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Entrevista: “A memória da Bahia não pode ser seletiva”, Zulu Araújo, diretor da FPC

postado por Cleidiana Ramos @ 4:38 PM
16 de março de 2015
Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9.  2010

Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9. 2010

O arquiteto e gestor cultural  Zulu Araújo é o novo diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão que integra a Secretaria Estadual de Cultura (Secult). Durante algum tempo, a instituição era vista, pelo senso comum, apenas como a guardiã da memória dos ex-governadores. Mas a a partir das últimas gestões, com destaque para a do professor Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013), iniciada em 2006, a FPC e o seu trabalho em outras linhas ganhou maior visibilidade. Em entrevista que concedeu ao jornal A TARDE há nove anos, o professor Ubiratan chegou a afirmar que iria fazer do órgão o “instituto do Jacaré”, numa referência ao orador popular que, do alto de um improvisado tablado feito com caixa de madeira para guardar maçãs, fazia discursos contra o governador Octávio Mangabeira. A citação do professor Ubiratan era para lembrar que a fundação, então sediada no Palácio Rio Branco, também estava aberta para o povo, afinal ela é  a responsável pela guarda de bibliotecas, do arquivo público e de projetos como o de valorização e divulgação dos eventos relacionados à Independência da Bahia, comemorado anualmente em 2 de julho. Nessa entrevista, o novo diretor, Zulu Araújo, destaca a continuidade, em sua gestão, das ações para aproximar ainda mais a fundação dos variados segmentos da população baiana. Ele também afirma que dará continuidade aos projetos que encontrou e providenciará a implantação de novos, além de realizar um esforço para resolver o crônico problema de uma sede mais adequada para o Arquivo Público. A ideia é transferi-lo da Baixa de Quintas para garantir o tratamento mais adequado para o acervo de documentos.

Cleidiana Ramos: Muita gente ainda imagina que a Fundação Pedro Calmon (FPC) é apenas o local da guarda de memória dos ex-governadores. Seria interessante o sr. resumir quais as funções do órgão.

Zulu Araújo: A Fundação Pedro Calmon é uma instituição da Secretária de Cultura (Secult) que trabalha com memória, arquivo público, livro e leitura, além das bibliotecas públicas. Ela é o órgão responsável por formular e implantar políticas públicas nessas áreas.

CR: O Arquivo Público sediado na Baixa de Quintas vem passando há anos por problemas na estrutura física. A instalação elétrica já chegou a ficar desligada por prevenção contra incêndios. Quais as suas ideias para resolver essa questão?

ZA: Assumi o compromisso público e estou convocando outros setores para me ajudar a realizar a transferência do arquivo para um espaço mais adequado. O prédio onde ele está atualmente, apesar da importância arquitetônica, não possui condições para abrigar o acervo. Não há também como adequá-lo. Tenho essa certeza não só como arquiteto mas também por conversas que já mantive com técnicos do Ipac. Estamos, portanto, estudando a transferência para outros locais como o Centro Histórico, o Instituto do Cacau, no Comércio, e até mesmo a construção de um prédio adequado. Claro que isso depende da articulação com outros setores, verbas públicas e também sensibilização nesse sentido. Confio que vamos conseguir esse objetivo. Já na minha posse (no último dia 9), vários parlamentares se dispuseram a nos ajudar com emendas nesse sentido. Quero ressaltar que os gestores anteriores a mim fizeram todo o esforço que lhes foi possível, inclusive uma reforma no telhado. Mas o tempo já comprovou que reformas não resolvem o problema do Arquivo Público.

CR: Sob a guarda da FPC também estão os centros de memória que administram o acervo de arquivos privados. Não só na capital, mas também no interior há muitas coleções desse tipo. 

ZA: Sim. Os arquivos privados são de pessoas físicas que os adquiriram ao longo da vida e os conservaram como foi possível. Mas até mesmo para adquirir novos arquivos temos que ter espaço adequado. Atualmente, o centro de memória para esse fim funciona em duas salas da Biblioteca dos Barris. Estamos estudando outras possibilidades para a sua ampliação como a antiga sede do Inema, localizada em Monte Serrat. Também estamos avaliando, com a ajuda do Ipac, a opção do Palácio da Aclamação que passando por uma reforma será um espaço bem adequado afinal foi a morada oficial dos governadores. Ali é um complexo que também envolve o Passeio Público. Teremos uma reunião essa semana para tratar desse assunto. Mas vamos discutir não apenas a melhoria física do prédio, mas a possibilidade para dotá-lo das condições necessárias à manutenção e aquisição de novos acervos.

CR: O professor Ubiratan Castro,que foi um dos seus antecessores na FPC, dizia que queria fazer do órgão o “instituto do Jacaré” numa alusão a torná-lo mais próximo do povo. O sr. acha que a FPC caminha nesse sentido?

ZA: Quero render minhas homenagens ao professor Ubiratan pelo excelente trabalho na Fundação Pedro Calmon. Aqui ele ampliou e implantou projetos criativos como o denominado “Independência do Brasil na Bahia”, além de a ter aproximado mais da população, com certeza. Meu compromisso é dar continuidade a esse trabalho e nunca retroagir nem sair desse rumo. A FPC pretende, de maneira objetiva, aprofundar o trabalho que o professor Ubiratan vinha fazendo. Estamos também pensando em memória da Bahia no sentido mais amplo, ou seja, com as contribuições cigana, indígena, negra e européia. A memória da Bahia não pode ser seletiva para dar conta e respeitar a sua diversidade.


Saudades do Mestre Bira Gordo

postado por Cleidiana Ramos @ 7:59 PM
22 de janeiro de 2013

Professor Ubiratan Castro deixou saudade. Foto: Eduardo Martins / Ag. A TARDE/ 17.11.2004

Falar de amigos que deixam este mundo é complicado . O susto, a tristeza e, por fim, a rendição ao que não se pude mudar levam dias e até meses para deixar de incomodar. E é assim que me sinto em relação à perda do professor Ubiratan Castro de Araújo, o nosso Bira Gordo, como ele permitia e até gostava que o chamassem.

Eu estava em Iaçu, de férias, quando recebi a má notícia. Coube a minha colega de profissão e amiga, Maíra Azevedo, a gentileza de me avisar para que não soubesse de outra forma mais brusca, como a Internet. A forma que achei de retribuir a gentileza de Maíra foi fazer o mesmo por outra pessoa. No caso, o professor Albergaria, colega e amigo de Bira. Foi uma das poucas vezes em que vi a “galhofice” de Albergaria fazer uma pausa, mas como ele mesmo diz: “É assim mesmo…. tem coisas que a gente não pode mudar”.

O tom de Albergaria pode ser traduzido em vários sentidos. Um deles é que partiu com o professor Bira mais um pedaço da Bahia inteligente, culta e que sabia das suas dores e prazeres sem perder a altivez. O professor sabia muito sobre história e economia da escravidão, mas sempre fazia questão de ressaltar os mecanismos da resistência a ela.

Bira foi uma das pessoas mais inteligentes que tive o prazer de conhecer em minha trajetória como jornalista. Entrevistá-lo era o mesmo que estar em uma aula de erudição. Mas  sua fala de historiador, formado em uma das mais importantes universidades do mundo, a Sorbonne, nada tinha de arrogância intelectual.

Teorias e análises ganhavam cor, sabor e multifaces. Qualquer conceito complexo tinha nome de gente do povo e de elemento da cultura baiana facilmente absorvido pelo ouvinte. E tudo com muito bom humor. E faço questão de frisar isso não para ser entendido como estereótipo. E nem poderia, pois o humor de Bira Gordo era fino, sagaz e tinha uma certa malícia na medida certa.

Quando nos encontrávamos ele jamais esquecia o apelido que o professor Albergaria inventou por conta da minha predileção pela cor rosa: Afro Barbie. Depois da minha obrigação religiosa ele passou a me chamar apenas de “iaô”. Após a saudação era o momento de me dar uma informação preciosa, sempre em defesa do povo negro.

Numa hora, o objetivo era destacar a participação negra na Guerra da Independência ou porquê o caboclo e a cabocla são tão importantes. Em relação a essa última ele me dizia que guardava uma certa má vontade: “É que ela foi feita para representar Catarina Paraguaçu e tirar de cena o caboclo que representava o povão”, completava.

Em outra era para entender porquê estavam querendo expor de novo, no acervo do Instituto Médico Legal Nina Rodigues, as peças de candomblé, capturadas no período da perseguição religiosa. Após a ligação em que expliquei o que estava apurando para uma matéria, o professor, como presidente da Fundação Pedro Calmon, foi um dos protagonistas da ação que levou o governo a não permitir a exposição e doar o acervo ao museu da Ufba.

Jamais vou esquecer uma aula que ele deu no Teatro XVIII sobre História da Bahia. Eu estava lá como repórter de um especial sobre o 2 de Julho porque o tema da aula era o mesmo de uma matéria que ia fazer para o caderno. Foram duas horas de palestra para uma plateia formada por jovens de 15 a 17 anos que ouviram atentamente sem sair da sala ou fazer barulho. Era uma amostra do seu dom de cativar o ouvinte.

E os artigos? Sempre que a gente pedia, ele atendia . Às vezes a gente abusava, mesmo sabendo que ele estava ocupado, mas o professor dava um jeitinho e mandava o texto. Um dos mais interessantes foi o artigo em que ele contou sobre a sua experiência como Rei Momo aos sete anos. Foi para a primeira edição da nossa cobertura especial de Carnaval inspirada em O Papão há nove anos. Assim que recebi o texto comecei a rir. Liguei para ele e rimos mais. Liguei para Albergaria e voltamos a gargalhar.

