A paleta oferecida pelas folhas

postado por Cleidiana Ramos @ 7:13 PM
20 de novembro de 2015

Para chegar ao resultado da palavra “Ajeum na capa do nosso especial Ajeum- a força da comida, a designer Ludmila Cunha, responsável pela concepção gráfica e diagramação da publicação, trabalhou muito com a textura e cores das folhas.

A palavra, por exemplo, foi escrita com uma tinta extraída de folhas e um pouco de água.

Em seguida, ela testou a tinta por quatro vezes até que perdesse o tom de marrom. Quando alcançou o verde desejado escreveu a palavra por mais quatro vezes. “Mas acabei usando a primeira que escrevi”, conta, rindo.

Material usado pela designer Ludmila Cunha. Foto: Acervo pessoal

Material usado pela designer Ludmila Cunha. Foto: Ludmila Cunha

Aí foi só escanear, dar uma coloração final com o photoshop e o  título do caderno estava pronto para receber o texto de apoio e a bela ilustração de Túlio Carapiá.

Foto: Ludmila Cunha


Festa para os especiais do 20 de novembro

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
12 de novembro de 2013
Ancelmo Gois, colunista de O Globo, eu, Maíra Azevedo e Meire Oliveira no momento de receber o troféu no Prêmio Abdias Nascimento. Foto: Carlos Júnior / Divulgação Data: 11.11.2013

Ancelmo Gois, colunista de O Globo, eu, Maíra Azevedo e Meire Oliveira no momento de receber o troféu no Prêmio Abdias Nascimento. Foto: Carlos Júnior / Divulgação
Data: 11.11.2013

Pessoal: esse é um post muito especial. Quero celebrar aqui com vocês a grande conquista que foi o reconhecimento do caderno especial “Os deuses que chamam os homens pra terra” com o Prêmio Abdias Nascimento 2013, na categoria mídia imprensa.

O caderno, que circulou em 20 de novembro do ano passado, fez um passeio pela técnica e saber dos sacerdotes músicos das religiões afro-brasileiras- alabês, huntós e xicarangomas. Mais que isso foi a décima edição do especial da Consciência Negra, como a gente chama, e que nasceu em 2003.

Parece que foi ontem que o Qual a sua cor? A vida em um mundo racista foi publicado mostrando pra gente um caminho de fazer cobertura étnico-racial especializada sem perder uma certa leveza na forma e no conteúdo.

O Qual a sua cor? foi indicado ao Prêmio Imprensa Embratel 2004 e foi seguido pelo África, povo do sol (2004);Gente de Raça (2005); Sou de santo e Raça (2006), também indicado ao Prêmio Embratel 2007; Lutas de ontem e de sempre (2007); Arte da Resistência (2008); Produtores de Owó (2009); Ê, Camará (2010) e Epo Pupá (2011), finalista do Prêmio Abdias Nascimento (2012).

Para nós, que fazemos os especiais, esse prêmio veio como reconhecimento de dez anos de trabalho. Aqui no post não vou citar o nome da equipe da edição 2013 como uma forma de estender a homenagem a todos que nestes dez anos transformaram os cadernos em referência que só nos ensina a fazer jornalismo de qualidade, mas acima de tudo com responsabilidade social.

VEJAM O CADERNO ACESSANDO O LINK ABAIXO:

http://www.premioabdiasnascimento.org.br/w/finalista/281-os-homens-que-chamam-os-deuses-pra-terra-midia-impressa


Um abraço negro

postado por Cleidiana Ramos @ 5:27 PM
26 de novembro de 2012

Uma das comemorações da Consciência Negra foi a lavagem da estátua de Zumbi dos Palmares na Praça da Sé. Foto: Margarida Neide

O artigo de Mãe Stella que eu estava devendo. Aproveite. Como sempre, lindo e profundo!

Maria Stella de Azevedo Santos

Um sorriso negro, um abraço negro/ Traz felicidade… Negro é a raiz da liberdade”. Na história de nosso País, o povo de cor negra não foi apenas figurante, foi protagonista. Ter uma data especial para marcar a trajetória desse povo é de extrema lucidez, pois nos leva a refletir sobre temas que são vitais não apenas para uma fração da sociedade. Temas como: escravização e a consequente luta e conquista da liberdade; preconceito e autopreconceito; resistência… são mais do que atuais, são, repetindo, vitais.

