Bahia perde ícone da inteligência risonha

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
4 de julho de 2015
Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto:  Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/  29.04.2010

Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/
29.04.2010

MORTE/ ANTROPÓLOGO/ ALBERGARIA/ BAHIA

Cleidiana Ramos

Uma das cobranças clássicas a um repórter é o distanciamento ao que se reporta. Em tese, portanto, eu não deveria escrever o obituário de Roberto Albergaria de Oliveira, 63 anos, historiador, antropólogo e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (Ufba), um dos meus amigos mais queridos.

Mas precisei quebrar o cânone para lhe render a homenagem que me foi possível. Além disso, desafiar regras era com ele mesmo.

Nasceu em Cachoeira, embora às vezes dissesse ser de Muritiba para “pirraçar”, segundo ele, cachoeirenses como Ordep Serra, colega na antropologia e na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba.

Doutor em antropologia pela Universidade de Paris VII, a hoje Paris Diderot, Albergaria foi um dos mais brilhantes intelectuais baianos. Recebeu a orientação no doutorado de Michel de Certau (1925-1986), respeitado cientista social da escola francesa.

Sua tese para obter o grau de doutorado mergulha nas imagens simbólicas que o Brasil inspirou, a partir da sua condição de colônia portuguesa. Trata-se de uma análise com profunda inserção em teoria antropológica, mas ele repelia elogios ao seu preparo intelectual. Achava pedante, sem falsa modéstia.

Por isso criou o personagem iconoclasta. Com o tempo percebi que era disfarce para se livrar da chatice dos pretensiosos das mais variadas matizes.

Albergaria gostava de rir, mas tinha uma racionalidade que chocava os desavisados. Era extremamente pragmático, mas generoso.

O problema congênito – um tipo avançado de espinha bífida– foi o seu martírio até o fim. Além de impedir o movimento de uma das pernas, com o tempo desarrumou o sistema nervoso central, o que lhe fez vítima de vários distúrbios, como insônia crônica.

Foi essa dificuldade em lidar com as alterações no sono que o fizeram pedir a aposentadoria da universidade, pois acordava indisposto.
Crítica
Andava chateado com o que considerava a disseminação da “moral de jegue”, seu nome em baianês para falsos moralistas e fazia dos comentários na rádio Metrópole seu instrumento de desabafo contra esse mal.

Dizia invejar em nós, jornalistas, a capacidade de síntese, o que lhe era impossível. Falava pelos cotovelos e o didatismo de professor o fazia enviar complementos em longos textos via fax e depois por e-mail.

Albergaria era consultado por repórteres porque dominava os meandros da teoria antropológica. Conseguia opinar, com propriedade, sobre quase tudo, o que incomodava alguns que confundiam capacidade de explicar de forma didática pensamentos complexos com superficialidade.

Parei de me irritar com esse tipo de crítica, quando percebi que essas análises e até certos tipos de censura, o divertiam. A sua segurança intelectual lhe deu a imunidade necessária.

Não fez adversários ou inimigos. “Minha filha, eu sempre fui tido como maluco. Ninguém briga com doido”, explicava.

Não se casou ou teve filhos. Dizia só ter capacidade para amar mulheres de comportamento irreverente: as “miseravonas”.

Padilhas
Pegou em armas contra a ditadura quando integrou o PCBR. Foi preso durante uma ação frustrada de assalto a banco. Quando saiu da penitenciária foi para o exílio na França.

Não tinha uma crença religiosa, mas admirava o culto aos caboclos e a Exu no candomblé, e as padilhas da umbanda. Em sua casa tinha uma coleção de estátuas dessas entidades.

Nos últimos meses, declarou-se herege, no lugar de ateu. “É que tenho certa imaginação”. Portanto, acredito que essa capacidade o levou a achar o lugar ideal para que sua energia mental descanse em paz.

É tudo o que posso dizer agora

Cláudio Luiz Pereira  

Recebi, consternado, a notícia que Roberto Albergaria está morto. Fico imaginando como isto de fato empobrece a nós todos, retirando-nos certa capacidade de enfrentar com indignação e bom humor esta nossa realidade tão medonha. Morreu provavelmente de overdose de lucidez, recusando toda a carga de tédio que poderia entorpecê-lo, anulá-lo, ou aliená-lo numa velhice que poucos conseguem aceitar, ainda mais ele tão persistentemente jovem no seu pensamento irreverente, loquaz, cheio de uma ciência gaiata.

Para intelectuais como ele o melhor pensamento será sempre uma ação racional perante o mundo real.

Meu respeito por ele como intelectual deriva do fato de que ele fez escolhas, saltando do confortável mundo acadêmico, onde muitos intelectuais atolam numa mediocridade confortável, para o mundo da crítica cultural através do rádio, com sua dinâmica aleatória, delirante, e tão completamente carnavalesca. Provavelmente foi isto que permitiu que ele vivesse os últimos anos de sua vida dignamente, com trabalho, criatividade e, possivelmente, até alguma felicidade intima. Falo daquela felicidade possível aos homens muito inteligentes.

