Ê, Camará!

postado por Cleidiana Ramos @ 6:53 PM
19 de novembro de 2010

Capoeira é tema de caderno especial de A TARDE. Foto: Gildo Llima| Ag. A TARDE

Com muita correria, mas uma dedicação que faz mágica, aprontamos a 8ª edição do caderno da Consciência Negra que sai amanhã encartado no jornal A TARDE. Dessa vez fomos beber na bela fonte da capoeira.

Denominado Ê Camará! o especial passeia pela faceta inclusiva da capoeira, sua história de resistência e luta para vencer a marginalização e o encanto que lançou sobre as várias linguagens artíticas. O nosso destaque é para os mestres Bimba e Pastinha que, ao decodficarem os movimentos, criaram as duas grandes escolas: regional e angola, respectivamente. A relação próxima entre candomblé e capoeira, os intrumentos que formam sua orquestra, a chegada das mulheres, a batalha para conservar a forma tradicional de transmitir conhecimento e toda a riqueza simbólica de um jogo também estão contemplados.

Além disso, o caderno traz dicas de como usar as reportagens em sala de aula, o que configura um reforço para a aplicação da Lei 11.645/08, nova identifcação da Lei 10.639/03, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. A modificação foi para incluir também o ensino de História e Cultura Indígenas.

Cada página do especial traz dicas de livros, filmes, mas também de artigos que serão publicados aqui no Mundo Afro para enriquecer a discussão sobre o tema.

Já como aperitivo vão abaixo o destaque para personagens que prestam um grande serviço para a expansão da capoeira, uma criação brasileira que já ultrapassou as fronteiras nacionais. Os textos têm a colaboração de Meire Oliveira.

Fiquem atentos pois no Portal A TARDE On Line e em A TARDE TV tem também cobertura especial amanhã.

 


Educaxé: um giro pela poesia de combate ao racismo

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
18 de outubro de 2010

Wole Soyinka é um dos poetas citados na dica pedagógica do professor Jaime Sodré. Foto: AFP PHOTO/Pius Utomi Ekpei

Jaime Sodré

Landê Onawale. Brasil. Genocídio do negro na Bahia: o que a poesia tem a ver com isso?”

O que pode a minha poesia contra isso:

três jovens assassinadas lado a lado?

O que pode a minha poesia

contra esse costume brasileiro

de matar negros como moscas.

Nossos cupidos sendo brancamente mortos…
……………………………………………………….

Ouologue Yambo – Mali. Quando os dentes dos negros falam

Todos pensam que eu sou canibal
Mas bem sabem o que são as línguas
Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam

Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados
Ou talvez grelhados

Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olham com medo para as
Minhas gengivas

Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os vegetais

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos de repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado
Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigada por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates

…………………………………………………..

Wole Soyinka – Nigéria. Conversa ao telefone

O preço parecia razoável, locação
Indiferente. A dona da casa jurou
Que não vivia lá. Faltava só
A confissão. ‘Minha senhora,’ avisei,
‘Detesto ir lá em vão – sou africano.’
Silêncio. Transmissão silenciosa
De boa educação pressurizada. A voz, quando veio,
Com baton, como através de
Uma boquilha dourada. Apanho estupidamente.
‘MUITO ESCURO?’… Não ouvi mal.  … ‘É CLARO
OU MUIRO ESCURO?’ Botão B. Botão A. Cheiro
De hálito rançoso de conversa pública.
Cabina telefônica. Marco postal. Autocarro
De dois andares com cheiro de alcatrão. Era real!
Envergonhado
Por um silêncio mal-educado, a rendição
Avançou espantada a pedir simplificação.
Foi atenciosa, variando de ênfase –
‘É ESCURO? MUITO CLARO?’ A revelação chegou.
‘quer dizer – chocolate ou chocolate de leite?’
A sua aprovação era clínica, esmagadora na sua leve
Impersonalidade. Rapidamente, sintonizando-a,
Escolhi. ‘Sépia oeste-africana’ – e para tranqüilizar,
‘Vem  no passaporte.’ Silêncio para um espectroscópico
Voo da imaginação, até que a verdade retiniu no seu sotaque
Duro no bocal. ‘O QUE É ISSO?’ Confessando
‘NÃO SEI O QUE É ISSO?’ ‘Nem por isso.
Facialmente, sou moreno, mas devia ver
O resto de mim. As palmas das minhas mãos, as plantas
Dos meus pés são de um louro peróxido. Da fricção, -
No entanto, de me sentar, o eu
Tornou-se preto – Um momento, minha senhora!’ – sentindo
O seu telefone preparando a tempestade
Aos meus ouvidos – ‘Minha senhora,’ pedi, ‘não seria melhor
Ver por si?’

Sugestão pedagógica:

Interpretar texto dos poemas

Levantar com os alunos a biografia dos três poetas citados e seus locais de origem, listando a característica destes países.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Abertas livraria e editoria especializada em diversidade

postado por Cleidiana Ramos @ 4:20 PM
8 de setembro de 2010

Quem é apenas curioso ou trabalha diretamente com temáticas ligadas à diversidade, principalmente étnica, tem agora dois bons apoios: a livraria  Ponto do Livro-Café e Arte e a Editorial Diáspora, ambas sediadas em São Paulo.

O idealizador das duas iniciativas é o professor de sociologia da Universidade Federal de São Carlos e consultor da Unesco para a área de diversidade étnica-racial, Valtér Silverio.

Em tempos de batalha para que a aplicação da Lei 11.645/08 (que obriga o ensino de História da África, Cultura Afro-Brasileira, História e Cultura Indígenas em todas as escolas brasileiras), se transforme cada vez mais em realidade este é um caminho para suprir a falta de material didático sobre o tema.

Para conhecer mais sobre a proposta, incluindo o acervo, vale uma visita ao site que pode ser acessado clicando aqui.


Educaxé: Ancestralidade na perspectiva da Educação

postado por Cleidiana Ramos @ 5:31 PM
27 de agosto de 2010

Jaime Sodré

Antes de nos dedicarmos a uma abordagem mais direcionada aos objetivos que seriam implementados no campo da educação, numa abordagem da africanidade, seria importante abordar a noção de ancestralidade, dentre outras, enquanto um conceito. Ancestral teria como definição básica “as pessoas de quem se descende”, ou seja, nossos ancestrais ou de forma mais simples os nossos antepassados do ponto de vista de uma linhagem biológica, num campo individualizado. Poderemos também aplicar este conceito levando em conta as contribuições materiais herdadas das realizações anteriores, mesmo sendo uma criação independente do pertencimento ao nosso grupo, ou seja, de aplicabilidade universal. Assim é que um invento aplicável à humanidade, sem restrição, fará parte de um repertório de um bem universal aplicável a todos os grupos de indivíduos.

Tem-se como ancestral da espécie humana o surgimento dos Australopitecos, espécie de hominídeos surgido na África no Vale do Rift, Lago Turkawa no Quênia; Garganta Olduai na Tanzânia, Haddar e Vale do Ouro na Etiópia, Taung, Makadansgat na África do Sul, dentre outros. Em um  conceito antropológico este antepassado será considerado pelos seus feitos, objeto de culto. Sua relação com os vivos pode ser resultado de uma genealogia real ou fictícia, digna de reverências, comemorações, transmissão e difusão dos seus feitos às gerações presente e futura.

A ancestralidade no campo do bem material pode ser vista como um patrimônio material e/ou espiritual, entendido como herança de um determinado grupo ou universal, que se perpetua enquanto memória concreta.

Para o africano, o ancestral será um elemento venerado que deixara uma herança espiritual sobre a terra, contribuindo para a evolução da comunidade ao longo da sua existência, e pelos seus feitos é tomado como referencia ou exemplo. Este conceito se alonga à concepção de ações, métodos e instrumentos que proporcionaria vantagens materiais.

A ancestralidade na Educação como meio de transmissão do saber tem como suporte a tradição oral; a tradição escrita; a tradição histórica; o repertório de mitos e lendas; aspectos linguisticos; o campo do lúdico; parlendas; o campo musical; o campo das artes, etc. Em resumo: a ancestralidade na educação atuará no campo da memória individulal ou coletiva.

Ancestralidade e Repertório Temático

Para efeito de sugestões, quanto a ações práticas da Ancestralidade na Educação listamos a seguir o que chamamos de Repertório Temático, elemento que poderá servir de apoio para um planejamento e aplicação em sala de aula.

1. Ancestralidade Cultural Africana- Objetiva informar sobre a diversidade étnica e lingüística africana e destacar os grupos que interagiram com a realidade brasileira, a exemplo dos yorubá, banto e ewe.

