra como Etiópia, Tanzânia, Martinica,Jamaica, Estados Unidos e Índia.


A Nigéria perdeu mais uma

postado por Cleidiana Ramos @ 4:17 PM
17 de junho de 2010

A Seleção da Nigéria perdeu mais uma. Foto: EFE/Yuri Kochetkov

Que pena! A Nigéria até ensaiou uma vitória saindo na frente, mas perdeu para a Grécia por 2X1. Desse jeito as esperanças africanas ficam agora com  Gana e  Costa do Marfim. A Argélia, que joga amanhã, às 15h30 horas, contra a Inglaterra também não tem muitas chances.

No caso da Costa do Marfim, espero que ela ganhe a vaga para as oitavas, mas sem atrapalhar o  Brasil.

Confesso que fiquei surpreendida com a regressão do futebol nigeriano nesta Copa. Ele ficou longe de criar entusiasmo, diferente de outras edições. Mas uma surpresa boa do time: o goleiro Enyeama é muito bom, apesar da falha no segundo gol da Grécia, mas isso acontece com os melhores.


Não deu pra Nigéria

postado por Cleidiana Ramos @ 7:32 PM
12 de junho de 2010

Enyeama foi escolhido o melhor jogador da partida pela Fifa. Foto: AFP / Robeto Schimidt

Embora há quem chame os argentinos de los hermanos, irmãos mesmo dos baianos são os integrantes do time que jogou hoje contra eles: a Nigéria. Afinal, do local de onde hoje está o país vieram maciçamente, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, várias etnias: oyós, ketus, ijexás, dentre outras.

Daí que tantos de nós temos ancestrais originários de lá e compartilhamos vários laços culturais. Não é à toa que nagô e ketu são sinônimos para definir um conjunto de tradições do candomblé,  para as quais se usa o termo nação,  que tem o iorubá como língua litúrgica. O nosso acarajé, por exemplo, é comida herdada também destas terras, onde é chamado de acará.

Pena que a Nigéria deixou a Argentina ganhar. De forma magra ( 1X0), mas vitória é vitória e eles é que ficaram com os três pontinhos. Triste pois é mais um alimento para a arrogância revestida do que agora é considerado “irreverência” de Maradona. Eu particularmente continuo a não achar graça nenhuma nas bravatas do ex-jogador e técnico. Soam mal educadas e anti-esportivas as provocações em relação a Pelé,  por exemplo, fruto de um ressentimento do  qual “dom Diego” nunca vai conseguir se curar: Pelé está há anos luz à sua frente em técnica, talento e comportamento esportivo.

Mas vamos ao jogo. A Nigéria desta copa deve muito em relação a equipes que encantaram o mundo como a de 1994. É muito fraca tecnicamente e apática, defeito que geralmente não costuma caracterizar seleções africanas.

O placar poderia ter sido mais elástico para a Argentina se não fossem os erros de finalizações inclusive do queridinho da crônica esportiva mundial: Leonel Messi. Não é implicância minha com os argentinos, mesmo porque eu gosto muito de futebol, mas acho que o rapaz precisa de mais bola para ser esse fenômeno que todos dizem.

Só para ficar em  comparações com jogadores recentes: embora tenha sido escolhido o melhor do mundo, Messi tem menos bola do que Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho em seus melhores momentos.  Acho que ele tem  sorte por conta da atual escassez de brasileiros em grande fase na Europa, pois só quem está lá figura no Prêmio da Fifa, o que considero uma injustiça.

Mas um jogador da Nigéria merece destaque: Vincent Enyeama, o goleiro. Este sim é “o cara” da equipe nigeriana. Agarrou muito no jogo de hoje, impedindo também a goleada argentina.

Não à toa, imaginem, foi eleito o melhor do jogo pela Fifa que privilegiou o jogador que evitou o objetivo principal do futebol: o gol. Ele mereceu e é bom Júlio César ficar de olho, pois este pode ser um adversário na briga pela luva de ouro, embora para isso a Nigéria precise avançar às outras fases, o que não vai acontecer se o time jogar o que jogou hoje contra a Grécia, na próxima quinta-feira, dia 17 às 11 horas.

Amanhã é dia de torcer por Gana, a partir das 11 horas na batalha contra a Sérvia. O Mundo Afro vai tentar ficar a postos.


Notícias de Atlanta 3: O táxi dirigido por Ogun

postado por Cleidiana Ramos @ 7:49 PM
28 de maio de 2010

Numa das raras pausas durante as atividades da reunião do Japer (Plano de Ação Conjunta Brasil-EUA para o Combate à Discriminação Racial e Étnica), ocorrida  em Atlanta ,conheci uma figura bem interessante. O contato foi rápido, mas bem rico. Eu, Paulo Rogério, diretor executivo do Instituto Mídia Étnica, e Mabel Lara, uma jornalista colombiana, precisamos tomar um táxi em Atlanta. Tanto lá como em Washington, os taxistas, normalmente, são africanos. É possível contato com etíopes, nigerianos, senegaleses e vários outros povos do continente.

Pois bem. O taxista chama-se Ogunteile. Eu e Paulo Rogério, imediatamente, começamos a chamá-lo de Ogun e fazer perguntas sobre a Nigéria, afinal a referência cultural desta região é uma das mais fortes aqui na Bahia.

O papo foi liderado por Paulo que fala inglês muito bem. Ficamos sabendo da forte identificação que eles realmente têm também com a Bahia, principalmente por conta dos agudás, os chamados retornados. São descendentes dos africanos que retornaram para lá no século XIX. Muitos partiram de Salvador após o aumento da repressão que se seguiu aos episódios relacionados à revolta dos malês.

O iroubá é uma língua extremamente dinâmica. Algumas das poucas expressões que a gente sabia fomos falando para Ogum, como “agô” e “omi” e ele, imediantamente, traduzia para o inglês com o mesmo sentido que elas têm na tradução para o português, que são  ” licença”  e  “água”. Mais uma prova da riqueza cultural que os terreiros de candomblé conseguiram preservar.

Ogun, quando soube que éramos baianos, imediatamente nos chamou de irmã e irmão.  Tentamos agendar com ele o nosso retorno, mas aí ele se atrasou além dos 15 minutos que tinha nos prometido e tivemos que tomar o táxi já com um etíope. Foi outra oportunidade de sabermos mais sobre a Etiópia, mais uma vez num papo liderado por Paulo Rogério. A guerra do país para obter acesso ao  mar,  por exemplo, foi um dos temas.

Não me lembro agora o nome do último taxista, pois, também depois de ter conhecido Ogun que vive à frente do volante de um táxi, ou seja, bem próximo do simbolismo do orixá homônimo que é o dono dos caminhos,  ficou difícil  guardar  tantas informações. Ah sim! A maioria dos taxistas de lá fica de mau humor quando a gente não dá  gorjeta. Não foi este o caso do simpático Ogun.


Educaxé: Arte iorubá

postado por Cleidiana Ramos @ 2:58 PM
24 de fevereiro de 2010

Máscara Geledé Balogun do Museu Afro Brasileiro. Foto: Margarida Neide | AG. A TARDE

Jaime Sodré

O povo yorubá soma aproximadamente 12 milhões de habitantes, tendo um país com uma larga produção de arte tradicional. Muitos dos que vivem no sudeste da Nigéria são considerados comunidades adicionais a oeste, entre a República do Benim e do Togo.

Esta área está dividida em aproximadamente vinte subgrupos, cada um com seus reinados tradicionais. Escavações em Ifé encontraram cabeças de bronze ou terracota e figuras longas da realeza e elementos do universo superior estrelado. Retratos naturalistas cada um previamente conhecidos na África.

As raízes artísticas e culturais de Ifé, com seu período clássico (a.C. 1.050-1500), encontram-se no antigo centro cultural de Nok no nordeste. De mentalidade religiosa é natural que permaneça obscuro. Nos anos 20/30 os yorubás se alojavam em fazendas, outros viviam em cidades, em cabanas, fechados em comunidades ou no campo, cultivando milho, feijão, aipim ou mandioca, inhames, amendoim, café e banana, controlados por negociantes. Também temos mercadores e artistas; ferreiros, artesãos de cobre, bordadeiras, escultores em madeira, trabalhando de geração a geração.

Os deuses yorubás formam um interessante panteon cujo deus criador é Olodumaré, seguido de mais de cem orixás e espíritos da natureza, habitantes de rochas, árvores e rios. Algumas peças representam Xangô, divindade dos raios, esculpidas em madeira e guardadas em santuários. Os escultores exercem as suas tarefas em atelieres com aprendizes onde são transmitidas as técnicas e os estilos preferenciais.

Por toda yorubalândia figuras humanas são representadas em formas basicamente naturais, mas exceto por seus olhos salientes, planos e projetados, lábios paralelos e orelhas estilizadas. No âmbito dos cânones básicos da escultura yorubá alguns traços são distinções particulares de determinados artistas de forma individual.

Hoje está em numerosos cultos. O culto Geledé homenageia o poder das velhas mulheres, durante os festivais Geledés. Esculturas em máscaras com formas humanas são apresentadas, geralmente desgastadas pelo uso. Encimando algumas máscaras, uma ou outra, há elaborados arranjos de penteados ou uma escultura representando os humanos em alguma atividade.

