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Entrevista Júlio Braga: “Sou criança em relação a esse mundo milenar”

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de janeiro de 2015
O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

Os 42 anos da experiência de magistério em universidades como a Federal da Bahia, a Estadual de Feira de Santana e a Nacional do Zaire forjaram o discurso envolvente de Julio Braga, 72. Doutor em antropologia e babalorixá, ele domina o código acadêmico, mas também o da oralidade cheia de sabedoria das religiões afro-brasileiras. Transitar entre esses dois mundos parece confortável para o autor de 11 livros, dentre os quais Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens, com lançamento previsto para o dia 7 de fevereiro, na biblioteca pública de Itaparica. Além desse, Julio Braga já prepara uma coletânea de poemas que divide com amigos do Facebook e que chama de “prosemas”, misturando poesia e a prosa em que é mestre. Para perceber isso, basta ouvi-lo narrar a aventura da primeira viagem internacional para Dakar, Senegal, onde tomou forma a melhor definição que encontrou para si mesmo: o antrópologo na encruzilhada, título de um dos seus livros. Nessa entrevista, ele conta que, em sua trajetória, o estranhamento, próprio de quem vê a encruzilhada, não veio do povo de santo ter dentre os seus pares um homem da academia, mas, curiosamente, desta. “Eu era professor e macumbeiro. Foi difícil”. Nada que curvasse um filho de Iansã, orixá a quem é consagrado, e de quem, em suas pesquisas, descobriu novas faces, como a da lealdade.

O senhor formou gerações de cientistas sociais. Aposentou-se após 42 anos de ensino na Ufba e Uefs, de onde saiu em 2010. Qual é a sensação de ficar longe da sala de aula?

É uma sensação de perda. Mas eu sou aposentado, inativo nunca (risos). Tenho um candomblé, o Terreiro Axeloiá, que me dá prazer em administrar. Além disso, continuo minhas pesquisas e já estou com o livro Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens pronto. Ele será lançado dia 7, em Itaparica. Esse livro objetiva um foco distinto do trabalho de Ruth Landes (A Cidade das Mulheres), mas a ele não se opõe. Pelo contrário, procura verificar em que medida, ao lado das mulheres, os homens contribuíram para manter e consolidar as religiões afro-brasileiras na Bahia. Andei também fazendo umas tentativas poéticas no Facebook, que chamo de “prosemas”. Esse é o título da coletânea que vai trazer 50 desses textos. Ela deve sair no primeiro semestre desse ano ao lado do livro Dá-me licença aí Sereiá – A pesca de xaréu na Bahia.

O senhor participou de um período rico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba. Conviveu com personalidades como Pedro Agostinho, Vivaldo da Costa Lima.

Entrei na universidade muito jovem. Primeiro, eu fiz filosofia. No meu terceiro ano como estudante da Ufba, o Ceao (Centro de Estudos Afro-Orientais) resolveu, em 1963-1964, retomar os estudos afro-brasileiros, numa perspectiva antropológica mais elaborada a partir de pesquisa de campo extremamente cuidadosa do ponto de vista metodológico. E eu entrei nessa plêiade de grandes nomes como pesquisador. Dez dias depois de terminar a licenciatura, fui morar na África. Viajei em 1967.

Qual foi o seu primeiro destino?

Fui para Dakar, no Senegal. Não sabia falar francês e enfrentei minha primeira viagem de avião. Embarquei para o Rio , de onde o voo sairia. Mas aí o avião quebrou e nós fomos levados para o Hotel Glória. Imagine eu, pobre, instalado naquele hotel. Quando seguimos viagem, ocorreu uma escala na Libéria, onde estava acontecendo um golpe de Estado, e nos levaram para um hotel com escolta policial. Finalmente, cheguei a Dakar. O problema é que a pessoa que ficou de me esperar aguardava meu desembarque para dias antes. Como disse, não falava francês. Aí, como bom retirante, sentei na mala porque assim não tinha como ninguém roubá-la. De madrugada, chegou um avião de Buenos Aires onde vinha um francês que era professor da Universidade de Dakar, para onde eu havia sido enviado. Ele me levou para o campus da universidade. Tempos depois, Pierre Verger, que regularmente ia à África, apareceu por lá e me convenceu a ir para o Benim.

Foi onde começaram suas pesquisas?

Eu tinha começado uma pesquisa no Senegal, mas por sugestão de Verger, fui para Cotonou, no Benim, e depois Porto Novo, que fica na fronteira com a Nigéria. Mas aí Verger, que tinha me recebido lá, teve que viajar e fiquei um pouco isolado. Aí aconteceram coisas que redefiniram meu projeto existencial. A primeira é que tive malária e perdi 25 quilos. Além disso, namorava uma mulher extraordinária e muito inteligente. Eu a acompanhava em suas pesquisas , mas aí aconteceu um acidente trágico. Uma criança atravessou de bicicleta na frente do carro dela. Foi terrível. Ela teve que ir embora e sofreu muito com isso. Aí conheci uma pessoa que me disse para me cuidar espiritualmente. Verger voltou e fui passar um tempo na casa dele em Sakatê (região entre Nigéria e Benim). Então um sacerdote disse que eu tinha que fazer a obrigação “de cabeça” e outra como ojé, que é aquela que dá o título a quem passou pela última etapa iniciática ao culto de babá Egum, um espírito ancestral. E assim o fiz. Em 1968, foi a vez da minha obrigação de cabeça e Iansã veio para dizer que meu nome era Oyá Tundé, que significa “Iansã voltou”. Comecei minhas pesquisas sobre a religião dos orixás. Obviamente, já como filho de Iansã, me concentrei nas coisas desse orixá. Foi assim que descobri que Iansã é um orixá das águas para descontentamento de muita gente no Brasil (risos). Ela é a rainha do Rio Níger. A históra maior de Iansã está entrelaçada com a travessia que ela faz do país nupé, atravessando o Rio Níger para se encontrar com Xangô no reino de Oyó.

Como foi para um homem de ciência se tornar um sacerdote?

Vou contar uma história como os africanos fariam, que é paradigmática para explicar minhas dificuldades. Eu me candidatei a diretor da faculdade (de Filosofia e Ciências Humanas), nos anos 80, numa época em que professores, alunos e funcionários podiam votar. O candidato mais forte era o professor Mário Nascimento, que acabou se tornando o diretor porque eu fui vítima de um jornalista, veja só. Ele estava fazendo matéria para um jornal da universidade. Mário Nascimento disse que, se fosse eleito, como era católico, mandaria celebrar uma missa. Eu disse que, como era de candomblé, iria sacrificar dois galos na porteira da faculdade. Isso caiu como uma bomba. Eu fui eleito, mas a congregação não permitiu a minha posse. Acho que isso é bem sintomático das dificuldades que são colocadas para uma pessoa que zelou pela inteligência, pela interpretação das coisas etnológicas e, ao mesmo tempo, se entregou de corpo e alma, muito mais de alma, à religião afro-brasileira. Havia escárnio a cada instante. Até o próprio departamento era intolerante.

E do lado do povo de santo? Ninguém nunca lhe viu com desconfiança por ser um pesquisador ?

Nunca. Porque nunca perguntei nada a ninguém como antropólogo. Eu tive a felicidade de, ao voltar da África, ser recebido no Aganju, casa de Obaraín (nome sagrado do babalorixá Balbino Daniel de Paula) e ter vivido 15 anos ininterruptos lá dentro. Eu vivi o candomblé pela espinha, ou seja, por dentro.

Dos elementos que formam o arquétipo de Iansã, com quais se identifica?

(Risos, seguidos de um curto silêncio) Eu confesso que ninguém havia me feito uma pergunta dessa natureza, o que me obriga a refletir sobre o que vou dizer. Mas como tive um conhecimento diferenciado sobre a mítica de Iansã, posso colocar a sinceridade. Se no candomblé não sei uma coisa, digo que não sei, até porque, como religioso, devo saber que se mente para o ser humano, mas não para o orixá. Iansã foi uma mulher extremamente sincera e a esposa devotada de Xangô. Quando ele perdeu a guerra, Obá e Oxum não o acompanharam já como desterrado. A única que o seguiu, foi Iansã. Essa leitura é diferenciada do que se recompôs aqui, e fez do arquétipo de Iansã o de uma mulher safada. Na verdade, ela teve muitos amores, mas nunca ao mesmo tempo. Eu tive muitas mulheres, mas amei a todas e fui sempre sincero. Talvez tenha escorregado algumas vezes, mas, como não tem pecado no candomblé, logo me redimi (risos). Dizem que na vida a gente tem que plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Pois eu plantei uma fazenda de cacau, tenho nove filhos e escrevi 11 livros. Portanto, acho que estou a salvo e, com certeza, com lugar guardado ao pé de Olorum. Se bem que espero que demore para chegar lá, pois como diz uma cantiga da nossa tradição, ainda sou criança em relação a esse mundo milenar extraordinário.


Carlos Moore lança nova edição de seu livro na Casa de Angola

postado por Cleidiana Ramos @ 2:27 PM
24 de setembro de 2012

Hoje tem lançamento de nova edição da obra de Carlos Moore na Casa de Angola. Foto: Divulgação

Hoje, a partir das 18 horas, na Casa de Angola (Barroquinha) tem atração de peso. O lançamento do livro “Racismo e Sociedade” de Carlos Moore encerra o III Encontro de Estudantes Guineenses em Salvador.

Moore é um dos mais brilhantes intelecutais do mundo contemporâneo. Sua análise sobre o racismo, um mal que insiste em persistir no mundo moderno é contudente.

O lançamento é um investimento da Editora Nandyala, da Casa de Angola, e do espaço cultural Katuka- Mercado Negro.

SERVIÇO
Evento: Lançamento da 2ª edição de Racismo e Sociedade: novas bases epistemológicas para se entender o racismo, de Carlos Moore.
Promoção: Editora Nandyala, Casa de Angola na Bahia, Katuka – Mercado Negro.
Quando: 24 de setembro de 2012, às 18h, na Casa de Angola, encerrando o IIIº Encontro de Estudantes Guineenses na Bahia.
Local: Praça dos Veteranos, Gravatá, na Casa de Angola ( Barroquinha – r, frente ao Corpo de Bombeiros), tel.: 3321-4495.
Mais informações:
Katuka – Mercado Negro: (71) 3321-0151


Uefs realiza seminário sobre alimentação e cultura

postado por Cleidiana Ramos @ 1:38 PM
12 de junho de 2012

Amanhã, dia 13, começa o I Seminário de Alimentação e Cultura na Bahia. As atividades terão início às 16 horas com  a mesa de abertura do evento no auditório IV (módulo VII). Estão sendo esperados 150 participantes.

Além de trazer um tema mais do que interessante, o evento terá duas conferências, mesas redondas, além de oficinas e outras atividades, como uma reza de Santo Antônio, recital de cordel com Franklin Maxado e exibição de filmes.

Além disso, o evento tem no seu grupo de organizadores, uma figura fantástica: o doutor em sociologia, Ericivaldo Veiga. O professor é um dos maiores especialistas baianos na complexidade sócio-cultural que está por trás da relação que vai desde o preparo de pratos e seus expedientes até o ato de degustá-los.

Dentre os convidados que vão expor trabalhos estão a professora-doutora Maria Eunice de Sousa Maciel da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) que vai proferir a conferência “Identidade e Alimentação”, na quinta-feira, dia 14 às 19h30; e o professor-doutor Henrique Soares Carneiro da Universidade de São Paulo (USP) que fará a conferência de encerramento sobre “História da Alimentação do Brasil”, no dia 15, sexta, às 16h30.

Uma outra novidade do evento é que ele vai reunir palestrantes de outras instituições de ensino sediadas na Bahia como Ufba, Uneb, UFRB e IFBA. Os pesquisadores convidados atuam em diversas áreas do conhecimento: Antropologia, Nutrição, Engenharia de Alimentos, Biologia, Gastronomia, Química, História, Literatura, Educação, dentre outros.

