Não quero conversa com “13 de maio”

postado por Cleidiana Ramos @ 4:03 PM
28 de maio de 2015
Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado.  Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré

Dona Tidinha recordava: “Meu filho, antigamente no dia 13 de maio tinha até missa para a princesa Isabel”. A liberdade é um bem gratificante, imagine experimentada por um negro escravo naquele contexto, mesmo carente de ver este gesto acompanhado das vantagens da cidadania.

Um agradecimento especial pensou João de Obá, ao atribuir, à graça dos orixás, a concretização desta alforria coletiva. Ousado pensou o “BEMBÉ DO MERCADO”.

A competente Luzia Moraes traz esta historia em seu livro “Bembé do Mercado – 13 de maio em Santo Amaro”, o qual, recomendo.

Ao completar um ano da assinatura da Lei Áurea, João Obá, preto malê, escravo forro e Babalorixá, “botou o pau de standard”, que consistia da bandeira Branca de Orumilá, divindade da adivinhação, na Ponte do Xaréu e trouxe, em um ato de desafio, o seu candomblé para o Mercado da Cidade de Santo Amaro, seguido de fiéis do culto e fez a festa, com oferenda a Yemanjá. Exu, o senhor dos mercados, também “comeu”.

A continuidade foi o empenho de muitos; do Babalorixá Menininho, que não tocava o Bembé na sexta feira, em respeito a Oxalá; Noca de Jacó que passou para Tidú, que manteve entendimento com a Prefeitura; Mãe Lídia do Terreiro Ilê Yá Onã, (na Sub estação); Mãe Iara do Terreiro de Oiá (no Trapiche de Baixo) e José Raimundo Lima Chaves – Pai Pote do Terreiro Ilê Axé Ojú Oniré.

D. Canô era uma alegre entusiasta da festa do Bembé e colocava a sua oferenda no Balaio em nome dos “Velosos”; a doce Mabel sabe disso, aliás quando criança a Mabel era dito que “Bembé” era a saudação a Isabel (Isabé).

D. Zilda Paim assegurava que o ano do começo do Bembé era 1889 e nos anos 40 e 50 necessitava de autorização policial. Batia-se nos dias 11, 12, e 13 que era feriado.

Para a Dra. Yeda Castro, Bembé pode ser uma palavra Fon (yoruba/nagô) ou Banto, de Imbembé, mas alguns afirmam que tratava-se de uma corruptela de Candomblé.

Os preparativos para a festa iniciam-se com a oferenda a Exu realizada no Mercado, pois a casa responsável pelo evento religioso instala-se ali em um caramanchão e o Balaio de Yemanjá é levado à praia de Itapema, em caravana e colocado com maré cheia; para Mãe Lídia o Bembé “é mais o presente”.

Historicamente, para o nosso Professor Dr. Ubiratan Castro, o Bembé: “É o candomblé da Liberdade”, de grande significado na afirmação da cidadania negra, amenizando a “subserviência agradecida” à princesa. Os ex-senhores de escravos estavam injuriados com esta ideia de liberdade, afirmando que a lei seria revogada pelos seus parlamentares e mobilizaram o aparelho policial para inibir as manifestações dos negros.

O povo negro, esperançoso, dizia: “Yô Yô Carigé, Dá cá meu Papé” numa alusão a carta de alforria, prometida pelo ilustre abolicionista Eduardo Carigé.

No dia 13 de maio de 1889, as pessoas foram ao Mercado festejar em praça pública o primeiro aniversário da abolição. Não teve parada cívica nem discurso, lembrava o professor Bira. Agradecendo aos orixás, jogaram as oferendas no mar, até hoje.

Os escravos libertos eram chamados pejorativamente de “13 de Maio” e diziam isto em verso popular: “Nasceu periquito, Morreu papagaio, Não quero conversa com treze de maio”. Eu quero. 


Balaio de Ideias: O que é Ablar?

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de março de 2015
Professor Jaime Sodré apresenta a Ablar. Foto: Manuela Cavadas| AG. A TARDE

Professor Jaime Sodré apresenta a Ablar. Foto: Manuela Cavadas| AG. A TARDE

Jaime Sodré

Sob a sonora ritmia da competente bateria da escola de samba, cantava o intérprete: “Sonhar não custa nada…” Motivado, exercerei esta possibilidade. O ambiente de convivência em um terreiro de candomblé é um polo gerador de um amplo conhecimento, sobre várias temáticas. Além dos ensinamentos teológicos iniciáticos, testemunha-se uma importante produção literária e oral, realizada por fiéis, contribuindo para a qualificação e o enriquecimento da produção intelectual nacional, com um material por vezes de caráter científico, romances, contos etc.

Lembro-me do que dizia uma sábia, respeitada e querida ebomi, quando indignada e atingida por expressões grosseiras, estas emitidas por intolerantes, que no auge da sua ira diziam: “Esses negros do candomblé são macumbeiros, feiticeiros, analfabetos e ignorantes”. Em defesa do povo de santo ela dizia: “Somos negros com orgulho e dignos religiosos, mas não somos analfabetos, dominamos a língua aqui falada, pois sabemos nos comunicar, e mais, para o nosso maior orgulho, somos ‘trilíngues’, pois para o exercício religioso devemos dominar as línguas africanas: o yorubá, o quimbundo e o ewe, aplicadas nas rezas, cânticos e invocações. Quanto à ignorância, esta está em quem fala”.

Sem mencionar o repertório estético, além das danças, os ritmos, a mitologia, a culinária, a fitoterapia dentre outros, podemos concluir ser o espaço sagrado das expressões de matriz africana uma espécie de Academia. O emérito professor Edivaldo Boaventura define a Academia como “um corpo de pesquisadores que convive para estimular a geração e disseminar o conhecimento”, socializando os resultados. Neste contexto, encontramos “conceitos, práticas, instrumentos, saberes, métodos e processos que habilitam a contribuir para a gestão do conhecimento”.

No âmbito da “Academia Candomblé”, localizamos exemplos de intelectuais, iniciados, com importantes contribuições no campo do conhecimento, principalmente sobre esta matriz. Incentivado por esta realidade alvissareira, com o tom de homenagem e bom humor, apresentamos a Ablar (Academia Baiana de Letras Afro Religiosa). O intuito é listar nomes que primam por este fazer, colocando à disposição dos interessados.

Perdoem, lembro-me de alguns, e deixo espaços para outros, que você, leitor, poderá enviar ao blog Mundo Afro, do jornal A TARDE. Na minha modesta lista, temos: Cecília Soares (iyalorixá do terreiro Maroketu) – Mulher negra na Bahia no século XIX; Valnízia Pereira Bianch (iyalorixá do terreiro do Cobre) – Resistência e fé, Aprendo ensinando; Júlio Braga (babalorixá do Ilê Oyá Tundé) – Jogo de Búzios, Na gamela do feitiço, O antropólogo na encruzilhada; Vilson Caetano Júnior (babalorixá do Ilê Obá L’Okê) – Nagô, a nação dos ancestrais itinerantes; Valdina Pinto (makota do Tanuri Junçara) – Meu Caminhar, meu viver, e a distinta acadêmica Mãe Stella.

Esperamos ampliar esta lista, acrescentando autores e autoras que têm, como caráter particular, a qualidade da sua produção literária nos mais diversos estilos, como também a sua filiação na condição de iniciado às expressões religiosas de matriz africana. Laroiê Exu, patrono e senhor dos sonhos das letras e palavras.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando em História Social


Homenagem a Tata Anselmo e Jaime Sodré e uma lembrança à memória de Ebomi Cidália

postado por Cleidiana Ramos @ 10:54 AM
20 de fevereiro de 2015

Com as desculpas pelo atraso, mas é que ontem eu ainda estava fora de rede. Os  parabéns a essas duas figuras queridas, que fizeram aniversário ontem, e que são extremamente importantes na defesa da liberdade de expressão religiosa. Eles estão sempre a postos para defender os interesses do povo de santo: o tata de inquice do Terreiro Mokambo, Anselmo dos Santos, filho de Dandalunda; e Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara, filho de Lemba, e oloiê do Bogum.

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Vai aqui também uma  homenagem à memória da Ebomi Cidália de Iroko, aniversariante também do dia 19  de fevereiro. Saudades imensas da grande enciclopédia do candomblé.

Saudação à memória de Ebomi Cidália  de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/   7.7.2006

Saudação à memória de Ebomi Cidália de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 7.7.2006


Balaio de Ideias: Tá boa santa?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
14 de fevereiro de 2015
Um grupo dos irreverentes membros de "As coisinha" mantendo tradição dos travestidos no Carnaval baino. Foto: Divulgação

Um grupo dos irreverentes membros de “As coisinha”  que mantêm a tradição dos travestidos no Carnaval baiano. Foto: Divulgação

Jaime Sodré

Quem não gostaria de viver ao menos um dia o universo feminino? O Carnaval está aí para isso. Pouco se sabe a respeito das vestimentas dos Pitecantropus erectus, presume-se que não haveria distinção de vestimentas baseadas na questão de gênero, bastava uma pele para proteção. Em algumas civilizações africanas era comum uma túnica longa, indistinta. A calça trouxera com os colonizadores a proposta de “civilidade”, definindo o masculino.

Os negros na condição de escravos, para fugirem sem ser notados, vestiam os trajes das senhoras brancas. Nos primórdios da escola de samba os homens vestiam-se de baianas, inaugurando esta ala, ponto alto da escola. Item obrigatório e uma justa homenagem à nossa baiana Tia Ciata. Louvem-se os escoceses que vestem um saiote, elemento cultural.

A roupa e a interpretação feminina em corpo masculino é o que caracteriza o Teatro Noh japonês, em contrapartida temos outro teatro onde só as mulheres interpretam os papéis masculinos. Vem à lembrança a marcha carnavalesca de outrora: “O sonho do Juvenal/ É desfilar no Municipal// Mandou buscar em Paris/ Uma peça de lamê/ Pra fazer a fantasia/ Bordada de paetê// Chegou Juvenal na passarela/ Ninguém sabe se é ele/ Ninguém sabe se é ela”.

Carnaval é o mesmo que festa, criatividade, humor, glamour, alegria, música, espaço onde os foliões ou as folionas expõem todas as suas fantasias. Muitos assumem o seu lado feminino, alegre e descontraído fazendo a festa. Homens vestidos de mulheres no Carnaval é um fenômeno nacional, formando blocos “divinos e maravilhosos”, muitos estudiosos já opinaram sobre o tema, mas sem alcançar um consenso a respeito do fenômeno. Na verdade, sem erudição científica, Carnaval é pra soltar a franga.

Eles são heteros, mas nos dias de Momo querem se desinibir “assumindo o seu lado feminino”. Em oposição, desconheço bloco de mulheres vestidas de homem (Lembrei-me da nossa heroína Maria Quitéria). Em discurso elaborado chama-se esse comportamento de “crossdresser”, textualmente “vestir-se ao contrário”. Como na música de Pierre Onassis, “deixa de lero-lero e vem pra cá meu bem…”. Isso tudo é para louvar o cinquentenário da alegria irreverente do Carnaval, As Muquiranas.

Em texto de Ronaldo Jacobina, acompanhado das excelentes fotos de Fernando Vivas, a revista Muito registrara: “os cílios, postiços, claro, ganham ainda mais destaques com leves pinceladas de rímel. Para arrematar, o batom rosa-carmim”, colares e, com mais outros elementos, está “montada” a tão sonhada Muquirana, na versão de 2015, em homenagem às baianas.

Neste espaço saúdo o casal criador desse fenômeno do Carnaval, com doses de criatividade e belas fantasias, os sempre lembrados Charita e sua esposa D. Flor. Lindolfo Araújo de Carvalho, Charita, já fora “Nega Maluca”, onde só um homem se vestia de mulher. No início a proposta gerou polêmica, mas eles seguiram em frente, o apoio era sólido. D. Florisa, a esposa, sua mãe D. Aidê e suas primas Lícia e Léia estavam a costurar fantasias, temáticas e irreverentes, garantia do sucesso.

