Balaio de Ideias: Albergaria, nosso Boca do Inferno II

postado por Cleidiana Ramos @ 10:23 AM
11 de julho de 2015
O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott

O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott. Foto:  Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 10.5.2005

 

Luiz Mott

Professor titular de Antropologia da Ufba

Conheci Roberto Albergaria quando ingressou no Departamento de Antropologia da Ufba, há uns 30 anos atrás. Tive o privilégio de dar o parecer reconhecendo sua tese de doutorado defendida em Paris. Sempre disse e reafirmo: Albergaria era o mais culto, inteligente, provocativo e anarquista professor da Ufba. Infelizmente publicou pouco, mas deixou centenas de horas de entrevistas e gravações em rádio e televisão, material riquíssimo que merece virar tema de tese de mestrado e doutorado.

Com seu corpanzil e quase dois metros de altura, tinha a delicadeza de um gay, embora fosse confirmado mulherengo miseravão. Generoso, presenteou-me dois insólitos mimos: belíssimo chifre de um veado galheiro e um chicote de binga de boi – segundo ele, usado pelos cornos do sertão para castigar mulher adúltera. Em meu último aniversário, mandou-me esta mensagem, parece que psicografada pela mesma irreverência piadista de Gregório de Mattos, o Boca do Inferno:

“69 anos é a idade ideal para um putoso – putão idoso! O pururuca do Luizinho já pode broxar sem ter que justificar que ‘isto nunca me aconteceu antes’. Já pode andar com a braguilha aberta, pois ‘em casa de defunto a porta fica sempre aberta’. Já pode deixar de cumprir qualquer obrigação chata sob o pretexto de que se esqueceu: ‘estou ficando gagá mesmo!’ Já pode liberar um dedinho no furico só na manha, sem ter que botar no jornal que está sacrificando seu pobre tobinha apenas para dar um exemplo de militância política, porque menino que dá está brincando de troca-troca, é só estripulia, enquanto velhusco patusco de calça arriada está só esculhambando… pra alegrar seus últimos dias de picardia. E viva a descaração, desencuecada ou não. E viva a brincadeiragem, brincadeira com sacanagem: as melhores dádivas desta triste puta vida que nos pariu!”

Luiz Mott escreve no jornal A TARDE, quinzenalmente, aos sábados  


Bahia perde ícone da inteligência risonha

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
4 de julho de 2015
Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto:  Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/  29.04.2010

Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/
29.04.2010

MORTE/ ANTROPÓLOGO/ ALBERGARIA/ BAHIA

Cleidiana Ramos

Uma das cobranças clássicas a um repórter é o distanciamento ao que se reporta. Em tese, portanto, eu não deveria escrever o obituário de Roberto Albergaria de Oliveira, 63 anos, historiador, antropólogo e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (Ufba), um dos meus amigos mais queridos.

Mas precisei quebrar o cânone para lhe render a homenagem que me foi possível. Além disso, desafiar regras era com ele mesmo.

Nasceu em Cachoeira, embora às vezes dissesse ser de Muritiba para “pirraçar”, segundo ele, cachoeirenses como Ordep Serra, colega na antropologia e na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba.

Doutor em antropologia pela Universidade de Paris VII, a hoje Paris Diderot, Albergaria foi um dos mais brilhantes intelectuais baianos. Recebeu a orientação no doutorado de Michel de Certau (1925-1986), respeitado cientista social da escola francesa.

Sua tese para obter o grau de doutorado mergulha nas imagens simbólicas que o Brasil inspirou, a partir da sua condição de colônia portuguesa. Trata-se de uma análise com profunda inserção em teoria antropológica, mas ele repelia elogios ao seu preparo intelectual. Achava pedante, sem falsa modéstia.

Por isso criou o personagem iconoclasta. Com o tempo percebi que era disfarce para se livrar da chatice dos pretensiosos das mais variadas matizes.

Albergaria gostava de rir, mas tinha uma racionalidade que chocava os desavisados. Era extremamente pragmático, mas generoso.

O problema congênito – um tipo avançado de espinha bífida– foi o seu martírio até o fim. Além de impedir o movimento de uma das pernas, com o tempo desarrumou o sistema nervoso central, o que lhe fez vítima de vários distúrbios, como insônia crônica.

Foi essa dificuldade em lidar com as alterações no sono que o fizeram pedir a aposentadoria da universidade, pois acordava indisposto.
Crítica
Andava chateado com o que considerava a disseminação da “moral de jegue”, seu nome em baianês para falsos moralistas e fazia dos comentários na rádio Metrópole seu instrumento de desabafo contra esse mal.

Dizia invejar em nós, jornalistas, a capacidade de síntese, o que lhe era impossível. Falava pelos cotovelos e o didatismo de professor o fazia enviar complementos em longos textos via fax e depois por e-mail.

Albergaria era consultado por repórteres porque dominava os meandros da teoria antropológica. Conseguia opinar, com propriedade, sobre quase tudo, o que incomodava alguns que confundiam capacidade de explicar de forma didática pensamentos complexos com superficialidade.

Parei de me irritar com esse tipo de crítica, quando percebi que essas análises e até certos tipos de censura, o divertiam. A sua segurança intelectual lhe deu a imunidade necessária.

Não fez adversários ou inimigos. “Minha filha, eu sempre fui tido como maluco. Ninguém briga com doido”, explicava.