O seminário está sendo promovido pelo Centro de Estudos do Recôncavo (CER), núcleo de estudos e pesquisas vinculado ao Departamento de Filosofia e ciências Humanas da Uefs. O apoio é da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb); Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Estadual de Feira de Santana (Proex-Uefs) e do Projeto Estudo Multidisciplinar da Baía de Todos os Santos.


Entrevista com Fernando de Tacca

postado por Cleidiana Ramos @ 7:05 AM
12 de dezembro de 2009
Fernando de Tacca analisa fotos de candomblé utilizadas em revistas. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

Fernando de Tacca analisa fotos de candomblé utilizadas em revistas. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

O doutor em antropologia e professor da Unicamp, Fernando de Tacca lançou este ano o livro Imagens do Sagrado. É uma interessante pesquisa sobre a polêmica causada pela publicação de duas reportagens sobre iniciação religiosa no candomblé nas revistas Paris Match e O Cruzeiro em 1951.

As reportagens intituladas, respectivamente, As Possuídas da Bahia e As Noivas dos Deuses Sanguinários causaram uma grande polêmica e receberam duras críticas de intelectuais que estudavam o candomblé como Roger Bastide. As duas reportagens tiveram como cenário terreiros baianos e, no caso de O Cruzeiro, a repercussão foi ainda maior pois era a maior revista brasileira da época.

O episódio até hoje está presente no imaginário do povo-de-santo. Segundo as versões correntes a mãe-de-santo que permitiu as fotografias, Mãe Riso, foi punida com uma morte violenta e seu terreiro foi depedrado.

A pesquisa de Tacca, que eu tive a honra de ter como um dos avaliadores da minha dissertação de mestrado defendida na última quinta-feira, reconta o passo-a-passo da história desmontando esta versão. Na edição de hoje de A TARDE, no Caderno 2+ tem uma reportagem sobre o livro, assinada por mim, além de uma reportagem.

O conteúdo completo da entervista  pode ser conferido aqui abaixo.


Fernando de Tacca- Parte 1

postado por Cleidiana Ramos @ 7:05 AM
12 de dezembro de 2009
Foto:Haroldo Abrantes

Foto:Haroldo Abrantes

“Meu livro é uma investigação, uma espécie  uma reportagem antropológica”

Foi no curso de Ciências Sociais que Fernando de Tacca se aproximou da fotografia. O tempo faria com que estes seus dois interesses acabassem se encontrando para a produção de mais conhecimento, como é o caso do seu livro Imagens do Sagrado- entre Paris Match e o Cruzeiro. Doutor em antropologia e professor da Unicamp, Tacca enriquece o campo de estudos sobre a imagem com uma pesquisa onde o fotojornalsimo é o ponto de partida. A partir da análise da reportagem As Noivas dos Deuses Sanguinários, publicada pela  revista O Cruzeiro, em 1951, ele mostra não apenas a polêmica sobre a descrição detalhada da iniciação de três iaôs no terreiro da mãe-de-santo baiana Risolina Heleonita da Silva, mais conhecida como Mãe Riso. A reportagem e as suas consequências, tanto as reais como as imaginárias presentes no discurso do povo de santo, são o ponto de partida do autor, mas ele revela muito mais. Seu livro traz os  bastidores deste episódio como a disputa de mercado entre O Cruzeiro e a a francesa Paris Match, que meses antes havia publicado uma matéria semelhante a partir de fotografias feitas pelo cineasta Henri-George Clouzout. Um exemplo desta guerra jornalística é uma carta de Leão Gondim, diretor de O Cruzeiro, incitando o fotógrafo José Medeiros a provar que poderia se igualar a Clouzout e ao também francês, Pierre Verger que trabalhava para a revista, mas havia se negado a ceder fotos sobre uma iniciação que possuía. Nesta entrevista à repórter Cleidiana Ramos, Tacca conta detalhes de sua  pesquisa que revela episódios como a publicação em  A TARDE de uma versão traduzida da reportagem da Paris Match intitulada As Possuídas da Bahia.

A TARDE- Como o Sr. tomou contato com as fotos de José Medeiros?

Fernando de Tacca: É uma história longa. Eu fiz Ciências Sociais na USP e durante o curso me tornei fotógrafo. Naquele período não havia uma interlocução entre a área de imagem e ciências socias. Comecei a fazer minhas pequisas, fui encontrando artigos internacionais e me interessando pela área. Quando saí da USP, eu fui fazer um curso de especialização em Goiânia sobre imagem.Este curso foi feito dentro do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA) que não tinha vocação para o trabalho com imagem, mas tinha um importante acervo de fotos de filmes de Jesco Von Puttkamer, que fotografou os índios. Eu e mais alguns fotógrafos fomos escolhidos para fazer este curso. Não havia ainda um corpus intelectual no Brasil sobre este tema, mas apenas gente que pesquisva. Foi lá que conheci Micênio Carlos Lopes dos Santos. Ele tinha ligações com o terreiro de Olga de Alaketo e se tornou meu compadre. Micênio tinha o livro Candomblé, de José Medeiros. As imagens chamaram minha atenção. Fiquei me perguntando como ele se relacionou com aquele grupo para conquistar o grau de liberdade para circular e fazer aquelas fotos. Além disso as imagens tinham um caráter bem forte, com sacrifícios de animais e eram de excelente qualidade fotográfica.

AT: A pesquisa começou imediatamente?
FT: Não. Passaram alguns anos e eu fui visitar José Medeiros. Eu  já tinha uma indicação no livro sobre a revista, mas nessa ocasião ele não me mostrou o exemplar de O Cruzeiro.  Também tive algumas informações por meio de Micênio. Como ele circulava no meio do candomblé e eu não sou um especialista em religiões afro-brasileiras, ele me ajudou muito inclusive com as informações sobre as versões que corriam em relação ao episódio.

AT: Até então o Sr. não tinha ainda se aprofundado sobre as fotos do processo iniciático na Paris Match?

FT:Não. A Paris Match apareceu muito mais à fernte, aqui na Bahia. No livro eu conto todo o meu percurso. Ele é também um livro-reportagem, de investigação, uma espécie de reportagem antropológica. Até então a informação que circulava no ambiente do candomblé é que Mãe Riso teria morrido de morte violenta. Mas antes de chegar à Bahia para levantar estas informações várias coisas foram acontecendo na minha vida. Eu fiz um doutorado na USP sobre um assunto completamente diferente: a produção fotográfica e cinematográfica da Comissão Rondon e como se deu a construção oficial da imagem do índio por meio deste trabalho, morei dois anos no Japão e só depois é que me dediquei a este trabalho.

AT: Esta reportagem é publicada com uma aura de sensacionalismo, mas depois as mesmas fotografias foram publicadas no livro Candomblé, de José Medeiros, e aí já são lidas como um trabalho artístico. É curiosa esta mudança.

FT: Realmente, elas passam a ser vistas no livro como uma descrição etnográfica.O texto na revista O Cruzeiro tem uma carga forte, mas é muito bem feito pelo jornalista Arlindo Silva. Acho interessante a história do texto. Ele é mais próximo do verdadeiro do que a descrição do trabalho de Clouzout na Paris Match. As informações da reportagem sobre Clouzout são pejorativas, desqualificatórias, tentando encontrar patalogias como esquizofrenia, quando a gente sabe que isso já havia sido superado por estudos daquele período, como os de Roger Bastide. Mas vale esclarecer que Clouzout não escreveu a reportagem. Ela é feita em terceira pessoa.

AT: Roger Bastide, inclusive, fez críticas contundentes ao texto da Paris Match.

FT:Ele escreveu três textos para a revista Anhembí.  No primeiro artigo Roger Bastide contesta Clouzout, mas em seguida ele descreve o livro de Clouzout e faz uma espécie de redenção do seu  conterrâneo. Clouzout, depois da reportagem da Paris Match, foi execrado na imprensa brasileira, por artigos como o de Alberto Cavalcanti e Édison Carneiro que, embora faça críticas, diz que não se arrepende de ter indicado alguns terreiros a Clouzout quando ele veio para cá. Só que o pai-de-santo do terreiro onde Clouzout foi fotografar não é identificado. O nome Nestor usado na reportagem da Paris Match é fictício. Essa reportagem chegou a ser publicada traduzida em A TARDE em três episódios, mas acho que sem fotos. Tudo isso preparou o terreno para a polêmica e para O Cruzeiro dar a sua resposta. Claudio David, que me auxiliou fazendo a pesquisa em jornais, encontrou os anúncios sobre a chegada de O Cruzeiro. Isso faz parte de um itinerário de mercado. Quando eu percebi isso pedi para ele continuar a pequisa e aí depois encontrei um anúncio da Federação do Culto Afro-Brasileiro convidando a população, os associados e os jornalistas para discutir a polêmica levantada tanto pela revista O Cruzeiro como pela Paris Match .


Fernando de Tacca- Parte 2

postado por Cleidiana Ramos @ 7:04 AM
12 de dezembro de 2009
Foto: Haroldo Abrantes

Foto: Haroldo Abrantes

AT: Como Pierre Verger que era repórter de O Cruzeiro se comportou neste episódio?
FT: Pierre Verger foi sempre muito silencioso sobre esse assunto. Ele era amigo de Medeiros. Mas não creio que se manteve afastado só por isso, mas também porque ele não quis ceder as fotos que ele tinha sobre um processo iniciático. Aliás, ele e Odorico Tavares prepararam uma reportagem para O Cruzeiro, que não foi publicada. Eu encontrei este texto nos arquivos da Fundação Pierre Verger. Ele, Verger, não só transitava bem nesse universo, mas tinha uma relação pessoal com o candomblé e talvez por isso tenha tido essa reserva. Na parte final do livro eu faço um adensamento conceitual dessa história que eu chamo de fricção ritualística. Eu trabalho com um autor norte-americano, da área de semiótica, chamado David Tomas. Ele trata o momento fotográfico como um ritual de passagem. Eu fiz o jogo conceitual trabalhando os ritos de passagem sob o ponto de vista da antropologia. Falo de uma liminaridade existente no processo fotográfico analógico. O negativo que vai ser  processado tem uma imagem latente que não apareceu. Há um recorte, uma separação até a revelação. No caso de Verger essa liminaridade se estica um pouco mais além desse processo. A liminaridade é também a não publicização dessas imagens, uma segunda liminaridade.

AT: Seu trabalho também envolve uma discussão ética. Medeiros chega a confessar que teria pagado para fazer as fotos.
FT: Tem uma carta publicada no livro que foi endereçada a José Medeiros por Leão Gondim da direção de O Cruzeiro. Na carta Gondim instiga Medeiros, que estava na Paraíba. É uma carta provocativa incitando-o a fazer uma reportagem melhor do que a realizada pela  Paris Match. Parece que ele também tinha uma relação com os cultos afro-brasileiros. Uma das coisas que o Medeiros me disse é que depois da reportagem, quando ele vinha para a Bahia, se registrava no hotel com nome diferente com medo de ebó.

AT: Há uma recomendação de Leão Gondim para que José Medeiros mantenha sigilo sobre a pauta não é?
FT:Na carta o Leão Gondim recomenda que ele não comente com ninguém a intenção de fotografar a iniciação, principalmente, com Odorico Tavares e Pierre Verger.Para você ter idéia, Arlindo Silva não conhecia a carta. Eu tentei conversar com ele durante todo o meu processo de finalização da pesquisa e ele se mantinha reticente, não queria me receber. Quando eu falei da carta, aí ele se abriu para me receber. Foi fantástico. Cinquenta anos depois, o sr. Arlindo Silva ficou cinco minutos lendo a carta em silêncio e aí ele disse: “Eu não conhecia essa carta”. Medeiros, segundo Arlindo Silva, não falou para ele sobre a carta. Outra coisa então ficou clara: Medeiros, nunca, nas entrevistas que fiz com ele, se referiu a ter sido instigado a fazer esta reportagem. Ela é cercada de toda uma mística, pois é considerada uma das mais importantes feitas em revistas brasileiras e sempre foi creditada a ele a ousadia de ter ido a um candomblé e ter conseguido fotografar o rito iniciático. A carta é reveladora pois mostra que a redação de O Cruzeiro é que o instigou a ir até lá.


