Balaio de Ideias: Precisamos de respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 10:07 AM
18 de novembro de 2015
Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Ao escrever este texto no mês de novembro não posso deixar de falar dos mortos, ou seja, dos espíritos e ancestrais, apesar de achar que eles podem ser homenageados em qualquer período. Diariamente, morrem milhares de pessoas, assim como nascem outras. Mas o comércio sempre aproveita datas comemorativas para vender mais. Com o Dia de Finados ocorre a oportunidade de usar a homenagem para se obter lucro. Acontece o mesmo com o Natal, São João e demais ocasiões festivas.
Portanto, em 2 de novembro os mortos são homenageados, mas eu, particularmente, não acredito que espíritos, ancestrais ou eguns fiquem presos em um caixão ou túmulo.
Imagino que as pessoas quando partem para o estado que considero de origem permanecem onde desejam ficar, inclusive no coração de parentes e amigos. Às vezes conversamos com eles, que nos escutam do lugar onde estamos. Daí que ir ao cemitério considerando que ali estão as pessoas que nos são queridas e partiram torna-se complicado, principalmente em um mundo repleto de fraudes.
São muitas as histórias de famílias que pagaram, anualmente, pelos serviços de limpeza dos túmulos onde deixaram os restos mortais de seus ancestrais, mas não ficaram sabendo quando eles foram transferidos de local para acomodar outros, diante da falta de espaço no cemitério. Infelizmente, coisas assim têm acontecido.
Mas ainda em novembro comemora-se a Proclamação da República, como aconteceu no último domingo. Esse dia foi o escolhido pelas comunidades dos terreiros de candomblé do bairro do Engenho Velho da Federação para realizarem uma caminhada reivindicando respeito às religiões afro-brasileiras. Digo respeito pois não gosto da expressão “tolerância”. Ninguém precisa aprender a nos “tolerar”, mas, sim, respeitar.
Respeito é algo que nós, povo de candomblé, aprendemos e ensinamos dentro dos nossos terreiros. Convivemos com a diversidade tranquilamente. Aliás, está escrito na Constituição brasileira que todo cidadão tem o direito de professar a religião que deseja. Nosso direito, portanto, é adquirido.
Além de reivindicar respeito pela nossa religião, pedimos também pela paz do mundo; do nosso país, estado, cidade e bairro. Estamos em um momento em que precisamos nos juntar como irmãos para trocarmos energia. Essa possibilidade de unir forças é um dos momentos mais importantes dessas caminhadas, como aconteceu agora em sua 11ª edição.
Na próxima sexta-feira estaremos comemorando o Dia Nacional da Consciência Negra. Tenho dúvidas se há muito para festejar com tanta desigualdade social e centenas de jovens negros morrendo, todos os dias, no Brasil.
Para a população negra, o acesso à saúde e segurança é precário. Nossas crianças passam metade do ano letivo sem ter aulas. As escolas que as acolhem seguem em reforma ou com os professores em greve reivindicando melhores salários, pois são muito mal remunerados. Portanto, são questões para refletir.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Viva o meu pai Ayrá!

postado por Cleidiana Ramos @ 2:25 PM
7 de outubro de 2015
Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch- Ialorixá do Terreiro do Cobre

Escrever este artigo no mês de outubro é muito gratificante. É o mês em que fui iniciada no candomblé para o orixá Ayrá. Falar desse senhor para mim é uma honra. Costumo dizer que pode existir uma energia igual a ele, mas maior só a de Deus, o todo poderoso. Amo tanto meu pai Ayrá que tenho certeza de que ele me ama também. Ele me orienta, ensina, educa, protege e se faz presente nos momentos mais difíceis da minha vida. Aliás, ele está presente diariamente. Tanto que durmo e acordo me entregando a ele. Eu vivo para ele. Tenho tanta fé em Ayrá que, se isso for indício de fanatismo, posso dizer que sou fanática.

Quando meus filhos dizem que ele é lindo, fico muito feliz, mas com inveja de não poder também conhecê-lo quando está na terra. Já o vi em sonho, mas é diferente de ver como meus filhos o veem. Por coincidência, o aniversário do meu caboclo também é neste mês.

Quando fui iniciada, 12 de outubro não era feriado em homenagem à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Também não era forte a lembrança do Dia das Crianças, mas eu sempre tive uma boa relação com elas. Quando trabalhava em uma escola, onde fazia a merenda, às vezes comprava ossos e verduras para incrementar a sopa e não deixá-las com fome. Há algum tempo, portanto, resolvi fazer no Terreiro do Cobre uma festa para a garotada.

A comemoração começou quando Ayrá recebeu um presente em forma de dinheiro de um filho de santo. Pensei: “Comprar um presente para Ayrá? O que eu vou comprar?”. Como é o aniversário dele e dia de festa para as crianças, resolvi adquirir lembrancinhas e docinhos. Fiz 50 kits, mas, mesmo sem divulgar, apareceram muitas, e algumas ficaram sem receber. Fiquei tão triste que até chorei.

No ano seguinte, comecei a pedir aos meus filhos de santo e amigos ajuda para fazer os kits, sempre contendo brinquedos, porque é o que toda criança, além de alimentação, gosta de ganhar. Sei que elas não conseguem entender por que não podem ter os caros e cheios de tecnologia que veem na televisão. Em muitos casos, seus pais não podem dar nem os mais simples. Aí é que está o perigo. Elas podem crescer e tentar possuir o que desejam de uma forma negativa. Mas graças a Deus e a Ayrá, com a ajuda de alguns filhos e amigos, a edição do ano passado teve pula-pula, piscina de bolinhas, escorregadeira, sorvetes, cachorro-quente e até uma animadora de festas profissional.

Distribuímos 250 kits de brinquedos. Isso para mim é muito gratificante, pois tenho a oportunidade de fazer crianças sorrirem. Na minha infância não ganhava brinquedos caros. Por isso sei o que uma criança sente em um dia como esse.

Portanto, que a Nossa Senhora dos católicos proteja todas as crianças do mundo. E que a bola de fogo, que é o meu pai Ayrá, aqueça o coração das pessoas; dono da Justiça, que ele a faça aos injustiçados; orixá da alegria, que a distribua ao mundo; que ele traga a paz, pois é quem carrega Oxalá quando este está presente em cerimônias; como é o Xangô mais velho, que dê sabedoria aos seres humanos. Viva a voz da experiência. Viva meu pai Ayrá!

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Câmara faz homenagem a Pai Air, herdeiro da família Bamboxê

postado por Cleidiana Ramos @ 6:00 PM
28 de setembro de 2015
Os 70 anos de iniciação religiosa de Pai Air é motivo de uma sessão especial na Câmara de Salvador. Foto: Fernando Vivas/ Ag. A TARDE

Os 70 anos de iniciação religiosa de Pai Air é motivo de uma sessão especial na Câmara de Salvador. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

A Câmara de Salvador faz, amanhã, terça, às 19 horas, uma sessão especial para festejar os 70 anos de iniciação religiosa do babalorixá Air José, líder do Pilão de Prata. 

A homenagem celebra também a resistência de uma longa linhagem familiar que tem sido extremamente importante para a consolidação do candomblé no Brasil: a família Bamboxê Obitikô.

Pai Air, por exemplo, foi iniciado por sua tia biológica, Caetana Sowzer, sacerdotisa da Casa Branca e fundadora do terreiro Làjoumim , localizado no Engenho Velho da Federação. Foi ela também quem o auxiliou na fundação do Pilão de Prata.

“É raro que afrodescendentes baianos tenham a oportunidade de conhecer a árvore genealógica de sua família tão detalhadamente como acontece com pai Air José”, destaca o vereador Sílvio Humberto (PSB), autor do requerimento que possibilitou a realização da sessão.

Além disso, de acordo com o vereador, é uma ação importante na luta para combater a intolerância religiosa.

“No momento em que percebemos a persistência de casos de intolerância religiosa essa sessão é uma afirmação de respeito às religiões de matriz africana”, diz o vereador.

História

Pai Air José é descendente de Bamboxé Obitkô, título do africano Rodolfo Manoel Martins de Andrade. “Mais conhecido por seu nome iorubá, Bamboxê Obitikô, ele é um dos personagens históricos mais ilustres do candomblé”, afirma Lisa Earl Castillo, pesquisadora do curso de pós-doutorado do Centro de Pesquisa em História Social da Cultura da Unicamp.

Sacerdote de Xangô e babalaô – título dado aos iniciados no culto de Ifá, divindade dos oráculos – Bamboxê tem sua história ligada a terreiros como a Casa Branca, considerado o mais antigo dentre os de nação ketu (culto de orixás) no Brasil.

“Ele , é lembrado também no Recife e no Rio de Janeiro por seu papel na fundação de dois terreiros antigos, o Sitio de Pai Adão e o Ilê Axé Opô Afonjá no Rio de Janeiro”, completa a pesquisadora.

Lisa Castillo destaca que, além de iniciar várias pessoas, Bamboxé Obitikô deixou uma linhagem biológica que se manteve em evidência na consolidação do candomblé na Bahia. Ele deixou descendentes também em Lagos, na Nigéria.

Dentre os baianos estão seu neto biológico Felisberto Américo Sowzer e suas filhas Caetana América Sowzer, Regina Topázio Sowzer e Irenea Topázio Sowzer. “Todas as três se tornaram ilustres ialorixás”, completa Lisa.

No ramo nigeriano, outra descendente de Bamboxé é a política e radialista Erelu Lola Ayonrinde Bernardina Bamgbose Martins. Natural de Lagos, atualmente ela mora na Inglaterra.

“ Como Caetana, sua prima brasileira, Erelu é também apetebi , nome que se dá à sacerdotisa de adivinhação de Ifá”, acrescenta Lisa Castillo.


Balaio de Ideias: Não me deem motivos

postado por Cleidiana Ramos @ 4:48 PM
10 de setembro de 2015
Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Tim Maia cantava: “Me dê motivos para ir embora.” Eu digo: Não me deem motivos para ir embora! Por favor, construam e exponham para mim argumentos suficientemente convincentes para que eu deseje permanecer em um mundo onde os seres humanos disputam sem nem mesmo saber pelo que estão disputando; onde creio que tantas pessoas estejam diariamente realizando “o bom combate”, mas os meios de comunicação insistem em mostrar o que de ruim a humanidade produz.
Não entrarei no lugar comum de culpar os meios de comunicação. Também não culparei a atração natural que nós humanos temos pela tragédia. Aliás, não culparei nada nem ninguém. Culpa não é um sentimento que tendo a imputar aos outros, muito menos a mim. Como costumo dizer, seriamente brincando com a gramática: somos o que somos em progressão crescente.
Pesquisamos e descobrimos o pedido que o cantor da banda Charlie Brown Jr. fazia cantando, também pedindo insistentemente: “Me Dê Motivos Pra Sonhar.” Chorão morreu, ou melhor, buscou o mundo de sonhos onde, provavelmente, jamais encontraria: nas drogas. Seu companheiro de banda, Champignon, também se matou, desta vez com um tiro, em 9 de setembro de 2013. Quando Champignon perdeu dois de seus companheiros de música e poesia, o vocalista Chorão e o guitarrista Peu Sousa, declarou:
“Os dois perderam a fé. Quando perdem a fé, perdem a vontade de viver. Foi mais um dia muito triste… Eu acho que as pessoas, em algum momento da vida, perdem a fé. Independentemente se morrem por droga, ou enforcadas. Se perdem a vida sem culpa de ninguém, acredito que em algum momento perderam a fé.”
O que estamos fazendo ou faremos para que outras pessoas sensíveis não mudem de dimensão porque esta daqui está insuportável para elas? Acordei no dia 8 de setembro de 2015 com uma imensa vontade de escrever sobre a insensibilidade com que são tratadas as pessoas mais sensíveis; com uma “querência” enorme de não viver em uma “sociedade de poetas mortos”. As palavras iam sendo escritas na mente quando me lembrei que, durante a noite, tinha recebido um aperto de mão de meu pai já falecido.
Compreendi que os seres de outra dimensão desejavam falar comigo. Quem seriam eles? – perguntei-me. Foi só no decorrer do texto que um nome surgiu em minha mente: Chorão. Pensei que esta palavra simbolizava o choro pelas perdas por morte, mas uma de minhas filhas lembrou-se do cantor acima referido e pesquisando na internet descobriu que no dia 9 de setembro de 2015 faria dois anos de morte de seu companheiro Champignon.
Minhas bênçãos, então, a todos que se foram por que não suportaram a dureza dos moradores de nosso planeta, acompanhada de um pedido, ou melhor, de uma súplica: Não permitamos que o mundo em que vivemos se transforme, sem retorno, em uma sociedade de poetas mortos. Cumprindo minha parte, encerro com um poema de Pablo Neruda: “Desde então, sou porque tu és. E desde então és sou e somos… E por amor Serei… Serás… Seremos…”


Balaio de Ideias: O poder da palavra e o mês das festas

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
9 de setembro de 2015
Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto:  Joá Souza/ Ag. A TARDE Data: 20/03/2015

Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto: Joá Souza/ Ag. A TARDE
Data: 20/03/2015

Valnizia Pereira Bianch 

Ialorixá do Terreiro do Cobre

A palavra é muito poderosa. Ela pode criar, destruir, alegrar, entristecer, abrigar, desabrigar, aconselhar, trazer a felicidade, mas também infelicidade. A palavra também tem o poder de matar e salvar; de educar e alfabetizar. Aproveitando o cortejo, é bom ressaltar que, ontem, dia 8, comemoramos o Dia da Alfabetização, que é a base da vida, porque, sem educação, não se tem o poder da palavra nem um bom futuro. Infelizmente, no Brasil, a educação é muito precária. Vamos pedir a Deus que melhore, pois só com educação podemos formar cidadãos para um futuro melhor.

A palavra é tão importante quanto a primavera que está chegando e trazendo o verde das árvores, a beleza e o colorido das flores, além da calmaria das folhas. Elas param de cair com o vento do inverno, que só a poderosa Oyá pode conduzir, pois ela comanda o vento e as tempestades. Vamos pedir a ela que nos traga bons ventos para o nosso futuro.

Além dessas duas ocasiões que citei, setembro celebra o Dia da Juventude Brasileira, no dia 6; a Independência do Brasil, dia 7; a imprensa, dia 10; a paz – algo que o país está precisando muito –, no dia 16; e as árvores, no dia 21. Tem ainda o dia 27, quando se comemoram os santos Cosme e Damião, que, na cultura do sincretismo, simbolizam os Ibejis. Esta festa traz boas recordações da minha infância. Era época em que as pessoas ofereciam caruru, mesmo sem ser de candomblé.

Rezava-se também a ladainha de são Cosme e, quando terminava, tinha samba de viola a noite toda. Sete crianças sentavam em uma esteira estendida no meio da casa e no centro de onde elas estavam colocava-se uma bacia ou um alguidar com todas as comidas e um pedaço de frango para cada criança.

Era uma folia: cada um queria pegar a galinha do outro e, por isso, era o que se comia primeiro. Quando a gente acabava, bebia aruá e recebia doces. Era uma grande festa para as crianças. A dona da casa se vestia de branco e as crianças, depois de comer, limpavam as mãos na sua roupa. É pena que esse tipo de celebração está se perdendo. Hoje, as pessoas preferem dar doces ou colocam o caruru em quentinhas para ser distribuído às crianças ou a quem quiser comer, mas na rua.

Antigamente se colocava o caruru nas folhas de banana ou em uma folha que as pessoas chamavam de “prato de Oxum”, porque parecia com uma concha. Todos comiam com a ajuda das mãos e as limpavam nas pernas para atrair saúde.

Geralmente, nos terreiros de candomblé, se faz cerimônia para os Ibejis dentro do ciclo de festas e não necessariamente no mês de setembro. No Cobre, por exemplo, se comemora a Corda de Ibeji. Na festa, em uma corda que está no teto do barracão, desde o tempo de minha bisavó, são pendurados frutas e doces.Depois dos cantos rituais, as pessoas podem pular e pegar as frutas e doces e é distribuído o caruru. O engraçado é que as crianças chegam para a festa carregando os saquinhos onde vão guardar as frutas. Que os santos Cosme, Damião e os Ibejis protejam todas as crianças dando-lhes uma boa sorte.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Curta auxilia educação e combate à intolerância

postado por Cleidiana Ramos @ 12:48 PM
21 de agosto de 2015
Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

As cineastas Jamile Coelho e Cintia Maria preparam o lançamento de um atraente recurso que une ação educativa e combate à intolerância religiosa. Trata-se do curta Òrun Àiyê, que usa a técnica do stop motion, uma espécie de “fotografia animada”.

Diante da expectativa em torno do lançamento do filme elas decidiram fazer uma pré-estreia já em novembro, mas na página oficial do projeto no Facebook é possível ir acompanhando vários detalhes sobre a produção.

O material conta a trajetória de criação do mundo a partir da perspectiva dos povos de cultura iorubá. O protagonista é Oxalá que se une a outras divindades para cumprir a missão de formar o universo.

A narrativa com duração de 12 minutos é feita em libras e também está disponível em português, inglês, francês, espanhol e iorubá. As histórias são contadas com narrativa do saudoso historiador Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013).

“Esse material paradidático permitirá às crianças e jovens a ampliação da noção de cultura negra trazida da África para o Brasil, proporcionando uma educação que reconheça e valorize a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro”, afirma Jamile Coelho.

O projeto foi desenvolvido por meio da Estandarte Produções, que atua na criação e gestão de projetos culturais e pedagógicos como oficinas, mostras, festivais e publicações em áudio e vídeo e reúne profissionais de várias áreas.

O curta teve o financiamento, por meio de edital, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura e Fundação Palmares, além do edital de patrocínio 2014 da Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás).

A página especial do curta está no endereço: https://www.facebook.com/OrunFilme

 


A cura através da espiritualidade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
12 de agosto de 2015
Mãe Valnizia faz análise sobre  força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia faz análise sobre força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Neste mês de agosto, os católicos homenageiam são Roque e também são Lázaro, que, no sincretismo, simbolizam Omolu ou Obaluaê, o orixá da cura. Mesmo quem não é de candomblé tem o costume de distribuir pipocas todas as segundas-feiras em casa e também pelas ruas com tabuleiros. Sei que no candomblé são Lázaro ou são Roque não são Omolu nem Obaluaê, mas os mais velhos não sabiam, mesmo porque foi o que impuseram a eles nas senzalas. Isto, de uma forma ou de outra, serviu como escudo durante muitos anos para que eles pudessem cultuar o sagrado em que acreditavam.

Com toda perseguição e dificuldades, mas com inteligência, usavam as imagens dos santos católicos e escondiam os elementos da natureza embaixo delas para poder cultuar sua crença ao longo dos anos, e a foram passando de pai para filho. Aí está o sincretismo.

Penso que, de uma forma ou de outra, acreditar ou cultuar a espiritualidade é importante para o ser humano, pois viver somente do material sempre deixa a sensação de que está faltando alguma coisa na vida. Seja qual for a religião, o importante é acreditar no sagrado, pois ele é que ajuda a nos curar.

Existem vários tipos de cura. Uma se adquire através da família, porque ela é equilíbrio por mais difícil que seja. Todo grupo familiar tem momentos bons de convivência. Mesmo quando não é com todos os parentes, sempre tem algum que dá alegria ao estar perto.

Existe a cura por meio do amor de amigos, porque a amizade é tão importante quanto a família. Às vezes, uma boa amizade em determinado momento da nossa vida ajuda a nos curar.

Tem a cura do amor no campo dos relacionamentos românticos, que dá equilíbrio e felicidade, e aquela que vem do trabalho, pois alguém que está profissionalmente realizado também fica curado. No candomblé, por exemplo, existem várias formas de cura, além das obrigações, porque às vezes basta chegar ao espaço sagrado e ficar um pouco com os orixás, inquices, voduns e caboclos, dependendo dos seus segmentos, e rezar para sair recuperado. Depende da fé de cada um, até mesmo porque a fé é algo muito individual. Ninguém pode inseri-la no coração ou na cabeça das pessoas. Cada um acredita por si mesmo.

A fé é uma das coisas que mais curam o ser humano. Eu tenho a minha própria experiência nesse sentido. Quando passei por momentos muito difíceis ao perder quase toda minha família em pouco tempo, se não tivesse uma religião e minha fé, não aguentaria. Posso dizer, tranquilamente, que, além da medicina, a fé também é capaz de curar.

Também acredito que todas as pessoas que trabalham com a cura acabam por também se curar. E a forma de recuperação que acho mais importante é a que fazemos com nós mesmos, ou seja, a da consciência, que envolve nossos atos.

A cura do retorno e também do bate-volta é o que acontece com a nossa vida todo o tempo.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Mãe é para ser celebrada diariamente

postado por Cleidiana Ramos @ 8:38 AM
6 de maio de 2015
Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto:  João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto: João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Sabemos que o comércio construiu o Dia das Mães, assim como outros feriados, para vender mais. Continuo achando que mãe é para ser festejada diariamente, desde que o homem começou a parir. Sim, na minha opinião, quem pare primeiro é o homem colocando o sêmen no útero da mulher para que ela gere o bebê, embora o avanço da medicina tenha encontrado novas formas de levar alguém a engravidar.
Mesmo com alterações no corpo e até risco de vida, as mulheres ficam muito felizes ao se descobrirem grávidas. Perceber o bebê mexer na barriga é uma sensação difícil de ser definida. Às vezes, a grávida está dormindo e acorda com os “chutes” e “cotoveladas” do filho.
Antes não existiam os exames que permitem saber o sexo do bebê durante a gravidez. Essa informação vinha do conhecimento de pessoas experientes que se baseavam em sinais, como o formato da barriga. Geralmente, eram as parteiras que apontavam se ia ser menino ou menina e quando o parto iria acontecer a partir da observação da lua.
Por isso se fazia um enxoval azul – para os meninos – e rosa para as meninas. Quem precisava economizar fazia tudo em amarelo, cor considerada neutra. A emoção continuava com o nascimento. O momento em que a criança abria o olhos – antigamente, elas levavam sete dias para abri-los – e o primeiro sorriso eram acontecimentos acompanhados de perto pelas mães. A experiência vinha da prática, pois muitas não tinham acesso ao pediatra.
Lembro que se a criança nascia com as pernas tortas, o que se chamava “cangalha”, a mãe esperava que ela começasse a andar e durante sete sextas-feiras a levava na praia. Lá cobria as pernas do filho com areia úmida. Dava certo.
Se o bebê não dormia, a mãe preparava chá com folhas, como melissa e erva-cidreira. Outra medida era colocar uma bacia com a infusão das ervas perto do local onde a criança dormia para que ela fosse inalando o perfume. Raramente, se apelava para remédios.
Se a mãe não tinha leite no peito, tomava mingau feito com café, manteiga e farinha ou de milho com manteiga. Essas eram formas de entender a maternidade como algo que exigia estar perto dos filhos, o que se tornou mais difícil, pois as mulheres têm que ficar fora de casa para trabalhar e estudar.
Eu me considero privilegiada, pois sou mãe de Vandréa e Júnior e avó de Aynã e Ayran, o que é maternidade em dose dupla. Ainda fui escolhida pelo destino para ser mãe espiritual de centenas de pessoas, o que me faz ter amor por elas e seus filhos, que considero netos, como se fossem de “sangue”.
Comemoro ainda uma coincidência. Nasci em um Dia das Mães e este ano meu aniversário vai ser celebrado nessa data. Pensando em tudo isso, quero pedir aos filhos que respeitem sua mãe e sempre digam para ela o quanto a amam. Não existe presente melhor. Também procurem ouvi-la, pois cada uma pressente quando algo de ruim vai acontecer com seus filhos. Desejo a todas as mães muita sorte. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Terreiro faz festa para Mutalambô e oferta presente para Dandalunda

postado por Cleidiana Ramos @ 6:04 PM
24 de abril de 2015
O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

Amanhã, sábado, a comunidade do Terreiro Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, estará em festa para Mutalambô, o inquice que é patrono da prosperidade, pois é caçador e protetor das matas.  A celebração começa às 20 horas na casa comandada pelo tata de inquice Valdemir de Bamburucema.

No domingo, é dia do presente para Dandalunda, senhora das águas doces. O cortejo vai sair de Lauro de Freitas, onde fica o terreiro, às 9 horas em direção à Lagoa do Abaeté.

O terreiro fica   na  Rua do Araqui, 22, em Lauro de Freitas. Telefones:  (71) 3369.0013 / 3379.3412 . Cel: (71) 8759.8063 / 8185.8009 


São Jorge das muitas faces

postado por Cleidiana Ramos @ 5:28 PM
23 de abril de 2015
Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011

Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011

Não sou mais católica, mas há elementos dessa prática religiosa que continuam a me inspirar um imenso carinho. Um deles é São Jorge que possui a capacidade de transcendência e ressignificação a partir da perspectiva de seus devotos e assim seu culto vai resistindo desde o século IV. É muito tempo de persistência diante de tantas reviravoltas. Um exemplo: a perda do status de “obrigatória” por sua festa no calendário litúrgico católico.

Hoje as homenagens a ele são “opcionais” no catolicismo. Um dos principais problemas foi a fama de “matador de dragão” que o cerca e faz, inclusive, parte da sua iconografia.

Na década de 1970 a Igreja Católica fez uma reforma em seu calendário litúrgico. A ideia foi dar preferência à historiografia, ou seja: os santos que tinham biografias com dados, digamos, mais difíceis de comprovar historicamente, passaram a ser festejados de forma mais discreta. 

Além de ter entre os seus feitos o enfrentamento a um dragão, Jorge da Capadócia, na devoção popular, ganhou como endereço a lua, pelo menos no Brasil. Lembro que ainda criança já cansei de olhar para o céu e ver a forma como ele aparecia nas imagens em meio as nuvens que passavam pela lua. Fui crescendo e pressionada, em nome do cartesianismo, a perder o  fascínio por aquele fenômeno definido  como autosugestão. Mas de vez em quando expulso a racionalidade e consigo ainda (sucumbindo à imaginação, oras), enxergar São Jorge montado, elegantemente, no seu cavalo em  meio a um belo luar.

Com a reforma do calendário, sua festa, portanto, foi tornada opcional e não se fez mais oficialmente consagrações específicas a ele de igrejas, dioceses ou o escolheram  como o padroeiro de paróquia. Em Salvador, por exemplo, só há uma igreja dedicada a ele: a situada no Jardim Cruzeiro, na Cidade Baixa. Mas o impressionante é que essa questão oficial parece não ter tido impactos significativos sobre o culto a São Jorge.

O santo guerreiro e matador de dragões ( animal que, para muitos, na representação clássica de São Jorge é apenas um símbolo do mal curvado diante da coragem e da santidade) é padroeiro da Inglaterra, via a Igreja Anglicana; no catolicismo brasileiro ganhou fama de intercessor poderoso e para completar, nas religiões de matrizes africanas brasileiras foi associado a divindades ligadas à fartura e proteção.

Na Bahia, São Jorge foi aproximado do Oxóssi ketu ou Mutalambô do povo angola, nome para as divindades definidas como caçadores guerreiros e provedores da sua comunidade; no Rio a relação é com Ogum ou Nkossi, os guerreiros invencíveis, sem falar nas várias associações com encantados que a umbanda lhe deu.

É importante destacar que, no fundo, no fundo, o povo sabe muito bem que São Jorge é São Jorge, Oxóssi é Oxóssi, Ogum é Ogum, mas não se pode impedir as ressignificações ou negá-las, pois isso é próprio da diversidade,  da liberdade religiosa e da dinâmica dos símbolos e interpretações culturais.

Do ponto de vista teológico vamos fazer debates intermináveis sobre a necessidade de separar em partes o que é de cada religião, mas, hoje, vou ficar com a devoção popular e celebrar a licença poética. Portanto, Salve Jorge e reverências a Ogum, Oxóssi e aos encantados das florestas.


Balaio de Ideias: Saudades da Semana Santa antiga

postado por Cleidiana Ramos @ 9:34 AM
8 de abril de 2015
Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Acabamos de passar pela Semana Santa, uma festa do cristianismo que considero muito importante, pois, apesar das mudanças, ainda consegue unir famílias. Lembro-me de que, há alguns anos, nesse dia não se podia fazer barulho, as pessoas pediam perdão, não se falava alto nem se batia nas crianças.

O trabalho para o almoço da sexta tinha que ser adiantado na véspera: os cocos eram partidos e deixados em uma vasilha com água para não azedar até ser ralados, pois a maioria dos pobres não tinha geladeira para conservá-los e nem liquidificador.

Para ser moído, o camarão seco era colocado em uma toalha usada para enxugar prato, fechada e amarrada na ponta de uma mesa, ou usávamos o pilão. O feijão para o “feijão de leite” era partido em uma máquina manual. Já o peixe era limpo na sexta-feira porque esse trabalho não provoca muito barulho. Quem não tinha peixe preparava uma moqueca de ovo com chuchu de tronco, como era chamado o mamão verde.

Tudo isso para não se comer carne. Se bem que, com tanta gente ainda passando fome, acho que Cristo não liga para nada disso. São costumes da cultura que mulheres e homens criaram.

Eu gostava quando os vizinhos trocavam pratos de vatapá entre si. Além disso, ao entrar em uma casa, recebiam-se um pedaço de pão e um pouco de vinho. Era preciso aceitar esse agrado, mesmo que não se ficasse para almoçar.

Para as crianças, os adultos colocavam um dedo de vinho em um copo com água e açúcar e avisavam que isso era só para fazer a “obrigação”. À tarde, os irmãos mais velhos levavam os mais novos para tomar a bênção aos padrinhos, madrinhas, tios e tias.

Mas o melhor mesmo era o Sábado de Aleluia, porque a diversão estava garantida. As crianças guardavam latas e paus para fazer barulho quando chegasse as 10 horas. Nesse horário, os terreiros de candomblé abriam, queimava-se incenso, soltavam-se fogos e os atabaques eram tocados. À noite havia a Queima de Judas. As crianças iam dormir mais cedo para acordar à meia-noite e assistir ao espetáculo.

No domingo aconteciam brincadeiras, como pau de sebo. Um pedaço de madeira era ensebado e no seu alto colocavam-se balas e brinquedos. Quem conseguia fazer a escalada levava tudo.

Nessa época não eram comuns os ovos de Páscoa e, se existiam, nem todas as famílias podiam comprar para seus filhos. O máximo, nesse sentido, era uma caixa de bombons para ser dividida.

É uma pena que os jovens e crianças estejam perdendo esses valores que incentivavam as pessoas a ser solidárias umas com as outras, como na hora de trocar os pratos da ceia da Sexta-feira Santa ou as latas para saudar a Aleluia.

Sinto muita falta da Semana Santa antiga, pois a cada dia que passa essas características são perdidas. Meus netos, por exemplo, já não sabem que se tomava a bênção às pessoas mais velhas que encontrasse pela frente, inclusive dizendo assim: “Me perdoe alguns agravos”.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: O que é Ablar?

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de março de 2015
Professor Jaime Sodré apresenta a Ablar. Foto: Manuela Cavadas| AG. A TARDE

Professor Jaime Sodré apresenta a Ablar. Foto: Manuela Cavadas| AG. A TARDE

Jaime Sodré

Sob a sonora ritmia da competente bateria da escola de samba, cantava o intérprete: “Sonhar não custa nada…” Motivado, exercerei esta possibilidade. O ambiente de convivência em um terreiro de candomblé é um polo gerador de um amplo conhecimento, sobre várias temáticas. Além dos ensinamentos teológicos iniciáticos, testemunha-se uma importante produção literária e oral, realizada por fiéis, contribuindo para a qualificação e o enriquecimento da produção intelectual nacional, com um material por vezes de caráter científico, romances, contos etc.

Lembro-me do que dizia uma sábia, respeitada e querida ebomi, quando indignada e atingida por expressões grosseiras, estas emitidas por intolerantes, que no auge da sua ira diziam: “Esses negros do candomblé são macumbeiros, feiticeiros, analfabetos e ignorantes”. Em defesa do povo de santo ela dizia: “Somos negros com orgulho e dignos religiosos, mas não somos analfabetos, dominamos a língua aqui falada, pois sabemos nos comunicar, e mais, para o nosso maior orgulho, somos ‘trilíngues’, pois para o exercício religioso devemos dominar as línguas africanas: o yorubá, o quimbundo e o ewe, aplicadas nas rezas, cânticos e invocações. Quanto à ignorância, esta está em quem fala”.

Sem mencionar o repertório estético, além das danças, os ritmos, a mitologia, a culinária, a fitoterapia dentre outros, podemos concluir ser o espaço sagrado das expressões de matriz africana uma espécie de Academia. O emérito professor Edivaldo Boaventura define a Academia como “um corpo de pesquisadores que convive para estimular a geração e disseminar o conhecimento”, socializando os resultados. Neste contexto, encontramos “conceitos, práticas, instrumentos, saberes, métodos e processos que habilitam a contribuir para a gestão do conhecimento”.

No âmbito da “Academia Candomblé”, localizamos exemplos de intelectuais, iniciados, com importantes contribuições no campo do conhecimento, principalmente sobre esta matriz. Incentivado por esta realidade alvissareira, com o tom de homenagem e bom humor, apresentamos a Ablar (Academia Baiana de Letras Afro Religiosa). O intuito é listar nomes que primam por este fazer, colocando à disposição dos interessados.

Perdoem, lembro-me de alguns, e deixo espaços para outros, que você, leitor, poderá enviar ao blog Mundo Afro, do jornal A TARDE. Na minha modesta lista, temos: Cecília Soares (iyalorixá do terreiro Maroketu) – Mulher negra na Bahia no século XIX; Valnízia Pereira Bianch (iyalorixá do terreiro do Cobre) – Resistência e fé, Aprendo ensinando; Júlio Braga (babalorixá do Ilê Oyá Tundé) – Jogo de Búzios, Na gamela do feitiço, O antropólogo na encruzilhada; Vilson Caetano Júnior (babalorixá do Ilê Obá L’Okê) – Nagô, a nação dos ancestrais itinerantes; Valdina Pinto (makota do Tanuri Junçara) – Meu Caminhar, meu viver, e a distinta acadêmica Mãe Stella.

Esperamos ampliar esta lista, acrescentando autores e autoras que têm, como caráter particular, a qualidade da sua produção literária nos mais diversos estilos, como também a sua filiação na condição de iniciado às expressões religiosas de matriz africana. Laroiê Exu, patrono e senhor dos sonhos das letras e palavras.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando em História Social


Balaio de Ideias: Mulheres lindas e guerreiras

postado por Cleidiana Ramos @ 9:53 AM
11 de março de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé | aul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre 

No último domingo comemoramos o Dia Internacional da Mulher, embora, para mim, essa data seja diária. Quero, portanto, falar de mulheres como minha bisavó Flaviana Bianch. Ela veio da África ainda pequena com a mãe, Margarida de Xangô, que instalou na Barroquinha o Terreiro do Cobre. Lá ele funcionou até que Flaviana, há 127 anos, o trouxe para o Engenho Velho da Federação, onde permanece até hoje.

Foram guerreiras, como a minha mãe Moura ou Maura – seu nome de batismo. Ela teve 13 filhos e criou a metade deles sem o companheiro e nosso pai, pois ele morreu quando eu tinha 11 meses. Para ganhar dinheiro, minha mãe carregou água, trabalhou como lavadeira, doméstica e fazia bolachinhas de goma e sequilhos para vender e poder completar a renda.

Desse grupo de batalhadoras fazem parte Mãe Tatá, ialorixá do Terreiro do Engenho Velho Casa Branca, conhecida pelo amor, carinho, respeito e dedicação aos orixás e à comunidade; a linda e saudosa Iyá Nitinha de Oxum, que ajudou muito o candomblé, deixando centenas de filhos iniciados; Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, que, com sua experiência e inteligência, enriquece a nossa tradição religiosa.

Vale também destacar: Lélia Gonzáles, que tanto lutou pelos movimentos negro e de direitos humanos; Vilma Reis, socióloga, que trabalha pela formação de mulheres jovens; Yeda Pessoa de Castro, sempre empenhada na construção de uma sociedade melhor; a professora Makota Valdina Pinto, educadora de tantos jovens do Engenho Velho da Federação e adjacências, que batalha pela valorização do candomblé de nação angola-banto; Alaíde do Feijão, que criou seus filhos vendendo sua deliciosa feijoada; professora Ana Célia da Silva, incansável militante do movimento negro; Ivone Lara e Clementina de Jesus, que com suas vozes lindas, fortes e únicas encantam os nossos ouvidos.

Quero homenagear ainda Olga Mettig, por sua luta pela valorização do magistério; santa Irmã Dulce, religiosa da Igreja Católica que dedicou a vida ao amparo dos mais pobres e doentes; Ana Alice Costa, fundadora do Neim-Ufba e militante pelos direitos das mulheres; Amabília Almeida, única mulher do grupo de parlamentares que redigiu a Constituição do nosso estado; e Lídice da Mata, primeira mulher a assumir a prefeitura de Salvador e ser eleita senadora pela Bahia.

Gostaria de citar outras, mas o texto tem limite. Portanto, a partir das citadas, parabenizo todas, em especial as mulheres do Engenho Velho Casa Branca, que são minhas irmãs, mãe e tias de santo, e as do Terreiro do Cobre, minhas lindas filhas. Peço a Deus que continue a fazer surgir mulheres como essas e que a sociedade reconheça os seus valores e dê o espaço que elas merecem. Imagino estar incluída nesse grupo de guerreiras, mas não posso ter a pretensão de falar sobre mim. Como acho que sou um ser humano do bem, vou deixar para que outros falem (risos). Que Deus abençoe essas mulheres e suas famílias, pois só Ele pode tomar conta dos filhos daquelas que, para trabalhar e estudar, precisam deixar suas crianças tomando conta umas das outras, em creches ou até sozinhas, à mercê dos perigos da vida.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Ilê Axé Opô Afonjá sedia homenagem ao Dia da Poesia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
7 de março de 2015
Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto:  Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 07/12/2012

Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE
Data: 07/12/2012

No dia 14 de março nasceu Castro Alves e, por isso, é quando se celebra a poesia. Ocupante da cadeira que homenageia o mais conhecido poeta baiano na Academia de Letras da Bahia (ABL), a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi preparou uma programação especial para festejar uma data tão mágica para as letras.

A partir das 17 horas do dia 14, próximo sábado, no Ilê Axé Opô Afonjá, o projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana vai celebrar o Dia da Poesia com o evento intitulado Três toques: poesia, amor e alegria.

O projeto, que foi inaugurado com a Animoteca, uma biblioteca itinerante, foi pensado para promover o diálogo entre as diferentes tradições religiosas.  A ação é voltada para a construção de uma cultura de paz e combate às variadas formas de violência.

A celebração vai começar com a apresentação da Camerata Castro Alves, criada em 1997 por Marcos Santana e que é especializada na interpretação do repertório do poeta.

“Poesia é ritmo, é toque, é música e é por isso que nos sensibilizaremos com a apresentação deste grupo cultural e artístico”, explica Graziela Domini, coordenadora do projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana.

O amor, que é o segundo toque, vai trazer poemas que cantam esse sentimento como os reunidos no livro Nazaré- das farinhas e poesias, uma coletânea das criações de poetas do município homônimo do período de 1831 a 1963.

A coletânea foi organizada por Carla Domini Peixoto e teve o seu lançamento como uma das atividades da visita da Animoteca a Nazaré.

O terceiro toque é a alegria celebrada no nome sagrado de Mãe Stella – Odé Kayodê –, que numa tradução do iorubá para o português significa Caçador de Alegria.

“ Quem convive com ela sente o encontro da alegria com a responsabilidade em seus pequenos e grandes atos. E é por isso que a cultura brejeira pedirá licença à seriedade do ambiente religioso para encerrar a apresentação com poemas do livro Prosa Morena, onde Jessier Quirino reescreve uma fala sertaneja que diz: ‘O mundo é uma bodega pequena e sortida. Mais dias menos dias a gente se encontra’”, completa Graziela Domini.

Segundo a coordenadora, esse também será o momento de entrega ao prazer da boa comida acompanhada de uma boa prosa. A atividade também vai reservar uma surpresa para os que aceitarem o desafio de declamar poemas autorais ou de outros poetas a partir dos temas amor e alegria.


Pai Valdemir festeja 35 anos de iniciação religiosa

postado por Cleidiana Ramos @ 5:52 PM
5 de março de 2015
Terreiro de Santa Bárbara, liderado por Tata Valdemir, está em festa. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE | 22.6.2009 Data - 22/06/2009

Terreiro de Santa Bárbara, liderado por Tata Valdemir, está em festa. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE | 22.6.2009
Data – 22/06/2009

O Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, está preparando uma grande festa para o próximo sábado quando o seu líder, Tata Valdemir de Bamburecema, completa 35 anos de iniciação religiosa.

“Cheguei ao candomblé por conta de problemas de saúde. Já tinha ido a vários médicos, mas não ficava bom. Chegaram a recomendar que eu fosse para um centro espírita, mas, após uma consulta aos búzios acabei sendo iniciado no candomblé”, relata.

Iniciado pela mameto de inquice Domingas Kaloyá de Portão, que também era filha de Bamburecema, inquice que comanda o fogo e as tempestades e na associação com o catolicismo é vinculada a Santa Bárbara, Pai Valdemir  conta que, mais tarde, descobriu que sua missão era também se tornar uma liderança.

“O terreiro foi aberto em 1987 de uma forma bem humilde. O barracão foi feito aos poucos, mas sempre com a ajuda de Mãe Domingas, hoje já falecida. Ela sempre me acompanhou nas horas em que mais precisei e  era muito carinhosa comigo”, relata.

Hoje, a Rua do Araqui, onde fica o terreiro, diferentemente de 1987, já tem água encanada, energia elétrica e outros benefícios. Desde então, Tata Valdemir já iniciou no candomblé cerca de 180 pessoas.

“Meu esforço é para fazer crescer e embelezar como puder a casa de Bamburecema. Deixo de fazer algo para a casa onde moro, pois a desse inquice que amo e me deu tanto é que tem que brilhar”, completa.

No sábado a festa começa a partir das 19h30. Os festejos, que começaram no último domingo com um rito interno para Nzila, o senhor dos caminhos, prosseguem no dia 25 com a Festa de Mutalambô, no dia 25, também à noite.

No dia seguinte, tem o presente para Dandalunda. A  saída será às 9 horas do terreiro em direção à Lagoa do Abaeté cumprindo uma tradição de 25 anos.

Serviço:

O quê: Festa dos 35 anos de iniciação religiosa do Tata de Inquice Valdemir de Lauro de Freitas

Quando: Sábado, dia 7, a partir das 19h30

Onde: Terreiro de Santa Bárbara, Rua do Araqui, s/n, Lauro de Freitas. Telefone: 71-3379-3412


Homenagem a Tata Anselmo e Jaime Sodré e uma lembrança à memória de Ebomi Cidália

postado por Cleidiana Ramos @ 10:54 AM
20 de fevereiro de 2015

Com as desculpas pelo atraso, mas é que ontem eu ainda estava fora de rede. Os  parabéns a essas duas figuras queridas, que fizeram aniversário ontem, e que são extremamente importantes na defesa da liberdade de expressão religiosa. Eles estão sempre a postos para defender os interesses do povo de santo: o tata de inquice do Terreiro Mokambo, Anselmo dos Santos, filho de Dandalunda; e Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara, filho de Lemba, e oloiê do Bogum.

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Vai aqui também uma  homenagem à memória da Ebomi Cidália de Iroko, aniversariante também do dia 19  de fevereiro. Saudades imensas da grande enciclopédia do candomblé.

Saudação à memória de Ebomi Cidália  de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/   7.7.2006

Saudação à memória de Ebomi Cidália de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 7.7.2006


O tempo de ouro de Maria Bethânia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:30 AM
13 de fevereiro de 2015
O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

Marlon Marcos

De lá, 1965, o grito do carcará; daqui, 2015, o doce entoar em pronúncias perfeitas sobre etnias indígenas que civilizam o território nacional. Hoje, o Brasil celebra os 50 anos de carreira da matriarca da canção brasileira. A senhora franzina que pauta beleza e simplicidade no cenário cultural deste país. A mulher que ensina com o canto minúcias e delicadezas que estão em nós e, muitas vezes, bem esquecidas.

Hoje a Iara dança desguarnecida, livre, desatenta, em nome da festa que a canção popular nos traz. E sem vontade de ser destemida. Hoje é um tempo vermelho dourado da beleza nascida em Santo Amaro, na Bahia, mas que na forma de raio e pássaro conquistou o Brasil. As águas remontam uma história que revigora o estar de um mito. Um gênio feminino atirado ao campo artístico, ao educativo, ao antropológico.

A memória negríssima no poema de Fernando Pessoa, nos estimulando a ler, nos convidando a ver, nos fazendo agir, nos permitindo gozar. A memória guarida da palavra eleita para os sonhos que, como fogo, se obriga a transformar este país. E pra melhor. A história do impossível sonho que rasga o chão para que brote a rosa vermelha do deserto.

Cinquenta anos de esmerada carreira movida a paixão. Do teatro show Opinião até o centro do nosso Castro Alves, Maria Bethânia é o ouro que faz amanhecer este país, como se ela fosse a rosa do deserto de Cecília: “Eu vi a rosa do deserto/ ainda de estrelas orvalhada/ era a alvorada”.

A alvorada é Bethânia recomeçando. Frente ao disco Ciclo dedicando a Seu Zezinho. Ela tocando o chão para saudar mãe Menininha. Ela reaprendendo Pessoa aos cuidados de dona Cléo. Ela sendo analisada em um congresso todo seu feito pela Associação Rosa dos Ventos Bahia. Ela vista menina irmã mulher artista nas narrativas de Mabel. Ela derretendo-se de saudade de dona Canô, de Nicinha, de Fauzi Arap. E nunca desistindo.

Antropólogo, jornalista e poeta, autor da dissertação Oyá-Bethãnia os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela para obtenção do título de mestre em estudos étnicos e africanos pela Ufba

Uma das canções que viram encantamento na voz melodiosa e poderosa de Maria Bethânia


Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá

postado por Cleidiana Ramos @ 10:16 AM
11 de fevereiro de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Este texto é sobre uma pessoa muito especial: Aristotelina Fiuza, conhecida como ebomi Telinha de Iemanjá. O que me leva a essa homenagem é o seu aniversário de 90 anos e a comida que ofereceu a Iemanjá, um momento único para o Terreiro do Cobre, onde ela tem uma história muito bonita. Telinha nasceu e cresceu no Cobre. É uma das poucas do tempo da minha bisavó Flaviana Bianch que ainda vive.

Conheço Telinha desde que me entendo como gente, e ela me ajudou muito com sua sabedoria quando cheguei para reabrir o terreiro. É uma pessoa muito respeitada no Cobre e pela comunidade do bairro do Engenho Velho da Federação.

Quando eu era criança, no mês de junho, Telinha tirava reza de santo Antônio em várias casas do bairro. Acabada a reza, servia-se comida, principalmente para as rezadeiras, licor e amendoins. Ela tomava o seu licorzinho e dizia: “Não posso demorar, pois ainda vou tirar outras rezas”.

Durante o Carnaval, ia para o Terreiro de Jesus esperar a saída do afoxé Filhos de Gandhy, pois seu marido, Claudio, era um dos diretores. Acompanhava o bloco até o Campo Grande. No domingo, ela só ia embora depois que as escolas de samba desfilavam. Tinha as famosas, como Juventude do Garcia e Diplomatas de Amaralina. Naquele tempo não havia preocupação com transporte porque quem morava perto do circuito do Carnaval, como nós, ia andando. Não aconteciam assaltos nem mortes. Até os caretas, que saíam com o rosto coberto, após brincar tinham a obrigação de tirar a máscara e mostrar o rosto.

Outra lembrança que tenho de Telinha é da sua ida à praia de Armação com minha mãe e tias para a puxada de rede, onde pescadores, adultos e crianças pegavam o xaréu em meio a muitas cantorias. Após a puxada de rede, elas ganhavam os peixes. Aí preparavam um escaldado com quiabo, abóbora, maxixe, jiló e o molho nagô que era feito com as pimentas raladas, limão, quiabo, coentro, cebola, tomate e camarão seco, e degustavam tudo bebendo uma cachacinha. Era só alegria.

Ela também acompanhava a Romaria de São Lázaro, um evento que acontece no Engenho Velho da Federação há mais de 75 anos. Hoje fica na porta de sua casa segurando um prato de arroz perfumado para quando o santo passar jogar sobre ele. É compromisso.

Telinha foi criada por minha bisavó como uma neta, e tive a felicidade de encontrá-la para me orientar no terreiro. Costumo dizer a ela: “Tem que ficar comigo para tudo”, porque várias vezes foi até a minha casa chorando e pedindo para que eu fosse ver o terreiro quando ele estava fechado e a sua estrutura desmoronando.

Enfim, conviver com Telinha tem sido um dos melhores aprendizados que tive. Ela é uma mulher determinada e realiza o que quer. Lava, passa, cozinha e inspira os mais jovens, que dizem não aguentar fazer a metade das coisas que ela faz. Está sempre me dizendo que quando chegar a sua hora quer dormir, pois não consegue imaginar viver em uma cama dependendo de outras pessoas. Que Deus a ouça, Telinha de Iemanjá Ogunté.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Je suis candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 8:34 PM
27 de janeiro de 2015
Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

Imponente, merecido e belo ergue-se o busto a Mãe Gilda, obra de arte a sacralizar e embelezar o espaço sagrado da Lagoa do Abaeté. Este monumento escultural é um símbolo contra a intolerância religiosa. A reverendíssima Yalorixá Gildásia dos Santos, nome de batismo desta dedicada religiosa, morreu no ano 2000 vitimada por um infarto após visualizar, com desgosto profundo, a sua foto em um jornal a ilustrar uma matéria intitulada “Macumbeiros e charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Em relação a monumentos que louvam os feitos de mulheres religiosas negras, temos o de Mãe Caetana na Boca do Rio e Mãe Runhó no fim de linha do Engenho Velho da Federação. O de Mãe Gilda localiza-se no Abaeté pela proximidade ao seu Terreiro, o Ilê Axé Abassá, hoje liderado pela competência de Mãe Jaciara.

A repressão àqueles que não sabem conviver, tem como marco legislativo a Lei 7.716/89 (Lei Caó), produto do eminente baiano, jornalista, parlamentar e advogado Carlos Alberto dos Santos (Caó). O artigo 20 desta lei assim define a intolerância religiosa: “é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Poderá ter origem nas próprias crenças religiosas de alguém ou ser motivada pela intolerância contra as crenças e práticas religiosas de outrem”. Em Salvador existe uma mobilização vigilante e constante contra esta prática por parte de uma maioria de pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, incluindo os fiéis do Candomblé. Louvemos a iniciativa da ex-vereadora Olívia Santana, autora da Lei Municipal n. 6.464/04 que instituiu o dia 21 de janeiro como a oportunidade de reflexão, conscientização e combate a intolerância religiosa.

Inspirado na lei criada por Olívia, o deputado federal Daniel Almeida foi o autor da lei federal n. 11.635/07 que inclui a data de 21 de janeiro no Calendário Cívico da União, pois, segundo o parlamentar, é necessário que dediquemos cotidianamente a nossa ação para a convivência com a diferença, de forma harmônica. Sensibilizados por esta proposta de convivência, inúmeros sujeitos lançam-se num empenho contra a intolerância religiosa, eis alguns: o Dr. Wellington Cesar Lima e Silva. Afirma que, mais que medidas judiciais, o que importa é o sentimento de que estamos juntos nesta caminhada, logo, ao respeitarmos as diferenças nos aproximamos do verdadeiro significado de um ato religioso. Louvemos aqui a promotora de Justiça Márcia Virgens.

O pastor Djalma Torres assegura que a diversidade religiosa é uma riqueza e a intolerância é inaceitável, e conclui que somos filhos de um mesmo pai e precisamo-nos respeitar. Já o padre Adriano Portela lembra que conviver em sociedade é encontrar pessoas que pensam diferente e respeitá-las. O ilustre médium espírita José Medrado esclarece que tolerância muitas vezes pode significar apenas “eu suporto”, queremos respeito! Algumas entidades merecem destaques especiais, como é o caso de Koinonia que há 21 anos luta contra a intolerância religiosa e contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos, e agora se empenha no apoio ao Caso Mãe Rosa.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé


Entrevista Júlio Braga: “Sou criança em relação a esse mundo milenar”

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de janeiro de 2015
O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

Os 42 anos da experiência de magistério em universidades como a Federal da Bahia, a Estadual de Feira de Santana e a Nacional do Zaire forjaram o discurso envolvente de Julio Braga, 72. Doutor em antropologia e babalorixá, ele domina o código acadêmico, mas também o da oralidade cheia de sabedoria das religiões afro-brasileiras. Transitar entre esses dois mundos parece confortável para o autor de 11 livros, dentre os quais Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens, com lançamento previsto para o dia 7 de fevereiro, na biblioteca pública de Itaparica. Além desse, Julio Braga já prepara uma coletânea de poemas que divide com amigos do Facebook e que chama de “prosemas”, misturando poesia e a prosa em que é mestre. Para perceber isso, basta ouvi-lo narrar a aventura da primeira viagem internacional para Dakar, Senegal, onde tomou forma a melhor definição que encontrou para si mesmo: o antrópologo na encruzilhada, título de um dos seus livros. Nessa entrevista, ele conta que, em sua trajetória, o estranhamento, próprio de quem vê a encruzilhada, não veio do povo de santo ter dentre os seus pares um homem da academia, mas, curiosamente, desta. “Eu era professor e macumbeiro. Foi difícil”. Nada que curvasse um filho de Iansã, orixá a quem é consagrado, e de quem, em suas pesquisas, descobriu novas faces, como a da lealdade.

O senhor formou gerações de cientistas sociais. Aposentou-se após 42 anos de ensino na Ufba e Uefs, de onde saiu em 2010. Qual é a sensação de ficar longe da sala de aula?

É uma sensação de perda. Mas eu sou aposentado, inativo nunca (risos). Tenho um candomblé, o Terreiro Axeloiá, que me dá prazer em administrar. Além disso, continuo minhas pesquisas e já estou com o livro Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens pronto. Ele será lançado dia 7, em Itaparica. Esse livro objetiva um foco distinto do trabalho de Ruth Landes (A Cidade das Mulheres), mas a ele não se opõe. Pelo contrário, procura verificar em que medida, ao lado das mulheres, os homens contribuíram para manter e consolidar as religiões afro-brasileiras na Bahia. Andei também fazendo umas tentativas poéticas no Facebook, que chamo de “prosemas”. Esse é o título da coletânea que vai trazer 50 desses textos. Ela deve sair no primeiro semestre desse ano ao lado do livro Dá-me licença aí Sereiá – A pesca de xaréu na Bahia.

O senhor participou de um período rico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba. Conviveu com personalidades como Pedro Agostinho, Vivaldo da Costa Lima.

Entrei na universidade muito jovem. Primeiro, eu fiz filosofia. No meu terceiro ano como estudante da Ufba, o Ceao (Centro de Estudos Afro-Orientais) resolveu, em 1963-1964, retomar os estudos afro-brasileiros, numa perspectiva antropológica mais elaborada a partir de pesquisa de campo extremamente cuidadosa do ponto de vista metodológico. E eu entrei nessa plêiade de grandes nomes como pesquisador. Dez dias depois de terminar a licenciatura, fui morar na África. Viajei em 1967.

Qual foi o seu primeiro destino?

Fui para Dakar, no Senegal. Não sabia falar francês e enfrentei minha primeira viagem de avião. Embarquei para o Rio , de onde o voo sairia. Mas aí o avião quebrou e nós fomos levados para o Hotel Glória. Imagine eu, pobre, instalado naquele hotel. Quando seguimos viagem, ocorreu uma escala na Libéria, onde estava acontecendo um golpe de Estado, e nos levaram para um hotel com escolta policial. Finalmente, cheguei a Dakar. O problema é que a pessoa que ficou de me esperar aguardava meu desembarque para dias antes. Como disse, não falava francês. Aí, como bom retirante, sentei na mala porque assim não tinha como ninguém roubá-la. De madrugada, chegou um avião de Buenos Aires onde vinha um francês que era professor da Universidade de Dakar, para onde eu havia sido enviado. Ele me levou para o campus da universidade. Tempos depois, Pierre Verger, que regularmente ia à África, apareceu por lá e me convenceu a ir para o Benim.

Foi onde começaram suas pesquisas?

Eu tinha começado uma pesquisa no Senegal, mas por sugestão de Verger, fui para Cotonou, no Benim, e depois Porto Novo, que fica na fronteira com a Nigéria. Mas aí Verger, que tinha me recebido lá, teve que viajar e fiquei um pouco isolado. Aí aconteceram coisas que redefiniram meu projeto existencial. A primeira é que tive malária e perdi 25 quilos. Além disso, namorava uma mulher extraordinária e muito inteligente. Eu a acompanhava em suas pesquisas , mas aí aconteceu um acidente trágico. Uma criança atravessou de bicicleta na frente do carro dela. Foi terrível. Ela teve que ir embora e sofreu muito com isso. Aí conheci uma pessoa que me disse para me cuidar espiritualmente. Verger voltou e fui passar um tempo na casa dele em Sakatê (região entre Nigéria e Benim). Então um sacerdote disse que eu tinha que fazer a obrigação “de cabeça” e outra como ojé, que é aquela que dá o título a quem passou pela última etapa iniciática ao culto de babá Egum, um espírito ancestral. E assim o fiz. Em 1968, foi a vez da minha obrigação de cabeça e Iansã veio para dizer que meu nome era Oyá Tundé, que significa “Iansã voltou”. Comecei minhas pesquisas sobre a religião dos orixás. Obviamente, já como filho de Iansã, me concentrei nas coisas desse orixá. Foi assim que descobri que Iansã é um orixá das águas para descontentamento de muita gente no Brasil (risos). Ela é a rainha do Rio Níger. A históra maior de Iansã está entrelaçada com a travessia que ela faz do país nupé, atravessando o Rio Níger para se encontrar com Xangô no reino de Oyó.

Como foi para um homem de ciência se tornar um sacerdote?

Vou contar uma história como os africanos fariam, que é paradigmática para explicar minhas dificuldades. Eu me candidatei a diretor da faculdade (de Filosofia e Ciências Humanas), nos anos 80, numa época em que professores, alunos e funcionários podiam votar. O candidato mais forte era o professor Mário Nascimento, que acabou se tornando o diretor porque eu fui vítima de um jornalista, veja só. Ele estava fazendo matéria para um jornal da universidade. Mário Nascimento disse que, se fosse eleito, como era católico, mandaria celebrar uma missa. Eu disse que, como era de candomblé, iria sacrificar dois galos na porteira da faculdade. Isso caiu como uma bomba. Eu fui eleito, mas a congregação não permitiu a minha posse. Acho que isso é bem sintomático das dificuldades que são colocadas para uma pessoa que zelou pela inteligência, pela interpretação das coisas etnológicas e, ao mesmo tempo, se entregou de corpo e alma, muito mais de alma, à religião afro-brasileira. Havia escárnio a cada instante. Até o próprio departamento era intolerante.

E do lado do povo de santo? Ninguém nunca lhe viu com desconfiança por ser um pesquisador ?

Nunca. Porque nunca perguntei nada a ninguém como antropólogo. Eu tive a felicidade de, ao voltar da África, ser recebido no Aganju, casa de Obaraín (nome sagrado do babalorixá Balbino Daniel de Paula) e ter vivido 15 anos ininterruptos lá dentro. Eu vivi o candomblé pela espinha, ou seja, por dentro.

Dos elementos que formam o arquétipo de Iansã, com quais se identifica?

(Risos, seguidos de um curto silêncio) Eu confesso que ninguém havia me feito uma pergunta dessa natureza, o que me obriga a refletir sobre o que vou dizer. Mas como tive um conhecimento diferenciado sobre a mítica de Iansã, posso colocar a sinceridade. Se no candomblé não sei uma coisa, digo que não sei, até porque, como religioso, devo saber que se mente para o ser humano, mas não para o orixá. Iansã foi uma mulher extremamente sincera e a esposa devotada de Xangô. Quando ele perdeu a guerra, Obá e Oxum não o acompanharam já como desterrado. A única que o seguiu, foi Iansã. Essa leitura é diferenciada do que se recompôs aqui, e fez do arquétipo de Iansã o de uma mulher safada. Na verdade, ela teve muitos amores, mas nunca ao mesmo tempo. Eu tive muitas mulheres, mas amei a todas e fui sempre sincero. Talvez tenha escorregado algumas vezes, mas, como não tem pecado no candomblé, logo me redimi (risos). Dizem que na vida a gente tem que plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Pois eu plantei uma fazenda de cacau, tenho nove filhos e escrevi 11 livros. Portanto, acho que estou a salvo e, com certeza, com lugar guardado ao pé de Olorum. Se bem que espero que demore para chegar lá, pois como diz uma cantiga da nossa tradição, ainda sou criança em relação a esse mundo milenar extraordinário.


Balaio de Ideias: Ano novo e novas esperanças

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
14 de janeiro de 2015
Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Valnizia Pereira Bianch, ialorixá do Terreiro do Cobre

Quando chega o ano novo, as pessoas têm expectativas e esperança de alcançar dias melhores. A espera é por conseguir realizar todos os objetivos que não foram alcançados no período que passou. Infelizmente, nem sempre tudo sai do jeito que cada pessoa quer ou acha que precisa. Às vezes o destino já colocou outras coisas em nossos caminhos ou aquilo que realmente estamos necessitados e não sabemos. Só não podemos desistir dos nossos sonhos. Temos que ter desejos e esperanças até mesmo porque os sonhos alimentam o futuro. Se deixarmos de sonhar como será que ficaremos? Só Deus sabe.

É necessário ter fé, paciência e determinação para lutar por aquilo que desejamos como se o amanhã fosse hoje. E, realmente, ele é. Dormimos e não sabemos se acordaremos. Nós sempre achamos que está faltando algo na nossa vida porque não temos o costume de andar olhando para trás. Mas se a nossa atenção estivesse voltada para o lado veríamos pessoas com problemas que não possuímos e aí iríamos agradecer o que conquistamos.

Se acordamos enxergando, andando, falando já estamos ganhando, pois existem outras pessoas que são cegas, surdas, cadeirantes e às vezes conseguem ser mais felizes do que aquelas que vivem sem nenhuma dessas deficiências, mas que reclamam de tudo e até de Deus ou do sagrado, dependendo da religião que seguem.

Claro que não podemos nos acomodar, sem luta não há vitória. Temos que lutar seja pelo que for – saúde, trabalho, amor – para que, quando chegar o ano seguinte, possamos realizar os nossos desejos porque onde há vida há esperança. O problema é que mantemos o costume de só lembrar das coisas ruins; as boas lembranças conservamos por poucos dias. Já as más passamos o ano todo remoendo.

Devido a essa angústia de querer que todos os problemas sejam resolvidos no novo ano, as pessoas, normalmente, querem saber qual é o orixá que vai governar os 365 dias, em busca de proteção. No candomblé, cada dia da semana simboliza um orixá, vodun, inquice ou caboclo. Às vezes, tem até dois no mesmo dia. Tudo isso é muito relativo, pois não é só o dia da semana que informa qual orixá é o comandante. Tem a numerologia, por exemplo, que diz alguma coisa.

Por isso eu prefiro não fazer jogo sobre essa questão, afinal cada pessoa vê de uma forma diferente. Mas diferente não é errado. É, simplesmente, diferente. O importante mesmo é cada um fazer o melhor que puder, até mesmo porque tudo na vida é bate e volta. Eu costumo dizer que ninguém planta abacaxi para colher banana. Então vamos plantar o que queremos colher.

Que todos os orixás, inquices, voduns e caboclos, portanto, nos deem um ano repleto de saúde e paz. Para o resto a gente corre de lado, porque atrás não alcança e na frente quem corre por nós é Exu, pois ele é o mensageiro e pode levar os nossos pedidos que devem ser bons e positivos. Costumam dizer que Exu faz isso ou aquilo, mas, na verdade, ele só leva o que as pessoas pedem e não tem culpa de nada. Nunca devemos esquecer que Exu é só um mensageiro. Axé.

Mãe Valnizia escreve mensalmente em dia de Xangô, quarta-feira


Pai Carlinhos de Oxóssi celebra 40 anos de santo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:23 PM
19 de dezembro de 2014
Pai Carlinhos celebra 40 anos de consagração ao orixá Oxóssi. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Pai Carlinhos celebra 40 anos de consagração ao orixá Oxóssi. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Amanhã, sábado, é dia de festa no Ilê Axé Odé Tomi, localizado no Lobato. O babalorixá da casa, José Carlos Conceição dos Santos, também conhecido como Pai Carlinhos, celebra seus 40 anos de iniciação no candomblé.

O sacerdote de 60 anos, foi consagrado, por Mãe Roxa, que comandava  um terreiro em Pernambués,  a Oxóssi, orixá considerado “o dono da prosperidade e da fartura”, chamado de “Rei de Ketu” e “Grande Caçador”.

“O candomblé para mim é uma rosa que tirei os espinhos e conservei as pétalas. Tive muitos momentos marcantes nessa minha caminhada. Fiz santo por amor. Eu amo orixá”, completa Pai Carlinhos.

A celebração começa às 19 horas e o terreiro fica no Conjunto Joanes Centro Oeste, quadro 18, bloco 58 A. Um ponto de referência é a CIPM (Companhia Independente de Polícia Militar), local. Parabéns a Pai Carlinhos e a sua comunidade.


Terreiro Seja Hundé (Roça do Ventura) é tombado pelo Iphan

postado por Cleidiana Ramos @ 3:28 PM
4 de dezembro de 2014
Iphan reconhece Roça do Ventura como patrimônio. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE 18.01.2012

Iphan reconhece Roça do Ventura como patrimônio. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE 18.01.2012

Mais um terreiro de candomblé acaba de ser reconhecido como patrimônio brasileiro: a Roça do Ventura, que tem o nome sagrado de Zogbodo Male Bogun Seja Unde, localizado em Cachoeira, Bahia. Dessa forma, o Ventura é o primeiro terreiro de nação jeje da Bahia reconhecido como espaço de riqueza cultural, histórica e artística do Brasil. O título é dado  pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A solicitação para o tombamento do terreiro, que é identificado como da tradição jeje-mahi foi feita pela Sociedade Religiosa Zogbodo Male Bogum e aprovada em reunião realizada na tarde de hoje pelo Conselho Consultivo do Iphan. O processo para o reconhecimento foi iniciado em 2008 e é recebido com festa pois a comunidade religiosa tem enfrentado uma intensa batalha para conservar seus espaços sagrados por conta da expansão imobiliária no município situado no recôncavo baiano.

A tradição jeje é uma das mais importantes na configuração do candomblé brasileiro como indicam diversos estudos antropológicos como A família de santo nos candomblés da Bahia, de Vivaldo da Costa Lima; Brancos e Pretos na Bahia, de Donald Pierson, escrito na década de 30; A  formação do candomblé, do antropólogo e professor da Ufba, Nicolau Parés, dentre outros.

A Roça do Ventura teve sua história iniciada em 1858. O terreiro ainda hoje consegue manter os assentamentos de suas divindades, os voduns, no amplo espaço verde que possui em meio a fontes, lagoas e árvores. 

Com o reconhecimento da Roça do Ventura, o Brasil passa a ter mais sete terreiros tombados:  Casa Branca, Gantois, Ilê Axé Opô Afonjá, Bate Folha e Oxumaré, localizado na Bahia e a Casa das Minas, situada no Maranhão.


Mãe Valnizia é nova articulista do jornal A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 AM
3 de dezembro de 2014
Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

A partir do próximo dia 17, a ialorixá Valnízia Pereira de Oliveira passa a assinar, mensalmente, artigos nas páginas de Opinião de A TARDE. Dessa forma fica mantido o espaço para a abordagem de questões diversas sob o ponto de vista do candomblé, que, desde maio de 2011, eram apresentadas nos artigos de mãe Maria Stella de Azevedo Santos, ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.

“Será uma experiência nova e que dá continuidade à história iniciada nesse espaço por mãe Stella, uma pessoa muito experiente e sábia. Em nossa religião temos por base o respeito aos mais velhos por entender que isso significa também avanço em mais sabedoria”, diz mãe Valnízia.

De acordo com ela, escrever é uma forma de manter o diálogo entre as artes de aprender e ensinar. “Quando a gente escreve, coloca o que está pensando para a opinião de outras pessoas. Então escrever é aprender e ensinar. Eu, por exemplo, aprendi muito com os textos de mãe Stella”, completa mãe Valnízia.

Mãe Stella deixou a publicação regular dos seus artigos em A TARDE, que eram veiculados quinzenalmente, sempre às quartas-feiras. O último foi há 15 dias.

A decisão de interromper a colaboração foi por conta de suas muitas atividades religiosas e coordenação de projetos, como o denominado “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”. O projeto mantém uma biblioteca móvel audiovisual denominada “Animoteca” e especializada em diversidade religiosa.

O projeto foi sendo construído a partir de reflexões realizadas por mãe Stella também nos artigos publicados em A TARDE.

Trajetória

Líder do Terreiro do Cobre, localizado no Engenho Velho da Federação e que tem Xangô como patrono, mãe Valnízia, 55 anos, foi iniciada no candomblé no terreiro da Casa Branca para o orixá Ayrá. Ela é autora dos livros Resistência e Fé, publicado em 2009, e Aprendo Ensinando, de 2011.

Há 26 anos mãe Valnízia dirige o Cobre, fundado no fim do século XIX pela africana Margarida de Xangô, que iniciou a linhagem sacerdotal da família.

Mãe Valnízia é bisneta de Flaviana Bianchi, chamada por intelectuais como Jorge Amado e Édison Carneiro de “Flaviana, a grande”.

Consagrada a Oxum, mãe Flaviana é uma das personagens do livro Cidade das mulheres, escrito pela antropóloga americana Ruth Landes, publicado em 1947, e que é um dos clássicos da etnografia sobre o candomblé baiano.

Boas-vindas

Usando a palavra “difícil” para definir sua decisão de deixar de contribuir regularmente com os artigos em  A TARDE, mãe Stella explicou em texto, publicado dia 19, que está deixando essa atividade por conta de seus outros compromissos.

“Tomar decisões é sempre muito difícil, principalmente quando esta decisão implica deixar uma atividade que nos dá prazer e alegria. Foi o que aconteceu comigo quando precisei deixar de escrever artigos para este conceituado jornal. Foi no treinamento do desapego, que todo sacerdote precisa fazer, que encontrei a força que precisava”, diz.

A ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá diz que ficou tranquila quando soube que a ialorixá Valnízia Pereira vai escrever artigos para a seção de Opinião de A TARDE.

“A tranquilidade veio quando fiquei sabendo que o espaço do jornal que era utilizado por mim passará a receber, agora, os conhecimentos de outra líder religiosa. Que a ialorixá Valnízia Pereira tenha muita alegria ao empreender esta nova jornada e conte, como sei que sempre contou, com as bênçãos dos orixás”, acrescentou.


Livro traz homenagem a Mãe Tatá de Oxum

postado por Cleidiana Ramos @ 5:00 PM
28 de novembro de 2014
Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Domingo, dia 30,  tem lançamento de livro no Terreiro da Casa Branca (Avenida Vasco da Gama). Trata-se de uma obra muito especial: uma coletânea de relatos, mensagens e depoimentos sobre Mãe Tatá de Oxum, a ialorixá da comunidade de candomblé, que é considerada a mais antiga, dentre as de nação ketu, do Brasil.

Mãe Tatá segue uma linhagem de grandes sacerdotisas do terreiro fundado por Iyá Nassô e que foi o primeiro reconhecido como patrimônio do Brasil pelo Iphan há 30 anos.

Intitulado Mãe Tatá- uma dádiva de Òsum, a coletânea, organizada por Ana Rita Santiago, traça a trajetória de uma ialorixá conhecida pela sabedoria e elegância nos gestos. O lançamento será a partir das 19 horas.


Que maus atos não quebrem vasos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:16 AM
8 de outubro de 2014
Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto: Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Assistimos muitos políticos serem carregados nos comícios, assim como as várias autoridades eleitas neste país foram carregadas nos ombros de seus correligionários no final do pleito eleitoral ocorrido no dia 5 de outubro. Esse gesto, repetido nos comícios e nos resultados dos pleitos, é cheio de simbolismos, os quais precisam e devem ser compreendidos, tanto por quem carrega, como por quem é carregado. Colocar alguém acima das cabeças dos outros é dizer que esta pessoa tem a capacidade e, consequentemente, a responsabilidade sobre tudo que implica na vida social daqueles que confiaram nele, isto é, tem por dever administrar e legislar bem sobre educação, saúde, segurança, lazer e, principalmente, respeitar o cumprimento da liberdade que rege a Carta Magna de um dos países mais democráticos deste planeta – o Brasil.

O catolicismo faz uso do andor, que no candomblé é conhecido como charola (palavra herdada dos portugueses), para colocar o sagrado acima do profano. Um provérbio bastante conhecido diz: “Cuidado com o andor, porque o santo é de barro”. E de barro também foram feitos, originalmente, os políticos a quem foi dado o poder, o direito e o dever de cuidar de seus irmãos. Portanto, se eles devem cuidar de nós, cabe também a nós cuidarmos deles, pois são seres humanos frágeis e fortes como o barro.

O barro é a mistura de água com terra. Uma autoridade precisa se moldar às circunstâncias diversas que a ela são impostas, com a flexibilidade da água e a solidez da terra. É a medida certa entre o sonho da alma com a realidade das ações materiais que faz com que um político seja um bom administrador e um bom legislador, pois recebe e aceita as orientações celestes. Ele é como um vaso, um pote de barro: artefato cuja abertura que possui simboliza a receptividade das orientações divinas.

No candomblé, vários são os objetos sagrados feitos de barro: pote, talha, quartinha, todos eles são utensílios ricos em simbolismos: guarda a água, símbolo de vida, que deve ser sempre renovada, pois os ensinamentos celestes, apesar de eternos, precisam ser sempre readaptados. Os sacerdotes do candomblé devem manter seus vasos cheios, comportamento que é explicado de uma forma clara e bela pelo budismo: Um pote cheio pela metade é emblema do tolo, uma vez que um sacerdote precisa estar pleno de sabedoria e de calma. É o que igualmente se espera de um político: que ele tenha sabedoria e calma para exercer sua missão.
A palavra pote na língua yorubá é odù, palavra que acentuada de maneira diferente significa destino.

O Terreiro de Candomblé que dirijo é sempre visitado por várias pessoas, entre elas os políticos, afinal são nossos irmãos, somos todos filhos de um Deus Supremo. É por isso que em época de eleição, peço aos orixás que dê a vitória àqueles que têm em seus destinos a missão de servir à humanidade através da política, naquele período. Uma missão tão árdua que merece orações constantes dos sacerdotes das diversas religiões e  dos não sacerdotes. Pois deus ouve a todos, indistintamente, basta que tenha “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Mãe Stella escreve no jornal  A TARDE, quinzenalmente, sempre às quartas-feiras  


Balaio de Ideias: Por um paisagismo tipicamente baiana

postado por Cleidiana Ramos @ 11:06 AM
24 de setembro de 2014
O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

Quando crianças, nossos professores tinham um trabalho imenso para realizar atividades educativas e informativas em equipe. Enquanto os alunos teimavam em fazer a tarefa com o mesmo grupo de colegas, os professores insistiam em desfazer as conhecidas “panelinhas”. Nesse verdadeiro cabo de guerra, normalmente os alunos eram “vencedores”. O que as crianças e adolescentes não sabiam, por lhes faltar experiência, é que vencer às vezes significa perder.

Na escola, as tarefas feitas em grupo objetivam fornecer informações, mas principalmente educar para o convívio em sociedade, já que, no futuro, os estudantes se tornarão profissionais que em vez de “panelinhas” precisarão formar imensos “caldeirões”, no qual estarão “juntas e misturadas” pessoas possuidoras de diferentes culturas e saberes, compartilhando seus conhecimentos variados, a fim de que as tarefas que lhes sejam dadas possam ser cumpridas com competência.

Estou relembrando o passado escolar para poder comentar sobre o presente, dia 12 de setembro, quando, redundantemente falando, recebi um grande presente na celebração dos meus 75 anos de iniciada. Não me refiro ao fato de ter lançado mais um livro e sim que, através desse livro, pude conhecer novas pessoas, as quais pertencem a grupos completamente diferentes daquele que tenho convivido até então. O livro O que as Folhas Cantam (para quem canta folhas) atraiu um grupo que nem de longe pensei em alcançar, exatamente pelo fato de eles não pertencerem ao meu grupo de convivência.

Os paisagistas e os arquitetos que compareceram ao lançamento me contagiaram com o entusiasmo que demonstraram sentir pelo livro. Um paisagista chegou a me falar que o trabalho dele estaria dividido no antes e no depois desse livro. Confesso, humildemente (pois pode existir humildade no orgulho), que fiquei orgulhosa com o que ouvi. Logo pensei: a Bahia é uma terra rica em sabedoria e, no que diz respeito ao reino vegetal, os negros escravos nos deixaram uma rica herança, que está mais no que na hora de usá-la para o bem de todos.

Este artigo é, pois, dirigido aos paisagistas e arquitetos, não só para agradecer a presença deles no lançamento do livro, como também para convidá-los a criar um tipo de paisagismo específico da Bahia, onde a grande sabedoria das plantas típicas do território baiano possa ser transmitida para os moradores de casas e condomínios, frequentadores de praças, etc.

Aqui seguem alguns exemplos de plantas possíveis de decorar casas e jardins, cujas energias transmitem poderes específicos para o corpo e a mente: folha-da-costa fornece o aprendizado do silêncio e do amadurecimento; batata-doce dá equilíbrio à cabeça; nativo abre os caminhos de quem busca purificação, coragem e liberdade; bambu desperta o deprimido, protegendo-o da excitação; cana-de-macaco nos torna mais maleáveis para que evitemos desavenças desnecessárias e desequilíbrios psíquicos.

Visando fazer com que nossa Bahia seja ainda mais conhecida pela sua criatividade e cultura própria, peço a meus leitores que conheçam algum paisagista, decorador, arquiteto que nos ajudem nesta nova empreitada.

Mãe Stella escreve para  o jornal A TARDE, quinzenalmente, às quartas-feiras   


Salvador faz festapara sua majestade, Lamidi Olaywola II, alafim de Oyó

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
31 de julho de 2014
Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Salvador está recebendo a visita de  Lamidi Olaywola Adeyemi III, o alafim de Oyó, estado nigeriano. De Oyó veio o culto ao orixá Xangô, patrono do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca, que é reconhecido como o mais antigo terreiro de nação Ketu do Brasil e que ele visitou na última terça-feira.  A Casa Branca e a sua história tem estreitas ligações com Oyó que foi um grande império na região onde hoje estão Nigéria e seu vizinho Benim, entre os séculos XVII e XVIII. Por uma questão cultural, Adeyemi III é reconhecido como um governante  local. Ele tem o título de alafin, o equivalente a um imperador ou rei.

Hoje à tarde, como último compromisso público na capital baiana, o alafim visita a pedra consagrada em Xangô, localizada em Cajazeiras.

A Nigéria é uma República, mas o título de alafim tem importância cultural e religiosa, pois ele é  representante de orixás na terra como Odudua, ancestral mítico de parte do povo iorubá.

O alafim veio à capital baiana em uma articulação de terreiros que inclui, além da Casa Branca, o Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), o Ilê Axé Opô Afonjá, o Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

Todos esses terreiros são reconhecidos como bens culturais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Inclusive, a visista de Adeyemi III motivou a realização de um seminário sobre patrimônio afro-brasileiro e trocas de experiências entre Brasil e Nigéria.

Abaixo vocês tem acesso a um texto de Meire Oliviera, publicado na edição de terça-feira do jornal A TARDE:

Meire Oliveira

Promover o intercâmbio acerca da preservação de bens culturais e fortalecer os laços históricos é o foco do 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria, que segue até a próxima quinta-feira.

A abertura do encontro – ocorrida ontem (terça-feira) no Salão Nobre do Fórum Ruy Barbosa – contou com a presença do rei do Império de Oyó, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, sua comitiva com 22 integrantes, além de lideranças religiosas do candomblé e autoridades políticas dos dois países.

“É lindo o trabalho de conservação feito aqui pelos templos religiosos, honrando a memória dos nossos antepassados, disseminando a religião tradicional e a identidade iorubá. Diante da ameaça constante, temos que nos unir no compromisso de preservar essa ancestralidade”, disse o rei de Oyó.

A iniciativa é promovida por cinco terreiros baianos, já reconhecidos no país como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan):  Ilê Axé Iyá Nassó Okà (Casa Branca), Ilê Axé Opo Àfonjá, Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

“A nossa meta é unir forças e fortalecer nossa cultura e religiosidade, além de preservar o culto na Nigéria e lutar pelo tombamento de Oyó pela Unesco”, disse Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, babalorixá da Casa de Oxumarê, que pretende realizar uma edição do seminário na Nigéria.

“O Brasil é guardião da nossa cultura. O objetivo é conhecer como se dá a preservação aqui e trocar experiências com a matriz, estreitando os laços”, disse o representante da Embaixada da Nigéria, Misah Wale Akanni.

Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, o evento visa criar mecanismos de preservação.

“É uma oportunidade de revisitar o que temos em comum e discutir o que pode ser feito para salvaguardar a herança que deve ser entendida como parte integrante da formação social, econômica e cultural do Brasil”, afirmou.


Parabéns, Mãe Stella!

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
2 de maio de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre capacidade de estar aberto a aprender. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Mãe Stella festeja aniversário, hoje. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Hoje é um dia muito especial: aniversário de nascimento da Iyalorixá Mãe Stella de Oxóssi. E, lembrando a todos que gostariam de dar um presente para agradecer por sua dedicação à religião que tantos brasileiros professam, ela sonha em montar uma biblioteca itinerante com livros sobre religião. Portanto, quem pode ajudar até mesmo enviando energias para o projeto, mãos na massa. Vivas a Mãe Stella.


Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
24 de abril de 2014
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka (Praça da Sé, Edifício Themis)

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

Cláudio Luiz Pereira

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

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Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

Serviço
Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé
Autor: Marlon Marcos
Editora: Kawo- Kabiyesile
Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas
Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151
Preço sugerido: $ 20,00