Balaio de Ideias: É bom ser mãe. Desde que meu filho esteja vivo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:23 PM
8 de maio de 2010

Maíra Azevedo

Mãe é tudo igual! Quem nunca ouviu essa expressão? Mas agora que faço parte deste conjunto sei o quanto essa frase é falsa. E digo isso com propriedade de uma mulher negra que pariu uma criança negra em uma sociedade racista como é a brasileira.  Toda mãe pede em suas preces, seja para qual deus for, que seus filhos estejam em segurança. A mãe negra não. Ela pede ao seu deus que seu filho não seja abordado pela segurança de qualquer lugar e entre para as estatísticas.

Estatísticas essas que nos acompanham desde cedo. Pesquisas do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas – NEP/UNICAMP identificaram uma diferença sistemática na mortalidade de crianças menores de um ano. Os estudos constataram que houve no Brasil uma redução nos níveis das taxas de mortalidade infantil, entre a década de 70 e fim dos anos 90. Porém, ao introduzir na análise o quesito raça/cor declarado pelas mães, observou-se que a redução se deu de forma desigual entre as raças.  Enquanto o índice de mortalidade das crianças declaradas brancas foi reduzido em 43%, o número das crianças declaradas negras foi sensivelmente menor, apenas 25%.

E quando consegue a façanha de sobreviver, tem em frente um novo desafio. Manter-se vivo. Tudo bem,  eu sei que o destino de todos nós é a morte. Todos, independente de cor. Mas, para nós negros esse destino sempre tenta chegar mais cedo.

Sei que pode parecer mórbido escrever sobre isso quando se aproxima o Dia das Mães, uma data que as lojas capitalistas aproveitam para nos entupir com suas quinquilharias e com isso fazer com que a gente concorde que ser mãe é bom. É bom mesmo, aliás, maravilhoso, mas quando temos o nosso filho perto da gente e nem precisa trazer presente. Mas essa é uma realidade que nós mulheres negras, que tivemos a ousadia de parir, cada vez mais não temos.  Mórbido mesmo é rezar o tempo todo para o filho não ser vítima de uma chacina, não ser apontado como um provável marginal e a mãe ter que ir ao Instituto Médico Legal (IML) para reconhecer os restos mortais, porque nem sempre nos resta o corpo.

Sei que muitos vão afirmar que essa dor não é um “privilégio” apenas  das mulheres negras  e que  a dor de uma mãe que perdeu um filho, seja por qual motivo for, é insuperável. E eu digo categoricamente que concordo. Aí sim, na dor somos muito parecidos, mas também sofremos de forma diferente  e em posições distintas, cada uma no seu quadrado.  E olhe que digo isso, apenas como uma jovem e nova mãe.

Meu filho é um sobrevivente das estatísticas, tem um ano e 11 meses. Mas, desde já, o meu maior medo é que algum dia a polícia ou um grupo de extermínio execute o aborto que eu não tive coragem de realizar. E os episódios não aconteçam na ordem natural, pois, o maior presente para uma mãe é acreditar que ela vai embora antes do seu filho e não o contrário. É bom ser mãe, né?

Maíra Azevedo é  jornalista e militante da União de Negros pela Igualdade (Unegro)