Curta auxilia educação e combate à intolerância

postado por Cleidiana Ramos @ 12:48 PM
21 de agosto de 2015
Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

As cineastas Jamile Coelho e Cintia Maria preparam o lançamento de um atraente recurso que une ação educativa e combate à intolerância religiosa. Trata-se do curta Òrun Àiyê, que usa a técnica do stop motion, uma espécie de “fotografia animada”.

Diante da expectativa em torno do lançamento do filme elas decidiram fazer uma pré-estreia já em novembro, mas na página oficial do projeto no Facebook é possível ir acompanhando vários detalhes sobre a produção.

O material conta a trajetória de criação do mundo a partir da perspectiva dos povos de cultura iorubá. O protagonista é Oxalá que se une a outras divindades para cumprir a missão de formar o universo.

A narrativa com duração de 12 minutos é feita em libras e também está disponível em português, inglês, francês, espanhol e iorubá. As histórias são contadas com narrativa do saudoso historiador Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013).

“Esse material paradidático permitirá às crianças e jovens a ampliação da noção de cultura negra trazida da África para o Brasil, proporcionando uma educação que reconheça e valorize a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro”, afirma Jamile Coelho.

O projeto foi desenvolvido por meio da Estandarte Produções, que atua na criação e gestão de projetos culturais e pedagógicos como oficinas, mostras, festivais e publicações em áudio e vídeo e reúne profissionais de várias áreas.

O curta teve o financiamento, por meio de edital, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura e Fundação Palmares, além do edital de patrocínio 2014 da Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás).

A página especial do curta está no endereço: https://www.facebook.com/OrunFilme

 


Balaio de Ideias: Poucas palavras, muita sabedoria

postado por Cleidiana Ramos @ 4:42 PM
6 de julho de 2011

Mãe Stella destaca a sabedoria dos provérbios. Foto: Diego Mascarenhas | Ag. A TARDE| 09.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

A cultura africana sugere que o que existe em potencial no universo pode ser materializado pela palavra. Além da palavra, a memória também é reverenciada pela oralidade. Os fatos passados são reavivados pela memória e re-atualizados pelos rituais. No Candomblé, a vivência mítica das divindades é cantada e contada através do que é chamado de Corpo das Tradições Orais, do qual os provérbios, ówe na língua yorubá, fazem parte.

Os provérbios fazem parte da oralidade africana, mas também de todos  os outros continentes. É universal a maneira de falar em frases curtas e expressivas. Aristóteles disse: “relíquia que, em virtude de sua brevidade e exatidão, salvaram-se dos naufrágios e das ruínas das antigas filosofias”.  Os provérbios podem ser conceituados como: Enunciados breves, de origem desconhecida, que expressam uma sabedoria a ser utilizada em qualquer tempo e lugar; Frases sintéticas, cujos conteúdos condensados expressam grande sabedoria; Fontes de prazer que, pela sua estrutura, possibilita ao cérebro fixar mensagens que colaboram para que o homem se harmonize consigo e com o outro.

Diz-se que uma frase expressiva é um provérbio quando: sua origem é desconhecida porque seu autor se perdeu no tempo, uma vez que geralmente é pronunciada de maneira natural a partir de uma determinada situação; torna-se popular, porque sendo criada a partir de uma circunstância particular, passa a ser utilizada pela população em geral, sempre que circunstâncias semelhantes voltam a acontecer; é universal, pois muitas frases curtas e com sentido são pronunciadas, mas só se tornam provérbios aquelas que possuem caráter universal, de forma ampla ou restrita – uma comunidade, por exemplo.

Hoje é muito comum chamar um agrupamento de pessoas, que na maioria das vezes possui a população de uma cidade de porte médio no nosso país, de comunidade. Nada errado quanto a isso, pois comunidade pode ser definida como ”qualquer grupo social cujos membros habitam uma região determinada, têm um mesmo governo e estão irmanados por uma mesma herança cultural e histórica”. Como também: Grupo de pessoas que comungam uma mesma crença e que se submetem a uma mesma regra religiosa. O Ilê Axé Opo Afonjá pode ser definido de acordo com esse último conceito de comunidade, onde os provérbios são bastante utilizados. Seguem alguns exemplos:

Você foi coroado rei, mas continua fazendo encantamentos para obter boa sorte. Você quer ser coroado Deus?

Quem está sufocado por dívidas não deve viver como um lorde.

Ninguém grita de dor quando cuida de suas próprias feridas.

A pessoa que trabalha duro, ganha a inimizade do desocupado.

Aquele que cai no buraco ensina aos que vêm atrás a terem cuidado.

Aquele que bate palmas para que o louco dance é tão louco quanto ele mesmo.

A boca que não se cala e os lábios que não deixam de se mexer só trazem problemas.

A boca não pode ser tão suja que seu dono não possa comer com ela.

O desconfiado sempre pensa que as pessoas estão falando mal dele.

Quem não sabe construir uma casa, monta uma barraca.

Somente um barril vazio é que faz barulho, um saco cheio de dinheiro permanece silencioso.

O que eu quero comer você não quer comer, devemos comer separados.

As características dos ditados populares fazem deles excelentes instrumentos de trabalho educacional. São características como: Brevidade – frases curtas que facilitam o registro e memorização da verdade embutida neles; Agudeza – fazem uma crítica da vida, usando uma dose de ironia, que facilita a reflexão sobre o tema criticado; Fontes de Prazer – os provérbios produzem prazer, não só pela agudeza, mas também por possibilitar o registro e fixação de uma sábia mensagem, tendo a energia mental economizada.

Os provérbios, portanto, podem e devem ser utilizados no sistema formal de educação, não só na área de Língua Portuguesa, mas em várias outras áreas. O ditado popular, em forma de sotaque – um dito picante – “quem nasceu para dez réis, nunca chega a vintém”, é excelente para falar dos tipos de dinheiro na história do nosso país.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Afro Imagem 1: Registro da Arte Africana

postado por Cleidiana Ramos @ 5:32 PM
24 de maio de 2010

Esta fotografia mostra uma das das peças do Museu de Arte Africana do Complexo Smithsonian, situado em Washington D.C.   Trata-se dos detalhes de uma porta retirada de um palácio de cultura iorubá. Todas estas figuras foram talhadas em madeira e representam elementos como a cavalaria real, o rei, suas mulheres, dentre outros elementos.


Educaxé: Arte iorubá

postado por Cleidiana Ramos @ 2:58 PM
24 de fevereiro de 2010

Máscara Geledé Balogun do Museu Afro Brasileiro. Foto: Margarida Neide | AG. A TARDE

Jaime Sodré

O povo yorubá soma aproximadamente 12 milhões de habitantes, tendo um país com uma larga produção de arte tradicional. Muitos dos que vivem no sudeste da Nigéria são considerados comunidades adicionais a oeste, entre a República do Benim e do Togo.

Esta área está dividida em aproximadamente vinte subgrupos, cada um com seus reinados tradicionais. Escavações em Ifé encontraram cabeças de bronze ou terracota e figuras longas da realeza e elementos do universo superior estrelado. Retratos naturalistas cada um previamente conhecidos na África.

As raízes artísticas e culturais de Ifé, com seu período clássico (a.C. 1.050-1500), encontram-se no antigo centro cultural de Nok no nordeste. De mentalidade religiosa é natural que permaneça obscuro. Nos anos 20/30 os yorubás se alojavam em fazendas, outros viviam em cidades, em cabanas, fechados em comunidades ou no campo, cultivando milho, feijão, aipim ou mandioca, inhames, amendoim, café e banana, controlados por negociantes. Também temos mercadores e artistas; ferreiros, artesãos de cobre, bordadeiras, escultores em madeira, trabalhando de geração a geração.

Os deuses yorubás formam um interessante panteon cujo deus criador é Olodumaré, seguido de mais de cem orixás e espíritos da natureza, habitantes de rochas, árvores e rios. Algumas peças representam Xangô, divindade dos raios, esculpidas em madeira e guardadas em santuários. Os escultores exercem as suas tarefas em atelieres com aprendizes onde são transmitidas as técnicas e os estilos preferenciais.

Por toda yorubalândia figuras humanas são representadas em formas basicamente naturais, mas exceto por seus olhos salientes, planos e projetados, lábios paralelos e orelhas estilizadas. No âmbito dos cânones básicos da escultura yorubá alguns traços são distinções particulares de determinados artistas de forma individual.

Hoje está em numerosos cultos. O culto Geledé homenageia o poder das velhas mulheres, durante os festivais Geledés. Esculturas em máscaras com formas humanas são apresentadas, geralmente desgastadas pelo uso. Encimando algumas máscaras, uma ou outra, há elaborados arranjos de penteados ou uma escultura representando os humanos em alguma atividade.

As máscaras do culto de Epa são relacionadas aos ancestrais e a agricultura, com variedades harmônicas que aparecem nas cidades. A máscara possui aspectos particulares, nos olhos, na altura de grande complexidade. Geralmente elas são usadas em ritos funerários ou ritos de passagem, e são, geralmente, compostas de inúmeros elementos, usualmente uma face humana em máscara, numa bem elaborada figura. Essas máscaras são guardadas em santuários e são reverenciadas com libações e preces.

A sociedade Ogboni tem suas figuras em latão, chamada Edan, que são colocados em par, instalando-se nas pontas e correntes, cabeça com cabeça, formando pares unidos. Elas são colocadas sobre os ombros dos membros da Irmandade Ogboni com canções, funcionando como um amuleto. Uma variedade de palmeiras é usada para a veneração de “caridites”, retratando a mulher. Sociedade e cultos específicos fazem parte das celebrações durante os festivais de máscaras, com música, danças, em uma integração total. O mais amplamente difundido culto é o dos gêmeos Ibeji, estátuas confeccionadas duplamente, reverenciadas pelo povo Yorubá amplamente.

As estátuas Ibeji são produzidas para cultuar os deuses gêmeos. Para os Ibejis são depositadas oferendas em forma de refeições fartas, rogando pela vida das crianças. Essas esfinges são produzidas com instruções oriundas dos oráculos e estão presentes em numerosas classes de esculturas africanas.

As figuras equestres são temas comuns aos yorubás, confeccionadas, preferencialmente, em madeira. Isto reflete a importância da cavalaria nas campanhas dos reis na criação do Império Oyó, nos séculos XVI a XIX. Somente os chefes yorubás tinham o privilégio de possuir cavalo. O cavalo era um importante símbolo social onde os artistas ao produzir peças inspiradas nestes animais deveriam demonstrar habilidade. O tamanho reduzido deste animal e as pequenas pernas dos cavaleiros são elementos típicos deste tipo de produção artística.

Portas esculpidas e pilares são elementos dos santuários dos palácios e das casas dos homens importantes. Cumprindo secular função são as tigelas para as nozes de cola, oferecidas como boas vindas ao visitante, [tabuleiro] “ayo” para jogos, assim como os “wari” jogados com seixos [pedras] colocados em fileiras, em depressões circulares, os tambores, as colheitas, os pentes. Adicional importância no campo das artes credita-se à cerâmica, tecelagem, às contas e peças fundidas.

Texto inspirado em trabalhos de Renato da Silveira, Reginaldo Prandi e Frank Willet

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé