Praguer Fróes escrevia com sacrifício

postado por Cleidiana Ramos @ 3:05 PM
10 de outubro de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Mãe Stella divulga mais um trecho do seu discurso de posse na ALB. Foto:  Ag. A TARDE/06.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Continuando a cumprir meu compromisso de tornar cada vez mais pública a vida e a obra dos ilustres baianos que me antecederam na cadeira que hoje ocupo na Academia de Letras da Bahia, transcrevo uma parte de meu discurso de posse que fala sobre Heitor Praguer Fróes. Com humildade e alegria confesso que precisei pesquisar, para me aprofundar, sobre a vida dos acadêmicos. É uma delícia saber que aos 88 anos de idade ainda tenho muito, muito, muito a aprender. Inteirando-me sobre a vida de meu confrade Praguer Fróes, descobri e agora revelo pérolas ditas pelos seus pais, por ele e sobre ele. Espero, com esse meu gesto, não apenas emocionar os leitores, mas reafirmar meu pedido para que as livrarias instaladas na Bahia tenham uma estante específica para os livros dos escritores baianos.

Filho da histórica e cultural cidade de Cachoeira, nascido no dia 25 de setembro de 1900, Praguer Fróes foi poeta, tradutor, médico e professor. Foi membro não apenas da Academia de Letras da Bahia, mas também de inúmeras outras instituições científicas e culturais, como a Academia de Medicina da Bahia.
Praguer Fróes escrevia com sacrifício. Eu faço uso dessa palavra não no sentido comum que ela possui, como sinônimo de dificuldade, mas em seu sentido original. Escrever para Praguer Fróes era um ofício sagrado, sobre o qual ele dizia: “Quem escreve um livro e o revê e publica passa pelo paraíso e pelo inferno: Pelo paraíso, quando compõe; pelo purgatório, quando retoca; pelo inferno, quando imprime. Pelo paraíso, quando compõe, porque nada é mais agradável do que criar; pelo purgatório, quando retoca, porque nada é tão fastidioso quanto modificar; pelo inferno, quando imprime, porque nada é mais enervante que estar interminavelmente a corrigir”.
E foi pensando e sentindo assim que Praguer Fróes somou em sua biografia livros de poemas, contos, contrafábulas e inúmeras obras científicas. Sacralizar um ofício é um comportamento típico de quem se preocupa e se ocupa com a humanidade. Tanto que Praguer Fróes chegou a abdicar dos direitos autorais de seu livro Lições de Medicina Tropical, em benefício do então futuro Hospital das Clínicas. Praguer Fróes era um humanista nato, pois herdou de seus pais a consciência cidadã.
Não se pode nem se deve falar de Heitor Praguer Fróes, sem falar de sua família. Pai, mãe e filho, todos eles médicos que dedicaram a vida a salvar vidas. Sua mãe, Francisca Praguer Fróes, foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil, pioneira em todas as áreas em que atuou, principalmente na defesa dos direitos femininos. Ela dizia: “Eu sou feminista por herança e convicção”. O pai de Heitor Praguer Fróes, João Américo Garcez Fróes, foi tão singular figura humana que quando precisava interferir no comportamento de um estudante de Medicina, de modo a impedir que este fizesse o doente sofrer desnecessariamente, delicadamente dizia em latim: Non vi, sed arte! (“Não pela força, sim pela arte!”).
O que nosso confrade o jornalista Jorge Calmon diz sobre o pai de Heitor Praguer Fróes é o princípio que faz de um membro da Academia de Letras da Bahia um imortal; é o principio que faz de qualquer pessoa, letrada ou não, um imortal. Ele diz: “Efetivamente, há homens que se tornam instituições. São poucos. Constituem exceções. A regra geral é o bitolamento medíocre dos inumeráveis componentes do rebanho humano, que a lei da vida vai tangendo, em marcha entre o nascimento e a morte. Nessa indistinta mediania, as inteligências não brilham, o esforço não avulta, o caráter não logra atingir forma, consistência. É a grande planície dos homens comuns. Vez por outra, desse solo rasteiro sobressai uma eminência. O talento, a virtude, o mérito rompem a vulgaridade e projetam de entre a massa os indivíduos bem dotados, ou que a si mesmo se dotam, e cuja ascensão proclama as faculdades superiores da pessoa humana. Foi Garcez Fróes um desses raros indivíduos”.
Em 25 de outubro de 1987, Heitor Praguer Fróes seguiu seu caminho rumo ao reino divinal, para encontrar esta linda família que deixou para todos nós um exemplo de vida registrado em livros.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela publica artigos no jornal A TARDE e, sempre, às quartas-feiras

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