Lições da narrativa de Solomon

postado por Cleidiana Ramos @ 8:43 PM
10 de março de 2014
Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

De cinema como técnica e linguagem artística não entendo absolutamente nada. Os poucos filmes que vi até hoje me seduziram no plano mais intuitivo mesmo. Com a literatura minha relação é mais próxima, embora minha escolha sempre recaia em livros que me façam viajar para outras épocas e mundos e me levem a rir, sentir raiva em determinados trechos, chorar ou ficar com uma saudade imensa do personagem quando chego ao fim da última página. Tudo isso é para dizer um pouco da minha sensação após ter lido 12 anos de escravidão, o relato biográfico de Solomon Northup que deu nome ao filme  ganhador em categorias dos prêmios de prestígio como Oscar e Globo de Ouro.

Ganhei o livro de presente da colega em A TARDE, Regina de Sá, depois de comentar com ela que fui ver e gostei do filme, primeiro passo para uma matéria que precisava fazer. O filme é impactante não apenas pelo que diz de forma explícita, mas pelas nuances. Está lá, nas entrelinhas, mas não menos eloquente, a violência da escravidão em sua vileza crua e detalhista atingindo em níveis diferentes e  impactantes também crianças e mulheres.

Ele também aborda a perda da humanidade à beira da patologia de quem estava em cada peça de comando do sistema. Afinal, o que fica de humano em alguém que engana e sequestra um homem ou mulher para condená-lo ao trabalho forçado? Onde está a humanidade de alguém, que considera o outro algo que pode ser espancado, queimado, amarrado e violentado das mais diversas formas? O cinema tem o recurso da imagem, que torna tudo ainda mais forte.

É exatamente por isso que o livro me impressionou mais ainda. A narrativa feita em primeira pessoa por Solomon Northup é objetiva, descritva nas paisagens e até econômica nas emoções, mas é daquelas capazes de atingir o fundo da alma. Não há como ficar indiferente a um relato feito por alguém que viveu aquele horror de forma real. O drama de Solomon não é ficção, mas um relato de alguém de carne e osso que viveu os extremos de uma experiência humana.

Em pouco mais de 200 páginas, o horror de um sistema que vitimou mulheres e homens livres de variadas partes da África, arrasou civilizações e dispersou povos inteiros para terras que nem sequer imaginavam conhecer, além de escravizar seus descendentes, ganha cores, formas e concretude. Torna-se, no mínimo incômodo, conhecer detalhes de como seres humanos foram tranquilamente submetidos à bárbarie e encarados como nada por tantos que levavam a consciência do ápice do que é ser gente.

Solomon Northup rasga o véu que a passagem do tempo pode estender sobre o entendimento do que foi esse horror e nos ajuda a entender porque questões como o racismo continuam tão presentes até em algo tão lúdico como deveria ser o futebol. Por que será que ainda, hoje, não é difícil encontrar gente que acha legal contar uma piada que compara negros a macacos ou que considera discussão sobre racismo coisa de gente que gosta de confusão?

Que bom que o filme e  livro vão ser usados como ferramenta didática nas escolas americanas.Seria ótimo que histórias como a de Luiz Gama, conhecida e recontada em várias obras literárias fossem mais abordadas no Brasil. Li recentemente que ela vai chegar à TV pela parceria de Ana Maria Gonçalves,autora do fabuloso livro Defeito de Cor, e Fernando Meireles.

Mas, além de Gama tem outras figuras como Manoel Grave, cuja história vem sendo remontada pela pesquisadora do curso de história da Ufba, Cida Gonzaga, que, gentilmente, me relatou em detalhes para a matéria que saiu na edição do último dia 2. (Inclusive, aproveito para pedir desculpas a Cida, pois na nossa conversa por telefone entendi o sobrenome como “Graze” e é “Grave”).

Quem sabe com mais produção artística capaz de não apenas narrar, mas problematizar a questão da escravidão em aspectos que andem além do já conhecido as pessoas comecem a entender que questão racial não é assunto que se resolve numa conversa trival na roda de amigos ou com o sentimento de quem entende como “a cultura negra é linda!”

Por isso, ao  ver o sucesso de obras como o livro e o filme sobre Solomon Northup prefiro me deixar levar bem mais pela emoção do que entrar em discussões sobre tecnicidade ou armadilhas de indústria cultural.

Digo isso porque essas duas obras conseguiram reavivar o sentimento, que já carrego, de responsabilidade com meus ancestrais negros. Foi a sua firmeza e coragem para descobrir estratégias de resistência às várias brutalidades– que lhes infligiram com o silêncio e o apoio de religiões, Estado, governos e homens e mulheres de boa fé– que me trouxeram até aqui para que possa, no mínimo, a cada dia, fazer uma prece agradecida e reconhecida em sua memória.

Em tempo: no Brasil, o livro foi publicado pela Editora Seoman e custa em média R$ 19. Tem 232 páginas.

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