E o conto que inclui o  livro Sete Histórias de Negro sobre como uma das suas tias é salva da fome por uma festa de Omolu? Até hoje brinco com alguns amigos sobre o Departamento de Investigação da Vida Alheia (Diva) que ele cita no texto simplesmente delicioso.

É, portanto, caso de realmente sentir muita saudade. Mas o que a ameniza um pouco é perceber que o professor Bira é alguém que a gente sempre vai lembrar dessa forma: com leveza e ciência das lições que ele deixou. Que Olorum o tenha em boa paz! Axé!


Balaio de Ideias: Obrigado Ebomi Cidália!

postado por Cleidiana Ramos @ 7:16 PM
23 de março de 2012

Tata Anselmo faz homenagem a Ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag. A TARDE/19.10.2007

Taata dya Nkisi Anselmo Santos Minatojy

Cheguei do funeral de Ebomi Cidália de Iroko com vários questionamentos em mente que me instigam e fazem procurar algum sentido para aqueles pensamentos que insistem em inquietar nossa alma.

A morte tem esse poder de mexer com sua visão de mundo e automaticamente você procura diversas formas de se melhorar enquanto pessoa, pois seu tempo chegará e afinal o que você deveria ter feito que não fez?

Fiquei embasbacado com a quantidade de adeptos do Candomblé que se fizeram presentes para se despedir de Ebomi Cidália. Consegui ver desde respeitados Candomblecistas que desenvolvem um trabalho religioso de vulto e que visa manter e preservar nossa tradição pensando no futuro até alguns pertencentes à nova geração do Candomblé que infelizmente não tem compromisso com a tradição nem com a preservação da mesma, pois são imediatistas, porém, de qualquer maneira fizeram questão de assistir e prestigiar a dignidade de uma senhora que só contribuiu para a valorização do Candomblé.

A minha esperança no futuro do Candomblé está em acreditar que hoje nossa ancestralidade recebendo o reforço de Ebomi Cidália ficará mais fortalecida e certamente com maior poder de iluminar a uma legião de incautos (as), que muitas vezes acabam se equivocando por falta de conhecimentos necessários para contribuir com a difusão de forma mais digna do nosso Candomblé.

Quando você percebe que algumas pessoas vão trocar a benção com você empurrando a mão para sua boca sem nem mesmo lembrar-se do papel hierárquico que representa, preocupe-se, pois esta pessoa esqueceu que a benção é excelente para quem recebe, mas muito significativa também para quem as põe, pois nós apenas representamos nossa divindade nesta terra.

Infelizmente muitas celebridades do Candomblé que se consideram mais divinas do que as próprias divindades para as quais foram consagradas (os) não se deram ao trabalho de acompanhar de perto um adeus poético, digno e tão respeitoso, simplesmente por que não chamariam mais atenção do que quem estava ali para ser sepultada. Desta forma sempre existem compromissos inadiáveis ou resguardos preponderantes que impedem esta interação tão importante e necessária para com a nossa ancestralidade.

O que me conforta é que os Orixás são sábios e benevolentes, pois colocam num determinado local aqueles que realmente são necessários naquele momento, repare que digo necessários e não importantes, pois aos olhos dos Orixás importantes somos todos nós.

Pude perceber o festival de roupas e adereços mirabolantes, porém seus usuários (as) sem nenhuma emoção que nos levasse a perceber que ali estava existindo pelo menos um sentimento de perda.

Poderia levar horas relatando tudo que vi e que me inquietou enquanto povo de santo, Candomblecista convicto e Zelador de Santo, porém a grandeza do Orixá só me permitiu ver as coisas boas edificadas por Ebomi Cidália em sua longa trajetória nesta vida e para nossa glória dentro do Candomblé.

Que o Orixá Iroko tenha lhe tomado as mãos e lhe acolhido em nossa ancestralidade permitindo que sua intensa luz recaia sobre nós que ainda estamos militando com a árdua missão de ver exterminado o racismo, o preconceito e combatendo veementemente a vulgarização de nossas tradições afro-brasileiras que tanto suor e sangue foram consumidos para chegarmos até aqui.

Por isso, dedico um solene OBRIGADO a Ebomi Cidália Soledade:

- Pela humildade que sempre esteve presente em suas atitudes sem jamais permitir ser humilhada;

- Pela sabedoria com que socializou seus conhecimentos religiosos sem em nenhum momento macular os segredos do Candomblé;

- Pelo exemplo de persistência e generosidade, quando, mesmo com dificuldade de locomoção, comparecia aos eventos dando sua brilhante contribuição e nos fazendo orgulhosos de saber que se fossemos esforçados também poderíamos contribuir sempre com a nossa causa;

- Pelo amor que inspirou nas pessoas que tiveram o privilégio de conviver com a senhora;

- Por deixar marcado em nossos corações que a fé no Orixá, o respeito, a humildade e a persistência acabam nos levando a cumprir melhor nossa missão.

Além de todas estas citações, gostaria de agradecer a Ebomi Cidália péla lágrima sentida que vi rolar do rosto de Ebomi Nice de Inhasã ao desabafar comigo e com a Ebomi Vanda Machado de Oxum:

- “E agora, como vou ficar? eu falava com ela todos os dias ao telefone…”

OBRIGADO EBOMI CIDÁLIA, por tudo que a senhora fez enquanto estava entre nós e por tudo que acredito que a senhora fará como nossa ancestral.

Taata dya Nkisi Anselmo Santos Minatojy Terreiro Mokambo (Onzo Nguzo za Nkisi Dandalunda ye Tempo)


Candomblé se despede de Ebomi Cidália

postado por Cleidiana Ramos @ 6:25 PM
22 de março de 2012

Sepultamento aconteceu, ontem, no Jardim da Saudade. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE

Meire Oliveira

Sabedoria, dignidade, carisma e doação. Estas foram as características da ebomi Cidália Soledade, 82 anos, destacadas e repetidas pelas pessoas que compareceram ao seu  sepultamento ocorrido na tarde de ontem no cemitério Jardim da Saudade.

“Fica um vácuo. A capacidade que ela tinha de socializar sua sabedoria não se adquire. A  pessoa nasce assim. Iroko teve uma filha à sua altura. Só podemos agradecer  e pedir que essa luz continue a nos orientar”, disse o tata de inquice Anselmo Santos, o mais alto sacerdote do  Terreiro Mokambo.  O vasto conhecimento religioso fez dela uma referência sempre que era necessária uma tomada de decisão ou esclarecimento sobre diversos assuntos.

 “Sempre estava disposta para orientar. Na última vez que a encontrei foi quando precisávamos definir sobre as peças de candomblé que estavam no IML. Mãe Cidália que nos ajudou a decidir como iríamos proceder”, contou a doutora em educação Vanda Machado, referindo-se às peças ligadas ao candomblé e à cultura afro-brasileira que, até 2010, estavam sob a guarda do Departamento de Polícia Técnica (DPT).
Homenagem
Religiosos de vários terreiros prestaram homenagem à filha de Iroko que foi consagrada, aos 7 anos de idade, por Mãe Menininha do Gantois. “Era acolhedora, um ombro amigo e gostava de passar as informações que tinha. Peço aos ancestrais que iluminem ainda mais o caminho dela”, disse ebomi Nice de Oyá do terreiro Casa Branca.

“Além da relevância pelo profundo nível de informação sobre o candomblé, ela sempre estava com mãe Stella participando das cerimônias do Afonjá”, afirmou o ogã José de Ribamar Feitosa, presidente da Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá.

Como explica o doutorando em história social e religioso do candomblé Jaime Sodré, a importância de ebomi Cidália contemplava toda a religião.

“Ela era a memória para toda a religião, dentro de qualquer casa, independentemente da nação. Era a guardiã de segredos que mantinham o padrão africano do culto. Sem contar a influência sobre a vida religiosa de uma infinidade de pessoas”, disse o autor do título Enciclopédia do Candomblé, que se tornou uma definição perfeita para ebomi Cidália.

“Agora ela vai escrever mais um capítulo perto de Olorum. Também ganhamos, pois ela continuará cuidando da gente”, completou Jaime Sodré, que é xicarangoma (sacerdote músico) do terreiro Tanuri Junçara e oloê (espécie de conselheiro ) do Bogum.

Afeto
“Falar de minha filha é falar de amor. Ela sempre tratou a religião com muita seriedade. E eu sempre fui muito feliz por Iroko ter me escolhido para cuidar dele. Ela sabia muito e ajudava vários terreiros na manutenção da essência do axé”, destacou a equede de Iroko Glicéria Vasconcelos, do Ilê Iyá Omin Asé Iyá Massê, mais conhecido como Terreiro do Gantois.

A lembrança do babalorixá Silvanilton da Mata, o Babá Pecê, é anterior  à trajetória religiosa. “Sempre fomos vizinhos. Ela me viu crescer, ajudou na minha criação e me incentivou quando assumi meu cargo. Com ela eu chorava, conversava, me consolava, desabafava e pedia orientação”, relatou.

Ebomi Cidália Soledade morreu, na manhã da última terça-feira, no Hospital Naval, situado no Comércio, por conta de complicações derivadas de um problema renal.


Saudades de Milton Santos

postado por Cleidiana Ramos @ 12:59 PM
24 de junho de 2011

Pessoal: hoje completam-se dez anos da morte do grande Milton Santos. Na edição de A TARDE tem matéria de Juliana Dias sobre o homem que revolucionou o conhecimento sobre geografia.


