Educaxé- O negro e a política- Parte VII

postado por Cleidiana Ramos @ 2:11 PM
28 de agosto de 2009
As frentes de luta atual ganharam novas configurações, como o movimento quilombola. Foto:  Lúcio Távora | AG. A TARDE

As frentes de luta atual ganharam novas configurações, como o movimento quilombola. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

Frente Negra Brasileira 2

Jaime Sodré

Ainda nos rastros luminosos da Senhora Maria Brandão, envolto nas movimentações ideológicas da comunidade negra, enveredo-me pelo binômio “negro e a política”, trazendo a Frente Negra Brasileira, fundada em 16 de setembro de 1931, instalada à Rua da Liberdade, em São Paulo, dirigida por um Grande Conselho de 20 membros, tendo criado uma organização caracterizada como “milícia frente-negrina”, uniformizados de camisa branca, com treinamento militar.

Não sabemos ao certo as razões da milícia, pois não era do seu propósito confronto contra quem quer que seja ao menos suponho. Francisco Lucrécio mencionava que a FNB foi fundada por seus companheiros, sob a luz de um poste de iluminação publica, demonstrando a precariedade dos primeiros dias.

Lucrécio foi ex-combatente da Guerra Civil Constitucionalista de 1932. Haviam criticas acirradas contra a organização, acusada de “fazer racismo ao contrario”, embora idealizada com objetivos assistencialistas. Com o amadurecimento dos seus militantes transformou-se em um importante instrumento contra o racismo no começo do século XX.

Para a identificação, os seus integrantes portavam uma carteira de filiação com retrato de frente e perfil. Segundo relatos, quando as autoridades policiais encontravam um negro com este documento o, respeitava, pois sabia que era “frente-negrino”, ou seja, uma pessoa de bem. Um dos feitos atribuído a Francisco Lucrécio e seus companheiros, foi pleitear com sucesso a entrada de negros na Força Pública de São Paulo. A Frente inscreveu cerca de 400 homens, sendo que alguns deles seguiram carreira militar.

A Frente viveu tempo de divergências ideológicas. Seu primeiro presidente, Arlindo Veiga dos Santos, desejava impor aos demais uma visão ideológica “monarquista”. Esta tendência levou a entidade a simpatizar com ações “direitistas”, aproximando-se do integralismo. Informa-se também que existiam militantes simpáticos às ideias socialistas, que chegaram a fundar a Legião Negra Brasileira.

O seu jornal a Voz da Raça estampava o slogan “Deus, Pátria Raça e Família”, uma evidente adaptação de “Deus, Pátria e Família”, posteriormente modificado. Uma outra estratégia foi criar núcleos em diversos Estados, incluindo a Bahia.
Avaliando os êxitos alcançados, os seus dirigentes empenharam-se em transformar a entidade em partido político. Possuía todos os requisitos e as exigências da Justiça Eleitoral. O pedido neste sentido foi feito em 1936. Pensou-se até em lançar candidato à presidência, mas membros do Tribunal empenharam-se em evitar tal ousadia, alegando as “tendências racistas da pleiteante”.

Finalmente o registro foi concedido, mas pouco durou, pois em 1937, com o golpe de Estado efetuado por Getulio Vargas, foram dissolvidos  os partidos políticos- o Integralista, o Partido Comunista, incluindo a Frente Negra. Houve uma grande frustração e a entidade definhou. Raul Joviano do Amaral tentou conservá-la, mudando-lhe o nome para União Negra Brasileira, porém o ambiente não favorecia o associativismo. O jornal a Voz da Raça silenciou. A União, que tencionava reerguer a organização original, desapareceu em 1938, quando se comemorava 50 anos da Abolição da Escravatura. Apesar do golpe mortal, a comunidade negra tentou manter-se mobilizada, agora em associações culturais e esportivas.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

1. Qual era o contexto para tratamento da questão racial no Brasil nos anos 30?

2. Qual a relação das obras de Gilberto Freyre com a questão da identidade do povo brasileiro?

3. Quais as principais caracteríticas do movimento integralista?

4. O que foi o movimento constitucionalista?

 5.  Quem é Abdias do Nascimento?

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé.

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