Liberdade é uma necessidade prioritária para o indivíduo e a coletividade, que, como tudo que é de extrema importância, precisa ser constantemente analisada, a fim de que seus limites não sejam ultrapassados, afinal até mesmo a liberdade tem limites;  preconceito e autopreconceito, atitudes e sentimentos que têm como companheiros o medo, a intolerância, o ódio irracional, a autocomiseração; resistência, geralmente entendida como força que se opõe a outra, esta tão propagada palavra fica mais bem traduzida para o povo brasileiro como vigor, ânimo.

Estamos na Semana da Consciência Negra, tendo sido o 20 de novembro escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra por ser o dia da morte de Zumbi dos Palmares, considerado um grande líder na luta pelo término do regime escravagista no Brasil. Hoje, creio ter a palavra consciência não mais a necessidade da certeza de quem somos e a que grupo pertencemos, mas simplesmente a certeza que somos, ou melhor, que apenas somos.

A Semana da Consciência Negra serve para a reflexão, mas é também momento de festejos. E como toda festa tem abraços, segue meu “abraço negro” para todas as pessoas: pretas, brancas, vermelhas… Aliás, segue meu abraço negro para os verdes, amarelos, azuis e brancos, enfim, para todos brasileiros que, sem preconceito, buscam conhecer e compreender a cultura profana e religiosa dos negros brasileiros descendentes dos africanos. Como não posso estar em corpo com todos que me dão a honra de ler meus escritos, meu abraço segue em forma de pensamento.

Não o meu e, sim, o que me foi legado pela religião que fui “chamada” a adotar e da qual muito me orgulho. Professo o candomblé não com um sentimento de soberbia, considerando a referida religião melhor ou mais elevada do que as outras, mas com o brio (sinônimo de vibração, entusiasmo, ânimo) que ela merece. Festejo a Semana da Consciência Negra revelando, através do Ódu Ìká-Òfún, os 16 mandamentos do candomblé, inseridos no Corpo Religioso do Sistema Divinatório de Ifá, que diz: Muitos andam pela vida sem rumo e, por isto, precisam buscar os conselhos de Ifá. Olódùmarè prometeu vida longa aos humanos para que estes pudessem cumprir suas “obrigações”. O que fazer para receber essa bênção?

Ifá ensina: 1. Não troquem o nome das pessoas, não façam nada que possa interferir no destino dos outros; 2. Não façam acusações que possam emitir mau cheiro, não difamem ninguém; 3. Não enganem as pessoas trocando, por exemplo, papagaio por morcego; 4. Não ensinem algo errado de maneira proposital, mostrando a folha de ìrókò e dizendo que é folha de oriro; 5. Não queiram nadar se vocês não conhecem o rio, sejam inteligentes, não sejam imprudentes; 6. Não sejam mal educados e inflexíveis, sejam gentis e maleáveis; 7. Não sejam clandestinos na caminhada, rendam homenagem a Ifá buscando Seus conselhos sem desonestidade, nem malandragem; 8. Não se percam ao levar o conhecimento sagrado para fora de casa; 9. Não semeiem ervas daninhas no seu existir; 10. Não abram espaços para os pobres de espírito; 11. Não aceitem promessas de dinheiro, não sejam gananciosos, não fiquem cegos por dinheiro; 12. Todos devem reconhecer sempre que os mais velhos são os pilares da família, merecedores de respeito e honra; 13. Todos devem reconhecer sempre que as mulheres são portadoras de senso, arte, habilidade, ingenuidade, sensibilidade; 14. Todos devem reconhecer sempre que as mulheres são grandes companheiras; 15. Nunca revelem os segredos, eles precisam ficar escondidos; 16. Recompensem sempre os detentores de sabedoria ancestral.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmene, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras 


Consciência Negra 2009: Consciência Negra no punhos e mentes

postado por Cleidiana Ramos @ 1:05 PM
24 de novembro de 2009
Hamilton Borges mostra aspecto cidadão da prática do boxe. Foto: Fernando Amorim| AG. A TARDE

Hamilton Borges mostra aspecto cidadão da prática do boxe. Foto: Fernando Amorim| AG. A TARDE

Hamilton Borges Walê

(…) Norman levaria alguma coisa consigo, esperando não ser demasiadamente ambicioso. Pois o boxe peso pesado é quase totalmente negro, tão negro como os bantus.  De modo  que o boxe se tornou mais uma chave para revelações sobre o negro, mais uma chave para emoção negra, a psicologia  negra, o amor negro”  (Norman Mailer, A luta- Companhia das Letras, 1975,pag.42)

O Boxe é considerado um esporte olímpico, uma das maiores expressões esportivas do Brasil e, particularmente, do Estado da Bahia. Infelizmente, não tem a  visibilidade,  apoio  e reconhecimento que o faz um dos esportes mais premiados no mundo. Prêmios, títulos e glórias conquistadas ficam imediatamente esquecidos,o que leva atletas de peso a defenderem bandeiras de outros estados da federação.

Até os anos de 1980, era normal, num dia de luta, vermos o Ginásio Antônio Balbino (O Balbininho) receber mais de 5000 pessoas (público pagante) para espetáculos de boxe com ampla narração e cobertura da grande impressa esportiva. O boxe  é uma realidade social que atinge toda tessitura do território de Salvador. Em cada bairro e região existe uma academia de treino e competição, a maioria nacionalmente premiada.

Boxe sempre fez parte da vida e identidade cultural dos moradores de Salvador. Seja nos desafios orquestrados nos anos 20, entre capoeiras e pugilistas, seja na busca por profissionalização, o que resultou na ascenção de grandes atletas olímpicos e profissionais que até hoje nos presenteiam com prêmios, medalhas e honrarias dignas da “Nobre Arte”.  No entanto, temos conhecimento das péssimas condições de funcionamento das academias que tem formado atletas de ponta para disputarem  títulos nacionais e internacionais com países  com alto grau de investimento neste  esporte, destacando-se  Cuba, EUA, Rússia e Japão.

O treino na laje, a falta de alimentação adequada dos atletas, a falta de recursos e patrocínio podem ser os piores adversários deste segmento esportivo. No que tange sua prática, o Boxe, por suas regras severas garante um baixo nível de letalidade, estando atrás até de esportes como o futebol.

O Torneio Zumbi dos Palmares de Boxe, vem como um simples instrumento para dar visibilidade a esta prática desportiva, criar um espaço de debate e diálogo sobre o boxe, fazer constar na agenda política local informações sobre esse esporte que carrega a marca da luta, da garra e da esperança, como legados do Herói Negro Zumbi dos Palmares.

A data proposta para a realização do Torneio Zumbi dos Palmares de Boxe  revela ainda outra questão de grande importância para nossa atual busca de reparação histórica e humanitária. Temos uma hipótese, não agradável é certo, de que a prática do boxe exercida por atletas em sua maioria negros e negras das classes  populares  carrega um estigma, uma marca histórica de racismo que resulta na falta de apoio para uma parcela significativa da população da cidade. Por isso apresentamos de forma inaugural para esse debate sobre superação de desiguldades raciais um intrumento de Reparação.

O boxe é um instrumento sócio-educativo de grande importância no combate a violência instalada nas comunidades pobres e periféricas, sobretudo, e que atinge preferencialmente a juventude. A prática do boxe tem servido ao propósito de direcionar  esta juventude a uma alternativa de cidadania plena e responsável.

O Torneio Zumbi dos Palmares de Boxe, vai acontecer no dia 27 de Novembro de 2009, na Praça Municipal em frente ao Elevador Lacerda. Ao tempo em que celebra a consciência negra em nosso município, busca dar visibilidade à pratica esportiva do boxe e o reconhecimento aos atletas do passado que deixam seu legado de luta e resistência.Os propósitos deste torneio são sociais e pretendem criar espaços de diálogos intersetoriais  para o fortalecimento desse esporte, já vitorioso em nosso município e Estado.

Nesse mês  em que  celebramos a consciência negra tendo Zumbi dos Palmares como símbolo, parece que nós, praticantes do Boxe pedimos ao poeta Limeira um verso emprestado, é que a cada rodada de lutas que  fazemos  Palmares  se reinventa, Palmares surge  novamente de novo, e novo é entender que por dentro da dor instalada pela violência a juventude negra e pobre de Salvador vai criando alternativas pelo esporte, pela luta.

Hamilton Borges Walê,militante do Movimento Negro e praticante de Boxe

 


Passeio pela história da comida afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 1:26 PM
21 de novembro de 2009
Vilson Caetano Júnior fala sobre as delícias da cozinha afro-brasileira. Foto: - Fernando Amorim | AG. A TARDE

Vilson Caetano fala sobre as delícias da cozinha afro-brasileira. Foto: - Fernando Amorim | AG. A TARDE

Vilson Caetano

Africanos e africanas desde cedo influenciaram a economia da cidade de Salvador e Recôncavo baiano. Um trabalho realizado nos arquivos da cidade de Cachoeira, por exemplo, foi capaz de nos revelar ocupações variadas. Certo é que muito antes da economia entrar em declínio no século XIX, homens e mulheres negras transitaram nas cidades com gamelas e tabuleiros, verdadeiros altares andantes onde iguarias africanas alternavam-se o tempo todo com comidas, ora de origem indígena,  portuguesa, ora moura, africanizadas pelos sentimentos e modos de preparar que faziam referência a um passado que a escravidão não foi capaz de apagar.

Autores como Pierre Verger e Roger Bastide nos legaram trabalhos bastante ilustrativos sobre a importância da arte de mercar e do mercado para os diversos grupos que nos constituíram. Mercado este, atravessado de sacralidade, fato que levou alguns autores à confusão entre a comida ritual e as vendidas nas ruas. É bem certo que muito antes da constituição dos cultos descritos a partir do século XIX, as ruas sempre conheceram “comidas africanas”.

O professor de grego Vilhena, nas suas famosas cartas, nos informa sobre algumas destas iguarias, pena que poucas delas permaneceram no tabuleiro, não cedendo espaço aos modismos e invenções que na atualidade acompanham a cozinha afro-brasileira.

Como esquecer das chamadas “carambolas”, mulheres citadas por Vilhena que regulavam senão a economia,  parte dela, impondo seus preços aos peixes comercializados numa das portas da cidades?  Chamadas de atravessadoras, estas libertas foram motivo de atenção.

E como não falar sobre as mulheres que vendiam nas suas gamelas carnes como mocotó, fato, sarapatel e outras iguarias ainda hoje condenadas pelo “nutricionismo”, ora amparado pelo discurso higienista, ora pela busca de comidas mais saudáveis?

Gosto muito de uma tela de Debret que retrata a venda nas ruas da cidade antiga do Rio de Janeiro. Vale a pena contemplar os tachos de angu justapostos, denotando que tal iguaria já havia caído no gosto popular. E o vatapá aclamado nas mesas parisienses, segundo Câmara Cascudo? Outro exemplo de iguaria afro-brasileira no mundo.

Não podemos deixar de citar o velho Gilberto Freyre que atento chamou a atenção para os doces dos tabuleiros que nas ruas de Recife rivalizavam com os que saiam dos conventos. Falando em doces, onde foi parar a “amoda”? Será que as doceiras “perderam o ponto”, ou a mistura de rapadura com farinha de mandioca e gengibre não sobreviveu aos novos gostos? E o aberém? Segundo Manuel Querino, transformado em refresco.

Este sim, ainda podemos encontrar em alguns terreiros de candomblé como comida litúrgica. Talvez a sua permanência  se explique por fazer parte de iguarias que ninguém tem acesso à sua feitura que não se vê nem a panela, nem o fogo e muito menos a  fumaça. É comida sobre a qual ninguém fala, ou não está autorizado a falar pelo “segredo”.Aberém também já foi comida de rua.

Hoje a moda é o akarajé, não o akará bem parecido com os que ainda hoje podem ser encontrados nas ruas de algumas cidades africanas, mas o semelhante ao hambúrguer, acompanhado com o refrigerante de cola. Resguardadas as criticas, que bom que ele permaneceu, juntamente com o abará, a passarinha e o bolinho de estudante. Até a pimenta ficou menos picante, respeitando a exigência da demanda turística.

Não podemos deixar passar as “mulheres do mingau”. Mingaus de milho, tapioca, carimã que continuam presentes dando “sustança” aos  fregueses, sem falar no mungunzá e no cuscuz de tapioca que nunca deixaram de ser itinerantes. Hoje transitam nos carrinhos empurrados pelos “meninos”, resistindo a todo e qualquer “discurso higienista” que insiste sobre os perigos da contaminação através das “comidas de rua”.

Bom mesmo foi que estas comidas deram visibilidade nos últimos anos à inserção do homem negro e da mulher negra na economia da cidade de Salvador, os tirando do anonimato e da classificação na maioria das vezes preconceituosa do mercado informal, o que para nós é excelente, pois traz a memória de Maria de São Pedro, Cecília do Bonocô, Aninha e tantas outras mulheres que através do comércio de elementos rituais ou iguarias reforçaram os laços entre partes do Continente Africano, a Ásia e o Brasil.

Estas “mulheres de saia” merecem mesmo o título de “mulheres do partido alto”, ou “homens de elite” como Martiniano Eliseu do Bonfim e Felisberto Sowzer, exímio conhecedor de inglês, conhecido como Benzinho, descendente direto da família Bangboxé.

Homens e mulheres com seus balangandãs, que acumularam riquezas, retraçaram a própria cidade, que mesmo estigmatizados nos legaram a maior fortuna; o orgulho de nos sentirmos seus descendentes quando descobrimos que somos negros.

Vilson Caetano é pós-doutor em antropologia e professor da Ufba


Edital para promoção da cultura negra

postado por Cleidiana Ramos @ 3:29 PM
4 de agosto de 2009
Zulu Araújo é o  presidente da Fundação Cultural Palmares. Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE

Zulu Araújo é o presidente da Fundação Cultural Palmares. Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE

Tem edital da Fundação Cultural Palmares para apoiar projetos de promoção da cultura negra.  O financiamento totaliza cerca de  R$ 400 mil. Para concorrer os projetos tem que ter como direção a Lei 10639/03, que detemina o ensino de Históira da África e Cultura Afro-Brasileira, com enfoque em atividades culturais comemorativas ao Dia Nacional da Consciência Negra 2009.

O tema das atividades deve ser Renascimento Africano- Fesman. O Festival de Música e Artes Negras (Fesman), cuja realização prevista para dezembro deste ano acaba de ser adiada (Veja mais aqui sobre o adiamento). Elas devem ser direcionadas para crianças e jovens em idade escolar.  

As inscrições já estão abertas e vão até o dia 14 de setembro. O projeto deve propor ações para todo o mês de novembro em pelo menos uma das seguintes expressões artísticas e sociais: teatro, dança, literatura, música, cinema, moda, design, artesanato, culinária, formação cultural ou seminários com temas políticos e sociais voltadas para a questão negra. 

As propostas podem ser inscritas em duas categorias: Projeto individual, voltado para artistas que desenvolvem trabalhos ligados à cultura negra; e Projeto de Entidades Privadas Sem Fins Lucrativos, que também trabalhem com estes temas e tenham, no mínimo, três anos de fundação.

Cada projeto individual selecionado receberá R$ 20 mil. Até dez projetos podem ser contemplados. Já a categoria de entidades privadas vai premiar cinco propostas com um prêmio de até R$ 40 mil por projeto.

Para acesso à versão on line do edital clique aqui .  Já  neste link você encontra mais informações sobre o processo de seleção.


A ciranda na Semur

postado por Cleidiana Ramos @ 11:57 AM
19 de maio de 2009
Prefeito ainda está às voltas com a titularidade na Semur.  Foto: Fernando Vivas|AG. A TARDE

Prefeito ainda está às voltas com a titularidade na Semur. Foto: Fernando Vivas|AG. A TARDE

Mais um capítulo da novela em relação à substituição na Semur. Reproduzo aqui, na íntegra, a nota publicada  na Coluna Tempo Presente do jornal A TARDE, edição de hoje.  A coluna é  feita pelo jornalista Levi Vasconcelos, dono de boas fontes, é bom salientar, mas também de  um humor cortante:

A caminho do recorde

“Depois que Maria Alice Pereira foi rifada da Secretaria da Reparação de Salvador (por exigência do PDT), o vereador Odiosvaldo Vigas (PDT) cotado para substituí-la, disse que será candidato a deputado no próximo ano e recusou, mas vai sugerir ao partido o nome de Mário Nelson (na verdade é Marinelson) Carvalho, da Associação de Empresários e Empreendedores Afro-Brasileiros.

Por enquanto, Ailton Ferreira (que já foi titular) fica como interino. Ele é o quinto a ocupar a pasta (quase pura). O sucessor dele será o sexto, o que coloca a Secretaria da Reparação como potencial candidata ao recorde de titulares (em meio a fortíssima concorrência)”.

Este é o teor da nota de Levi que, como já disse, para redigir algo do tipo consulta várias e confiáveis fontes. É aquela história que funciona quase sempre em jornalismo: “onde há fumaça, há fogo”, embora às vezes não necessariamente nessa ordem.

Com base nas informações do meu colega,  cheguei à conclusão, após checar com outras fontes – que falam em off, ou seja garantia de anonimato, típico de casos desse tipo-  de que existem dois movimentos em relação à gestão da Semur: um do PDT, que reivindica o órgão como da sua cota e quer realmente indicar um novo titular; e um do prefeito João Henrique no sentido de manter como secretário o que agora responde interinamente (Ailton Ferreira).

Em tempo: filiações ao partido não parecem necessariamente jogar contra ou a favor neste caso, mas sim a afinidade com a direção do PDT. Vamos esperar para ver as cenas do próximo capítulo.


Ecos do racismo institucional

postado por Cleidiana Ramos @ 2:31 PM
18 de maio de 2009
Organização da sociedade civi tem sempre força. Foto: Margarida Neide | AG. A TARDE

Organização da sociedade civil tem sempre força. Foto: Margarida Neide | AG. A TARDE

Em tempos de discussão sobre políticas públicas para a população negra, às vezes acabamos por esquecer o quanto estas conquistas, ainda poucas diante da sua necessidade, são recentes.

O jornalista, poeta, inclusive membro da Academia de Letras da Bahia, e editor-chefe de A TARDE ,  Florisvaldo Mattos, localizou uma preciosidade do que podemos caracterizar como racismo institucional do Estado brasileiro. Vale, inclusive, para quem está pesquisando o tema.

Trata-se do  texto intitulado Censo das Favelas. Aspectos Gerais. O estudo foi realizado entre 1947 e 1948 pela Prefeitura do Distrito Federal,  Secretaria de Interior e Segurança e o Departamento de Geografia e Estatística, o precursor do IBGE.  O trecho é da página 11 de um relatório de 33 páginas. Prestem atenção no raciocínio do Estado sobre a população negra e a sua situação de pobreza:

“Muitas considerações já foram tecidas relativamente à eugenia, mas as autoridades competentes têm mostrado certas reservas no trato dos diversos fatores suscetíveis de melhorar a raça humana. Para os nossos propósitos, tomaremos os favelados essencialmente como são constituídos  e examinaremos o que deles se pode esperar de acordo com as realidades, tanto sob o ponto de vista econômico, como social e moral.

O preto, por exemplo, via de regra não soube ou não poude aproveitar a liberdade adquirida e a melhoria econômica que lhe proporcionou o novo ambiente para conquistar  bens de consumo capazes de lhe garantirem nível decente de vida. Renasceu-lhe a preguiça atávica, retornou a estagnação que estiola, fundamentalmente distinta do repouso que revigora, ou então – e como êle todos os indivíduos de necessidades primitivas, sem amor próprio e sem respeito à própria dignidade – priva-se do essencial à manutenção de um nível de vida decente, mas investe somas relativamente elevadas em instrumentária exótica, na gafieira e nos cordões carnavalescos, gastando tudo, enfim, que lhe sobra da satisfação das estritas necessidades de uma vida no limiar da indigência”.

Algumas considerações que podemos fazer sobre o pensamento do Estado brasileiro de então:

A pobreza era culpa da população negra, que trazia como traço característico a preguiça e o dom de gastar tudo com inutilidades. A liberdade que lhe foi concedida, com o fim da escravidão, foi um benefício que ela nunca soube aproveitar.

Se formos analisar bem, este pensamento, que o Estado expunha sem nenhum constrangimento, tem pouco mais de 60 anos. Daí que mais uma vez volto aqui a um tema que tratamos  na semana passada com o gancho da substituição na Semur.

É mais do que necessário e urgente uma maior fiscalização sobre a forma como estão sendo conduzidos estes órgãos voltados para resolver as questões de desigualdades por conta de etnia nas três esferas: município, estado e União.

Este deve ser um compromisso de todos nós. Criticar e ficar de braços cruzados só faz com que as poucas políticas existentes percam sua força ou fiquem ainda mais desacreditadas.

O Estado brasileiro, em todas as suas instâncias, tem uma dívida secular com a população negra e não tem o direito de postergar ainda mais este pagamento. E, nós, sociedade civil, constantemente, esquecemos o poder- e isto não é clichê- que a nossa organização possui.  Acordemos então.