A cura através da espiritualidade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
12 de agosto de 2015
Mãe Valnizia faz análise sobre  força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia faz análise sobre força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Neste mês de agosto, os católicos homenageiam são Roque e também são Lázaro, que, no sincretismo, simbolizam Omolu ou Obaluaê, o orixá da cura. Mesmo quem não é de candomblé tem o costume de distribuir pipocas todas as segundas-feiras em casa e também pelas ruas com tabuleiros. Sei que no candomblé são Lázaro ou são Roque não são Omolu nem Obaluaê, mas os mais velhos não sabiam, mesmo porque foi o que impuseram a eles nas senzalas. Isto, de uma forma ou de outra, serviu como escudo durante muitos anos para que eles pudessem cultuar o sagrado em que acreditavam.

Com toda perseguição e dificuldades, mas com inteligência, usavam as imagens dos santos católicos e escondiam os elementos da natureza embaixo delas para poder cultuar sua crença ao longo dos anos, e a foram passando de pai para filho. Aí está o sincretismo.

Penso que, de uma forma ou de outra, acreditar ou cultuar a espiritualidade é importante para o ser humano, pois viver somente do material sempre deixa a sensação de que está faltando alguma coisa na vida. Seja qual for a religião, o importante é acreditar no sagrado, pois ele é que ajuda a nos curar.

Existem vários tipos de cura. Uma se adquire através da família, porque ela é equilíbrio por mais difícil que seja. Todo grupo familiar tem momentos bons de convivência. Mesmo quando não é com todos os parentes, sempre tem algum que dá alegria ao estar perto.

Existe a cura por meio do amor de amigos, porque a amizade é tão importante quanto a família. Às vezes, uma boa amizade em determinado momento da nossa vida ajuda a nos curar.

Tem a cura do amor no campo dos relacionamentos românticos, que dá equilíbrio e felicidade, e aquela que vem do trabalho, pois alguém que está profissionalmente realizado também fica curado. No candomblé, por exemplo, existem várias formas de cura, além das obrigações, porque às vezes basta chegar ao espaço sagrado e ficar um pouco com os orixás, inquices, voduns e caboclos, dependendo dos seus segmentos, e rezar para sair recuperado. Depende da fé de cada um, até mesmo porque a fé é algo muito individual. Ninguém pode inseri-la no coração ou na cabeça das pessoas. Cada um acredita por si mesmo.

A fé é uma das coisas que mais curam o ser humano. Eu tenho a minha própria experiência nesse sentido. Quando passei por momentos muito difíceis ao perder quase toda minha família em pouco tempo, se não tivesse uma religião e minha fé, não aguentaria. Posso dizer, tranquilamente, que, além da medicina, a fé também é capaz de curar.

Também acredito que todas as pessoas que trabalham com a cura acabam por também se curar. E a forma de recuperação que acho mais importante é a que fazemos com nós mesmos, ou seja, a da consciência, que envolve nossos atos.

A cura do retorno e também do bate-volta é o que acontece com a nossa vida todo o tempo.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA