Balaio de Ideias: Vozes d´África

postado por Cleidiana Ramos @ 7:35 PM
26 de maio de 2014
Jaime Sodré analisa atuaçaõ de mulheres na política de países da África.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa a atuação de mulheres na política de países da África. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

A África clama por um novo olhar. Mulheres Africanas – A Rede Invisível é um filme de Carlos Nascimbeni que aborda cinco mulheres marcantes na história deste continente:

Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel, ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia muçulmana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee, Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer, escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.

Luiza Diogo, primeira-ministra entre 2004 e 2010, diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar; o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza, a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.

Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 e 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “Já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhes permita ter visibilidade”.

Sara Masasi, da Tanzânia, é líder empresarial e diz: “Quando se tem um negócio, você precisa pensar, porque você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso, a que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornaram a pessoa que sou” – era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.

Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.

Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo. Até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.

Para Graça Machel, nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário, e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar. Ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.

Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.

Quando vieram as conversações de paz, elas tiveram grande esperança, mas as discussões giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes. Em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “A minha nudez será em protesto contra a miséria”. Duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.

Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz: a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

Jaime Sodré é religioso do Candomblé, professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando pela Uneb


Bahia vai sediar conferência que une África e Diásppora

postado por Cleidiana Ramos @ 4:33 PM
26 de maio de 2011

Delegação foi recebida por representantes da Bahiatursa. Foto: João Ramos| Bahiatursa| Divulgação

De 8 a 10 de novembro desse ano, Salvador vai sediar uma conferência mundial intitulada “Multicuralismo e Futuro Africano”. A novidade foi anunciada pela coordenação de Turismo Étnico Afro da Bahiatursa durante a visita de uma delegação nigeriana, ontem.

A delegação foi chefiada pela diretora do Ministério de Turismo da Nigéria, Anthonia Monsumola.

A conferência vai acontecer na Uneb e são esperados 200 representantes de Estados africanos e da diáspora. “A Bahiatursa já está realizando contatos com o trade turístico do estado e firmando acordos com as organizações e entidades negras da Bahia que devem participar do colóquio”, disse Billy Arquimimo, coordenador de Turismo Étnico Afro da Bahiatursa.


Beleza de livro

postado por Cleidiana Ramos @ 10:33 AM
19 de abril de 2011

Livro é recheado de informações preciosas. Foto: Divulgação

O livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, veio para as minha mãos com o compromisso de fazer uma resenha para o caderno cultural de A TARDE há cinco anos .  Quando peguei o livro fiquei assustada diante do tamanho: 952 páginas. Ainda mais para fazer um texto pequeno sobre o que achei da leitura.

Mas ao abrir o livro eu não conseguia mais parar. A história de Kehinde, uma criança africana capturada por traficantes de escravos que vem parar na Bahia é o ponto de partida para uma viagem por vários dos meandros do horror que foi o tráfico de gente.

É possível também conhecer muito de Salvador e do Rio de Janeiro do século XIX; as relações raciais e o cotidiano dos retornados para a África. Embora não seja mencionado explicitamente, a personagem é inspirada em Luiza Mahin, apontada como a mãe do poeta e jornalista Luís Gama.

O livro é uma preciosidade por sua riqueza de informações. A narrativa só perde um pouquinho a força na parte final.

Ana Maria Gonçalves é mineira e já ganhou prêmios prestigiosos como o o Casa de las Américas exatamente por esse livro.

O texto é denso, mas consegue ser agradável, o que é uma excelente qualidade da obra. Como eu tinha perdido o primeiro exemplar, comprei outro (que, para não repetir o  erro, não empresto de jeito nenhum..rssrsrr).  Outra boa surpresa é que a edição mais nova veio com o prefácio de Millôr Fernandes. Fica então a sugestão para começar a leitura nesse feriadão.


Lançada a coleção História Geral da África

postado por Cleidiana Ramos @ 12:33 PM
4 de abril de 2011

Valter Silvério, Elikia Mbokolo e Ubiratan Castro folheiam exemplares da coleção. Foto: Raul Spinassé| Ag. A TARDE

Uma exelente notícia para professores: a Unesco, em parceria com a Universidade Federal São Carlos (UFSCar) e o MEC lançaram na manhã de hoje em Salvador a versão em português da coleção História Geral da África.

São oito volumes interdisciplinares, pois trazem também conteúdo sobre geografia, política, cultura, dentre outros temas ideais para a aplicação da Lei 10.639/03 que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira e foi ampliada com a 11.645/08 para incluir também História e Cultura Indígena.

O material foi produzido ao longo de 30 anos com a contribuição de 350 pesquisadores, coordenados por um comitê formado por 39 especialistas, sendo a maioria africanos, ou seja o olhar vem de quem conhece a África, sobretudo a negra, de perto, evitando a repetição de estereótipos. A publicação já estava disponível em francês e árabe.

Os volumes estão sendo disponibilizado para bibliotecas de insituições públicas, mas é possível acessá-la, de forma completa, em PDF via o site da Unesco. É só clicar aqui para conhecer e aproveitar.      

A tradução para o português foi coordenada pelo doutor em Ciências Sociais, Valter Roberto Silvério. Na edição de hoje do jornal A TARDE tem uma matéria com mais informações que foi assinada por mim na nossa página especializada em Educação chamada Escola Viva.


O racismo de Bolsonaro ganhou companhia

postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
31 de março de 2011

Resposta de Bolsonaro a Preta Gil no CQC iniciou polêmica. Foto:TV Rio de Janeiro | Reprodução

Começou a bola de neve das declarações criminosas e irresponsáveis de Jair Bolsonaro, que alguns insistem em eleger deputado. Agora chegou outro deputado federal para engrossar as fileiras das declarações racistas, preconceituosas e com um ingrediente novo: intolerância religiosa.

O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que é pastor evangélico teve a seguinte mensagem publicada em seu twitter:”Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss”.

Embora tenha atribuído a declaração a sua assessoria, o deputado foi mais  além: insinuou que os males da África são por conta do “paganismo”, do “vodu” e por aí vai na clássica cantilena da ignorância racista e religiosa e do desrepeito à liberdade de  crença.

Esses dois exemplos dão a medida do quem está sendo mandado para a Casa que têm a obrigação de fazer as leis do País. O problema, nesses dois casos, não passa nem pela liberdade de expressão, que é coisa muito séria para ser tratada com irresponsabilidade e sem medidas, ou direito ao livre pensamento, que também não pode ser confundido com o desrespeito ao diferente.

Trata-se de dois parlamentares cometendo impunemente crimes que são previstos e passíveis de ser punidos pelas Leis não só do País, mas até dos tratados internacionais.

Talvez agora seja a hora para se repensar os limites sobre imunidade parlamentar ou pelo menos de intensificar  protestos que não deixam passar impunemente esse tipo de gente.

Para conferir mais detalhes das pérolas do deputado clique aqui para ler o material postado no portal Uol. 

Sobre Bolsonaro tem uma excelente matéria  feita pelo repórter Claudio Leal para o Portal Terra, onde até Jarbas Passarinho diz não aguentar o colega militar.
    


Conexão com a África

postado por Cleidiana Ramos @ 3:23 PM
21 de janeiro de 2011

Os laços entre a capital da Bahia e o Benim podem ficar ainda mais fortes. No Pelourinho já fica uma representação cultural de lá. Foto: Rejane Carneiro| Ag.A TARDE| 12.07.2006.

Soube hoje pelo colega Donaldson Gomes que o presidente da Abav-Ba, Pedro Galvão, em reunião com o ministro do Turismo, Pedro Novaes, levou a reivindicação do trade baiano  de um voo saindo de Salvador para países africanos.

A proposta animou o ministro e a expectativa é que a ideia seja posta em prática ainda esse ano. Os destinos mais cotados do outro lado do Atlântico para a nova linha são a República do Benim ou a Costa do Marfim.


Domingo tem Áfricas com ingresso a R$ 1

postado por Cleidiana Ramos @ 2:18 PM
14 de outubro de 2010

Áfricas mostra toda a riqueza da herança africana. Foto: Márcio Lima | Divulgação

Programa legal para unir pais, tios e a garotada. No próximo domingo tem a encenação da peça Áfricas do Bando de Teatro Olodum na sala principal do Teatro Castro Alves ( TCA). O ingresso custa apenas R$ 1, iniciativa do projeto Domingo no TCA, que funciona desde 2007.

O espetáculo começa às 11 horas, com venda de ingressos a partir das 9 horas. Áfricas gira em torno da herança africana, em seus vários níveis e que é uma marca da Bahia.


Bando de Teatro Olodum realiza seminário

postado por Cleidiana Ramos @ 5:04 PM
10 de agosto de 2010

Bando de Teatro Olodum organiza seminário sobre estudos africanos. Foto: Wendell Wagner / Divulgação

Estão abertas as inscrições para o seminário Outras Áfricas, promovido pelo Bando de Teatro Olodum. O evento vai ser realizado de 18 e 25 de agosto no Teatro Vila Velha, das 9 às 12 horas. E boa notícia, gente:  é gratuito e aberto ao público.