Meu respeito por ele vem também de sua personalidade idiossincrática, de suas ideias mirabolantes e engraçadas, de suas concatenações inesperadas, de suas abstrações lógicas ou ilógicas, mas que nos faziam pensar. Vem, também, do testemunho que posso dar de sua generosidade, do seu senso de justiça, e do seu empenho em apoiar moralmente todos àqueles que eram perseguidos e vilipendiados.

Morreu fazendo uma escolha, dentro das escolhas possíveis com que ele poderia reafirmar sua própria dignidade.

 

 Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do MAE/Ufba


Entrevista: “A memória da Bahia não pode ser seletiva”, Zulu Araújo, diretor da FPC

postado por Cleidiana Ramos @ 4:38 PM
16 de março de 2015
Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9.  2010

Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9. 2010

O arquiteto e gestor cultural  Zulu Araújo é o novo diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão que integra a Secretaria Estadual de Cultura (Secult). Durante algum tempo, a instituição era vista, pelo senso comum, apenas como a guardiã da memória dos ex-governadores. Mas a a partir das últimas gestões, com destaque para a do professor Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013), iniciada em 2006, a FPC e o seu trabalho em outras linhas ganhou maior visibilidade. Em entrevista que concedeu ao jornal A TARDE há nove anos, o professor Ubiratan chegou a afirmar que iria fazer do órgão o “instituto do Jacaré”, numa referência ao orador popular que, do alto de um improvisado tablado feito com caixa de madeira para guardar maçãs, fazia discursos contra o governador Octávio Mangabeira. A citação do professor Ubiratan era para lembrar que a fundação, então sediada no Palácio Rio Branco, também estava aberta para o povo, afinal ela é  a responsável pela guarda de bibliotecas, do arquivo público e de projetos como o de valorização e divulgação dos eventos relacionados à Independência da Bahia, comemorado anualmente em 2 de julho. Nessa entrevista, o novo diretor, Zulu Araújo, destaca a continuidade, em sua gestão, das ações para aproximar ainda mais a fundação dos variados segmentos da população baiana. Ele também afirma que dará continuidade aos projetos que encontrou e providenciará a implantação de novos, além de realizar um esforço para resolver o crônico problema de uma sede mais adequada para o Arquivo Público. A ideia é transferi-lo da Baixa de Quintas para garantir o tratamento mais adequado para o acervo de documentos.

Cleidiana Ramos: Muita gente ainda imagina que a Fundação Pedro Calmon (FPC) é apenas o local da guarda de memória dos ex-governadores. Seria interessante o sr. resumir quais as funções do órgão.

Zulu Araújo: A Fundação Pedro Calmon é uma instituição da Secretária de Cultura (Secult) que trabalha com memória, arquivo público, livro e leitura, além das bibliotecas públicas. Ela é o órgão responsável por formular e implantar políticas públicas nessas áreas.

CR: O Arquivo Público sediado na Baixa de Quintas vem passando há anos por problemas na estrutura física. A instalação elétrica já chegou a ficar desligada por prevenção contra incêndios. Quais as suas ideias para resolver essa questão?

ZA: Assumi o compromisso público e estou convocando outros setores para me ajudar a realizar a transferência do arquivo para um espaço mais adequado. O prédio onde ele está atualmente, apesar da importância arquitetônica, não possui condições para abrigar o acervo. Não há também como adequá-lo. Tenho essa certeza não só como arquiteto mas também por conversas que já mantive com técnicos do Ipac. Estamos, portanto, estudando a transferência para outros locais como o Centro Histórico, o Instituto do Cacau, no Comércio, e até mesmo a construção de um prédio adequado. Claro que isso depende da articulação com outros setores, verbas públicas e também sensibilização nesse sentido. Confio que vamos conseguir esse objetivo. Já na minha posse (no último dia 9), vários parlamentares se dispuseram a nos ajudar com emendas nesse sentido. Quero ressaltar que os gestores anteriores a mim fizeram todo o esforço que lhes foi possível, inclusive uma reforma no telhado. Mas o tempo já comprovou que reformas não resolvem o problema do Arquivo Público.

CR: Sob a guarda da FPC também estão os centros de memória que administram o acervo de arquivos privados. Não só na capital, mas também no interior há muitas coleções desse tipo. 