Não se casou ou teve filhos. Dizia só ter capacidade para amar mulheres de comportamento irreverente: as “miseravonas”.

Padilhas
Pegou em armas contra a ditadura quando integrou o PCBR. Foi preso durante uma ação frustrada de assalto a banco. Quando saiu da penitenciária foi para o exílio na França.

Não tinha uma crença religiosa, mas admirava o culto aos caboclos e a Exu no candomblé, e as padilhas da umbanda. Em sua casa tinha uma coleção de estátuas dessas entidades.

Nos últimos meses, declarou-se herege, no lugar de ateu. “É que tenho certa imaginação”. Portanto, acredito que essa capacidade o levou a achar o lugar ideal para que sua energia mental descanse em paz.

É tudo o que posso dizer agora

Cláudio Luiz Pereira  

Recebi, consternado, a notícia que Roberto Albergaria está morto. Fico imaginando como isto de fato empobrece a nós todos, retirando-nos certa capacidade de enfrentar com indignação e bom humor esta nossa realidade tão medonha. Morreu provavelmente de overdose de lucidez, recusando toda a carga de tédio que poderia entorpecê-lo, anulá-lo, ou aliená-lo numa velhice que poucos conseguem aceitar, ainda mais ele tão persistentemente jovem no seu pensamento irreverente, loquaz, cheio de uma ciência gaiata.

Para intelectuais como ele o melhor pensamento será sempre uma ação racional perante o mundo real.

Meu respeito por ele como intelectual deriva do fato de que ele fez escolhas, saltando do confortável mundo acadêmico, onde muitos intelectuais atolam numa mediocridade confortável, para o mundo da crítica cultural através do rádio, com sua dinâmica aleatória, delirante, e tão completamente carnavalesca. Provavelmente foi isto que permitiu que ele vivesse os últimos anos de sua vida dignamente, com trabalho, criatividade e, possivelmente, até alguma felicidade intima. Falo daquela felicidade possível aos homens muito inteligentes.

Meu respeito por ele vem também de sua personalidade idiossincrática, de suas ideias mirabolantes e engraçadas, de suas concatenações inesperadas, de suas abstrações lógicas ou ilógicas, mas que nos faziam pensar. Vem, também, do testemunho que posso dar de sua generosidade, do seu senso de justiça, e do seu empenho em apoiar moralmente todos àqueles que eram perseguidos e vilipendiados.

Morreu fazendo uma escolha, dentro das escolhas possíveis com que ele poderia reafirmar sua própria dignidade.

 

 Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do MAE/Ufba


Entrevista Júlio Braga: “Sou criança em relação a esse mundo milenar”

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de janeiro de 2015
O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

Os 42 anos da experiência de magistério em universidades como a Federal da Bahia, a Estadual de Feira de Santana e a Nacional do Zaire forjaram o discurso envolvente de Julio Braga, 72. Doutor em antropologia e babalorixá, ele domina o código acadêmico, mas também o da oralidade cheia de sabedoria das religiões afro-brasileiras. Transitar entre esses dois mundos parece confortável para o autor de 11 livros, dentre os quais Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens, com lançamento previsto para o dia 7 de fevereiro, na biblioteca pública de Itaparica. Além desse, Julio Braga já prepara uma coletânea de poemas que divide com amigos do Facebook e que chama de “prosemas”, misturando poesia e a prosa em que é mestre. Para perceber isso, basta ouvi-lo narrar a aventura da primeira viagem internacional para Dakar, Senegal, onde tomou forma a melhor definição que encontrou para si mesmo: o antrópologo na encruzilhada, título de um dos seus livros. Nessa entrevista, ele conta que, em sua trajetória, o estranhamento, próprio de quem vê a encruzilhada, não veio do povo de santo ter dentre os seus pares um homem da academia, mas, curiosamente, desta. “Eu era professor e macumbeiro. Foi difícil”. Nada que curvasse um filho de Iansã, orixá a quem é consagrado, e de quem, em suas pesquisas, descobriu novas faces, como a da lealdade.

O senhor formou gerações de cientistas sociais. Aposentou-se após 42 anos de ensino na Ufba e Uefs, de onde saiu em 2010. Qual é a sensação de ficar longe da sala de aula?

É uma sensação de perda. Mas eu sou aposentado, inativo nunca (risos). Tenho um candomblé, o Terreiro Axeloiá, que me dá prazer em administrar. Além disso, continuo minhas pesquisas e já estou com o livro Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens pronto. Ele será lançado dia 7, em Itaparica. Esse livro objetiva um foco distinto do trabalho de Ruth Landes (A Cidade das Mulheres), mas a ele não se opõe. Pelo contrário, procura verificar em que medida, ao lado das mulheres, os homens contribuíram para manter e consolidar as religiões afro-brasileiras na Bahia. Andei também fazendo umas tentativas poéticas no Facebook, que chamo de “prosemas”. Esse é o título da coletânea que vai trazer 50 desses textos. Ela deve sair no primeiro semestre desse ano ao lado do livro Dá-me licença aí Sereiá – A pesca de xaréu na Bahia.

O senhor participou de um período rico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba. Conviveu com personalidades como Pedro Agostinho, Vivaldo da Costa Lima.

Entrei na universidade muito jovem. Primeiro, eu fiz filosofia. No meu terceiro ano como estudante da Ufba, o Ceao (Centro de Estudos Afro-Orientais) resolveu, em 1963-1964, retomar os estudos afro-brasileiros, numa perspectiva antropológica mais elaborada a partir de pesquisa de campo extremamente cuidadosa do ponto de vista metodológico. E eu entrei nessa plêiade de grandes nomes como pesquisador. Dez dias depois de terminar a licenciatura, fui morar na África. Viajei em 1967.

Qual foi o seu primeiro destino?

Fui para Dakar, no Senegal. Não sabia falar francês e enfrentei minha primeira viagem de avião. Embarquei para o Rio , de onde o voo sairia. Mas aí o avião quebrou e nós fomos levados para o Hotel Glória. Imagine eu, pobre, instalado naquele hotel. Quando seguimos viagem, ocorreu uma escala na Libéria, onde estava acontecendo um golpe de Estado, e nos levaram para um hotel com escolta policial. Finalmente, cheguei a Dakar. O problema é que a pessoa que ficou de me esperar aguardava meu desembarque para dias antes. Como disse, não falava francês. Aí, como bom retirante, sentei na mala porque assim não tinha como ninguém roubá-la. De madrugada, chegou um avião de Buenos Aires onde vinha um francês que era professor da Universidade de Dakar, para onde eu havia sido enviado. Ele me levou para o campus da universidade. Tempos depois, Pierre Verger, que regularmente ia à África, apareceu por lá e me convenceu a ir para o Benim.

Foi onde começaram suas pesquisas?

Eu tinha começado uma pesquisa no Senegal, mas por sugestão de Verger, fui para Cotonou, no Benim, e depois Porto Novo, que fica na fronteira com a Nigéria. Mas aí Verger, que tinha me recebido lá, teve que viajar e fiquei um pouco isolado. Aí aconteceram coisas que redefiniram meu projeto existencial. A primeira é que tive malária e perdi 25 quilos. Além disso, namorava uma mulher extraordinária e muito inteligente. Eu a acompanhava em suas pesquisas , mas aí aconteceu um acidente trágico. Uma criança atravessou de bicicleta na frente do carro dela. Foi terrível. Ela teve que ir embora e sofreu muito com isso. Aí conheci uma pessoa que me disse para me cuidar espiritualmente. Verger voltou e fui passar um tempo na casa dele em Sakatê (região entre Nigéria e Benim). Então um sacerdote disse que eu tinha que fazer a obrigação “de cabeça” e outra como ojé, que é aquela que dá o título a quem passou pela última etapa iniciática ao culto de babá Egum, um espírito ancestral. E assim o fiz. Em 1968, foi a vez da minha obrigação de cabeça e Iansã veio para dizer que meu nome era Oyá Tundé, que significa “Iansã voltou”. Comecei minhas pesquisas sobre a religião dos orixás. Obviamente, já como filho de Iansã, me concentrei nas coisas desse orixá. Foi assim que descobri que Iansã é um orixá das águas para descontentamento de muita gente no Brasil (risos). Ela é a rainha do Rio Níger. A históra maior de Iansã está entrelaçada com a travessia que ela faz do país nupé, atravessando o Rio Níger para se encontrar com Xangô no reino de Oyó.

Como foi para um homem de ciência se tornar um sacerdote?

Vou contar uma história como os africanos fariam, que é paradigmática para explicar minhas dificuldades. Eu me candidatei a diretor da faculdade (de Filosofia e Ciências Humanas), nos anos 80, numa época em que professores, alunos e funcionários podiam votar. O candidato mais forte era o professor Mário Nascimento, que acabou se tornando o diretor porque eu fui vítima de um jornalista, veja só. Ele estava fazendo matéria para um jornal da universidade. Mário Nascimento disse que, se fosse eleito, como era católico, mandaria celebrar uma missa. Eu disse que, como era de candomblé, iria sacrificar dois galos na porteira da faculdade. Isso caiu como uma bomba. Eu fui eleito, mas a congregação não permitiu a minha posse. Acho que isso é bem sintomático das dificuldades que são colocadas para uma pessoa que zelou pela inteligência, pela interpretação das coisas etnológicas e, ao mesmo tempo, se entregou de corpo e alma, muito mais de alma, à religião afro-brasileira. Havia escárnio a cada instante. Até o próprio departamento era intolerante.

E do lado do povo de santo? Ninguém nunca lhe viu com desconfiança por ser um pesquisador ?

Nunca. Porque nunca perguntei nada a ninguém como antropólogo. Eu tive a felicidade de, ao voltar da África, ser recebido no Aganju, casa de Obaraín (nome sagrado do babalorixá Balbino Daniel de Paula) e ter vivido 15 anos ininterruptos lá dentro. Eu vivi o candomblé pela espinha, ou seja, por dentro.

Dos elementos que formam o arquétipo de Iansã, com quais se identifica?

