Ideias em Palavra: Alerta contra os males da Intolerância

postado por Cleidiana Ramos @ 12:18 AM
14 de outubro de 2009
Umberto Eco escreveu o fascinante O Nome da Rosa. Foto: AFP PHOTO DDP/Marcus Brandt

Umberto Eco escreveu o fascinante O Nome da Rosa. Foto: AFP PHOTO DDP| Marcus Brandt

Um dos livros mais fantásticos que já li é  O Nome da Rosa, do italiano Umberto Eco. Esqueçam o filme homônimo inspirado na obra, pois ele não chega nem perto da grandiosidade do livro apesar da interpretação irretocável de Sean Conery que faz o frei detetive.

O que mais me encanta em O Nome da Rosa é que ele pode ser lido de várias maneiras: um romance policial; um ensaio sobre semiologia- como o próprio Eco já sugeriu-; um apanhado sobre História Medieval, principalmente a Inquisição, e sobre a revolução que a ordem fundada por São Francisco causou na Igreja Católica. Mas o livro é, sobretudo, a meu ver, um grande recado contra as várias formas de intolerância.

E em tempos de tantos crimes contra a cidadania e até a vida por conta do fanatismo que alguns insistem em chamar de fé e os levam a atacar a liberdade de crença, a história contada por Eco é uma grande lição. Pena que isto não é um antídoto contra todos os  fanáticos porque eles o são exatamente por abdicar da extraordinária capacidade dada aos humanos que é a de exercitar o raciocínio e assim compreender no sentido mais abrangente desta palavra. Mas para os que ainda tem chance de salvação em relação à ignorância que está na base de todos os crimes contra a liberdade O Nome da Rosa pode ser uma boa cartilha.

A sinopse é a seguinte: a morte de um monge, em condições misteriosas num convento beneditino, na Itália medieval, tira a paz da comunidade. Aproveitando a chegada de Guilherme de Baskerville, um sábio frei francisano  que vai até lá para  participar de um debate com representantes do papa onde serão discutidas algumas questões que estão colocando a Ordem Franciscana em choque com hierarquia da Igreja, o abade do convento pede que ele investigue a morte.

À medida que a investigação avança percebe-se que tudo gira em torno de um segredo sobre a biblioteca do convento, que de tão importante é considerada uma das maravilhas do mundo cristão. Embora o mistério sobre os crimes ocorridos no convento e a fascinante trajetória do embate teológico sobre a pobreza sugerido pela ordem fundada por São Francisco fascinem, o livro traz uma discussão sobre a Verdade, com letras maiúsculas. Esta questão filosófica que, segundo os evangelhos, Jesus e Pilatos debateram mesmo em meio à toda dramaticidade do julgamento do primeiro, é a mola propulsora do romance.

Isto porque vários dos personagens agem impulsionados pela certeza de que são os donos da Verdade. Uma frase de frei Guilherme de Baskerville,  resume a meu ver o livro. Logo no início ele dá um conselho ao seu jovem discípulo, Adso, que é mais ou menos assim:

-Teme sobretudo aqueles que estão dispostos a morrer pela Verdade. São esses os capazes dos piores crimes.

Como eu disse, o filme ficou muito aquém de toda a complexidade do livro de Eco. Também não dá para cobrar muito do estilo Hollywood e aí foram feitas várias alterações, além de não ter ficado muito clara a discussão sobre os males da intolerância contra quem pensa diferente, presente em toda a obra. O Nome da Rosa foi publicado em 1980 e ainda é fácil de ser encontrado em qualquer livraria. Embora eu goste de outros livros escritos por Eco, este  para mim é inigualável.    

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2 Respostas to “Ideias em Palavra: Alerta contra os males da Intolerância”

  1. S. Borges  Says:

    Excelente artigo. Concordo que o filme trata-se de uma obra originariamente Hollywoodiana, o que não invalida, de certo modo, sua possibilidade enquanto auxiliadora na elucidação do pensamento crítico, destacavelmente sobre os temas medievais. Mas o livro tem um tal frescor que carece a película. O fato é que as grandes obras são todas aquelas capazes de se reinventar, adequando-se às realidades contemporâneas, vingando muito após terem sido elaboradas. Tal qual a obra de Umberto.

  2. osmar  Says:

    Minha cara!….sugiro tambem, do mesmo autor, A Ilha do Dia Anterior…já abordando um outro tema..que é o interesse do ser humano pelo conhecimento…e sua etena busca do aprender,indo de encontro..as limitações da epoca..e o eterno controle da fé religiosa.

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