O dia da festa do povo

postado por Cleidiana Ramos @ 3:59 PM
1 de julho de 2010

Cortejo do 2 de julho é uma festa inigualável. Foto: Iracema Chequer | AG. A TARDE

Considero o 2 de julho a mais bonita festa da Bahia. Isso porque é difícil ver nas outras uma mistura tão bem acabada de política, religião e festa.

Afinal, onde existe uma parada cívica com capoeiristas, gente vestida de baiana e vaqueiros devidamente trajados misturados às representações oficiais da Polícia Militar e da Marinha?

Além disso, muita gente vai ali para fazer orações e agradecimentos aos caboclos do 2 de julho já sincretizados às entidades homônimas saudadas nos candomblés baianos. E como ignorar o surgimento desta festa?

No dia 2 de julho de 1823, o povão, no mais puro baianês, estava retado. Depois de tantas promessas o Brasil estava livre de Portugal, mas descendentes de índios, escravos e libertos, muitos dos quais tinham entrado na guerra ou perdido familiares nos combates, continuavam do mesmo jeito: pobres e sem liberdade nenhuma.

Aquela história de Exército Libertador não apagou as diferneças entre elite e povo. Tudo continuava como dantes no quartel de Abrantes para este último.

E talvez tenha sido aí que começou a tomar forma um outro famoso ditado baiano: “Vá chorar no pé do caboco”. Ou seja: “se virem”. O povo resolveu apelar para o caboclo, literalmente.

Um movimento popular fez o mesmo caminho que as tropas tinham feito um ano antes tendo à frente uma canhoneira portuguesa transformada em carroça que levava um velho descendente de índio. Era uma caricatura da entrada das tropas brasileiras vencedoras. Simbólico que à frente estivesse um representante do povo.

E ai de quem tentou alterar o que os donos da festa decidiram fazer. Conta-se, por exemplo, que no final do século XIX o comandante de armas que era uma espécie de prefeito da cidade decidiu que a estátua do caboclo, pois ela já havia sido feita, não iria sair mais. A decisão era por conta do símbolo de Portugal na estátua: uma serpente sendo morta pelo caboclo.

O cidadão era descendente de português e se sentiu ofendido. No lugar do caboclo ele queria uma imagem feminina para homenagear Catarina Paraguaçu.

Pois a associação dos veteranos da guerra mandou um recado: ou o caboclo saía ou eles iam pegar em armas e ia correr sangue. Seria uma guerra civil em defesa do caboclo. O comandante recuou, o caboclo foi para a rua e melhor ainda: ganhou uma companhia feminina, a cabocla.

Ou seja: no 2 de julho, como diz o professor Cid Teixeira, autoridade é que é penetra. Mesmo com todo o discurso de festa cívica a irreverência original está lá nesta característica de parada militar embolada a manifestações culturais diversas.

Lembro que um maestro de uma banda militar me contou que na primeira vez em que foi reger no desfile ficou sem entender nada. Carioca, ele imaginava que a festa da Independência da Bahia, a maior data cívica do Estado, era uma espécie de 7 de setembro.

Para a sua surpresa o que viu foi o povo gritando e aplaudindo o carro dos caboclos, correndo para tocá-los. Na confusão o seu quepe foi jogado para longe e ele teve que se virar para reger a banda como deu.

A surpresa do integrante da Marinha é a típica reação de quem é de fora quando vê o 2 de julho, o que só prova a sua característica de festa especial.

Que bom que o povo baiano consegue manter essa sua rebeldia. No 2 de julho o povo aplaude quem acha que deve, vaia quem acha que merece e não é à toa que políticos se esforçam para seguir atrás do cortejo rodeado de cabos eleitorais.

Aliás o 2 de julho é termômetro para quem se aventura na disputa das urnas para saber se está bem ou em baixa.

Mas a volta dos caboclos alguns dias depois é ainda mais irreverente. Não tem cerimônia oficial, mas muita festa.

Enfim, o 2 de julho é uma celebração de independência desse jeito povão de ser. E viva aos caboclos! Atrás deles só não vai quem não pode.

Em tempo: o cortejo sai, amanhã, às 8 horas da Lapinha por conta do jogo da Seleção Brasileira. Vão montar um telão na Praça Muncipal para quem quiser acompanhar a partida.


Sessão especial celebra os 100 anos do Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 3:38 PM
10 de junho de 2010

Mãe Stella é a atual ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro que está comemorando 100 anos. Foto: Margarida Neide| Ag. A TARDE

Amanhã, a Assembléia Legislativa da Bahia faz uma sessão especial para comemorar o centenário do Ilê Axé Opô Afonjá.  A sessão, proposta pelo deputado estadual Bira Corôa (PT-BA) vai começar às 9h30 no plenário da Casa.

O Afonjá é um dos mais tradicionais terreiros de tradição ketu do Brasil. Foi fundado por Mãe Aninha em 1910 e teve uma importante participação na luta contra o preconceito que pairava sob o candomblé.

Mãe Aninha foi uma das mais importantes ialorixás baianas. De uma inteligência e mobilidade políticas impressionantes, soube contornar obstáculos como a proibição do uso dos atabaques conseguindo uma liberação do governo federal por meio do conhecimento que tinha com Osvaldo Aranha, homem forte do primeiro governo Vargas.

Ela também teve uma participação importante no Congresso Afro-Brasileiro, organizado por Édison Carneiro e Martiniano do Bonfim. Mãe Aninha investiu na recuperação de tradições do reino de Oyó e Ketu, de  onde o culto de Xangô é originário. Um dos exemplos dessa reconstrução histórica é o Conselho dos Obás, implantado no Afonjá. Eles são considerados os ministros do culto de Xangô.

Outra ialorixá de destaque foi Mãe Senhora, que conquistou um imenso respeito por seus modos imponentes— era filha de Oxum— e seu conhecimento litúrgico.

Em 1976 a Casa foi assumida pela atual ialorixá, Mãe Stella. Na década de 80 ela foi  repsonsável por um manifesto que conclamava os integrantes do candomblé a reafirmarem sua religião, afastando-se do sincretismo que é o nome dado à associação entre santos católicos e orixás, inquices e voduns. Além disso, até então, era muito comum que ritos do candomblé tivessem algum tipo de correspondência com o catolicismo, como iaôs irem assistir missa após as cerimônias internas nos terreiros.

O manifesto ganhou repercussão e foi assinado também por Mãe Menininha, Olga do Alaketu e Doné Ruinhó. Mãe Stella também tem feito um trabalho de divulgação da filosofia do candomblé por meio da literatura. Ela é autora dos seguintes ivros: E daí aconteceu o Encanto, escrito em parceria com Cléo Martins; Meu Tempo é Agora; Oxóssi o Caçador de Alegrias; Owé- Provérbios e Epé Laiyé- Terra Viva, voltado para o público infanto-juvenil.

Foram também ialorixás do Afonjá: Mãe Bada, sucessora de Mãe Anininha e Mãe Ondina, sucessora de Mãe Senhora.


Okê Arô!

postado por Cleidiana Ramos @ 1:39 PM
3 de junho de 2010

A Casa Branca é um dos terreiros que inicia hoje seu ciclo de festas. Foto: Arquivo A TARDE

Hoje os terreiros Casa Branca do Engenho Velho da Federação, Gantois e Ilê Axé Opô Afonjá começam os seus ciclos de festas. As homenagens são para Oxóssi, senhor das matas, o rei dos caçadores e, portanto, provedor da sua comuidade e o que proporciona fartura.

Não tenho aqui comigo o calendário das festas, com os seus horários exatos, mas o Afonjá, que fica em São Gonçalo do Retiro, costuma começar o rito mais cedo, ali por volta das 19h30. Casa Branca (Avenida Vasco da Gama) e Gantois (Alto do Gantois, Federação) por volta das 21 horas.

São festas abertas ao público, mas atenção com algumas regras: sempre escolham cores claras para vestir; não é permitido o uso de bebidas alcóolicas e a movimentação dentro do barracão deve seguir as regras das Casas que, normalmente, no caso destas três não permitem registros fotográficos. É de bom tom desligar o celular como, geralmente, se faz em qualquer cerimônia; homens e mulheres ficam em espaços diferentes no barracão. Dúvidas podem ser tiradas com os ogãs que ficam sempre a postos para orientar visitantes.

No mais é apreciar a beleza destas festas e saudações ao grande Oxóssi: Okê Arô!

Tradição— Oxóssi na Bahia foi associado, no encontro entre candomblé e catolicismo, com São Jorge. Não se sabe ao certo porque estas três casas irmãs — o Gantois e o Afonjá foram fundados por sacerdotisas egressas da Casa Branca — iniciam seu calendário festivo com honras a esse orixá. Casa Branca e Afonjá, inclusive, tem com patrono Xangô.

Uma das explicações, formulada pelo professor Valdir Freitas de Oliveira, é que na procissão de Corpus Christi, importantíssima para a cidade e a primeira realizada após a fundação de Salvador, em 1549,  São Jorge tinha um lugar de destaque. O seu andor vinha à frente.

Além disso, esse era um dia, talvez, de razoável folga na labuta de quem era escravo. Por ser um dos mais importantes dias santos (nesta festa os católicos celebram o sacramento da Eucaristia, que acreditam, é a presença do próprio Jesus em forma de comida na hóstia consagrada que desfila pelas ruas levada por um sacerdote) havia, para os escravos e também libertos uma melhor tranquilidade para celebrar na linguagem da crença inspirada na África.         


Notícias de Atlanta 3: O táxi dirigido por Ogun

postado por Cleidiana Ramos @ 7:49 PM
28 de maio de 2010

Numa das raras pausas durante as atividades da reunião do Japer (Plano de Ação Conjunta Brasil-EUA para o Combate à Discriminação Racial e Étnica), ocorrida  em Atlanta ,conheci uma figura bem interessante. O contato foi rápido, mas bem rico. Eu, Paulo Rogério, diretor executivo do Instituto Mídia Étnica, e Mabel Lara, uma jornalista colombiana, precisamos tomar um táxi em Atlanta. Tanto lá como em Washington, os taxistas, normalmente, são africanos. É possível contato com etíopes, nigerianos, senegaleses e vários outros povos do continente.

Pois bem. O taxista chama-se Ogunteile. Eu e Paulo Rogério, imediatamente, começamos a chamá-lo de Ogun e fazer perguntas sobre a Nigéria, afinal a referência cultural desta região é uma das mais fortes aqui na Bahia.

O papo foi liderado por Paulo que fala inglês muito bem. Ficamos sabendo da forte identificação que eles realmente têm também com a Bahia, principalmente por conta dos agudás, os chamados retornados. São descendentes dos africanos que retornaram para lá no século XIX. Muitos partiram de Salvador após o aumento da repressão que se seguiu aos episódios relacionados à revolta dos malês.

O iroubá é uma língua extremamente dinâmica. Algumas das poucas expressões que a gente sabia fomos falando para Ogum, como “agô” e “omi” e ele, imediantamente, traduzia para o inglês com o mesmo sentido que elas têm na tradução para o português, que são  ” licença”  e  “água”. Mais uma prova da riqueza cultural que os terreiros de candomblé conseguiram preservar.

Ogun, quando soube que éramos baianos, imediatamente nos chamou de irmã e irmão.  Tentamos agendar com ele o nosso retorno, mas aí ele se atrasou além dos 15 minutos que tinha nos prometido e tivemos que tomar o táxi já com um etíope. Foi outra oportunidade de sabermos mais sobre a Etiópia, mais uma vez num papo liderado por Paulo Rogério. A guerra do país para obter acesso ao  mar,  por exemplo, foi um dos temas.

Não me lembro agora o nome do último taxista, pois, também depois de ter conhecido Ogun que vive à frente do volante de um táxi, ou seja, bem próximo do simbolismo do orixá homônimo que é o dono dos caminhos,  ficou difícil  guardar  tantas informações. Ah sim! A maioria dos taxistas de lá fica de mau humor quando a gente não dá  gorjeta. Não foi este o caso do simpático Ogun.


Liderança feminina no candomblé em destaque

postado por Cleidiana Ramos @ 4:12 PM
26 de maio de 2010

A ialorixá da Casa Branca, Mãe Tatá, é uma das lideranças do candomblé baiano. Foto: Abmael Silva | AG. A TARDE| 15.11.2007.

Pessoal: amanhã das 8  às 18 horas tem a I Oficina de Lideranças Femininas das Religiões de Matriz Africana na Bahia. A ideia do encontro é muito legal: troca de experiências entre essas mulheres que são exemplo de resistência na conservação das tradições afrorreligiosas.

O encontro vai acontecer  no Centro Cultural da Barroquinha, local que tem uma estreita relação com a história de constituição da Casa Branca, que é considerado o mais antigo terreiro de tradição ketu do Brasil.

As interessadas podem comparecer e fazer a sua inscrição, que é gratuita. A programação é extensa, mas as oficinas serão sobre história, com a participação da professora Cecília Soares,  que tem um trabalho maravilhoso sobre a atuação das mulheres negras no século XIX; sobre liderança, dentre outros temas. Também vai acontecer a mostra de filmes.


Festa para a memória no Oxumarê

postado por Cleidiana Ramos @ 6:59 PM
25 de maio de 2010

Terreiro comandado por Babá PC está em festa. Foto: Wilson Militão/Divulgação

O Ilê Axé Oxumarê preparou uma programação especial para festejar a memória. Amanhã, com uma sessão especial na Câmara Municipal, a partir das 19 horas, começam as comemorações do Odum Adotá. A celebração é uma homenagem à luta e resistência das mulheres negras para a preservação do candomblé.

A sessão foi proposta pelo vereador Carballal (PT) e vai contar com a presença do presidente da Fundação Palmares, Zulu Araújo. Caravanas de diversos Estados vão estar presentes. A Orquestra Afro-Sinfônica, regida pelo maestro Ubiratan Marques, fará uma apresentação.

Na quinta-feira será realizada a mesa redonda intitulada “Ancestralidade: quem é de axé diz que é”, a partir das 14  horas, seguida da inauguração da Praça Babá Salacó. O encontro será no Terreiro Oxumarê, localizado na Avenida Vasco da Gama, Federação. As comemorações serão encerradas no dia 29 (sábado) com uma celebração religiosa a partir das 20 horas no terreiro.

A  história do Oxumaré tem como referência o final do século XIX (1875) com a ação do babalorixá Antônio de Oxumarê, que era também conhecido como seu Antônio das Cobras, filho-de-santo de africanas. A partir do seu reinado a Casa foi comandada pela Ialorixá Cotinha de Yewá;  Francelina de Ogun; Simplícia de Ogum, Ebomi Nilzete de Iemanjá até chegar ao comando do Babalorixá Silvanilton da Mata, o Babá PC.

As comemorações do Odum Adotá estão sendo organizadas pela instituição civil que representa o terreiro: a Associação Cultural e Religiosa São Salvador- Ilê Axé Oxumarê.


Abertas inscrições para o Capoeira de Saia

postado por Cleidiana Ramos @ 4:01 PM
10 de maio de 2010

Programa promove capacitação para mulheres capoeiristas. Foto: Gildo Lima | AG. A TARDE

Atenção mulheres que praticam capoeira: estão abertas as inscrições para o programa Capoeira de Saia 2010/Edição Mundial.

A iniciativa é voltada pra a capacitação de mulheres praticantes de capoeira e de áreas relacionadas. A ideia é auxiliá-las a ministrar palestras em festivais, participar de excursões e de cursos de extensão.

As aulas são ministradas por mestres e vão acontecer no período de 26 a 30 de maio no Forte de Santo Antônio Além do Carmo, localizado no bairro de Santo Antônio Além do Carmo e  conhecido como o Forte da Capoeira.