Aplausos e parabéns “às nossas meninas cinquentonas” e ao trio que não deixará este sonho se acabar, os herdeiros Luciano, Nenê e Washington.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do candomblé


Balaio de Ideias: Je suis candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 8:34 PM
27 de janeiro de 2015
Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

Imponente, merecido e belo ergue-se o busto a Mãe Gilda, obra de arte a sacralizar e embelezar o espaço sagrado da Lagoa do Abaeté. Este monumento escultural é um símbolo contra a intolerância religiosa. A reverendíssima Yalorixá Gildásia dos Santos, nome de batismo desta dedicada religiosa, morreu no ano 2000 vitimada por um infarto após visualizar, com desgosto profundo, a sua foto em um jornal a ilustrar uma matéria intitulada “Macumbeiros e charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Em relação a monumentos que louvam os feitos de mulheres religiosas negras, temos o de Mãe Caetana na Boca do Rio e Mãe Runhó no fim de linha do Engenho Velho da Federação. O de Mãe Gilda localiza-se no Abaeté pela proximidade ao seu Terreiro, o Ilê Axé Abassá, hoje liderado pela competência de Mãe Jaciara.

A repressão àqueles que não sabem conviver, tem como marco legislativo a Lei 7.716/89 (Lei Caó), produto do eminente baiano, jornalista, parlamentar e advogado Carlos Alberto dos Santos (Caó). O artigo 20 desta lei assim define a intolerância religiosa: “é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Poderá ter origem nas próprias crenças religiosas de alguém ou ser motivada pela intolerância contra as crenças e práticas religiosas de outrem”. Em Salvador existe uma mobilização vigilante e constante contra esta prática por parte de uma maioria de pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, incluindo os fiéis do Candomblé. Louvemos a iniciativa da ex-vereadora Olívia Santana, autora da Lei Municipal n. 6.464/04 que instituiu o dia 21 de janeiro como a oportunidade de reflexão, conscientização e combate a intolerância religiosa.

Inspirado na lei criada por Olívia, o deputado federal Daniel Almeida foi o autor da lei federal n. 11.635/07 que inclui a data de 21 de janeiro no Calendário Cívico da União, pois, segundo o parlamentar, é necessário que dediquemos cotidianamente a nossa ação para a convivência com a diferença, de forma harmônica. Sensibilizados por esta proposta de convivência, inúmeros sujeitos lançam-se num empenho contra a intolerância religiosa, eis alguns: o Dr. Wellington Cesar Lima e Silva. Afirma que, mais que medidas judiciais, o que importa é o sentimento de que estamos juntos nesta caminhada, logo, ao respeitarmos as diferenças nos aproximamos do verdadeiro significado de um ato religioso. Louvemos aqui a promotora de Justiça Márcia Virgens.

O pastor Djalma Torres assegura que a diversidade religiosa é uma riqueza e a intolerância é inaceitável, e conclui que somos filhos de um mesmo pai e precisamo-nos respeitar. Já o padre Adriano Portela lembra que conviver em sociedade é encontrar pessoas que pensam diferente e respeitá-las. O ilustre médium espírita José Medrado esclarece que tolerância muitas vezes pode significar apenas “eu suporto”, queremos respeito! Algumas entidades merecem destaques especiais, como é o caso de Koinonia que há 21 anos luta contra a intolerância religiosa e contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos, e agora se empenha no apoio ao Caso Mãe Rosa.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé


Jaime Sodré lança livro sobre combate ao racismo para crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de outubro de 2014
Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Pais, educadores e crianças: no próximo domingo, dia 19, a partir das 10 horas, tem um programa imperdível para vocês na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Nazaré. Trata-se do lançamento do livro Mocri (Movimento de Conscientização contra o Racismo Infantil), assinado pelo professor Jaime Sodré e com ilutrações de Ila Muniz.

Além do lançamento do livro haverá debate entre o autor e as crianças. Para acompanhar a conversa  será servido um delicioso mugunzá.


Balaio de Ideias: Vozes d´África

postado por Cleidiana Ramos @ 7:35 PM
26 de maio de 2014
Jaime Sodré analisa atuaçaõ de mulheres na política de países da África.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa a atuação de mulheres na política de países da África. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

A África clama por um novo olhar. Mulheres Africanas – A Rede Invisível é um filme de Carlos Nascimbeni que aborda cinco mulheres marcantes na história deste continente:

Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel, ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia muçulmana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee, Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer, escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.

Luiza Diogo, primeira-ministra entre 2004 e 2010, diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar; o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza, a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.

Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 e 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “Já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhes permita ter visibilidade”.

Sara Masasi, da Tanzânia, é líder empresarial e diz: “Quando se tem um negócio, você precisa pensar, porque você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso, a que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornaram a pessoa que sou” – era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.

Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.

Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo. Até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.

Para Graça Machel, nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário, e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar. Ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.

Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.

Quando vieram as conversações de paz, elas tiveram grande esperança, mas as discussões giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes. Em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “A minha nudez será em protesto contra a miséria”. Duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.

Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz: a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

Jaime Sodré é religioso do Candomblé, professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando pela Uneb


Histórias de ebomi Cidália Soledade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:17 AM
11 de abril de 2014
Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/ 19.10.2007

Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/
19.10.2007

Hoje, às 18 horas, no Terreiro Casa Branca, será lançado o livro Ebomi Cidália: a enciclopédia do candomblé – 80 anos. A publicação é assinada por mim e pelo historiador, designer, músico e religoiso do candomblé Jaime Sodré.  Ela é resultado de uma entrevista coletiva com a sacerdotisa feita por um grupo de jornalistas formado, além de mim, por Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.

Conheci ebomi Cidália em 2006, quando o professor Jaime Sodré disse que tinha um presente de final de ano para mim.  A surpresa era me apresentar a ela, sacerdotisa do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, mais conhecido como Gantois, consagrada ao orixá Iroko, aos 7 anos por Mãe Menininha.

Na primeira conversa já entendi porque a apresentação foi descrita como presente. Ebomi Cidália foi uma das pessoas mais fantásticas que já conheci até hoje.

Maestria
Até a sua passagem para o orum (o mundo sobrenatural no candomblé)  em 20 de março de 2012, mantive o hábito de visitá-la não apenas para entrevistas. Conversar com ela era aprender sobre cultura e religiosidade afro-brasileira e também sobre a vida.

Ebomi Cidália, leitora assídua de A TARDE,  foi uma mestra da oralidade. Aliás, usando um conceito explicado pelo doutor em antropologia da Ufba Ordep Serra, ela fazia “oralitura”, pois suas narrativas conseguiam hipnotizar as mais variadas plateias, além de vir recheadas de poesia, música e outros recursos.

“Por isso no livro buscamos manter uma transcrição o mais próxima possível de como era conversar com ela em um amostra do que foi o encontro realizado, além dos jornalistas, com vários dos seus amigos no Terreiro Oxumaré”, aponta Jaime Sodré.

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Selo
O livro foi viabilizado pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). De acordo com Sodré, ele é um pedido da criação de  um selo para a memória das comunidades afro-brasileiras, proposta que foi entendida e executada como possível pelo ex-secretário da pasta, Elias Sampaio.

“Tentamos de vários formas fazer a publicação via editais e não conseguimos. Portanto, recorri ao titular da Sepromi que, dentro das suas possiblidades, teve a sensibilidade para entender a importância de um projeto como esse”.

O projeto também contou com o apoio da designer Lúcia Oliveira, da arte-educadora Mônica Silva e da Empresa Gráfica da Bahia (Egba).

No lançamento é necessário o uso do traje branco numa reverência a Oxalá, que, como dizia ebomi Cidália, é cultuado de um  modo muito próprio no Brasil. Segundo ela, o jeito merece respeito, afinal resistiu a obstáculos iniciados com uma travessia do Atlântico.


Livro traz histórias de Ebomi Cidália de Iroko

postado por Cleidiana Ramos @ 7:13 PM
7 de abril de 2014
Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Na próxima, sexta-feira, dia 11, a partir das 18 horas, no terreiro Casa Branca (Avenida Vasco da Gama) acontecerá o lançamento do livro Ebomi Cidália-A Enciclopédia do Candomblé- 80 anos. O livro é uma grande homenagem à sacerdotisa do Ilê Axé Iyamassê (Terreiro do Gantois). Por sua imensa sabedoria ela ganhou o título de “Enciclopédia do Candomblé”, dado pelo professor Jaime Sodré que assina a publicação em conjunto comigo.

O texto é resultado de uma entrevista que foi feita com Ebomi Cidália no Terreiro Oxumarê. Além de mim, participaram da entrevista os jornalistas Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias. Foi um dia inesquecível e uma experiência fantástica  ouvir as histórias de uma persongaem que dedicou a vida ao candomblé, religião que abraçou aos 7 anos quando foi consagrada a Iroko por Mãe Menininha.

Dona da maestria no uso da oralidade, Ebomi Cidália era extremamente carismática e viveu cercada dos amigos que conquistava com seu carisma impessionante. A iniciativa tem o apoio da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). Para participar do lançamento é necessário usar traje branco.


Balaio de Ideias: Viva o Pastor Djalma de Ogum!

postado por Cleidiana Ramos @ 7:54 PM
16 de abril de 2013

Militância do pastor Djalma Torres é destacada em artigo do professor Jaime Sodré. Foto: Walter de Carvalho/ Ag. A TARDE/ 20.09.2005

Jaime Sodré

É isto. O titulo é estratégico para motivar o leitor ao texto. “Vou fazer a louvação, ao que deve ser louvado, louvando o que bem merece deixando o ruim de lado”.

No mínimo estranheza deveria, em outros tempos, causar a visita de um fiel do candomblé a um templo protestante, mas assim o fizemos por obediência à orientação de Ebomi Cidália, que recomendava esta salutar visita para estreitar laços de amizades, enriquecer o conhecimento e abraçar amigos.

A Igreja Batista de Nazareth, um templo histórico, comemorava 35 anos, uma história de muitas histórias dos irmãos solidários, sempre em busca de novos horizontes inclusivos. O culto solene de aniversário teria como orador o excelente Pr. Djalma Torres, assim como o Jantar Teológico, onde teríamos o privilegio da companhia do Pr. Joel Zeferino e Pr. Moises Alves, acolhedores anfitriões, assim como Pr. Djalma, oradores e condutores litúrgicos brilhantes.

Só emoção. Acolhidos, estávamos em casa, sem restrições ou olhares de intolerâncias. Só respeito e carinho. Muita luta ocorreu, tendo como abrigo esta Igreja, contra a ditadura, em favor da democracia plena, dos direitos humanos, contra as injustiças no campo e na cidade.

Em especial, destacamos a participação solidária na luta contra a intolerância religiosa, reconhecimento e respeito à diversidade sexual. Estimulando o dialogo com as paróquias católicas, comunidades protestantes e movimentos sociais, a Igreja alargava o seu horizonte.

Pr. Djalma Torres empenhou-se para que a Igreja fosse recebida pelo Conselho Latino Americano de Igrejas Cristãs (CLAI), na Assembleia de Buenos Aires em 2005, quando o pastor ajudou a criar a Aliança de Batistas do Brasil.

Na “compreensão de que o Reino de Deus é maior do que as suas paredes, sejam físicas ou mentais” destacamos a disposição do Pr. Djalma Torres em dialogar, compreender e participar, como militante ativo, contra as manifestações que vinham de grupos religiosos que, numa demonstração de inadaptação de uma convencia interreligiosa, atacavam o Candomblé.

Pr. Djalma sempre solícito e amigo dos fiéis do candomblé, reservava um espaço do seu precioso tempo para as reuniões ou caminhadas, junto ao povo-de-santo, nas sugestões de posturas para a solução desta incompreensão vil. O Pastor Djalma Torres, pela sua seriedade e apoio às nossas causas, tornou-se um irmão especial, e para retribuir este seu carinho e solidariedade, o povo-de-santo, reconhecendo a sua coragem, sinceridade, em um tom alegre, jocoso, mas respeitoso, desejando ter a honra de integrá-lo em nosso meio, resolveu chamá-lo de Pastor Djalma de OGUM.

Levando em conta e seguindo a máxima da Igreja de Nazareth de que “o que importa são as pessoas”, é para os grupos que necessitam de apoio que o Pastor e a sua Igreja dirigem o melhor dos seus esforços. Também os ministérios e seus respectivos ministros, orientam-se por esse principio e foi assim que o Pr. Djalma empenhou a sua vida em Nazareth e hoje o faz através do Cepesc e a Igreja Evangélica Antioquia.

Outros personagens atuam na mesma lógica do servir. São eles: Pr. Eliab Barbosa, Pr. Moises Alves e Pr. Joel Zeferino. Salve os irmãos das diversas religiões que se irmanam em convicções diversas na “esperança de que o Reino de Deus” ou de Olorum é algo plenamente possível, e por esse ideal vale “gastar a vida”.

E como nos revela o texto da Igreja de Nazareth: “só assim, com resistência, luta e fé é que vale viver”. Estreitando os nossos laços, desejamos um AXÉ para o Pr. Djalma Torres e muitos anos de vitorias para a Igreja Batista Nazareth, que caminhou do Centro para Monte Serrat; para o Garcia; para Brotas e finalmente Nazaré, atual sede.

Parabéns pelos 38 anos, que Ogum lhe dê força e perseverança. Pastor Djalma, de Ogum e de todos aqueles que tem a chance da sua amizade sincera; “quem disse, que não somos nada, que não temos nada a oferecer. Repare, nossas mãos abertas, trazendo as ofertas do nosso viver…Oôô! Recebe Senhor… Louvando a quem bem merece deixando o ruim de lado…”

Jaime Sodré é doutorando em História Social, professor universitário e religioso do Candomblé


Balaio de Ideias: Esse cara sou eu!

postado por Cleidiana Ramos @ 9:20 AM
17 de janeiro de 2013

Jaime Sodré relata dificuldades de servidor público para participar de editais públicos. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/ 09.11.2011

Jaime Sodré

Na madrugada, quando o silêncio brinda-me a calma para escrever, violei a noite com uma expressão roubada: “Saúdem-me, pois estou seriamente na eminência de me tornar um gênio”, soando no espaço da aurora. Esta frase assustou a plateia de pássaros que recorrem sempre a nossa beira, em busca de água adocicada e banana. A frase era cópia que fiz da lavra do genial Honoré de Balzac, dita pelo ano de 1833, quando da visita a sua irmã Laure Surville – servi-me da matéria de Marco Dias no 2+ de A TARDE.

A frase fora usada para celebrar a estratégia que consegui para a produção de uma novela, como recomendara o edital da Fundação Pedro Calmon, com o objetivo de levar ao conhecimento do grande público alguns dos fatos mais importantes da história baiana. Constituía objeto do edital premiar cinco novelas inéditas sobre episódios da história da Bahia, o meu tema era “A Revolução Malê”. A tarefa de registrar ideias no papel exigiu pesquisas, imaginação, daí recorri aos fatos históricos, personagens, situações favorecedoras ao enredo deste escrito concorrente que ganhara o título: “As aventuras e desventuras amorosas de Alufá Licutan e a Revolução Malê”.

Alegre, construí situações, tramas, suspense, embates e romances tórridos, com final inimaginável, surpreendente; tudo prontinho no exigido: impressão em fonte Times New Roman, tamanho 12, cor preta ou azul, no anverso do papel A4; Texto com entrelinha 1,5; pois um relato com mais ou menos 30 mil palavras, composto, resultaria num livro de 80 a 130 páginas. Na tradição da literatura de língua portuguesa, consideram-se novelas, por exemplo, O Alienista, de Machado de Assis, logo “compreende-se como novela um texto narrativo em prosa, intermediário entre o conto e o romance, e que obedeça, obviamente, às regras internas do gênero”, tudo em acordo  com o regulamento.

Esperançoso, reli este para encaminhamentos, leitura posterior, por estar concentrado na produção literária. Para efeito da certeza da vitória, assinei convênios de promessas a Yemanjá em flores ao mar e São Benedito, com missa festiva no Rosário dos Pretos, se no mínimo logra-se uma menção honrosa. Mas lendo amiúde o edital surgiu o trauma. Embora pudessem concorrer trabalhos individuais de autores maiores de 18 anos, de comprovada nacionalidade brasileira, vem a ducha fria: “É vedada a inscrição ou participação direta ou indireta dos servidores do governo do Estado da Bahia, de qualquer categoria, natureza ou condição, por termos dos artigos 125 e 207 da Lei Estadual 9.433/05 (e de todos os envolvidos no processo de avaliação do prêmio, bem como cônjuges, companheiros e parentes dos mesmos, em linha reta, colateral ou por afinidade, até 3º grau).

E mais: “Os concorrentes cujas inscrições não atendam ao disposto neste edital serão desclassificados”. Na condição de irremediavelmente excluído no primeiro e com um texto interessante, assim julgo, ávido de publicação, busquei amparo na participação nos editais da Secult de 2013. Por cautela, busquei logo a página 9, que informa: “Quem pode participar? Qualquer pessoa física maior de 18 anos ou pessoa jurídica… em qualquer caso é necessário ser domiciliado na Bahia há pelo menos três anos”, aí eu estou dentro! Mas no item “Quem não pode participar”, estou fora! Pois afirma que não podem participar servidores públicos estaduais ativos.

Doloroso, este simples ato de “exclusão” ou impedimento coloca de fora dos certames centenas e centenas de servidores ativos produtores de arte, conhecimento, ideias, etc., a exemplo dos professores. O que fazer frente a esta lei. Seria o caso de uma ação direta de inconstitucionalidade? Mera especulação que deixo aos juristas, mas cabe aqui apelo para os senhores deputados, capazes de com o seu empenho reformular a inibidora lei e incluir centenas e centenas de produtores que querem oportunizar suas obras para o público. Hoje de fora, um “cara” espera a inclusão e “Esse cara sou eu”.

Jaime Sodré é doutorando em História Social, professor universitário e religioso do Candomblé


Balaio de Ideias: Acarajé de Jesus

postado por Cleidiana Ramos @ 1:39 PM
28 de junho de 2012

Professor Jaime Sodré explica importância simbólica do acarajé. Foto: Fernando Vivas / Ag. A TARDE/ 01.12.2011

Jaime Sodré

Dona Liú, filha de Oiá, se retou: “Oxente, yayá, me deixe, acarajé de Jesus? Acará é de Yansã, Jesus é hóstia consagrada, não é?”. Volto à gastronomia por motivo justo, sobre o Processo nº 01450.008675/2004-01 do Registro do Ofício das Baianas de Acarajé. O conselheiro Roque Laraia apresentara o seu parecer sob as vistas do ministro de Estado da Cultura de então, Gilberto Gil, acompanhado de Juca Ferreira. O pedido de registro do acarajé como bem cultural, imaterial, fora proposto por Gil em 5 de novembro de 2002, além da Associação de Baianas de Acarajé e Mingau do Estado da Bahia (Abam), do Terreiro Axé Opô Afonjá e o Ceao.

A Sra. Claudia Ferreira encaminhou à Dra. Márcia Sant’Anna o texto de instrução apropriado para o Registro do Ofício da Baiana do Acarajé no Livro dos Saberes.

Ficou acordado ser o acarajé parte de um conjunto significativo e amplo, mas que não poderia ser desconsiderada a sua origem sagrada, bem como os “elementos associados à venda”, a indumentária de baiana, a preparação do tabuleiro, a natureza informal do comércio, além de esta atividade representar uma conquista da comunidade afrodescendente. As baianas são agentes sociais que articulam e representam campos vinculados ao sagrado.

Argumentava Laraia que esta atividade estaria sendo ameaçada pela venda desta iguaria sagrada no comércio informal, bares e supermercados, assim “como pela apropriação por outros universos culturais, na versão conhecida como ‘acarajé de Jesus’, vendido por adeptos de religiões evangélicas”. Afirmara em seu relatório ser o acarajé um alimento do ritual consagrado a Xangô e a sua mulher Oiá-Yansã, sendo que a sua comercialização iniciou-se ainda no período da escravidão pelas “negras de ganho”, tornando-se atual fonte de renda das pessoas vinculadas ao candomblé.

O tabuleiro, “suporte-vitrine”, faz parte do conjunto culinário, nele encontramos abará, lelê, cocada branca e preta, pé de moleque, passarinha, vatapá, camarão, bolinho de estudante (punheta), etc. Um convite ao prazer. O parecer conclui pela recomendação do Registro do Ofício das Baianas do Acarajé e a sua inscrição no Livro dos Saberes e o reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil.

Mas não é fácil a luta das baianas, como nos informa Rita Santos, presidente da Abam. Para ela, existe o risco de o acarajé perder a sua identidade. Igual opinião é a de Gerlaine Martini, do Departamento de Antropologia da UnB: “O acarajé passou a ser vendido como mero produto turístico, era uma atividade tradicional e religiosa das baianas, muitas delas hoje convertidas à religião evangélica”. Informa ainda que estas decidem retirar todos os signos que as liguem à religião africana, como a indumentária e as contas. Segunda ela, “desfiguram o ofício ao querer que o acarajé seja visto não como uma oferenda, mas apenas como uma refeição”.

A ameaça à preservação da cultura das baianas foi tema de uma audiência pública promovida pela Comissão de Promoção da Igualdade da Assembleia, onde Rita Santos argumentava que “além do desrespeito em relação ao Decreto Municipal 12.175/1998, que exige a padronização da indumentária e do tabuleiro, ela assistia a uma descaracterização no aspecto religioso e cultural”, e lembrava que “não se tem como separar o acarajé do candomblé”, para outros “tratava-se de mais uma ação de intolerância religiosa”. Informa-nos Donaldson Gomes que o fabricante de um refrigerante famoso estaria investindo R$ 500 mil para preservar a tradição que envolve o acarajé, junto à Abam, embora a entidade necessite de outros colaboradores para outras demandas.

Não conheço o projeto da Arena Fonte Nova, dizem ser belíssimo, sabemos da liberação da bebida nos estádios, mas por certo os seus arquitetos deverão ter projetado um local privilegiado para o símbolo mais famoso da culinária baiana, o acarajé, e as autênticas baianas. Já a Dra. Gerlaine Martini, esperançosa, afirma confiar no gosto do baiano (e dos turistas), para valorizar o acarajé autêntico. O meu com pouca pimenta.

Jaime Sodré é professor universitário e religioso do candomblé


Balaio de Ideias: Ônus e Bônus

postado por Cleidiana Ramos @ 12:52 PM
10 de abril de 2012

Uma das demandas apresentadas pelo professor Jaime é a campanha em prol da sede do Instituto Steve Biko. Foto: Edson Ruiz / Ag. A TARDE/ 01. 03. 2005

Jaime Sodré

Evidente que as alianças serão sempre bem vindas, pois é sabido que a solidariedade seria um fator característico da condição humana. É comovente observar gestos generosos daqueles que erguem o seu braço amigo e a sua voz, incorporando nas suas preocupações o problema do outro.
A situação de desigualdade experimentada pela população brasileira, em especial a afrodescendente, fruto de fatores históricos de uma evidência inquestionável, experimentará recuo, pelos esforços deste segmento aliado, na superação do quadro deficitário de oportunidades e políticas públicas se apoiados por amigos sinceros.

Um bom observador presencia manifestações no espaço cultural, em especial no campo da música baiana, de pessoas não necessariamente negras, desfrutando do capital simbólico negro, identificando-se com o mesmo, aproximando-se de forma concreta e utilizando o potencial afro em suas ações artísticas.

Este desfrute, esta proximidade, gera significativo capital financeiro e prestígio, este último dividido com a comunidade inspiradora. Assim é que, nesta bem vinda aliança, cabe retornos mais concretos para a comunidade inspiradora, o segmento afrodescendente, em desvantagem sócio-econômica evidente. Não se trata de pedágio, é claro, mas de contrapartida real e experimentável, cujo usufruto anseia os afrosdescendentes.

Artistas talentosos e solidários, nossos aliados, devem como sugestão, utilizar o seu prestígio para postar-se na linha de frente da nossa pauta de luta, para a superação das nossas demandas. Logo, apresentamos aqui, de forma seletiva, uma listagem das nossas aspirações, que julgamos ser do conhecimento, mas aqui cabe como oportuna lembrança.