(Risos, seguidos de um curto silêncio) Eu confesso que ninguém havia me feito uma pergunta dessa natureza, o que me obriga a refletir sobre o que vou dizer. Mas como tive um conhecimento diferenciado sobre a mítica de Iansã, posso colocar a sinceridade. Se no candomblé não sei uma coisa, digo que não sei, até porque, como religioso, devo saber que se mente para o ser humano, mas não para o orixá. Iansã foi uma mulher extremamente sincera e a esposa devotada de Xangô. Quando ele perdeu a guerra, Obá e Oxum não o acompanharam já como desterrado. A única que o seguiu, foi Iansã. Essa leitura é diferenciada do que se recompôs aqui, e fez do arquétipo de Iansã o de uma mulher safada. Na verdade, ela teve muitos amores, mas nunca ao mesmo tempo. Eu tive muitas mulheres, mas amei a todas e fui sempre sincero. Talvez tenha escorregado algumas vezes, mas, como não tem pecado no candomblé, logo me redimi (risos). Dizem que na vida a gente tem que plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Pois eu plantei uma fazenda de cacau, tenho nove filhos e escrevi 11 livros. Portanto, acho que estou a salvo e, com certeza, com lugar guardado ao pé de Olorum. Se bem que espero que demore para chegar lá, pois como diz uma cantiga da nossa tradição, ainda sou criança em relação a esse mundo milenar extraordinário.


Novo livro de Jaime Sodré

postado por Cleidiana Ramos @ 5:13 PM
14 de dezembro de 2010

O complexo campo das representações sociais e a sua consolidação no senso comum é o ponto de partida de uma análise criteriosa sobre a influência da imprensa baiana na construção de uma imagem distorcida do candomblé. Essa construção centrada não só em uma ideia de que a religião de matriz africana é um símbolo do mal ou só pode ser tratada de forma jocosa aparece desvendada no livro Da Diabolização à Divinização- a criação do senso comum, do pesquisador Jaime Sodré, que será lançado amanhã, no restaurante Aconchego da Zuzu (Garcia), às 18 horas.

Dominando uma metodologia múltipla que se aproxima da Antropologia e da História, o mestre em design, professor universitário e religioso do candomblé, desvenda também como essa própria imprensa é capaz de dissolver essa imagem negativa que construiu das religiões afro, embora essa ação tenha se dado numa dimensão menor.

“Para o desenvolvimento da análise desse trabalho sobre a imprensa soteropolitana em relação ao noticiário referente ao Candomblé, achei por bem delinear como se construiu essa relação, bem como as ações históricas responsáveis pelo crédito de tais conotações, e que, atravessando séculos, ainda interagem no cotidiano”, explica Sodré.

O autor aposta, com base em sua experiência de análise, que ainda é possível mudar  esse comportamento da imprensa. “A criação de um senso comum de representações negativas chamadas de diabolização, desfavorável à religião do Candomblé, poderia evoluir para uma situação que denominamos divinização. A divinização servirá para configurar situações de representações sociais positivas, veiculadas pela imprensa, que impliquem numa transformação do senso comum”, acrescenta.

O livro traz exemplos de matérias consideradas negativas, mas também das positivas. O levantamento é capaz de levar à reflexão sobre o comportamento de um importante segmento social, a imprensa, em relação à religiosidade afro-brasileira, um dos mais fortes elementos representantivos da identidade baiana.

O quê: Lançamento do livro Da Diabolização à Divinização- a criação do senso Comum, de Jaime Sodré
Quando: 15/12, 2010 (amanhã), às 18 horas
Onde: Restaurante Aconchego da Zuzu- Rua Quintino Bocayuva nº 18 (fim de linha do Garcia)
Editora: Edufba


Balaio de Ideias: Vivaldo, sabedor de coisas

postado por Cleidiana Ramos @ 8:21 PM
24 de setembro de 2010

Antropólogo celebra Vivaldo da Costa Lima, morto na última quarta-feira. Na imagem, Mestre Didi, Pierre Verger e Vivaldo. Foto: Arquivo| Ag. A TARDE

Cláudio  Pereira

Vivaldo era um homem laborioso. Ele sabia que “Deus está nos detalhes” e, por isto mesmo, em sua labuta foi um artesão minucioso.  Sua trajetória intelectual é impar. Nasceu em Feira de Santana, em 1925, foi jovem prodígio da odontologia, largou tudo e quis ser antropólogo, num tempo em que tornar-se isto requeria um gesto heróico.  Tornou-se, qual  Hamlet, como ele costumava dizer,  um “louco com método”, e disto nunca se arrependeu.

Também pudera sendo Vivaldo um homem dotado de uma memória extraordinária, aliada de uma inteligência sofisticada, diligente e crítica. A combinação disto, aliás, fez dele uma personalidade forte e digna, portadora de uma sinceridade desconcertante. Ninguém, assim, passava indiferente ao seu convívio, e sua presença era transformadora.

Vivaldo ensinou gerações de cientistas sociais. Sua definição do que era antropologia era ampla, geral e enigmática: “antropologia é tudo aquilo que a gente quiser chamar de antropologia”. E talvez seja, por isso mesmo, que  em suas mãos os livros corriam em um fluxo contínuo, caudal, eclético. Isto o tornava um sabedor de coisas, funcionário das palavras e da língua, fazedor de sínteses.  Enciclopédico inventor de sentidos, como os verdadeiros interpretes do mundo e do espírito dos tempos.