Mensagem do Terreiro São Jorge da Goméia

postado por Cleidiana Ramos @ 4:49 PM
14 de junho de 2011

Comunidade agradece solidariedade. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 13.04.2004

Pessoal: estou repassando abaixo um comunicado da comunidade do Terreiro São Jorge Filho da Goméia agradecendo o manifesto de solidariedade vindo dos mais variados cantos devido à passagem de plano do Tata Raimundo Kasutemi.

Como diz o texto, ele apenas deixou o plano físico para habitar em outras dimensões.

TERREIRO SÃO JORGE FILHO DA GOMÉIA
BLOCO AFRO BANKOMA

Prezado (a) Amigo (a)

Todos sabem a dor que neste momento estamos vivendo, pois Tata Kasutemi mais conhecido como Raimundo do Bankoma, dedicou à sua vida apontando vários caminhos para que a sua comunidade alcançasse condições básicas para a sua própria sobrevivência. Foi um guerreiro astuto e um grande estrategista na arte da busca incansável da oportunidade.

Idealizador incondicional das formas convencionais em defesa das lutas e batalhas frente à bandeira social em prol da nossa necessidade humana, expressada na vontade de ser gente reconhecida pelos nossos direitos. A voz de Tata Kasutemi ecoa a todo canto, emanada na certeza de uma contínua caminhada.

Hoje, nossos Muxima (corações) choram pela ausência física. Choram pela falta dessa alegria contagiante que soava em momentos felizes vividos por seu povo. Choram também porque foste um herói, e a morte de um herói deve ser chorada sim, ainda mais quando esse herói escolheu viver por amor e morrer em prol dele.

E é por esse comprometimento que reconhecemos os sentimentos dos amigos ao expressar a sua dor juntamente com a família do Terreiro São Jorge Filho da Goméia e Família Bankoma pela perda lastimável deste baluarte da cultura negra bantu.

E mais, é por esse sentimento é que nos manteremos coesos e firmes na certeza de dar continuidade a sua filosofia de vida, a sua visão de interpretação da vida cosmológica, dos embates contra a intolerância religiosa, das injustiças socioculturais e tantas outras impertinências atribuídas à comunidade tradicional.

Enfim, agradecemos a todos e todas pela palavra amiga e de conforto neste momento de profunda tristeza que passa o povo de Tata Kasutemi ou Raimundo do Bankoma. Porém esse sentimento nos fortalece e nos edifica na certeza dessa caminhada que Kasutemi apenas iniciou.

Os Ngomas do Terreiro São Jorge Filho da Goméia e os Tambores do Bloco Afro Bankoma rufam com um canto de paz reverenciando a chegada deste ilustre MESTRE ao plano espiritual que só os iluminados conseguem alcançar.
Muito Obrigada a todos e todas e a luta continua!

Eis as idealizações edificadas e/ou fortalecidas por Tata Kasutemi

Terreiro São Jorge Filho da Goméia
Associação São Jorge Filho da Goméia
Bloco Afro Bankoma
Ponto de Cultura Bankoma
Museu Comunitário Mãe Mirinha de Portão
Biblioteca Comunitária Mãe Mirinha de Portão (em implantação)
Kula Tecelagem – Núcleo de referência do Pano da Costa (em implantação)


Olodum está de luto

postado por Cleidiana Ramos @ 7:11 PM
13 de junho de 2011

O grupo cultural Olodum está de luto. Morreu hoje o compositor e ex-vocalista do grupo, Germano Meneguel. Cliquem aqui para ler a reportagem completa no Portal A TARDE Online.


Bahia perde Raimundo Kasutemi

postado por Cleidiana Ramos @ 4:35 PM
1 de junho de 2011

Raimundo Kasutemi era diretor do bloco afro Bankoma. Foto: Fernando Amorim | Ag. A TARDE|04.03.2011

Notícia triste, muito triste. Perdemos hoje o tata Raimundo Kasutemi, neto de Mãe Mirinha do Portão, do Terreiro São Jorge Filhos da Goméia, Casa que guardava a tradição de Joãzinho da Goméia, situada em Lauro de Freitas.

Além de um incansável militante pelo respeito à sua herança religiosa, Kasutemi batalhou em várias frentes pela preservação da cultura aliada ao combate às desigualdades sociais, principalmente através do bloco afro Bankoma.

A associação tem alcançando grande destaque no Carnaval de Salvador.

O Bankoma é a vitrine de várias outras iniciativas sociais do terreiro como as oficinas de tecelagem e dança e o memorial em homenagem a Mãe Mirinha.

Fica a solidariedade e desejo de força a toda a comunidade do São Jorge Filhos da Goméia,liderado por Mãe Lúcia.


Missa em memória de Abdias

postado por Cleidiana Ramos @ 3:00 PM
27 de maio de 2011

Missa faz homenagem a Abdias. Foto: Elói Corrêa | Ag. A TARDE| 30.02.2005

Na próxima segunda-feira, às 9 horas, na Igreja do Carmo, no Centro Histórico de Salvador, acontece a missa de sétimo dia em memória de Abdias do Nascimento.

A missa está sendo promovida pela Sepromi, Fundação Pedro Calmon, Semur e  Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.   É uma homenagem ao grande mestre que acaba de partir.


Homenagem a Abdias

postado por Cleidiana Ramos @ 5:24 PM
24 de maio de 2011

Acabo de ver que meu colega  Claudio Leal, de quem sou fã de carteirinha,  conseguiu o que me faltou: escreveu um texto e tanto sobre a morte de Abdias. Leal entrevistou Abdias para o caderno especial sobre a II Ciad publicado em A TARDE há cinco anos.

Depois, com Leal já atuando pela Terra Magazine, aconteceram várias outras entrevistas que renderam textos, sempre polêmicos, como gostava Abdias.   Cliquem aqui para conferir o belíssimo texto de Leal.


A despedida do grande Abdias

postado por Cleidiana Ramos @ 5:11 PM
24 de maio de 2011

Abdias Nascimento é um ícone da luta contra o racismo. Foto: Xando Pereira |Ag. A TARDE |13.11.2002.

Alguém já me disse que um acontecimento é importante quando você consegue lembrar exatamente o que estava fazendo naquele momento quando recebeu a notícia sobre ele.

Da mesma forma existem também pessoas que acionam essas lembranças. Uma delas é Abdias Nascimento. Nunca vou esquecer que estava numa sessão do V Encontro de Estudantes Africanos, na Faculdade de Economia da Ufba quando chegou a informação sobre a sua morte, na manhã de hoje.

Quem me falou, com toda a gentileza e cuidado peculiar aos filhos de Oxalá, foi o professor Jaime Sodré. Ele me chamou a um canto, preocupado em encontrar a melhor forma de abordar o assunto para a plateia.

A notícia só foi compartilhada após a leitura emocionada de um poema que o grande Limeira, um perfeito tradutor das emoções de uma alma descendente de africanos, compôs em homenagem a Abdias e Lelia Gonzalez.

A narrativa desta emoção coletiva foi a única forma que encontrei de tentar traduzir o que significa essa passagem de Abdias, pois produzir um texto sobre ele  está além da minha capacidade tanto informativa como de criação.

Basta pensar que este homem militou durante 80 anos pelo combate ao racismo em vertentes tão diversas como o teatro, a poesia e a política.

Acho que uma frase do professor Jaime resume tudo: ganhamos hoje mais alguém no plano ancestral para zelar por todos nós. Axé!


Bença enfoca o respeito aos mais velhos

postado por Cleidiana Ramos @ 3:27 PM
12 de maio de 2011

Bença, espetáculo do Bando de Teatro Olodum está de volta. Foto: João Meirelles | Divulgação

Pessoal, olha só que legal: a nova temporada de Bença, espetáculo do Bando de Teatro Olodum, está de volta às sextas e sábados, ate o dia 29, no Teatro Vila Velha. No domingo, o espetáculo vai contar com a participação de representantes do candomblé de nação jeje da Bahia e do Maranhão.

A sessão especial, marcada para as 17 horas, vai ter representantes do Seja Hundê, também conhecido como Roça do Ventura, localizado em Cachoeira e considerado um dos mais antigos terreiros do Brasil; do Bogum, situado em Salvador; e da tradicional Casa das Minas, que fica no Maranhão. As apresentações nas sextas e sábados começam às 20 horas.

Bença celebra os 20 anos do grupo e faz uma homenagem ao respeito que se deve ter aos mais velhos.

Os ingressos custam R$ 40 ( inteira) e R$ 20 ( meia) todos os dias. Os 50 primeiros ingressos, de cada sessão serão disponibilizados a R$ 15 (preço único).   A promoção é válida até 24 horas antes de cada espetáculo.

Instituições e escolas terão descontos na compra acima de 20 ingressos. Cada ingresso ficará no valor de R$ 15 (preço único). Contatos pelo telefone: 71 -3083-4607

E-mail: bando2@gmail.com

Blog: www.bandodeteatro.blogspot.com


Morre Mãe Noélia Talaké

postado por Cleidiana Ramos @ 10:58 AM
7 de maio de 2011

Mãe Noélia Talaké faleceu ontem. Sepultamento será hoje à tarde. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 14.08.2006

Hoje, logo depois de acordar, recebi um telefonema do vereador Gilmar Santiago com uma notícia muito triste: partiu para o mundo ancestral a nengua de inquice do Terreiro Mansu Dandalungua Cocuenza, Noélia Nascimento da Silva, de dijina Talaké.

