Pequen@s guerreir@s: Luiza Ligeira: a menina Gaiaku

postado por Cleidiana Ramos @ 6:31 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

 

Meu nome é Luiza Franquelina da Rocha, um nome gigante e pesado para alguém de apenas 10 anos. Nasci na linda cidade de Cachoeira, na Bahia, entre os mistérios das divindades trazidas da África pelos meus avós, que foram escravizados pela maldade dos humanos. Eu sou filha do vodum Oyá e, como ela, adoro vadiar pelos cantos do mundo, sendo vento em muito movimento.

Sou uma criança ligeira. Adoro perguntar e guardo tudo que me ensinam na minha memória sem tempo… Sou ligeira como Oyá, me visto de branco igual a ela e saio cantando cânticos de candomblé, religião de meus pais que também é a minha, pela orla do Rio Paraguaçu.

Minha mãe Cecília é filha de Iemanjá, e meu pai Miguel é o importante pejigan (ogan principal) do Terreiro Seja Hundê. Minha religião é linda! A gente dança e canta e come iguarias deliciosas, mas trabalha muito também. Os voduns são forças da natureza que nos protegem. Minha voz é linda, eu sou uma menina negra linda que canta lindo para alegrar os deuses do candomblé.

Eu sei dançar como ninguém; às vezes, deixo de brincar de boneca, de subir em árvore, de acordar os preguiçosos que não gostam de trabalhar para as festas dos voduns, só para discutir política com meu pai que me ama muito e diz sempre: Luiza ligeira você é muito inteligente, aprende rápido e adora dar ordens – é uma típica sacerdotisa, mais tarde você será uma Gaiaku e irá comandar um terreiro, sendo a rainha que sempre mereceu ser.

Por isso, já me sinto uma Gaiaku. Imagino-me ensinando meus filhos de santo a cantar e a dançar para os voduns. A aprender o nome das folhas e os fundamentos da nossa nação religiosa, o jeje-mahi. Imagino-me fazendo roda sagrada no centro do meu barracão, que será num lugar lindo e terá o nome Huntoloji – em homenagem ao velho Ajansun.

Sou de Oyá com o vodum do branco chamado Lissá. Não sou muito calma. Falo demais e brigo muito também. Brinco demais porque sinto felicidade e adoro ser uma criança criada em terreiro de candomblé. Lá, no terreiro, tudo faz sentido, é misterioso e bonito.

Minha mãe Oyá é uma rainha e eu herdei o seu temperamento. Por ser filha dela sou muito veloz: daí meu apelido Luiza ligeira ou a menina ventania que, mesmo ainda sendo uma menininha de 10 anos, sabe tanto de candomblé ketu, angola e jeje-mahi, as principais nações, e me chamam também, por isso, de a menina Gaiaku, nascida para ser mãe de uma nação.

Marlon Marcos é omorisá Iemanjá, poeta, jornalista e antropólogo

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

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