Além do natural posicionamento rígido contra o racismo, devem pronunciar-se claramente contra a intolerância religiosa que atinge o Candomblé, este fruto de inspiração, geradora de direitos autorais aos compositores que buscam nesta referência cultural a sua inspiração, alicerce do seu sucesso.

Exercer o seu prestígio e possibilidades junto aos órgãos de saúde para a concretude ou ampliação de programas para o tratamento das manifestações da anemia falciforme.

Posicionar-se claramente e sem subterfúgios, favoráveis à adoção de cotas para negros nas universidades, estimular os nossos jovens a freqüentar a escola, realizar campanhas que resultem na inibição do uso de drogas, estímulos e posicionamentos para oportunização de empregos para os jovens negros.

Uma solicitação especial me ocorre. Seria uma intensa campanha para arrecadação de fundos ou efetivar doações, objetivando a instalação da sede da Steve Biko, entidade que realiza cursos para a inclusão de negros na universidade, cujo imóvel, cedido pelo governo do estado, localizado em um trecho no qual as atrações carnavalescas passam bem à sua porta, tem hoje  um painel grafitado no seu muro que, pela beleza desta arte, não acreditamos que os nossos astros não tenham visto. Quem sabe um grande show, onde a arrecadação do mesmo seja destinada as obras naquele prédio.

Para aqueles sensíveis astros afrodescendentes ou não, seria oportuna uma campanha para a conclusão das obras que se arrastam na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, localizada no Pelourinho.

Na verdade não cabe aqui uma listagem extensa, pois acreditamos que os atores artísticos e sociais, se apurada a observação, poderão se incorporar às inúmeras iniciativas de ações que resultem em efetivo apoio.

Na condição de outra e importante sugestão, esta inquestionável, seria a observação das necessidades das nossas crianças. Escolas, creches e adoções devem ser prioridades neste gesto solidário de bem fazer. Apoio às ações sociais empreendidas pelas unidades populares de matriz africana que se preocupam na formação das crianças, através de doações de livros, equipamentos e alimentação.

Volto à TV, vejo uma atriz branca, rainha da bateria de uma escola de samba, agradecendo aos instrumentistas negros, que repercutem os tambores para o seu sucesso midiático. Que haja uma reciprocidade verdadeira.

Jaime Sodré é historiador, escritor e religioso do Candomblé


Balaio de Ideias: Omi-as Águas Lustrais

postado por Cleidiana Ramos @ 11:43 AM
12 de setembro de 2011

Jaime Sodré faz alerta sobre poluição das águas em Salvador. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE| 01.11.2010

Jaime Sodré

O professor Manoelito, homem bom e velejador, avisou-me: “Nem passe lá, ela está uma fera”. Não era nada comigo, Diolinda Santana da Conceição Soares e Souza é a nossa querida Dona Dió, fervorosa na fé e na prática. Estatura magra e miúda, mas de temperamento forte, que o Caboclo, certa feita, a fez fechar a mão, rígida, com uma nota de cem e ninguém conseguiu abri-la ou arrancá-la.

Nesta cidade pouca coisa lhe interessava, nada de VLT, BRT, Metrô, Modal, Via Exclusiva, Copa… o negócio dela são as águas.

Aborrecida estava, pois o sacerdote consultado receitou flores amarelas, postas respeitosamente em um riacho, caudaloso, limpo e vivo em Salvador. A sua ira se justificava: onde encontrar tal relíquia aquática? Preparara o belo e vistoso arranjo sob a supervisão de Binho, sobrinho e militante ecológico, que advertira: “Tia, tudo biodegradável, viu?”. Veio o impasse, onde “arriar”? O tempo de águas límpidas era só lembrança.

Dona Dió é assim, uma espécie de mãe de “nós todos”, aconselha-nos desde as sequelas da “espinhela caída”, como na atuação no campo da “psicanálise popular” a desvendar os nossos intricados sonhos, inclusive com sugestões lotéricas, deixando-nos pilotar uma xícara esmaltada do seu saboroso café.

Um filho desta solidária senhora “não foge à luta”, decide buscar ajuda com os “universitários”, os professores Bete Santos, Luiz Roberto Moraes e José Antonio Pinho. Mergulhei no livro Caminhos das Águas em Salvador, elaborado levantamento das bacias hidrográficas e fontes urbanas, mapeando e delimitando os bairros soteropolitanos.

O principal objetivo desta publicação consiste em caracterizar a qualidade das “doces águas” daqui, alertando para barrar urgentemente o processo de degradação, este a olhos vistos.

A pesquisa abordou várias bacias e em 60 pontos foram realizadas coletas, inclusive nas ilhas, e encaminhadas para o laboratório da Embasa analisando-se coliformes, termo tolerantes, condutividade, fósforo total, nitrato, óleos, graxas etc. Atribuindo notificação de péssimo, ruim, regular, aceitável e bom. Salvador tem hoje 12 bacias hidrográficas (ver livro).

Ao longo do tempo foram lançados esgotos, fonte principal de poluição, e resíduos tóxicos nestas águas mortificando a fauna e a flora. É fácil constatar que estamos perdendo uma riqueza natural fantástica. Esgotos, resíduos industriais indiscriminadamente lançados além da urbanização depredatória, parecem indicar a ausência de uma política para as águas somada à insensibilidade dos maus cidadãos.

Na Europa, rios foram recuperados o que, guardando as devidas realidades, nos serve de exemplo. A eficiente repórter Camila França nos fornece subsídios para analisarmos a possibilidade do enfretamento do problema, informando que a Sucom tem apenas “99 fiscais para cerca de três milhões de habitantes”, e aponta como uma das regiões mais degradadas e críticas da cidade de Salvador a Bacia do Mané Dendê. Considerado espaço sagrado das religiões de matrizes africanas, de importância histórica e cultural, conhecida como Parque de São Bartolomeu, uma área de proteção ambiental com seus rios e cachoeiras poluídos.

O trabalho aqui mencionado preocupou-se com as fontes dos terreiros de uso ritual, que também apresentou problemas. Aucimaia Tourinho, da Escola de Engenharia da UFBA, merece honrosa citação, pois fora responsável pelo trabalho de caracterização das fontes, defendendo tese.  Munido de argumentos fui enfrentar a “fera D. Dió”.

“Nosso Senhor mandou bom dia”. “Vá entrando, que Deus te abençoe, vou preparar o café”. Informei-lhe da tragédia das águas e a impossibilidade dela realizar a oferenda aqui na Capital, mas trouxe-lhe uma boa notícia, os rios da Ilha de Maré e Ilha dos Frades estão com boa qualidade de água.

Disse-me, alegre: “É pra lá que vou, o santo está em todo lugar. Mas nós, que cultuamos as águas, precisamos defendê-la. Eu agora só arreio presente bio… ah, com esse negócio aí que Binho falou”. Exaltada, D. Dió intimou-me a entrar na luta ecológica. Já estou dentro.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do Candomblé


Balaio de Ideias: Wagner e deputados. Em tempos bikudos

postado por Cleidiana Ramos @ 9:01 PM
13 de julho de 2011

Instituto coordenado por Sílvio Humberto está de casa nova. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE| 13.05.2011

Nota: Como mais uma prova da capacidade de se antecipar aos acontecimentos do nosso professor Jaime, fruto da sua inteligência aguda e rápida, no mesmo dia em que o artigo foi publicado em A TARDE, hoje, a Coluna Tempo Presente, assinada pelo grande Levi Vasconcelos, traz a informação de que a Assembleia Legislativa aprovou a doação do imóvel ao Instituto Steve Biko.  Ganhamos mais uma luta.

Jaime Sodré

Enquanto isso, muito além das desarmônicas discussões das “cotas sim ou não”, vem a banda das ações concretas com “pouco papo e muito som”, porque, no entanto, é preciso cantar e alegrar a mocidade.

Seu Benzinho disse-me: “menino, política é o diabo”, com reforço sonoro no “DIABO”, o mesmo tom de alguns pregadores neopentecostais. Argumentei, respeitosamente: “Mestre, o Diabo da política não é tão feio como se pinta, existem momentos de ternura que se confundem com santidade.” Retrucou, “prove-me”.

Por vezes tive a sensação de que, o que aqui escrevo, alcançava apenas os meus familiares, em caráter obrigatório, e alguns generosos amigos, minorias, esquecia-me do alcance deste histórico jornal. Sou surpreendido com leitores diversos, aos quais agradeço. Escrevi um artigo com o titulo “Bons tempos Bikudos Governador” e parece-me, desculpe a empáfia e deixem-me pensar assim, que ele leu e atencioso à causa agiu.  Claro, o que vale e deve ser louvado é a sua sensibilidade.

Afirmava na época que: “Dizer, a educação é fundamental já se tornou ‘lugar comum’, o que seria realmente incomum, na educação, é esta não ter o seu lugar.” Por isso, formulamos um pedido, uma sugestão ao governador Wagner, um lugar para a educação, um espaço requerido em nome do Instituto Steve Biko.

Para lembrar: “Fundado em 31 de julho de 1992, o Instituto é resultado da preocupação de jovens ativistas negros, que além da luta contra o racismo desejavam a inclusão dos afrodescendentes, carentes, nos ambientes universitários. O nome Steve Biko refere-se a uma justa homenagem a este jovem doutor sul-africano, que, empenhado na luta contra o apartheid, pagou com a própria vida”.

O governador agiu e ao senhor presidente da Assembleia Legislativa mandou-lhe mensagem: “Tenho a honra de encaminhar a Vossa Excelência, para apreciação da augusta Assembleia Legislativa do Estado, o anexo Projeto de Lei que autoriza o Poder Executivo a conceder, em nome do Estado da Bahia, o direito real de uso, ao Instituto Cultural Steve Biko, do imóvel urbano que indica de sua propriedade”. Inspirado, solidário afirma:

“Com esta medida, pretende-se fortalecer o desenvolvimento das ações voltadas à promoção da inclusão e ascensão social da população negra e jovem e de baixa renda, através da educação e do resgate de seus valores ancestrais, executando ações concretas para a redução das desigualdades raciais, de gênero e econômicas”. O governador, em harmonia com a comunidade tem pressa, para tanto recomenda: “que seja observado o regime de urgência” pelos senhores deputados e deputadas e, especial às Comissões de Constituição e Justiça, Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia, Serviço Público, Finanças, Orçamento, Fiscalização e Controle.

O direito real de uso ao Biko é a título gratuito de um imóvel na Rua Visconde de São Lourenço, n. 04, Campo Grande, por 20 anos, com registro no Cartório do 1º Oficio de Registro de Imóveis da Comarca de Salvador. A tal concessão implica em responsabilidade de reformas e, em caso de desvio da finalidade, o mesmo será retomado sem direito a indenização.

Agora se abrem duas ações concretas: a primeira é a urgente ação dos nossos representantes no Legislativo para a merecida aprovação, e uma outra é a convocação da comunidade solidária para a efetiva reforma do imóvel.

Como vimos, em política promessa nem sempre é dúvida quando Demo dorme, da nossa parte, reafirmo o que prometi á época: “Como sempre acontece com eventos da comunidade baiana, haverá festa sim, mas estamos em dúvida se feijoada, caruru, ou… Ah, o cardápio quem escolhe é o nosso estimado governador”.

Mas, pressinto a necessidade de um diálogo urgente com Alaíde do FEIJÃO. Pelo visto os comensais serão muitos, pois os senhores deputados, que votarem a favor é claro, estão convidados. Bobagens, o certo é que eles aprovarão sem nenhum interesse, a não ser pela justeza da causa, solidariedade e dever cívico. Viva a Harmonia e bem aventurados os solidários, que fazem ao próximo como a ti mesmo.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé 

 


Balaio de Ideias: Bem Aventurada Irmã Dulce de Yemanjá

postado por Cleidiana Ramos @ 1:44 PM
21 de junho de 2011

Professor Jaime faz reflexão sobre respeito à diversidade religiosa. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Jaime Sodré

Com Dona Leleta que mora na vileta não tem conversa, é “pão, pão; queijo, queijo”, tem aquela atitude que o intelectual chama de pragmática, ou seja, ideias próprias. Era fácil de diálogo, mas difícil era convencê-la, embora tenha uma boa alma e fé sincrética.