2. Ancestralidade e Arte Africana- Destacar o amplo repertório da realização artística africana, sua inserção no cenário mundial inspiradora do cubismo, dentre outras manifestações artísticas; sua continuidade na diáspora, especialmente no Brasil, como estruturante de uma arte afro-brasileira.

3. Ancestralidade e Resistência- Enfocar os aspectos dos processos de resistência dos povos africanos aos processos de colonização desde a África, em especial as lutas contra a escravatura e os quilombos.

4. Ancestralidade e Assistência- Observar as diversas formas de ajuda mútuas experimentadas pelos povos africanos, em especial no regime escravo, tendo com ênfase a Sociedade Protetora dos Desvalidos, sediada em Salvador.

5. Ancestralidade Estética- Observar os diversos arranjos corporais, adereços, vestimentas, trançados, etc., reveladores de uma estética africana, amparada no seu bom gosto estético e particular.

6. Ancestralidade Religiosa-  Observar a diversidade religiosa africana e as suas conseqüências sobre as mais diversas experiências de fé naquele continente, conflitos e acordos, e a sua aplicação na diáspora em especial, em relação ao Candomblé, Voduns etc. Com destaque para uma observação critica quanto a Intolerância Religiosa.

7. Ancestralidade Musical- Observar as mais diversas formas de expressão musical e dança na África e sua aplicação no contexto da diáspora como continuidade e inspiração.

8. Ancestralidade Católica- Observar a atuação da Igreja Católica no âmbito da África e na diáspora suas formas particulares, as irmandades negras, o sincretismo e formas de convivências e conflitos.

9. Ancestralidade Científica, Tecnológica e Filosófica- Destacar as personalidades negras que contribuíram e contribuem para o processo civilizatório brasileiro e mundial, no campo da ciência, tecnologia e filosofia como referencia ao aluno da possibilidade de atuação nestes campos. Ex. André Rebouças, Milton Santos, etc.

10. Ancestralidade Heróica-Destacar personalidades negras como agentes de ações históricas importantes no campo dos conflitos locais e mundiais a exemplo de João Candido, “O Almirante Negro” da Revolta da Chibata;  Maria Filipa, nas ações do 2 de Julho,  Rainha Nzinga de Mutamba, etc.

11. Ancestralidade Política- Destacar personagens e situações onde se revela o empenho de personalidades negras em busca de ideais democráticos e libertários a exemplo da Revolta dos Alfaiates, Sabinada, Guerra dos Farrapos, Cabanagem, Balaiada, Quilombo dos Palmares, etc. Mulheres como Almerinda Gama, primeira deputada estadual negra; Antonieta Barros, Maria Brandão, Benedita da Silva, etc.

12. Ancestralidade Guerreira- Destaque para a Guerra do Paraguai e para os atos de bravura de Cesário alves da Costa, herói do Forte de Curuzu, promovido a sargento; Antonio Francisco Melo, que se destacou na Marinha, na Batalha de  Riachuelo e chegou a capitão; o seu batalhão era formado só por negros; Marcilo Dias, um bravo, foi ferido e morto na Batalha de Riachuelo ao negar a rendição do seu barco, O Paranhayba.

13.Ancestralidade Negróide e Australianos- Os cientistas fizeram uma reconstituição do crânio fóssil mais antigo das Américas, encontrado em Lagoa Santa, Minas Gerais, por uma expedição franco-brasileira em 1975, Perceberam que os traços eram semelhantes aos povos negróides e australianos.

14. Ancestralidade Feminina Guerreira- Nzinga Mbandi Ngola, Rainha Ginga, foi batizada no catolicismo com o nome de Ana de Souza. Seu nome Ngola fora usado pelos portugueses para nomear uma região na África com o nome de Angola. Era contra a escravatura, ao contrario do rei do Congo. Após a sua morte os seus soldados foram vendidos como escravos.

Saiba mais:

África e Brasil Africano – Marina de Mello e Souza- Editora Ática

Atlas Brasileiros- Cultura Popular – Raul Lody- Editora Maianga

História do Brasil- Os 500 anos no País em Obra Completa e Atualizada- Folha de S. Paulo

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religiso do candomblé


Educaxé está de volta

postado por Cleidiana Ramos @ 5:30 PM
27 de agosto de 2010

O Educaxé, realizado pelo professor Jaime Sodré, está de volta ao Mundo Afro. Estava à espera de um tempinho  na agitada agenda do professor para pedir o retorno do projeto.

A iniciativa, cuja ideia foi dele, é direcionada especialmente aos professores para servir como material didático para aplicação da Lei 11.645/08, novo número da que é mais conhecida como 10.639/03, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. A modificação foi para incluir também História e Cultura indígenas.


Homenagem a Obaluaê e São Roque

postado por Cleidiana Ramos @ 7:11 PM
13 de agosto de 2010

Conto do professor Ubiratan Castro de Araújo resgata a religiosidade afro-brasileira. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE|12.11.2009

Este mês de agosto é rico em diversidade de festas religiosas. Por conta da associação entre São Roque, que vai ser festejado na próxima segunda-feira, com Obaluaê, título para o orixá Omolu que governa e controla principalmente as doenças de pele, são várias as reverências para esta divindade da nação ketu e semelhantes na nação angola como Kavungo e Azoany da jeje.

Como homenagem estou publicando aqui, dividida em duas partes, uma história deliciosa, das muitas narradas, pelo professor Ubiratan Castro de Araújo no livro Sete Histórias de Negro, publicado em 2006, ampliado com  Histórias de Negro, lançado no ano passado.

Desde a primeira vez em que li o conto numa das edições da revista da Fundação Cultural Palmares fiquei encantada e ri muito. O estilo leve e cheio de humor do professor é inconfundível. Lendo, parece que a gente o está ouvindo falar.

Por isso achei que esta era uma boa homenagem a Obaluaê, a quem o professor Bira tem a sua cabeça consgarada. Atotô!

E atenção professores: vale como suporte didático para aplicação da Lei 11.645/08, que reformou a Lei 10.639/3 estabelecendo, além do ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira, a  História e Cultura Indígenas.


Visitante Indesejado(Conto do Livro Sete Histórias de Negro-II)

postado por Cleidiana Ramos @ 7:11 PM
13 de agosto de 2010

No santuário de São Lázaro e São Roque em Salvador duas tradições religiosas se encontram: candomblé e catolicismo. Foto: Xando Pereira|Ag A TARDE| 05.08.2002

Ubiratan Castro de Araújo

Outro caso doloroso era o da Tia Zefinha. Nossa tia-avó tinha mais de 80 anos, a mais velha da família. Ela era magrinha, de cabelos lisos e grisalhos, penteados em uma rodilha presa por longos grampos, atrás da cabeça. Exímia costureira, tinha o dom de transformar roupa velha em roupa nova. Costurava para fora, mas também costurava em domicílio. Por força de sua profissão, passava longas temproadas nas casas das brancas da Barra. Justiça seja feita, ela sempre foi fascinada pela Casa Grande. Nascida ainda no tempo da escravidão, absorveu todos os preconceitos contra os negros. Ela discriminava ostensivamente as irmãs, sobrinhas e sobrinhos netos de pele mais escura.

Racismo à parte, era uma velhinha fascinante. Viúva sem filhos, desenvolveu a arte de contar histórias da carochinha e histórias do tempo antigo, o tempo da escravidão. A pequena loja de subsolo em que morava, na Rua do Desterro, era um verdadeiro baú de preciosidades. Para as meninas, as grande tentações eram as caixinhas de costura, muito arrumadinhas, delicadamente enfeitadas, cheias de miudezas. Também faziam sucesso as antigas revistas de moda, em sua maioria francesas, com fotos de manequinas e “debuxos” de vestidos. Par aos meninos, a paixão eram livros de contos de fadas e a fabulosa coleção dos fascículos de uma revista chamada Eu Sei Tudo, tradução brasileira da Que Sais-je? Ela também guardava uma coleção completa do Tesouro da Juventude.

Era uma velha sábia. Mesmo asism Bernardo a perseguia. Desde a morte de seu marido, o marceneiro João Guarani, criou uma relação de clientela com uma família da Barra.  Pssava dias e mais dias remontando, encurtando e ajustando velhas roupas a novas modas e a novos corpos. O pagamento variava sempre em função da sorte do dono da casa, no jogo. Segundo O DIVA, a casa dele vivia sempre aberta à jogatina. Até a honra da filha foi jogada na mesa do carteado. Apesar de tudo, nunca lhe faltou o sustento, nem a pose de rico. Para Tia Josefina, faltava.

