Educaxé- Bogum Parte III

postado por Cleidiana Ramos @ 3:35 PM
7 de julho de 2009
Nandoji Índia é a atual dirigiente do Bogum. Foto: Arlindo Felix | AG. A TARDE| 17.01.2003

Nandoji Índia é a atual dirigente do Bogum. Foto: Arlindo Felix AG. A TARDE| 17.01.2003

As Divindades

Jaime Sodré

O Zoogodô Bogum Malê Rundó possui no seu quadro de divindades, dentre outras, os seus patronos – os voduns Bafono Deca e Ajonsu ou Azonsu -, regendo os destinos e cumeeira. A divindade máxima é Mawu-Lissa, Olissassa, Olissá, Olissasi. As suas festas realizam-se ao fim do ano, após o Ossé de Lissa- ritual restrito aos seus iniciados- e são muito concorridas.

O Bogum também realiza a sua missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em louvor a São Bartolomeu e São Jerônimo. O primeiro dava nome a sua associação civil, com o título de Sociedade Fiéis de São Bartolomeu do Terreiro do Bogum. Fundada em 1937, esta sociedade, na década de 1970, teve o privilégio de ser dirigida por Edvaldo dos Santos Costa, destacado ogã da casa, filho consangüíneo de Mãe Nicinha, que teve como mérito maior a reestruturação da entidade, com seus estatutos publicados no Diário Oficial em 16 de outubro de 1977.

Esta organização, representativa da atividade civil do terreiro, ficou inativa até 1983, quando, sob a presidência do Sr. Lídio Pereira dos Santos, venerável ogã da Casa e decano querido e respeitado, retomou suas atividades.

Atualmente, a organização civil sofre mais uma reformulação sendo que, em assembléia, foi inaugurada uma nova entidade com o nome de Associação dos Fiéis Jeje Mahin, numa postura de desvincular o terreiro de laços com o catolicismo. Embora se tenha alterado a denominação, as relações com a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ainda permanecem.

Os fiéis, ao chegarem à área da Avenida Vasco da Gama, em frente ao Terreiro da Casa Branca, vindos da missa, visitam este terreiro e em procissão, sobem a íngreme Ladeira do Bogum, com fogos e cânticos e contornam, no Largo das Palmeiras, o busto de Mãe Runhó, instalado pela prefeita Lídice da Mata. Vão em direção às portas do terreiro, onde incorporam os voduns e entram no templo, saudados pelos tambores, e no seu interior realizam-se as danças sagradas. 

As festas, na tradição jeje do Bogum, têm os voduns Gum (Gu), Agangatolu, Ágüe e Logunedé; voduns da família dos Kavionô ou Kavionus: Sobô ou Sogbo, Pó ou Kpó, Badé, Adaen ou Adan, Ajiripapô ou Ajiribabô, Afonjá; o vodum Aziri ou Aziritobossi; o vodum Hoho ou Ibejes, o vodum Ajonsu, com festa dedicada ao patrono da Casa e de Mãe Índia; além de Nanã.

A 31 de dezembro acontecem as obrigações do Sé ou ossé de Lissa, onde se realiza a purificação dos assentamentos da entidade maior, que alguns chamam de “Águas de Oxalá”. Os ritos festivos se realizam nos meses de janeiro e fevereiro, sendo que neste, realiza-se o Olugbajé, a grande festa de Ajonsu, Omolu  com um banquete comunal. O Bogum também cultua os Caboclos, no seu dia festivo e cívico, o Dois de Julho.

No repertório de atividades rituais vale destacar o zandró (a vigília sacra jeje) com procissões internas e ofertórios instalados aos pés das árvores sagradas, o boitá. Durante os dias do ano o Bogum realiza obrigações dos seus iniciados e rituais propiciatórios, dentre outros eventos comunitários em favor da população do bairro do Engenho Velho da Federação, além de atendimento aos que necessitam dos seus poderes religiosos.

Oferendas são realizadas pelo povo do Bogum, preferencialmente em árvores, no mar e fontes, no Dique do Tororó e, outrora, no Parque São Bartolomeu, por sua ligação com a entidade católica reverenciada pelo jeje.

O rito fúnebre da liturgia jeje é o zelim, zerrim ou sirrum, que equivale ao axexé da organização religiosa nagô e ao macondo da nação angola. Esta celebração é privativa aos falecidos de posição hierárquica elevada, sendo que na ocasião se homenageia personalidades ilustres falecidas de outras nações. Os ritos fúnebres do Bogum, a exemplo de outras casas, são realizados com cuidados e rigor, obedecendo as interdições decorrentes deste rito.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

1.Quais as divindades do Bogum e de outras nações?
2.O que é um ogã?
3.Qual o papel dos Caboclos no Candomblé?
4.O que é fitolatria? Este fenômeno existe em outras religiões?

Jaime Sodré é historidador, professor e religioso do candomblé

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12 Respostas to “Educaxé- Bogum Parte III”

  1. Missione Mour  Says:

    Cleadiana, bom dia!

    Em se falando de candomble da nação jeje. Como voçê é uma menina que sabe das coisas, pergunto: esse ano/ 2009, como consigo o calendário da Festa da Boa Morte, que acontece no próximo mês de agosto. Preciso saber o dia da procissão diurna. Estou organizando um grupo de amigos para prestigiarmos a festa. Eu todo ano estou lá, vou revigorar minhas energias e render minhas homenagens as grandes sacerdotisas da Irmandade.
    Cordialmente
    Missione

  2. Cleidiana Ramos  Says:

    Oi Missione. A festa da Boa Morte há alguns anos voltou a ser realizada nos dias 13, 14 e 15 de agosto, pois este último é o dia em que se comemora a Assunção de Maria, uma festa católica a qual a irmandade está fortemente ligada. A programação, com horários das procissões, missa e outros eventos costuma ser divulgada nas proximidades da festa, mas não muda muito. Começa no dia 13 à noite, prossegue no dia 14 também à noite e no domingo pela manhã tem a procissão e missa festivas, seguida da distribuição do tradicional cozido e samba de roda. Mas ficarei atenta para noticiar tudinho aqui. Beijos para você.

  3. marcos  Says:

    bom dia amiga : eu gostaria de saber de voçê se existe algum livro publicado sobre mãe Runhó. ”especificamente sobre ela, tipo uma biografia”

  4. Cleidiana Ramos  Says:

    Marcos: que eu saiba não tem nenhuma biografia específica sobre ela. Mas tem um trabalho bem interessante sobre o candomblé jeje na Bahia chamado “Formação do Candomblé”, do antropólogo Luis Nicolau Parés. Tem várias informações sobre o Bogum e é muito, muito bom.

  5. marcos  Says:

    Já li o livro do Luis Nicolau Parés, achei bastante rico no que diz respeito ao jeje………… porém minha pergunta foi direcionada a Doné Runhó pois estou escrevendo algo sobre ela, sua vida sua história, seus pensamentos e suas ações à frente do terreiro do bogun . Pode mim indicar onde encontrar material sobre ela?

  6. Cleidiana Ramos  Says:

    Marcos: a saída mesmo é você procurar matérias em jornais antigos. Na minha pesquisa para o mestrado tenho encontrado algumas coisas sobre ela em edições de A Tarde da década de 70, até 1975, que foi quando ela partiu. Um ogã do Bogum, Jheová de Carvalho, era jornalista e repórter aqui do jornal então fazia algumas coisas sobre o terreiro tendo ela como fonte. O site do Ceao, que você encontra relacionado na coluna Outros Mundo aqui do Mundo Afro, tem a seção biblioteca. Chegando lá clique “homeroteca” e você vai encontrar um campo de pesquisa em jornais baianos. A coleção é sobre candomblé e outros temas afro-brasileiros. Abraços.

  7. Hidemi Soares  Says:

    Ola lindinha vc teria conhecimento das datas das festividades do Bogum para esse ano, ou para o proximo,2010, agradeceria muito de vc conseguisse essas datas para mim, desde ja muito obrigado!!!!

  8. Cleidiana Ramos  Says:

    Ainda não tenho. O período de festividades no Bogum costuma ser nos primeiros meses de cada ano. Qualquer novidade aviso.

  9. Hidemi Soares  Says:

    Muito obrigado pela atençao e nao sei se seria pedir demais, mas seria possivel caso vc tenha o calendario, agora so o de 2010,ne?? muito obrigado!!!

  10. Cleidiana Ramos  Says:

    Assim que tiver acesso eu envio para você. Abraços.

  11. dirce mendes  Says:

    deixo um abç e peço obrigada por termos essa fonte fidelíssima , onde ficamos atualizados sobre o mundo afro , nosso mundo.axe querida . um cheirinho bom de jasmim.

  12. Hidemi Soares  Says:

    Reitero os agradecimentos!!!

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