Segundo a organização do programa,  a palestra de abertura no dia 26, às 19h30, será feita por Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

No dia 29, a partir das 16 horas, tem a aula aberta no Farol da Barra. A expectativa dos organizadores é reunir mais de mil participantes.

Para saber mais sobre o programa, clique aqui.


Balaio de Ideias: Diga que é Filho de Oxalá

postado por Cleidiana Ramos @ 6:35 PM
26 de abril de 2010

Jaime Sodré apoia a campanha do CEN para a autoafirmação religiosa de matriz africana durante o Censo. Foto: Elói Correa| AG. TARDE| 17.01.02

Jaime Sodré

O não e o sim têm as suas razões históricas. Não se trata de uma simples concordância ou uma rejeição ao sabor da vontade pessoal ou coletiva, desprovida de conteúdos significativos, mas das ações de forças poderosas, construtoras dos fatos, como resultado das relações e tensões densas ou harmônicas dos atores sociais. Assim, o nosso Imperador mandou “dizer ao povo que fico”, num episódio de afirmação, ou seja, o sim, que entrou para a história como o “Dia do Fico”. Mas Pedro,  o outro,  no episódio bíblico negou Cristo, não só uma vez, e sim nas reiteradas “três vezes”.

Negar é dizer não. Motivações não lhe faltariam? Não cabe aqui julgá-lo. Nos episódios revolucionários, em defesa dos seus pescoços, provavelmente silenciando ideias verdadeiramente nobres, inconfidentes baianos ou mineiros disseram não, mas a Coroa disse sim à execução de alguns dos nossos heróis. Maria Quitéria negou a sua condição feminina, transitória em farda masculina, no desejo de servir ao Imperador.

Os tentáculos da opressão operam milagres nefastos, cruéis, e muitos, sobre este espectro do ódio, da dor e da perseguição, na tortura, enfim, disseram não ou talvez sim? Caetano cantou é “proibido proibir” dizendo que a “mãe da virgem diz que não”.

Mas o que pode soar como uma inoportuna “lengalenga” justifica-se para abordar o que segue. De há muito o corpo religioso do segmento de matriz africana escondia-se em um “não”, e para um exercício razoável dos rituais sagrados do Candomblé, buscava-se o “sim”, a possível realização, ocultando-se no “sincretismo”, um disfarce em tempos opressores.

Mais tarde, embora o Estado dissesse não, em uma ação de perseguição inolvidável, invadindo templos, o sim, ou seja, o exercício dos rituais litúrgicos só se fazia mediante autorização policial. A campanha depreciativa, sistemática, contra o Candomblé, impondo-lhe proximidade com a barbárie e a feitiçaria, fizera muitos negarem sua vinculação religiosa de base africana, a sua filiação legítima. Presenciei, em tempos de outrora, veneráveis personalidades do povo-de-santo não exibir as suas contas sacrossantas temendo censura ou embaraços.

Não seria incomum neste contexto histórico, que muitos se afirmassem católicos. Mas, afinal, o dia da assunção plena, dizendo “alto e bom som” a sua verdadeira convicção religiosa, chegara. Reunidos no Teatro Gláucio Gil, coordenada pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN) e pela Superintendência de Direitos Humanos Coletivos e Difusos (Superdir) foi lançada a campanha Quem é de Axé diz que é! Razões históricas amparam esta iniciativa, mas, muito além do lançamento desta campanha, fora assinado um convênio entre a Superdir e a Secretaria de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (Seppir) que objetiva a criação do Centro de Referência de Enfrentamento à Intolerância Religiosa e a Promoção dos Direitos Humanos, e do termo de compromisso para catalogação das peças religiosas de matriz africana que foram aprisionadas entre os anos 30 e 40, principalmente.

O lançamento da campanha Quem é de Axé diz que é! foi comemorado com alegria, um grupo de Yalorixás e Babalorixás presentes, vibraram em cortejo. Creio que para Marcos Rezende, coordenador geral do CEN, e demais nobres fiéis realizadores e colaboradores, o momento é de grande e ampla divulgação, por isso, sirvo-me deste espaço para dar “a boa nova”. Chegou o momento do “sim vencer o não”, o momento de assumir, sem receio, o que a lei e a fé nos permitem.

Deste modo, quando o rapaz ou a moça do IBGE bater na sua porta, receba-o bem, com educação; dê-lhe água fresquinha, pois a sua tarefa é árdua; sirva-lhe um cafezinho, feito na hora; quem sabe, biscoitos, banana frita ou acarajé e abará. Mande-o sentar, e ao ser perguntado sobre a sua religião não tema, diga e repita, para que ouça bem e com clareza: “Meu nêgo, minha nega, eu sou filho de Oxalá. Meu filho, eu sou do Candomblé, sou do Axé, e você? Anote aí. Que ele mesmo te proteja e te livre das horas más. Vá na paz de Oxalá. Que ele mesmo abençõe a você e todos os seus, lembrança, e apareça!” Mas aproveite também para participar, caso o seu tempo permita, dos grupos de gestão do Censo, Há, inclusive, a possibilidade, ao que me parece, sem muita certeza, de responder no próprio site do IBGE. Busquem o CEN para confirmar.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Salve São Jorge!

postado por Cleidiana Ramos @ 1:07 PM
23 de abril de 2010

Devotos festejam São Jorge, o santo guerreiro. Foto: Wilton Junior |AG. Estado

Hoje é dia de São Jorge, o santo guerreiro que, apesar de ter tido o seu culto retirado do calendário obrigatório da Igreja Católica, ganha cada vez mais devotos.

A posição da Igreja Católica em relação a São Jorge e outros santos aconteceu em 1969. A ideia da institutição foi permitir que ficassem com festas obrigatórias apenas os santos que tinham dados biográficos com certa segurança histórica.

Costumo brincar que um dos grandes símbolos de São Jorge- a vitória sobre o dragão- acabou atrapalhando sua permanência entre o primeiro escalão dos santos, afinal não há comprovação da existência deste animal.

Apesar da decisão da Igreja, tudo que já havia sido consagrado para São Jorge e outros santos que tiveram as suas festas tornadas opcionais continuou, mas a tradição no catolicismo é não fazer novas dedicações.

Em Salvador a única paróquia dedicada a São Jorge fica no Jardim Cruzeiro e, independentemente da sua posição na liturgia católica, a igreja costuma ficar lotada de devotos.

São Jorge é considerado um santo guerreiro, capaz de ajudar seus seguidores em demandas dificeis.

Na Bahia, no encontro religioso entre candomblé e catolicismo ele foi associado a Oxóssi, divindade do candomblé ketu que é provedor da comunidade, pois domina as técnicas da caça e reina nas matas. No candomblé angola uma divindade com caraterísticas semelhantes é Mutalambô.


Resultado da II Promoção Cultural

postado por Cleidiana Ramos @ 6:42 AM
27 de fevereiro de 2010

Dadá Marques é o vencedor da II Promoção Cultural do Mundo Afro. Das indicações apresentadas, a dele foi a única que melhor se aproximou do pedido que foi feito.

Eis a resposta de Dadá: os três alabês são; Litinho, 55 anos, Deco, 27 anos e Roberto, 25 anos – todos do Terreiro Ilê Axé Opô Aganju, em Lauro de Freitas, do babalorixá Balbino Daniel de Paula. 

Embora o Aganju fique em Lauro de Freitas, considerei a resposta, afinal é também Região Metropolitana de Salvador (RMS). Parabéns a Dadá e fico aguardando o seu endereço para enviar o brinde que é  o CD Tributo à Ancestralidade, produzido por Jaime Sodré e Carlos Maguari.

O outro exemplar  fica guardado para um novo sorteio e prometo que vou pensar em uma fórmula de incluir os leitores do Mundo Afro também de outras cidades.  


Promoção Cultural termina amanhã

postado por Cleidiana Ramos @ 4:45 PM
25 de fevereiro de 2010

II Promoção Cultural do Mundo Afro oferece CD Tributo à Ancestralidade. Foto: Reprodução| AG. A TARDE

Amanhã termina o prazo para a participação na II Promoção Cultural do Mundo Afro. Para participar é necessário mandar o nome de três sacerdotes músicos de um terreiro de candomblé baiano e suas respectivas idades. É preciso acrescentar também o nome do terreiro, endereço nação e liderança. As duas indicações vencedoras serão aquelas cujas idades somarem o maior número de pontos.

É necessário também mandar o nome completo e endereço do participante, informações que não serão publicadas. Elas servem apenas para o envio do brinde, que  é o CD intitulado Tributo à Ancestralidade, produzido por Jaime Sodré e Carlos Maguari. O trabalho é uma reprodução do cortejo do presente de Iemanjá realizado pelo terreiro Omon Ilê Agboulá. A comunidade religiosa fica em Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica e é o mais conhecido templo dos dedicados ao culto de Babá Egum.

A produção tem também um registro curioso: o encontro entre o cortejo do Agboulá e uma procissão católica. Imperdível, não? Continuem mandando suas respostas.

Para ouvir uma das faixas do CD é só clicar aqui


Homenagem aos sacerdotes músicos

postado por Cleidiana Ramos @ 12:32 PM
23 de fevereiro de 2010

Já começaram a chegar as primeiras respostas para a II Promoção Cultural do Mundo Afro. Desta vez a homenagem é para os sacerdotes músicos do candomblé.

Os vencedores vão receber o CD Música Sacra do Candomblé e Tributo à Ancestralidade-Cortejo do Presente de Yemanjá- Ilha de Itaparica, Bahia. O trabalho foi produzido por Jaime Sodré e Carlos Maguary.

Para concorrer é só enviar o nome de três sacerdotes músicos de um terreiro de candomblé baiano e as suas idades. Mais atenção: os três devem pertencer ao mesmo terreiro. O nome da Casa, endereço, nação e identificação da sua liderança também devem constar na resposta.

Ganham  as duas indicações com maior soma das idades. Mãos à obra e boa sorte.


De volta

postado por Cleidiana Ramos @ 8:43 AM
22 de fevereiro de 2010

O Mundo Afro está de volta depois de alguns dias de ausência na atualização dos posts. Desculpem o intervalo, mas a maratona de trabalho no Carnaval e outros compromissos me obrigaram a dar uma desacelarada. Estamos de volta e com a novidade de mais uma promoção cultural, como vocês podem conferir abaixo.


II Promoção Cultural do Mundo Afro

postado por Cleidiana Ramos @ 8:39 AM
22 de fevereiro de 2010

Promoção do Mundo Afro faz homenagem aos sacerdotes músicos do candomblé. Foto: Xando Pereira| AG. A TARDE

Como havia prometido, temos uma nova promoção cultural no Mundo Afro. O brinde, mais uma vez, está sendo oferecido pelo professor Jaime Sodré que ficou animadíssimo com os resultados da anterior. Depois da literatura, vamos agora privilegiar a música religiosa, afinal um dos mais importantes elementos do candomblé é o canto.

São os sacerdotes músicos – alabê (nação ketu), huntó (nação jeje) e xicarangoma (nação angola)- que conhecem os cantos capazes de levarem as divindades a dançar. É uma beleza vê-los em atividade não só por meio da canção, mas também dos toques.

Vale ressaltar que é uma atividade cujo conhecimento é repassado oralmente de geração a geração. Além disso, embora seja de uma determinada nação, o sacerdote, normalmente, também domina conhecimento sobre os toques das demais.

Vamos então às explicações sobre a promoção: os concorrentes devem enviar o nome de três sacerdotes músicos de um terreiro de candomblé baiano e as respectivas idades. Mais atenção: os três devem pertencer ao mesmo terreiro. O nome da Casa, endereço, nação e identificação da sua liderança também devem constar na resposta.

As duas indicações com as idades que somarem o maior número de pontos ganham o CD intitulado Música Sacra do Candomblé e Tributo à Ancestralidade-Cortejo do Presente de Yemanjá- Ilha de Itaparica, Bahia. A produção é de Jaime Sodré, que é xicarangoma, e Carlos Maguary.

Vocês podem enviar as respostas até a próxima sexta-feira, dia 26. Devem também acrescentar o nome e endereço completo. Não se preocupem que estas informações não serão publicadas. Elas servem apenas para o envio dos brindes. Aguardo os resultados que serão também uma homenagem a estes sacerdotes.


Hoje tem afoxé no Centro Histórico

postado por Cleidiana Ramos @ 8:16 AM
14 de fevereiro de 2010

O Fihos de Gandhy durante a passagem pela Praça Castro Alves no Carnaval do ano passado. Foto: Fernando Vivas|AG. A TARDE

Todo mundo sabe a batalha que é para colocar os afoxés na rua, mas apesar das dificuldades eles dão um belo exemplo de resistência.

Hoje a partir das 16 horas uma das mais tradicionais destas agremiações, o Korin Efan, desfila trazendo não só a sua banda mas também o Bumba Boi de São Francisco do Conde e Taiz.

Em seguida é a hora do tapete branco do Filhos de Gandhy ser formado. Antes do desfile tem o tradicional ritual que pede licença às divindades do candomblé para que o Carnaval do afoxé aconteça de forma tranquila.


Uma história de caboclo

postado por Cleidiana Ramos @ 8:17 AM
4 de fevereiro de 2010

Maria Auxiliadora Andrade Pereira

Durante muito tempo ouvíamos falar que o Caboclo não fazia parte dos rituais da religião africana, pois todas as atividades realizadas nos terreiros eram dirigidas aos Orixás.

Contudo, na casa de dona Maria de Lourdes, filha de Oxum, a história é diferente. Dotada de um senso humanístico, mulher lutadora, mãe de seis filhos, essa nobre senhora residia à época no bairro do Garcia.

Certo dia, ela recebeu a ilustre visita do Pai Caboclo Tupinambá. A partir dessa data o Caboclo ensinou a toda a gente que o procurava o amor e a fé. Ensinou também a força das folhas, das matas, e o respeito aos mais velhos.

Hoje tem uma legião de filhos, recebidos pelo amor, não possui riquezas, mas o seu maior tesouro é o amor que dedica aos outros. A todo o momento ela se questiona: que missão é essa que recebi? E conclui com toda experiência e sabedoria que Deus lhe deu: Deus fez seu mundo certo!

Atualmente tem 80 anos, filhos criados, netos no caminho, e o seu protetor continua ali, presente.


Afro Imagem: Odoyá!

postado por Cleidiana Ramos @ 1:47 PM
2 de fevereiro de 2010

Iemanjá ganhou uma festa digna da devoção que conquistou em Salvador. O presente deste ano foi colocado em uma escultura que a representa na cor negra. O clique do repórter fotográfico Lunaé Parracho para o jornal A TARDE mostra o presente que os pescadores da colônia de pesca Z1, localizada no Rio Vermelho, ofereceram para a rainha do mar. Ao lado da escultura está a ialorixá Aíce Santos que cuida da obrigação religiosa da festa.


Festa para a rainha do mar

postado por Cleidiana Ramos @ 3:40 PM
1 de fevereiro de 2010

Dia de saudações para Iemanjá. Foto: Iracema Chequer | AG. A TARDE

Amanhã, todos os caminhos na capital da Bahia levam até Iemanjá, chamada de “a mãe cujos filhos são peixes” e também conhecida como aquela que fez brotar dos seus seios generosos as outras divindades.

Iemanjá costuma sempre ser muito festejada por seus devotos e filhos. É saudada como generosa e protetora, características próprias da maternidade que é uma das suas referências mais conhecidas.

Curioso que é a única das divindades das religiões de matrizes africanas que ganhou uma festa própria sem nenhum tipo de associação com santos católicos.

A festa nasceu de uma devoção dos pescadores da colônia de pesca Z-1, localizada no Rio Vermelho e resiste ano após anos. Se o primeiro presente foi levado numa caixa de sapato, o de agora segue em um barco, acompanhado por uma procissão de outras embarcações.

O agradecimento e pedidos de um grupo de pescadoes, portanto, acabou se transformando em apelos coletivos. E Iemanjá parece ouvir e atender, afinal, ano após anos, são mais e mais balaios para receber os presentes dos outros devotos que enfrentam filas quilômetricas para colocar seu agrado desde as primeiras horas da manhã.

E a festa não começa ali. No ínicio da madrugada, a zelosa Mãe Aíce, que orienta todo o ritual religioso, vai até o Dique do Tororó levar a oferta de Oxum, senhora das águas doces, que não pode e realmente não fica esquecida.

O ritual às margens do Dique é tranquilo, emocionante e completamente silencioso. O por quê? Como várias coisas em candomblé, a resposta é para quem está autorizado e precisa escutá-la. Aos demais fica a lição que se observa e entende aquilo que está ao seu alcance.

Após o agrado a Oxum é hora de levar a oferenda principal para o Rio Vermelho, que fica guardada na chamada Casa do Peso até o meio da tarde quando parte até o local onde  deve ser depositado como agradecimento e prece para que o ano seja farto. E os pescadores, ano após ano, mostram que estão satisfeitos com a sua rainha e a proteção que ela oferece a quem vive parte significativa da vida em seus domínios.

Missão religiosa cumprida, é hora de aproveitar as várias festividades no entorno da praia que não tem o nome específico, mas é conhecida como “aquela do presente de Iemanjá”. As feijoadas são as concentrações mais procuradas. Tem desde as oferecidas na simplicidade das barraquinhas até as servidas nos hotéis luxuosos do Rio Vermelho, sem falar nas chamadas “festas de camisa”, aquelas em que precisa adquirir este tipo de vestimenta para participar.

Com sua leveza e zelando pelo equilíbrio, afinal é a protetora da cabeça, Iemanjá do povo ketu, Mamento Dadá, Dandalunda ou Kayala, divindades com características semelhantes nas nações da família bantu,  ganhou na Bahia o domínio das águas salgadas. 

Portanto, como majestade que é,  recebe honrarias especiais dos seus súditos e filhos. Axé!  


Balaio de Ideias: Sagrada Colina

postado por Cleidiana Ramos @ 2:57 PM
26 de janeiro de 2010
A devoção das chamadas baianas é tema do artigo do professor Jaime Sodré. Foto:  Lúcio Távora | AG. A TARDE

A devoção das chamadas baianas é tema do artigo do professor Jaime Sodré. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

 

Jaime Sodré

Chegou o dia. Dona Tidinha pronta, nos seus 67 anos, obediente a iconografia musical de Caymmi, segue a orientação do mestre quanto ao “trajo”: torço de seda, brincos de ouro, corrente de ouro, pano-da-costa, bata rendada, pulseira de ouro, saia engomada, sandália enfeitada, tem. Mas, a bem da verdade, onde consta a palavra “ouro”, leia-se dourado, sinais dos tempos. Tinha graça como ninguém. Dona Tidinha não tinha um rosário de ouro, nem uma bolota assim ou balangandãs. Mas, com as graças de Oxalá, vai ao Bonfim. Jarro enfeitado, branquinho, palma de Santa Rita e Angélica, caule imerso no “amassi”.

Lá vai Tidinha. Segue pela Rua Direita de Santo Antônio, passa pela reforma da Igreja do Boqueirão, benze-se. Vislumbra a Igreja dos Quinze Mistérios, reduto Malê, benze-se. Segue o Pelourinho, dá de frente com a Catedral da Sé, benze-se ao padroeiro de Salvador, São Francisco Xavier. Desce o Elevador, repousa nas escadarias da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Bahia, e aguarda a saída rumo ao padroeiro popular da Bahia, Nosso Senhor Oxalá do Bonfim. Era assim que ela entendia e exercia a sua religiosidade. E toca a esperar… cochila.

No íntimo, agradece ao Capitão-de-mar-e-guerra Theodósio Rodrigues de Faria, a feliz ideia de render graças ao Senhor do Bonfim. A imagem de Nosso Senhor e de Nossa Senhora da Guia, vindas de Portugal, chegaram à Bahia por iniciativa deste capitão, fruto de uma promessa quando enfrentara intempéries marinhas. Em 16 de abril de 1745, a réplica da imagem instalada em Setúbal, terra natal de Theodósio, chega à Bahia.

Com a permissão do bispo D. José Botelho de Matos, é abrigada na Igreja de Nossa Senhora da Penha de França. Após o término da construção da igreja, iniciada em 24 de junho de 1754 e concluída em 1772, as imagens são trazidas para a Sagrada Colina.

Para alguns a lavagem teria sido iniciada em 1773, quando, a mando da irmandade dos leigos, os escravos efetivaram a lavagem do templo para a Festa do Bonfim, no segundo domingo após o Dia de Reis. Informa-nos o brilhante professor Sebastião Heber, que essas lavagens têm as suas raízes na metrópole portuguesa, mas não eram muito do agrado dos senhores bispos. Em 1534 o bispo de Évora teria interrompido este ato, alegando desrespeito aos valores católicos.

Na versão oral, a lavagem vinculada a Oxalá, nos moldes que conhecemos, teria sido uma iniciativa do Babalorixá Bernardino, com filhas de santo e água de cheiro, pagando uma promessa.  Em 1863 fechou-se o adro, colocando-se um gradil, doado pelo ex-juiz J.P. Rodrigues da Costa, contra abusos. Para comemorar o primeiro centenário da Independência da Bahia, em 1923, fora incluída na programação, a venerada Igreja do Senhor Jesus do Bonfim. Para a ocasião cria-se o Hino ao Senhor do Bonfim. A relação da Igreja e música surge em 1839, com as composições do violonista e compositor baiano Damião Barbosa de Araújo para as missas cantadas em latim.

Dona Tidinha acorda do cochilo, começa a romaria. Aos gritos de “Viva o Senhor do Bonfim” a caminhada segue com fé, e todos cantam o “Gloria a ti”, popularizado em uma gravação de Caetano Veloso. Na verdade, o Hino Oficial é de autoria musical de Edgas Muniz de Aragão Pethion de Gueiroz, com letra de Remigio Domenech: “Ao teu lado, sempre unidos, somos o seu povo, Nosso Senhor, Nosso Senhor do Bonfim, salva, protege, alumia pelo sinal desta cruz, o coração da Bahia, que a teus pés, o amor conduz, volve os teus olhos divinos, aos nossos males, oh sim, ouve o clamor desse hino, Nosso Senhor do Bonfim”.

O “Gloria a ti”, como o povo o intitula, foi composto em 1923 para as comemorações do centenário, por João Antônio Wanderlei e Artur de Sales. Artur teve a sua letra escolhida por Wanderlei, na ocasião regente da Banda da Polícia Militar. Dona Tidinha entoa a canção, promove uma alteração na letra, e ao invés de cantar “mansão da Misericórdia” canta “Mãe Santa Misericórdia”, mas tudo vale.

Às 18 horas do mesmo dia, os pés estão na água quente, a roupa, os adereços e fios de contas na cama, e diante do cansaço e esforço comenta o seu filho: “Não sei pra que isso, mamãe, se cansar à toa”. Responde D. Tidinha, retirando o torço: “Não é por mim filho, é pela humanidade”.

Jaime Sodré é professor, historiador e religioso do Candomblé


Promoção do Mundo Afro vai até sexta

postado por Cleidiana Ramos @ 11:45 AM
20 de janeiro de 2010
As quatro melhores histórias vão ganhar livro assinado pelo professor Jaime Sodré. Foto: Rejane Carneiro| Ag. A TARDE

As quatro melhores histórias vão ganhar livro assinado pelo professor Jaime Sodré. Foto: Rejane Carneiro| Ag. A TARDE

A promoção cultural do Mundo Afro prossegue até a próxima sexta-feira. Algumas histórias já chegaram e continuo aguardando as demais. 

Os autores das quatro melhores vão receber, cada um, um exemplar do livro Uma Historinha Africana, dirigido ao público infanto-juvenil e escrito pelo professor Jaime Sodré, com ilustrações de João Victor Dourado.

Para saber como participar da promoção acessem o post anterior clicando aqui.


Maroketu reabre hoje

postado por Cleidiana Ramos @ 9:59 AM
20 de janeiro de 2010
Mãe Cecília Soares assume hoje o Maroketu. Foto: Wilson Militão |Divulgação

Mãe Cecília Soares assume hoje o Maroketu. Foto: Wilson Militão |Divulgação

Hoje é dia da festa de reabertura de um tradicional terreiro de Salvador: o Ilê Axé Maroketu.  A cerimônia começa às 16 horas. A Casa será regida pela ialorixá Cecília Soares, filha de Mãe Pastora e neta da fundadora do terreiro, Cecília do Bonocô. 

O Maroketu foi fundado em 1943, na Ladeira do Bonocô, hoje denominada Rua Antônio Viana, em Cosme de Farias.  Cecília do Bonocô era consagrada a Azoani e filha religiosa de Damiana Oxalafalaqué que por sua vez foi iniciada pela legendária Iya Magebassan.

Segundo o histórico do tereiro os fundamentos do culto a Azoani, uma divindade com características próximas a Obaulaê da nação Ketu, foram preprados pelo célebre Martiniano do Bonfim.

Com referência à nação ketu, o terreiro tem raízes no culto jeje por conta de Azoni, mas também tem forte relação com o orixá Xangô. Cecília Soares vai suceder Mãe Pastora de Iemanjá Ogunté.

Além da sua tradicional herança religiosa, Mãe Cecília é também conhecida por sua carreira acadêmica. Professora da Uefs, é autora de estudos na área de história e antropologia, como o livro Mulher Negra na Bahia do Século XIX.


Cônsul pede desculpas

postado por Cleidiana Ramos @ 3:36 PM
15 de janeiro de 2010
Declarações do cônsul sobre a tragédia no Haiti soaram preconceituosas. Foto: AP Photo|The Canadian Press|Adrian Wyld

Declarações do cônsul sobre a tragédia no Haiti soaram preconceituosas. Foto: AP Photo|The Canadian Press|Adrian Wyld

O cônsul-geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, pediu desculpas e atribuiu suas declarações de caráter preconceituoso não só às religões de matriz africana, mas também aos povos africanos,  ao “seu português ruim” em momentos de tensão. O cônsul está no Brasil desde 1975.

Registrem-se as explicações do cônsul, mas vai ser difícil torná-las convicentes, pois além do áudio tem as imagens. Clique aqui para ver post com o vídeo das declarações de Antoine.


Promoção Cultural do Mundo Afro

postado por Cleidiana Ramos @ 10:14 AM
15 de janeiro de 2010
Blog sorteia quatro exemplares de Uma Historinha Africana. Foto: Fernando Amorim | AG. A TARDE

Blog sorteia quatro exemplares de Uma Historinha Africana. Foto: Fernando Amorim | AG. A TARDE

O Mundo Afro está lançando sua primeira promoção cultural. Vou sortear aqui quatro exemplares do livro Uma Histórinha Africana, de autoria do professor Jaime Sodré, com ilustrações de João Victor Dourado. O professor Jaime, gentilmente, doou os exemplares para este fim.

A edição do livro, dirigido ao público infanto-juvenil, foi vencedor de um edital da Fundação Palmares e faz parte de um projeto de apoio didático para aplicação da Lei 10.639/03, que estabelece o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. Atualmente, a Lei tem o número 11.645/08, por conta da modificação para também incluir o ensino de História e Cultura Indígena.

O projeto contemplou não só a distribuição do livro em escolas, mas também um encontro com a presença da ebomi Cidália Soledade, uma exímia contadora das histórias de trdição africana. Os encontros aconteceram em dezembro nas escolas Mãe Hilda, localizada na Liberdade, São Gonçalo e Mundo dos Sonhos, situadas na Federação.

O livro conta uma história envolvendo Doúm, Alabá e Elegbara e é um ensinamento sobre as muitas verdades que um mesmo fato pode oferecer.

Vamos fazer o seguinte: os quatro melhores relatos sobre histórias de tradição africana levam os exemplares. Podem ser contos relativos a inquices, orixás, voduns e caboclos, mas não vale, por exemplo, escrever igualzinho aos relatos de Pierre Verger ou de Reginaldo Prandi, por exemplo.

Contem como vocês ouviram as histórias de seus avós, pais e tios. Quem sabe não descobrimos outros griots (contadores de histórias) por aí?

História pronta é só enviar via o sistema de comentários do blog, com nome completo, endereço e telefone. Claro que não vou publicar estas duas últimas informações. É só para enviar o livro em caso de vitória.

Leitores de outros estados e países também podem participar. Não se preocupem que tem como fazer chegar o exemplar. O prazo para envio é até o próximo dia 22 (sexta-feira de hoje a oito).  

As melhores histórias além de levar o livro também serão publicadas no blog para a gente socializar as informações. Vamos lá. Estou ansiosa pela participação de vocês.  


Quem tem fé vai a pé

postado por Cleidiana Ramos @ 9:30 AM
14 de janeiro de 2010
Participantes disputam água de cheiro levada pelas baianas. Foto: Thiago Teixeira | Ag. ATARDE

Participantes disputam água de cheiro levada pelas baianas. Foto: Thiago Teixeira | Ag. ATARDE

Milhares de baianos e turistas já estão no adro da Igreja do Bonfim para a lavagem das escadarias. A Lavagem do Bonfim é uma das festas mais populares do calendário do verão de Salvador e mistura fé e muvuca, bem do jeito baiano de ser.

É uma homenagem ao católico Senhor do Bonfim, ou Senhor da Boa Morte, uma devoção iniciada pelo capitão Theodósio Rodrigues de Farias, membro da Armada Portuguesa. Após sobreviver a um naufrágio no século XVIII, o militar resolveu construir uma igreja em agradecimento.

Logo, o templo virou endereço de romaria. O início da lavagem é ainda controversa, mas parece ter começado durante os preparativos para a grande festa em homenagem ao Senhor do Bonfim que acontece no domingo.

Mas o que a gente realmente percebe é um forte simbolismo com as homenagens a Oxalá, divindade do candomblé. O rito realizado nos terreiros  é chamado de Águas de Oxalá, daí a presença das baianas no cortejo da lavagem levando na cabeça as quartinhas cheias de água de cheiro, preparadas com ervas especiais.

Aliás, para os devotos, a obrigação de andar os 7,5 quilômetros da Conceição até o adro da Igreja do Bonfim só está completa quando conseguem convencer uma das baianas a derramar sobre as suas cabeças um pouco de água de cheiro.

E, acreditem, tem até uma história envolvendo esta devoção com a Guerra da Independência da Bahia, ocorrida de novembro de 1822 a julho de 1823.

Este episódio é sempre contado pelo professor e historiador Cid Teixeira: durante o cerco das tropas brasileiras e a crescente tensão que se seguiu, pois os portugueses estavam sitiados em Salvador, o general português, Madeira de Mello, resolveu tirar a imagem da Colina Sagrada e levá-la para um convento no Terreiro de Jesus.

Era uma forma de tentar irritar as tropas brasileiras. A estratégia não deu o resultado que o general português queria e, quando o chamado Exército Libertador entrou na cidade no dia 2 de julho de 1823, uma das primeira providências foi levar a imagem de volta para o Bonfim em meio a uma grande festa.

Daí fica explicado o trecho do hino, que não é o oficial, mas aquele que ganhou a aprovação do povo, composto para comemorar o centenário da Independência:

“Glória a Ti, neste Dia de Glória/ Glória a Ti Redentor que há cem anos/Nossos pais conduziste à vitória, pelos mares e campos baianos”.

Para quem quiser saber mais sobre o lado afro religioso da lavagem vale conferir o livro Águas do Rei, do doutor em antropologia e professor da Ufba, Ordep Serra.


Balaio de Ideias: A força do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 3:30 PM
11 de janeiro de 2010

Anselmo Santos Minatojy

Fiquei extremamente preocupado com o sensacionalismo midiático que estão tentando proporcionar através de algumas ocorrências pontuais que se sucederam em algumas casas de Candomblé. Primeiramente devemos entender que o Candomblé não tem um porta voz oficial. Cada Sacerdote do Candomblé fala em nome da sua casa e da tradição que representa. Desta forma, todos são importantes para a construção da identidade candomblecista no Brasil.

Estamos participando de transformações sociais em todos os níveis da nossa vida familiar, religiosa, afetiva. O ser humano de nossa geração está passando por um profundo mergulho dentro da sua alma e identificando novos valores ou tentando dar novos valores a hábitos já construídos em nosso dia-a-dia.

Os Terreiros de Candomblé, apesar de conviver em harmonia com a contemporaneidade, ainda são um lugar que, sem nenhuma hipocrisia, tentam salvaguardar os valores étnicos e morais que nos conduziram até o presente momento da vida  em conformidade com a tradição recebida de nossos ancestrais.

Cada sacerdote tem como missão, além de dar manutenção às tradições herdadas de nossos ancestrais africanos,  cumprir o compromisso social com a comunidade onde o Terreiro está inserido. Esta responsabilidade não está situada apenas dentro dos muros dos terreiros, pois hoje eles precisam criar entidades não governamentais que busquem o desenvolvimento de projetos sociais que possam atender a toda a comunidade do seu entorno seja de praticantes de Candomblé (comunidade de terreiro) ou de qualquer outro credo religioso, de qualquer orientação sexual ou de qualquer cor e classe social.

Estas intervenções tão necessárias desenvolvidas pelos Terreiros de Candomblé visam exatamente atender a demanda não contemplada pelo poder constituído que, infelizmente, ainda é ineficiente no atendimento às populações periféricas de baixa renda. Estas, em sua maioria, compõem o grupo de praticantes, simpatizantes e vizinhos dos Terreiros de Candomblé.

Devido à falta de intervenção mais eficaz do poder público nas comunidades periféricas muitas mazelas sociais encontram ali um ambiente propício para o desenvolvimento de diversas ações que atentam contra a dignidade humana e, certamente, o tráfico de drogas é uma das mais influentes devido à agilidade com que as pessoas sem nenhuma formação conseguem se beneficiar financeiramente através destes atos ilícitos.

Podemos caracterizar os problemas citados de forma espetaculosa na mídia local como sendo apenas situações pontuais em comunidades que se constituíram em locais de alta periculosidade  atingindo desta forma cruel toda a comunidade pacata, ordeira e honesta que ali vive e que apesar de nunca ter se envolvido com nenhum ato ilegal  paga muitas vezes com a própria vida pela irresponsabilidade e ganância de alguns membros daquela comunidade que foram acometidos de um envolvimento voraz com a marginalidade.

Como os Terreiros de Candomblé estão em sua grande maioria instalados nas periferias das grandes cidades mantém um convívio mais de perto com  estas situações e trabalha diuturnamente para ajudar a melhorar a realidade das comunidades onde estão inseridas. Logo o Candomblé não foi, não é e nunca será refém de quaisquer manifestações marginais que acometam a comunidade onde ele está inserido.

Cabe ao Sacerdote gerir administrativamente os problemas buscando apoio do poder constituído (polícia civil, militar, secretarias de segurança pública de quaisquer instância de poder)  através de mecanismos próprios para o qual estes  órgãos foram criados. Além disso, deve cuidar religiosamente pedindo a proteção do Nkisi, Orixá,Vodun, Caboclos e todas as energias que compõem um Terreiro de Candomblé.

Nossos espaços de Terreiro sempre foram respeitados pelo papel social que representam na sociedade, pelo acolhimento e pela aceitação do ser humano em sua plenitude. Estes fatos desagradáveis foram fatos isolados que não comprometem o Candomblé como querem alguns sensacionalistas de plantão.

Graças aos nossos Deuses e Deusas o Candomblé ainda encontra respeito e a força das divindades nas quais acreditamos não deverá ser colocada como exemplo de casos isolados num universo de milhares de Terreiros de Candomblé que existem em nosso Estado e que vivem em paz e harmonia em suas comunidades.

Em tempos difíceis, violentos e de tanta inversão de valores, o Sacerdote, certamente além da sua função litúrgica, deverá incorporar o papel de fiscalizador da própria comunidade onde vive e buscar parcerias com instituições que podem e devem prestar um bom serviço de segurança aos cidadãos.

A luz e força das Divindades que nos trouxeram até aqui permaneçam iluminando os nossos caminhos e a mente dos Sacerdotes e Sacerdotisas que têm a imensa responsabilidade de representá-los em nossa sociedade.

Anselmo Santos é tata de inquice do Terreiro Mokambo 


Exposição aborda decoração da Casa Branca

postado por Cleidiana Ramos @ 4:15 PM
5 de janeiro de 2010
Decoração dos espaços do terreiro Casa Branca durante as festas é tema de exposição. Foto:  Lúcio Távora | AG A TARDE

Decoração dos espaços do terreiro Casa Branca durante as festas é tema de exposição. Foto: Lúcio Távora | AG A TARDE

Um evento interessantíssimo para quem curte fotografia e também se interessa por candomblé: na próxima sexta-feira, a partir das 18 horas, será aberta a exposição intitulada Depois da Festa- Decoração ritual do Terreiro da Casa Branca.

A mostra traz fotografias da decoração litúrgica da Casa Branca feitas por Regina Martinelli Serra. É uma oportunidade de conferir a variação de cores e formatos que tomam o barracão e outros espaços dos terreiros durante as festas. 

Regina Martinelli Serra é membro da comunidade da Casa Branca. Em 2001 ela pediu licença à ialorixá do terreiro, Mãe Tatá, para fazer as fotografias.

“Na Casa Branca não se pode fazer fotografias durante os rituais. Às vezes tinha que esperar um pouco mais, pois havia os erês e na sua presença também não podia registrar nada. Durante dois anos fui fazendo as fotos. Fiz também retratos que pretendo um dia incorporar a esta exposição”, conta Regina.

De acordo com ela, a exposição é também uma forma de mostrar a beleza do trabalho feito pela comunidade da casa, na maioria das vezes com papel, flores e pano. “Tudo muito simples e extremamente belo.  A criatividade do povo de santo conseguia tirar daqueles  elementos um esplendor que até hoje me comove”, completa.

A mostra prossegue até o dia 5 de março.O período de visitas é de segunda a sexta das 9 às 18 horas, no Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba e no Museu Afro-Brasileiro, ambos localizados no prédio da antiga Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, Pelourinho.


Balaio de Ideias: Um jornal contra o Candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 3:20 PM
5 de janeiro de 2010

 Jaime Sodré

Aquele jornal marcou sua passagem na história da imprensa baiana. No aguardo dos trâmites para a defesa da nossa tese de doutorado sobre a Imprensa e o Candomblé, que pretendemos fazer ainda em 2010, somos impelidos a revelar certos assuntos deste âmbito, para não frustrar os leitores de temas interessantes. O jornal O Alabama foi me apresentado, há tempos, pelo prof. João Reis notificando-me matérias sobre o Terreiro do Bogum.

Luiz Nicolau Parés, em seu imperdível livro “A Formação do Candomblé – História e ritual da nação jeje na Bahia”, recorre a O Alabama. Este jornal, intolerante frente às práticas das religiões de matriz africana em Salvador, ferrenho adversário, ao tempo em que revela o pensamento dos seus editores quis o destino que fosse de utilidade para o registro das atuações persistentes dos líderes religiosos da época.

Os seus redatores chamavam-se de “mulatos e negros”. Ao contrário do pensamento de alguns, o simples fato de “ser da cor” não seria garantia de um tratamento cordial frente aos costumes dos seus iguais. Logo, O Alabama, “periódico crítico e chistoso”, fundado em Salvador, em 1863, era composto por afro-descendentes e pró-abolicionistas, que notificaram o Candomblé como algo da barbárie, superstição e até promiscuidade sexual, atuando com ações sistemáticas de denúncias e pedidos de rigores nas ações repressivas.

Apesar destas ações, as suas páginas nos fornecem informações sobre práticas religiosas, até mesmo presenciadas pelos seus jornalistas, sendo, em acordo com Nicolau, uma fonte documental rica sobre o Candomblé baiano do século XIX.Despertou-me o nome daquele noticioso, Alabama, me remetera a um estado da federação Norte Americana, famoso por sua prática de segregação racial como norma constitucional desde 1819. Lutara na Guerra da Secessão pela manutenção da escravidão, sendo derrotado, mas manteve uma postura de negar direitos aos negros, recusando-se a obediência às Leis dos Direitos Civis, sendo ameaçado de intervenção federal.

Voltemos ao nosso O Alabama: em suas páginas acompanha-se as transformações que consolidaria o Candomblé na forma que conhecemos na atualidade, quando se refere à predominância feminina neste culto, na medida em que se assistia ao declínio de lideranças africanas masculinas. No ambiente escravocrata soteropolitano as mulheres tiveram maior independência econômica e mobilidade social.

Notícias outras nos levam à localização de algumas casas de culto como um Candomblé, nos anos de 1859, na Quinta das Beatas com predominância africana. Em 1862 notifica a existência do Candomblé Pojavá no Distrito de Santo Antônio, com predominância crioula, e em 1866, a crioula Aninha Sapoca exercia suas habilidades na freguesia da Conceição da Praia.

A preferência da ação de O Alabama em relação ao Candomblé, embora se tentasse atingir toda a cidade, ganhava evidência na área da Sé, por estar próximo a sua sede, evidenciando uma quantidade de casas de prática da religiosidade de matriz africana no centro da cidade, situação que mais tarde experimentaria a investida do poder para a evacuação desses “antros no centro da cidade”.

Vale lembrar, como afirma Renato da Silveira, a existência do Candomblé da Barroquinha, matriz da atual Casa Branca. A postura do no. 59, de 27 de fevereiro de 1857, para a alegria de O Alabama, rezava: “Os batuques, danças e reuniões de escravos, estão proibidas em qualquer lugar e a qualquer hora sob pena de oito dias de prisão…” O Alabama não silenciava, e observando o crescimento do Candomblé, atribuía à colaboração de policiais e pessoas do exército e alguns clientes destas práticas. Indignado, imprimia O Alabama: “esta polícia tem uma queda para os candomblés! Permite-os por ordem sua, dentro da cidade e manda apreende-los nos arrabaldes!” Para aquele jornal, esses Candomblés dos arrabaldes eram verdadeiros “esconderijos de escravos fugidos”.

Cruz do Cosme, Engenho Velho, Campinas, Quinta das Beatas, Engenho da Conceição, Matatu, Penha, desfilaram em suas páginas, mostrando-nos a persistência daqueles obedientes apenas às divindades africanas. Nas palavras sábias de Mãe Stella: “Ti ó omi tireé” – “É na presença do inimigo que o algodão floresce”. Que assim seja.


Feliz 2010

postado por Cleidiana Ramos @ 4:02 PM
29 de dezembro de 2009

Caros navegantes do Mundo Afro: agradeço a companhia de vocês durante esse primeiro ano e quatro meses de existência deste blog.

Procurei neste período abrir um espaço para a boa informação e o debate saudável sobe questões que interessam à preservação da  cultura, tradição e ancestralidade negras.

Espero contar com a companhia de vocês no próximo ano. Vou estar de licença até o dia 4, para descansar um pouco da minha  jornada anual que foi bem intensa.

Para celebrar este nosso ano juntos postei acima um vídeo com Mariene de Castro e Gerônimo cantando juntos saudações, principalmente, a Oxum, afinal 2010 já começa sob o signo das águas.

No mais, um ano cheio de paz, saúde e votos de que o racismo e a intolerância religiosa sejam vencidos de uma vez por todas. Axé!


Mãe Stella de Oxóssi esclarece sobre o candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 5:44 PM
27 de dezembro de 2009
Mãe Stella vai dar coletiva para falar sobre princípios do candomblé. Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE

Mãe Stella vai dar coletiva para falar sobre princípios do candomblé. Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE

Recebi uma mensagem do presidente do Conselho Civil da Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá, Ribamar Daniel, avisando que, na próxima quarta-feira, Mãe Stella de Oxóssi vai dar uma coletiva para falar sobre o episódio de introdução das agulhas em um menino de dois anos.

Fico contente que uma sacerdotisa do candomblé se levante para explicar que este tipo de procedimento nada tem a ver com a prática das religiões de matriz africana.  É uma conclusão óbvia, mas que muita gente não só por ignorância, mas também por preconceito e maldade continua a tentar caracterizar como um ritual ligado ao candomblé, principalmente. 

Ainda  não tinha falado aqui sobre esse assunto, pois diante da sua complexidade preferi apelar para um especialista que já está preparando um material especial para o Mundo Afro.


Aprovado projeto de regularização fundiária de templos

postado por Cleidiana Ramos @ 6:24 PM
21 de dezembro de 2009
O Mansu Dandalungua Kokwazenza é um dos templos que lutam para preservar sua área verde. Foto: Haroldo Abrantes | Ag. A TARDE

O Mansu Dandalungua Kokwazenza é um dos templos que lutam para preservar sua área verde. Foto: Haroldo Abrantes | Ag. A TARDE

Foi aprovado, hoje, por unanimidade, na Câmara Municipal, o Projeto de Lei que assegura a regularização fundiária de templos religiosos instalados em terrenos de propriedade do munícipio.

Em fevereiro, após o recesso legislativo, acontecerá a segunda votação por se tratar de matéria que altera artigo da Lei Orgânica. Se o consenso ocorreu na sessão de hoje, possivelmente acontecerá o mesmo na próxima.

O projeto surgiu, principalmente, para proteger os terreiros das religiões de matriz africana, mas por pressão da bancada evangélica, acabou por incluir outras denominações religiosas. ”Construímos o consenso, reafirmando a tradição do candomblé de rejeitar a intolerância religiosa e apoiar a convivência pacífica e os direitos iguais para todas as religiões”, disse o vereador Gilmar Santiago, que abraçou a causa da regularização fundiária desde a sua gestão como secretário municipal da Reparação, no primeiro governo de João Henrique.

Em abril do ano passado, Gilmar Santiago, já vereador e integrante do PT, partido que rompeu com o prefeito, denunciou, via imprensa, que o projeto para a regularização fundiária dos terreiros enviado pela prefeitura havia desaparecido.

A denúncia virou polêmica quando o Executivo apresentou uma proposta que abrangia outras religiões, alegando o princípio da laicidade do Estado.

O debate sobre o projeto foi um efeito colateral da derrubada parcial do terreiro Oyá Unipó Neto por funcionários da prefeitura em março de 2008.

Agora, o  projeto aprovado pela Câmara pode ser um passo para resolver uma questão que atormenta tantas e tantas comunidades religiosas, principalmente as de matriz africana. Por conta da ocupação desordenada da cidade, elas foram perdendo seus espaços, principalmente, as áreas verdes e fontes que são essenciais para os seus ritos.