Mãe Talaké era conhecida por liderar a luta da comunidade religosa para manter seu espaço ainda marcado pela presença de mata e fontes, uma preciosidade em dias de queda de braço com a especulação imobiliária. Foi e ainda é uma batalha árdua para os filhos e lideranças do Mansu, situado na Estrada Velha do Aeroporto.

Além disso, Mãe Talaké tinha uma voz belíssima. Era de arrepiar e emocionar o seu canto de louvor aos inquices e encantados.

Mãe Noélia estava internada no Hospital Português e faleceu ontem. O sepultamento será hoje, sábado, às 16 horas no Cemitério Bosque da Paz.


Homenagem à Nação Angola

postado por Cleidiana Ramos @ 11:41 AM
19 de outubro de 2010

Livro apresentação detalhes sobre a Nação Angolão Paquetan. Foto: Aristides Alves | Divulgação

Hoje temos, às 19 horas, no Museu Carlos Costa Pinto, Corredor da Vitória, um lançamento de um livro que promete marcar história: A Casa dos Olhos do Tempo que fala da Nação Angolan Paquetan.  O destaque da publicação é contar um aspecto da história do candomblé angola que tem tão poucos estudos disponíveis, apesar da sua importância e pioneirismo no candomblé.

Publicada com o apoio do Ministério da Cultura, via Fundação Cultural Palmares, e organizada pelo fotógrafo Aristides Alves, a obra traz artigo de Renato da Silveira sobre as origens do culto angola no Brasil; um assinado por mim que fala da história da família de santo do Terreirro Mutá Lambô ye Kaiongo; uma análise etnobotânica dos biólogos Aion Sereno Alves da Silva e Ana Paula de Sales A. Alencar, além de ilustrações do professor Marco Aurélio Damasceno.

Além disso, o livro tem um belíssimo ensaio fotográfico feito por Aristides Alves e informações sobre culinária, ferramentas sagradas e um CD que traz os cânticos da nação.

Amanhã tem mais celebração com a abertua da exposição fotográfica de Aristides sobre o Terreiro de Mutá Lambô ye Kaiongo. A exposição fica até o dia 20 de novembro e pode ser visitada de segunda a sábado, exceto na terça-feira, das 14h30 às 18 horas também no museu.

Na quinta-feira tem um seminário sobre a nação angola na Bahia a partir das 19h30 com a participação do Tata de Inquice Mutá Imê; Renato da Silveira, eu e Paula Barreto, diretora do Ceao e coordenadora do grupo de capoeira Nzinga.

Para saber mais sobre o livro, que terá distribuição gratuita, dêem uma olhada na edição do Caderno 2+ da edição de hoje de A TARDE que traz um artigo do jornalista e antropólogo Marlon Marcos.


Balaio de Ideias: Vivaldo, sabedor de coisas

postado por Cleidiana Ramos @ 8:21 PM
24 de setembro de 2010

Antropólogo celebra Vivaldo da Costa Lima, morto na última quarta-feira. Na imagem, Mestre Didi, Pierre Verger e Vivaldo. Foto: Arquivo| Ag. A TARDE

Cláudio  Pereira

Vivaldo era um homem laborioso. Ele sabia que “Deus está nos detalhes” e, por isto mesmo, em sua labuta foi um artesão minucioso.  Sua trajetória intelectual é impar. Nasceu em Feira de Santana, em 1925, foi jovem prodígio da odontologia, largou tudo e quis ser antropólogo, num tempo em que tornar-se isto requeria um gesto heróico.  Tornou-se, qual  Hamlet, como ele costumava dizer,  um “louco com método”, e disto nunca se arrependeu.

Também pudera sendo Vivaldo um homem dotado de uma memória extraordinária, aliada de uma inteligência sofisticada, diligente e crítica. A combinação disto, aliás, fez dele uma personalidade forte e digna, portadora de uma sinceridade desconcertante. Ninguém, assim, passava indiferente ao seu convívio, e sua presença era transformadora.

Vivaldo ensinou gerações de cientistas sociais. Sua definição do que era antropologia era ampla, geral e enigmática: “antropologia é tudo aquilo que a gente quiser chamar de antropologia”. E talvez seja, por isso mesmo, que  em suas mãos os livros corriam em um fluxo contínuo, caudal, eclético. Isto o tornava um sabedor de coisas, funcionário das palavras e da língua, fazedor de sínteses.  Enciclopédico inventor de sentidos, como os verdadeiros interpretes do mundo e do espírito dos tempos.

Vivaldo escreveu de maneira profícua. Não movido por um vago sentido banal de que escrever dá publicidade e notoriedade, mas certo de que as verdades bem ditas são econômicas, justas, exatas. A Família de Santo nos Candomblés da Bahia, por exemplo, é obra de posição impar na etnologia brasileira, o que o coloca como autor no patamar de Nina Rodrigues, Édison Carneiro e todos os grandes cientistas sociais brasileiros. E tão valiosos foram seus textos dispersos, no qual ele descortinou o mundo afro-brasileiro, debruçando-se sobre o candomblé, as línguas africanas, a religiosidade popular, a valor do negro na cultura nacional.  Sua contribuição intelectual através de suas obras e orientações acadêmicas alicerça as bases do mundo afro-baiano atual. Intérprete da cultura por excelência, se tornou seminal nesta cultura mesma.

Vivaldo era um mestre da conversação fluente. Com o mesmo élan com que dialogava com sacerdotes e sacerdotisas, anônimos ou famosos, do candomblé da Bahia, tornando-se protegido e protetor destes e destas, dialogava com sumidades do mundo intelectual moderno, com artistas, literatos e cientistas.

Curioso, Vivaldo explorou temas como quem desbrava continentes perdidos. Era astucioso ao inventar ideias. Tinha fome de leitura, sede de verdades. Tinha gosto por coisas insólitas, por assuntos desafiantes, pelo diferente só por ser diferente. Tinha obsessão por autores (queixava-se que no mundo hoje faltam leitores para Proust), por gêneros literários (consumia literatura policial com fervor), e tanto por coisas novas que podem ser ditas por serem novas, como por coisas que sendo antigas, precisam continuar a ser ditas.

Vivaldo foi amiúde um reformador social, e pretendeu construir mundos como quem sonha utopias. Arquitetou planos que, seguramente, não viu realizados. Foi cosmopolita e, como tal, sabia que mesmo o nosso pequeno mundo, esta província em que somos náufragos, se encontra em expansão inevitável em direção ao futuro.

Vivaldo foi obsequioso. Prova disto é que seus verdadeiros amigos eram amigos fiéis. Ele acreditava piamente na  generosidade, na reciprocidade e naquilo que vagamente podemos indicar como o “dom” humano. Por isso mesmo sofria com os tempos modernos, em que já não há mais a cortesia das relações pessoais, dos gestos desinteressados de simpatia, do gosto por aquilo que ele aprendeu como sendo as boas coisas da vida.

Vivaldo, nas últimas semanas, sabia também que “a mais indesejada das gentes”, como ele costuma falar da morte, evocando Bandeira, estava para chegar. Disse-me, divertido, em uma das nossas últimas conversas que ele seria absolvido pela providência divina por duas razões: era ele que, quando criança, conduzia de mãos dadas Irmã Dulce até o escritório do pai, Paulo Costa Lima, quando ela, mensalmente, passava na Fábrica da Jurubeba Leão do Norte para pegar as ofertas para suas obras de caridade; e, também, porque ele compartilhara, num congresso Eucarístico, do mesmo aposento do jovem Karol Wojtyla, que depois se tornaria o Papa João Paulo II. Vê-se como se torna doce a ironia contida na lógica da vida e da morte para um agnóstico convicto, como ele de fato era.

Com 85 anos bem vividos Vivaldo da Costa Lima se foi vitorioso na primeira manhã desta primavera.

Cláudio Pereira é doutor em antropologia e professor da Ufba


O Adeus ao Professor Vivaldo

postado por Cleidiana Ramos @ 7:32 PM
22 de setembro de 2010

O sepultamento do professor Vivaldo da Costa Lima foi realizado às 16h30 de hoje. O motivo da sua morte foi uma insuficiência cardio- respiratória e renal. Demorei para  fazer a atualização, pois estava escrevendo, com muita dificuldade, a matéria que será publicada na edição de amanhã do jornal   A TARDE.

Como disse Jeferson Bacelar: a Bahia ficou hoje menos inteligente.


Morre o professor Vivaldo da Costa Lima

postado por Cleidiana Ramos @ 10:26 AM
22 de setembro de 2010

Professor Vivaldo da Costa Lima foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros. Foto: Fernando Vivas|Ag. A TARDE| 11.09.2008

Um dos mais importantes antropólogos do Brasil, Vivaldo da Costa Lima, professor emérito da Ufba, faleceu na manhã de hoje. Ele estava internado na Fundação Baiana de Cardiologia e ainda não foi definido o horário do velório e do sepultamento.

O profesor Vivaldo é autor de clássicos sobre a cultura afro-brasileira, como O Conceito de Nação nos Candomblés da Bahia e A  Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia.

Além disso, o professor Vivaldo era um grande especialista em questões relacionadas à gastronomia afro-brasileira. Um dos seus últimos trabalhos foi um livro escrito a partir de conversas com a ialorixá Olga de Alaketu de quem foi compadre e amigo muito próximo, que ainda está no prelo.

Eu, particularmente, só o encontrei poucas vezes, mas já diálogavamos via as reportagens que eu escrevia no jornal e recados de amigos próximos.

Temia, sempre, a proximidade de uma entrevista, pois sempre soube da sua impaciência com jornalistas. Mas o encontro, que começou tenso, quando ele me perguntou se eu tinha tempo, cujo motivo só se revelou bem mais tarde, acabou rendendo uma da mais reveladoras e educativas conversas que já tive.

Poucas vezes, confesso, escrevo um texto de uma forma tão emocionada. Desculpem-me, mas o professor Vivaldo era daquelas pessoas que ao se encontrar uma vez não se esquece jamais.

Assim que tivermos mais informações vamos atualizando.


Educaxé: Ancestralidade na perspectiva da Educação

postado por Cleidiana Ramos @ 5:31 PM
27 de agosto de 2010

Jaime Sodré

Antes de nos dedicarmos a uma abordagem mais direcionada aos objetivos que seriam implementados no campo da educação, numa abordagem da africanidade, seria importante abordar a noção de ancestralidade, dentre outras, enquanto um conceito. Ancestral teria como definição básica “as pessoas de quem se descende”, ou seja, nossos ancestrais ou de forma mais simples os nossos antepassados do ponto de vista de uma linhagem biológica, num campo individualizado. Poderemos também aplicar este conceito levando em conta as contribuições materiais herdadas das realizações anteriores, mesmo sendo uma criação independente do pertencimento ao nosso grupo, ou seja, de aplicabilidade universal. Assim é que um invento aplicável à humanidade, sem restrição, fará parte de um repertório de um bem universal aplicável a todos os grupos de indivíduos.

Tem-se como ancestral da espécie humana o surgimento dos Australopitecos, espécie de hominídeos surgido na África no Vale do Rift, Lago Turkawa no Quênia; Garganta Olduai na Tanzânia, Haddar e Vale do Ouro na Etiópia, Taung, Makadansgat na África do Sul, dentre outros. Em um  conceito antropológico este antepassado será considerado pelos seus feitos, objeto de culto. Sua relação com os vivos pode ser resultado de uma genealogia real ou fictícia, digna de reverências, comemorações, transmissão e difusão dos seus feitos às gerações presente e futura.

A ancestralidade no campo do bem material pode ser vista como um patrimônio material e/ou espiritual, entendido como herança de um determinado grupo ou universal, que se perpetua enquanto memória concreta.

Para o africano, o ancestral será um elemento venerado que deixara uma herança espiritual sobre a terra, contribuindo para a evolução da comunidade ao longo da sua existência, e pelos seus feitos é tomado como referencia ou exemplo. Este conceito se alonga à concepção de ações, métodos e instrumentos que proporcionaria vantagens materiais.

A ancestralidade na Educação como meio de transmissão do saber tem como suporte a tradição oral; a tradição escrita; a tradição histórica; o repertório de mitos e lendas; aspectos linguisticos; o campo do lúdico; parlendas; o campo musical; o campo das artes, etc. Em resumo: a ancestralidade na educação atuará no campo da memória individulal ou coletiva.

Ancestralidade e Repertório Temático

Para efeito de sugestões, quanto a ações práticas da Ancestralidade na Educação listamos a seguir o que chamamos de Repertório Temático, elemento que poderá servir de apoio para um planejamento e aplicação em sala de aula.

1. Ancestralidade Cultural Africana- Objetiva informar sobre a diversidade étnica e lingüística africana e destacar os grupos que interagiram com a realidade brasileira, a exemplo dos yorubá, banto e ewe.

2. Ancestralidade e Arte Africana- Destacar o amplo repertório da realização artística africana, sua inserção no cenário mundial inspiradora do cubismo, dentre outras manifestações artísticas; sua continuidade na diáspora, especialmente no Brasil, como estruturante de uma arte afro-brasileira.

3. Ancestralidade e Resistência- Enfocar os aspectos dos processos de resistência dos povos africanos aos processos de colonização desde a África, em especial as lutas contra a escravatura e os quilombos.

4. Ancestralidade e Assistência- Observar as diversas formas de ajuda mútuas experimentadas pelos povos africanos, em especial no regime escravo, tendo com ênfase a Sociedade Protetora dos Desvalidos, sediada em Salvador.

5. Ancestralidade Estética- Observar os diversos arranjos corporais, adereços, vestimentas, trançados, etc., reveladores de uma estética africana, amparada no seu bom gosto estético e particular.

6. Ancestralidade Religiosa-  Observar a diversidade religiosa africana e as suas conseqüências sobre as mais diversas experiências de fé naquele continente, conflitos e acordos, e a sua aplicação na diáspora em especial, em relação ao Candomblé, Voduns etc. Com destaque para uma observação critica quanto a Intolerância Religiosa.

7. Ancestralidade Musical- Observar as mais diversas formas de expressão musical e dança na África e sua aplicação no contexto da diáspora como continuidade e inspiração.

8. Ancestralidade Católica- Observar a atuação da Igreja Católica no âmbito da África e na diáspora suas formas particulares, as irmandades negras, o sincretismo e formas de convivências e conflitos.

9. Ancestralidade Científica, Tecnológica e Filosófica- Destacar as personalidades negras que contribuíram e contribuem para o processo civilizatório brasileiro e mundial, no campo da ciência, tecnologia e filosofia como referencia ao aluno da possibilidade de atuação nestes campos. Ex. André Rebouças, Milton Santos, etc.

10. Ancestralidade Heróica-Destacar personalidades negras como agentes de ações históricas importantes no campo dos conflitos locais e mundiais a exemplo de João Candido, “O Almirante Negro” da Revolta da Chibata;  Maria Filipa, nas ações do 2 de Julho,  Rainha Nzinga de Mutamba, etc.

11. Ancestralidade Política- Destacar personagens e situações onde se revela o empenho de personalidades negras em busca de ideais democráticos e libertários a exemplo da Revolta dos Alfaiates, Sabinada, Guerra dos Farrapos, Cabanagem, Balaiada, Quilombo dos Palmares, etc. Mulheres como Almerinda Gama, primeira deputada estadual negra; Antonieta Barros, Maria Brandão, Benedita da Silva, etc.

12. Ancestralidade Guerreira- Destaque para a Guerra do Paraguai e para os atos de bravura de Cesário alves da Costa, herói do Forte de Curuzu, promovido a sargento; Antonio Francisco Melo, que se destacou na Marinha, na Batalha de  Riachuelo e chegou a capitão; o seu batalhão era formado só por negros; Marcilo Dias, um bravo, foi ferido e morto na Batalha de Riachuelo ao negar a rendição do seu barco, O Paranhayba.

13.Ancestralidade Negróide e Australianos- Os cientistas fizeram uma reconstituição do crânio fóssil mais antigo das Américas, encontrado em Lagoa Santa, Minas Gerais, por uma expedição franco-brasileira em 1975, Perceberam que os traços eram semelhantes aos povos negróides e australianos.

14. Ancestralidade Feminina Guerreira- Nzinga Mbandi Ngola, Rainha Ginga, foi batizada no catolicismo com o nome de Ana de Souza. Seu nome Ngola fora usado pelos portugueses para nomear uma região na África com o nome de Angola. Era contra a escravatura, ao contrario do rei do Congo. Após a sua morte os seus soldados foram vendidos como escravos.

Saiba mais:

África e Brasil Africano – Marina de Mello e Souza- Editora Ática

Atlas Brasileiros- Cultura Popular – Raul Lody- Editora Maianga

História do Brasil- Os 500 anos no País em Obra Completa e Atualizada- Folha de S. Paulo

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religiso do candomblé


Educaxé está de volta

postado por Cleidiana Ramos @ 5:30 PM
27 de agosto de 2010

O Educaxé, realizado pelo professor Jaime Sodré, está de volta ao Mundo Afro. Estava à espera de um tempinho  na agitada agenda do professor para pedir o retorno do projeto.

A iniciativa, cuja ideia foi dele, é direcionada especialmente aos professores para servir como material didático para aplicação da Lei 11.645/08, novo número da que é mais conhecida como 10.639/03, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. A modificação foi para incluir também História e Cultura indígenas.


Balaio de Ideias: Sabor dos saberes

postado por Cleidiana Ramos @ 2:11 PM
23 de agosto de 2010

Professor sugere criação de roteiro gastronômico e cultural. Foto: Eduardo Martins| AG. A TARDE

Jaime Sodré

Perguntado sobre a capoeira Mestre Pastinha disse: “É tudo que a boca come”, ou seja, é PRAZER. COMER É SABOR E SABER. Dr. Carlos Costa Neto, brilhante humanista, amigo comum do Dr. Eraldo Moura Costa, bons de garfo: disse-me: “há coisa mais gostosa que comer?” Pois é, no 1º Seminário Nacional de Turismo Étnico Afro e 1ª Feira da Produção Associada ao Turismo Étnico Afro, realizado este mês no Centro de Convenções da Bahia, promovido pela Bahiatursa, abordei o nosso projeto de culinária nos terreiros, com a boca “cheia d’água” e a qualificada contribuição acadêmica do Prof. Dr. Vilson Caetano. Louvo neste momento o Professor Doutor Vivaldo da Costa Lima, o “Pai da Matéria”.

Pensar o turismo étnico, neste caso afro, exige uma postura de inclusão e valorização das populações afrodescendentes brasileiras, em especial na Bahia e Recôncavo baiano. Como prova de reconhecimento desta valorosa contribuição cultural, esta modalidade turística poderá ser a motivação primordial para a profissionalização, roteiros qualificados, sustentáveis, com preparação para atender a demanda dos prestadores de serviços, além de gerar emprego e renda, enfim preservar a cultura, dentro da sua dinâmica própria, difundir e gerar conhecimentos e uma boa imagem da saborosa Bahia. O nosso projeto teve o nome de “Um Sabor Sacrossanto – a culinária Afro-Baiana”. Permitam-me breve introdução. Culinária baiana seria aquela localizada no Recôncavo e litoral, caracterizada, principalmente, pelo azeite de dendê, leite de coco, pimenta, etc.

Saboreada em comemorações religiosas, familiares, ou no cotidiano. Quanto ao preparo e preservação podemos estabelecer a dicotomia dentro e fora dos terreiros. Modernamente diríamos que esses pratos dialogam com a contribuição indígena e portuguesa. O processo de institucionalizações dos terreiros brinda com a sistematização das receitas e preservação, na obrigação religiosa, indo ao cotidiano. A fé e o sabor encontram harmonia em diversas opções religiosas, como é o caso dos sequilhos do Convento da Lapa e os deliciosos licores do Desterro. O turismo e o candomblé tiveram alguns momentos de conflitos e hoje se busca uma interação respeitosa, inclusive através dos parâmetros estabelecidos por Mãe Stela, regulando esta proximidade, que seja respeitosa, isenta de folclorização e exotismo.

Afinal, somos uma religião. Do Ponto de vista histórico Luis dos Santos Vilhena, falando sobre “as comidas de rua do século XVIII” nomeia: “saem… negros a vender pelas ruas, mocotós, carurus, vatapás, mingaus, pamonha, canjicas… acaçá acarajés, abara, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão-de-ló… roletes de cana, queimados…”, cruel, diz Vilhena, “o que mais escandaliza é a água suja feita com mel…que chamam aluá, que faz de limonada para os negros”.
Afrânio Peixoto, mais generoso, diz ser a Bahia um feliz consorcio entre o melhor de Portugal, da Costa da África e “o pouca coisa do Índio”. O negro brindou a cozinha baiana com o dendê, leite de coco, colorindo e saboreando o cotidiano, ensinou o vatapá, o caruru, mungunzá, etc. Nosso projeto tenciona aproximar o visitante aos sabores sagrados dos deuses, os permitidos, associados a um cardápio mais amplo das especificidades baianas.

O visitante, nos espaços sociais dos terreiros, através da formação de interlocutores da comunidade religiosa, saberá da história e apreciará a sua culinária. Para êxito do projeto a Bahiatursa, através da sua competência, realizará capacitação, adequação das instalações com equipamentos, capital de giro, indumentária, intermediação com as agências credenciadas ou guias de turismo e selo de qualidade.

Um roteiro sugestivo foi exibido, tomando com referência o bairro da Federação. O circuito seria iniciado com um café da manhã em um terreiro, merenda das 10 em outro, almoço em outro, merenda das 15 em outro, mingaus e uma sessão de chás, digestivos ou não, em outros.  Um cafezinho será bem vindo. No mais, o resultado é  um bom apetite e conhecimento ampliado. Ah, para a sobremesa… Picolé Capelinha, coisas com a cara da  Bahia. Um aviso aos acolhedores: Dr. Costa Neto disse que posso comer feijão fradinho, mas controlado. Acabou a “quizila”. SALVE O PRAZER.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Festa para Ebomi Cidália de Iroko

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
21 de agosto de 2010

Homenagem aos 80 anos de Ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro|Ag.A TARDE|19.10.2007

Dia emocionante ontem. Com o professor Jaime Sodré á frente, fizemos uma homeangem aos 80 anos de nascimento de Ebomi Cidália Soledade.

O anfitrião da homeangem foi o Terreiro Oxumarê. Na parte da manhã, ela teve um encontro comigo e mais três jornalistas: Juliana Dias, Marlon Marcos e Meire Oliveira. Foi uma delícia o bate-papo, com histórias fantásticas. Falamos da sua infância, juventude e também, claro, de candomblé.

Na parte da tarde, autoridades de vários terreiros deram o seu depoimento sobre a que é considerada “A Enciclopédia da Bahia”. Enfim, uma homenagem linda e merecida que está apenas na sua primeira parte.

O resultado desse dia fantástico, por exemplo,  logo, logo vai ser publicado. A espera vai valer a pena.


A bela festa da Boa Morte começa amanhã

postado por Cleidiana Ramos @ 9:45 PM
12 de agosto de 2010

A festa de Nossa Senhora da Boa Morte vai até terça-feira em Cachoeira. Foto: Xando Pereira|Ag. A TARDE|15.8.2003

Amanhã, todos os caminhos levam à bela e histórica Cachoeira para a abertura dos festejos de Nossa Senhora da Boa Morte.

A irmandade, símbolo da resistência e do brio de mulheres negras, muitas das quais nascidas escravas e que ascenderam socialmente e compraram a liberdade com muito trabalho, a ponto de ostentar esta conquista nas vestes e joias que envergam, nasceu na Igreja da Barroquinha em Salvador, em meados do século XIX.

Porque a irmandade foi para a Cachoeria não se sabe ao certo. Alguns apostam em que elas decidiram proteger o culto católico visível, mas que também e, principalmente, envolve saberes ancestrais de origem africana, da perseguição que se abateu sobre os africanos e seus descendentes após a rebelião dos malês ocorrida na capital baiana em 1835.

Cachoeira se tornou então a sede dessa bela história de uma festa organizada e preservada por uma confraria de mulheres com critérios especiais, como o de ser aceita apenas na maturidade pós 40 anos.

Sabe-se muito da parte católica da festa que é a celebração da dormição, pois segundo a tradição católica, Maria apenas adormeceu enquanto se preparava a assunção do seu corpo e alma aos céus. É a lógica da teologia, afinal o corpo que carregou o próprio Deus encarnado não poderia ser decomposto como acontece com todas as mulheres e homens comuns.

A relembrar essa tradição, as irmãs também rezam para que elas e todos tenham uma “boa morte”, uma aspiração ainda mais desejada em tempos de tanta violência e desrespeito pela vida humana.

Da parte do candomblé que está envolvida na festa não se sabe quase nada, pois segredo é um dos princípios básicos desta confraria. Mas a importância do que se guarda é infinita, afinal entre as irmãs estão ocupantes da alta hierarquia do candomblé baiano.

Até a próxima terça-feira, pois após a festa do domingo ainda tem samba de roda e distribuição de comida, afinal a generosidade é uma marca do povo de santo, Cachoeira estará cheia de turistas novos e outros que retornam, pois é difícil resistir a tanto encanto e brilho.

Sinto, devido a várias circunstâncias, não poder presenciar esta edição da festa na minha Cachoeira natal e que, além do seu belo casario e as mágicas águas do Paraguaçu reúne tantas outras preciosidades: a sabedoria dos ogãs Boboso e Bernardino do Seja Hundé ou Roça do Ventura; a herança da força de Gaiaku Luiza; a resistência da Lira e da Minerva cachoeiranas; a beleza da Ponte Dom Pedro II e da estação ferroviária.

Para quem vai estar lá vale a pena brigar para achar um lugarzinho no que conheço como “restaurante do português”, ali bem pertinho do porto ou dar uma esticadinha até a Pousada Paraguaçu em São Félix, onde até hoje me intriga o filé de pititinga presente no cardápio, mas que não consegui provar pois estive lá durante a baixa estação do pescado.

Quem for retornar para Salvador pode dar uma passadinha em São Brás (no meio do caminho entre Cachoeira e Santo Amaro)  onde tem um restaurante com uma comida baiana deliciosa. Mas claro que essas sugestões culinárias só valem para quem não puder esperar a disribuição da comida preparada pela irmandade ou para os horários alternativos.

Vale, antes de conferir a programação da festa aí abaixo, dar uma olhada no blog do professor Cacau Nascimento, especialista na história e antropologia da Irmandade. Cliquem aqui para acessá-lo.

Agora, vejam a programação da festa:

Dia 13/08 – Sexta-feira
18h – Cortejo anunciando a morte de Maria
19h – Missa pelas almas das irmãs falecidas
21h – Sentinela, Ceia Branca na sede da Irmandade

Dia 14/08 – Sábado
19h – Missa simbólica de Corpo Presente de Nossa Senhora da Boa Morte e procissão do enterro..

Dia 15/08 – Domingo
09h – Missa festiva da assunção da Nossa Senhora da Glória seguida de procissão
12h – Almoço das irmãs e convidados, na sede da Irmandade.
14h – Samba de roda no Largo da Ajuda

Dia 16/08- Segunda-feira
20h – Cozido – seguido de samba-de-roda no Largo d’ Ajuda

Dia 17/08 – Terça-feira
20h – Caruru – seguido de samba de roda no Largo d’Ajuda


Salvador recebe exposição sobre culto aos voduns

postado por Cleidiana Ramos @ 3:12 PM
3 de agosto de 2010

Casa do Benim recebe exposição sobre culto aos voduns na África e no Brasil. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Na quinta-feira, às 19 horas, estará aberta na Casa do Benin (Pelourinho), a exposição Zeladores de Voduns. A mostra é composta de imagens  feitas pelo fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos.

As fotografias exibem os templos religiosos do Benin e do Maranhão, com ênfase na Casa das Minas. O trabalho de Vasconcelos teve o apoio do doutor em antropologia e professor da Universidade Federal de Sergipe,  Hippolyte Brice Sogbossi.

A principal proposta do trabalho de Vasconcelos é  mostrar a atual situação dos templos religiosos e seus sacerdotes tanto no Benin como no Maranhão.

Lá foram visitadas as cidades de Cotonou, Abomey, Allada, Uidá, Calavi e Porto Novo. O projeto venceu o edital de apoio à Produção Cltural da Secretaria de Cultura do Maranhão e também ganhou o 1º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras.


Afro Imagem: Homenagem a Mãe Aninha

postado por Cleidiana Ramos @ 2:25 PM
31 de julho de 2010

Dentre as atividades de comemoração dos 100 anos do Ilê Axé Opô Afonjá, que vão até amanhã, aconteceu a inauguração do busto de Mãe Aninha, fundadora do terreiro. No clique do repórter fotográfico Fernando Vivas, da Agência A TARDE, Mãe Stella contempla a escultura em homenagem à primeira ialorixá do Afonjá.


Assembleia de sacerdotes negros divulga carta

postado por Cleidiana Ramos @ 7:48 AM
31 de julho de 2010

A obra de Aleijadinho foi uma das discutidas durante o encontro. Foto: Reprodução do livro Arte Brasil| AG. A TARDE

Em mais uma contribuição do frei Róger, transcrevo abaixo a carta da 22ª Assembleia de Bispos, Padres e Diáconos Negros. O encontro, encerrado ontem, ocorreu em São João Del Rei, Minas Gerais, e discutiu, principalmente, a contribuição dos artistas negros para a chamada arte sacra brasileira.

A referência foi o Estado de Minas. A assembéia foi uma promoção do Instituto Mariama (IMA). 

 
Mensagem da 22ª Assembleia do IMA

Nós, bispos, presbíteros e diáconos do Instituto Mariama, reunidos na XXII assembleia, em São João Del Rei, nos dias 26 a 30 de julho do corrente ano, refletimos sobre a contribuição dos nossos Antepassados na arte-sacra, a partir de Minas Gerais.

Num clima de intensa fraternidade e partilha, com irmãos vindos dos mais diferentes Estados do Brasil, trouxemos inquietações a respeito da causa do nosso povo negro e da postura do presbítero negro em meio a esta realidade tão desafiadora. Faz parte da opção que fizemos, como Igreja, identificarmo-nos com a realidade do nosso povo, fazendo valer direitos, superando preconceitos e promovendo a vida. Assim acreditamos contribuir na construção de uma sociedade mais justa e solidária, sinal do Reino de Deus.

O professor, historiador e especialista em arte sacra, Antonio Gaio Sobrinho, em sua brilhante reflexão, nos ajudou a perceber que, embora não seja tarefa muito fácil encontrar referências documentais sobre a contribuição dos negros na arte sacra, sabemos que trouxeram da África técnicas, habilidades, saberes e conhecimentos artísticos, que aqui foram utilizados e ressignificados. Muitos negros e mulatos se distinguiram como mestres em diferentes artes. Citamos: Aleijadinho, Aniceto de Sousa Lopes, Venâncio do Espírito Santo, João da Mata, Ireno Batista Lopes, Luiz Batista Lopes, Monoel Dias de Oliveira e Pe. José Maria Xavier. Isso leva a crer que, mesmo diante do ocultamento histórico, os artistas negros conseguiram imprimir seus traços no embelezamento e na riqueza cultural e religiosa do nosso país.

Sobre isso, vale lembrar o que disse o saudoso papa João Paulo II, escrevendo aos artistas em 1999: “Através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a história da arte não é apenas uma história de obras, mas também de seres humanos. As obras de arte falam dos seus autores, dão a conhecer o seu íntimo e revelam a contribuição original que eles oferecem à história da cultura”.

A espiritualidade do encontro nos levou a participar na vida das comunidades que nos acolhiam e, assim, auxiliados por D. Zanoni, e pelo Documento de Aparecida, aprofundamos a dimensão da missionariedade, no desejo de crescermos na comunhão e na participação em uma Igreja, chamada a deixar a pastoral da conservação para ir ao encontro das pessoas em sua realidade concreta. Este passo deve ser dado a partir do reencantamento com a pessoa de Jesus Cristo, como seus verdadeiros discípulos missionários.

Não podemos deixar de registrar a grande perda que tivemos recentemente, com o falecimento dos nossos quilombolas, Pe. Getúlio, liturgista, e Pe. Antônio Aparecido da Silva (Pe. Toninho), grande incentivador da caminhada da pastoral afro e co-fundador do Instituto Mariama. Teólogo de grandeza que, com sua simpatia e simplicidade, nos ajudou na construção de um pensar teológico negro. Ecoa em nossos corações um de seus dizeres: “sozinhos, morremos, juntos viveremos”.

Bendizemos ao Deus da vida, Criador de todas as coisas, pelo testemunho de tantos negros e negras, que investem o melhor de suas forças para maior dinamicidade na evangelização da Igreja. Diante de forças que negam vida plena aos negros e negras na sociedade, nós ministros ordenados, na medida em que assumimos, com consciência, a nossa negritude, explicitamos melhor a identidade da nossa Igreja, marcada, desde o seu nascimento, pela diversidade cultural, num discipulado reparador, missionário e dialogante. Fazemos isto iluminados pelo Documento de Aparecida, que afirma: “A Igreja, com a sua pregação, vida sacramental e pastoral, precisará ajudar para que as feridas culturais injustamente sofridas na história dos afro-americanos, não absorvam nem paralisem, a partir do seu interior, o dinamismo de sua personalidade humana, de sua identidade étnica, de sua memória cultural, de seu desenvolvimento social nos novos cenários que se apresentam” (DAp, n. 533).

Sob a proteção da Negra Mariama, convidamos a todos para o próximo encontro na diocese de São Mateus – Espírito Santo, de 25 a 29 de julho.

Com a força e inspiração do Espírito Santo!

Instituto Mariama.

Fonte: site da CNBB
 


Festa dupla na capital: Steve Biko e 100 anos do Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 4:48 PM
30 de julho de 2010

Tuma de uma das ações da Steve Biko que está comemorando 18 anos. Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE 2.8.2004

Festa dupla hoje na capital baiana. Além do início das comemorações pelo centenário do Ilê Axé Opô Afonjá (cliquem aqui para conferir a programação) tem a comemoração do  aniversário de 18 anos do Instituto Steve Biko.

Vejam como o tempo passa rápido. Os “bikudos”, como são carinhosamente chamados os integrantes do instituto, já chegaram à maioridade, com um trabalho que merece todas as homenagens possíveis. Até agora cerca de mil estudantes que passaram pelo curso pré-vestibular gratuito do Steve Biko estão na universidade.

A programação de aniversário começa hoje com um seminário no auditório da Biblioteca Pública dos Barris, a partir das 18 horas. O encontro terá a participação de Ceres Santos, Geri Augusto, Edenice Santana e dos Talentos Bikud@s.

Amanhã, sábado, na Praça Tereza Batista no Pelourinho, a partir das 16 horas, tem Talentos Bikud@s, Os Negões, DJ Sankofa, RBF, Afro Jhow, Didá, Aloísio Menezes, Juliana Ribeiro, Grupo Aro 7 e Lazzo Matumbi. Festa show de bola, como o Instituto Steve Biko merece.


Centenário da Casa de Xangô

postado por Cleidiana Ramos @ 1:06 PM
28 de julho de 2010

Mãe Stella coordena as comemorações do centenário do Afonjá. Foto: Diego Mascarenhas| Ag. A TARDE

Essa semana, o Ilê Axé Opô Afonjá realiza uma série de atividades para comemorar o seu centenário. A programação começa na sexta-feira, a partir das 19 horas, é aberta, mas pede-se traje branco. Os eventos acontecerão no barracão de festas do terreiro.

Confiram abaixo as atividaes programadas:

Sexta-Feira, dia 30:

19h- Saudação à Casa: Alabês do Terreiro
19h20- Composição da Mesa de Abertura do Evento: Mãe Stella de Oxóssi e ogã José de Ribamar Feitosa Daniel, presidente da Sociedade Cruz Santo do Axé Opô Afonjá.
20h-Performance do dançarino e coreógrafo norte-americano Clyde Morgan.
20h30- Lançamento de selo personalizado e carimbo pelos Correios.
21h- Apresentação do afoxé Filhos de Gandhy e convidados.

Sábado, dia 31
8h- Inscrição e entrega de material aos participantes
9h- Saudação ritual aos ancestrais e inauguração do busto de Mãe Aninha
9h30-Saudação à Casa e boas vindas
9h40- Mesa Redonda: As Ialorixás do Ilê Axe Opô Afonjá
Mediadora: Professora Yeda Pessoa de Castro
Palestra: Mãe Aninha
Palestrante: Obá Muniz Sodré
Palestra: Tia Cantu- Iyá Egbe do Ase
Palestrante: Babalorixá Bira de Xangô (RJ)
Palestra: No Tempo de Mãe Bada
Palestrante: Ubiratan Castro

11h- Intervalo
11h20-Palestra: No Tempo de Mãe Senhora
Palestrante: Obá Luis Domingos
Palestra: No Tempo de Mãe Ondina
Palestrante: Egbón Adilson Almeida
Palestra: Mãe Stella, a Ialorixá dos 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
Palstrante: Jaime Sodré
13h- Engerramento do dia- Tarde Livre
17h- Lançamento de publicações- Livro de Contos, de Tia Detinha e Xangô, de Raul Lody
18h- Exibição do vídeo-memória E Daí Nasceu o Encanto: 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
20h- Apresentação do bloco Cortejo Afro e convidados

Domingo- 1º de agosto de 2010
9h- Abertura do Dia- Saudações/atabaques
9h30-Palestra: Em busca das raízes gurunsi do Ilê Axé Opô Afonjá: Uma jornada ao norte de Gana
Palestrante: Maria Paula Adinolfi
10h20- Apresentação dos alunos do grupo de Capoeira do Terreiro
11h- Apresentação dos alunos da oficina de dança do Ilê Axé Opô Afonjá
11h30- Apresentação da Banda Aiyê (Ilê Aiyê e convidados)


As histórias que moram em acervos privados

postado por Cleidiana Ramos @ 3:17 PM
26 de julho de 2010

História da escravidão continua a ser escrita e revista. Foto: Reprodução| Arquivo A TARDE

Fazer estudos sobre escravidão no Brasil ainda é um desafio por conta da pouca documentação disponível. Pois, durante o último final de semana que passei em Iaçu tive mais uma vez uma certeza do quanto de informação sobre este e outros assuntos deve está contida nos chamados arquivos privados.

Lá na minha cidade foi feito um trabalho brilhante por Valdemar Ferraro, agora com 90 anos. Por mais de 40 anos, como procurador de uma família em disputa por posse de terras no município ele colecionou documentos que contam a cadeia sucessória da área onde Iaçu se formou.

Vale ressaltar que ele não só conservou, mas descobriu e até traduziu documentos como uma carta de donatária que estava em português antigo.

No meio destes papéis estão informações preciosas como a que coloca o principal distrito de Iaçu, João Amaro, como uma vila formada ainda no final do século XVII.

E não fica por aí. Um documento da década de 30 do século XIX conta a história de Francisco José Simplicío e sua relação com “uma parda” de nome Joana com quem teve quatro filhos. O texto é o seu testamento.

Nele, Simplício diz, em meio a todas as nuances de uma redação jurídica do século XIX, que não quer deixar os quatro  filhos pobres e desamparados e transfere bens, mas também dá informações sobre escravos que trabalham em sua fazenda e os de ganho.

Em um outro documento da coleção, Simplício divide com a esposa oficial os seus bens, incluindo escravos, colocando ao lado os nomes e relacionando os que tem “crias” e o seu valor.

Isso me fez ficar pensando o quanto João Amaro, atualmente uma localidade de pouco mais de dez mil habitantes, deve ter sido vibrante neste período, afinal se tinha escravos de ganho era porque existia uma forte atividade urbana.

Além disso, o quanto de cultura africana também herdou devido a esta presença negra que a gente ainda percebe em meio a uma parte significativa da sua população.  Dá para começar a imaginar o porque da presença de cultos que são diferentes, mas tem também semelhanças com o candomblé da capital e do recôncavo.  Imaginem o quanto faz falta que essas histórias se façam presentes nas escolas municipais.

Em João Amaro,  ainda resistem construções que encantam como a igreja dedicada a Santo Antônio que há sete anos foi tombada pelo Ipac e outra que ainda consegue manter a sua beleza, mesmo sem nenhum tipo de proteção ou conservação como a estação ferroviária que é a mais antiga da Chapada Diamantina.

Enfim, imaginem historiadores quantos acervos deste tipo estão espalhados por esta Bahia prontos para revelar detalhes da história negra também nos sertões baianos.

Foi, aliás, essa coleção que sustentou boa parte do livro Os Caminhos da Água Grande, publicado por mim em 1998 e que é resultado do meu trabalho de conclusão do curso em jornalismo.


Gantuá- a estrela mais linda

postado por Cleidiana Ramos @ 10:17 AM
26 de julho de 2010

Professor Jaime destaca homenagem da Unesco ao Gantois. Foto: Margarida Neide | Ag. A TARDE| 04.03.2001

Jaime Sodré

Desde tempos pretéritos que a humanidade escolhera a Natureza como objeto de culto, temendo ou adorando-a. Refiro-me a África Ancestral, quando no Vale do Rift, no Lago Turkawa no Quênia, garganta de Olduvai na Tanzânia, Haddar e Vale do Ouro na Etiópia, e Taung, Makapansgat, na agora familiar África do Sul, o homem e a mulher põem-se de pé e fé na religiosidade primária.

Para Elikia M’Bokolo: “estamos hoje mais autorizados a dizer de maneira mais radical que a questão da anterioridade africana se impõe no próprio cerne dos processos de hominização”, logo, África berço da humanidade. O caráter de preservação da religiosidade de base africana, característica de humanização, decorre da longevidade e ações de resistência nos enfretamentos das pretensões expansionistas do Islã, evangelizadoras do catolicismo e do protestantismo.

Processos sincréticos, como solução estratégica de sobrevivências, foram experimentados. E tudo chegou sobrevivente nos tumbeiros. Os primeiros bantos implementaram o “calundu”, “tataravô” do modelo atual do Candomblé, prestando assistência e serviço religioso até mesmo ao branco colonizador-opressor, com rezas, unguentos, garrafadas, etc. mesmo sob olhar repressor das autoridades.

Mais tarde, essas manifestações religiosas eram realizadas já em ambiente residencial, discreto, nas “lojas” dos africanos livres, fazendo as obrigações iniciáticas em casas localizadas no centro histórico. A forma estruturada do Candomblé, como hoje conhecemos, como síntese de contribuição banto, gege e nagô, teve o seu modelo original nas ações “das tias” Iya Kalá, Iya Detá e Iya Nassô, inaugurando o famoso Candomblé da Barroquinha, matriz de muitos outros, a exemplo da Casa Branca, do Ilê Axé Opô Afonjá que completa 100 anos de existência, e do terreiro da nossa Mãe Menininha.

Os esforços dessas sacerdotisas conseguiram preservar, em um sentido profundo, o que existia de fundamental de suas raízes religiosas. Assim, no século XIX, viu-se inaugurar a implementação de um complexo cultural afro, na forma de egbé, agora já expulsos do centro da cidade para espaços chamados “terreiros”, onde se consagram os cultos das divindades africanas e de ancestrais ilustres, os égun. Esses terreiros adquiriram caráter especial através de identificação em forma de nações, e ultrapassam os limites territoriais, vencendo preconceitos e ameaças, interagindo com a comunidade baiana, expandindo-se. Resistência e fé passaram a ser o compromisso.

Agora, com aliados ilustres, podemos saber sobre a trajetória vitoriosa desta matriz religiosa. Bons hábitos fazem quem lê jornal e, melhor ainda, a coluna de July. Local onde circula, de forma respeitosa e elegante, as notícias do povo-de-santo. O terreiro do Gantuá é noticia com o título Unesco.

O Egbé Oxóssi, Ilê Axé Iya Omin Iyamassê, comunidade religiosa fundada no Alto do Gantuá, no início do século XIX, pela Iyalorixá Maria Julia Figueiredo inaugurando uma linhagem com D. Pulquéria da Conceição Nazaré, D. Maria dos Prazeres Nazaré e a “estrela mais linda” Mãe Menininha do Gantuá, seguindo-se Mãe Creuza e Mãe Carmem, preservam a tradição e a seriedade dos seus ritos.

Em Dezembro de 2002, o Ministério da Cultura homologa o tombamento do terreiro como bem histórico nacional. “Deu na coluna de July” e aqui no Mundo Afro que a Iyalorixá Mãe Carmem fora homenageada pela Unesco com a Medalha dos Continentes I, entregue pelo presidente do Conselho Executivo do Benin para a Unesco, embaixador Olabiyi Babalola Joseph Yai, um amigo da Bahia, em reconhecimento a este terreiro que tem Oxóssi como patrono, comprometido com o diálogo intercultural e que não efetua ações de proselitismo, nem distinções negativas para com outros segmentos religiosos de concepções diversas.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Peças de cultura e religião afro vão sair do DPT

postado por Cleidiana Ramos @ 4:50 PM
20 de julho de 2010

As peças ligadas à religião e cultura afro que estão sob a guarda do Departamento de Polícia Tecnica (DPT) não vão ser mais exibidas no Museu Estácio de Lima pertencente à institiuição.

A Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi) já determinou o início do inventário das peças e vão ser realizados estudos para determinar a sua procedência.

O governo estadual tomou esta medida, após publicação de uma matéria assinada por mim e veiculada na edição de domingo do jornal A TARDE contando sobre o retorno de peças para o DPT. Os artefatos  estavam no Museu da Cidade desde 1997 por recomendação do Ministério Público.

Isto porque elas ficavam ao lado de um acervo formado por peças como feto de duas cabeças e armas de crimes. Até 1971 as cabeças degoladas de cangaceiros como Lampião e Maria Bonita faziam parte do acervo.

De acordo com o que consegui apurar as peças retornaram para o DPT por força de uma liminar conseguida pela ex-diretora do órgão, Maria Theresa Pacheco que faleceu em maio deste ano.

O movimento para a retirada de peças foi liderado por pessoas como o doutor em antropologia e ogã da Casa Branca, Ordep Serra, o saudoso ogã do terreiro Agnelo Pereira e representantes da ong Koinonia.

Vale destacar que os primeiros estudos sobre candomblé foram feitos por médicos, geralmente professores da Faculdade de Medicina da Bahia, como Nina Rodrigues e Estácio de Lima. Eles consideravam esta religião uma patologia.

Daí a gravidade dessas peças voltarem para o mesmo ambiente de medicina legal onde eles militaram e defenderam posições como essas que reforçam preconceitos não só sobre a religião mas também sobre os negros de modo geral.

Portanto, valeu a pena a mobilização que causou a resposta rápida do governo.