Muito orgulhosa, ela jamais pedia nada, apenas recolhia-se à sua casinha. Os parentes procuravam visitá-la com frequência para detectar os sinais da visita de Bernardo. De vez em quando, ela era sequetrada por algum sobrinho, para a alegria das crianças. Quando menos se esperava, ela fugia, sempre alegando o chamado de sua vasta freguesia. Um outro caso provocava uma verdadeira guerra fria na assembléia feminina, as simpatizantes dos russos comunistas contra as fascinadas habituês do cinema americano.

João da Cruz era um grnade militante sindicalista, membro filiado e dirigente do Partido Comunista. Era um negro alto, cabelo cortado à escovinha. Orador de verve tão empolgante quanto o Padre Sadoc, se admitirmos a verdade sociológica que Stalin representava para um o que Jesus Cristo representava para o outro. Estava sempre à frente da greves do sindicato e dos comícios e pichações de paredes organizadas pelo Partido. Nos anos da Aliança Nacional Libertadora, era o intrépido lançador de galinhas pintadas de verde nos comícios dos integralistas. Por sua militância, era um homem marcado pelo Dops e conhecido de todos os secretas do bairro.

A segurança para tanto arrojo era a certeza que o Partido cuidava do sustento e do bem estar de sua mulher e de sua filha, nas eventualidades de prisão ou de cladestinidade. Pois bem, essa não era a experiência de sua mulher Alzira e de sua filha Olga.

Lá um dia, João da Cruz sumiu de casa. Isto aconteceu logo depois do bate-boca entre Juraci e Prestes no Congresso Nacional. O presidente Dutra aproveitou a oportunidade para cassar o registro do Partido Cominista. Iniciava-se um novo ciclo de perseguições, que incidiram imediatamente sobre João, que era muito visado. Logo no primeira dia, apareceu um companheiro de partido, de codinome Berto. Disse que fora designado para dar assistência à família de João. Falou, falou, falou. Para não perder a viagem, foi logo dando uma entradas meio ousadas para o lado de Alzira, que o repeliu na tampa.

– Onde já se viu? Procurar ousadia com a mulher de um revolucionário! Não sou eu que vou dar o pretexto a nenhum burguês reacionário chamar meu marido de corno!

– Que é isso camarada! Você entendeu mal. E nunca mais apareceu.

Também os vizinhos e conhecidos se afataram, com medo de ficarem visados. Os investigadores de política, conhecidos como secretas, vigiavam permanentemente a casa, de tal forma que mãe e filha se sentiam em prisão domiciliar.

Um visitante conseguia furar o bloqueio policial: Bernardo. Nos três primeiros dias, acabaram-se o feijão, a farinha e a carne do sertão. sobrou um pouco de café e um saco demilho-alho, bom de fazer pipoca. E durante sete dias elas tomaram chafé com pipoca. Olguinha choramingava muito.

– Atotô, meu pai Omolu, não me abandone!

Em um sábado de manhã, bateram na porta. Era Pezão, filho de Abigail, a irmã mais velha de Alzira. Tinha vindo da feira de São MIguel, onde comprara os aviamentos para uma obrigção de orixá. Ele foi logo comentando:

- Cadê Tio João? Não estou gostando nada da cara de vocês. Vocês estão de Bernardo?

As duas não disseram nem que sim, nem que não. Sorrindo sem jeito, não escondiam a vergonha.

Pezão foi embora muito constrangido. Lá pelas 4 horas da tarde, ele apareceu de novo.

– Minha mãe está precisando de ajuda, pra festa de Omolu. Ela sabe que Tio João não gosta de Candomblé, mas ele nem está aí, não é? Olhe, minha tia, lá na roça não tem luxo não. É comida braba. Tem o Sobe-e-desce! É água, carne de sertão, quiabo e abóbora, subiu, desceu, comeu!

Olguinha riu muito. Alzira juntou os panos, pegaram o bonde do Retiro e deixaram Bernardo sozinho em casa.

Na minha infância, nunca tive medo de diabo nem de inferno. Medo mesmo era de Bernardo. Por isto, saía das rezas muito confiante e vitorioso. Afinal, quando o francês  São Roque se juntava com o nagô Omolu, botavam o tal Bernardo pra correr.

Ubiratan Castro de Araújo é doutor em História, membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) e diretor da Fundação Pedro Calmon


Visitante Indesejado (Conto do livro Sete Histórias de Negro- I)

postado por Cleidiana Ramos @ 7:10 PM
13 de agosto de 2010

Conto faz referência a Obaluaê, divindade que tem seus "tabuleiros" levados às ruas de Salvador em agosto. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE| 5.8.2010

Ubiratan Castro de Araújo

As rezas eram uma folia. A novena de São Roque da Tia Do Carmo rivalizava-se com a trezena de SAnto Antônio da Tia Nininha. Cada noite de reza tinha um padrinho que financiava o mingau. Tia Do Carmo era viciosamente prmissiva. Antes mesmo da reza, ela liberava generosos canecos de mungunzá para a garotada. Tia Nininha era, em oposição, opressivamente mandona. No Santantônio dela, quem não berrasse com fé: -Glo-ri-ô-ôso Sant-an-tant-tô-nio, não tinha direito a mingau.

Depois da reza, tias, parentas e vizinhas, se reuniam para o salutar exercício de resenha da vida alheia. Elas cortavam, costuravam e bordavam desventuras, fraquezas e malfeitos de amigos e de inimigos. Só os presentes escapavam, esquanto aí estivessem. Para não serem entendidas, ou mesmo por pudor e superstição, usavam palavras e expressões estranhas ao nosso vocabulário. Ao invés de “botar chifre no marido”, elas falavam “serrar as canelas”. Por isso, todas as vezes que eu entrava na casa do vizinho, ficava olhando para as canelas dele, intrigado com a falta de cicatrizes. Dos frescos, dizia-se que eram “falsos ao corpo”. Os órgãos sexuais tinham nomes diferentes. O feminino era conhecido como “a perseguida” e o aparelho masculino completo era denominado de “berloques de São Brás”.

Quando uma sobrinha grávida entrava na roda, todas riam muito e exclamavam:

– Menina, comeu feijão azedo!

A assembléia do DIVA ( Departamento de Investigação da Vida Alheia) ficava triste, quando o assunto era a visita de Bernardo à caasa de um parente ou conhecido.

– Bernardo está na casa de fulano há três dias.

Todas tremiam.

Bernardo era o substitutitvo da palavra que não se podia pronunciar: fome. Este era o grande terror de todas as famílias. Ela era epidêmica, como na crise de 1929. Ela era sazonal, no tempo do paradeiro, meses em que não se exportava cacau em Salvador. Ela era terrível em momentos de doença e morte nas famílias.

Bernardo também andava mancomunado com os maus procedimentos. Maridos cachaceiros, que se desempregavam para cair na gandaia, deixavam a família aos cuidados do Bernardo. Homens mulheristas, espécies de mulherengos militantes, gastavam o dinheiro com as raparigas e não levavam pra casa senão seus próprios “berloques”. Nestes casos, algumas não se continham e saía o palavrão:

– Pica pura dá gastura!

Alguns casos mereciam atenção especial. As frequentes viitas de Bernardo à casa do Tio Bené eram o motivo de debates apaixonados. Esta era a principal bandeira de luta do temido PCC, o Partido Contra Cunhadas. A culpada de tudo era Vilma, coitada. Era uma mulher muito educada, muito atenciosa com todos,  mas chegada a dindinha, ou seja, preguiçosa. Ela, a cunhada, tinha transformado o valoroso ex-sargento do Corpo de Bombeiros. Ela o obrigou a dar baixa da Bomba, porque chorava o tempo inteiro, com medo que o seu amado se acidentasse em algum incêndio. Tudo fingimento, diziam as militantes do PCC. O que as cunhadas não podiam esconder era o grande carinho que um demonstrava pelo outro. Eles formavam um belo casal. Ambos de boa altura, de pele bem escura e lustrosa, cabelo preto, bem liso como o dos cabolcos, eram da qualidade que o povo chama de Cabo Verde. Mas nem isso escapava da língua das cunhadas.

–De que adianta tanto amor sem responsabilidade?

-Fizeram 10 filhos que não podem criar.

–E, mais a mais, Bené não se compreende que é preto–dizia a feroz tia Nininha. Pensa que está em Roliúde pra viver de romance….

Depois de trabalhar com a sogra, em uma barraca de comida, no Mercado Modelo, tio Bené voltou a viver do seu ofício de carpinteiro, trabalhando em domicílio. Levantava cumieiras, consertava móveis, repregava assoalhos e escadas. Sua fraqueza era a clientela. Trabalhava para um público pobre e de renda instável. Recebia muitos calotes e os fregueses demoravam de pagar. Esta incerteza o tornava um cliente indesejado para os agiotas. A única salvação eram as irmãs.

De vez em quando aparecia uma prima, meio excitada e muito envergonhada, chamava minha mãe no canto, e murmurava:

– Tia, Bernardo está lá, há dois dias.

Essa notícias colocava a família em xeque. Como descobrir sobra em um orçamento tão regrado e todo comprometido? A solução mais frequente era a gavetinha da máquina Singer. Parecia mesmo que a única utilidade das costurinhas que minha mãe fazia era socorrer os irmãos.

Aquelas visitas dóiam muito. Havia um sentimento de revolta e solidariedade com os queridos primos, que não podia se manifestar por meio de nenhum gesto ou atitude pública. Afinal, os vizinhos não deviam perceber nada. Aquilo era um segredo de família. Ficava também, um sentimento de culpa. Porque eu era tão gordo e os meus primos recebiam tantas visitas de Bernardo?

Ubiratan Castro de Araújo é doutor em História, membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) e diretor da Fundação Pedro Calmon


Bando de Teatro Olodum realiza seminário

postado por Cleidiana Ramos @ 5:04 PM
10 de agosto de 2010

Bando de Teatro Olodum organiza seminário sobre estudos africanos. Foto: Wendell Wagner / Divulgação

Estão abertas as inscrições para o seminário Outras Áfricas, promovido pelo Bando de Teatro Olodum. O evento vai ser realizado de 18 e 25 de agosto no Teatro Vila Velha, das 9 às 12 horas. E boa notícia, gente:  é gratuito e aberto ao público.

O seminário faz parte de um projeto homônimo realizado pelo Bando em parceria com o Fundo Nacional de Cultura.  O objetivo é  valorizar a herança africana e reconhecer a importância da cultura afro-brasileira para a identidade nacional.

Para acessar o local de inscrições on line clique aqui.  Também é possível se inscrever no Teatro Vila Velha (Passeio Público, Campo Grande).

Cada dia será abordado um tema por dois especialistas que vão interagir com a plateia. No dia 18, o tema será História da África e os convidados são Artemisa Odila Cande Monteiro, de Guiné Bissau, doutora em Sociologia e mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela Ufba e Antônio Cosme, mestrando em história pela Uneb e dono de larga experiência na formação de professores para aplicar a Lei 11.645/08 (que reformulou a 10.639/03 e estabelece a obrigatoriedade do ensino de História da África, Cultura Afro-Brasileira e História e Cultura Indígenas).

No dia 25 será a vez do tema Panorama da África Contemporânea com o professor Jacques Depelchin, natural do Congo e doutor em História da África e o professor Márcio Paim, mestrando em Estudos Étnicos e Africanos pela Ufba.

O seminário é uma ótima oportunidade para educadores interessados em África e temas ligados à cultura afro-brasileira. Imperdível, portanto.


Ceao promove curso para educadores

postado por Cleidiana Ramos @ 11:13 AM
14 de julho de 2010

A Escola Barbosa Romeu em São Cristóvão é uma das consideradas referências no cumprimento da Lei 11.645/08. Foto: Fernando Amorim| Ag. A TARDE|20.05.2005.

Atenção educadores: estão abertas até o dia 6 do próximo mês as inscrições para o Curso de formação de Professores para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileiras. Podem se inscrever professores,coordenadores e diretores das redes públicas federal, estadual e municipal.

O curso é promovido pelo Centro de Estudos Afro-Orientais com o apoio do Ministério da Educação através da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC).

Para saber mais tem um site específico ( www.cursoensinoafro.ufba.br) e o telefone 3283-5519. O serviço telefônico funciona de segunda a sexta-feira, das 13 às 17 horas. Ao ligar procurar a professora Zelinda ou Lucylanne.

Por conta da Lei 11.645/08 (que reformulou a 10.639/03) todas as escolas brasileiras de ensino fundamental são obrigadas a promover o ensino das disciplinas História da África e Cultura Afro-Brasileira, além de História e Cultura Indígenas.


Mais uma historinha afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 7:54 AM
11 de fevereiro de 2010

Está publicada aí abaixo a última das histórias vencedoras da I Promoção Cultural do Mundo Afro. Esta é de autoria de Marcleia Santiago do Amor Divino.

Fiquem atentos, pois o professor Jaime Sodré já sinalizou com mais uma promoção interessante para lançarmos aqui.


Dona Clara

postado por Cleidiana Ramos @ 7:52 AM
11 de fevereiro de 2010

Marcleia Santiago do Amor Divino

A minha mãe me contou a história da minha bisavó que faleceu em 2000, com mais de cem anos. A velha guerreira trabalhou até os 80 anos em serviços rurais com muito vigor e quando perguntavam de onde vinham o viço e a coragem de espantar homens aventureiros com a ajuda da espingarda, a resposta era simples:

-É herança dos escravos corajosos que enfrentaram seus senhores na época da escravidão.

Dona Clara, como era conhecida, vivia escondidinha nas matas virgens, protegida pelos caboclos e guias.

Ainda mocinha, foi encontrada dentro das matas virgens do sertão da Bahia por um grupo de caçadores. Até então vivia totalmente isolada da cidade. Ela tentou em vão se livrar dos caçadores, mas eles a levaram à força para a cidade vizinha.

Lá, Clara casou-se com Eugênio, também descendente de escravos, e dessa união nasceram muitos filhos, os quais foram criados às custas das plantações de cacau, feijão e mandioca.

Segundo relatos de alguns que a conheceram, Dona Clara era uma mulher invejável e que encantava a muitos com sua beleza, mas os mais atrevidos eram surpreendidos a chumbo.

Além disso, era também conhecida pelo conhecimento de rezas e de ervas que curavam muitas enfermidades.


Historinhas afro-brasileiras

postado por Cleidiana Ramos @ 8:20 AM
27 de janeiro de 2010

Está publicada aí abaixo a primeira das três histórias vencedoras da 1ª Promoção Cultural do Mundo Afro. A história conta a criação do homem, segundo a versão de povos africanos e foi enviada por Iele Portugal.


A origem do homem na versão africana

postado por Cleidiana Ramos @ 8:17 AM
27 de janeiro de 2010

Iele Ferreira Portugal

-Vovó de onde mesmo que veio o homem?

– Senta aqui que vou te contar: Quando era bem pequenininha, mais ou menos da sua idade, minha avó, que era descendente da gente da África, da região chamada Daomé, me contou uma história. Vou contar a você o que eu lembro.

– Vovó, antes de a senhora me contar a história, explique o que é descendente.

– É aquele que vem de algum outro lugar.

– Agora a senhora pode continuar a história.

– Há muito tempo, os orixás viviam aqui na terra. Não existia o homem. Até que, um dia, Olorum,o dono do céu, resolveu que criaria o homem para fazer companhia aos orixás. Olorum tentou criar o homem de ar, de fogo, de água, de pedra e de madeira, mas em nenhum caso deu certo.

– Por que não deu certo, vovó?

– Porque os homens de ar e de água não tinham forma, o homem de fogo consumia-se, e os homens de pedra e de madeira não se mexiam.

– E então, o que Olorum fez?

– Ele não fez nada. Nanã foi quem fez. Vendo que todas as alternativas tinham dado errado, essa orixá se ofereceu para criar o homem. Olorum permitiu. E Nanã foi fazer o homem. Pegou um punhado de barro e foi modelando o corpo: as pernas, os braços, a cabeça e tudo que temos hoje. Ela não esqueceu nada, fez tudo direitinho. Deu-nos tudo que precisamos,pernas para andar, mãos para pegar as coisas, olhos para ver… não se esqueceu de nada.

– É isso mesmo!

– Depois que homem foi feito, o que aconteceu?

– Os homens e os orixás viveram juntos e felizes, dividindo alegrias e aventuras na terra.

 


As raízes africanas de Tamburi

postado por Cleidiana Ramos @ 6:53 PM
23 de dezembro de 2009

Olhem que iniciativa legal: professores  e uma aluna da escola Eurídice Sant´Ana, situada em Marcionílio Souza,  realizaram um documentário sobre a herança africana do município. A localidade ainda é chamada carinhosamente por seus moradores de Tamburi, nome usado antes da emancipação.

O objetivo do trabalho foi investigar o povoado de Umburanas que é conhecido como área remanescente de quilombo. A partir daí o trabalho cresceu e virou um documentário. A iniciativa tem origem em um projeto da professora Iara Bacellar. 

Em um mês, eles realizaram trabalho de pesquisa, filmagens e edição. Aqui está a ficha dos responsáveis pela produção: os professores Dodó Rebouças, Iara Bacellar, Josley Mattos, Marcos Ribeiro, Sônia Ramos e a aluna Susana Rebouças.