As máscaras do culto de Epa são relacionadas aos ancestrais e a agricultura, com variedades harmônicas que aparecem nas cidades. A máscara possui aspectos particulares, nos olhos, na altura de grande complexidade. Geralmente elas são usadas em ritos funerários ou ritos de passagem, e são, geralmente, compostas de inúmeros elementos, usualmente uma face humana em máscara, numa bem elaborada figura. Essas máscaras são guardadas em santuários e são reverenciadas com libações e preces.

A sociedade Ogboni tem suas figuras em latão, chamada Edan, que são colocados em par, instalando-se nas pontas e correntes, cabeça com cabeça, formando pares unidos. Elas são colocadas sobre os ombros dos membros da Irmandade Ogboni com canções, funcionando como um amuleto. Uma variedade de palmeiras é usada para a veneração de “caridites”, retratando a mulher. Sociedade e cultos específicos fazem parte das celebrações durante os festivais de máscaras, com música, danças, em uma integração total. O mais amplamente difundido culto é o dos gêmeos Ibeji, estátuas confeccionadas duplamente, reverenciadas pelo povo Yorubá amplamente.

As estátuas Ibeji são produzidas para cultuar os deuses gêmeos. Para os Ibejis são depositadas oferendas em forma de refeições fartas, rogando pela vida das crianças. Essas esfinges são produzidas com instruções oriundas dos oráculos e estão presentes em numerosas classes de esculturas africanas.

As figuras equestres são temas comuns aos yorubás, confeccionadas, preferencialmente, em madeira. Isto reflete a importância da cavalaria nas campanhas dos reis na criação do Império Oyó, nos séculos XVI a XIX. Somente os chefes yorubás tinham o privilégio de possuir cavalo. O cavalo era um importante símbolo social onde os artistas ao produzir peças inspiradas nestes animais deveriam demonstrar habilidade. O tamanho reduzido deste animal e as pequenas pernas dos cavaleiros são elementos típicos deste tipo de produção artística.

Portas esculpidas e pilares são elementos dos santuários dos palácios e das casas dos homens importantes. Cumprindo secular função são as tigelas para as nozes de cola, oferecidas como boas vindas ao visitante, [tabuleiro] “ayo” para jogos, assim como os “wari” jogados com seixos [pedras] colocados em fileiras, em depressões circulares, os tambores, as colheitas, os pentes. Adicional importância no campo das artes credita-se à cerâmica, tecelagem, às contas e peças fundidas.

Texto inspirado em trabalhos de Renato da Silveira, Reginaldo Prandi e Frank Willet

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé


Balaio de Ideias: Os agudás e a Black Star

postado por Cleidiana Ramos @ 11:59 AM
15 de dezembro de 2009
Imagens dos agudás de Porto Novo, que fazem parte da exposição de Milton Guaran. Foto: Milton Guaran| Divulgação

Imagem dos agudás de Porto Novo, que fazem parte da exposição de Milton Guran. Foto: Milton Guran| Divulgação

Jaime Sodré

Diziam os mais idosos, “um bom filho a casa torna”. O desejo de voltar a “Mãe África” era o sonho de muitos libertos, na esperança ilusória ou não de melhores dias. Os “agudás” eram aqueles esperançosos, tidos como “os parentes de Uidá”, termo em iorubá (língua falada em muitas localidades da África Ocidental). Possuíam sobrenomes portugueses, e muitos eram descendentes de negros escravizados brasileiros ou comerciantes escravocratas, residentes na Bahia do século XIX.

A maioria dos agudás vive em Uidá, local do antigo Reino do Daomé, e nas cidades de Cotonou e Porto Novo. Preservam resquícios de brasilidade, realizando a Festa do Bonfim, bumba-meu-boi, congadas, reisados, e, segundo alguns, até capoeira, vivem no possível “à brasileira”.

Voltar à África era o desejo de Marcus Mosiah Garvey, nascido em 1887, na Jamaica, falecido em Londres, no exílio. Divulgador das idéias pan-africanistas, que consistia na soberania das nações negras e do retorno dos negros da diáspora ao continente africano. Garvey, empenhado nesta idéia, fundou em 1914 a UNIA, Universal Negro Improvement Association, traduzindo: Associação Universal para o Progresso do Negro.

Segundo alguns autores, esta entidade chegara a ter de 4 a 6 milhões de adeptos em vários países. Em 1916 teria sua nova sede nos Estados Unidos da América, quando, objetivando divulgar as ideias do “afrocentrismo” fundou em 1918 o seminário The Negro World. Embora a ideia fundamental de mister Garvey fosse o retorno à África, e fundar um “Estado Negro”, para difusão de suas ideias, realizara um congresso nacional concorrido. Insistia Garvey na impossibilidade dos negros americanos desfrutarem de uma cidadania plena, em vista do regime cruel do racismo americano.

