No outono da vida

postado por Cleidiana Ramos @ 6:40 PM
13 de abril de 2011

Mãe Stella reflete sobre o papel dos velhos. Foto: José Silva | Ag. A TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos

O Outono chegou! Engraçado…Vi e ouvi propagandas de Festival de Inverno, Festival de Verão, escolas festejando o Dia da Primavera, mas nenhuma comemoração para a chegada da estação das folhas secas, que se desprendem das árvores e caem na terra – o Outono. Por que será? Perguntei-me. E me dei conta que, perto de completar 86 anos, experimento o outono da vida. Entretanto, não é porque as folhas caem, que os velhos devem se permitir cair também, pois a filosofia yorubana nos ensina: “Ìbè.rè. àgba bi a ánànò ló ri”, que quer dizer, “mesmo quando o velho curva o corpo, ainda continua de pé”.

O religioso tem por obrigação prestar atenção à sucessão das estações, uma vez que elas marcam o ritmo da vida e as etapas do desenvolvimento humano. O Inverno, ligado ao elemento água, refere-se à infância; a Primavera, estação das flores, mostra a fluidez do ar e da juventude; o Verão, a intensidade do sol, símbolo do fogo, demonstra o auge do dinamismo e atuação na vida, características do adulto; o Outono – crepúsculo vespertino – que está ligado ao elemento terra, é a luminosidade do sol e do velho que vai aos poucos se escondendo e se aproximando do horizonte.

Há tempos atrás, não se constituía em problema usar as palavras velhice e velho, pois elas apenas se referiam a uma das etapas do desenvolvimento  dos seres vivos. Atualmente, isso é “politicamente incorreto”. É como se fosse uma desvalorização dessa etapa de vida, chegando ao ponto de se tornar um adjetivo pejorativo. Resolveram adotar a expressão “melhor idade”.

Entretanto, será que existe alguma idade que seja melhor que a outra? Na infância, temos a alegria da criança, acompanhada, no entanto, de uma fragilidade, que deixa os adultos em constante atenção. Na adolescência, o caráter espontâneo não deixa de vir acompanhado de uma coragem inconsequente. Na maturidade, se é dono da própria vida e se carrega, no entanto, o peso da responsabilidade. Na velhice, a tranqüilidade decorrente do acúmulo das experiências vividas é gratificante, energia física, porém, não é mais a mesma – falta “pique”. Percebe-se, assim, que em todas as fases sempre existe uma lacuna. É como diz um dos ditados que os velhos gostam de usar, a fim de passar sua sabedoria para os mais novos: “Na mocidade temos vitalidade e tempo, mas não temos autonomia nem dinheiro; na fase adulta, temos vitalidade e autonomia, mas não temos tempo; na velhice, temos tempo e dinheiro, mas não temos vitalidade.

O candomblé é considerado uma religião primitiva. Geralmente, isso é dito com um sentido de desvalorização. Contudo, uma religião é tida como primitiva por ser de origem primeira, original, vinda desde os primeiros tempos. Na referida religião, como em muitas outras de procedência oriental, e nas tribos indígenas, o velho é muito valorizado, ele é considerado um sábio, tendo uma condição de destaque e respeito.

Na cultura yorubana, o velho é um herói, pois conseguiu vencer a morte, que nos procura e ronda todos os dias. Ele tem sempre a última palavra, a qual não deve ser contestada. Tanto que é comum em África, a pessoa que ainda não completou 42 anos se manter calada durante as assembléias comunitárias, a fim de exercitarem a importante arte de ouvir. No candomblé, tentamos seguir a tradição que herdamos e ensinamos aos iniciantes essa difícil arte. Mesmo que o iniciante se ache com razão, ele tem o dever de ouvir o mais velho de cabeça baixa e pedir a benção, por respeito. Todavia, não lhe é negado o direito, de em momento outro, justificar-se.

Não está fácil manter a tradição hierárquica de respeito ao mais velho: enquanto para o candomblé “antiguidade é posto”, fora dos nossos muros, os mais novos, que vivem em uma sociedade imediatista, não querem ou não conseguem encontrar tempo para ouvir experiências que um dia terão que enfrentar. Até porque os pertencentes à classe da “melhor idade”, não se disponibilizam  mais a assumir o papel de transmissores de conhecimento, pois esta característica deixou de ser valorizada na sociedade atual.

Não quero dizer com isso que o idoso deve recolher-se, deixando de aproveitar a vida, já que quando jovem aprendi com minha Iyalorixá que “a vida é boa e gozá-la convém”. Para o bem da sociedade, o povo yorubá diz: “ola baba ni imú yan gbendeke”, mostrando que “é a honra do pai que permite ao filho caminhar com orgulho”. E eu digo: Todo pai é um mestre e todo filho é um discípulo!

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

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18 Respostas to “No outono da vida”

  1. Agnaldo  Says:

    Faz tempo que não leio algo com tanta profundidade e sabedoria. Só mesmo uma octagenária para ter tanto conhecimento da vida e do ser humano. É como dizem: Com a idade perdemos o vigor físico mas ganhamos sebedoria.
    Parabéns, grande Rainha.

  2. dilermando lemos  Says:

    valeu a pena ler o artigo de Mãe Stella sobre os velhos.É isso aí,todo pai é um mestre e todo filho é um discípulo.

  3. Andrea Maia  Says:

    Mãe Estela a senhora foi muito feliz nesse seu artigo, pois no mundo em que vivemos o idoso é sinônimo de abandono tanto pelos nossos governantes, pela nossa sociedade excludente e principalmente pela família. E o que a senhora traz é uma reflexão sobre o que vivemos hoje.Concordo quando diz:”Todo pai é um mestre e todo filho um discípulo”.Que os Orixás continue lhe empoderando de sabedoria, muita paz!Axé!

  4. Anderson Morbeck  Says:

    axé

  5. Carlos  Says:

    Mãe Estela,
    Parabéns pelo belíssimo texto!Isso denota, mais uma vez que a “velhice” também possui os seus benefícios, e só temos conhecimento quando alcançamos-a. Como dizia o filósofo grego Demócrito de Abdera (460-370 a.C.) “o velho foi jovem, mas quanto ao jovem, é incerto se ele chegará à velhice. Portanto, o bem realizado vale mais que o que ainda está por vir e é incerto”.
    Axé.

  6. Márcia Matos  Says:

    Palavras sábias de uma Senhora sábia. Essa é a sabedoria que todos devemos nos permitir e que nada, nem ninguém pode nos tirar.

  7. Mardones Ferreira  Says:

    Excelente texto. O traço primitivo jamais fará do Candomblé uma religião menos importante. E o ensinamento do mais velho será sempre a ordem do dia, ainda que para alguns esteja ‘fora de moda’.

  8. Pedro Garretty  Says:

    Acredito que nos ocidentais, deveríamos dar um mergulho muito profundo nas águas dos costumes do povo oriental no que tange do respeito para com os mais velhos. Onde na terra do sol, os mais velhos são respeitados pelos seus mais novos. Onde os mesmos sabem que neles estão todos os conhecimentos e sabedorias adquiridas pelo tempo.

    Axé!!! Senhora Odé kaiodé.

  9. Mario Bahia  Says:

    Só quem chegou no outono da vida pode refletir de forma tão profunda, sábia e bela! Axé, Grande Mãe.

  10. Antonio Jonas Dias Filho  Says:

    O que dizer de mãe Stella ou sobre o que elea diz? Nós só temos é que aprender. Muito obrigado por mais esse presente. Que Oxalá mantenha a senhora conosco para tomar conta de Ori em mim e em todos a nossa volta.
    Sua benção Mãe Stella

    Antonio Jonas Dias Filho

  11. Nilton Barreto  Says:

    Mae estela quantos conhecimentos experiencias sabedoria.Quando for ao Bonfim por favor nos faça uma visita estou localizado na av dendezeiros exatamente no dentro do posto de gasolina é um bar que funciona de quinta a domingo apartir das 18 h venha cá comer um delicioso escondidinho de camarao que eu mesmo com muito prazer vou fazer
    Nosso pai Oxossi que te de muitas forças e te ilumune cada vez mais.

  12. Ivanhoé  Says:

    A Mãe Stela além de extenar a sabedoria de quem viveu muitos anos, acaba transmitindo a sabedoria inerente à essência de todas as religiões. Mas receber dela o axé de um toque de atenção, ou até mesmo de sua presença, isso não tenho como descrever.

  13. Paulo Moreira  Says:

    Sua benção, minha mãe!

  14. OssunAde  Says:

    Alo ó, Mãe Stella! Iyágo, Adosú Omo Iyá Odé Kayodé, Iyágbá OssunAde

    Tenho muito para escutar, muito além de parabenizar?

    Como a Senhora sabe, estando aqui em Jequié, converso muito com meu Pai e reconheço que nosso diálogo se fortalece com a inter-relação mestre e discípula. Da família Santa’Anna eu sou a única entre as mulheres e a primeira entre os doze filhos que aprendi um ofício aos doze anos, discípula de Mestre Álvaro, uma Arte, como se dizia na era da minha adolescência.
    Reservei como prioridade de pauta para este sábado 16 de abril, a leitura do artigo de Mãe Stella. Enquanto eu lia alto, o texto, ele se ajeitava na cadeira de braços como quem revistando a postura, estava.
    Após a leitura lhe perguntei: Papai o Sr. tem algum comentário a fazer sobre o que Mãe Stella escreveu?
    Transcrevo durante a escuta:
    “Eu acho que o pensamento de Mãe Stella é um pensamento de advertência à mocidade porque realmente cada hora que passa se desvaloriza os idosos, mas só se desvaloriza aquele que não se cuida. Eu não me sinto desvalorizado até porque escuto a todo o momento se falar: – Vocês olhem o comportamento de seu Álvaro! Como eu vivo cuidando da minha vida, dos meus negócios e com vontade de viver sem nem pensar … – estou em condições de decidir – só penso em viver, unicamente!
    Mãe Stella você fez uma boa advertência! Feliz de quem ouve as pessoas idosas! É um conselho que estás dando a mocidade, ouvir aos mais velhos, dos mais velhos à experiência.
    Um rapaz estava a pouco me falando que a mãe dele conta que nos tempos antigos quando tinha um casamento em uma determinada rua, os vizinhos se preparavam para assistir ao sereno do casamento. Não se oferecia nada do lado de fora, mas o sereno do casamento era imperdível, os vizinhos, mais e mais gente de longe ficavam na frente da casa e tomavam a rua e a noiva quando era muito popular às vezes de dentro da Casa acenava para um, para outro. Com os meus 94 eu já ouvir falar neste costume até porque desde os meus doze anos de idade me envolvi com a Filarmônica, eu deveria estar onde estava a dança.” Álvaro Paulo de Sant’Anna, 94

  15. Bárbara  Says:

    Maravilhoso texto.
    Interessante a abordagem de como é visto e vivido o outono.
    Texto muito tocante que Odé e todos os Orixás continuem lheha do proporcionando essa sabedoria que a filha do Caçador que traz alegria mostra e passa àqueles que ainda estão na primavera da vida.
    Axé!
    Olorum Modupé!

  16. oldair maurity da silva  Says:

    parabens, por nos fazer refletir sobre os reais valores da vida, despresados pela sociedade ocidental capitalista.muito axé.colofé, muntumba, a sua benção.

  17. DELSON MONTEIRO  Says:

    Mãe stela

    Mãe Stela,obrigado por este texto,a senhora a-
    briu o horizonte de conhencimento da vida ;refle-
    tirei e praticarei.

    Desde de mais agradeço.

  18. Luiza Helena  Says:

    Mãe Stella, grata por mais esta lição de respeito e de amor. É pura sabedoria transmitida com amor.

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