Fernando de Tacca- Parte 1

postado por Cleidiana Ramos @ 7:05 AM
12 de dezembro de 2009
Foto:Haroldo Abrantes

Foto:Haroldo Abrantes

“Meu livro é uma investigação, uma espécie  uma reportagem antropológica”

Foi no curso de Ciências Sociais que Fernando de Tacca se aproximou da fotografia. O tempo faria com que estes seus dois interesses acabassem se encontrando para a produção de mais conhecimento, como é o caso do seu livro Imagens do Sagrado- entre Paris Match e o Cruzeiro. Doutor em antropologia e professor da Unicamp, Tacca enriquece o campo de estudos sobre a imagem com uma pesquisa onde o fotojornalsimo é o ponto de partida. A partir da análise da reportagem As Noivas dos Deuses Sanguinários, publicada pela  revista O Cruzeiro, em 1951, ele mostra não apenas a polêmica sobre a descrição detalhada da iniciação de três iaôs no terreiro da mãe-de-santo baiana Risolina Heleonita da Silva, mais conhecida como Mãe Riso. A reportagem e as suas consequências, tanto as reais como as imaginárias presentes no discurso do povo de santo, são o ponto de partida do autor, mas ele revela muito mais. Seu livro traz os  bastidores deste episódio como a disputa de mercado entre O Cruzeiro e a a francesa Paris Match, que meses antes havia publicado uma matéria semelhante a partir de fotografias feitas pelo cineasta Henri-George Clouzout. Um exemplo desta guerra jornalística é uma carta de Leão Gondim, diretor de O Cruzeiro, incitando o fotógrafo José Medeiros a provar que poderia se igualar a Clouzout e ao também francês, Pierre Verger que trabalhava para a revista, mas havia se negado a ceder fotos sobre uma iniciação que possuía. Nesta entrevista à repórter Cleidiana Ramos, Tacca conta detalhes de sua  pesquisa que revela episódios como a publicação em  A TARDE de uma versão traduzida da reportagem da Paris Match intitulada As Possuídas da Bahia.

A TARDE- Como o Sr. tomou contato com as fotos de José Medeiros?

Fernando de Tacca: É uma história longa. Eu fiz Ciências Sociais na USP e durante o curso me tornei fotógrafo. Naquele período não havia uma interlocução entre a área de imagem e ciências socias. Comecei a fazer minhas pequisas, fui encontrando artigos internacionais e me interessando pela área. Quando saí da USP, eu fui fazer um curso de especialização em Goiânia sobre imagem.Este curso foi feito dentro do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA) que não tinha vocação para o trabalho com imagem, mas tinha um importante acervo de fotos de filmes de Jesco Von Puttkamer, que fotografou os índios. Eu e mais alguns fotógrafos fomos escolhidos para fazer este curso. Não havia ainda um corpus intelectual no Brasil sobre este tema, mas apenas gente que pesquisva. Foi lá que conheci Micênio Carlos Lopes dos Santos. Ele tinha ligações com o terreiro de Olga de Alaketo e se tornou meu compadre. Micênio tinha o livro Candomblé, de José Medeiros. As imagens chamaram minha atenção. Fiquei me perguntando como ele se relacionou com aquele grupo para conquistar o grau de liberdade para circular e fazer aquelas fotos. Além disso as imagens tinham um caráter bem forte, com sacrifícios de animais e eram de excelente qualidade fotográfica.

AT: A pesquisa começou imediatamente?
FT: Não. Passaram alguns anos e eu fui visitar José Medeiros. Eu  já tinha uma indicação no livro sobre a revista, mas nessa ocasião ele não me mostrou o exemplar de O Cruzeiro.  Também tive algumas informações por meio de Micênio. Como ele circulava no meio do candomblé e eu não sou um especialista em religiões afro-brasileiras, ele me ajudou muito inclusive com as informações sobre as versões que corriam em relação ao episódio.

AT: Até então o Sr. não tinha ainda se aprofundado sobre as fotos do processo iniciático na Paris Match?

FT:Não. A Paris Match apareceu muito mais à fernte, aqui na Bahia. No livro eu conto todo o meu percurso. Ele é também um livro-reportagem, de investigação, uma espécie de reportagem antropológica. Até então a informação que circulava no ambiente do candomblé é que Mãe Riso teria morrido de morte violenta. Mas antes de chegar à Bahia para levantar estas informações várias coisas foram acontecendo na minha vida. Eu fiz um doutorado na USP sobre um assunto completamente diferente: a produção fotográfica e cinematográfica da Comissão Rondon e como se deu a construção oficial da imagem do índio por meio deste trabalho, morei dois anos no Japão e só depois é que me dediquei a este trabalho.

AT: Esta reportagem é publicada com uma aura de sensacionalismo, mas depois as mesmas fotografias foram publicadas no livro Candomblé, de José Medeiros, e aí já são lidas como um trabalho artístico. É curiosa esta mudança.

FT: Realmente, elas passam a ser vistas no livro como uma descrição etnográfica.O texto na revista O Cruzeiro tem uma carga forte, mas é muito bem feito pelo jornalista Arlindo Silva. Acho interessante a história do texto. Ele é mais próximo do verdadeiro do que a descrição do trabalho de Clouzout na Paris Match. As informações da reportagem sobre Clouzout são pejorativas, desqualificatórias, tentando encontrar patalogias como esquizofrenia, quando a gente sabe que isso já havia sido superado por estudos daquele período, como os de Roger Bastide. Mas vale esclarecer que Clouzout não escreveu a reportagem. Ela é feita em terceira pessoa.

AT: Roger Bastide, inclusive, fez críticas contundentes ao texto da Paris Match.

FT:Ele escreveu três textos para a revista Anhembí.  No primeiro artigo Roger Bastide contesta Clouzout, mas em seguida ele descreve o livro de Clouzout e faz uma espécie de redenção do seu  conterrâneo. Clouzout, depois da reportagem da Paris Match, foi execrado na imprensa brasileira, por artigos como o de Alberto Cavalcanti e Édison Carneiro que, embora faça críticas, diz que não se arrepende de ter indicado alguns terreiros a Clouzout quando ele veio para cá. Só que o pai-de-santo do terreiro onde Clouzout foi fotografar não é identificado. O nome Nestor usado na reportagem da Paris Match é fictício. Essa reportagem chegou a ser publicada traduzida em A TARDE em três episódios, mas acho que sem fotos. Tudo isso preparou o terreno para a polêmica e para O Cruzeiro dar a sua resposta. Claudio David, que me auxiliou fazendo a pesquisa em jornais, encontrou os anúncios sobre a chegada de O Cruzeiro. Isso faz parte de um itinerário de mercado. Quando eu percebi isso pedi para ele continuar a pequisa e aí depois encontrei um anúncio da Federação do Culto Afro-Brasileiro convidando a população, os associados e os jornalistas para discutir a polêmica levantada tanto pela revista O Cruzeiro como pela Paris Match .

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