Eventos debatem religiosidade afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 10:15 AM
23 de setembro de 2013
Registro do I Encontro de Nações, realizado em 1981. O primeiro à esquerda é o professor Vivaldo da Costa Lima e a última à direita Mãe Olga de Alaketo. Foto: Cedoc A Tarde

Registro do I Encontro de Nações, realizado em 1981. O primeiro à esquerda é o professor Vivaldo da Costa Lima e a última à direita Mãe Olga de Alaketo. Foto: Cedoc A Tarde

Reproduzo aqui a matéria que saiu na edição do último domingo. Um daqueles eventos que tem tudo para fazer história:

 

Cleidiana Ramos

 

Membros das religiões afro-brasileiras  vão realizar, a   partir da próxima terça-feira (amanhã, dia 24), mais uma edição de um evento marcante: o III Encontro de Nações de Candomblé. Realizada pela primeira vez em 1981, a reunião este ano tem a novidade de contar com a representação das tradições de outra regiões da Bahia, como o jarê e  o pegi, originários da Chapada Diamantina e Jacobina, respectivamente. De forma simultânea vai acontecer o I Simpósio de Estudos da Religião Afro-Brasileira. Os eventos serão na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no Terreiro de Jesus.

O simpósio  apresentará  estudos do Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Ufba, sediado no Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), instituição promotora das duas iniciativas. “O encontro ganhou uma dimensão que está nos surpreendendo”,  diz Márcia Souza que, ao lado de Lindinalva Barbosa e dos doutores em antropologia Cláudio Pereira e Jeferson Bacelar, forma a comissão organizadora.

“Será um espaço onde os religiosos de matriz africana vão atualizar as discussões de interesse e ter notícias da diversidade que caracteriza a prática religiosa”, aponta Lindinalva Barbosa. Ela também destaca a presença de jovens pesquisadores no simpósio. “O interessante é que muitos deles também são de candomblé”, completa. Para  Jeferson Bacelar, será a oportunidade de perceber como o candomblé está lidando com questões atuais.

“O candomblé tem uma dinâmica muito interessante, tanto interna como externa. Mesmo mantendo  tradições, ele precisa dialogar com o moderno”, diz. Homenagem Escolhido para ser homenageado, o doutor em antropologia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Júlio Braga, vai realizar uma palestra intitulada O Antropólogo na Encruzilhada, tema de um dos livros dele.

“É uma reflexão a partir de uma pergunta que sempre me faziam. As pessoas consideram contradição pesquisar a religião que se professa. Cada vez que me perguntavam sobre isso tinha vontade de xingar. Para não fazê-lo, preferir escrever”, conta Braga, em meio a gargalhadas. Ele tem extensa produção sobre o candomblé, inclusive livros que se tornaram clássicos, como O  Jogo de Búzios .

A saudação inicial aos dois eventos será feita pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi. Já a conferência de abertura do simpósio terá Vagner Gonçalves como palestrante. [veja entrevista com o estudioso na página ao lado]. Para participar é necessário fazer inscrição no Ceao, que fica no Largo 2 de Julho. A inscrição custa R$  20 (estudante) e R$ 30 (público em geral). Para ver a programação acesse www.ceao.ufba.br

Povo de Santo não foge à discussão

O I Encontro de Nações de Candomblé, realizado em 1981, nasceu da ideia de um curso de extensão sobre as religiões afro-brasileiras.  Na primeira edição, já foi comemorada a participação de representantes da nação angola que foi pouco mencionada nos estudos clássicos. A palestra de abertura do encontro foi feita pelo antropólogo Vivaldo da Costa Lima, autor do texto clássico sobre o uso do conceito de nação para definir as tradições do candomblé. Os demais  palestrantes foram escolhidos a partir de sugestões do  povo de santo. O patrono foi o orixá Ogum. O segundo encontro foi realizado em 1995 e teve como patrono o orixá Oxóssi. Esse ano, Xangô foi escolhido como o regente do evento.

A reunião para discutir as tradições é uma prática antiga no candomblé baiano. Mesmo quando a organização parte de pesquisadores, o povo de santo deixa uma marca muito forte. Manifesto Foi assim no II Congresso Afro-Brasileiro. Sediado em Salvador, o congresso foi organizado por Édison Carneiro, Aydamo Couto Ferraz e Reginaldo Guimarães, em 1937, mas não teria acontecido sem a colaboração do babalaô Martiniano do Bonfim, e contou com um texto de Mãe Aninha sobre culinária ritual.  De 17 a 23 de julho de 1983, foi realizada na capital baiana a II Conferência Mundial da Tradição Orixá e Cultura. O evento gerou um manifesto, liderado por Mãe Stella, defendendo a autoafirmação do candomblé como religião.

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