Em tempos de falta de material didático para a aplicação da Lei 11.645/08, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro- Brasilieira, está aí um bom exemplo a ser seguido. Além disso, traz a oportunidade de conhecer um pouquinho da herança negra nas áreas distantes de Salvador e do Recôncavo. Marcionílio Souza fica na Chapada Diamantina.   

O vídeo foi dividido em quatro partes que estou disponibilizando abaixo:

 

 


Parecer sobre os Heróis dos Búzios 1

postado por Cleidiana Ramos @ 12:52 PM
23 de outubro de 2009
Olodum tem feito divulgação da história do movimento. Foto: Joa Souza | AG. A TARDE

Olodum tem feito divulgação da história do movimento. Foto: Joa Souza | AG. A TARDE

O deputado Emiliano José já finalizou o seu relatório sobre o Projeto de Lei nº 5819/ 2009. De autoria do deputado Luiz Alberto, o PL pede a inscrição dos nomes de João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luis das Virgens, heróis da Revolta dos Búzios, no Livro dos Heróis da Pátria.

A batalha para a divulgação do movimento, ocorrido no século XVIII, e que tinha um avançado programa na área de Direitos Humanos, com destaque para a abolição da escravatura, tem sido levada à frente pelo Olodum.

O relatório de Emiliano ficou show de bola. É, na verdade, um excelente texto histórico. Por isto ele está publicado abaixo na íntegra. Como é longo, dividi o texto em três blocos para facilitar a leitura.

Ele pode ser utilizado como material didático para a aplicação da Lei 10.639/08, que determina o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. No ano passado, a legislação  ganhou o número 11.645/08 por meio de uma modificação para incluir também a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Indígenas.


Parecer sobre os Heróis dos Búzios 2

postado por Cleidiana Ramos @ 12:45 PM
23 de outubro de 2009

Era uma manhã de domingo em Salvador. Prometia ser um dia calmo. Cedo, no entanto, muito cedo começou o alvoroço. A notícia se espalhou entre os que assistiam às missas, nas rodas de conversa das calçadas, às portas das casas onde senhoras falavam das últimas. Papéis sediciosos, panfletos subversivos apareceram afixados em pontos centrais da cidade. Os escritos conclamavam a população a se rebelar contra o domínio de Portugal. A palavra escrita, a opinião escrita não eram aceitas na Colônia onde a imprensa era proibida pelo governo metropolitano.

Não se desconheça o fato de que o analfabetismo era altíssimo. Não havia escolas. O estudo, a leitura eram reservados a uma elite reduzidíssima. Ler, escrever eram privilégios reservados a poucos. No entanto, os boletins sediciosos, como foram chamados os panfletos, tiveram uma repercussão imensa. Menos pela leitura direta e mais pelo boca a boca, pelo boato, pela oralidade do próprio povo, suscitada pela leitura de uns poucos alfabetizados e que traduziam por assim dizer o conteúdo explosivo dos boletins. Esses papéis sediciosos apareceram no dia 12 de agosto de 1798, um domingo, como já se disse. Dia de descanso, próprio para a troca de idéias, para a circulação de boatos, para a conversa das comadres, para o encontro dos compadres.

Cabe lembrar que Salvador era uma cidade grande para os padrões de então. Nela viviam em torno de 60 mil pessoas. Uma cidade majoritariamente negra, tempo de escravidão. Apenas 28% eram brancos. Quando nos referimos a negros, estamos querendo falar dos 52% que eram considerados como tais e mais 20% tidos como pardos. Importante observar, nem que de passagem, que Salvador hoje conta com uma população de mais de 80% de negros. A ideologia do branqueamento da sociedade brasileira não funcionou.

Voltando aos nossos papéis sediciosos, é evidente, como já se disse, que a leitura deles foi reduzidíssima. A repercussão, no entanto, foi extraordinária. Até porque os panfletos foram afixados em locais estratégicos da cidade. Esquina da Praça do Palácio, Rua de Baixo de São Bento, Portas do Carmo, Açougue da Praia, Igreja da Sé, Igreja do Passo e Igreja da Lapa. O conteúdo dos boletins sediciosos era incendiário para a época. Revolucionário. Defendiam a liberdade, a igualdade e se manifestavam contra a escravidão. Era demais para aquele Brasil colonial e escravagista.
A Revolução dos Búzios – ou dos Alfaiates, como também ficou conhecida – teve três fases: o período conspiratório e de divulgação das idéias, que vai de 1794 a 1797; a preparação do levante, de maio a agosto de 1798, e as prisões, processo, condenações e execuções. Esclareça-se que no dia 22 de agosto de 1798 novos boletins foram distribuídos, e isso mesmo depois de se ter iniciado a repressão ao movimento.


Parecer sobre os Heróis dos Búzios 3

postado por Cleidiana Ramos @ 12:44 PM
23 de outubro de 2009

Com as delações, tudo ruiu: 41 pessoas foram presas, 48 foram acusadas, 33 chegaram ao final das devassas. Quatro mulheres figuravam entre as pessoas acusadas: Luiza Francisca de Araújo, Lucrecia Maria, Domingas Maria do Nascimento e Anna Romana Lopes. Ao final da devassa, quatro dos acusados foram condenados à morte por enforcamento: o mestre-alfaiate João de Deus do Nascimento, o aprendiz de alfaiate Manuel Faustino Santos Lira, e os soldados Lucas Dantas de Amorim Torres e Luís Gonzaga das Virgens e Veiga.

Luís Gonzaga foi preso logo no dia 23 de agosto. João de Deus do Nascimento foi preso três dias depois, 26 de agosto. Filho da parda forra Francisca Maria da Conceição e de José de Araújo, branco, tinha 27 anos e possuía oficina à Rua Direita do Palácio. Era pai de cinco filhos, e tivera uma relação amorosa conturbada com a jovem Anna Romana, dez anos mais nova que ele. Ao ser preso, começa fingindo demência. No terceiro interrogatório, decide negar ter tido qualquer idéia de revolução ou de aliciar quem quer que seja para isso.

A 11 de setembro, no entanto, estufa o peito e assume fazer parte do projeto revolucionário. Pelo depoimento das testemunhas, é possível perceber o seu espírito aguerrido, altivo e revolucionário. “Insolente, atrevido e despejado, pronto para toda ação má” – era assim que o definia o coronel Dom Carlos Balthazar da Silveira. “Muito petulante, altivo e insolente, capaz de empreender qualquer projeto mau, e ruinoso” – assim o deputado da Junta de Administração da Fazenda Real, Francisco Gomes de Souza, o definia.

As palavras atravessam os séculos e se metamorfoseiam. Olhadas hoje, da perspectiva das classes dominadas, a partir do olhar revolucionário dos oprimidos, o que era visto como defeito no mestre-alfaiate, converte-se no seu contrário. São os defeitos – sua insolência, seu atrevimento, sua altivez – que revelam o revolucionário e devem ser vistos, portanto, a partir do olhar dos oprimidos, como extraordinárias qualidades. São os defeitos apontados por seus acusadores que atestam sua alma revolucionária. Uma testemunha, José Antônio dos Santos, diz ter ouvido o mestre-alfaiate proclamar: “Viva a bela Liberdade”.

Lembre-se, porque importante, que num dos boletins sediciosos – Aviso ao Povo Bahinence – há uma belíssima definição do que seja liberdade.

“A liberdade consiste no estado felis, no estado livre do abatimento: a liberdade he adocura da vida, o descanço do homem com igual palallelo de huns para outroz, finalmente a liberdade he o repouzo, e bemaventurança do mundo”. Manuel Faustino dos Santos Lira foi preso na tarde de 14 de setembro, uma sexta-feira. Nasceu escravo, depois liberto, era alfaiate ligado à poderosa família dos Pires de Carvalho e Albuquerque, filho do ex-escravo Raimundo Ferrara e da escrava Felizarda, foi preso no Engenho da Pedra, propriedade do senhor de sua mãe, padre Antônio Francisco de Pinho, que foi quem o entregou à prisão.

Lucas Dantas do Amorim Torres foi preso no dia 9 de setembro, um domingo, na Fazenda Topo do Nambi, sertão de Água Fria. Soldado do Regimento de Artilharia, filho do homem branco Domingos da Costa e de Vicença Maria, Lucas Dantas resistiu bravamente à prisão. Foi gravemente ferido na testa, um corte de mais três polegadas. A cicatrização dos ferimentos demorou pelo menos três meses para se completar.

Os desembargadores Avellar de Barbedo e Costa Pinto apresentarem a conclusão das devassas em 5 de novembro de 1799. Estavam convencidos que “alguns indivíduos malévolos” de Salvador haviam articulado, nas palavras deles, “execranda conspiração destinada a sublevar os Povos, subtraindo-os ao supremo Poder e alta Soberania da mesma Senhora, a quebrantar a forma de Governo estabelecida, fazendo-lhe suceder hua Democracia raza e independente”. Nos termos da conclusão dos autos da devassa, os revolucionários eram acusados de tentarem uma sublevação destinada a “se subtrahirem ao Suavissímo e Iluminadíssimo governo” da Rainha D. Maria I e a suprimirem as leis da Metrópole pretendendo com isso construir uma República Democrática “onde” – veja-se o crime – “todos serião iguais, onde os acessos e logares representativos serião communs”.

Luís Gonzaga das Virgens, definido como aquele que “não podia suportar em pás a diferença de condições e desigualdade de fortuna” e visto como “hum dos Chefes principais” da revolução foi condenado por crime de lesa-majestade a morrer na forca. Além disso, deveria ter a cabeça e as mãos cortadas e expostas no local da execução. A sentença foi confirmada no dia 7 de novembro.

Lucas Dantas do Amorim Torres, considerado o principal líder da revolução – ao menos segundo os autos da devassa –, Manuel Faustino dos Santos Lira e João de Deus do Nascimento também foram condenados à morte por enforcamento e também teriam seus corpos esquartejados. Os soldados Lucas Dantas e Luís Gonzaga, como penas complementares, teriam suas fardas rasgadas por dois sargentos ao “toque de caixa destemperada”.


Parecer sobre os Heróis dos Búzios 4

postado por Cleidiana Ramos @ 12:41 PM
23 de outubro de 2009

Impõe-se a pergunta: por que foram esses quatro, e não outros, os condenados à forca? Condenados à forca e esquartejados, insista-se, com ênfase. As partes dos corpos expostas pelas ruas. Por que pobres? Por que soldados e alfaiates, homens simples? Por que negros? Por que da perigosa ralé?

O historiador Luís Henrique Dias Tavares, notável intelectual baiano, rigoroso pesquisador, que fornece base a esse voto, a quem aqui homenageio, ensaia uma resposta em seu História da Sedição Intentada na Bahia em 1798 (“A Conspiração dos Alfaiates”). Acontece que “os que iam morrer, iam morrer para dar exemplo”.

A devassa fez a devida seleção, atenuou penas para muitos outros, e cravou pena de morte para os quatro, os quatro mártires da Revolução dos Búzios, heróis do povo brasileiro.

O governador da Bahia de então, D. Fernando, num ofício, deixa claro que sempre se receou nas colônias que eclodissem rebeliões de escravos. O que se queria conter, o que se queria matar para sempre era não apenas aquela rebelião, mas qualquer outra que pudesse ser levada a cabo por negros. Quiseram as autoridades coloniais eliminar de vez o perigo que representou aquela “associação de mulatos” que pretendia coisas como liberdade, democracia, fim da escravidão.

Era demais para os brancos, era demais para as autoridades coloniais. Eliminaram-se as penas severas para as “pessoas de consideração”, para usar expressão da época, e mataram os revolucionários pobres para dar o exemplo que se pretendia definitivo.

Aquela “associação de mulatos”, aquela rebelião negra, de cunho democrático, que guardava conteúdos obviamente recolhidos da Revolução Francesa, e que, de alguma forma, ia além dela ao propor o fim da escravidão, causava medo às autoridades coloniais, mesmo após tanta repressão, tantas prisões. Era preciso condenar alguns à forca para dar o exemplo.

Os preparativos para a execução da sentença foram cuidadosos. Até uma nova forca foi “plantada em lugar extraordinário” na Praça da Piedade. No dia 8 de novembro de 1799, quando os quatro foram executados, a Praça da Piedade foi ocupada pelos Regimento Velho, Regimento Novo e Regimento de Artilharia. Os que assistiam aos preparativos e depois à execução eram mantidos à distância pelo aparato militar.

Luís Gonzaga e João de Deus foram conduzidos para a Praça da Piedade em cadeirinhas, ou palanquins, sem cortinas ou tampas, de modo a que, no trajeto pudessem ser vistos por todo o povo, que se aglomerava nas calçadas, que olhava das janelas, das varandas, que espreitava de todos os cantos, de todos os becos, todos os sobrados.

Os dois iam manietados por grilhões presos aos encostos das cadeiras. Contemporaneamente, poderíamos falar que a Colônia calculadamente promovia um espetáculo, um efeito-demonstração. Queria pelo terror público do enforcamento, atemorizar a população, especialmente o povo negro, de modo a que ninguém mais se atrevesse a rebelar-se contra a Coroa e contra a escravidão.

Salvador parou para ver o sacrifício dos mártires.

Lucas Dantas e Manuel Faustino vieram a pé da cadeia ao patíbulo. Em volta deles, além dos guardas, muitos religiosos. Quando os quatro chegam à forca, a soldadesca dá as costas para o interior da praça. Mantém as armas apontadas para o povo. Uma tropa disposta a atirar diante de qualquer manifestação. Uma tropa tensa, cheia de medo. A Colônia queria dar o exemplo, mas temia a reação dos negros e mulatos que acompanhavam o espetáculo de dor e sangue e martírio.

Tudo durou seis horas: das 9 da manhã, exata hora em que os quatro mártires saíram da cadeia, às 3 da tarde, quando os quatro já estavam sem vida, quando então tudo terminou.

Terminou, vírgula. O espetáculo macabro, pleno de crueldade e cálculo, havia de continuar. Mortos os quatro, tiveram seus corpos esquartejados. Pedaços dos corpos dos mártires foram expostos em lugares públicos para que todo mundo visse, para que todos soubessem que aquele seria o destino de quantos se rebelassem contra a Coroa portuguesa.

A cabeça de Lucas Dantas, espetada no Campo do Dique, na parte do Desterro. A de Manuel Faustino, no Cruzeiro de São Francisco. A de João de Deus, na Rua Direita do Palácio. A de Luís Gonzaga, juntamente com as mãos, na própria Praça da Piedade, afixadas nos caibros do patíbulo.

Durante cinco dias, a população de Salvador olhou nos olhos mortos dos quatro mártires, olhou para suas cabeças despregadas dos corpos, certamente alternando sentimentos de compaixão e indignação. No dia 13 de novembro de 1799, repitamos as datas, as cabeças cortadas foram retiradas das ruas e enterradas.

Para a Coroa, a perspectiva da Revolução democrático-burguesa, na esteira da Revolução Francesa, era assombrosa. E a Revolução dos Búzios, era ainda mais assombrosa pelo fato de ter negros e pobres à frente, e por sugerir uma igualdade que suprimisse a escravidão.  Tudo perigoso demais para uma Coroa que se colocava na contramão da tendência universal da revolução democrático-burguesa calcada na Revolução Francesa de 1789.

Já se disse, mas não custa insistir, que a Revolução dos Búzios ia além dos marcos da revolução democrático-burguesa, ao sugerir o fim da escravidão. Amplia os marcos revolucionários, quando soldados e artesãos, quando negros e pobres, quando os excluídos de então entram em cena. Vamos nos transportar àquele tempo. João de Deus, indaga de Lucas Dantas, sobre o significado de uma revolução. Lucas Dantas explica que, para fazer a revolução, será necessária uma guerra civil “para que não se distinga a cor branca, parda e preta, e sermos todos felizes, sem exceção de pessoa”. Uma Revolução, vê-se, para chegar a uma sociedade de iguais.

Lucas Dantas diria ainda, ao mesmo João de Deus, que a Revolução tinha o objetivo de chegar a um governo democrático onde todos fossem felizes. E seriam felizes porque só seriam admitidos no governo “pessoas que tivessem capacidade para isso”, fossem eles “brancos, ou pardos, ou pretos, sem distinção de cor”.

O deputado Luiz Alberto acertou em cheio ao apresentar essa proposição. Que vivam para sempre os novos Heróis da Pátria:
João de Deus do Nascimento,
Manuel Faustino Santos Lira,
Lucas Dantas de Amorim Torres e
Luís Gonzaga das Virgens e Veiga.
Neste sentido, votamos pela aprovação do PL nº5819, de 2009.

Sala da Comissão, em 21 de outubro de 2009.

Deputado  Emilliano José

Relator


Inscrições abertas até hoje para curso em História da África

postado por Cleidiana Ramos @ 1:42 PM
9 de outubro de 2009
O Museu Afro-Brasileiro é uma instituição que tem um acervo informativo sobre cultura com inspiração africana   . Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE

O Museu Afro-Brasileiro é uma instituição que tem um acervo informativo sobre cultura com inspiração africana . Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE

Desculpem, mas só recebi o material confirmando o período de inscrições hoje pela manhã. Mas ainda dá tempo: até hoje no Colégio Estadual Edgard Santos, que fica no Garcia, a partir das 19 horas, é possível se inscrever para o curso em História da África, Cultura Negra e O Negro no Brasil. Os participantes devem ser indicados por organizações do movimento social.

O curso é dirigido a educadores e é promovido pelo Grupo Cultural Amuleto. As aulas vão ser na Uneb no perído de 15 deste mês até 12 dezembro das 19 horas às 21h30 nas quintas-feiras e nos sábados das 9 às 13 horas. 

O curso tem como principal objetivo fortalecer a aplicação da Lei 10.639/03, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. No ano passado a lei foi modificada pela 11.645/08 para incluir também o ensino de História e Cultura Indígenas.


Educaxé- Bogum Parte III

postado por Cleidiana Ramos @ 3:35 PM
7 de julho de 2009
Nandoji Índia é a atual dirigiente do Bogum. Foto: Arlindo Felix | AG. A TARDE| 17.01.2003

Nandoji Índia é a atual dirigente do Bogum. Foto: Arlindo Felix AG. A TARDE| 17.01.2003

As Divindades

Jaime Sodré

O Zoogodô Bogum Malê Rundó possui no seu quadro de divindades, dentre outras, os seus patronos – os voduns Bafono Deca e Ajonsu ou Azonsu -, regendo os destinos e cumeeira. A divindade máxima é Mawu-Lissa, Olissassa, Olissá, Olissasi. As suas festas realizam-se ao fim do ano, após o Ossé de Lissa- ritual restrito aos seus iniciados- e são muito concorridas.

O Bogum também realiza a sua missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em louvor a São Bartolomeu e São Jerônimo. O primeiro dava nome a sua associação civil, com o título de Sociedade Fiéis de São Bartolomeu do Terreiro do Bogum. Fundada em 1937, esta sociedade, na década de 1970, teve o privilégio de ser dirigida por Edvaldo dos Santos Costa, destacado ogã da casa, filho consangüíneo de Mãe Nicinha, que teve como mérito maior a reestruturação da entidade, com seus estatutos publicados no Diário Oficial em 16 de outubro de 1977.

Esta organização, representativa da atividade civil do terreiro, ficou inativa até 1983, quando, sob a presidência do Sr. Lídio Pereira dos Santos, venerável ogã da Casa e decano querido e respeitado, retomou suas atividades.

Atualmente, a organização civil sofre mais uma reformulação sendo que, em assembléia, foi inaugurada uma nova entidade com o nome de Associação dos Fiéis Jeje Mahin, numa postura de desvincular o terreiro de laços com o catolicismo. Embora se tenha alterado a denominação, as relações com a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ainda permanecem.

Os fiéis, ao chegarem à área da Avenida Vasco da Gama, em frente ao Terreiro da Casa Branca, vindos da missa, visitam este terreiro e em procissão, sobem a íngreme Ladeira do Bogum, com fogos e cânticos e contornam, no Largo das Palmeiras, o busto de Mãe Runhó, instalado pela prefeita Lídice da Mata. Vão em direção às portas do terreiro, onde incorporam os voduns e entram no templo, saudados pelos tambores, e no seu interior realizam-se as danças sagradas. 

As festas, na tradição jeje do Bogum, têm os voduns Gum (Gu), Agangatolu, Ágüe e Logunedé; voduns da família dos Kavionô ou Kavionus: Sobô ou Sogbo, Pó ou Kpó, Badé, Adaen ou Adan, Ajiripapô ou Ajiribabô, Afonjá; o vodum Aziri ou Aziritobossi; o vodum Hoho ou Ibejes, o vodum Ajonsu, com festa dedicada ao patrono da Casa e de Mãe Índia; além de Nanã.

A 31 de dezembro acontecem as obrigações do Sé ou ossé de Lissa, onde se realiza a purificação dos assentamentos da entidade maior, que alguns chamam de “Águas de Oxalá”. Os ritos festivos se realizam nos meses de janeiro e fevereiro, sendo que neste, realiza-se o Olugbajé, a grande festa de Ajonsu, Omolu  com um banquete comunal. O Bogum também cultua os Caboclos, no seu dia festivo e cívico, o Dois de Julho.

No repertório de atividades rituais vale destacar o zandró (a vigília sacra jeje) com procissões internas e ofertórios instalados aos pés das árvores sagradas, o boitá. Durante os dias do ano o Bogum realiza obrigações dos seus iniciados e rituais propiciatórios, dentre outros eventos comunitários em favor da população do bairro do Engenho Velho da Federação, além de atendimento aos que necessitam dos seus poderes religiosos.

Oferendas são realizadas pelo povo do Bogum, preferencialmente em árvores, no mar e fontes, no Dique do Tororó e, outrora, no Parque São Bartolomeu, por sua ligação com a entidade católica reverenciada pelo jeje.

O rito fúnebre da liturgia jeje é o zelim, zerrim ou sirrum, que equivale ao axexé da organização religiosa nagô e ao macondo da nação angola. Esta celebração é privativa aos falecidos de posição hierárquica elevada, sendo que na ocasião se homenageia personalidades ilustres falecidas de outras nações. Os ritos fúnebres do Bogum, a exemplo de outras casas, são realizados com cuidados e rigor, obedecendo as interdições decorrentes deste rito.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

1.Quais as divindades do Bogum e de outras nações?
2.O que é um ogã?
3.Qual o papel dos Caboclos no Candomblé?
4.O que é fitolatria? Este fenômeno existe em outras religiões?

Jaime Sodré é historidador, professor e religioso do candomblé


Material Didático no Mundo Afro

postado por Cleidiana Ramos @ 1:21 PM
25 de junho de 2009
Jaime Sodré colabora a partir de hoje com a série Educaxé aqui no blog. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Jaime Sodré colabora a partir de hoje com a série Educaxé aqui no blog. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

O professor Jaime Sodré teve mais umas das suas excelentes idéias: disponibilizar textos que ajudem seus colegas a aplicar a Lei 11645/08 que determina o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira e de História e Cultura Índigenas nas escolas brasileiras.

A legislação tem uma versão anterior e mais conhecida que é a 10.639/03. A lei ganhou novo número e uma modificação no ano passado para incluir a trajetória cultural dos povos indígenas.

Salvador, em 2005, foi a primeira capital do país a operacionalizar o cumprimento da Lei nas escolas municipais. A iniciativa foi da pedagoga Olívia Santana, hoje vereadora, que na época era a secretária municipal de educação.

Um dos desafios da época e que ainda continua é o pouco material didático disponível ou numa linguagem mais acessível para o ensino fundamental e médio.

Daí que o professor Jaime me perguntou se o Mundo Afro poderia ser um veículo para a divulgação de textos sobre cultura e identidade negras que ele sempre redige.

Respondi que não só o blog estaria aberto como agradeci muito pelo presente, afinal o nosso objetivo é exatamente o de ser útil para o debate sobre estas questões.

A partir de hoje volta e meia vocês encontrarão textos em forma de capítulos. O primeiro é sobre o Engenho Velho da Federação, um dos bairros de Salvador com população majoritariamente negra e também conhecido por reunir terreiros de candomblé de variadas nações.

Jaime decidiu  abordar o bairro com a sua característica de ser endereço de terreiros das religiões afro-brasileiras nas mais variadas vertentes.

Embora o Engenho Velho tenha uma área pequena, ele reúne mais de 20 terreiros das nações angola, ijexá, jeje e ketu do candomblé, mas também de umbanda.

Além disso, os terreiros são considerados quilombos urbanos, ou seja, territórios com área definida onde acontece preservação de cultura e identidade negras.

Nos primeiros capítulos desta série, Jaime conta a história do Bogum, um dos mais conhecidos terreiros do bairro, onde ele ocupa o cargo de oloiê, uma espécie de conselheiro.

Além do texto informativo, Jaime também organizou perguntas e dicas de como usar o material.

Vou também manter o título sugerido por ele: Educaxé e vou seguir a regularidade de publicar dois capítulos por semana, às terças e quintas. 

Educadores, aproveitem!


Projeto Educaxé- Clareando as Mentes

postado por Cleidiana Ramos @ 1:16 PM
25 de junho de 2009
Lei é aplicada nas escolas de Salvador desde 2005. Desafio agora é estender prática a todo o Estado. Foto: Elói Corrêa | AG.  A TARDE

Lei é aplicada nas escolas de Salvador desde 2005. Desafio agora é estender prática para todo o Estado. Foto: Elói Corrêa | AG. A TARDE

Jaime Sodré

Caros Professoras e Professores,

O presente material visa auxiliar-lhes  como elemento básico para as exigências da Lei 11.645/08 (10. 639/03), sobre a História Indígena e Cultura Afro-Brasileira, tendo como conteúdo programático, em relação a este último o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas cultural, social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.

Não se trata de “ensinar Candomblé”, mas utilizar a sua trajetória histórica para a compreensão do “ser negro ou afrodescendente” no Brasil. Para tanto propomos:

1. Leia o texto de forma concentrada.
2. Verifique as perguntas abaixo dos textos.
3. Volte a ler o texto, selecionando os assuntos relevantes.
4. Procure responder às perguntas formuladas.
5. Realize um resumo do texto.
6. Elabore uma proposta pedagógica sobre o assunto.
7. Discuta com os seus colegas esta possibilidade.
8. Tente entender outros segmentos religiosos, sob a ótica da participação dos negros ou afrodescendentes, e em relação à contribuição africana.
9. Se possível, aplique a sua proposta pedagógica em sala de aula.

Evidente que outras informações, não constantes deste texto, deverão ser obtidas em pesquisas nas bibliotecas, a exemplo do Ceao, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, na Ufba, e das Bibliotecas Central e Clemente Mariani, além do Arquivo Público e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, dentre outras fontes. Incluindo-se também os jornais, hoje facilitados pelo projeto do jornal A TARDE de digitalização do seu acervo, disponível na Biblioteca Central. E, ainda, nesta Biblioteca, o acervo de Waldeloir Rego.

Boa sorte!

Jaime Sodré é professor,  historiador e religioso do candomblé.

 

 


Uma História de Resistência

postado por Cleidiana Ramos @ 1:13 PM
25 de junho de 2009
Interior do barracão do Terreiro Bogum. Foto: Valdir Argolo|Arquivo A TARDE

Interior do barracão do Terreiro Bogum. Foto: Valdir Argolo|Arquivo A TARDE

Jaime Sodré

INTRODUÇÃO

O Engenho Velho da Federação possui, aproximadamente, entre 80 mil a 90 mil habitantes, caracterizados na sua grande maioria como afrodescendentes. Este bairro é considerado como “Quilombo Urbano”, segundo o Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, assinado pelo presidente Lula e, para tanto, foi levado em conta aspectos como a resistência cultural negra instalada em um determinado espaço.

O fato de o Engenho Velho ter em seu território, vários terreiros de candomblé, contribuiu para isto. Comenta-se que este bairro foi resultado de escravos fugitivos, vindos de um engenho na sua proximidade. Sem dúvidas, o Terreiro do Bogum, entre outros, em função da sua história de resistência, deve ter contribuído para a caracterização deste bairro como um quilombo.

Capítulo I – O Jeje

Informa-nos Nicolau Parés do papel desempenhado pelo Jeje no Candomblé. Relata Félix Ayoh’omidire, em ÀKỌGBÀDÙN – ABC da língua, cultura e civilização iorubanas [1], que “a tão procurada etimologia do etinônimo ‘jeje’… só sobreviveu aqui no Brasil, onde se usa como uma referência para a tradição de Candomblé ewe-fon”.

A palavra ‘jeje’ não vem de “àjèjì”, termo iorubano que significa ‘estrangeiro’. O termo ‘jeje’ vem, seguramente, deste oríkì orílè de ìran àjèjè que é uma das linhagens originais que ocuparam a área central da atual República do Benin (antigo Daomé), fruto das primeiras migrações de núcleos iorubanos, que se instalaram no espaço que se estende até Tado, na atual República de Togo.

Segundo ele, os fons foram os últimos a chegar ao espaço geográfico na área que constitui a região central da República de Benin. Além de incorporem a sua língua e cultura, agregaram muitos elementos significativos desenvolvidos pelos seus vizinhos.

Ainda explica Félix, que “um exemplo disso é a presença de muitos voduns que são os paralelos de alguns orixás iorubás, voduns esses cujos nomes ainda refletem a sua origem iorubá. Por exemplo, o vodum Legba é o mesmo Exù Ẹlégbara; enquanto o Ṣàngó dos iorubanos virou Hevioso”.

Quanto ao sistema de adivinhação, embora seja chamado de Ifá entre os iorubanos, “é conhecido simplesmente como Fá entre os ewe-fon”. Em relação ao azeite de dendê, elemento fundamental da culinária religiosa, em especial na Bahia, foram os Aresas os introdutores da técnica de extração do dendê naquela região.

Quanto aos jeje, afirma o autor, são conhecidos em Cuba como arará, termo cuja origem ainda “não foi desvendada pelos historiadores até o momento atual”.

Concluindo, afirma Félix: “a minha tese a respeito da origem dos jeje é que esse povo estava com maior freqüência na sua identidade de ajeje aqui no Brasil, como isso acontece ainda hoje, em meios ioruba-africano… muitas pessoas só preferem citar seu oríle em vez de dar o seu nome próprio ou nome de família”.

O “Jeje”, é assim que o povo se refere, com carinho e reconhecimento, ao Zoogodô Bogum Malê Rundó, instalado no “fim de linha” do Engenho Velho da Federação. Parés testemunha o dinamismo de seus sacerdotes e sacerdotisas, no enriquecimento do patrimônio cultural religioso negro. Atores da resistência deste “modo particular de rezar”, adoçavam este “bom combate” com atos de dignidade.

A comunidade do Bogum expõe a sua particularidade dizendo-se único, embora haja a consciência de íntimas ligações com o jeje-marrim de Cachoeira, a Roça de Cima.

Esta Roça seria a continuidade do Candomblé do Bitedô ou Oba Têdô, localizada na Recuada. Ligado a este templo estaria o sacerdote Kixareme ou Tixarene e a venerável sacerdotisa Ludovina Pessoa da Irmandade da Boa Morte e elo de ligação entre Cachoeira e Bogum.

D. Ludovina seria a iniciadora do clã feminino do Bogum, através da realização dos processos iniciáticos de Maria Emiliana da Piedade, mãe carnal de Maria Luisa Piedade, a venerável Maria Ogorensi ou Angorensi, fundadora do Seja Hundé em Cachoeira, Terreiro contemporâneo da Roça de Cima onde, segundo comenta-se, reduto de concentração jeje, após a extinção da Roça de Cima.

Maria Romana Moreira, iniciada por Ogorensi, conhecida como Romaninha de Possu Betá Poji, desempenhou importante papel tanto em Cachoeira quanto no Bogum, onde assumira o papel de Deré, o segundo cargo jeje mais elevado, tendo apenas como superior o cargo de Doné, no Bogum, ou Gaiaku, em Cachoeira.

A ocupação deste posto se efetivou antes da ascensão de Maria Valentina dos Anjos, a sempre lembrada Doné Runhó, na direção máxima do Bogum.

Este vínculo entre o Bogum e os terreiros jeje-marim de Cachoeira recebe, por vezes, contestações, dividindo opiniões. Alguns mencionam o fato de Ludovina Pessoa ter sido a primeira mãe-de-santo do jeje-marrim, fato que alguns do Bogum contestam, alegando que esta era apenas uma das antigas amigas da Casa.

Lidamos com a falta de registros seguros, o que nos impede de uma posição consolidada, mas podemos optar que, provavelmente, Ludovina seria fundadora da Roça de Cima, em 1860, e teria ligações com o Bogum, no mínimo, como uma figura relevante, ou seja, muito mais que “uma amiga da casa”. Alguns mantêm a opinião que ela fora “uma antiga Mãe de santo jeje”.

Ao que parece, após o tempo de Ludovina, houvera uma marcante interrupção nas atividades do Terreiro, surgindo na memória coletiva o prenome Valentina e a identificação do seu vodum Adaen, como autoridade máxima, dissera certa feita Doné Runhó a pesquisadores do Ceao.

Questões para incentivar a pesquisa em sala de aula:

1. A que se refere o Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003? Esta lei poderia ser usada para uma definição de  quilombos?

2. Por que um terreiro de Candomblé pode ser considerado um elemento que se caracteriza como “resistência cultural”?

3. Que fatores contribuem para uma visão preconceituosa sobre as religiões de matrizes africanas?

4. Que estratégias usaram os sacerdotes do Candomblé para a sobrevivência da sua fé?

5. Como  se organizaram os terreiros, levando em conta a sua procedência africana?

6. Como surgiu o Terreiro do Bogum?

7. Como surgiram outros terreiros?

8. Como é considerado por lei o bairro do Engenho Velho da Federação, e por quê?

9. O que significa a palavra etinônimo?

10. O que seria um Candomblé ewe-fon?

11.  O que você sabe sobre a  República do Benin e a República de Togo?

Textos-base:

 1. Nicolau Parés- A Formação do candomblé- História e Ritual da Nação Jeje na Bahia. Editora Unicamp. Félix Ayoh´omidire. ÀKỌGBÀDÙN – ABC da língua, cultura e civilização iorubanas. Salvador: EDUFBA : CEAO, 2004, p. 85.