ZA: Sim. Os arquivos privados são de pessoas físicas que os adquiriram ao longo da vida e os conservaram como foi possível. Mas até mesmo para adquirir novos arquivos temos que ter espaço adequado. Atualmente, o centro de memória para esse fim funciona em duas salas da Biblioteca dos Barris. Estamos estudando outras possibilidades para a sua ampliação como a antiga sede do Inema, localizada em Monte Serrat. Também estamos avaliando, com a ajuda do Ipac, a opção do Palácio da Aclamação que passando por uma reforma será um espaço bem adequado afinal foi a morada oficial dos governadores. Ali é um complexo que também envolve o Passeio Público. Teremos uma reunião essa semana para tratar desse assunto. Mas vamos discutir não apenas a melhoria física do prédio, mas a possibilidade para dotá-lo das condições necessárias à manutenção e aquisição de novos acervos.

CR: O professor Ubiratan Castro,que foi um dos seus antecessores na FPC, dizia que queria fazer do órgão o “instituto do Jacaré” numa alusão a torná-lo mais próximo do povo. O sr. acha que a FPC caminha nesse sentido?

ZA: Quero render minhas homenagens ao professor Ubiratan pelo excelente trabalho na Fundação Pedro Calmon. Aqui ele ampliou e implantou projetos criativos como o denominado “Independência do Brasil na Bahia”, além de a ter aproximado mais da população, com certeza. Meu compromisso é dar continuidade a esse trabalho e nunca retroagir nem sair desse rumo. A FPC pretende, de maneira objetiva, aprofundar o trabalho que o professor Ubiratan vinha fazendo. Estamos também pensando em memória da Bahia no sentido mais amplo, ou seja, com as contribuições cigana, indígena, negra e européia. A memória da Bahia não pode ser seletiva para dar conta e respeitar a sua diversidade.


Sepultamento de Vevé Calazans será amanhã

postado por Cleidiana Ramos @ 1:25 PM
28 de abril de 2012

Vevé Calazans faleceu hoje. Foto: Haroldo Abrantes / Ag. A TARDE/ 21.07.2010

O sepultamento do grande Vevé Calazans será amanhã, domingo, às 10 horas, no Cemitério Campo Santo, em Salvador.

Autor de músicas como É D´Oxum, feita em parceria com Gerônimo e que se tornou uma espécie de hino de Salvador, Vevé morreu hoje, sábado,  devido às complicações de um câncer no pulmão.

A vida cultural de Salvador fica imensamente mais pobre.


Bença enfoca o respeito aos mais velhos

postado por Cleidiana Ramos @ 3:27 PM
12 de maio de 2011

Bença, espetáculo do Bando de Teatro Olodum está de volta. Foto: João Meirelles | Divulgação

Pessoal, olha só que legal: a nova temporada de Bença, espetáculo do Bando de Teatro Olodum, está de volta às sextas e sábados, ate o dia 29, no Teatro Vila Velha. No domingo, o espetáculo vai contar com a participação de representantes do candomblé de nação jeje da Bahia e do Maranhão.

A sessão especial, marcada para as 17 horas, vai ter representantes do Seja Hundê, também conhecido como Roça do Ventura, localizado em Cachoeira e considerado um dos mais antigos terreiros do Brasil; do Bogum, situado em Salvador; e da tradicional Casa das Minas, que fica no Maranhão. As apresentações nas sextas e sábados começam às 20 horas.

Bença celebra os 20 anos do grupo e faz uma homenagem ao respeito que se deve ter aos mais velhos.

Os ingressos custam R$ 40 ( inteira) e R$ 20 ( meia) todos os dias. Os 50 primeiros ingressos, de cada sessão serão disponibilizados a R$ 15 (preço único).   A promoção é válida até 24 horas antes de cada espetáculo.

Instituições e escolas terão descontos na compra acima de 20 ingressos. Cada ingresso ficará no valor de R$ 15 (preço único). Contatos pelo telefone: 71 -3083-4607

E-mail: bando2@gmail.com

Blog: www.bandodeteatro.blogspot.com


A Benção: Registro da festa para ebomi Cidália

postado por Cleidiana Ramos @ 6:10 PM
16 de abril de 2009
Uma cena da festa para ebomi Cidália no Rio de Janeiro, organizda por Pai Robson, ao seu lado na imagem. Foto: Arquivo pessoal de Ebomi Cidália

Uma cena da festa para ebomi Cidália no Rio de Janeiro, organizada por Pai Robson, ao seu lado na imagem.             Foto: Arquivo pessoal de Ebomi Cidália

 

Como foi noticiado em nossa seção A Benção o dia 19 de fevereiro marcou a celebração de três aniversários especiais: da ebomi Cidália Soledade, do tata Anselmo de Dandalunda e do professor Jaime Sodré.

Na época, o post informava que a ebomi Cidália estava no Rio de Janeiro. Pois lá ela ganhou uma grande festa liderada pelo babalorixá Robson de Oxaguian.

E agora para todos nós, que temos um carinho enorme por ebomi Cidália, vai aqui um registro da festa em terra carioca para a sacerdotisa, num sinal que o seu carisma desafia limites geográficos.  Imaginem a comemoração em 2010, quando ela vai completar 80 anos de idade.