O Afródromo ganha corpo

postado por Cleidiana Ramos @ 6:08 PM
28 de agosto de 2012

Carlinhos Brown apresentou ontem o projeto do Afródromo na sede de A TARDE. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Está cada vez mais forte a ideia da criação do quarto circuito do Carnaval de Salvador que está sendo chamado de “afródromo”. A iniciativa que tem à frente a Liga dos Blocos Afros, integrada por instituições como Malê Debalê, Ilê Aiyê, Cortejo Afro e outros, conta com o apoio entusiástico de Carlinhos Brown.

A ideia é a seguinte: a criação de um espaço no Comércio (entre o Mercado Modelo e a Feira de São Joaquim- mais detalhes estão na excelente matéria feita pelo jornalista Hieros Vasconcelos Rego e publicada na edição de hoje de A TARDE) para que os blocos inspirados na cultura afro-brasileira desfilem.

A área vai ter arquibancada com capacidade para 20 mil pessoas e já tem uma estrutura de patrocínio com previsão de movimentar R$ 120  milhões. Nos meus 14 anos de trabalho em jornalismo, que em Salvador não tem como ficar alheio ao Carnaval, é a primeira proposta de criação desse circuito do Comércio que chega mais redonda, ou seja, indicando que vai acontecer. A prefeitura ainda não disse que sim, mas bate palmas para a ideia. O mesmo faz a Secretaria Estadual de Cultura, ou seja, duas instâncias do poder público que viabilizam o Carnaval.

Já o Conselho Municipal do Carnaval (Concar) não compartilha do entusiasmo e a União de Afoxés, Afros, Reggaes e Samba do Estado da Bahia (Unafres), que congrega 76 instituições, diz que não foi procurada.

Para mim a iniciativa já fez um bom papel quando causa polêmica. A grande queixa, cheia de fundamento, das agremiações como blocos afro e afoxés é exatamente a falta de visibilidade. E isso acontece por vários motivos, mas, principalmente, porque não aparecem na mídia.

Seus horários de desfile são em horários que inviabilizam a cobertura e ninguém jamais conseguiu interferir na fila de saída dos blocos. Aqui em A TARDE, por exemplo, todos os anos a gente não consegue dar matéria sobre o desfile das agremiações embaladas pelo samba que salvaram a quinta-feira do Circuito Osmar (Campo Grande). O mais cedo que esses blocos saem é 22 horas, o que já inviabiliza conteúdo para a edição do dia seguinte. Aí a gente guarda material para sair no sábado, mas outras notícias mais atuais acabam atropelando o relato do desempenho dessas associações. Isso numa noite que ainda tem o espetacular Bankoma, ou seja, mesmo quando a gente está lá a postos, a estrutura atrapalha a cobertura que dá visibilidade.

A explicação oficial para esse problema é que as agremiações nos dois circuitos mais tradicionais– Campo Grande e Barra– desfilam por ordem de fundação. Se assim fosse de fato, o afoxé Filhos de Gandhy abriria todos os desfiles, mas não é isso que acontece.

Mas há quem veja na criação do afródromo (o nome já tem pegada) uma desistência da luta contra o racismo e a segregação que, infelizmente, são marcas do Carnaval na Bahia. Eu confesso que ainda não tenho uma opinião completamente formada, mas vejo como um bom teste para saber se as qualidades das agremiações afro, que são o uso inteligente da estética e do ritmo e a capacidade de tornar o Carnaval um espaço criador de Cultura, conseguem gerar renda. A visibilidade, portanto, será consequência disso.

Além disso, vejo a experiência como uma boa resposta para quem afirma que as entidades de matriz afro-brasileira não conseguem aproveitar o “negócio” Carnaval porque não são profissionais. Enfim, pela primeira vez em anos, vejo algo que cheira a novo no Carnaval da Bahia.

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