Consciência Negra 2009: Trabalho e Sociabilidade

postado por Cleidiana Ramos @ 4:27 PM
27 de novembro de 2009
Cecília C. Moreira Soares

Cecília C. Moreira Soares fala sobre o empreendedorismo de mulheres negras em Salvador. Foto: João Alvarez | AG. A TARDE

Cecília C. Moreira Soares

A escravidão estabeleceu diversas formas de exploração do africano na condição de escravo. Muitas dessas pessoas eram mulheres, que independente da condição de gênero foram exploradas e obrigadas a criarem estratégias de sobrevivência nas ruas de Salvador, cujas práticas são ainda observadas no cotidiano da cidade, principalmente para a maioria pobre e inserida no trabalho informal.

As ruas da cidade eram ocupadas por negras escravas e libertas que comercializavam diversos produtos de primeira necessidade.

Já as mulheres libertas experimentavam uma situação no ganho diferente das escravas, pois no seu trabalho não interferiam os senhores e os produtos da venda lhes pertenciam totalmente. As libertas comercializavam produtos como hortaliças, verduras, peixes, frutas, comida pronta, fazendas e louças. Haviam certas posições nesse pequeno comércio cuja margem de lucro era bastante generosa, a exemplo das negras peixeiras.

Além de circularem com tabuleiros, gamelas e cestas habilmente equilibradas sobre as cabeças, as ganhadeiras ocupavam ruas e praças da cidade destinadas ao mercado público e feiras livres, onde vendiam de quase tudo. Em 1831, foram destinadas ao comércio varejista com tabuleiros fixos as seguintes áreas urbanas: o campo lateral da igreja da Soledade, o campo de Santo Antonio em frente à Fortaleza, o largo da Saúde em frente à roça do Padre Sá, o campo da Pólvora, O largo da Vitória, o largo do Pelourinho, o Caminho novo de São Francisco, a praça das Portas de São Bento, largo de São Bento, largo do Cabeça, a praça do Comércio, o Caes Dourado. Para peixe e fatos de gado e porco foram unicamente destinados o campo em frente aos currais, no Rosarinho, ou Quinze Mistérios, a praça de Guadalupe, a praça de São Bento, o largo de São Raimundo e a rua das Pedreiras, em frente aos Arcos de Santa Bárbara.

É esse o cenário que se repete nos dias atuais onde encontramos mulheres negras inseridas no pequeno comércio, em pontos fixos ou ambulantes, disputando as duras penas, um lugar digno e capaz de prover o sustento. São muitos os doutores, economistas, administradores, comerciantes, descendentes de famílias de quitandeiras, quituteiras e vendedoras, que conseguiram criar condições para que seus filhos superassem os estigmas da escravidão e de uma sociedade que resiste à inclusão de negros e negras, em lugares historicamente ocupados por não-negros.

Cecília C. Moreira Soares é doutora em antropologia

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4 Respostas to “Consciência Negra 2009: Trabalho e Sociabilidade”

  1. ninha  Says:

    eu adorei essa mulher ela é tudo bom e adorei o trabalho
    dela com os negros que no caso afrodescendente

  2. Manoel  Says:

    ÓTIMA MATÉRIA!

  3. William  Says:

    Perfeito!!! e, lindo de ler. Olá… Doutora Cecília C. Moreira Soares, estava no babá, no sábado pela manhã com meus amigos da área de Educação e etc… Eu de Educ. física, dentre outros Direito, Matemática, Enfermeiro e muitos da área de História. No antigo BNB, na Boca do Rio. Sempre visito esta página por ser um afrodescendente, quero esta por dentro que se passa no mundo Negro. Fiquei curioso com o colega que faz Direito, dele dizer um tema interessante que esta muito longe pelo menos na minha visão. “A Escravidão” todos foram idenizados Judeus(esse muitos ricos agora com Petróleo, “chamado de petródolar”) Exilados entre outros… O mesmo faz uma pesquisa nesse tema. Porque os afrodescendentes não foram idenizados? quero uma matéria falando sobre esse tema que tanto me chama à atenção citado por aquele profissional de Direito. Estava pesquisando dentre outros idenizados ai vi essa reportagem desse professor de Direito da PUC, R.G.do S. e Doutorando PUC/RJ e, Presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Paulo Abrão Pires Júnior. “(A indenização pela escravidão) é uma reivindicação que acredito ser legítima e que pode ser levada ao Congresso”.
    Até mais….

  4. Roselí Araújo Lima  Says:

    Cecília Soares é um exemplo de mulher; negra!!! Deslumbrante nas suas reflexões acadêmicas e sobretudo nas suas posturas/lutas para garantir políticas públicas efetivas para população afrodescendente.

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