Se a África era o Éden, teria que chegar até lá, para tanto Marcus Garvey fundara a Black Star Shipping Line, um investimento em marinha mercante que faria a rota Estados Unidos/África. Feitos os planos, pensada a melhor rota, chegara a vez da encomenda dos navios, que foi contratada a armadores brancos, ao que se sabe, por boicote ou por esperteza, os mesmos não chegaram a ser entregues.

Eram navios velhos, alguns pereceram adernados ao mar. Em 1928 articulações americanas idealizaram e conseguiram deportar para a Jamaica o nosso herói sonhador e libertador, sob alegação de “fraude fiscal”. O pan-africanismo exprimia as reivindicações legítimas de negros americanos e caribenhos, alguns atribuem as ações de Garvey como extremamente polemizantes, mas com as realizações dos encontros em forma de congressos pan-africanos consolidava uma visão doutrinária do movimento, que reivindicava, entre outras, a igualdade etno-racial e a luta contra o colonialismo atuante na África.

As ideias de W.E.B. Du Bois após o quinto congresso em Manchester em 1945, dariam mais consistência ao tema, incluindo a atuação de lideres africanos como Jomo Kenyatta, Sékou Touré, Julius Nyerere e Kwame Krumah, entre outros. Nas décadas de 70 e 80, em São Paulo, Abdias do Nascimento realiza o Congresso de Cultura Negra, reflexo do pan-africanismo.

Quanto a Garvey, derrotado, exilou-se em Londres, mas o leão na parou de rugir, ainda ativo em 1935 e vibrante, condenou a atitude de Hailé Salassié, alegando que este não agira com dureza e determinação frente a invasão fascista italiana à Etiópia, queria mais garra do Leão de Judá.

Segundo o nosso Nei Lopes, da sua primorosa lavra, sabemos do fim quase solitário do herói, e da sua posição corajosa diante do caso Etiópia, que fizera com que muitos dos seus seguidores se afastassem dele, Marcus Mosiah Garvey. Em 1964 seus restos mortais foram transladados para a sua pátria, a Jamaica, terra de onde saira com sonhos de navegar à Mãe África, junto aos demais “buscadores de liberdade e autonomia”.

Sua memória fora reabilitada na qualidade de Herói Nacional, mas alguns aliados dizem ver e ouvir o seu vulto heróico, no ponto mais alto do Kilimanjaro, declamando princípios do pan-africanismo. Um herói sonhador, mas não o único. E como dizem os mais velhos, “o bom filho a casa torna”, melhor na condição de herói. Mas dizem os cautelosos, “quem boa romaria faz, em sua casa, está em paz”. Será? Mas navegar é preciso…

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


África X Genocídio

postado por Cleidiana Ramos @ 9:25 AM
12 de junho de 2009

Bom programa para pesquisadores e estudantes dos temas étnicos e relacionados à África: segunda-feira, 15, das 18h30 às 20h30, o professor Herbert Ekwe-Ekwe profere, no Ceao, a palestra A África, o Estado, Genocídio e o Futuro.

Herbet Ekwe é nigeriano, formado em Ciências Políticas e autor de pesquisas sobre a África e questões de genocídio. Ele também é especialista em literaturas africanas e autor do livro  Biafra Revisited e Chinua Achbe: literature in defense of history.

Um outro livro seu está prestes a ser publicado:Readings from Reading: Essays in African Politics, Genocide, Literature.


Saudações, África

postado por Cleidiana Ramos @ 5:08 PM
25 de maio de 2009
Dia de celebrar tantas heranças, como a cultural. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Dia de celebrar tantas heranças, como a cultural. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Hoje,quando a África é tema de comemorações por ser o seu dia, nós, chamados de afro-brasileiros, somos bem mais descendentes de aficanos como prefere a sábia ebomi Cidália Soledade.

Isso porque ao reafirmamos esta descendência, a  ancestralidade ganha um contorno ainda mais nítido. Se estamos aqui é porque temos algo de gente que nasceu, pisou e fez até onde pôde o que hoje é  Angola, Gana, Moçambique, Nigéria, República do Benim, Senegal, Togo e tantos outros solos que abrigaram os povos que a brutalidade da escravidão arrastou para cá sem considerar nomes ou outros detalhes.

O que sabemos é dessa história de resistência que fez cada um de nós chegar até aqui com esse compromisso de celebrar e eternizar esta bela herança da forma como acharmos ou for possível. Assim, viva a África.