Ilê Axé Opô Afonjá sedia homenagem ao Dia da Poesia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
7 de março de 2015
Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto:  Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 07/12/2012

Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE
Data: 07/12/2012

No dia 14 de março nasceu Castro Alves e, por isso, é quando se celebra a poesia. Ocupante da cadeira que homenageia o mais conhecido poeta baiano na Academia de Letras da Bahia (ABL), a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi preparou uma programação especial para festejar uma data tão mágica para as letras.

A partir das 17 horas do dia 14, próximo sábado, no Ilê Axé Opô Afonjá, o projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana vai celebrar o Dia da Poesia com o evento intitulado Três toques: poesia, amor e alegria.

O projeto, que foi inaugurado com a Animoteca, uma biblioteca itinerante, foi pensado para promover o diálogo entre as diferentes tradições religiosas.  A ação é voltada para a construção de uma cultura de paz e combate às variadas formas de violência.

A celebração vai começar com a apresentação da Camerata Castro Alves, criada em 1997 por Marcos Santana e que é especializada na interpretação do repertório do poeta.

“Poesia é ritmo, é toque, é música e é por isso que nos sensibilizaremos com a apresentação deste grupo cultural e artístico”, explica Graziela Domini, coordenadora do projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana.

O amor, que é o segundo toque, vai trazer poemas que cantam esse sentimento como os reunidos no livro Nazaré- das farinhas e poesias, uma coletânea das criações de poetas do município homônimo do período de 1831 a 1963.

A coletânea foi organizada por Carla Domini Peixoto e teve o seu lançamento como uma das atividades da visita da Animoteca a Nazaré.

O terceiro toque é a alegria celebrada no nome sagrado de Mãe Stella – Odé Kayodê –, que numa tradução do iorubá para o português significa Caçador de Alegria.

“ Quem convive com ela sente o encontro da alegria com a responsabilidade em seus pequenos e grandes atos. E é por isso que a cultura brejeira pedirá licença à seriedade do ambiente religioso para encerrar a apresentação com poemas do livro Prosa Morena, onde Jessier Quirino reescreve uma fala sertaneja que diz: ‘O mundo é uma bodega pequena e sortida. Mais dias menos dias a gente se encontra’”, completa Graziela Domini.

Segundo a coordenadora, esse também será o momento de entrega ao prazer da boa comida acompanhada de uma boa prosa. A atividade também vai reservar uma surpresa para os que aceitarem o desafio de declamar poemas autorais ou de outros poetas a partir dos temas amor e alegria.


Balaio de Ideias: Sucateiro, sucateiro…

postado por Cleidiana Ramos @ 2:50 PM
13 de fevereiro de 2014
Ilustração: Bruno Aziz

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos

Seis horas da manhã. Ouço vozes que vêm da movimentada rua que fica em frente ao quarto em que hoje estou dormindo. A casa está em reforma. Ai que saudade do meu quarto no fundo da casa… Em vez de vozes, eu escutava o lindo canto dos passarinhos, que de tão acostumados com o ambiente já penetravam casa adentro, entrando e saindo como se estivessem em seus próprios ninhos. Saudade do antigo quarto, e excitação com as novas experiências de amanhecer neste outro quarto.

Muita gente pode pensar que seis horas é um bom horário para acordar, eu também acho. Acordar às cinco horas é ainda melhor. É muito bom renascer a cada dia junto com o sol, sendo despertada pelo cantar de um galo. Entretanto, toda essa imagem romântica se transforma em uma realidade concreta quando, em vez do cantar do galo, ouço um alto-falante com um som de má qualidade anunciando a venda de pamonhas; quando o sol, tão preguiçoso quanto eu, teima em continuar adormecido em cima de uma acolchoada e fresca nuvem enegrecida. Confesso que a palavra pamonha me estimula a acordar mais rápido.

A imaginação foi tanta que cheguei até a sentir o cheiro inebriante de um bom café. Voltar a dormir estava fora de cogitação, o pregão da rua já tinha invadido minha mente: “Olha a pamonha, olha a pamonha, pamonha quentinha pro seu café da manhã”; “Acaçá de milho bem feito, tem de milho e tem de leite”; “Banana-da-terra, batata-doce, melão, melancia, ovos”. A essa altura, meu simples café imaginário com pamonha já se transformava em um banquete.

A imaginação fica solta quando o corpo está cansado e preso a uma cama. Hoje posso me dar a esse delicioso luxo, pois ontem varei a noite fazendo nascer para a vida espiritual mais um filho. Momento em que foram entoados muitos cânticos que atraíssem boa sorte, prosperidade, alegria, união, saúde, enfim, tudo de bom que uma pessoa precisa ter para caminhar com dignidade na vida. Enquanto minha imaginação vagava entre o passado recente de um ritual e o futuro próximo de um café da manhã, não foi pequeno o susto que levei ao ouvir uma voz que parecia querer ser ouvida por todo o universo:

“Sucateiro, sucateiro, compro sucata pra reciclagem”. A voz do sucateiro me assustou, mas o que ele queria comprar para reciclar me surpreendeu. “Quem tem ilusão pra vender? Quem precisa se desfazer de suas ilusões? Quem quer me entregar suas ilusões? Preciso de ilusões para reciclar, preciso de ilusões para transformar em sonhos! Olha o sucateiro…” – insistia o sucateiro.

Meu corpo se esqueceu de que estava exausto e deu um pulo da cama (ainda bem que ele não se esqueceu de pegar a bengala). Parece que a curiosidade é um grande despertador na vida e da vida. Sabendo que minhas pernas não tinham a rapidez necessária para alcançar o comprador de ilusões, precisei pedir a alguém que o trouxesse até minha presença. Ainda zonza de sono, não sabia se tinha alguma ilusão para vender, até porque não estava entendendo como era o funcionamento daquele comércio. Sabia apenas que precisava conhecer aquele estranho comerciante.

O sucateiro de ilusões aproximou-se de mim muito contente. Pensei que ele estava acreditando que iria fazer um excelente negócio comigo. Seu contentamento, segundo ele próprio, era simplesmente pelo fato de conhecer mais uma pessoa. Para meu espanto, fiquei sabendo que seu grande prazer era quando encontrava alguém que não tinha nenhuma ilusão para lhe vender e que o prazer era muito maior quando encontrava pessoas que já sabiam reciclar suas próprias ilusões em verdadeiros sonhos possíveis de serem concretizados, independentemente do tempo que eles precisassem para se realizarem.

Eu não sabia se alguma ilusão ainda estava viva em mim. Sonhos, eu sabia que ainda tinha muitos. Após uma longa e frutífera conversa, o sucateiro se despediu. Eu fiquei ponderando sobre a inusitada situação que acabava de vivenciar e relembrei do ritual da noite passada, cujos cânticos têm a função maior de reciclar as cabeças dos iniciados e do iniciante, que estava entregando sua cabeça ao comando de seu orixá.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Uma maleta sagrada

postado por Cleidiana Ramos @ 2:24 PM
1 de agosto de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre visita do papa ao Brasil. Foto: Marco Antonio Teixeira/UOL/Folhapress/22.07.2013

Mãe Stella faz reflexão sobre visita do papa ao Brasil. Foto: Marco Antonio Teixeira/UOL/Folhapress/22.07.2013

Maria Stella de Azevedo Santos

Eu não podia me furtar de falar da visita do papa Francisco ao Brasil. Reconheço que esse é um tema já bastante notificado pelos meios de comunicação. Não podia ser diferente. Não só é a visita do líder de uma religião que um dia foi a religião oficial de nosso País, mas principalmente pela figura carismática que é o papa Francisco. Para não ser cansativa nem repetitiva, opto por ter como base deste artigo um fato comentado, mas pouco refletido que é a maleta do papa.

Chamo-a de sagrada porque seu conteúdo, com certeza, não é apenas roupas e objetos de primeira necessidade. A maleta do papa é muito maior do que parece ser: todo o acúmulo de experiências em 76 anos de existência é transformado em sabedoria para ser vivida e transmitida, com a singeleza de um coração que tudo faz para se unir a muitos outros corações de boa vontade, para que juntos possam preencher o vazio de muitos outros corações carentes de amor, abraços, esperança, palavras de incentivo e reconhecimento… Enfim, na maleta que o papa carrega com tanto zelo estão guardados tesouros que podem tornar ricos os pobres de espírito.

Creio que quando um sacerdote insiste em orientar os seus fiéis para cuidarem dos pobres não está se referindo apenas a aqueles cujos corpos estão necessitando de comida e cujas casas não têm o necessário para uma sobrevivência digna. “Não só de pão vive o homem”. Há pouco tempo atrás os jovens cantavam: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”. Eles deixavam uma pergunta solta no ar, para ser respondida por cada um de nós como melhor nos conviesse: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

O papa Francisco é transparente como as nascentes das fontes que ainda não foram poluídas e obscurecidas pela inconsequência humana. Como humano que é, o papa Francisco nos pede que rezemos por ele. Tem sede que rezemos uns pelos outros; que cuidemos uns dos outros. Sua alma tem fome e precisa ser alimentada por amor vivido de maneira coletiva.

Os três milhões de católicos, e provavelmente não católicos também reunidos na famosa Praia de Copacabana, foi um importante alimento para a difícil jornada que o ser humano Jorge Mario Bergoglio começa a empreender enquanto representante maior do sagrado na terra, para os fiéis católicos. O sorriso encantado e encantador estampado no rosto do papa Francisco, seus olhos brilhantes de satisfação e seu semblante tranquilo lembravam uma criança que acaba de ser amamentada nos seios de uma mãe afetuosa. E você? “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

Nos dias em que fomos agraciados com a presença do papa em nosso País, um fato aparentemente corriqueiro tinha o poder de ao mesmo tempo destoar e harmonizar uma situação: o papa carregava sua própria maleta. Pode parecer para muitos um gesto forçado e midiático de demonstração de humildade. Os corações puros enxergam pureza de gestos e intenções no outro. O referido gesto pode ser analisado por diferentes ângulos.

Como religiosa que sou e sendo o papa também um religioso, optei por analisar esse ato de maneira espiritualista. Segurar sua própria maleta é um gesto que tem voz. Em alto e bom som, ele nos diz: mudei minha posição na hierarquia religiosa da igreja para qual prometi servir como sacerdote, mas não mudei minha essência divina; não mudei meu jeito de ser; não mudei a natureza que a mim foi dada por Deus para cumprir a missão que também a mim foi dada por Ele.

Esse gesto exemplar cochicha em nossos ouvidos para que não permitamos que fatos sociais nos obriguem a abrir mão de valores essenciais, abrir mão dos valores fundamentais para nossa essência. Se o papa Francisco deixar que hoje outras pessoas carreguem para ele sua maleta, corre o risco de que amanhã queiram carregar sua alma repleta de bons sentimentos, pensamentos e intenções. A maleta do papa é sagrada porque ao carregá-la ele nos faz refletir sobre o quão sagrado é o comportamento de respeitar a nossa própria natureza.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, às quartas-feiras, o jornal A Tarde publica seus artigos.


Mais festa para Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 7:20 PM
29 de abril de 2013

Essa eleição  de Mãe Stella para a Academia de Letras da Bahia continua emocionando todo mundo.  E quando a emoção é expressa por um grande artista ganha ainda mais cor. Vejam que espetáculo a charge produzida por Cau Gomez e publicada no jornal A TARDE, na edição do último domingo, dia 28.


Balaio de Ideias: “Embirrei compade”

postado por Cleidiana Ramos @ 12:09 AM
11 de abril de 2013

Pessoal: o Mundo Afro está em festa. Fomos um dos contemplados com o Prêmio Camélia da Liberdade. O prêmio é está em sua sétima edição e é organizado pelo O Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), sediado no Rio de Janeiro. A ideia é destacar açoes afirmativas em várias áreas. Da Bahia ainda foram contemplados o Instituto Mídia Étnica e a  Companhaia Hidrelétrica do Vale do São Francisco. Vamos comemorar em grande estilo com um artigo de Mãe Stella.   

Bela reflexão de Mãe Stella para comemorar prêmio para o Mundo Afro. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Assim eram iniciados os artigos do jornal “Foia dos Rocêro”, que circulava pela capital da Bahia há muitos anos atrás. “Embirrei Compade com a permanente falta d’água em um dos bairros de nossa cidade”; “Embirrei Compade com a demora dos bondes em passar pelos pontos”; “Embirrei Compade ao chegar no Pelourinho e receber lixo pela cabeça, que foi jogado pela janela de um sobrado, devido à ausência de carroças de apanhar lixo”.

Com tantas denúncias não é de se estranhar que o referido jornal tenha caído na “malha grossa” da censura governamental da época. Relembro  “Foia dos Rocêro” não apenas como um singelo registro histórico, mas também para mostrar como existem formas leves de se denunciar situações sérias. Parece-me que estamos perdendo a capacidade de brincar com nossas incompetências, coletivas e individuais. Não existe nada melhor do que rirmos de nós mesmos. Essa é uma excelente forma de manter acesa a chama do bom humor, que pode iluminar todo um ambiente, por mais escuro que ele esteja.

Por falar em escuridão, veio-me à mente um bonito mito yorubá que aproveito a oportunidade para transmitir a vocês, meus “leitores-filhos”. Afinal, sou mãe e não quero nenhum filho meu traumatizado porque não lhe contei nenhuma estorinha: Sol, Lua e Escuridão eram irmãos. Eles queriam sair do céu e vir para a Terra.

Sol sugeriu que fossem pedir ajuda aos divinadores, a fim de que fossem honrados e respeitados quando aqui chegassem. Mesmo considerando desnecessário aquele pedido de ajuda, Lua e Escuridão optaram por não discordar do poderoso irmão. Os divinadores indicaram que oferendas fossem dadas por cada um deles. Lua, presunçosamente, não fez as oferendas. Muito bela e popular decidiu não dar ouvidos às orientações. Escuridão sabia que já era temida, o que, consequentemente, fazia com que fosse respeitada. Sol foi o único a fazer o sacrifício. O feixe de vassouras que ele ofertou se transformou nos raios do sol, que passaram a ser usados para impedir que qualquer um se atrevesse a olhar fixamente para Sol. Lua não foi totalmente desprezada porque tinha feito antes sacrifício para o amor, conquistando por isto a simpatia dos casais enamorados. Já Escuridão, que não fez sacrifício nenhum, quase nenhuma valia tem e por isto não conseguiu ser amada.

Ouvir estórias é gostoso e saudável, sentir-se criança também, mas comportar-se como tal quando se é adulto é ridículo. Não são poucas as vezes que tenho assistido a cenas desse tipo. O ridículo muitas vezes é cômico, mas não consigo achar graça nenhuma quando vejo um adulto embirrado como criança.

Com isso não quero dizer que o adulto não tem motivos para embirrar, mas tem que ser birra de adulto, que pode e deve ser traduzida como indignação. De nada adianta para o adulto bater os pés no chão ou fazer cara feia quando algo lhe desagrada. Sua indignação/birra deve servir para que ele encontre uma solução para seu problema.

“Embirro compade” quando vejo birras sem fundamento. Se o jornal “Foia dos Rocêro” ainda existisse, eu mandaria para seu editor um artigo na esperança que fosse publicado e que sobre ele houvesse uma reflexão por parte dos leitores.

O artigo diria o seguinte: Embirrei compade porque vi iniciados que não assumem o sacerdócio; Embirrei compade porque vi sacerdotes que não querem entender sua verdadeira vocação, que é a de servir; Embirrei compade porque vi pessoas trocarem religiosidade por fanatismo; Embirrei compade porque vi usarem as religiões, inclusive a que pratico, como meio de enriquecimento, esquecendo-se estas pessoas que o verdadeiro religioso não mede a riqueza pela quantidade de bens materiais que possui, mas sim pela quantidade de bem que conseguiu fazer a si mesmo e aos outros. Embirro compade quando vejo um dos fundamentos mais importantes do Candomblé – o feitiço, que é uma linguagem usada para ajudar o homem em sua caminhada na Terra – ser interpretado por leigos como algo pernicioso, ou pior, quando é usado pelos próprios religiosos como instrumento de amedrontamento e meio de enriquecimento.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, no jornal A TARDE sempre às quartas-feiras 


Balaio de Ideias: E o mundo não se acabou

postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
27 de fevereiro de 2013

Mãe Stella faz reflexão sobre o comportamento das pessoas diante do mundo que nos cerca. Foto: Gildo Lima/Ag. A TARDE/ 18.03;2011

Maria Stella de Azevedo Santos

A ciência, entretanto, pesquisa e já chega até a afirmar que nosso planeta pode, sim, findar-se um dia. O planeta Terra é um ser vivo, e como todo ser vivo está sujeito a vários tipos de transformações. Esse é um assunto tão sério e profundo que me parece ser específico dos cientistas. A nós, “pobres mortais”, resta-nos viver. Se algo temos que pensar é o que fazer com a vida que nos resta e que tipo de pessoa queremos ser nesta vida.

São muitas as opções. O ser queixoso, que faz de um pequeno incidente uma tragédia; o eterno insatisfeito, que por mais que receba sente-se como um saco vazio incapaz de ser preenchido; o “palpiteiro”, que parece entender de tudo, mas pouco sabe e o que sabe é superficial; o carente, o adulto infantil que insiste em não crescer para poder estar sempre pedindo colo, esquecendo-se que já está na idade de oferecer o seu; o misterioso, que faz de seu simples dia a dia uma arca de segredos profundos, facilmente decifráveis.

Outros tipos de opções também existem: o ser disponível, cuja presença é traduzida como atuação positiva; o grato, que ao valorizar os favores recebidos ajuda a não desestimular as pessoas doadoras; o flexível, que absorvendo a diversidade permite que o colorido possa ser apreciado; o alegre, que torna os fardos leves como plumas; os guerreiros, que mesmo perdendo as batalhas entendem que têm guerras a serem vencidas.

Será uma atitude esperada que o leitor se veja em uma dessas opções, e ainda procure encaixar nelas seus conhecidos. Creio ser essa uma atitude saudável, caso o leitor consiga fugir da tendência de se ver como um tipo considerado positivo, enquanto seus pares são colocados no lado oposto. É uma grande tentação, da qual se deve procurar sempre escapar. Não é só a culpa que colocamos nos outros, os defeitos também. Quando não temos como culpar ninguém, o sistema, os governos e até os deuses passam a ser os vilões.

Hoje, ao assistirmos e lermos os jornais, gostamos de comentar sobre a violência que assola o mundo. Entretanto, esses mesmos meios de comunicação já noticiaram pesquisas científicas comprovando que o período que vivemos é o menos violento pelo qual passa a humanidade. Parece incrível, mas é verdade, basta dar um passeio pelos livros de História Universal que encontraremos barbaridades.

A diferença parece estar clara, é que hoje tomamos conhecimento diariamente do que acontece no mundo. Não comento esse fato para nos conformarmos com a violência, mas sim para que ao entendermos que ela já foi muito pior, possamos ter a esperança que ela continuará diminuindo, caso cada parcela da sociedade e cada indivíduo faça a parte que lhe é devida.

Os seres vivos, todos, carregam em si o instinto da agressividade. Podemos ver isso em nós mesmos, nos animais, nas plantas e na natureza como um todo. Raios, tufões, vulcões não podem ficar invisíveis aos nossos olhos. A agressividade sempre existiu e sempre existirá na natureza, e é claro no homem. Afinal, não existe a natureza e o homem, e sim “a natureza” da qual o homem faz parte.

É interessante observarmos que essa “agressividade” varia de intensidade não só de pessoa para pessoa, como até mesmo entre os vulcões, por exemplo. Quando o instinto já é forte e o meio ainda o estimula, a situação fica pior. Aos cientistas cabe a tarefa de criar mecanismos para prever as tragédias naturais, a fim de que a destruição causada por elas sejam minimizadas, além de ampliar os estudos sobre cérebro e comportamento humanos; os governos precisam concentrar esforços para aprender a não apenas coibir, mas fornecer condições favoráveis para que a agressividade não domine o homem.

Digo e repito, todos os instintos com os quais nascemos devem ser usados para nossa sobrevivência. Devemos ter controle sobre eles, e não o contrário. Não podemos nem devemos permitir que nada nem ninguém nos domine, nem mesmo nossos instintos. O inverso também é uma verdade: não podemos, nem devemos desejar dominar nada nem ninguém, nem mesmo nossos instintos. A permanente busca pela convivência harmônica é a chave.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonja. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: A palavra é: “dogmas”

postado por Cleidiana Ramos @ 3:52 PM
15 de agosto de 2012

Mito de Oxóssi ganha destaque em artigo de Mãe Stella. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 27.12.2003

Maria Stella de Azevedo Santos

Nos dois últimos escritos que fiz para este quase centenário jornal, os assuntos abordados foram a cosmogonia e a liturgia do candomblé. Continuando a série de artigos que trata do “corpo religioso” que fundamenta essa religião, hoje o tema é dogmas: “verdades” reveladas pelos orixás, as quais são usadas pelos adeptos como bússolas que norteiam o caminho a ser vivenciado por eles, até que seja atingida a completa união. Toda religião possui seus dogmas; possui suas próprias verdades que são aceitas usando-se apenas o critério da fé. No caso específico da religião dos orixás, os dogmas foram revelados, mas não legitimados por nenhum codificador. Eles são transmitidos pelos mais velhos aos mais novos, que devem simplesmente aceitá-los. A opinião pessoal do “filho de santo” não é levada em conta no que diz respeito à modificação dos dogmas, mas deve ser vista como fator importante para clareá-los e elaborá-los.

Em um artigo, é impossível falar de todos os dogmas que orientam os sacerdotes da religião dos orixás, por isto optei por um que é específico do candomblé da nação ketu: a interdição do mel como alimento para os filhos de Oxossi e seus descendentes. Conta um mito:

No dia em que Oxossi estava indo caçar, ele procurou Orumilá a fim de fazer jogo divinatório. Oxossi deveria fazer oferendas para que ele não se perdesse na floresta. Ele disse que conhecia a floresta muito bem e que nunca se perderia dentro dela. Oxossi não fez as oferendas e foi para a floresta caçar. Ele viu um rastro no chão e começou a segui-lo. Quando Oxossi parou para olhar o rastro, ele colocou seu arco e flecha no chão, mas quando foi pegá-lo não o encontrou. Cansado, com fome, sem arma para providenciar alimento, ele ficou perdido na floresta. De repente, Oxossi viu uma jaqueira com o chão forrado de folhas e se deitou sobre elas. As abelhas que estavam na árvore fabricaram o mel, que começou a pingar sobre sua boca. Ele ficou ali por quatro dias, quando o único alimento que recebeu foi mel. Oxossi se recuperou e já sabia como voltar para casa. O caçador voltou a procurar Orumilá, querendo agora fazer as oferendas que ele não tinha feito. Orumilá disse: “A partir de agora, Oxossi e todos seus descendentes não comerão mais mel, somente em casos de extrema necessidade”.

Como pode ser visto, os mitos ajudam no sentido de fazer com que os dogmas possam ser mais bem entendidos e, assim, cumpridos sem maiores resistências. É por não entender o fundamento que está na base dos dogmas de cada religião que muitos deles são criticados. É, portanto, uma insensatez o seguidor de uma crença criticar os dogmas de quem segue outra religião que não a sua. O provérbio ensina: cada terra tem seu uso, cada uso um parafuso. O aprofundamento do dogma também ajuda para que ele possa ser adaptado à realidade de local e tempo, sem que ele seja maculado e, assim, corra o risco de perder sua função de orientador para o grupo ao qual ele está vinculado.

Na Bahia, o culto aos orixás é entendido como candomblé da nação ketu, jeje, angola… Eu professo o candomblé vinculado à nação ketu, cujo fundador é Oxossi. Essa nação, heroicamente, soube adaptar-se ao mundo moderno, sem permitir que seus fundamentos fossem abalados. Já para a nação jeje, tudo fica mais difícil, pois seus dogmas e liturgia encontram dificuldades de serem flexibilizados e readaptados. Por isso, peço às autoridades constituídas, tanto religiosas quanto civis, que se lembrem de que a união faz a força.

A sabedoria jeje corre um grande risco de desaparecer. Não podemos permitir que isso aconteça. Se é preciso preservar as espécies animais, vegetais e minerais, é também preciso preservar o conhecimento cultural e religioso que ajuda os homens a serem mais humanos. Nós, religiosos, pedimos que as autoridades civis a nós se unam para realizar esse difícil, mas não impossível, resgate. É o país Benin, em África, o berço da nação jeje. Tenho conhecimento que um grupo deseja ir para Benin em busca dos conhecimentos que lá ainda vivem. Quero crer que ele não estará sozinho, os homens e os deuses estarão sempre com eles.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve artigos para o jornal A TARDE, publicados sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Somos muitos sendo um só

postado por Cleidiana Ramos @ 1:01 PM
5 de julho de 2012

Mãe Stella nos traz mais uma bela reflexão sobre o candomblé. Foto: Haroldo Abrantes / Ag. A TARDE/ 18.11.2009

Maria Stella de Azevedo Santos

Muitas moram em mim. E são essas muitas que se unem em uma só a fim de escrever quinzenalmente para o jornal A TARDE. Às vezes quem escreve é uma mulher de 87 anos, cuja experiência vivida deseja transmitir aos leitores; outras vezes é a mãe espiritual, que aproveita a ocasião para “puxar as orelhas” dos filhos; algumas poucas vezes é a “poetisa” que mora escondida e que só se expressa quando sente não mais suportar a dureza da vida; dias há que quem escreve é a mulher responsável e comprometida com um jornal, e que mesmo sem inspiração faz sua mente esforçar-se para que o prazo de entrega do artigo não expire. O artigo de hoje foi escrito pela iyalorixá que lutou, e luta, para que o trabalho de suas antecessoras não tenha sido em vão; para que o candomblé, religião professada por elas e por mim, não seja temido e sim respeitado. Entendendo que o respeito advém do entendimento, optei por escrever uma sequência de artigos que colaborem para um melhor entendimento do instinto religioso, o qual é inerente aos seres humanos, e como o candomblé lida com esta parcela da grandiosa, complexa e inalcançável natureza humana.

Nem o grande e importante avanço da ciência, para quem a comprovação de dados é fundamental, impediu ou diminuiu a necessidade que tem o homem de conexão com o misterioso mundo divino, que se acostumou a denominar de processo religioso. Muito se discute se uma corrente religiosa é seita ou religião, como se um simples termo pudesse definir um estado de ser. Isso só ocorre porque a humanidade ainda opta pela rivalidade, concorrendo com pessoas que pretendem a mesma coisa: comungar com o divino. Eu mesma, como humana que sou, quando sinto em alguém a tentativa de desvalorizar a religião que professo, esqueço-me que ela não precisa de defesa e termino por cair no jogo da rivalidade entre as religiões: um sentimento vaidoso me toma e afirmo que o candomblé é uma religião constitucional, composta de cosmogonia, dogmas, liturgia, rituais, blá, blá, blá… Esses termos são úteis, sim, quando o intuito é apresentar as diferentes formas que cada grupo encontra para manifestar sua relação com o mundo divino. É uma maneira didática de transmitir conhecimentos de modo que estes possam ser entendidos com uma maior facilidade.

É comum conceituar-se seita usando-se como critério a etimologia da palavra. Isso implica dizer que seita é um segmento, uma facção independente, de uma religião já organizada. Não creio estar o problema no fato de um grupo religioso ser uma seção de outro, mas, sim, no fato de um líder religioso, seja ele iyalorixá, padre, pastor, monge, etc., tentar neutralizar o livre pensar de seus liderados, além de excitar a rivalidade entre membros de crenças aparentemente diferentes da sua. Afinal, não existe “o meu deus” e, sim, a ideia de deus. Respeitar o pensar do outro talvez seja a principal característica de um verdadeiro religioso, pois esta é uma das formas de se estar conectado com o divino que existe em cada filho de Deus, consequentemente com Deus. Respeitar até o direito do grupo de pessoas que não acredita em Deus – os ateus, que de tanto preconceito sofrido, perceberam a necessidade de fundar uma associação – ATEA –, que busca diminuir o desconhecimento sobre esta forma de pensar.

De maneira variada, as religiões ou seitas encontram a forma própria de exercitar sua crença. É, entretanto, possível perceber elementos comuns a todas elas, que são, exatamente, a cosmogonia, a liturgia… Nesses elementos estão guardados os pensamentos subjetivos de cada grupo religioso, os quais independem de comprovação científica e servem para estruturar o ser humano consigo e com a comunidade em que vive. Somos muitos em um só. Serei professora na série de artigos que se seguirá, tentando transmitir aos leitores como os adeptos do candomblé entendem o surgimento do cosmo (cosmogonia); realizam sua liturgia (rituais públicos); aceitam seus dogmas (verdades inquestionáveis de um grupo) e praticam seus rituais (cerimônias realizadas em momentos específicos).

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela publica artigos em A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: 6+12=5

postado por Cleidiana Ramos @ 2:39 PM
21 de junho de 2012

Mãe Stella explica o sentido da prosperidade na visão do Candomblé. Foto: Edmar Melo/Ag. A TARDE/ 30.07.2003

Maria Stella de Azevedo Santos

Para quem tem como prática religiosa o culto aos orixás, o dia 6 do mês 6 foi, e continuará sendo, de extrema importância. Afinal, no profundo sistema numérico do jogo de búzios, o número 6 foi o responsável por trazer a prosperidade para a Terra. Para o povo africano, de quem herdamos uma boa parcela de nossa filosofia de vida, ser próspero é uma obrigação. Por isso, nessa data, o “povo de santo” fica todo ouriçado: põe suas melhores joias, sai para fazer compras e faz oferendas. Tudo para atrair prosperidade. O alcance dessa graça é um dos maiores desejos do ser humano. Mas quem é essa tão desejada prosperidade?…

Diferente do que normalmente se costuma pensar, a filosofia yorubá não relaciona prosperidade, apenas, a dinheiro. A referida palavra quer indicar uma reunião de circunstâncias que precisam ser buscadas, para que se vá alcançando, continuamente, um estado mais elevado do ser, em seus diferentes aspectos: físico, emocional, social, espiritual e, é claro, financeiro. Até mesmo porque de nada adianta se ter muito dinheiro sem a tranquilidade necessária para saber usá-lo com sabedoria.

Quando elevamos nossos pensamentos aos orixás, dizemos: Olu wá mi, fún mi ni ekun fún mi ni owo = Venha meu senhor e me traga força pura para que eu possa ter dinheiro. Força pura é o axé que permite que os obstáculos sejam vencidos. É um grande risco, então, pedir dinheiro aos deuses, sem que se tenha antes pedido e alcançado o axé necessário para que ele seja um aliado e não um inimigo. Dinheiro, sexo e poder são como “faca de dois gumes”: tanto podem levar à ascensão como ao fracasso.

Este artigo é fruto da vivência que tive com dois filhos meus. Um pela empolgação e outro pela curiosidade demonstraram interesse de conhecer mais profundamente, e de acordo com a tradição que os guia, um tema a que outras tradições também se dedicam com afinco – a prosperidade, que na cultura yorubá é simbolizada pelo número seis. É através da leitura dos números que esse povo e seus descendentes encontram soluções para as dificuldades diárias. Os números falam e os mitos nos ajudam a entender o que eles dizem. Sem o conhecimento das histórias míticas nunca entenderíamos o porquê de ser dito: 6 + 12 = 5:

O número 6 e o número 12 surgiram de um bloco de ouro. Eles se apaixonaram, perdidamente. Dessa união nasceu Ajé – orixá símbolo da riqueza –, irmã de Oxum – a dona da pérola e de outras pedras preciosas, orixá que tem no número 5 uma de suas formas de se comunicar. Do número seis, portanto, nasceram a riqueza e o costume de usar joias; mas também com ele vieram a vaidade e o orgulho, que podem levar à destruição de tudo que se conquistou. Esse número lembra-nos que o destino das criaturas é a prosperidade e que a humildade é uma das condições fundamentais para a aquisição desta graça.

O número 6 nos conta, através de um de seus mitos:

Todos os anos, Olorum fazia uma festa e convidava os números 1 a 16, a fim de que eles prestassem conta de seus atos na Terra. Encerrada a reunião, todos eram presenteados de acordo com o valor de seus méritos. Naquele ano, porém, a Divindade Suprema resolveu que daria um presente igual para todos. O número 6 era muito pobre e por isto seus irmãos foram até sua casa, antes da festa, para almoçar. A real intenção era humilhar o dono da casa, que mal tinha como alimentar sua própria família. Seis deu tudo que tinha guardado para a alimentação do mês. Nem assim deixou de sofrer gozação. Já cansado de tanta humilhação, ele desistiu de ir à tal reunião. Olorum sentiu sua falta, mas nada comentou.  No final da festa, os números, de 1 a 16 (menos 6), receberam uma abóbora. Todos ficaram revoltados com um presente tão simples e despejaram todas as abóboras na casa de 6. Eles só não sabiam que os frutos estavam recheados com ouro e joias. No ano seguinte, todos se surpreenderam ao ver que o mais pobre dos irmãos era agora muito rico. Olorum, então, disse-lhes: Vocês todos têm riqueza, mas 6 tem prosperidade.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada 15 dias seus artigos são publicados no jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: Ouvi, vi, li,aprendi, transmiti

postado por Cleidiana Ramos @ 2:35 PM
8 de junho de 2012

Mãe Stella faz reflexão sobre capacidade de estar aberto a aprender. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

OUVI: Os meus mais velhos me contavam que no início dos tempos os homens não admitiam ter um líder entre eles. Ôlôrun, então, determinou que fizessem a primeira eleição na Terra, a fim de que um líder fosse escolhido para dar fim à anarquia existente. A ordem foi dada no sentido de que todos, independente de sexo, idade e cor, participassem da disputa. Enfim, que a disputa fosse democrática. Contrariando as ordens de Ôlôrun, os mais velhos decidiram que o líder seria escolhido entres eles, optando-se por aquele que tivesse mais cabelos brancos. Ôlôrun não admitiu mais aquela desobediência e disse que todo velho merece respeito, mas que nem todos são dignos dele, pois os ladrões, assassinos e canalhas também envelhecem.

VI: Eu estava passando por uma rua estreita, quando vi um homem relativamente forte ameaçando outro que era deficiente físico. Fiquei atenta, pois se houvesse agressão física a luta seria desigual. Mas alguém chamou a polícia e tudo ficou resolvido. Fui, então, estar com o homem aparentemente mais frágil, a fim de confortá-lo, quando ele me disse: “só agora entendi porque deus me fez com dificuldades físicas, pois se eu não as tivesse seria um valentão, provavelmente estaria perdido no caminho, e ao invés de estar em uma cadeira, eu estaria agora em uma prisão”.

LI: “Era uma vez um rei que vivia sempre acompanhado por um sacerdote. Todas as vezes que o rei se queixava com o sacerdote, este dizia: ‘Tudo que Deus faz é certo’. Um dia, os dois saíram para caçar. Por acidente, o sacerdote arrancou um dedo do rei com o machado. O rei esbravejou com o sacerdote, que disse: ‘Tudo que Deus faz é certo’. Mais enraivecido ainda, o rei mandou prender o sacerdote. Tranquilamente, este disse: ‘Tudo que Deus faz é certo’. Mesmo sem um dedo, o rei retornou às caçadas, quando foi atacado por uma tribo de canibais. No momento de ser comido pelos canibais, um deles percebeu a falta do dedo no rei e o libertou, pois naquela tribo pessoas mutiladas não serviam como alimento. Só então o rei percebeu o significado das palavras usadas pelo sacerdote. Agradecido à providência divina e ao sacerdote, já que graças à falta do dedo sua vida tinha sido salva, o rei ordenou que o sacerdote fosse libertado. O rei já tinha compreendido que tudo que deus faz é certo, mas uma coisa ainda o intrigava. O rei, então, foi conversar com o sacerdote e lhe perguntou: ‘Como Deus permitiu que um homem tão bom como Vossa Reverendíssima ficasse preso? Ao que o sacerdote respondeu: ‘Tudo que Deus faz é certo. Se eu não estivesse preso, seria caçado junto com Vossa Majestade. Como não sou mutilado, estaria morto neste momento’.”

APRENDI: Eu aprendi com o que ouvi, vi e li que por mais idade que se tenha ninguém é sábio suficiente para que não continue sendo um permanente aprendiz. Tanto que o provérbio yorubá diz: “Ôlôgbön kan ò ta kókó omi sétí aÿö” = “Não há sábio que consiga prender com um nó a água na roupa”. Por isso, mesmo que com o passar da idade os órgãos do sentido não funcionem como antes, é preciso continuar ouvindo, vendo e usando a língua com sabedoria para transmitir aos mais novos as permanentes novas lições que se recebe a todo dia, a todo instante. Viver é aprender! Aprender é ensinar! Ensinar é reaprender!

TRANSMITI: A vida deu para mim a oportunidade de poder transmiti os muitos ensinamentos que recebi de deuses e homens. Sendo um dos mais úteis a noção de que nem todo mau é mal e nem tudo que parece bom seria para nosso bem. Afinal, tudo que deus faz é certo, até quando nos parece errado. Mas não sou a única a poder transmiti aprendizados. A todos é dado o direito e principalmente o DEVER de buscar aprender constantemente e revelar, da maneira que lhe for possível, os conhecimentos adquiridos, mesmo quando estes ainda não foram incorporados em sua personalidade. Pois, o exemplo é muito importante, mas não necessariamente tudo. Ninguém precisa, por exemplo, deixar de comer açúcar, para ensinar aos filhos o mal que esta substância faz ao corpo físico, quando ingerida em excesso.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Balaio de Ideias: Na encruzilhada da vida

postado por Cleidiana Ramos @ 5:26 PM
23 de maio de 2012

Mais um belo artigo de Mãe Stella. Foto: Fernando Vivas/ Ag. A TARDE/ 31.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Quando se fala em encruzilhada, imediatamente surge na cabeça dos brasileiros a ideia de Exu e de “bozó”, nome pelo qual o povo gosta de designar as oferendas que o povo de candomblé faz fora do terreiro-templo. Claro que a referida divindade está, sim, ligada aos entrecruzamentos de caminhos. Mas o simbolismo da encruzilhada e, consequentemente, da cruz está presente em muitas religiões, sendo, assim, universal. O catolicismo soube enaltecer e ao mesmo tempo popularizar a imagem da cruz, mostrando Jesus sacrificando-se pela humanidade, momento em que ultrapassou seu estágio humano. A cruz, com seus quatro “braços” que apontam para os quatro pontos cardeais, é símbolo de orientação no espaço, para que a jornada humana não seja perdida.

A encruzilhada, portanto, é um lugar de pausa, um momento parado no tempo, que leva à mudança de um estágio a outro ou, simplesmente, de uma situação a outra. Quando, portanto, oferendas nas encruzilhadas são depositadas, está se pedindo inspiração para o novo caminho que se deseja trilhar. Está se pedindo a quem? A Exu, que é, na crença nos orixás, a divindade orientadora dos caminhos, responsável por mostrar a direção correta a ser tomada, tendo em vista que as dúvidas e incertezas possam, por fim, dar o descanso necessário à mente. Exu é a nossa bússola, aquele que nos protege para que não fiquemos desnorteados. Afinal, enquanto seres humanos, nós somos muito instáveis.

Em rituais celebrados pelo candomblé, a característica de instabilidade do ser humano é cantada: Pákun aboìxá; Ibà pa ràn tán axó dá ma aro; a fi dà wa rá àxé akó ma orixá; orixá wa baba alaye = Apague o fogo dos incêndios e nos proteja do aguaceiro; apague o fogo, o calor que se alastra; termine com as muitas discussões e tristezas criadas; nós somos instáveis, transforme-nos, imploramos sempre pelas suas instruções e sua doutrina, orixá. Seja nosso mestre, o dono do nosso modo de viver. Cecília Meireles, em seu poema Ou isto ou aquilo, também nos lembra dessa particularidade, que tanto desgaste dá à mente humana:

“Ou se tem chuva e não se tem sol/ ou se tem sol e não se tem chuva!// Ou se calça a luva e não se põe o anel/ ou se põe o anel e não se calça a luva!// Quem sobe nos ares não fica no chão,/ quem fica no chão não sobe nos ares.// É uma grande pena que não se possa/ estar ao mesmo tempo em dois lugares!// Ou guardo o dinheiro e não compro o doce/ ou compro o doce e gasto o dinheiro.// Ou isto ou aquilo… ou isto ou aquilo…/ e vivo escolhendo o dia inteiro!// Não sei se brinco, não sei se estudo/ se saio correndo ou fico tranquilo// Mas não consegui entender ainda/ qual é melhor, se é isto ou aquilo.”

A vida nos coloca sempre em encruzilhadas, onde somos obrigados a escolher que atitude tomar, por isto se diz que é na encruzilhada que se encontra o destino. É que as encruzilhadas, isto é, os cruzamentos de caminhos, são espaços sagrados, daí a responsabilidade que se deve ter com os rituais e, consequentemente, os pedidos feitos nestes locais. Por exemplo, é comum o hábito de se depositar oferendas para determinadas “entidades”, com o objetivo de conseguir um amor. Inocentes pessoas que, sem o conhecimento devido, não sabem que os amores assim conseguidos são passageiros, tanto que em latim a palavra encruzilhada é conhecida como trivium, significando aquilo que é trivial, que é efêmero.

Repetindo, as encruzilhadas são lugares sagrados onde se pede ajuda aos deuses para que tenhamos critérios nas escolhas feitas, a fim de não nos perdermos no caminho. São também nesses locais que pessoas que possuem o devido preparo espiritual, com muita responsabilidade e respeito, realizam rituais cuja finalidade é despachar, no sentido de expulsar, as energias negativas, que o sagrado consegue transmutar em energias positivas, para depois serem devolvidas aos homens, já livre de todas as impurezas. Pois as encruzilhadas são lugares, e momentos, de reflexão para escolha do caminho a seguir, mas também são lugares naturais para que possamos nos desvencilhar das negatividades por nós criadas ou em nós respingadas.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, seus artigos são publicados no jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: Há sacerdotes e sacerdotes

postado por Cleidiana Ramos @ 5:20 PM
2 de maio de 2012

Hoje, no dia do aniversário de Mãe Stella, quem ganha um presente somos nós: os leitores dos seus sábios e profundos artigos. Como na quarta-feira passada não foi possível fazer a publicação, deixei para fazê-la hoje e aproveitar para dar os  parabéns a Mãe Stella.

Mãe Stella faz hoje 87 anos. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 11.09.2009

Maria Stella de Azevedo Santos

O povo brasileiro, por ter vivido séculos vinculado a uma religião dominante – o catolicismo, entendeu como sendo sacerdotes apenas os padres. Na verdade, é sacerdote todo aquele que ministra um culto divino e dá instruções religiosas, com o objetivo de servir de ponte entre o sagrado e o profano.

No Dicionário de Aurélio, também encontramos que sacerdote é um “feiticeiro que oficia nas sessões de catimbó”. Catimbó é uma palavra geralmente usada para designar as várias religiões que fazem uso de magia em seus rituais. Visando diminuir o preconceito, que nada mais é do que um conceito formado sem conhecimento de causa, eu tentarei esclarecer para os leitores o que é magia: são saberes, crenças e práticas reveladas, através das quais determinadas forças da natureza são manipuladas, visando diminuir a distância entre Deus, deuses, e homens. Quando os saberes e práticas reveladas se institucionalizam em um determinado grupo social, uma religião é constituída, como é o caso do candomblé.

Por ser uma religião surgida no Brasil através de um povo escravizado, não letrado, que não fazia parte nem da considerada mais baixa classe social, que não era visto nem mesmo como humano e sim como objeto de trabalho e lucro, o candomblé sofre ainda hoje preconceito, até por parte de seus iniciados.

Tanto que muitos “filhos-de-santo” se consideram e afirmam para a sociedade que eles são católicos. Isso acontece por medo de descriminação, por hábito herdado da família e da sociedade. Mas o pior é quando isso acontece por falta de reflexão. Se todo ser humano tem por obrigação refletir, isto é, pensar e repensar sobre sua vida, imagine alguém que se dispõe a ser um “filho-de-santo”, um iniciado do candomblé, enfim, um sacerdote.

Preconceito ainda maior se deve ao fato da referida religião trabalhar com magia e esta ser, como já falei, desconhecida nos seus fundamentos e propósitos, ou ainda ser mal utilizada por pessoas inescrupulosas, irresponsáveis e gananciosas, que iludem pessoas que querem ou precisam ser iludidas, transformando religião em comércio e acreditando que podem barganhar com o sagrado.

Muito da visão equivocada que nosso povo tem sobre os feiticeiros, deve-se exatamente aos próprios feiticeiros, principalmente àqueles do tempo da escravidão, que faziam uso de números de ilusionismo para mostrar que, assim como os brancos, eles tinham também força e poder. Ainda hoje vemos esse tipo de “feiticeiro”, que mesmo não precisando mais fazer uso desses recursos, deles se valem para alimentar a vaidade de seus egos e tirar lucro financeiro.

Os falsos feiticeiros em questão gostam sempre de dizer que feitiços maléficos foram feitos para aquela pessoa que o buscou e que por isto oferendas de custos elevados precisam ser feitas. Se me surpreendem esses falsos sacerdotes, surpreendem-me mais ainda as pessoas que acreditam neles. Na verdade, elas gostam de ouvir que estão enfeitiçadas. É uma forma de se autovalorizarem. Muitas das pessoas que buscam meu auxílio se esforçam para me convencer que estão sendo vítimas de feitiçaria e é um custo remover estes pensamentos delas. Para que os sacerdotes da religião dos orixás não caiam nessa armadilha, eles precisam retirar o véu da vaidade que encobrem seus olhos e que faz com que se percam no caminho que os conduziriam à verdadeira comunhão com o divino.

Feiticeiro é todo aquele que faz encantamentos e é por isto um ser encantado. A palavra ajé, que o povo de candomblé tanto teme, apenas significa mulher que encanta e seduz. Sem medo nenhum de usar a palavra, digo para todos os feiticeiros, principalmente para os que tenho obrigação de orientar, que façam bom uso da magia, utilizando-a para auxiliar àqueles que os procuram, no sentido de vencerem os obstáculos, sem prejudicar nem interferir no destino do outro. Concluo alertando aos sacerdotes do candomblé que assim como não fica bem para um juiz infringir a lei, que a ele foi dada a tarefa de fazer com que seja cumprida, também não fica bem para um sacerdote ter comportamentos incompatíveis com sua função.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, sempre às quartas-feiras,o jornal A TARDE publica seus artigos.  


Balaio de Ideias:BBB – Bom,bonito, barato

postado por Cleidiana Ramos @ 6:30 PM
14 de março de 2012

Mãe Stella faz reflexão sobre uso do dinheiro no âmbito da espiritualidade. Foto: Reuters/Bruno Domingos

Maria Stella de Azevedo Santos

Uma grande liquidação é considerada por muitos baianos o verdadeiro Big Brother Bahia – Grande Amigo da Bahia –, mais precisamente de sua capital, onde terminou de acontecer a “Liquida Salvador”, momento em que muitos pontos comerciais colocaram seus produtos à venda por um preço bem mais baixo. Isso, pelo menos, foi o prometido. No entanto, para um bom observador, como em qualquer setor, há os que cumprem o prometido e os que se aproveitam do interesse consumista do ser humano para tentar obter lucros de maneira abusiva.

Nada contra o ato de comprar, muito pelo contrário! A compra e a venda conscientes geram prosperidade, prazer e uma melhor qualidade de vida para o povo, que é para quem a economia deve estar a serviço. E quando falo povo, estou referindo-me a toda a população, e não dividindo esta em classes: A, B, C, D, E… O que quero aqui, na verdade, é aproveitar o momento para falar sobre o dinheiro, de modo a chamar a atenção de todos para que deem a ele o valor na medida certa: sem supervalorizá-lo, nem subestimá-lo.

Uso aqui a palavra Troca com letra maiúscula para demonstrar a importância deste comportamento, que é uma Lei Universal. A terra nos alimenta, mas pede em troca os nossos corpos como alimento. A Lei da Troca, como todas as leis que entendemos regular o Universo, não está limitada a nenhum setor. Como seu próprio nome diz, ela é universal, tendo a obrigação de fazer parte da vida, nos seus diversos e diferentes setores: na família, somos cuidados quando crianças e em troca cuidamos de quem de nós cuidou; entre amigos, um “muito obrigado” pede um “não há de que”; no trabalho, entregamos serviços e recebemos salários… A palavra salário, inclusive, serve para lembrar que a troca, exatamente por ser uma Lei Universal, sempre existiu. Se nos dias atuais o elemento material representativo da troca é o dinheiro, já houve tempo em que foi o sal, de onde deriva a palavra salário.

Sempre existiu e sempre existirá a troca. E por ser esse um comportamento tão essencial, o elemento material que o representa, nas diferentes épocas, deve ser tratado com cuidado e respeito, pois se sua falta faz falta, seu excesso pode fazer um grande estrago para a caminhada de quem o possui e até mesmo para a de seus descendentes. É por essa razão que as religiões têm cuidado com o uso do dinheiro, encontrando cada uma sua maneira de ensinar seus adeptos a lidar com ele de modo a colaborar, e não prejudicar, a espiritualidade deles: algumas religiões estipulam o dízimo, tendo como um dos objetivos doutrinários lembrar permanentemente que, pelo menos, dez por cento de suas vidas deve ser dedicada à espiritualidade; outras deixam os adeptos livres para que suas consciências se lembrem de presentear seu deus no ritual do Ofertório; há ainda aquelas que se recusam a usar dinheiro vinculando-o à espiritualidade, tendo em vista trabalhar o valoroso comportamento da caridade; no candomblé, a Lei da Troca é transmitida a seus adeptos com o chamado “dinheiro do chão” e “dinheiro da mesa”, onde os serviços espirituais são trocados por dinheiro, lembrando que a vida espiritual e a vida material devem ter o mesmo grau de importância.

Cada religião tem sua maneira de ajudar seus devotos a cumprirem a Lei da Troca. Creio que todas estão certas. Criticar qualquer uma delas, sem possuir conhecimento sobre o tema, é mais uma forma de preconceito, como tantas que temos ainda que conviver. Por isso, aproveito-me do tema em questão para dizer a meu povo, o “povo-de-santo”, que se não queremos que nossa prática religiosa seja condenada sem que se tenha conhecimento da causa, devemos ter cuidado para não condenar, nem mesmo criticar, a dos outros. Orumilá, deus da divinação, orienta que nenhum sacerdote tem direito de estipular um preço para seus serviços espirituais, que vá além das possibilidades materiais de quem o buscou. Orumilá diz: “Oye ti o ba wu eni ni a ta Ifá eni pá”, provérbio yorubá que significa: “Qualquer que seja a soma que a pessoa tenha, é aquela pela qual se deve receber para jogar Ifá”.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada 15 dias, um artigo assinado por ela é publicado no jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Carlinhos Brown. Parabéns e bênçãos

postado por Cleidiana Ramos @ 5:53 PM
7 de março de 2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Creio que cada um de nós vem para a Terra com um trabalho a cumprir, o que normalmente é chamado de missão. Se a cada dia que acordássemos tivéssemos essa consciência, os “ossos do ofício” poderiam ser saboreados até com certo prazer; as manhãs das segundas-feiras nos pareceriam bem mais ensolaradas; o ofício de cada um não seria realizado de maneira penosa. Missão e sacrifício são palavras que andam sempre juntas, mas que são sentidas de maneira completamente diferentes. Ao ouvir a palavra missão nossa mente tende a nos remeter à imagem de alguém especial, que realiza sempre com prazer um trabalho igualmente especial. Enquanto que com a palavra sacrifício somos remetidos à imagem de “pobres mortais”, que desprazerosamente são “obrigados” a realizar tarefas tediosas, não percebidas nem reconhecidas pela sociedade.

A humanidade mantém registrada em sua memória a parábola do relógio de ouro: um avô deu a seu neto um lindo relógio com pulseira de ouro. O menino ficou encantado com a beleza e o brilho do relógio. Vendo todo aquele entusiasmo, o avô perguntou ao neto que parte do relógio ele considerava a mais importante. O menino respondeu que era a pulseira. Percebendo que a criança tinha deixado o relógio na mesa para tomar banho, o avô, que era um relojoeiro renomado, retirou um pequeno parafuso do maquinário do relógio, que impediu que este continuasse a trabalhar. O neto colocou novamente o relógio no pulso sem nada perceber. Em um dado momento, o menino, furioso, procurou pelo avô para dizer que o relógio não estava trabalhando. O avô repetiu a pergunta que já tinha feito ao neto e este insistiu em dar a mesma resposta, dizendo ser a pulseira de ouro a parte mais importante do relógio, pois era a que todo mundo enxergava e admirava. De maneira irônica, o avô disse que então ele não via nenhum problema em que o menino ficasse com o relógio de ouro no pulso, uma vez que a pecinha que foi retirada, e impediu o relógio de cumprir sua função de marcar o tempo, não tinha para ele importância nenhuma. O menino ficou parado, entendendo o que não queria entender. O avô, cumprindo seu papel de mais velho que transmite ensinamentos da arte do bem viver para os mais novos, concluiu o diálogo dizendo que somos todos como peças de um relógio de ouro, algumas partes não vão ser vistas nem apreciadas, enquanto outras têm como função mostrar seu brilho, mas que todas sofrem desgaste e precisam passar por sacrifícios para realizar o papel que lhes foi destinado.

Em uma sociedade, onde muitos querem alcançar o sucesso a qualquer custo, alegra-me ter tido a oportunidade de acompanhar a história de um menino como Carlinhos Brown, que soube subir pacientemente os degraus da escada que o conduziria ao sucesso e à fama. Que dando o devido valor à aquisição material, pode fazer dela um bom uso, não só para si, como também para a comunidade em que sempre viveu. Pensando na parábola relatada, Carlinhos Brown pode ser comparado a um relógio de ouro que tem seu maquinário em perfeitas condições de funcionamento. Ele brilha como a pulseira de ouro e trabalha com a disciplina de um “tic-tac”. Ele sabe reunir a funcionalidade com a estética.

Podemos todos usar, sem abusar, de ficarmos orgulhosos com a vida de nosso Carlinhos Brown. Pois orgulhar-se, palavra tão mal compreendida pela sociedade, é apenas a tomada de consciência de que a missão recebida foi cumprida; é um sentimento de dignidade social. O orgulho só deve ser mal visto quando ele é exacerbado e vira soberba. O sentimento de soberbia faz com que a pessoa se torne arrogante e presunçosa, considerando-se mais elevada que as outras. Mas creio que quando esse baiano deita a cabeça no travesseiro (acredito que ele dorme, mesmo com toda energia que tem) ele descansa tranqüilo, pois compreendeu que o menor parafuso é tão importante quanto a pulseira de ouro. Descer do trio elétrico para cantar e dançar na mesma altura em que está o povo é um gesto aparentemente banal, mas que nele está embutido um profundo significado, que precisa ser enxergado e imitado.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada quinze dias ela publica artigos no jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Mais um belo texto de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 5:53 PM
7 de março de 2012

Publico aqui mais artigo de Mãe Stella. Ele saiu originalmente na edição de A TARDE do último dia 29. Como todos, está belíssimo e cheio de sabedoria.

Os artigos de Mãe Stella são publicados a cada quinze dias no jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras e o Mundo Afro os republica sempre que possível. Aproveitem.


Balaio de Ideias: Que orixá rege o ano?

postado por Cleidiana Ramos @ 2:04 PM
4 de janeiro de 2012

Mãe Stella faz preciosa reflexão sobre o Jogo de Búzios. Foto: Margarida Neide /Ag. A TARDE/ 08.11.2011

Maria Stella de Azevedo Santos

Este é um artigo que possui objetivo esclarecedor. Tentarei tornar compreensível um assunto que surge todo princípio de ano. A imprensa faz reportagens e as pessoas indagam uma das outras ou perguntam a si mesmas sobre o orixá que influenciará o novo ano que surge. Fazem isso na tentativa de adivinhar o que é preciso ser DIVINADO.

Adivinhar é fazer conjecturas sobre um tema usando a intuição, o que todo ser humano pode fazer. Divinar, todavia, é entrar em comunicação com o sagrado, através de rituais guiados por sacerdotes. É claro que todo ser vivo, por possuir uma parcela divina, é capaz de se conectar com os deuses. Mas a utilização de oráculos, os quais fornecem informações mais precisas sobre o destino da comunidade, requer uma preparação especial e um estilo de vida que propicia à intuição, inerente a todos, apresentar-se de maneira muita mais clara. A intuição se transforma aqui em revelação: quando os véus que encobrem os mistérios são retirados pelos deuses, a fim de que nossa jornada aconteça de uma maneira orientada e, assim, possamos cumprir a tarefa que nos foi legada com o mínimo de percalços possível, o que torna a vida bem mais leve.

Os leitores acostumados com os artigos que escrevo poderão estranhar a formalidade deste texto. É que “há tempo para tudo”: para contar anedotas, falar poesias, refletir sobre a vida… Esse tema pede seriedade! Faço isso porque creio ser a imprensa o meio ideal para esclarecer assuntos, que só não são melhor comentados por falta de oportunidade e conhecimento. Tendo agora essa oportunidade que me é dada pelo jornal A TARDE não quero desperdiçá-la. Mesmo tendo eu a consciência de que nada se modifica de um dia para o outro, aproveitarei o momento para tentar fazer com que a população melhor compreenda as respostas do oráculo trazido pelos africanos para o Brasil, esperando que as sementes aqui jogadas possam um dia florescer e dar bons frutos.

A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano, e sim qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam estas divindades e estão vinculadas à comunidade em que o Jogo de Búzios foi utilizado. Se isso não for bem esclarecido e, consequentemente, bem compreendido, parece que todos os sacerdotes erram em suas respostas, uma vez que uma Iyalorixá diz que o orixá do ano é Iyemanjá, enquanto outra diz que é Oxum, ou um Babalorixá diz que é Oxossi. Mesmo correndo o risco de o texto ficar enfadonho, insistirei em alguns pontos, a fim de elucidá-los melhor. No nosso Terreiro, o Ilê Axé Opo Afonjá, o regente do ano 2012 é Xangô. A referida divindade, que se revelou no Jogo feito por mim, não está comandando o mundo inteiro, nem mesmo o Brasil ou a Bahia. Ela é o guia das pessoas que, de uma maneira ou outra (mais profunda – como é o caso dos iniciados; ou mais superficial – os devotos que freqüentam a “Casa”), estão vinculadas a mim enquanto Iyalorixá, ou ao Terreiro em questão.

O leitor, diante dessa explicação, poderá ficar confuso e sentir necessidade de perguntar: “E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o Candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?”. A resposta é: Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita. Um católico, ou um protestante, será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda… Outra pergunta ainda poderá surgir: “E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão a toa?”. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta.

Que Xangô – divindade da eloqüência, da estratégia, do fogo que produz o movimento necessário a todo tipo de prosperidade – possa receber, de meus filhos espirituais, cultos suficientes para que fortalecido possa torná-los cada vez mais fortes para enfrentar as intempéries que todo ano traz consigo. Obrigado Ano Velho pelas experiências passadas para Ano Novo.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Balaio de Ideias: A mística das antigas brincadeiras infantis

postado por Cleidiana Ramos @ 4:32 PM
28 de setembro de 2011

Mãe Stella ensina a importância das brincadeiras infantis. Foto: Serginho Marques | Divulgação

Maria Stella de Azevedo Santos

Muito me assustou ouvir pela televisão que crianças de apenas quatro anos de idade já estão sendo levadas aos consultórios médicos com: dores nos músculos, articulações e nervos decorrentes de esforços repetitivos pelo uso excessivo e sem disciplina de aparelhos eletrônicos; dores na coluna por uso de sapatos inadequados para a idade, sapatos com saltos que causam desajustes no esqueleto ainda em formação; obesidade, diabetes e pressão alta por falta de movimentos físicos. Se o moderno estilo de vida é excelente para o desenvolvimento cerebral das crianças, o mesmo não é possível dizer em relação a um correto e saudável desenvolvimento físico e psicológico.

Tarefa nada fácil é permitir que as crianças sejam crianças, diante do apelo da sociedade moderna que tem a seu favor um rico sistema de propaganda e comércio. Como impedir que uma criança calce sapatos de salto alto, se nem são mais encontrados nas lojas calçados adequados para esta fase do desenvovimento. O que antes era uma brincadeira que preparava a entrada no mundo adulto, hoje vestir-se como os pais tornou-se uma regra, que mal nenhum teria se não afetasse a saúde física e psíquica dos pequenos. É de conhecimento de todos que maquiagem, ou melhor, produtos químicos em geral estragam a pele, as unhas, os cabelos; que não respeitar a fases de desenvolvimento faz com que as crianças amadureçam antes do tempo. E a fruta e o ser humano só são bons quando lhes é permitido amadurecerem naturalmente.

Nada adianta ficarmos relembrando o passado com saudosismo. É impossível pararmos a marcha do tempo. O melhor é respeitarmos o seu caminhar e nos adaptarmos a ele. Também não podemos e nem devemos acreditar que temos mais poder do que a sociedade na criação de nossos filhos. Dou, então, minha colaboração relembrando algumas brincadeiras infantis que coloboram para um perfeito desenvolvimento global das crianças. Mas, relembrar apenas não me parece suficiente, pois creio que nenhum pai e nenhuma mãe se esqueceram das brincaderias que tanto lhes deram prazer.  Se não as transmitem para os filhos creio que seja porque não encontram não apenas tempo, mas também espaço.

Diante desta reflexão, parece que os espaços de diversão e de convívio entre os pequenos ficam sendo as escolas, para quem, então, transmito ensinamentos pouco ou nada divulgados ao grande publico, por serem eles conhecimentos iniciáticos, que encontram apenas agora o momento ideal para serem compartilhados. Não sendo a minha intenção colocar mais uma tarefa nas mãos dos professores, mas sim conhecendo a grandiosa missão que ocupam no mundo e a imensa capacidade de doação que possuem, eu tentarei transmitir para eles o significado místico, isto é misterioso, de algumas brincadeiras que eles “curtiram”.

·        Cabra-cega, que fala da paixão, mostrando que os apaixonados agem por instinto, que termina por deixá-los tontos e cegos perante as escolhas que fazem na vida.
·        Macaquinho ou Amarelinha fala da jornada humana que vai do “inferno” ao “céu”, passando o caminhante por diversos obstáculos, representado pela casca de banana, os quais podem derrubá-lo, atrapalhando e atrasando sua caminhada.
·        Anelzinho, objeto que representa um compromisso firmado e que por isto dá nome à brincadeira que surge para demonstrar a necessidade que todos têm de assumir alguém como mestre, atitude que implica em que se tenha humildade sufiente para entender que sempre existe alguém mais apto do que nós.
·        Boca-de-forno é outro tipo de diversão infantil que fala dá relação mestre-discípulo, neste caso para relembrar a importância da obediência irrestrita àquele que o universo destinou como orientador.

Fico aqui pedindo que Ibeji, os orixás gêmeos que são crianças, estimulem os adultos de maneira que possam orientar os pequeninos para que sejam disciplinados, sem perderem o direito de serem traquinas. E que no mês de outubro as crianças brinquem, brinquem, brinquem… utilizando-se de formas de brincar que não apenas ajudem a organizar suas mentes, mas também seus corpos físicos e espirituais.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Balaio de Ideias: Amor e flor:uma rima perfeita

postado por Cleidiana Ramos @ 2:19 PM
14 de setembro de 2011

 

Mãe Stella traz uma bela lição sobre a chegada da Primavera. Foto: Dimas Novaes / Divulgação

 Maria Stella de Azevedo Santos

Dizem que no nosso País não temos as estações do ano bem definidas, só porque não cai neve no inverno ou as folhas não se desprendem das árvores tão intensamente como na Europa na época do outono, onde e quando o chão dos jardins fica coberto de folhas secas. O brasileiro, no entanto, que estiver bem sintonizado com a natureza já começa a sentir, neste período, as plantas vestidas com suas pétalas coloridas e as mulheres com suas alegres roupas; as flores exalando perfumes deliciosos e as mulheres perfumes inebriantes, mostrando para o mundo que elas estão prontas para o amor. A Primavera está chegando e com ela o frescor da atmosfera, renovando a cada raiar do sol a nossa alegria de viver.

No dia 22 de setembro um novo ciclo se inicia e com ele se renovam nossas esperanças. É o Equinócio da Primavera, período em que dia e noite possuem a mesma duração, quando saímos das noites escuras do inverno e recebemos mais luz para iluminar os sentimentos que hibernavam nos dias frios e começam a brotar na conhecida estação das flores e dos amores. Flor e amor, a rima mais comum nas poesias que saem dos corações apaixonados, os quais encontram nessa estação do ano o momento propício para dar vazão a todo sentimento afetivo que se relaciona com a nobre função de procriar, que foi dada a todos os seres vivos que habitam a Terra.

É a época das ilusões, que nunca devem ser confundidas com as verdadeiras aspirações, que denominaremos aqui de sonhos. Os sonhos podem ser descritos como fortes e intensos desejos que devem ser perseguidos com muito interesse e persistência. As ilusões são como bolhas de sabão  que as crianças adoram brincar nos parques, nas tardes frescas de primavera; são lindas, coloridas, mas muito, muito frágeis. As ilusões são como desejos que surgem quando nossos sentidos e mentes são enganados por uma falsa aparência. A filosofia yorubá nos ensina a usar a cabeça e o coração para fazer nossas escolhas com sabedoria, pois os olhos são considerados ávidos demais para tomar decisões sem se deixar enganar pelas aparências.

“As aparências enganam”, elas nos iludem. Sabedoria que está expressa no seguinte mito: Olhos, Coração e Cabeça são irmãos, filhos de Axé. Axé – criador de todas as coisas – queria conhecer melhor seus três filhos e resolveu testá-los, pedindo que escolhessem uma das cabaças que ali estavam enroladas. Chamou seu filho mais velho – Olhos, o do meio – Coração e o mais novo – Cabeça, para que cada um escolhesse uma cabaça que considerasse melhor para si.

As cabaças estavam, cada uma, enroladas com um pano diferente. Olhos escolheu logo a cabaça cuja aparência era muito deslumbrante, mas cujo conteúdo era o mais pobre. Coração e Cabeça ficaram com as cabaças restantes, mas como estavam muito ocupados resolveram guardar as cabaças com carinho, para depois ver com calma o presente que tinham recebido do pai. Só no dia seguinte foi que Coração e Cabeça perceberam que o conteúdo de suas cabaças era um verdadeiro tesouro.

O tempo passou e Axé tornou a reunir seus filhos para lhes perguntar o que fizeram com os presentes recebidos. Olhos respondeu que tratou logo de comer a rica refeição. Coração e Cabeça agradeceram pelo valioso tesouro recebido, o qual tinha modificado suas vidas para muito melhor. Axé sentenciou: “Olhos, tu és muito ávido! A visão te atrapalha, tu enxergas sem ver. A sensibilidade e a capacidade reflexiva fizeram com que Coração e Cabeça escolhessem as cabaças que, embora envoltas em panos comuns, guardavam uma enorme fortuna. Por esse motivo, será Cabeça quem, a partir de hoje, tomará todas as decisões, sem se deixar enganar pelas aparências, aconselhado sempre por seu irmão Coração. É por isso que se deve dizer, minha cabeça e meu coração são bons e não meus olhos”.

Na Primavera devemos ter cuidado com as ilusões, mas devemos deixar brotar nossos sonhos, coloridos ou em preto e branco, aceitos ou não pelos outros. E que eles sejam puros, alegres, consistentes… Vamos acreditar nos sonhos, persegui-los com veemência, para que eles se tornem realidade.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Balaio de Ideias: Ojó Ibaré–Dia da Amizade

postado por Cleidiana Ramos @ 3:57 PM
20 de julho de 2011

Mãe Stella faz reflexão sobre a amizade. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE| 31.07.2010

 

Maria Stella de Azevedo Santos 

Vinte de julho – Dia Internacional da Amizade. Substantivo tão cantado e contado, mas dificilmente encontrado. Milton Nascimento canta: “Amigo é coisa para se guardar  no lado esquerdo do peito”. Roberto Carlos diz que quer ter um milhão de amigos, para que mais forte possa cantar. 

Impossível falar da amizade sem o substantivo correlato – amigo. Roberto Carlos pede um milhão, mas se conseguirmos apenas um já é bom demais, principalmente se este substantivo vier acompanhado de um adjetivo imprescindível: sincero. Na verdade, é impossível considerar alguém amigo, se ele não for sincero. Uma amizade assim sugere compreensão, perdão, capacidade de dizer não nas horas precisas, coragem de mostrar o que não se deseja ver. Amigo é aquele que entende o que o outro quer fazer, mas não necessariamente apoia: orienta e torce para que o caminho certo seja encontrado. 

Pois não são apenas as opiniões semelhantes que fazem com que duas pessoas encontrem a amizade. 

Um exemplo disso é a grande afinidade que une dois orixás de temperamentos opostos: Orumilá, que através da calma ajuda os homens a “aplainarem” seus destinos, e Exu que “quente como o fogo” auxilia criando confusões. A amizade tão cantada é agora contada: Orumilá viajava em comitiva e todos queriam ajudá-lo carregando sua sacola de divinação. Os “amigos” terminaram brigando entre si, fazendo com que Orumilá optasse por carregar seus apetrechos. 

Orumilá não conseguia tirar aquele assunto da cabeça. Ele estava confuso a respeito de quem entre todos os que queriam ajudar-lhe era seu amigo de verdade e, por isso, resolveu fazer um teste. Mandou espalhar um falso boato de que ele tinha morrido. Muitos “amigos” apareceram para demonstrar o pesar à esposa de Orumilá. Cada um dizia que o referido orixá lhe devia dinheiro, o qual tinha que ser pago com o recebimento da sacola de divinação. 

Escondido, Orumilá ouvia tudo aquilo com uma profunda dor. Foi quando apareceu Exu, tão pesaroso quanto os outros. A mulher de Orumilá lhe perguntou, então, o que seu marido devia para ele. Exu respondeu que simplesmente nada. Percebendo que a dor de Exu era verdadeira e desinteressada, Orumilá apareceu e disse: “Quando a afinidade com um amigo é grande, ele é considerado mais que um parente”. 

Se não é fácil encontrar um amigo sincero, mais difícil ainda é ser um deles. Afinal, a arte da amizade implica que a índole seja pura, que já se tenha adquirido uma mente despoluída, onde não há lugar para a ambição, a mentira, a falsidade e outros pensamentos e atitudes dúbios. 

É muito comum a amizade, que geralmente vem acompanhada de benevolência, aparecer nos momentos adversos. Nas tragédias que acontecem vemos pelos meios de comunicação brotar, momentaneamente, uma intensa e coletiva generosidade que, com a mesma intensidade que aparece, some. Pergunto-me: é generosidade real ou uma necessidade de acreditar que existe em si uma fagulha que seja de nobres sentimentos, que encubram tantos outros, como egoísmo, hipocrisia, hostilidade, inveja, indiferença? Muitos dizem que é na tristeza que se conhece um grande amigo. Será? 

É para que nunca nos esqueçamos de cultivar o sentimento fiel de afeição e ternura para com os outros que foi instituído o Dia Internacional da Amizade. Esse dia foi escolhido por Enrique Ernesto Febbraro, que compreendeu o fato da chegada do homem à Lua, ocorrido em 20/7/1969, como uma prova significativa de que, quando as pessoas se unem, não existem obstáculos intransponíveis. Antes disso, esse argentino já havia divulgado o seguinte lema, enviando diversas cartas para diferentes países: “Meu amigo é meu mestre, meu discípulo e meu companheiro”. 

Volto ao passado e lembro-me de uma antiga canção que diz: “Amigo, palavra fácil de pronunciar. Amigo, coisa difícil de se encontrar. Por isso se diz na frase tão usada: venha a nós e ao vosso reino nada”. Então vamos aproveitar este vinte de julho para refletirmos sobre maneiras saudáveis de construir e manter relacionamentos amigáveis com nossos semelhantes, é o que se diz em yorubá: baré. 

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Balaio de Ideias: Poucas palavras, muita sabedoria

postado por Cleidiana Ramos @ 4:42 PM
6 de julho de 2011

Mãe Stella destaca a sabedoria dos provérbios. Foto: Diego Mascarenhas | Ag. A TARDE| 09.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

A cultura africana sugere que o que existe em potencial no universo pode ser materializado pela palavra. Além da palavra, a memória também é reverenciada pela oralidade. Os fatos passados são reavivados pela memória e re-atualizados pelos rituais. No Candomblé, a vivência mítica das divindades é cantada e contada através do que é chamado de Corpo das Tradições Orais, do qual os provérbios, ówe na língua yorubá, fazem parte.

Os provérbios fazem parte da oralidade africana, mas também de todos  os outros continentes. É universal a maneira de falar em frases curtas e expressivas. Aristóteles disse: “relíquia que, em virtude de sua brevidade e exatidão, salvaram-se dos naufrágios e das ruínas das antigas filosofias”.  Os provérbios podem ser conceituados como: Enunciados breves, de origem desconhecida, que expressam uma sabedoria a ser utilizada em qualquer tempo e lugar; Frases sintéticas, cujos conteúdos condensados expressam grande sabedoria; Fontes de prazer que, pela sua estrutura, possibilita ao cérebro fixar mensagens que colaboram para que o homem se harmonize consigo e com o outro.

Diz-se que uma frase expressiva é um provérbio quando: sua origem é desconhecida porque seu autor se perdeu no tempo, uma vez que geralmente é pronunciada de maneira natural a partir de uma determinada situação; torna-se popular, porque sendo criada a partir de uma circunstância particular, passa a ser utilizada pela população em geral, sempre que circunstâncias semelhantes voltam a acontecer; é universal, pois muitas frases curtas e com sentido são pronunciadas, mas só se tornam provérbios aquelas que possuem caráter universal, de forma ampla ou restrita – uma comunidade, por exemplo.

Hoje é muito comum chamar um agrupamento de pessoas, que na maioria das vezes possui a população de uma cidade de porte médio no nosso país, de comunidade. Nada errado quanto a isso, pois comunidade pode ser definida como ”qualquer grupo social cujos membros habitam uma região determinada, têm um mesmo governo e estão irmanados por uma mesma herança cultural e histórica”. Como também: Grupo de pessoas que comungam uma mesma crença e que se submetem a uma mesma regra religiosa. O Ilê Axé Opo Afonjá pode ser definido de acordo com esse último conceito de comunidade, onde os provérbios são bastante utilizados. Seguem alguns exemplos:

Você foi coroado rei, mas continua fazendo encantamentos para obter boa sorte. Você quer ser coroado Deus?

Quem está sufocado por dívidas não deve viver como um lorde.

Ninguém grita de dor quando cuida de suas próprias feridas.

A pessoa que trabalha duro, ganha a inimizade do desocupado.

Aquele que cai no buraco ensina aos que vêm atrás a terem cuidado.

Aquele que bate palmas para que o louco dance é tão louco quanto ele mesmo.

A boca que não se cala e os lábios que não deixam de se mexer só trazem problemas.

A boca não pode ser tão suja que seu dono não possa comer com ela.

O desconfiado sempre pensa que as pessoas estão falando mal dele.

Quem não sabe construir uma casa, monta uma barraca.

Somente um barril vazio é que faz barulho, um saco cheio de dinheiro permanece silencioso.

O que eu quero comer você não quer comer, devemos comer separados.

As características dos ditados populares fazem deles excelentes instrumentos de trabalho educacional. São características como: Brevidade – frases curtas que facilitam o registro e memorização da verdade embutida neles; Agudeza – fazem uma crítica da vida, usando uma dose de ironia, que facilita a reflexão sobre o tema criticado; Fontes de Prazer – os provérbios produzem prazer, não só pela agudeza, mas também por possibilitar o registro e fixação de uma sábia mensagem, tendo a energia mental economizada.

Os provérbios, portanto, podem e devem ser utilizados no sistema formal de educação, não só na área de Língua Portuguesa, mas em várias outras áreas. O ditado popular, em forma de sotaque – um dito picante – “quem nasceu para dez réis, nunca chega a vintém”, é excelente para falar dos tipos de dinheiro na história do nosso país.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


E kú Òjo! Boas Chuvas!

postado por Cleidiana Ramos @ 5:48 PM
29 de junho de 2011

A chegada do inverno é a oportunidade para mais uma bela reflexão de Mãe Stella. Foto: Janaína Casanova | Clic RBS

Maria Stella de Azevedo Santos

E o tempo continua “andando”.  Seria melhor dizer que na época atual o tempo continua “correndo”. O outono passou e o inverno já chegou para os habitantes do hemisfério sul, é claro. Relembro este fato porque parece que as pessoas se esquecem deste pequeno detalhe ao importar a cultura proveniente de outro hemisfério.

Enquanto a parte sul do planeta está vivenciando a primavera, a parte norte está em pleno outono. Isto muda tudo para o mundo místico e mágico. Aqui no Brasil, principalmente, os cursos de línguas estrangeiras estão comemorando o Halloween no auge da estação das flores, enquanto que nos Estados Unidos este ritual folclórico é festejado na estação vinculada à morte e aos mortos. É possível comemorar o “Dia das Bruxas” com o sol brilhando?… Afinal, as bruxas (muito mal interpretadas) são pessoas essencialmente noturnas, que necessitam de pouca luz para trabalharem com os seres de outras dimensões.

Nada contra a importação de culturas, como é o caso da Europa que pratica respeitosamente a capoeira, contanto que quem realize este ato conheça muito bem os fundamentos do que pratica. Muita gente pode dizer que tudo isto é uma grande bobagem, porém se refletirem sobre o sentido da passagem das estações, isto é, do ritmo do tempo, descobrirá um enorme significado concreto e, principalmente, abstrato.

Káàbò àkókò otútù! = Seja bem vindo inverno! Traga para nós as chuvas fertilizantes que caem do Òrun; que elas purifiquem nossos pensamentos, como puro são os pensamentos de Oxàlá, a divindade que se veste de branco, fazendo uso do simbolismo desta cor para nos lembrar a necessidade da pureza física e espiritual; que elas nos cheguem na medida certa, com equilíbrio, para que as residências de nossos irmãos não sejam afetadas; que elas nos façam lembrar que nossas crianças precisam de agasalhos, sejam eles tecidos de lã ou de afagos, de proteção que gera respeito, para que elas nos obedeçam quando dissermos (claro que “cortando a onda” delas): “Má wonú òjo, kí asó ò ré má ba tutu, ki òtútù ma ba mu é o” = “Não ande na chuva para evitar que sua roupa se molhe, para que não apanhe uma gripe”.

Não só as crianças, mas todos nós precisamos de cuidados específicos para cada período do ano. No inverno, doenças infecciosas produzidas por vírus e bactérias produzem sintomas como febre, cefaléia, mal-estar, dores no corpo… Os problemas respiratórios aumentam. Todos têm uma receita caseira para tratar os referidos sintomas: escalda-pés, chás diversos (com detalhes curiosos na preparação).

O povo é sábio! Na verdade, os conhecimentos científicos passam primeiro pela sabedoria popular para só depois serem comprovados pelo mundo acadêmico, retornando para o povo de maneira estruturada, isto é, o chá que nossa avó nos ensinou, a ciência nos transmite a medida certa que devemos tomá-lo, sem prejuízo para nossa saúde.

O inverno é tempo de aconchego. E o mesmo aconchego que aumenta a propagação dos vírus é aquele que nos aquece e dá condições de viver. A parábola do porco-espinho já é muito conhecida, mas não custa relembrarmos dela, pois de nada adianta um conhecimento se não o fixarmos, para assim incorporarmos ele na nossa vivência diária:

“Os porcos-espinhos estavam para serem extintos da terra, em um período de muito frio. Recorreram, então, a uma tática de sobrevivência. Ficaram todos muito juntinhos, a fim de aquecerem seus corpos com o calor do outro. Acontece que os espinhos de um feriam o outro. Resolveram afastar-se. A situação piorou, fazendo com que eles retornassem à antiga opção. Com o passar do tempo, aprenderam a conviver um com o espinho do outro. Afinal, era uma questão de sobrevivência.”

No caso de nós humanos, a necessidade de nos relacionarmos com os nossos semelhantes e, consequentemente, com os defeitos deles, seus “espinhos”, não é apenas uma questão de manter o corpo físico vivo, é também uma questão de sobrevivência emocional. Ferimo-nos mutuamente, mas  Oxàlá – Olowù nos deu de presente o algodão,para que possamos limpar as mágoas, as feridas de nossas almas.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Artigo de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 5:47 PM
29 de junho de 2011

Pessoal: quarta-feira passada, 22, foi dia de publicação de artigo de Mãe Stella em A TARDE. Por conta de um probleminha de saúde, do qual já estou completamente recuperada, não pude publicá-lo aqui como sempre faço no mesmo dia em que sai no jornal.

Portanto, ele está aí disponibilizado acima. Aproveitem, pois na próxima semana teremos mais. Grande abraço.


Histórias de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 3:29 PM
2 de junho de 2011

Mãe Stella conta histórias na livraria Cultura. Foto: Xando Pereira|Ag. A TARDE| 26.08.2010

Programa mais do que especial para domingo: a partir das 17 horas, na Livraria Cultura, no Shopping Salvador, Mãe Stella estará recebendo uma homenagem e dialogando com o público.

A iniciativa faz parte das comemorações pelo Dia Mundial do Meio Ambiente celebrado em 5 de junho.

Dentre os livros de sua autoria, Mãe Stella, escreveu Epé-Laiyé– Terra Viva, um passeio pelo meio natural dirigido ao público infanto-juvenil.

O encontro inclui a atividade de contar histórias, com a apresentação de personagens em formato de bonecos de pano.


Balaio de Ideias: 25 de maio–Bênção, Mamãe África

postado por Cleidiana Ramos @ 4:46 PM
25 de maio de 2011

Em artigo, Mãe Stella celebra o Dia da África. Foto: Diego Mascarenhas | Ag. A TARDE | 09.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Ainda de pouco conhecimento da sociedade é o fato de no dia 25 de maio se comemorar o Dia da África. Data escolhida porque em 1963 a Organização de Unidade Africana, hoje com o nome de União Africana, foi fundada, com o objetivo de ser, internacionalmente, a voz dos africanos.

Hoje, dia 25 de maio de 2011, o Terreiro Ilê Axé Opo Afonjá está recebendo uma média de cinqüenta professores da rede municipal, juntamente com seu secretário, para conosco comemorar este dia, que se constitui em uma tentativa de que os olhos e os corações do mundo se preocupem e se ocupem de cuidar do povo desse continente, mas também de aprender e apreender sua sabedoria, que como neta de africana e iniciada em uma religião que tem em África sua matriz, foi a mim transmitida.

Oportunidade que tudo faço para não desperdiçar. Muitas sementes da sabedoria dos africanos, em mim plantadas, ainda não encontraram terreno fértil para germinar, mas não desisto e, por isso, cuido desse terreno em todo momento. Outras há, no entanto, que cresceram e até deram frutos.

Foi assim refletindo que resolvi homenagear o berço da humanidade – a África -, aproveitando esse precioso espaço de comunicação que a mim foi concedido para, humildemente, tentar espalhar essas sementes, na esperança que elas caiam em terrenos férteis.

Foi através da tradição oral, chamada na língua yorubá de ìpitan, que entrei em contato com a maravilhosa arte de viver do africano, que tem na alegria um de seus fundamentos. Entretanto, nós brasileiros, que temos nesse povo uma de nossas descendências, não devemos correr o risco de sermos megalomaníacos e considerar a filosofia africana a melhor.

Todo povo possui sua sabedoria, mas Sabedoria, assim como Deus, é uma só. A mesma base, os mesmos fundamentos, apenas transmitidos de acordo com a cultura e o lugar de viver correspondente. Se foi através da tradição oral que aprendi, é agora na escrita, ìwe-kikó, que encontro condições favoráveis para transmitir, para um maior número de pessoas possível, os ensinamentos absorvidos e os quais ainda pretendo assimilar, de maneira profunda.

Conheçamos, então, um pouco do muito que possui a filosofia do povo africano: É na alegria e na generosidade que se encontra a força que se precisa para enfrentar os obstáculos da vida: “Lé tutu lé tutu bó wá” = “Sigamos em frente alegremente, sigamos em frente iluminados, dividindo o alimento adquirido”.

A palavra tem o poder de materializar o que existe em potencial no universo, por isso os africanos falam muito e alto, quando precisam canalizar sua energia em direção ao que é essencial, mas silencia nas horas necessárias. Um orin nos faz entoar: “Tè rolè… Mã dé tè rolè. Báde tè role” = “Eu venero através do silêncio… Eu pretendo cobrir meus olhos e calar-me. Ser conveniente, respeitando através do silêncio”.

Nosso maior inimigo (como também nosso maior amigo) somos nós mesmos: “Dáààbòbò mi ti arami” = “Proteja-me de mim mesma”. O cuidado com o julgamento do outro e também com o instinto de perversidade: “Bí o ba ri o s’ikà bi o ba esè ta ìkà wà di méjì” = “Se vir o corpo de um perverso e chutá-lo, serão dois os perversos”. O respeito às diferenças: “Iká kò dógbà” = “Os dedos não são iguais”. A necessidade de um permanente contato com a Essência Divina que cada um possui: Eti èmí óré dé ìyàn. Àroyé èmí óré dé ìyà” = “Na dificuldade de decisão e no debate, a Essência Divina amplia a visão para argumentar”.

Como se vê, o corpo da tradição oral africana, que é composto de itan – mito, oriki – parte do mito que é recitada em forma de louvação e evocação, orin – cântico de louvação, adurá – reza, ówe – provérbio serve para nos disciplinar.

Entretanto, nenhuma sabedoria tem mais valor do que a filosofia do ìwà, palavra que pode ser traduzida como conduta, natureza, enfim, caráter. Devemos estar atentos aos nossos comportamentos. Pois, como falam os africanos após enterrar um amigo, “ó kù ó, ó kù ó ìwà ré”, querendo dizer, “não podemos lhe acompanhar no resto de sua viagem, agora só fica você e seus comportamentos”.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Viva a África

postado por Cleidiana Ramos @ 4:38 PM
25 de maio de 2011

Hoje, Dia da África, nada melhor para comemorar do que um artigo temático escrito por Mãe Stella, publicado, quinzenalmente na página de Opinião de A TARDE. Aproveitem.


Balaio de Ideias: Liberdade?…Liberdade!

postado por Cleidiana Ramos @ 5:37 PM
11 de maio de 2011

A partir da abolição da escravidão, Mãe Stella discute conceito de liberdade. Foto: Cristiano Jr. | Divulgação

Maria Stella de Azevedo Santos

O Treze de Maio – Dia da Libertação dos Escravos – está chegando e a comunidade negra comemora de diferentes formas: uns protestam dizendo que este dia foi um engodo e que os negros ainda são escravos sociais; outros há que comemoram os ganhos obtidos através da conhecida resistência sem perderem a consciência que muito ainda precisa ser feito. Observando a fala dos que vêm até o Terreiro, percebo que todos pensam na liberdade e a desejam. Fico a perguntar-me: de que liberdade eles estão falando? E, preocupada, os alerto que muitas vezes o que desejamos como liberdade é exatamente aquilo que nos escravizará. E me ponho a refletir: a liberdade tão sonhada existe mesmo?

O candomblé tem em sua filosofia símbolos cujos significados são bastante expressivos. Um destes símbolos é o fio de contas que todo iniciado usa para estabelecer um contato com o divino, informando-Lhe seu grau espiritual e a consequente responsabilidade que suporta exercer. Exemplificando, para que fique melhor entendido, explico: um recém-iniciado usa um fio composto por contas muito fininhas; já uma pessoa com muitos anos de iniciação tem o direito e o dever de usar contas grossas, indicando o nível de responsabilidade que suporta assumir. Além do referido significado, cada fio de contas nos representa enquanto elos de uma grande corrente – outro símbolo de nossa religião que mostra o quanto estamos vinculados uns aos outros. Sendo assim, pergunta-se: podemos ou não ser livres?

Muita gente fala: “Quero ganhar mais dinheiro para poder ser independente e ter minha liberdade”. Porém, o mesmo dinheiro que favorece a independência pode ser aquele que escraviza. Além do mais, o conceito de independência varia de época para época. Há tempos atrás, todo jovem queria ter condição de morar sozinho, acreditando que com isso poderia fazer tudo que quisesse, principalmente no que dizia respeito à sexualidade. Hoje a situação mudou. Os jovens, e nem tão jovens assim, preferem ficar morando com os pais para poderem ter facilidade de estudar mais, ou até por simples comodismo, aproveitando a educação sexual e a abertura, em todos os níveis, dadas pelos adultos a seus filhos.

É bom lembrar que independência só é sinônimo de liberdade no dicionário. Podemos e devemos nos tornar independentes de nossos pais, mas estaremos sempre vinculados a eles. Aliás, estamos todos vinculados uns aos outros, mesmo os que não se dão conta desta condição. Com a globalização do mundo esta situação ficou visível, pois uma tragédia que acontece no Japão, localizado no outro lado do mundo, atinge emocionalmente a todos. Energeticamente este vínculo sempre esteve presente na humanidade. Queiramos ou não somos todos irmãos, nascidos de uma única Essência.

Pode até parecer que estou afirmando que a liberdade não existe. Em primeiro lugar, ninguém deve afirmar nada para o outro, pois cada um tem sua verdade. Em segundo, penso que se todos creem em uma mesma coisa, com certeza é porque ela deve existir. Sendo assim, liberdade?… Liberdade! Contanto que ela venha acompanhada de responsabilidade, ética moral, hábitos saudáveis e ações equilibradas. Afinal, liberdade não pode ser confundida com libertinagem, que leva a sociedade a um estado de desarmonia.

Mas, então, o que é a tão chamada e desejada liberdade? Nada preciso dizer, pois a sabedoria de Aurélio Buarque de Holanda fez o favor de dizer por mim. Liberdade é: “Faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação”; “Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas”; “Caráter ou condição de um ser que não está impedido de expressar, ou que efetivamente expressa, algum aspecto de sua essência ou natureza”. Livre, então, é aquele que age de acordo com sua natureza divina, respeitando seus próprios limites e os de seus irmãos, de modo que a corrente sagrada que une o Òrun (Céu) ao Àiyé (Terra) não perca nenhum de seus elos, pois só assim a comunicação entre o humano e o divino não será perdida.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Balaio de Ideias: A mãe de hoje, a de ontem, a de sempre

postado por Cleidiana Ramos @ 1:20 PM
27 de abril de 2011

O papel das mães do ponto de vista religioso é destacado por Mãe Stella. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE| 29.01.2009

Maria Stella de Azevedo Santos

É comum dizermos que dia das mães é todo dia, mas é muito bom termos um dia especial, em que todos podem e devem fazer uma homenagem mais específica àquelas que não só proporcionam o maior dom – o da vida, como também dedicam uma grande parte de seu tempo e energia para, numa vigília constante, tentar formar cidadãos de verdade.

Pelas razões anteriormente descritas, é que em nossa prática religiosa, Culto aos Orixás, é fundamental que comecemos o dia louvando as mães. No meu caso, em que minha mãe cedo partiu para o Orún (mundo dos ancestrais), digo: “Yiá mi, ki tobi mi, ló jó, gbà mi lóni efiedeno” = “Minha mãe, que me deu nascimento e educou, mas que já se foi, proteja-me neste dia, tenha paciência comigo”.

E elas precisam ter paciência mesmo! Como sabiamente diz o povo: “uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe”. Imaginemos, então, uma mãe de quinhentos filhos. Impossível?… Não! Assim são algumas Iyalorixás, termo que na língua yorubana significa Mãe de Orixá, comumente denominada de Mãe de Santo. Nunca é demais lembrar que Orixá é a Essência Divina de cada um de nós.

Uma pessoa é Iyalorixá porque através de rituais religiosos é capaz de trazer esta energia para se manifestar no Aiyé – a Terra. Dizem que mãe é tudo igual. Isto pode até parecer verdade. Um olhar mais apurado, no entanto, identifica as características individuais que elas possuem, tanto no mundo espiritual, como no humano. No geral, toda mãe é doadora, mas a vida também nos mostra mães que jogam seus filhos no lixo, que os colocam para roubar, fazendo deles veículos para sustentar seus vícios físicos e morais.

Estes comportamentos, que nos parecem monstruosos, servem para mostrar que não somos capazes de compreender mais profundamente os mistérios da vida e que não podemos julgar o que não compreendemos. Só nos resta, diante de tais fatos, fazermos exercícios diários de compreensão, perdão e pedidos ao Superior, no sentido de nos dar condições para, através do auto-aperfeiçoamento, sermos capazes de estimular as pessoas que cometem tais atos a buscarem uma evolução maior.

A diversidade do comportamento maternal nos é mostrado através dos mitos das Àyabás – orixás femininos. Nanã simboliza a mãe que deposita uma expectativa nos filhos e que se aborrece quando esta não é correspondida. Iyemanjá é a mãe rigorosa, é ela a responsável por orientar a conduta de sua descendência. Oxum, a delicada, que com ”dengo” se ocupa dos aspectos físicos das crianças, ensina comportamentos de higiene e aparência social, valor de extrema importância, pois a vaidade física facilita toda e qualquer conquista. Yansã é a guerreira, aquela que ao precisar sair para a luta diária deixa um par de chifres de búfalo com seus filhos, para que possam chamá-la a qualquer momento para socorrê-los; quando isso acontece, ela chega rápida como o vento – Oyá tètè (Yansã vem rapidamente).

Chegamos à sacralidade da palavra mãe, que representa o cuidar do outro como uma parte de si. É amor no sentido mais belo da palavra. Uma criança aceita tudo, menos que xingue sua mãe, ela é sagrada, ela é amor. Também, quando somos cuidados com esmero por outra pessoa, dizemos que ela é uma mãe para nós. Nada mais justo, então, que louvemos da forma que a cultura de cada um pede, aquelas que sacralizaram seu ventre ao gerar uma criança.

Temos o dever de guardar em nosso coração um lugar de gratidão por todas as mães vivas, demonstrando este amor com palavras ou atitudes, a fim de que a graça da maternidade as faça felizes e dê força e energia para enfrentar e vencer com dignidade a nobre tarefa que lhes foi confiada. Como diz a tradição oral: “Filhos criados, trabalhos dobrados”. Quanto às mães que nos anteciparam na partida, nunca devem ser esquecidas, pois temos certeza de que não apenas foram, mas que continuam sendo as guardiãs dos frutos que geraram. A alegria maior de toda mãe, além de receber presentes e carinhosos abraços e beijos, é saber que o fruto de seu ventre está feliz e é capaz de transmitir esta felicidade para todos.

Maria Stella de Azevedo Santos é yialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Diálogo duplo com Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 6:03 PM
25 de abril de 2011

Mãe Stella participa do projeto Com a Palavra o Escritor da Fundação Jorge Amado. Foto: Xando Pereira |Ag. A TARDE|26.08.2010

Na próxima quarta-feira, Mãe Stella será a convidada do projeto Com a Palavra o Escritor, desenvolvido pela Fundação Casa de Jorge Amado. O encontro será às 17 horas na sede da institutição, localizada na Ladeira do Pelourinho.

Além disso, quarta-feira é o dia da publicação quinzenal do artigo da yalorixá na página de Opinião de A TARDE. Eu já tive o privilégio de ler o dessa semana, gentileza do editor Jary Cardoso, e, para não estragar a surpresa, só posso dizer a vocês: não o percam. Está maravilhoso como tem sido todos.

Para só refrescar a memória, aqui vai a lista dos cinco livros publicados por Mãe Stella: E Daí Nasceu o Encanto (em co-autoria com Cléo Martins ); Meu Tempo é Agora; Oxóssi – O Caçador de Alegrias; Òwe – Provérbios;  e Epé Laiyé – Terra Viva, que é dirigido ao público infanto-juvenil, principalmente. Um programa imperdível.


Novo texto de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 1:48 PM
30 de março de 2011

Pessoal: leiam abaixo mais um belo artigo de Mãe Stella, publicado na edição de hoje do jornal A TARDE. Mãe Stella está escrevendo para o jornal a cada quinze dias, sempre às quartas-feiras.

Um outro aviso importante para quem volta e meia pergunta onde pode encontrar os livros escritos pela ialorixá: eles estão disponíveis na rede de livrarias Cultura. Aqui em Salvador tem uma no Salvador Shopping.


Balaio de Ideias: Vem aí o dia da mentira. Aproveitem!

postado por Cleidiana Ramos @ 1:37 PM
30 de março de 2011

 

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos

No artigo passado falei sobre a guerra, o que me fez lembrar do seguinte pensamento: “Em tempos de guerra, a verdade é tão importante que precisa ser guarnecida por uma escolta de mentiras”. Infelizmente, não sei dizer quem foi o pensador desta pérola, mas creio que uma pessoa que é capaz de falar tamanha sabedoria, nunca se incomodaria que fizéssemos uso dela. Pensar é como puxar o fio de uma meada, um pensamento leva a outro, e foi assim que me lembrei do popular dia da mentira– Primeiro de Abril.

As “pegadinhas” do dia Primeiro de Abril são engraçadas, mas existem mentiras desastrosas, que são ditas com a “impura” intenção de chocar, de denegrir a imagem do outro, de conflituar um grupo ou, simplesmente, de se autovalorizar. É preciso ter muito cuidado com o hábito de mentir, pois pode revelar um distúrbio psiquíco, chamado mitomania, para o qual se faz necessária muita comprensão por parte daquele que convive com quem possui este vício. Mentiras há, no entanto, que são inevitáveis, podemos até chamá-las de caridosas, por exemplo: uma pessoa que está com uma doença grave e nos pergunta se está muito decaída, é natural dizermos que não, com a intenção de amenizar o sofrimento dela.

Se existe um dia consgrado à mentira, algum valor ela tem. Não há registro histórico garantido sobre como e porquê surgiu este dia. Dizem ser uma homenagem ao “bobo da corte”, uma personagem designada para distrair o rei e sua corte. Entretanto, o bobo da corte não mente, ao contrário, ele diz verdades em forma de piadas, que no Candomblé chamamos de sotaque. Toda corte, toda comunidade possui um bobo. Afinal, as verdades ditas por ele servem para que a autoridade máxima possa ser criticada e assim não se perca, por vaidade e orgulho, na utilização do poder que lhe foi conferido.

Não podemos e não devemos falar tanto em mentira sem homenagear sua “irmã gêmea”, a verdade. Todavia, de que verdade devemos falar? Se são tantas! Exu, orixá que faz questão de nos mostrar, através de gracejos picantes, aquilo que na maioria das vezes não queremos ver, fez dois amigos compreenderem que a verdade, além de outros motivos, depende do ângulo pelo qual ela seja vista.

Conta um conhecido mito que dois grandes amigos se vangloriavam de que ninguém seria capaz de separá-los. Exu, conhecedor das fragilidades das amizades, resolveu mostrar-lhes esta verdade universal. Usando seu famoso gorro, que tem um lado vermelho e outro preto, começou a pasar por entre os dois, a todo minuto,sem nem mesmo pedir licença. Incomodado com tal atitude, um dos amigos disse: – “Que homem mal educado, este de gorro vermelho”. O outro amigo retrucou: –”Mal educado, sim, mas o gorro dele é preto”.

Foi o suficiente para a discussão começar. Um insistia que era vermelho e o outro teimava que era preto. A amizade acabou ali. E Exu saiu satisfeito, não por ter simplesmente criado uma intriga, mas porque através daquela intriga (que Ele sabia que o tempo de encarregaria de desfazer),Ele encontrou um meio de mostrar que muitos problemas são criados porque alguns homens ainda não entenderam que uma das cracterísticas da verdade é a de depender do ângulo pelo qual ela é vista.

Mesmo sendo muitas as verdades, podemos dizer, de maneira redudante, que a verdadeira verdade é aquela que cada um crê. Religiosamente falando, a verdadeira crença é, então, aquela em que cada um acredita. Pois, assim como a verdade pode ser vista por diferentes ângulos, diferentes pontos de vista, são diversas as crenças religiosas, as quais divergem geralmente nos ritos, símbolos…mas nunca na essência.

No Candomblé (pelo menos o que eu professo), a verdade é sempre estimulada e até mesmo exigida, mas nem por isso deixamos de “curtir” as mentiras saudáveis, usadas para nos fazer rir, até mesmo porque a alegria, consequentemente o riso, é uma das melhores formas de vivenciar o sagrado. Sendo assim, vamos brincar muito e fazer nosso País se encher de risos no dia Primeiro de Abril. Este é o meu desejo, já que sou Odé Kayode- Caçador que traz alegria.

Maria Stella de Azevedo SAntos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá