Pequen@s guerreir@s: A menina das estrelas

postado por Cleidiana Ramos @ 6:32 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Era uma vez, há mais ou menos cem anos, uma menina que morava nas estrelas. Humm… pensando bem, acho que eram as estrelas que habitavam dentro dela, e por isso as pessoas gostavam de lhe contar histórias e segredos, como se conversassem com uma iluminada e bela noite escura.

- Sabia que a vida de cada pessoa dá um livro? Só a de vovó é que deve dar uns três ou quatro… costumava dizer, mesmo antes de aprender a ler e escrever.

A vó queria que se chamasse Eunice, mas ela acabou se chamando Carolina Maria. Sapeca como um céu cheio de astros, às vezes sumia:

- Ô, Nicinha! Onde cê tava menina?

- Eu tava lááá na beira de Sacramento, vó, onde a cidade acaba, imaginando o rio que eu quero atravessar…

Carolina amava as grandes distâncias, e as coisas que pareciam infinitas, como a poesia. E se engana quem pensa que poeta vive no mundo da lua… Ela observava tudo em volta com atenção, ouvindo sobretudo os mais velhos.

Quando aprendeu a ler e escrever, mesmo, já era quase férias, e andava sumindo com todo papel que vinha embrulhando o pão. Também surrupiava os moldes que a mãe usava para costurar vestidos. Escrevia, escrevia, escrevia. E logo passou a escrever a história dela mesma.

Aí então… filas de parentes e vizinhos vinham prosear com a menina, e até lhe traziam presentinhos. Uns tinham a esperança de aparecer no livro de Carolina, outros estavam preocupados com o que ela contava sobre eles. Vai que um dia o livro fosse mesmo publicado…

No começo era uma coisa secreta, e Carolina contava algumas mentirinhas.

- Ah, minha filha, outro caderno?! As aulas mal começaram…reclamava a mãe.

- É que… é que… caiu numa poça de água, mamãe.

De outra vez:

- O boi comeu, vó…

E para o pai:

- Aí teve aquela nuvem de gafanhoto horrível, e aí eu larguei o caderno, aí saí correndo…

Só ela não sabia que todo mundo já sabia. A família orgulhosa ouvia as mentiras esfarrapadas com um espantos de faz-de-conta:

- Óóó… Foi mesmo? Não diga…

E no final, alguém resolvia:

- Toma esse dinheiro. Vai na quitanda de Dona Mocinha e compra outro caderno, vai.

Lande M. Munzanzu Onawale é poeta e escritor

Foto: Arquivo pessoal

 

 

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