O jogo que descortinou o Zimbábue

postado por Cleidiana Ramos @ 12:27 PM
4 de junho de 2010

Amistoso disputado pela Seleção Brasileira contra o Zimbábue voltou as atenções para o país africano. Foto: Eduardo Martins | AG. A TARDE

Um dos amistosos mais polêmicos realizados pela Seleção Brasileira nos últimos tempos foi o disputado contra o Zimbábue na última terça-feira. E isto não só pelo hobby nacional de criticar Dunga _ “infrutífero”, “os jogadores podem ter lesão”, etc- mas também pelo adversário, afinal o governo do país é classifcado como ditadura. O presidente de lá, Robert Mugabe, está no poder há 30 anos.

Foi por conta deste amistoso que soube isto e algumas outras coisas sobre o país africano. Cronistas esportivos disseram tudo o que puderam: desde a inflação galopante que ultrapassa a casa dos milhares até um que acha que este é o melhor exemplo da “miséria” africana. A África tem miséria, mas também tem riqueza, ora pois. Infelizmente,  os estereótipos sobre o nobre e antigo continente vão continuar a ser uma tônica destes dias de Copa.

Mas o que mais me fez pensar sobre este amistoso, que do ponto de vista técnico foi apenas um aperitivo do que os amantes de bom futebol continuarão a sofrer nos próximos dias com esta formação da equipe canarinha, é que nós, jornalistas, fazemos de conta que o continente africano não existe.

Até mesmo para criticar as relações diplomáticas do Brasil com uma ditadura foi preciso um jogo de futebol. Do contrário as diatribes de Mutabe que ganhou um gelo do técnico da Seleção Brasileira, impedindo que ele não faturasse mais em cima de um jogo para o qual pagou à CBF uma pequena fortuna- U$ 1,3 milhões, o que dá quase R$ 2,6 milhões — estariam no limbo. Os jogadores não apareceram ao lado do ditador em nenhum momento e Dunga driblou Mutabe, inclusive evitando sua visita à concentração brasileira.

Claro que não estou querendo que o Zimbábue ganhe uma coluna diária dos jornais, mas porque a gente sabe tão pouco de uma diatadura com a qual o Brasil matém relações, mesmo diante do gelo do resto do mundo? Que tipo de intresses circulam em torno deste ponto?

Esse exemplo é apenas uma amostra do desinteresse que mantemos em relação a outros países africanos. Eles só entram na pauta em situações que o mundo inteiro volta as atenções para lá. A África do Sul, por exemplo, só está sendo lembrada por conta do campeonato mundial de futebol organizado pela Fifa.

Mas se esse seria o momento que teríamos para aprofundar a divulgação deste conhecimento sobre um continente que tem países dos quais uma parte significativa da população brasileira herdou parte da sua base cultural, as informações que estão chegando não conseguem fugir do trivial.

Que a África do Sul tem belos parques a gente já sabe. Que a alegria africana é contagiante e a vuvuzela é símbolo disto já está ultrapassando os limites do que é clichê. Que a Copa do Mundo é a chance do país mostrar como está depois do apartheid é óbvio. Ele não investiria tanto em um campeonato se não tivesse razões políticas fortes para tal.

Mas cadê o povo sul africano, seu dia-a-dia, mais detalhes da política pós apertheid, os embates entre religiões oficiais e tradicionais, a condição da mulher, etc? Futebol é cultura exatamente porque é feito e direcionado a pessoas.

Esta Copa do Mundo poderia ser um momento de fazer melhor o pouco que foi feito em relação ao Zimbábue: mostrar um pouco mais de como anda este continente que é mãe da humanidade, mesmo que alguns rejeitem esta maternidade.

Quando Robinho disse que nem sequer sabia pronunciar o nome do país contra cuja seleção disputaria o amistoso ou quando o presidente Lula se assustou com a limpeza das ruas da Namíbia não foram gafes para virar pautas de programas de humor ou provas da irreverência do jogador e da quase impossibilidade do mandatário brasileiro em evitar dizer de pronto o que pensa.

Não são razões para a gente rir, mas se envergonhar por saber tão pouco sobre uma parte do mundo com o qual muitos de nós carrega um parentesco que diz muito do que somos. Tomara que nós, formadores de opinão como adoramos ser chamados, despertemos do trivial ainda a tempo.   Ah sim! O próximo amistoso do Brasil será contra a Tanzânia na segunda-feira. Esperemos, então, notícias de lá.


Fé e Futebol

postado por Cleidiana Ramos @ 5:44 PM
5 de maio de 2010

Para lançar o segundo uniforme da Seleção Brasileira, a Nike escolheu o tema Mandingas e lançou um vídeo  com esse nome que vocês podem conferir aí em cima.

Achei interessante, pois foi a única vez em que vi uma referência, que pode ter vários questionamentos, claro, a elementos das religiões afro-brasileiras de uma forma que não é totalmente jocosa no campo dos esportes.

Uma curiosidade do vídeo é que o jogador Robinho conta que seu avô era pai-de-santo e que previu o seu futuro como atleta. Prestem também atenção no rapper que Luis Fabiano canta no fim.

A mística que cerca a camisa azul da Seleção Brasileira tem base num episódio ocorrido em 1958: pega de surpresa por não ter um segundo uniforme, a delegação teve que improvisar colocando o escudo da amarelinha num conjunto azul. Para justificar e levantar o moral do grupo, o chefe da delegação discursou dizendo que aquela era a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A seleção ganhou o jogo por 5X2 e sagrou-se campeã mundial  pela primeira vez na até hoje maior goleada em finais de Copa.

O Brasil já tinha jogado de azul em 1938, mas não pegou. Predominava um uniforme branco que foi aposentado após a fatídica derrota para o Uruguai em 1950. A partir daí o amarelo reinou soberano.

Não é de hoje que jogadores utilizam símbolos religiosos no momento que fazem o gol apontando os dedos para cima, por exemplo. Nos últimos anos virou moda as  camisetas dos que são evangélicos com declarações de amor a Jesus.

Mas a Fifa não anda muito satisfeita com tanto fervor religioso. Logo após a última edição da Copa das Confederações, os jogadores brasileiros se uniram no centro do campo para ajoelhados rezarem o Pai Nosso. O gesto não pegou bem, pois países que defendem a laicidade do Estado- e as seleções representam nações- reclamaram, porque temem que o esporte se torne uma arma perigosa de propaganda religiosa e consequentes enfrentamentos.

Uma das confederações que se insurgiu contra a prática dos brasileiros foi a Federação da Dinamarca. Circulou a notícia de que a Fifa chegou a repreender a CBF pedindo menos fervor religioso. Vamos observar o que vai acontecer durante os jogos da Copa.

Eu, particularmente, confesso que fico incomodada, não com a demonstração de fé, pois isso é questão de consciência, mas com o discurso de alguns jogadores que parecem pregação religiosa. Na fala de alguns parece que Deus privilegia determinadas equipes em detrimento das demais.

No ano passado inclusive, uma declaração da mulher do jogador Kaká botou mais lenha nessa fogueira. De acordo com o vídeo que circulou no youtube a moça considerava a venda do marido, uma das maiores da história, um “milagre de Deus”, em tempos de crise. Os dois são da Igreja Renascer. Segundo notícias, a direção do Real Madrid pediiu ao  atleta para ter cuidado com este tipo de associação.

E vocês? O que acham de religião misturada a futebol?