Na casa de Dona Nitinha, costureira da roupa do seu santo, estava ela, Leleta, envolvida em um tecido armado com alfinetes, na tonalidade branca com detalhes em azul, cores emblemáticas do culto afro, era a sua “indumentária” para a solenidade de beatificação de Irmã Dulce.

Embora achasse estranho por ser Dona Leleta do Candomblé, Nitinha caprichava em silêncio no modelo, mas na aguentou, “Lê, você é de dentro e vai para a missa de irmã Dulce?”. Respondeu: “é pobrema meu, abafe o caso, não se meta na minha semana, ‘despois’ explico”, estava ela livre das regras gramaticais, apoiada nas novas diretrizes do MEC para os falares da plebe, e expressava-se no português popular. Confesso, também esperei explicações para este ato de fé dupla.

Para Dona Leleta, como disse, não tem conversa, Dulce já era Santa há muito tempo, não necessitando dos protocolos da Igreja. Coisas de beatificação e canonização eram assuntos fora da sua compreensão, além do mais, a “Mãe dos Pobres” era mãe e acolhedora, virtudes sincretizadas e vistas por ela, Leleta, também nos atributos de Yemanjá, o que facilitava a sua devoção a Santa Dulce.

Tentei esclarecê-la sobre beatificação e canonização, inspirado no texto do padre Antonio Martins, apesar dela já ter ouvido explicações, não muito receptivas, em um programa de rádio.

Fui aos detalhes, acreditando que ela queria saber em que consistia beatificar e canonizar, logo, o que significava ser santo para o catolicismo. A santidade não é um privilégio de ninguém, é merecimento, e todos podem ser chamados a este estado evolutivo, inclusive pela via da caridade.

À santidade não se exige elevado dotes intelectuais, mas uma vida santa, crescendo em obras dignas deste merecimento. A santidade é uma possibilidade, é uma meta, porém nem todos a alcança.

Para o Direito Canônico beatificar é ato solene em que o Papa declara que um venerável servo de Deus pode ser beato. A exigência para a beatificação é a comprovação de um milagre, comprovado um segundo milagre o beato será canonizado. Tanto a beatificação quanto a canonização são decretados pelo Papa. Dona Leleta apenas disse-me “Hum! Estou satisfeita”.

Dona Leleta disse-me sim, com um riso de vitória, quando afirmei que O Anjo Bom da Bahia fez voto de pobreza e uma opção pelos pobres, e junto a eles serviu, NÃO EXCLUIA NINGUÉM.

Estava na hora dela ir ao Parque de Exposições, era tanto a ansiedade para entrar que chegara às cinco horas da manhã, sendo uma das primeiras e levara a merenda. Assistira a tudo emocionada e não se afastou, apesar da chuva, a qual atribuíra como prova de que Dulce era da linha de Yemanjá, retornara exausta e feliz.

A roupa confeccionada por Dona Nitinha resistira a tudo e não encolheu, a mesma perguntou: E aí, Lê! Como foi lá? Respondeu: “rezei por todo mundo, Irmã Dulce é um exemplo de bondade, caridade e amor”. Até parecia mais um milagre, falara o português correto.

Já estava programada uma visita ao Santuário da Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, no Largo de Roma, nada de despesas, seria com a mesma roupa branca e azul de Yemanjá. Roma era o local onde reverenciara várias vezes a Irmã, quando o cortejo da Lavagem do Bonfim passava em frente às Obras Sociais.

Encerrando a nossa conversa, dissera: “Irmã Dulce, meu filho, nunca discriminou ninguém, nem os nossos, do santo. Eu mesma levava muitos dos nossos para ela, para o hospital, ela não exigia atestado de fé católica”. Bem aventurada, exemplo de diligência, altruísmo e solidariedade pelo seu trabalho social atendendo a todos, sempre em apoio a quem estava em vulnerabilidade social. Mas o que fazer com Dona Leleta e sua duplicidade religiosa, condená-la? Tolerância também é a garantia de expressão segundo a nossa sensibilidade e fé.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Viva a Santo Antônio

postado por Cleidiana Ramos @ 7:33 PM
13 de junho de 2011

Hoje é dia de festa para Santo Antônio. Foto: Fernando Amorim| Ag. A TARDE| 10.06.2011

Hoje não poderia faltar aqui uma homenagem especial a Santo Antônio, afinal ele é, talvez, o mais popular e mais querido dentre os santos católicos. A menção especial foi também reforçada por algo que vi em Iaçu, minha doce e cada vez mais empolgante terra, onde estive neste final de semana.

Pois não é que cheguei exatamente a tempo de assitir uma das noites da famosa trezena na casa de dona Judite? Foi como se passasse um filme na minha cabeça. Revi tantas e tantas cenas da minha infância, quando, depois de participar das trezenas na igreja matriz, íamos em bando para a casa de dona Judite.

Nós, as crianças, confesso, não tínhamos lá muito interesse na devoção ou em pedir ao santo casamenteiro um bom partido – isso era para as meninas que estavam ficando “mocinhas”–. O nosso esforço na saudação ao “glorioso Santo Antônio” era conseguir as guloseimas servidas após as cantigas e rezas (mugunzá, pipoca, bolo de milho, pastel e tantas outras).

E o barato é que nesse final de semana descobri que a tradição continua firme, forte e com renovação. Acreditem, mas essa trezena de dona Judite já tem mais de 60 anos. Fica aqui, inclusive, uma sugestão à prefeitura de Iaçu para que a inclua na categoria de patrimônio imaterial local.

Tudo isso me leva a mais uma vez pensar no porquê da associação que foi feita entre Santo Antônio e o orixá Ogum ou “convênio” como diz o professor Ordep Serra.

Com Ogum não se toma liberdades, mas com Santo Antônio a coisa  corre solta indo  de castigos leves como colocar a sua imagem  com o rosto virado para a parede até surras homéricas como faz uma parente minha.

E olhem que até Irmã Dulce costumava apelar para este tipo de convencimento, pois é de largo conhecimento que a primeira baiana reconhecida como beata e, portanto, a um degrau de se tornar a primeira brasileira aclamada oficialmente santa, também recorria a esses expedientes quando precisava de uma forcinha a mais do “seu padrinho”. Até na chuva, conta-se, Irmã Dulce já colocou a imagem e foi imediatamente atendida em seu pedido de cobertores para os seus pobres e doentes.

O que alguns podem entender, portanto, como “tomar liberdades” além da conta com um santo nada mais é do que uma deliciosa brincadeiragem (termo preferido do professor Albergaria) do povo nordestino que só demonstra o tamanho do carinho dedicado ao “santo das causas impossíveis”.

Continuo em dúvida dos motivos para a associação com o orixá dos caminhos e tão guerreiro. A hipótese mais aceita é por conta dos títulos que Santo Antônio (já santificado e tudo) ganhou no Exército brasileiro, inclusive com patentes que variaram de alferes a capitão, incluindo soldo.

Além disso, ele tinha a  fama de defender Portugal nas guerras tendo até sido visto materializando-se em campos de batalhas. Para quem não sabe Santo Antônio de Pádua, que tem como nome de batismo Fernando, é português, na verdade. Pádua, Itália, é o lugar onde morreu.

Portanto, Santo Antônio com fama de soldado foi aproximado, na Bahia, de Ogum, o senhor das ferramentas, dos caminhos e das batalhas. Lá, no Rio, o convênio de Ogum é com São Jorge.

E como é que um santo que foi de uma ordem religiosa e, portanto, com o compromisso de “voto de castidade” tornou-se padroeiro de romances e até casamento?

Mas conhecendo a inteligência dos meus ancestrais africanos, como diz o professor Jaime Sodré “debaixo desse angu” tem carne. A hipótese do professor é que essa associação “disfarça” uma tentativa ou um discreto convênio de Santo Antônio também com Exu, orixá da comunicação, que gosta de irreverência e é também ligado à fecundidade.

A discrição teria sido motivada por uma interpretação errônea de alguns que apressadamente chegaram a compreender Exu como representação do mal,  uma heresia para o povo de candomblé.

Daí, portanto, teria sido melhor deixar mais evidente a ligação com Ogum, que tem certa proximidade com Exu. É uma boa hipótese para se pensar, mas não muito, afinal a festa de Santo Antônio tem a liberdade exata de unir fé e alegria, com muita comida gostosa. Ora pois, portanto, vivas a Santo Antônio.


Balaio de Ideias: O Hip Hop e a rima denúncia

postado por Cleidiana Ramos @ 1:51 PM
19 de maio de 2011

Jaime Sodré analisa força política do hip hop. Foto: DJ Branco | Divulgação

Jaime Sodré

Estávamos em Blacktude na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, cedida pela dinâmica Maria Roseane, a diretora, para reflexões adultas em um ambiente infantil. A mesa era composta por Nelson Maca, excelente na Literatura Negra, GOG-Genival Oliveira Gonçalves, excepcional Rap, e Albino Rubim, Secretário de Cultura, democrata, aliado.

Os primeiros reivindicavam e havia para mim um clima de déjà vú ao contemplar o chapéu, no estilo dos velhos sambistas, ostentado por GOG, em contraste com a cabeleira de Maca e a escassez na cabeça de Rubim, careca de saber.

Estavam para cobrar, o Rap tem esta função. Assim como faziam os bambas de ontem, de forma melódica denunciando a exclusão: “Ai barracão pendurado no morro e pedindo socorro a cidade a seus pés.” Nada mudou?

O que se nota é a eterna luta. A arma melódica de hoje é o Rap, “Mas esteja convencido: Quem fere com ferro, é serio, Um dia com ferro será ferido”, recita GOG no seu livro A rima denuncia. Mudou-se a trilha sonora, mas a realidade parece persistente. O Rap e o Hip Hop, (Afrika Bambaataa foi o primeiro a utilizar este termo), são bem aventuradas expressões políticas, artísticas e rebeldes de forte sabor juvenil onde o SCRCRAAANTSHHH é o deslizar da agulha no velho vinil.

Destaco na cena baiana o magistral DJ Branco, da Evolução Hip Hop, na Rádio Educadora, mas que história é esta? Rap significa Rhythm and Poetry, ou seja, Ritmo e Poesia. De singular melodia, caracterizada por suas letras recitadas, onde a comunidade periférica, em especial a negra, o “gueto”, expõe suas questões.

Para alguns tem como berço a Jamaica dos anos 60, com os seus Sound Systems e bailes com os seus “tagarelas”, MC’s, que “cronificavam” a violência nas favelas de Kingston, aspectos políticos, sexo e drogas. Deslocaram-se para os Estados Unidos na década de 70 em função da situação de crise.

Credita-se a Kool Herc, jamaicano, a instalação em Nova Iorque da tradição dos Systems e o canto falado, mais tarde incorporando o SCRATCH. Nos anos 70 tivemos o genial Kingtim III da Banda Fatback, ativista do Rap, colaborando na divulgação das questões negras. O movimento chega ao Brasil nos anos 80, ganhando espaço em 90 na indústria fonográfica, aqui os “tagarelas” somam-se aos Breakers, sendo realizado o primeiro registro com Nelson Triunfo, Thaide & DJ Hum, MC/DJ Jack, Código 13, dentre outros.

O Hip Hop chega nos 80, com bailes e movimentações na 24 de Maio, em São Paulo, espaço dos Metralhas e o “icônico” Racionais MC’s. Assim como historicamente aconteceu com o samba, este movimento fora perseguido pela polícia, instalando-se porém em São Bento e outros na Pç. Roosevelt. Lá estavam, enfezados, rolando no solo, com saltos característicos, resistindo.

Ao contrário do samba, não tem remelexos, são gingados agressivos, bordoada contra o racismo, o desemprego, a polícia, os políticos e as injustiças. Uma cultura visceral, agressiva, rebelde, com códigos corporais e gírias. Em um cenário urbano ou periférico, expõe as mazelas sociais, com suas calças largas, bonés, tênis, e expressão artística que incorpora as artes plásticas com os grafites, de traços particulares e riqueza de cores.

