Mãe é para ser celebrada diariamente

postado por Cleidiana Ramos @ 8:38 AM
6 de maio de 2015
Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto:  João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto: João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Sabemos que o comércio construiu o Dia das Mães, assim como outros feriados, para vender mais. Continuo achando que mãe é para ser festejada diariamente, desde que o homem começou a parir. Sim, na minha opinião, quem pare primeiro é o homem colocando o sêmen no útero da mulher para que ela gere o bebê, embora o avanço da medicina tenha encontrado novas formas de levar alguém a engravidar.
Mesmo com alterações no corpo e até risco de vida, as mulheres ficam muito felizes ao se descobrirem grávidas. Perceber o bebê mexer na barriga é uma sensação difícil de ser definida. Às vezes, a grávida está dormindo e acorda com os “chutes” e “cotoveladas” do filho.
Antes não existiam os exames que permitem saber o sexo do bebê durante a gravidez. Essa informação vinha do conhecimento de pessoas experientes que se baseavam em sinais, como o formato da barriga. Geralmente, eram as parteiras que apontavam se ia ser menino ou menina e quando o parto iria acontecer a partir da observação da lua.
Por isso se fazia um enxoval azul – para os meninos – e rosa para as meninas. Quem precisava economizar fazia tudo em amarelo, cor considerada neutra. A emoção continuava com o nascimento. O momento em que a criança abria o olhos – antigamente, elas levavam sete dias para abri-los – e o primeiro sorriso eram acontecimentos acompanhados de perto pelas mães. A experiência vinha da prática, pois muitas não tinham acesso ao pediatra.
Lembro que se a criança nascia com as pernas tortas, o que se chamava “cangalha”, a mãe esperava que ela começasse a andar e durante sete sextas-feiras a levava na praia. Lá cobria as pernas do filho com areia úmida. Dava certo.
Se o bebê não dormia, a mãe preparava chá com folhas, como melissa e erva-cidreira. Outra medida era colocar uma bacia com a infusão das ervas perto do local onde a criança dormia para que ela fosse inalando o perfume. Raramente, se apelava para remédios.
Se a mãe não tinha leite no peito, tomava mingau feito com café, manteiga e farinha ou de milho com manteiga. Essas eram formas de entender a maternidade como algo que exigia estar perto dos filhos, o que se tornou mais difícil, pois as mulheres têm que ficar fora de casa para trabalhar e estudar.
Eu me considero privilegiada, pois sou mãe de Vandréa e Júnior e avó de Aynã e Ayran, o que é maternidade em dose dupla. Ainda fui escolhida pelo destino para ser mãe espiritual de centenas de pessoas, o que me faz ter amor por elas e seus filhos, que considero netos, como se fossem de “sangue”.
Comemoro ainda uma coincidência. Nasci em um Dia das Mães e este ano meu aniversário vai ser celebrado nessa data. Pensando em tudo isso, quero pedir aos filhos que respeitem sua mãe e sempre digam para ela o quanto a amam. Não existe presente melhor. Também procurem ouvi-la, pois cada uma pressente quando algo de ruim vai acontecer com seus filhos. Desejo a todas as mães muita sorte. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: É bom ser mãe. Desde que meu filho esteja vivo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:23 PM
8 de maio de 2010

Maíra Azevedo

Mãe é tudo igual! Quem nunca ouviu essa expressão? Mas agora que faço parte deste conjunto sei o quanto essa frase é falsa. E digo isso com propriedade de uma mulher negra que pariu uma criança negra em uma sociedade racista como é a brasileira.  Toda mãe pede em suas preces, seja para qual deus for, que seus filhos estejam em segurança. A mãe negra não. Ela pede ao seu deus que seu filho não seja abordado pela segurança de qualquer lugar e entre para as estatísticas.

Estatísticas essas que nos acompanham desde cedo. Pesquisas do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas – NEP/UNICAMP identificaram uma diferença sistemática na mortalidade de crianças menores de um ano. Os estudos constataram que houve no Brasil uma redução nos níveis das taxas de mortalidade infantil, entre a década de 70 e fim dos anos 90. Porém, ao introduzir na análise o quesito raça/cor declarado pelas mães, observou-se que a redução se deu de forma desigual entre as raças.  Enquanto o índice de mortalidade das crianças declaradas brancas foi reduzido em 43%, o número das crianças declaradas negras foi sensivelmente menor, apenas 25%.

E quando consegue a façanha de sobreviver, tem em frente um novo desafio. Manter-se vivo. Tudo bem,  eu sei que o destino de todos nós é a morte. Todos, independente de cor. Mas, para nós negros esse destino sempre tenta chegar mais cedo.

Sei que pode parecer mórbido escrever sobre isso quando se aproxima o Dia das Mães, uma data que as lojas capitalistas aproveitam para nos entupir com suas quinquilharias e com isso fazer com que a gente concorde que ser mãe é bom. É bom mesmo, aliás, maravilhoso, mas quando temos o nosso filho perto da gente e nem precisa trazer presente. Mas essa é uma realidade que nós mulheres negras, que tivemos a ousadia de parir, cada vez mais não temos.  Mórbido mesmo é rezar o tempo todo para o filho não ser vítima de uma chacina, não ser apontado como um provável marginal e a mãe ter que ir ao Instituto Médico Legal (IML) para reconhecer os restos mortais, porque nem sempre nos resta o corpo.

Sei que muitos vão afirmar que essa dor não é um “privilégio” apenas  das mulheres negras  e que  a dor de uma mãe que perdeu um filho, seja por qual motivo for, é insuperável. E eu digo categoricamente que concordo. Aí sim, na dor somos muito parecidos, mas também sofremos de forma diferente  e em posições distintas, cada uma no seu quadrado.  E olhe que digo isso, apenas como uma jovem e nova mãe.

Meu filho é um sobrevivente das estatísticas, tem um ano e 11 meses. Mas, desde já, o meu maior medo é que algum dia a polícia ou um grupo de extermínio execute o aborto que eu não tive coragem de realizar. E os episódios não aconteçam na ordem natural, pois, o maior presente para uma mãe é acreditar que ela vai embora antes do seu filho e não o contrário. É bom ser mãe, né?

Maíra Azevedo é  jornalista e militante da União de Negros pela Igualdade (Unegro)