Fernando de Tacca- Parte 2

postado por Cleidiana Ramos @ 7:04 AM
12 de dezembro de 2009
Foto: Haroldo Abrantes

Foto: Haroldo Abrantes

AT: Como Pierre Verger que era repórter de O Cruzeiro se comportou neste episódio?
FT: Pierre Verger foi sempre muito silencioso sobre esse assunto. Ele era amigo de Medeiros. Mas não creio que se manteve afastado só por isso, mas também porque ele não quis ceder as fotos que ele tinha sobre um processo iniciático. Aliás, ele e Odorico Tavares prepararam uma reportagem para O Cruzeiro, que não foi publicada. Eu encontrei este texto nos arquivos da Fundação Pierre Verger. Ele, Verger, não só transitava bem nesse universo, mas tinha uma relação pessoal com o candomblé e talvez por isso tenha tido essa reserva. Na parte final do livro eu faço um adensamento conceitual dessa história que eu chamo de fricção ritualística. Eu trabalho com um autor norte-americano, da área de semiótica, chamado David Tomas. Ele trata o momento fotográfico como um ritual de passagem. Eu fiz o jogo conceitual trabalhando os ritos de passagem sob o ponto de vista da antropologia. Falo de uma liminaridade existente no processo fotográfico analógico. O negativo que vai ser  processado tem uma imagem latente que não apareceu. Há um recorte, uma separação até a revelação. No caso de Verger essa liminaridade se estica um pouco mais além desse processo. A liminaridade é também a não publicização dessas imagens, uma segunda liminaridade.

AT: Seu trabalho também envolve uma discussão ética. Medeiros chega a confessar que teria pagado para fazer as fotos.
FT: Tem uma carta publicada no livro que foi endereçada a José Medeiros por Leão Gondim da direção de O Cruzeiro. Na carta Gondim instiga Medeiros, que estava na Paraíba. É uma carta provocativa incitando-o a fazer uma reportagem melhor do que a realizada pela  Paris Match. Parece que ele também tinha uma relação com os cultos afro-brasileiros. Uma das coisas que o Medeiros me disse é que depois da reportagem, quando ele vinha para a Bahia, se registrava no hotel com nome diferente com medo de ebó.

AT: Há uma recomendação de Leão Gondim para que José Medeiros mantenha sigilo sobre a pauta não é?
FT:Na carta o Leão Gondim recomenda que ele não comente com ninguém a intenção de fotografar a iniciação, principalmente, com Odorico Tavares e Pierre Verger.Para você ter idéia, Arlindo Silva não conhecia a carta. Eu tentei conversar com ele durante todo o meu processo de finalização da pesquisa e ele se mantinha reticente, não queria me receber. Quando eu falei da carta, aí ele se abriu para me receber. Foi fantástico. Cinquenta anos depois, o sr. Arlindo Silva ficou cinco minutos lendo a carta em silêncio e aí ele disse: “Eu não conhecia essa carta”. Medeiros, segundo Arlindo Silva, não falou para ele sobre a carta. Outra coisa então ficou clara: Medeiros, nunca, nas entrevistas que fiz com ele, se referiu a ter sido instigado a fazer esta reportagem. Ela é cercada de toda uma mística, pois é considerada uma das mais importantes feitas em revistas brasileiras e sempre foi creditada a ele a ousadia de ter ido a um candomblé e ter conseguido fotografar o rito iniciático. A carta é reveladora pois mostra que a redação de O Cruzeiro é que o instigou a ir até lá.

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