Os Rappers, os Fanqueiros, “não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz samba também”, em um compasso diferente, sem esconder as mazelas sociais e raciais. “Vozes Marginais na Literatura” é o livro de Érica Peçanha do Nascimento onde fala desta cultura periférica, ornada pelas questões sociais e econômicas, necessitando de oportunidade para a afirmação da sua estética e respostas aos “novos-velhos” questionamentos.

DJ Bandido, B.Boy Ananias e B.Girl Tina, Fúria Consciente, Graffite Lee 27, DJ Môpa, Daganja, Negro Davi, Anjos do Gueto, Calibre Mc e Fall, Quatro Preto, RBF e Os Agentes, “é a Bahia aí mermo, mano”. São 15 anos de Hip Hop em movimento na Bahia, mas isto é outra história. Versos longos, insubordinação, dança robótica, grafite são os elementos artísticos de um questionamento que merece atenção e respostas.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Balaio de Ideias: Tesouros para reflexão

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 PM
15 de abril de 2011

Professor Jaime Sodré compartilha preciosidade histórica. Foto: Gildo Lima | Ag. A TARDE| 01.11.2010

Jaime Sodré

O maior fascinio do pesquisador é encontrar verdadeiras pérolas, tradutoras de um passado a desvendar, o passado no presente, porque não um régio presente? Peço licença para transcrever na integra o que segue abaixo, fruto da garimpagem nos arquivos. Nestes ambientes de memórias, defrontamos com dias férteis, comandados pela sorte, e de aridez, dias de rede vazia. Mas a busca é continua e solitária ou por vezes em grupo. Deste modo, economizando o vosso deslocamento, dias frustantes e exposição arriscada  à poeira do passado, é que ponho à disposição este “achado”  possibilitando a vocês análises e conclusões, missão da atividade do historiador. Para preservar estes personagens históricos, seus nomes estão cautelosamente omitidos.

“Estado da Bahia no. 549 – Secretaria de Segurança Pública Polícia Preventiva – Delegacia da 2ª. Circunscrição Policial Bahia, 23 de novembro de 1940.

Ilmo. Sr. Dr. delegado de Jogos e Costumes, em exercício. Ba   24.11.940

Comunico-vos, para os devidos fins, que nesta Delegacia foram mandados apresentar o indivíduo M. P. residente à Ilha do Rato, no. 31, e A. S. à Rua do Céu, no. 14, desta Circunscrição, o soldado eletricista do 1º. B.C., de no. 445, L. B. e o guarda D. S. da Guarda Noturna do Distrito de Santo Antônio, relativamente a um fato ocorrido à madrugada de 17 do corrente.

Disseram M. e A. que na casa à Ilha do Rato, no. 31, já citada, às duas horas da manhã de 17, quando várias pessoas estavam contando “histórias” que, ao terminar, recebiam salvas de palmas, bateram à porta e sendo esta aberta deram entrada na casa o soldado L. B. e outro de nome A., também do 1º. B.C., da Polícia Militar, os quais trataram de abrir as gavetas dos móveis, procurando dinheiro ou algo de valor, sendo que o soldado L. experimentou um par de sapatos e uma roupa que não lhe serviram – levando entretanto um chapéu de feltro marrom; que os dois soldados ameaçaram de prizão o dono da casa e os presentes, dizendo entretanto que tal não lhe fariam si lhes fosse dado dinheiro, ficando de irem buscá-lo no dia seguinte, quando todavia foi entregue a M. o chapéu que fora apanhado em sua residência, o que contestou o soldado L. e o caso já era do conhecimento das autoridades. Disse M. que também esteve na sua casa o guarda noturno D. S. Ouvido o soldado L. B., por este foi dito, de logo, que M. P. é “macumbeiro”, bastante conhecido nas rodas de “candomblé”, dando sempre festas na sua casa, com o maior escândalo e sobressalto para a vizinhança, e A. S. é viciada com outras mulheres e “filhas de santo”, pessôa obrigatória nas festas de M. que efetivamente, em companhia do soldado A., estivera na residência de M. afim de pedir-lhe que fizesse menos barulho com sua festa, pois morava na vizinhança e não podia dormir com semelhante algazarra, sendo mal-tratado logo à entrada, o que o obrigou a verificar as dependências a casa afim de descobrir onde se achavam algumas pessoas que correram, escondendo-se, pois quando entrára vira logo várias mulheres fazendo contorções como se estivessem no “santo” e uma criança com a cabeça raspada; que, ao abrir um quarto de “peji”, deparou três mulheres deitadas sobre camas de folhas, tendo as cabeças raspadas, e junto a elas um aguidar contendo azeite e farófia misturados com cabelos, e encontrando outros vazilhâmes pela casa; que nesta mais tarde esteve o capitão A. Comandante da Guarda Noturna de Sto. Antônio, verificando o que fica exposto.

Esta Delegacia providenciou a ida, ao local, de um investigador, o qual verificou a existência de vazilhâmes apontados e do quarto de “peji”.

Cordiais saudações. A. – Delegado”

Importante: O documento é constituído de duas (2) folhas e está na cx – 42 / PC – 01: Delegacia da 2ª. Circunscrição Policial – Correspondência Expedida / recebida – SSP. título Candomblé

Revelando retratos de uma época, o documento escrito ou oral, alem de ser testemunha das ações que a vida articula e  proporciona, permite reflexões, alem de aperfeiçoar as nossas ações no presente.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Cinquenta anos do Pilão de Prata

postado por Cleidiana Ramos @ 2:22 PM
8 de fevereiro de 2011

Articulista faz registro da história do Pilão de Prata. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Jaime Sodré

Sentimento de orgulho leva-nos a registrar a trajetória de famílis negras que descendem de núcleos familiares africanos, das mais variadas procedências, todas dignas. À dolorosa situação compulsória na condição de escravos, somava-se a quebra do vínculo comunitário e familiar. Famílias negras, algumas núcleos das religiões de matriz africana, povoaram com dignidade a cidade do Salvador. Entre estas, registramos as famílias Alaketu, Asipá, Alakija. Esta introdução conduz-nos ao nosso assunto: a família Bangbosé, a trajetória do Làjoumim e do Ilê Odô Ogê, que remonta às origens do candomblé no Brasil.

Personalidades como iyá Detá, iyá Kalá e Iyá Nassô implantaram a liderança feminina na formação do culto de base africana em Salvador, associadas a líderes masculinos como babá Asipá, Bangbosé Obitikô (Rodolfo Martins Andrade), que trouxera em sua companhia o seu Òsú em seu Orí, o fundamento do culto a Xangô.

Destacado integrante do reino de Oyó, Bangbosé era o acólito que carregara o oxé, instrumento associado ao poder do orixá Xangô. Conhecedor dos ritos do candomblé, Obitikô era a presença que possuía o embasamento fundamental na consolidação deste culto. Associado aos conhecimentos de iyá Nassô e Marcelina Obatossí entre outras, Bangbosê torna-se um dos patronos do candomblé na nova África-Brasil.

Do Iyá Omin Asé Airá Intilé na Barroquinha, Ilê Asé Nassô Oká, a Casa Branca, nasce o Terreiro Làjoumim, em 1941, cuja direção competente e generosa caberia a Caetana América Sowzer, nobre herdeira da tradição e do axé Bangbosé.

A reverendíssima iyá Caetana, Mãe dos Olhos D´Água, filha de Felisberto Américo Sowzer, Oguntosi, instrutor da sua disciplina religiosa, esta, transmitida por seu bisavô, Làjoumim assumira a continuidade da tradição Bangbosé, tendo como antecessores Maria Andrade Sangôbiyí, a filha dileta de Obitikô, e Felisberto Benzinho, respeitado babalaô. É no terreiro de Felisberto Benzinho, no Luiz Anselmo, que cresce a promissora Làjoumim, a Mãe dos Olhos D´Água, mãe Caetana, com sensibilidade e clarividência nata para elucidação dos enigmas religiosos, por isso muito respeitada. Elegante, em uma nobreza legítima, gosto requintado, refletido em suas roupas, verdadeira “alta costura” do candomblé, e nos objetos que refletem a nobreza típica do seu orixá.

A fertilidade do Terreiro Làjoumim procriou o Ilê Odô Ogê, o Pilão de Prata, tendo na sua lidernça, o gentilíssimo e competente babalorixá Air José de Souza, de Oxaguian, filho de Tertuliana Souza de Jesus, Tibúsè. Sobrinho querido de mãe Caetana, responsável por sua iniciação, pai Air é um legítimo seguidor da família Bangbosê, nos seus ritos e tradição.

Pai Amilton Costa cedeu-lhe o terreno, no qual Pai Air segue a sua missão instalando o Pilão de Prata. Com os estímulos dos irmãos da Casa Branca e o incentivo de mãe Caetana, a direção do Làjoumim ficaria a cargo da sua sobrinha, iyalaxé Haydée, filha dileta de Xangô.

Embora separados pelo espaço geográfico, o Pilão de Prata, situado no Alto do Caxundé, na Boca do Rio, e o Làjoumim, localizado na Rua Xisto Bahia, na Vasco da Gama, formam uma grande família, digna da sua tradição. Pai Air empregou os seus esforços na instalação do Memorial Làjoumim, uma justa homenagem a mãe Caetana no seu primeiro axexê. Localizado no Pilão de Prata, o memorial é composto de objetos refinados, elementos associados ao bom gosto de Mãe Caetana.

Para apoio às virtudes intelectuais dos fiéis do candomblé e da comunidade, pai Air construiu a Biblioteca Làjoumim, inaugurada em 2000, na cerimônia dos sete anos de falecimento de mãe Caetana. Coube também a ele a criação da Sociedade de Presevação do Asé Bangbosé, encarregada da administração do patrimônio material, cultural e religioso do Làjoumim e Pilão de Prata. Reformas no entorno do terreiro culminam com a instalação de um monumento a mãe Caetana. São cinquenta anos de resistência do legado religioso africano. O Ilê Odô Ogê é referência e orgulho do povo da Bahia e do axé.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em HIstória Social e religioso do Candomblé


Novo livro de Jaime Sodré

postado por Cleidiana Ramos @ 5:13 PM
14 de dezembro de 2010

O complexo campo das representações sociais e a sua consolidação no senso comum é o ponto de partida de uma análise criteriosa sobre a influência da imprensa baiana na construção de uma imagem distorcida do candomblé. Essa construção centrada não só em uma ideia de que a religião de matriz africana é um símbolo do mal ou só pode ser tratada de forma jocosa aparece desvendada no livro Da Diabolização à Divinização- a criação do senso comum, do pesquisador Jaime Sodré, que será lançado amanhã, no restaurante Aconchego da Zuzu (Garcia), às 18 horas.

Dominando uma metodologia múltipla que se aproxima da Antropologia e da História, o mestre em design, professor universitário e religioso do candomblé, desvenda também como essa própria imprensa é capaz de dissolver essa imagem negativa que construiu das religiões afro, embora essa ação tenha se dado numa dimensão menor.

“Para o desenvolvimento da análise desse trabalho sobre a imprensa soteropolitana em relação ao noticiário referente ao Candomblé, achei por bem delinear como se construiu essa relação, bem como as ações históricas responsáveis pelo crédito de tais conotações, e que, atravessando séculos, ainda interagem no cotidiano”, explica Sodré.

O autor aposta, com base em sua experiência de análise, que ainda é possível mudar  esse comportamento da imprensa. “A criação de um senso comum de representações negativas chamadas de diabolização, desfavorável à religião do Candomblé, poderia evoluir para uma situação que denominamos divinização. A divinização servirá para configurar situações de representações sociais positivas, veiculadas pela imprensa, que impliquem numa transformação do senso comum”, acrescenta.

O livro traz exemplos de matérias consideradas negativas, mas também das positivas. O levantamento é capaz de levar à reflexão sobre o comportamento de um importante segmento social, a imprensa, em relação à religiosidade afro-brasileira, um dos mais fortes elementos representantivos da identidade baiana.

O quê: Lançamento do livro Da Diabolização à Divinização- a criação do senso Comum, de Jaime Sodré
Quando: 15/12, 2010 (amanhã), às 18 horas
Onde: Restaurante Aconchego da Zuzu- Rua Quintino Bocayuva nº 18 (fim de linha do Garcia)
Editora: Edufba


Seminário discute imprensa e diversidade étnico-racial

postado por Cleidiana Ramos @ 3:49 PM
23 de novembro de 2010

Seminário tem Jaime Sodré como um dos palestrantes. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE

Neste novembro negro mais uma atividade para adquirir e aprimorar conhecimento. Amanhã, quarta-feira, numa parceria entre o Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba) e a Secretaria Municipal da Reparação (Semur) acontece, na Faculdade da Cidade, Comércio, a partir das 19 horas, o seminário Imprensa e Divesidade Étnico- Racial.

Na mesa estarão o historiador, professor universitário e religioso de candomblé, além de amigo do Mundo Afro, Jaime Sodré e a formanda em Jornalismo pela Faculdade Social da Bahia e integrante do Instituto Mídia Étnica, Juliana Dias.

O professor Jaime Sodré acompanha sistematicamente o discurso da imprensa em relação à questão étnico-racial, com destaque para a forma como a religiosidade originada dessa herança é tratada. Já Juliana tem como proposta do seu trabalho de conclusão de curso a elaboração de um manual para a prática do jornalismo étnico-racial.

Durante o evento, o Sinjorba e a Semur firmarão uma parceria para a elaboração de uma cartilha sobre o tratamento adequado às questões étnico-raciais e religiões de origem africana destinada a jornalistas.

Vale destacar que o Sinjorba é o primeiro sindicato de jornalistas, no Brasil, a implantar uma diretoria específica para tratar das questões de promoção da igualdade étnico-racial e de gênero.


Na companhia do Mestre Ederaldo Gentil

postado por Cleidiana Ramos @ 10:59 AM
5 de novembro de 2010

Fazendo coro à campanha do professor Jaime Sodré para a chegada de novas composições do mestre Ederaldo Gentil, olha ele aí cantando O Ouro e a Madeira. Para que possamos passar essa sexta-feira, quando se celebra o Dia da Cultura, o sábado e o domingo em ótima companhia. Em tempo: a TVE fez ontem, durante o seu festival de música, uma homenagem ao grande Ederaldo.


Balaio de Ideias: Ederaldo, por gentileza

postado por Cleidiana Ramos @ 12:21 PM
25 de outubro de 2010

Quem gosta de boa música está com saudades de Ederaldo. Foto: Reprodução| Marco Aurélio Martins| Ag. A TARDE

Jaime Sodré

“Panela velha é quem faz comida boa”, mas, já me deliciei com tudo aquilo que o grande compositor baiano Ederaldo Gentil fez, quero as mais recentes “pérolas finas”. Se preciso, faria um “abaixo-assinado”, uma “emenda popular” com milhares de assinantes. Um instante maestro Luizão, quero mais Ederaldo.

Encontrei Luizão, sobrinho de Ederaldo. Precavido, o tio dera-lhe um cavaquinho intimando-o a entrar no “Clube do Samba”. Luiz guarda o cavaco e assume o rock com o “Cravo Negro” e “Penélope”. Mas não esquece o tio. Cobrei-lhe mais Ederaldo e com o auxilio luxuoso da erudita Fernanda Monteiro formaram o “Doisemum”, grupo habitante do bom gosto, mandou-me uma excelente gravação da canção “Compadre”, do tio.

Quem é Ederaldo? Capitulo máximo da historia da musica brasileira, “UM BAMBA”. Oriundo do quimbundo “mbanba”, na lingua do povo banto, significa muito bom,  excelente. “Bambambã e bamba” refere-se no Brasil a sambista virtuoso. Ederaldo nasceu a 7 de setembro de 1943, no largo Dois de Julho, um dos filhos de D. Zezé e “Seu” Carlos, competente relojoeiro, oficio transmitido ao sambista.

Mudou-se para o Tororó,  reduto do samba e carnavalesco, do Apache, Filhos do Tororó, dentre outros. O gosto pelo carnaval fora alimentado pelo pai nos bailes a fantasia. Participara da bateria da escola tomando gosto pelo samba, estimulado por “Seu” Arnaldo presidente. Daí foi para a ala dos compositores, tendo os seus sambas entoados na quadra. A vida não era fácil, arriscou o futebol na posição de meia-esquerda do Guarany, e a treinar no Vitória.

A musica falava mais alto, nisso ele era competente. Vencera o concurso municipal do carnaval com a musica “Rio de Lagrimas”, ganhara por três anos. Em 1967 vence na quadra dos Filhos do Tororó com “Dois de Fevereiro” e ouvia seus sambas na boca do povo, afasta-se da escola e compõe samba-enredos para outras. Chegara a hora de tornar-se nacional, entra no espaço da MPB nos anos setenta, através das canções “Berequetê” e “Alô Madrugada” com Edil Pacheco, excelente compositor baiano, na voz de Jair Rodrigues. Aproxima-se de Alcione, Eliana Pittman, Leny Andrade o Conjunto Nosso Samba.

Em 1972 vai para São Paulo na tentativa de gravar um disco próprio e participar de programas de Tvs. Sem sucesso, retorna a Bahia, acolhido pela família e amigos, reassume o oficio herdado do pai, e reaproxima-se da sua escola de Samba, faz as pazes e premia a Bahia com um sensacional samba-enredo, “In-Lê-In-Lá”, em homenagem aos cinqüenta anos de Mãe Menininha, em parceria com Anísio Felix,  samba que mais tarde gravaria, abandona a produção de sambas nesta categoria.

A gravadora Chantecler, reconhecendo o seu valor, o convoca a São Paulo, gravando um compacto simples com a genial e filosófica “O Ouro e a Madeira” (O ouro afunda no mar, madeira fica por cima, ostra nasce do lodo, gerando pérolas finas) e “Triste Samba”. A primeira recebe uma outra gravação, pelo grupo Nossa Samba, acompanhante de Clara Nunes. Como diria hoje “bombou”.

Sucesso nacional, nova gravação com a mesma gravadora, desta feita o seu primeiro LP, em 1975 surge o “Samba Canto Livre de Um Povo”. Este poderia hoje, ser editado em CD. Lança outro LP “Pequenino”, numa esmerada produção com o acompanhamento de músicos e maestros primorosos. Carreira segue consagrada, retorna a Salvador, aos seus shows, alguns acompanhei na bateria. Em setenta nasce com Batatinha o show “O Samba Nasceu na Bahia”, glorioso.

Apesar da qualidade da sua obra, fica anos sem gravar e resolve enfrentar gravando um disco independente com ajuda de amigos, chamado “Identidade”. Generoso, na contra capa do disco cita todos os colaboradores.

Aos poucos, esquecido pela mídia e gravadoras, passeava pelo Pelourinho, ouvindo na voz de outros a sua música, ao tempo em que não o reconheciam. Desanimado, recolhe-se na Vila Laura. Vieram as homenagens, mas compositor maior permanece recolhido no carinho dos seus. Ederaldo, O Gênio, por gentileza, o Brasil te convoca, para perfumar a sonoridade nacional.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Educaxé: um giro pela poesia de combate ao racismo

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
18 de outubro de 2010

Wole Soyinka é um dos poetas citados na dica pedagógica do professor Jaime Sodré. Foto: AFP PHOTO/Pius Utomi Ekpei

Jaime Sodré

Landê Onawale. Brasil. Genocídio do negro na Bahia: o que a poesia tem a ver com isso?”

O que pode a minha poesia contra isso:

três jovens assassinadas lado a lado?

O que pode a minha poesia

contra esse costume brasileiro

de matar negros como moscas.

Nossos cupidos sendo brancamente mortos…
……………………………………………………….

Ouologue Yambo – Mali. Quando os dentes dos negros falam

Todos pensam que eu sou canibal
Mas bem sabem o que são as línguas
Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam

Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados
Ou talvez grelhados

Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olham com medo para as
Minhas gengivas

Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os vegetais

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos de repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado
Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigada por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates

…………………………………………………..

Wole Soyinka – Nigéria. Conversa ao telefone

O preço parecia razoável, locação
Indiferente. A dona da casa jurou
Que não vivia lá. Faltava só
A confissão. ‘Minha senhora,’ avisei,
‘Detesto ir lá em vão – sou africano.’
Silêncio. Transmissão silenciosa
De boa educação pressurizada. A voz, quando veio,
Com baton, como através de
Uma boquilha dourada. Apanho estupidamente.
‘MUITO ESCURO?’… Não ouvi mal.  … ‘É CLARO
OU MUIRO ESCURO?’ Botão B. Botão A. Cheiro
De hálito rançoso de conversa pública.
Cabina telefônica. Marco postal. Autocarro
De dois andares com cheiro de alcatrão. Era real!
Envergonhado
Por um silêncio mal-educado, a rendição
Avançou espantada a pedir simplificação.
Foi atenciosa, variando de ênfase –
‘É ESCURO? MUITO CLARO?’ A revelação chegou.
‘quer dizer – chocolate ou chocolate de leite?’
A sua aprovação era clínica, esmagadora na sua leve
Impersonalidade. Rapidamente, sintonizando-a,
Escolhi. ‘Sépia oeste-africana’ – e para tranqüilizar,
‘Vem  no passaporte.’ Silêncio para um espectroscópico
Voo da imaginação, até que a verdade retiniu no seu sotaque
Duro no bocal. ‘O QUE É ISSO?’ Confessando
‘NÃO SEI O QUE É ISSO?’ ‘Nem por isso.
Facialmente, sou moreno, mas devia ver
O resto de mim. As palmas das minhas mãos, as plantas
Dos meus pés são de um louro peróxido. Da fricção, -
No entanto, de me sentar, o eu
Tornou-se preto – Um momento, minha senhora!’ – sentindo
O seu telefone preparando a tempestade
Aos meus ouvidos – ‘Minha senhora,’ pedi, ‘não seria melhor
Ver por si?’

Sugestão pedagógica:

Interpretar texto dos poemas

Levantar com os alunos a biografia dos três poetas citados e seus locais de origem, listando a característica destes países.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Educaxé na área

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
18 de outubro de 2010

Olhem o Educaxé aí. Dessa vez a dica pedagógica do professor Jaime Sodré mergulha no universo da poesia feita por poetas negros de três países diferentes: Brasil, Mali e Nigéria. Mas o tema é comum aos três: o racismo. Educadores, aproveitem.


Balaio de Ideias: 325 anos do Rosário dos Pretos

postado por Cleidiana Ramos @ 9:37 PM
28 de setembro de 2010

Artigo celebra história da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE| 28.10.2007

Jaime Sodré

Não sabemos se por auto-definição remetente à África, os “homens pretos” queriam ser tratados como tal, “pretos”, ou por imposição típica da época em que pretos eram apartados dos brancos, ou pelo fato da impossibilidade de freqüentar a “Igreja dos brancos”. Eles queriam uma igreja só para si, “irmandade de pretos” “bi-pertencial” e caridosa.

Assim nascera a Venerável Ordem Terceira Nossa Senhora às Portas do Carmo – Irmandade dos Homens Pretos de Salvador. O franciscano Frei Jaboatão demonstrara o interesse dos “pretos” nas Irmandades, sendo as mais requeridas as de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, “o santo preto de Palermo” informa Renato da Silveira. Frei Agostinho de Santa Maria notificou a existência de 27 imagens de devoção pública e a existência de doze irmandades de “homens pretos”, forros e cativos. Para Antonia Quintão, São Benedito fora o santo preto de maior prestígio, junto a outros “pretos”, como Santa Efigênia, Santo Elesbão, Santo Rei Baltazar e Santo Antonio de Categeró.

As irmandades eram espaços étnicos, associativos, “previdenciários”, local de construção e manutenção de uma identidade “negro-preta”. Eram instaladas em templos seculares ou conventuais, abrigando confrarias, como os altares laterais da Conceição da Praia, que entre outras, resguardava a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário “dos Brancos”, a de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, “dos Pretos”.

Os compromissos definiam a especificidade dessas agremiações, de vínculos corporativos, profissionais, de gênero ou origem, lembra Maria Helena Flexor. Algumas requeriam “pureza de sangue”, ou seja, não admitindo judeu, mouro, índio, negro ou qualquer outra “raça infecta”. Informa Silveira que a Ordem Terceira de São Francisco e Irmandade dos Santos Passos de Cristo, instalada no Convento do Carmo, exigia esta “pureza”. A devoção de Nossa Senhora do Rosário, prestigiada junto aos pretos, cativos e forros, concentrada na antiga Catedral da Sé, remonta ao século XVII. Segundo Frei Agostinho, era “bem mais antiga do que a Senhora do Amparo dos Pardos livres”. A do Rosário dos Pretos tinha o seu compromisso datado de 1685 e entre os anos de 1703 a 1704 iniciara a construção da sua Capela às Portas do Carmo. Outras Irmandades de pretos foram criadas, destacando a de Santo Antonio do Categeró e a de São Benedito da Paria.

Definidas como associações de caráter religiosas leigas, estas confrarias, incentivadas pela Igreja, eram espelhadas em devoções que nos remetem a Portugal, extrapolavam o universo religioso, destacando os seus aspectos recreativo, social, de prestígio e valores da africanidade, ajuda aos enfermos e carentes, funerais, alforria e contra os maus-tratos aos escravos.

Não é a toa que a Irmandade dos Pretos de Salvador tenha como articuladores e construtores do seu templo os oriundos de Angola, onde desde o século XVII já existia naquela localidade uma Igreja do Rosário e imagem de São Benedito. As Irmandades tinha vinculações étnicas: Nossa Senhora dos Remédios era da Costa da Mina; do Senhor Bom Jesus das Necessidades do povo jeje; Barroquinha dos jeje-nagô. Eram espaços das relações entre as culturas européias e africanas, funcionando na preservação e difusão da experiência africana, legitimação da comunidade, reação às coerções católicas, mas também local de controle desta própria Igreja.

A mesa diretora era dirigida pelos da “raça”, visto que o Compromisso de 1820 pedia o afastamento dos brancos da mesma. Em 1769 fora ordenada por um compromisso aprovado por Lisboa, no ano 1781 elevada à categoria de Ordem Terceira. A irmandade requereu o atual terreno e heroicamente construiu a sua Igreja, que tem no seu Altar-Mor Nossa Senhora do Rosário. Parabéns à Mesa Administrativa que tem com Prior o competente Julio César e uma homenagem especial a D. Nolair, a mais idosa Visitadora. À Fundação Palmares: precisamos digitalizar a importante documentação da Irmandade, já sob ação de vândalos travestidos de pesquisadores. “Pesquisadores? Yayá me deixe”.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Balaio de Ideias: Se for negão, o voto tá na mão?

postado por Cleidiana Ramos @ 2:47 PM
10 de setembro de 2010

Professor Jaime Sodré faz uma reflexão sobre poder e cor da pele. Foto: Xando Pereira | 2.10.2004

Jaime Sodré

“As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam”… Segue a canção, reforçada pelo ditado de advertência conclamado por minha Vó Constança, com a sua voz carregada nos “erres” em nossos ouvidos e dedo em riste: “Não se engane com a cor da chita!”. “Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”. Este é um momento de agradecer ao professor emérito, Guilherme Radel. Motivado pelo artigo anterior, Radel deu-me o seu belíssimo livro: A Cozinha Africana na Bahia. Recomendo-o. Vamos ao “prato do dia”. A moça falou para eu escutar, presumo, enquanto fingia sonolência, que faço quando não quero conversas. “Voto em candidato negro para qualquer coisa, é minha cor!”. O sono simulado passou, caí em pensamentos em tempo de “ficha limpa”.

Temeroso é atribuir virtudes ou gerar preferências mediante critérios epidérmicos. Assim estruturou-se o racismo. Demonstrarei o caráter nocivo, antidemocrático ou perverso manifestantes em muitos personagens, independentemente da sua epiderme, lobo em pele de cordeiro. Reporto-me ao espaço africano e inauguro este malfadado desfile com a figura negra do ditador Jean-Bédel Bokassa ou Bokassa I. Derrotou o autoritário Dacko com um golpe e assumira o poder na condição de presidente e líder de um único partido, o Mesan. Começou a governar por decreto, se proclamou presidente vitalício, com posturas extravagantes instaurou o Império Centroafricano. Temido ditador onde a tortura era a prática cotidiana, teve 17 esposas e mais de 50 filhos. Morreu a 3 de novembro de 1966.

Idi Amin Dada Oumee é outra figura nefasta e mais conhecida. Ditador de Uganda, de 1971 a 1979. Genocídio e crueldades lhe valeram a alcunha de “o açougueiro” e “senhor do terror”.  Era defensor de Adolf Hitler e favorável à extinção do Estado de Israel. Fora deposto por forças da Tanzânia, aliadas aos ugandenses. Brutal, promoveu segundo dizem, cerca de 300 mil assassinatos. Certa feita declarou-se Rei da Escócia, excêntrico, fora chamado de “Bug Daddy”, e em tom de deboche instituiu um Fundo Ugandense para a Salvação da Inglaterra. Faleceu em 14 de agosto de 2003.

Evidentemente, que os exemplos agora trazidos não traduzem a natureza do povo africano ou do povo negro. Temos figuras honradas, de histórias dignas, tais como Antonio Agostinho Neto, médico angolano formado em Coimbra, o primeiro presidente de Angola, governando de 1975 até 1979. Por suas qualidades foi-lhe atribuído o “Prêmio Lenine da Paz”. Presidente-poeta, Agostinho fez parte de uma geração de estudantes africanos empenhados na libertação do povo daquele continente. Foi preso pela PIDE portuguesa e fora deportado para o Tarrafal. Assumira a direção do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), sendo seu presidente honorário desde 1962. Foi substituído na presidência de Angola por José Eduardo dos Santos, atual presidente.  A 10 de setembro de 1979 Agostinho falece em Moscou.

Ampliando o nosso quadro de qualificados negros, apresentamos Patrice Lumumba – Patrice Émery Lumumba, nascido no Congo Belga em 2 de julho de 1925. Foi ferrenho líder anticolonial, com ideias libertárias. Primeiro ministro eleito em 1960, na República Democrática do Congo, depois do seu empenho com outros para a conquista da independência frente à Bélgica. Foi deposto e barbaramente assassinado em janeiro de 1961.

A marca da maldade tem outras faces, brancas, assim é que Francisco Franco é reconhecido como ditador espanhol aliado de Hitler. Segundo dizem, Adolf o considerava desagradável. O franquismo fora um sistema repressivo e autoritário que levara a Espanha a uma cruel guerra civil com a experimentação bélica dos nazistas, bombardeando Guernica, aniquilando a província basca.

Espaço para a pele clara de Antonio Oliveira Salazar, português, se notabilizara por ter exercido o poder de forma autoritária, ditatorial, entre 1932 a 1968. Várias personalidades políticas, brancas, merecem respeito. A cor da pele não deverá entrar na história como determinante do caráter dos sujeitos. O ser humano, não importando seu tom racial, oscila entre o bem e o mal. Então, vale escolher o caráter, a honestidade, a solidariedade e o compromisso, como elemento fundamental para uma melhor escolha.

Jaime Sodré é doutorando em História, professor universitário e religioso do candomblé


Educaxé está de volta

postado por Cleidiana Ramos @ 5:30 PM
27 de agosto de 2010

O Educaxé, realizado pelo professor Jaime Sodré, está de volta ao Mundo Afro. Estava à espera de um tempinho  na agitada agenda do professor para pedir o retorno do projeto.

A iniciativa, cuja ideia foi dele, é direcionada especialmente aos professores para servir como material didático para aplicação da Lei 11.645/08, novo número da que é mais conhecida como 10.639/03, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. A modificação foi para incluir também História e Cultura indígenas.


Balaio de Ideias: Sabor dos saberes

postado por Cleidiana Ramos @ 2:11 PM
23 de agosto de 2010

Professor sugere criação de roteiro gastronômico e cultural. Foto: Eduardo Martins| AG. A TARDE

Jaime Sodré

Perguntado sobre a capoeira Mestre Pastinha disse: “É tudo que a boca come”, ou seja, é PRAZER. COMER É SABOR E SABER. Dr. Carlos Costa Neto, brilhante humanista, amigo comum do Dr. Eraldo Moura Costa, bons de garfo: disse-me: “há coisa mais gostosa que comer?” Pois é, no 1º Seminário Nacional de Turismo Étnico Afro e 1ª Feira da Produção Associada ao Turismo Étnico Afro, realizado este mês no Centro de Convenções da Bahia, promovido pela Bahiatursa, abordei o nosso projeto de culinária nos terreiros, com a boca “cheia d’água” e a qualificada contribuição acadêmica do Prof. Dr. Vilson Caetano. Louvo neste momento o Professor Doutor Vivaldo da Costa Lima, o “Pai da Matéria”.

Pensar o turismo étnico, neste caso afro, exige uma postura de inclusão e valorização das populações afrodescendentes brasileiras, em especial na Bahia e Recôncavo baiano. Como prova de reconhecimento desta valorosa contribuição cultural, esta modalidade turística poderá ser a motivação primordial para a profissionalização, roteiros qualificados, sustentáveis, com preparação para atender a demanda dos prestadores de serviços, além de gerar emprego e renda, enfim preservar a cultura, dentro da sua dinâmica própria, difundir e gerar conhecimentos e uma boa imagem da saborosa Bahia. O nosso projeto teve o nome de “Um Sabor Sacrossanto – a culinária Afro-Baiana”. Permitam-me breve introdução. Culinária baiana seria aquela localizada no Recôncavo e litoral, caracterizada, principalmente, pelo azeite de dendê, leite de coco, pimenta, etc.

Saboreada em comemorações religiosas, familiares, ou no cotidiano. Quanto ao preparo e preservação podemos estabelecer a dicotomia dentro e fora dos terreiros. Modernamente diríamos que esses pratos dialogam com a contribuição indígena e portuguesa. O processo de institucionalizações dos terreiros brinda com a sistematização das receitas e preservação, na obrigação religiosa, indo ao cotidiano. A fé e o sabor encontram harmonia em diversas opções religiosas, como é o caso dos sequilhos do Convento da Lapa e os deliciosos licores do Desterro. O turismo e o candomblé tiveram alguns momentos de conflitos e hoje se busca uma interação respeitosa, inclusive através dos parâmetros estabelecidos por Mãe Stela, regulando esta proximidade, que seja respeitosa, isenta de folclorização e exotismo.

Afinal, somos uma religião. Do Ponto de vista histórico Luis dos Santos Vilhena, falando sobre “as comidas de rua do século XVIII” nomeia: “saem… negros a vender pelas ruas, mocotós, carurus, vatapás, mingaus, pamonha, canjicas… acaçá acarajés, abara, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão-de-ló… roletes de cana, queimados…”, cruel, diz Vilhena, “o que mais escandaliza é a água suja feita com mel…que chamam aluá, que faz de limonada para os negros”.
Afrânio Peixoto, mais generoso, diz ser a Bahia um feliz consorcio entre o melhor de Portugal, da Costa da África e “o pouca coisa do Índio”. O negro brindou a cozinha baiana com o dendê, leite de coco, colorindo e saboreando o cotidiano, ensinou o vatapá, o caruru, mungunzá, etc. Nosso projeto tenciona aproximar o visitante aos sabores sagrados dos deuses, os permitidos, associados a um cardápio mais amplo das especificidades baianas.

O visitante, nos espaços sociais dos terreiros, através da formação de interlocutores da comunidade religiosa, saberá da história e apreciará a sua culinária. Para êxito do projeto a Bahiatursa, através da sua competência, realizará capacitação, adequação das instalações com equipamentos, capital de giro, indumentária, intermediação com as agências credenciadas ou guias de turismo e selo de qualidade.

Um roteiro sugestivo foi exibido, tomando com referência o bairro da Federação. O circuito seria iniciado com um café da manhã em um terreiro, merenda das 10 em outro, almoço em outro, merenda das 15 em outro, mingaus e uma sessão de chás, digestivos ou não, em outros.  Um cafezinho será bem vindo. No mais, o resultado é  um bom apetite e conhecimento ampliado. Ah, para a sobremesa… Picolé Capelinha, coisas com a cara da  Bahia. Um aviso aos acolhedores: Dr. Costa Neto disse que posso comer feijão fradinho, mas controlado. Acabou a “quizila”. SALVE O PRAZER.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé