E o racismo atinge mais um atleta: o garoto Angelo Assumpção

postado por Cleidiana Ramos @ 12:52 PM
21 de maio de 2015
Angelo Assumpção foi vítima de racismo em vídeo divulgado em rede social por colega da Seleção de Ginástica Artística. Foto: Arquivo Pessoal/ Facebook

Angelo Assumpção foi vítima de racismo em vídeo divulgado por colega da Seleção de Ginástica Artística. Foto: Arquivo Pessoal/ Facebook

Eu comecei a gostar de ginástica artística em meados da década de 1990, quando a Rede Bandeirantes era especializada em esportes. Às vezes, acordava de madrugada para acompanhar as competições.

A primeira referência brasileira no esporte que conheci foi a atleta Luiza Parente que brilhava mesmo com ginástica em uma fase ainda desconhecida no País.

Aí veio a geração de 2000 com Daiane dos Santos. Fiquei extremamente triste quando ela perdeu a medalha, principalmente por saber que seria a primeira atleta negra a conquistar o ouro no esporte em uma Olimpíada.

Imaginem! Em um esporte clássico em Jogos Olímpicos só na década de 2000 uma negra, mesmo com os EUA sendo uma potência, chegou perto de subir ao lugar mais alto do pódio.

Isso é um indício de como a ginástica é um esporte que integra o grupo dos que são mais difíceis  para os negros acessarem. Ela requer treinamento especial desde muito cedo, inclusive nos movimentos de balé clássico. Sem falar nos aparelhos caros. É diferente do futebol, quando  uma bola de meia já dá para começar a treinar. 

Daiane, inclusive, dançava pouco, pois começou a treinar tarde, o que prejudicava seu desempenho com a parte do balé. Fazia apenas o básico e exigido. Suas séries eram todas baseadas na força. Vale ressaltar que foram dois ucranianos, à frente da Seleção Brasileira, que “descobriram” Daiane no banco de reservas.E mais: ela precisou fazer movimentos espetaculares para que ganhasse holofotes e saísse da reserva na seleção nacional. Não à toa batizou movimentos com seu nome.

Agressão
Essas reminiscências são para falar do “caso Angelo Assumpção”, 18 anos, a mais nova vítima de crime racista no esporte. Assim como Daiane, ele era reserva. Ganhou a vaga na etapa da Copa do Mundo de Ginástica, disputada no Brasil de 1º a 3 deste mês,  porque um dos titulares se machucou. Saiu do banco para ganhar uma medalha de ouro no salto desbancando a experiência da “eterna estrela” Diego Hypolito e outros favoritos.

Fiquei emocionada quando a transmissão na TV mostrou a família de Angelo na arquibancada. Todos negros. A mãe, dona Magali Dias Assumpção, estava extremamente feliz. Dias depois, nas matérias que surgem após uma conquista “surpresa”, dá para entender o motivo: a família praticamente “ousou” ao deixar o menino correr atrás do sonho mesmo com as dificuldades típicas de transporte e dificuldades financeiras. Um exemplo: a agora “revelação da ginástica nacional” ainda está sem patrocínio.

O mês que poderia acabar de forma perfeita para Angelo trouxe  um pesadelo. Ele está no epicentro de uma história que de tão absurda chega a parecer  inacreditável.

O ginasta Arthur Nory postou numa rede social um vídeo onde, durante uma refeição coletiva – a seleção masculina está concentrada para competições- o campeão Angelo é provocado. É Nory quem pergunta:”Seu celular quebrou: a tela quando funciona é branca..quando ele estraga é de cor?”. Um coro dos outros atletas responde: “Preto”. E continua: “O saquinho do supermercado é branco. E o do lixo? É preto! “. Tudo isso diante de um Angelo constrangido.

O vídeo foi assunto de uma matéria do jornal O Globo o que transformou, ainda bem, o episódio em um escândalo. Aliás, uma curiosidade: Arthur Nory foi exatamente o atleta que Angelo substituiu na etapa da Copa do Mundo de Ginástica realizada no Brasil, porque estava machucado.

Ontem, quarta-feira, a Confederação de Ginástica afastou Arthur Nory, Fellipe Arakawa e Henrique Flores. Os três apareceram em um segundo vídeo onde Angelo está ao lado, aparentemente constrangido, e Nory desculpas dizendo que “tudo foi uma brincadeira”. A típica desculpa cínica nos casos de racismo.

Outra curiosidade na história: o ginasta Angelo Flores é enteado de Marcos Goto, técnico de todos os envolvidos, quando estão na Seleção Brasileira, e do campeão nas argolas Arthur Zanetti.  Goto, vale registrar, é negro.

Punição

A suspensão dos três ginastas é por 30 dias. A pena, diante da gravidade do caso, pode ser considerada leve, mas o que me agradou foi  que ela veio da  CBG e rapidamente, diferentemente de Fifa e CBF que costumam empurrar com a barriga o quanto podem posições diante de casos que envolvem racismo.

A CBG também afirma que está dando o apoio psicológico necessário a Angelo e não deixa que ele se pronuncie sobre o caso.

Imagino o sofrimento desse menino. Deve estar passando por uma pressão imensa, sem falar nos possíveis  olhares atravessados em sua direção , típicos dos que tentam transformar as vítimas de racismo em “gente sem humor”, “complexadas”, que não toleram uma “brincadeirinha inocente”. E é nesse clima que o ele vai ter que disputar uma prova importante: mais uma etapa da Copa Mundial rumo à sua batalha por uma vaga nas Olímpiadas 2016, que o Rio de Janeiro vai sediar.

Aliás, o ginasta Diego Hypolito que, durante o Mundial, se disse um fã de Angelo e grande amigo dele se apressou rapidamente em caracterizar o episódio no “campo da brincadeira”.

A meu ver, “pisou fora do tablado” para usar um expressão do esporte. Com racismo não se brinca, assim como não se desafia o fogo. O resultado pode ser um acidente que deixa sequelas perigosas.

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