Arte como voz de mulher

postado por Cleidiana Ramos @ 6:17 PM
25 de novembro de 2015
Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

A próxima sexta será um dia de descobertas para a artista plástica Ayeola Moore, 66 anos. Pela primeira vez, desde que começou a pintar há 12 anos, ela apresentará suas telas para um público que vai além de amigos e da família, no Museu Afro-brasileiro da Ufba (Mafro), localizado no prédio da Faculdade de Medicina, Terreiro de Jesus.

Ayeola nunca realizou uma exposição. O máximo que fez para expor seus quadros foi um site (http://www.ayeolamoore.com/pt/index.php), onde estão relacionados alguns depoimentos de quem os viu, mas em círculo restrito.

No início do que revela ser a primeira entrevista que concede no lugar de uma artista prestes a expor, ela afirma estar experimentando ansiedade e insegurança.
“Tenho medo de que o resultado não fique à altura de tudo o que ele produziu para chegar a esse momento”, afirma Ayeola. O “ele” refere-se ao escritor Carlos Moore, 73 anos, com quem vive um casamento de 32 anos feito de cumplicidade presente em cada gesto ou troca de olhares.

“Ayeola foi especial em momentos cruciais da minha vida”, contou Moore, em outra ocasião, quando Ayeola estava ausente. O brilho que toma seus olhos a cada vez que fala na companheira fica ainda maior quando estão juntos.

Encontro

A cumplicidade do casal parece existir também em relação à arte a que cada um se dedicou, mesmo que elas sejam diferentes. Em seus livros, Carlos Moore inquieta ao mostrar o quanto de dores os negros da diáspora precisam combater a partir da descoberta e reafirmação de uma identidade resistente. Em seus quadros, Ayeola faz o mesmo, mas usando a perspectiva feminina.

“Mulher é o que eu sou e percebo os desafios que trazemos conosco. São muitas de nós que precisam abrir mão de seus sonhos porque vivem em meio a vários tipo de exploração, seja no Caribe, nos EUA ou na Bahia”, diz.

Foi por isso que, em meio a uma centena de telas, ela escolheu um grupo formado por 24, onde fixou as formas variadas, delícias e cicatrizes que mulheres negras compartilham, conhecem, descobrem ou reconhecem.

“Os pintores, geralmente, são homens brancos e, portanto, nunca falam de mulheres, principalmente as negras. Eu falo sobre elas porque é muito do que sei”, completa.

O título da mostra já prepara para o que será exibido: Mulher, a força que move o mundo. Por meio das telas, Ayeola quer repartir suas inquietações. “Acho que consigo fazer isso por ter começado a pintar já em uma estágio em que esses pensamentos atingiram a maturidade”, completa.

Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Obra de Ayeola mostra harmonia entre formas e cores. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Acerto

O encontro com a pintura se deu por meio de uma conversa com Abdias Nascimento (1914-2011), de quem ela e Carlos Moore sempre estiveram muito próximos.
“Eu estava no momento em que desejava deixar minha marca no mundo. Carlos já fazia isso com a sua escrita. E a pintura surgiu. Abdias me disse que se eu queria pintar que o fizesse sem me abalar com críticas”, conta.

A conversa levou Ayeola a encontrar um novo mundo. Natural de Guadalupe, uma região integrada à França e que fica no Caribe, sua conexão com a arte começou por meio da dança, área em que tem graduação e experiência em pesquisa. Ayeola também trabalhou, durante muito tempo, no ministério da educação francês.

Em 2000, ao lado de Carlos Moore, fixou residência em Salvador. Quando estavam mobiliando a casa, fez um comentário que se revelou uma profecia.

“Eu disse a Carlos que não íamos comprar quadros para as paredes da nossa casa, pois ia enchê-las com os meus”.

Hoje, quando se chega à casa deles, no bairro de Nazaré, são os quadros de Ayeola que dão as boas vindas. A harmonia entre cores e formas que eles transmitem impressiona. Mesmo quem não tem intimidade com o universo da pintura consegue perceber as boas histórias que eles têm para contar.

Depois de ouvir sua narrativa cativante, é hora de encerrar a conversa. Carlos Moore se aproxima para participar da despedida. Ela diz para ele que conceder a primeira entrevista não foi tão difícil. A resposta dele é um sorriso, acompanhado da reafirmação do que já havia dito: “Eu nunca duvidei de que você iria vencer mais esse desafio”.

Serviço:

Exposição “Mulher, a força que move o mundo”/ Abertura sexta, das 18 às 22 horas / Mafro/Ufba- Faculdade de Medicina, Terreiro de Jesus

 


Balaio de Ideias: Um Adeus ao Alapini

postado por Cleidiana Ramos @ 9:47 AM
8 de outubro de 2013
Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Emanoel Araujo

Há poucos dias visitei o meu querido amigo e irmão Deoscóredes Maximiliano dos Santos, que estava deitado, meio adormecido. Beijei sua mão longa e delicada. Ele me sussurrou algumas palavras pela surpresa da minha aparição sem anunciar. Por momentos estive com Juana dos Santos, sua inseparável companheira de tantos e tantos anos, sua fiel e apaixonada mulher como foram as do rei Xangô. Ela organizava, como fruto desse amor, a grande homenagem que lhe seria prestada no dia 2 de dezembro nos seus 96 anos, o siré dos 96 anos do Mestre Didi, e me mostrava a lista dos amigos que seriam convidados para a festa. Disse-lhe também que, em novembro, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, lhe prestaria uma homenagem para celebrar os 25 anos do livro “A mão afro-brasileira”. Qual a minha surpresa com a sua morte.

Mestre Didi sempre foi um homem voltado para a cultura e a vida afro-brasileira, desde os muitos livros que publicou sobre o culto dos ancestrais, no qual tinha o honroso cargo de Alapini. Foi um artista escultor de lindas obras, cuja temática falava desse extraordinário universo das coisas da África mítica, onde os deuses estão na terra, e por isso suas esculturas eram totêmicas, saíam do chão para alcançar o infinito. Ele sabia desafiar o espaço com a linha que se desdobrava em volutas encimadas por pássaros, numa alusão a Oxalá, ou se desdobrava em formas triangulares como os oxês de Xangô ou as palmas forradas de dores fortes de tecidos protegendo a natureza. Os fios de palmas se transformavam em xaxarás, ibiris, paxorôs com miçangas coloridas, adornadas com fatias de couro de muitas cores.

Esse era o artista no seu pequeno atelier, dando forma e vida à mitologia, às lendas dos orixás, às complexidades dessa cultura milenar: do sofrimento, da alma, do espírito, da dor e das raízes encravadas na memória do tempo e do espaço, diante da incompreensão dos ignorantes. Ele foi um sábio e um homem voltado para o sagrado, talvez ensinado pela sua madrinha Dona Aninha, por sua mãe Dona Senhora, talvez até na atmosfera verde e selvagem do Ilê Axé Opô Afonjá, com todas aquelas ebames num coro uníssono para Xangô, o justiceiro. Mas houve um outro Mestre Didi, amigo de Lídio, de Camafeu, de Waldeloir Rego, de Carybé, de Jorge Amado, de Vivaldo Costa Lima, de Tibúrcio Barreiros, de Dorival Caymmi, e de muitos amigos pelo Brasil afora, pelo mundo afora, pela África afora.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, sacerdote do culto dos Egunguns, Alapini do Ilê Asipa, mestre sagrado do culto dos ancestrais, artista escultor cuja obra encantou brasileiros e estrangeiros no “Magiciens de la Terre”, em Paris, na sala especial da Bienal internacional de São Paulo, na grande exposição no Museu Afro Brasil, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira em Salvador. Comendador da ordem do mérito da cultura nacional, foram muitos os degraus de sua obra artística e sacerdotal. Pairou por esse mundo de Olodumare e, como o deus Oxalá, transformou o barro e a palha com miçangas coloridas em seres vivos que falam da eterna e milenar cultura de um povo, e também a cultura viva, que pulsa no espírito do novo mundo. Adeus, Alapini, vá ao encontro de suas outras mulheres, que lhe amaram como um filho pródigo: Dona Aninha e sua mãe, Dona Senhora, verdadeiras rainhas do Ilê Axé Opô Afonjá. Kaô Kabecilê.

Emanoel Araujo é escultor e diretor-curador do Museu Afro Brasil, em São Paulo