Espaço Público: Filho de Ogum na Prefeitura de Salvador

postado por Cleidiana Ramos @ 7:54 AM
18 de junho de 2009
Edvaldo Brito é o vice-prefeito de Salvador. Foto: Elói Corrêa | AG A TARDE

Edvaldo Brito é o vice-prefeito de Salvador. Foto: Elói Corrêa | AG A TARDE

No último dia 9, o jurista Edvaldo Brito, 71 anos, mais uma vez fez história. Ele assumiu como prefeito interino de Salvador. O titular, João Henrique, estava em viagem de trabalho.

Até hoje Brito é o único negro a ter ocupado o mais alto cargo público executivo da capital da Bahia, no período de 1978 a 1979.

Na sua volta à política, Brito, que é babá egbé no Terreiro do Gantois, dividiu a chapa e agora a administração da cidade com o evangélico João Henrique. Do ponto de vista simbólico vale como um tapa de luva para os que insistem em não respeitar a liberdade de crença.

“A minha relação com o prefeito é ótima e ele tem compreendido bastante as minhas incursões por este viés afrodescendente e pelo candomblé que é plural”, destaca.

Considerado um dos melhores advogados tributaristas do Brasil,doutor em direito, professor de várias instituições de ensino, dentre as quais a Ufba, Brito ocupou o posto de Secretário de Negócios Jurídicos da Prefeitura de São Paulo de 1997 a 2001.

Este homem das ciências jurídicas é filho do orixá da tecnologia e dos metais, Ogum, e revela que teve um momento em que se afastou da religião vivida em família. Ele é sobrinho da célebre Bida de Iemanjá. 

“Como todo jovem tive minhas dúvidas, num momento em que as preocupações materiais falam mais alto. Mas voltei com toda a carga e recebi o primeiro posto no Gantois- opô ontum lo lalé, que é o braço direito do axé do terreiro- me dado por Mãe Menininha. Após a vacância de 21 anos do posto de babá egbé, fui escolhido pelos búzios para assumir”. relata. 

Este retorno do professor Edvaldo, como também é frequentemente chamado, ao Gantois se deu numa situação emocionante: secretário de Justiça do governo Roberto Santos ele foi escolhido pelo governador para condecorar Mãe Menininha.

Na hora de colocar a medalha, o movimento corporal o obrigou a ficar de joelhos. Ali ele começou a trilhar o caminho de volta ao convívio da família comandada pela ialorixá filha de Oxum.

Da mesma forma emocionada como conta este episódio, Brito, um orador que encanta quem o escuta, relata a sua participação na inauguração do espaço das baianas na Praça da Sé no último dia 9.

“Eu fiquei ali lembrando e falei que minha tia Helena de Oxum vendia acarajé há dois passos de onde estávamos. Depois ela foi para o Rio de Janeiro ficar com minha outa tia, Bida de Iemanjá, e as duas pagavam um quarto no Tororó onde eu fiquei enquanto estudava. É só um exemplo de como este segmento afro movimenta esta cidade. Por isso terminei meu discurso com uma saudação a Ogum que acho que chegou até a América do Norte”, completa.

Em 1983 o professor Edvaldo foi o organizador de um evento que fez história: a II Conferência Mundial das Religiões Afrodescendentes. Foi neste encontro que aconteceu a divulgação do famoso manifesto encabeçado pela ialorixá Stella de Oxóssi que defendia o candomblé como religião e alertava para os problemas em relação a isso que a manutenção do sincretismo com o catolicismo poderia causar.     

“Eu, de candomblé, tive também uma educação com base em princípios cristãos. Continuo tendo o maior respeito pelos cristãos, pelos católicos e por isso espero que também os cristãos de qualquer denominação tenham respeito ao candomblé, o que não vem acontecendo em muitas vertentes”, acrescenta.

Como co-administrador da cidade, Brito afirma estar atento às críticas sobre as seguidas alterações na administração João Henrique na titularidade da Semur. “Há questões políticas para esta mudança, claro, mas a mudança do secretário não interfere no projeto maior que é o de manter o respeito a esta questão da reparação ao qual continuo atento”.              

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Uma Resposta to “Espaço Público: Filho de Ogum na Prefeitura de Salvador”

  1. PAULO PIRES FILHO  Says:

    Sempre competente e sensato Prof. Doutor Edvaldo Brito.

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