Vivaldo escreveu de maneira profícua. Não movido por um vago sentido banal de que escrever dá publicidade e notoriedade, mas certo de que as verdades bem ditas são econômicas, justas, exatas. A Família de Santo nos Candomblés da Bahia, por exemplo, é obra de posição impar na etnologia brasileira, o que o coloca como autor no patamar de Nina Rodrigues, Édison Carneiro e todos os grandes cientistas sociais brasileiros. E tão valiosos foram seus textos dispersos, no qual ele descortinou o mundo afro-brasileiro, debruçando-se sobre o candomblé, as línguas africanas, a religiosidade popular, a valor do negro na cultura nacional.  Sua contribuição intelectual através de suas obras e orientações acadêmicas alicerça as bases do mundo afro-baiano atual. Intérprete da cultura por excelência, se tornou seminal nesta cultura mesma.

Vivaldo era um mestre da conversação fluente. Com o mesmo élan com que dialogava com sacerdotes e sacerdotisas, anônimos ou famosos, do candomblé da Bahia, tornando-se protegido e protetor destes e destas, dialogava com sumidades do mundo intelectual moderno, com artistas, literatos e cientistas.

Curioso, Vivaldo explorou temas como quem desbrava continentes perdidos. Era astucioso ao inventar ideias. Tinha fome de leitura, sede de verdades. Tinha gosto por coisas insólitas, por assuntos desafiantes, pelo diferente só por ser diferente. Tinha obsessão por autores (queixava-se que no mundo hoje faltam leitores para Proust), por gêneros literários (consumia literatura policial com fervor), e tanto por coisas novas que podem ser ditas por serem novas, como por coisas que sendo antigas, precisam continuar a ser ditas.

Vivaldo foi amiúde um reformador social, e pretendeu construir mundos como quem sonha utopias. Arquitetou planos que, seguramente, não viu realizados. Foi cosmopolita e, como tal, sabia que mesmo o nosso pequeno mundo, esta província em que somos náufragos, se encontra em expansão inevitável em direção ao futuro.

Vivaldo foi obsequioso. Prova disto é que seus verdadeiros amigos eram amigos fiéis. Ele acreditava piamente na  generosidade, na reciprocidade e naquilo que vagamente podemos indicar como o “dom” humano. Por isso mesmo sofria com os tempos modernos, em que já não há mais a cortesia das relações pessoais, dos gestos desinteressados de simpatia, do gosto por aquilo que ele aprendeu como sendo as boas coisas da vida.

Vivaldo, nas últimas semanas, sabia também que “a mais indesejada das gentes”, como ele costuma falar da morte, evocando Bandeira, estava para chegar. Disse-me, divertido, em uma das nossas últimas conversas que ele seria absolvido pela providência divina por duas razões: era ele que, quando criança, conduzia de mãos dadas Irmã Dulce até o escritório do pai, Paulo Costa Lima, quando ela, mensalmente, passava na Fábrica da Jurubeba Leão do Norte para pegar as ofertas para suas obras de caridade; e, também, porque ele compartilhara, num congresso Eucarístico, do mesmo aposento do jovem Karol Wojtyla, que depois se tornaria o Papa João Paulo II. Vê-se como se torna doce a ironia contida na lógica da vida e da morte para um agnóstico convicto, como ele de fato era.

Com 85 anos bem vividos Vivaldo da Costa Lima se foi vitorioso na primeira manhã desta primavera.

Cláudio Pereira é doutor em antropologia e professor da Ufba


Morre o professor Vivaldo da Costa Lima

postado por Cleidiana Ramos @ 10:26 AM
22 de setembro de 2010

Professor Vivaldo da Costa Lima foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros. Foto: Fernando Vivas|Ag. A TARDE| 11.09.2008

Um dos mais importantes antropólogos do Brasil, Vivaldo da Costa Lima, professor emérito da Ufba, faleceu na manhã de hoje. Ele estava internado na Fundação Baiana de Cardiologia e ainda não foi definido o horário do velório e do sepultamento.

O profesor Vivaldo é autor de clássicos sobre a cultura afro-brasileira, como O Conceito de Nação nos Candomblés da Bahia e A  Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia.

Além disso, o professor Vivaldo era um grande especialista em questões relacionadas à gastronomia afro-brasileira. Um dos seus últimos trabalhos foi um livro escrito a partir de conversas com a ialorixá Olga de Alaketu de quem foi compadre e amigo muito próximo, que ainda está no prelo.

Eu, particularmente, só o encontrei poucas vezes, mas já diálogavamos via as reportagens que eu escrevia no jornal e recados de amigos próximos.

Temia, sempre, a proximidade de uma entrevista, pois sempre soube da sua impaciência com jornalistas. Mas o encontro, que começou tenso, quando ele me perguntou se eu tinha tempo, cujo motivo só se revelou bem mais tarde, acabou rendendo uma da mais reveladoras e educativas conversas que já tive.

Poucas vezes, confesso, escrevo um texto de uma forma tão emocionada. Desculpem-me, mas o professor Vivaldo era daquelas pessoas que ao se encontrar uma vez não se esquece jamais.

Assim que tivermos mais informações vamos atualizando.


Entrevista com Fernando de Tacca

postado por Cleidiana Ramos @ 7:05 AM
12 de dezembro de 2009
Fernando de Tacca analisa fotos de candomblé utilizadas em revistas. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

Fernando de Tacca analisa fotos de candomblé utilizadas em revistas. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

O doutor em antropologia e professor da Unicamp, Fernando de Tacca lançou este ano o livro Imagens do Sagrado. É uma interessante pesquisa sobre a polêmica causada pela publicação de duas reportagens sobre iniciação religiosa no candomblé nas revistas Paris Match e O Cruzeiro em 1951.

As reportagens intituladas, respectivamente, As Possuídas da Bahia e As Noivas dos Deuses Sanguinários causaram uma grande polêmica e receberam duras críticas de intelectuais que estudavam o candomblé como Roger Bastide. As duas reportagens tiveram como cenário terreiros baianos e, no caso de O Cruzeiro, a repercussão foi ainda maior pois era a maior revista brasileira da época.

O episódio até hoje está presente no imaginário do povo-de-santo. Segundo as versões correntes a mãe-de-santo que permitiu as fotografias, Mãe Riso, foi punida com uma morte violenta e seu terreiro foi depedrado.

A pesquisa de Tacca, que eu tive a honra de ter como um dos avaliadores da minha dissertação de mestrado defendida na última quinta-feira, reconta o passo-a-passo da história desmontando esta versão. Na edição de hoje de A TARDE, no Caderno 2+ tem uma reportagem sobre o livro, assinada por mim, além de uma reportagem.

O conteúdo completo da entervista  pode ser conferido aqui abaixo.


Fernando de Tacca- Parte 1

postado por Cleidiana Ramos @ 7:05 AM
12 de dezembro de 2009
Foto:Haroldo Abrantes

Foto:Haroldo Abrantes

“Meu livro é uma investigação, uma espécie  uma reportagem antropológica”

Foi no curso de Ciências Sociais que Fernando de Tacca se aproximou da fotografia. O tempo faria com que estes seus dois interesses acabassem se encontrando para a produção de mais conhecimento, como é o caso do seu livro Imagens do Sagrado- entre Paris Match e o Cruzeiro. Doutor em antropologia e professor da Unicamp, Tacca enriquece o campo de estudos sobre a imagem com uma pesquisa onde o fotojornalsimo é o ponto de partida. A partir da análise da reportagem As Noivas dos Deuses Sanguinários, publicada pela  revista O Cruzeiro, em 1951, ele mostra não apenas a polêmica sobre a descrição detalhada da iniciação de três iaôs no terreiro da mãe-de-santo baiana Risolina Heleonita da Silva, mais conhecida como Mãe Riso. A reportagem e as suas consequências, tanto as reais como as imaginárias presentes no discurso do povo de santo, são o ponto de partida do autor, mas ele revela muito mais. Seu livro traz os  bastidores deste episódio como a disputa de mercado entre O Cruzeiro e a a francesa Paris Match, que meses antes havia publicado uma matéria semelhante a partir de fotografias feitas pelo cineasta Henri-George Clouzout. Um exemplo desta guerra jornalística é uma carta de Leão Gondim, diretor de O Cruzeiro, incitando o fotógrafo José Medeiros a provar que poderia se igualar a Clouzout e ao também francês, Pierre Verger que trabalhava para a revista, mas havia se negado a ceder fotos sobre uma iniciação que possuía. Nesta entrevista à repórter Cleidiana Ramos, Tacca conta detalhes de sua  pesquisa que revela episódios como a publicação em  A TARDE de uma versão traduzida da reportagem da Paris Match intitulada As Possuídas da Bahia.

A TARDE- Como o Sr. tomou contato com as fotos de José Medeiros?

Fernando de Tacca: É uma história longa. Eu fiz Ciências Sociais na USP e durante o curso me tornei fotógrafo. Naquele período não havia uma interlocução entre a área de imagem e ciências socias. Comecei a fazer minhas pequisas, fui encontrando artigos internacionais e me interessando pela área. Quando saí da USP, eu fui fazer um curso de especialização em Goiânia sobre imagem.Este curso foi feito dentro do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA) que não tinha vocação para o trabalho com imagem, mas tinha um importante acervo de fotos de filmes de Jesco Von Puttkamer, que fotografou os índios. Eu e mais alguns fotógrafos fomos escolhidos para fazer este curso. Não havia ainda um corpus intelectual no Brasil sobre este tema, mas apenas gente que pesquisva. Foi lá que conheci Micênio Carlos Lopes dos Santos. Ele tinha ligações com o terreiro de Olga de Alaketo e se tornou meu compadre. Micênio tinha o livro Candomblé, de José Medeiros. As imagens chamaram minha atenção. Fiquei me perguntando como ele se relacionou com aquele grupo para conquistar o grau de liberdade para circular e fazer aquelas fotos. Além disso as imagens tinham um caráter bem forte, com sacrifícios de animais e eram de excelente qualidade fotográfica.

AT: A pesquisa começou imediatamente?
FT: Não. Passaram alguns anos e eu fui visitar José Medeiros. Eu  já tinha uma indicação no livro sobre a revista, mas nessa ocasião ele não me mostrou o exemplar de O Cruzeiro.  Também tive algumas informações por meio de Micênio. Como ele circulava no meio do candomblé e eu não sou um especialista em religiões afro-brasileiras, ele me ajudou muito inclusive com as informações sobre as versões que corriam em relação ao episódio.

AT: Até então o Sr. não tinha ainda se aprofundado sobre as fotos do processo iniciático na Paris Match?

FT:Não. A Paris Match apareceu muito mais à fernte, aqui na Bahia. No livro eu conto todo o meu percurso. Ele é também um livro-reportagem, de investigação, uma espécie de reportagem antropológica. Até então a informação que circulava no ambiente do candomblé é que Mãe Riso teria morrido de morte violenta. Mas antes de chegar à Bahia para levantar estas informações várias coisas foram acontecendo na minha vida. Eu fiz um doutorado na USP sobre um assunto completamente diferente: a produção fotográfica e cinematográfica da Comissão Rondon e como se deu a construção oficial da imagem do índio por meio deste trabalho, morei dois anos no Japão e só depois é que me dediquei a este trabalho.

AT: Esta reportagem é publicada com uma aura de sensacionalismo, mas depois as mesmas fotografias foram publicadas no livro Candomblé, de José Medeiros, e aí já são lidas como um trabalho artístico. É curiosa esta mudança.

FT: Realmente, elas passam a ser vistas no livro como uma descrição etnográfica.O texto na revista O Cruzeiro tem uma carga forte, mas é muito bem feito pelo jornalista Arlindo Silva. Acho interessante a história do texto. Ele é mais próximo do verdadeiro do que a descrição do trabalho de Clouzout na Paris Match. As informações da reportagem sobre Clouzout são pejorativas, desqualificatórias, tentando encontrar patalogias como esquizofrenia, quando a gente sabe que isso já havia sido superado por estudos daquele período, como os de Roger Bastide. Mas vale esclarecer que Clouzout não escreveu a reportagem. Ela é feita em terceira pessoa.

AT: Roger Bastide, inclusive, fez críticas contundentes ao texto da Paris Match.

FT:Ele escreveu três textos para a revista Anhembí.  No primeiro artigo Roger Bastide contesta Clouzout, mas em seguida ele descreve o livro de Clouzout e faz uma espécie de redenção do seu  conterrâneo. Clouzout, depois da reportagem da Paris Match, foi execrado na imprensa brasileira, por artigos como o de Alberto Cavalcanti e Édison Carneiro que, embora faça críticas, diz que não se arrepende de ter indicado alguns terreiros a Clouzout quando ele veio para cá. Só que o pai-de-santo do terreiro onde Clouzout foi fotografar não é identificado. O nome Nestor usado na reportagem da Paris Match é fictício. Essa reportagem chegou a ser publicada traduzida em A TARDE em três episódios, mas acho que sem fotos. Tudo isso preparou o terreno para a polêmica e para O Cruzeiro dar a sua resposta. Claudio David, que me auxiliou fazendo a pesquisa em jornais, encontrou os anúncios sobre a chegada de O Cruzeiro. Isso faz parte de um itinerário de mercado. Quando eu percebi isso pedi para ele continuar a pequisa e aí depois encontrei um anúncio da Federação do Culto Afro-Brasileiro convidando a população, os associados e os jornalistas para discutir a polêmica levantada tanto pela revista O Cruzeiro como pela Paris Match .


Fernando de Tacca- Parte 2

postado por Cleidiana Ramos @ 7:04 AM
12 de dezembro de 2009
Foto: Haroldo Abrantes

Foto: Haroldo Abrantes

AT: Como Pierre Verger que era repórter de O Cruzeiro se comportou neste episódio?
FT: Pierre Verger foi sempre muito silencioso sobre esse assunto. Ele era amigo de Medeiros. Mas não creio que se manteve afastado só por isso, mas também porque ele não quis ceder as fotos que ele tinha sobre um processo iniciático. Aliás, ele e Odorico Tavares prepararam uma reportagem para O Cruzeiro, que não foi publicada. Eu encontrei este texto nos arquivos da Fundação Pierre Verger. Ele, Verger, não só transitava bem nesse universo, mas tinha uma relação pessoal com o candomblé e talvez por isso tenha tido essa reserva. Na parte final do livro eu faço um adensamento conceitual dessa história que eu chamo de fricção ritualística. Eu trabalho com um autor norte-americano, da área de semiótica, chamado David Tomas. Ele trata o momento fotográfico como um ritual de passagem. Eu fiz o jogo conceitual trabalhando os ritos de passagem sob o ponto de vista da antropologia. Falo de uma liminaridade existente no processo fotográfico analógico. O negativo que vai ser  processado tem uma imagem latente que não apareceu. Há um recorte, uma separação até a revelação. No caso de Verger essa liminaridade se estica um pouco mais além desse processo. A liminaridade é também a não publicização dessas imagens, uma segunda liminaridade.

AT: Seu trabalho também envolve uma discussão ética. Medeiros chega a confessar que teria pagado para fazer as fotos.
FT: Tem uma carta publicada no livro que foi endereçada a José Medeiros por Leão Gondim da direção de O Cruzeiro. Na carta Gondim instiga Medeiros, que estava na Paraíba. É uma carta provocativa incitando-o a fazer uma reportagem melhor do que a realizada pela  Paris Match. Parece que ele também tinha uma relação com os cultos afro-brasileiros. Uma das coisas que o Medeiros me disse é que depois da reportagem, quando ele vinha para a Bahia, se registrava no hotel com nome diferente com medo de ebó.

AT: Há uma recomendação de Leão Gondim para que José Medeiros mantenha sigilo sobre a pauta não é?
FT:Na carta o Leão Gondim recomenda que ele não comente com ninguém a intenção de fotografar a iniciação, principalmente, com Odorico Tavares e Pierre Verger.Para você ter idéia, Arlindo Silva não conhecia a carta. Eu tentei conversar com ele durante todo o meu processo de finalização da pesquisa e ele se mantinha reticente, não queria me receber. Quando eu falei da carta, aí ele se abriu para me receber. Foi fantástico. Cinquenta anos depois, o sr. Arlindo Silva ficou cinco minutos lendo a carta em silêncio e aí ele disse: “Eu não conhecia essa carta”. Medeiros, segundo Arlindo Silva, não falou para ele sobre a carta. Outra coisa então ficou clara: Medeiros, nunca, nas entrevistas que fiz com ele, se referiu a ter sido instigado a fazer esta reportagem. Ela é cercada de toda uma mística, pois é considerada uma das mais importantes feitas em revistas brasileiras e sempre foi creditada a ele a ousadia de ter ido a um candomblé e ter conseguido fotografar o rito iniciático. A carta é reveladora pois mostra que a redação de O Cruzeiro é que o instigou a ir até lá.


O Discurso da Luz no Ceao

postado por Cleidiana Ramos @ 8:01 AM
9 de dezembro de 2009
Uma das fotografias de Mãe Menininha que faz parte do Arquivo A TARDE. Foto: Arquivo A TARDE

Uma das fotografias de Mãe Menininha que faz parte do Arquivo A TARDE. Foto: Arquivo A TARDE

Amigos do Mundo Afro: amanhã, a partir das 16 horas, estarei fazendo a defesa da minha dissertação de mestrado intitulada O Discurso da Luz- Imagens das Religiões Afro-Brasileiras no Arquivo do Jornal A Tarde. Trata-se de um estudo sobre a importância documental de 1.432 fotografias pertecentes ao Arquivo A TARDE que retrata diversos aspectos do candomblé, umbanda, culto dos eguns e outras modalidades religiosas.

A banca avaliadora é formada pelos doutores em antropologia Claudio Luiz Pereira ( o orientador),  Nicolau Parés,  ambos do Programa de Pós-Gradução em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro), do qual sou aluna, e Fernando de Tacca, da Unicamp. O Pós-Afro é vinculado à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba.

A defesa será no Ceao, localizado no Largo 2 de Julho. Quem se interessar por fotografia e antropologia e puder aparecer será bem vindo.


Encontro sobre cinema e antropologia

postado por Cleidiana Ramos @ 7:26 PM
2 de dezembro de 2009
O antropólogo Claudio Luiz Pereira é um dos coordenadores do ciclo de debates sobre cinema e antropologia. Foto: Marco Aurélio Martins| AG.  A TARDE

O antropólogo Claudio Luiz Pereira é um dos coordenadores do ciclo de debates sobre cinema e antropologia. Foto: Marco Aurélio Martins| AG. A TARDE

Programa imperdível para quem gosta de cinema e antropologia. Os professores da Ufba, Cláudio Luiz Pereira e Maria Cristina de Souza estão coordenando um ciclo de debates sobre o cinema antropológico. O Homem e o Mar é o tema da primeira sessão que começa amanhã, 3 (quinta-feira), às 17 horas, no auditório do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba (ISC), localizado no Canela, antigo prédio da Facom, no campus atrás do Hospital das Clínicas.

O objetivo do ciclo é mosrtar a relação entre cinema e antropologia, apresentar uma filmografia pouco conhecida e reunir o pessoal interessado no tema.

Confiram abaixo a programação:

Sessão 1. Amanhã – Os Pescadores de Aran (1934) de Robert Flarherty.

O filme aborda o cotidiano de uma família de pescadores da Ilha Aran, localizada na costa oeste da Irlanda e cercada por um mar enfurecido, com violentas tempestades. De forma heróica eles buscam a sobrevivência em condições sabidamente desfavoráveis, impostas por uma natureza furiosa. O aclamado diretor Robert J. Flaherty, o mesmo do clássico Nanook do Norte, lança mão de uma formidável e moderna edição na montagem deste filme. Com uma pequena equipe, Flaherty passou dois anos filmando e editando o drama deste grupo familiar. As imagens são deslumbrantes, e a estrutura do filme demonstra influências diretas da Escola Soviética de cinema. Debate com a participação do documentarista e professor Josias Pires Neto.

Sessão 2. Dia: 10/12 – Os Pescadores de Sargaços (1929) de Jean Epstein.

Filmada em 1929, em pleno movimento avant-garde francês, esta obra experimental foi elaborada por Epstein, que mesclou o ritmo das imagens atiladamente decupadas com algumas técnicas do cinema expressionista alemão. Um documentário social com experiências ousadas no dominio da antropologia visual. O filme é o primeiro de uma trilogia que retrata a vida insular da costa da Bretanha.Com a participação do professor Marcos Pierry (FTC – TVE-Bahia)

 
Sessão 3. Dia: 17/12 – A Ilha Nua (1960) de Kaneto Shindô.

A história de A Ilha Nua se passa a oeste do Japão, em um lugar onde se encontram as mais belas paisagens do país. Em uma das ilhas do lugar não há espaço para mais pessoas, além de uma única família que lá habita, uma casal com seu dois filhos. A vida é dura, dado a escassez de água e de alimentos, porém, mesmo assim, esta família vive tranqüilamente, até que um dia acontece uma desgraça que faz com que tudo mude. Tudo, exceto a luta particular e silenciosa dos homens contra os adversos elementos da natureza. Com a participação do professor Cláudio Pereira (Pos Afro-Ufba)