O seminário faz parte de um projeto homônimo realizado pelo Bando em parceria com o Fundo Nacional de Cultura.  O objetivo é  valorizar a herança africana e reconhecer a importância da cultura afro-brasileira para a identidade nacional.

Para acessar o local de inscrições on line clique aqui.  Também é possível se inscrever no Teatro Vila Velha (Passeio Público, Campo Grande).

Cada dia será abordado um tema por dois especialistas que vão interagir com a plateia. No dia 18, o tema será História da África e os convidados são Artemisa Odila Cande Monteiro, de Guiné Bissau, doutora em Sociologia e mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela Ufba e Antônio Cosme, mestrando em história pela Uneb e dono de larga experiência na formação de professores para aplicar a Lei 11.645/08 (que reformulou a 10.639/03 e estabelece a obrigatoriedade do ensino de História da África, Cultura Afro-Brasileira e História e Cultura Indígenas).

No dia 25 será a vez do tema Panorama da África Contemporânea com o professor Jacques Depelchin, natural do Congo e doutor em História da África e o professor Márcio Paim, mestrando em Estudos Étnicos e Africanos pela Ufba.

O seminário é uma ótima oportunidade para educadores interessados em África e temas ligados à cultura afro-brasileira. Imperdível, portanto.


Centenário da Casa de Xangô

postado por Cleidiana Ramos @ 1:06 PM
28 de julho de 2010

Mãe Stella coordena as comemorações do centenário do Afonjá. Foto: Diego Mascarenhas| Ag. A TARDE

Essa semana, o Ilê Axé Opô Afonjá realiza uma série de atividades para comemorar o seu centenário. A programação começa na sexta-feira, a partir das 19 horas, é aberta, mas pede-se traje branco. Os eventos acontecerão no barracão de festas do terreiro.

Confiram abaixo as atividaes programadas:

Sexta-Feira, dia 30:

19h- Saudação à Casa: Alabês do Terreiro
19h20- Composição da Mesa de Abertura do Evento: Mãe Stella de Oxóssi e ogã José de Ribamar Feitosa Daniel, presidente da Sociedade Cruz Santo do Axé Opô Afonjá.
20h-Performance do dançarino e coreógrafo norte-americano Clyde Morgan.
20h30- Lançamento de selo personalizado e carimbo pelos Correios.
21h- Apresentação do afoxé Filhos de Gandhy e convidados.

Sábado, dia 31
8h- Inscrição e entrega de material aos participantes
9h- Saudação ritual aos ancestrais e inauguração do busto de Mãe Aninha
9h30-Saudação à Casa e boas vindas
9h40- Mesa Redonda: As Ialorixás do Ilê Axe Opô Afonjá
Mediadora: Professora Yeda Pessoa de Castro
Palestra: Mãe Aninha
Palestrante: Obá Muniz Sodré
Palestra: Tia Cantu- Iyá Egbe do Ase
Palestrante: Babalorixá Bira de Xangô (RJ)
Palestra: No Tempo de Mãe Bada
Palestrante: Ubiratan Castro

11h- Intervalo
11h20-Palestra: No Tempo de Mãe Senhora
Palestrante: Obá Luis Domingos
Palestra: No Tempo de Mãe Ondina
Palestrante: Egbón Adilson Almeida
Palestra: Mãe Stella, a Ialorixá dos 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
Palstrante: Jaime Sodré
13h- Engerramento do dia- Tarde Livre
17h- Lançamento de publicações- Livro de Contos, de Tia Detinha e Xangô, de Raul Lody
18h- Exibição do vídeo-memória E Daí Nasceu o Encanto: 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
20h- Apresentação do bloco Cortejo Afro e convidados

Domingo- 1º de agosto de 2010
9h- Abertura do Dia- Saudações/atabaques
9h30-Palestra: Em busca das raízes gurunsi do Ilê Axé Opô Afonjá: Uma jornada ao norte de Gana
Palestrante: Maria Paula Adinolfi
10h20- Apresentação dos alunos do grupo de Capoeira do Terreiro
11h- Apresentação dos alunos da oficina de dança do Ilê Axé Opô Afonjá
11h30- Apresentação da Banda Aiyê (Ilê Aiyê e convidados)


O jogo que descortinou o Zimbábue

postado por Cleidiana Ramos @ 12:27 PM
4 de junho de 2010

Amistoso disputado pela Seleção Brasileira contra o Zimbábue voltou as atenções para o país africano. Foto: Eduardo Martins | AG. A TARDE

Um dos amistosos mais polêmicos realizados pela Seleção Brasileira nos últimos tempos foi o disputado contra o Zimbábue na última terça-feira. E isto não só pelo hobby nacional de criticar Dunga _ “infrutífero”, “os jogadores podem ter lesão”, etc- mas também pelo adversário, afinal o governo do país é classifcado como ditadura. O presidente de lá, Robert Mugabe, está no poder há 30 anos.

Foi por conta deste amistoso que soube isto e algumas outras coisas sobre o país africano. Cronistas esportivos disseram tudo o que puderam: desde a inflação galopante que ultrapassa a casa dos milhares até um que acha que este é o melhor exemplo da “miséria” africana. A África tem miséria, mas também tem riqueza, ora pois. Infelizmente,  os estereótipos sobre o nobre e antigo continente vão continuar a ser uma tônica destes dias de Copa.

Mas o que mais me fez pensar sobre este amistoso, que do ponto de vista técnico foi apenas um aperitivo do que os amantes de bom futebol continuarão a sofrer nos próximos dias com esta formação da equipe canarinha, é que nós, jornalistas, fazemos de conta que o continente africano não existe.

Até mesmo para criticar as relações diplomáticas do Brasil com uma ditadura foi preciso um jogo de futebol. Do contrário as diatribes de Mutabe que ganhou um gelo do técnico da Seleção Brasileira, impedindo que ele não faturasse mais em cima de um jogo para o qual pagou à CBF uma pequena fortuna- U$ 1,3 milhões, o que dá quase R$ 2,6 milhões — estariam no limbo. Os jogadores não apareceram ao lado do ditador em nenhum momento e Dunga driblou Mutabe, inclusive evitando sua visita à concentração brasileira.

Claro que não estou querendo que o Zimbábue ganhe uma coluna diária dos jornais, mas porque a gente sabe tão pouco de uma diatadura com a qual o Brasil matém relações, mesmo diante do gelo do resto do mundo? Que tipo de intresses circulam em torno deste ponto?

Esse exemplo é apenas uma amostra do desinteresse que mantemos em relação a outros países africanos. Eles só entram na pauta em situações que o mundo inteiro volta as atenções para lá. A África do Sul, por exemplo, só está sendo lembrada por conta do campeonato mundial de futebol organizado pela Fifa.

Mas se esse seria o momento que teríamos para aprofundar a divulgação deste conhecimento sobre um continente que tem países dos quais uma parte significativa da população brasileira herdou parte da sua base cultural, as informações que estão chegando não conseguem fugir do trivial.

Que a África do Sul tem belos parques a gente já sabe. Que a alegria africana é contagiante e a vuvuzela é símbolo disto já está ultrapassando os limites do que é clichê. Que a Copa do Mundo é a chance do país mostrar como está depois do apartheid é óbvio. Ele não investiria tanto em um campeonato se não tivesse razões políticas fortes para tal.

Mas cadê o povo sul africano, seu dia-a-dia, mais detalhes da política pós apertheid, os embates entre religiões oficiais e tradicionais, a condição da mulher, etc? Futebol é cultura exatamente porque é feito e direcionado a pessoas.

Esta Copa do Mundo poderia ser um momento de fazer melhor o pouco que foi feito em relação ao Zimbábue: mostrar um pouco mais de como anda este continente que é mãe da humanidade, mesmo que alguns rejeitem esta maternidade.

Quando Robinho disse que nem sequer sabia pronunciar o nome do país contra cuja seleção disputaria o amistoso ou quando o presidente Lula se assustou com a limpeza das ruas da Namíbia não foram gafes para virar pautas de programas de humor ou provas da irreverência do jogador e da quase impossibilidade do mandatário brasileiro em evitar dizer de pronto o que pensa.

Não são razões para a gente rir, mas se envergonhar por saber tão pouco sobre uma parte do mundo com o qual muitos de nós carrega um parentesco que diz muito do que somos. Tomara que nós, formadores de opinão como adoramos ser chamados, despertemos do trivial ainda a tempo.   Ah sim! O próximo amistoso do Brasil será contra a Tanzânia na segunda-feira. Esperemos, então, notícias de lá.


África X Genocídio

postado por Cleidiana Ramos @ 9:25 AM
12 de junho de 2009

Bom programa para pesquisadores e estudantes dos temas étnicos e relacionados à África: segunda-feira, 15, das 18h30 às 20h30, o professor Herbert Ekwe-Ekwe profere, no Ceao, a palestra A África, o Estado, Genocídio e o Futuro.

Herbet Ekwe é nigeriano, formado em Ciências Políticas e autor de pesquisas sobre a África e questões de genocídio. Ele também é especialista em literaturas africanas e autor do livro  Biafra Revisited e Chinua Achbe: literature in defense of history.

Um outro livro seu está prestes a ser publicado:Readings from Reading: Essays in African Politics, Genocide, Literature.