O Discurso da Luz no Ceao

postado por Cleidiana Ramos @ 8:01 AM
9 de dezembro de 2009
Uma das fotografias de Mãe Menininha que faz parte do Arquivo A TARDE. Foto: Arquivo A TARDE

Uma das fotografias de Mãe Menininha que faz parte do Arquivo A TARDE. Foto: Arquivo A TARDE

Amigos do Mundo Afro: amanhã, a partir das 16 horas, estarei fazendo a defesa da minha dissertação de mestrado intitulada O Discurso da Luz- Imagens das Religiões Afro-Brasileiras no Arquivo do Jornal A Tarde. Trata-se de um estudo sobre a importância documental de 1.432 fotografias pertecentes ao Arquivo A TARDE que retrata diversos aspectos do candomblé, umbanda, culto dos eguns e outras modalidades religiosas.

A banca avaliadora é formada pelos doutores em antropologia Claudio Luiz Pereira ( o orientador),  Nicolau Parés,  ambos do Programa de Pós-Gradução em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro), do qual sou aluna, e Fernando de Tacca, da Unicamp. O Pós-Afro é vinculado à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba.

A defesa será no Ceao, localizado no Largo 2 de Julho. Quem se interessar por fotografia e antropologia e puder aparecer será bem vindo.


Encontro sobre cinema e antropologia

postado por Cleidiana Ramos @ 7:26 PM
2 de dezembro de 2009
O antropólogo Claudio Luiz Pereira é um dos coordenadores do ciclo de debates sobre cinema e antropologia. Foto: Marco Aurélio Martins| AG.  A TARDE

O antropólogo Claudio Luiz Pereira é um dos coordenadores do ciclo de debates sobre cinema e antropologia. Foto: Marco Aurélio Martins| AG. A TARDE

Programa imperdível para quem gosta de cinema e antropologia. Os professores da Ufba, Cláudio Luiz Pereira e Maria Cristina de Souza estão coordenando um ciclo de debates sobre o cinema antropológico. O Homem e o Mar é o tema da primeira sessão que começa amanhã, 3 (quinta-feira), às 17 horas, no auditório do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba (ISC), localizado no Canela, antigo prédio da Facom, no campus atrás do Hospital das Clínicas.

O objetivo do ciclo é mosrtar a relação entre cinema e antropologia, apresentar uma filmografia pouco conhecida e reunir o pessoal interessado no tema.

Confiram abaixo a programação:

Sessão 1. Amanhã – Os Pescadores de Aran (1934) de Robert Flarherty.

O filme aborda o cotidiano de uma família de pescadores da Ilha Aran, localizada na costa oeste da Irlanda e cercada por um mar enfurecido, com violentas tempestades. De forma heróica eles buscam a sobrevivência em condições sabidamente desfavoráveis, impostas por uma natureza furiosa. O aclamado diretor Robert J. Flaherty, o mesmo do clássico Nanook do Norte, lança mão de uma formidável e moderna edição na montagem deste filme. Com uma pequena equipe, Flaherty passou dois anos filmando e editando o drama deste grupo familiar. As imagens são deslumbrantes, e a estrutura do filme demonstra influências diretas da Escola Soviética de cinema. Debate com a participação do documentarista e professor Josias Pires Neto.

Sessão 2. Dia: 10/12 – Os Pescadores de Sargaços (1929) de Jean Epstein.

Filmada em 1929, em pleno movimento avant-garde francês, esta obra experimental foi elaborada por Epstein, que mesclou o ritmo das imagens atiladamente decupadas com algumas técnicas do cinema expressionista alemão. Um documentário social com experiências ousadas no dominio da antropologia visual. O filme é o primeiro de uma trilogia que retrata a vida insular da costa da Bretanha.Com a participação do professor Marcos Pierry (FTC – TVE-Bahia)

 
Sessão 3. Dia: 17/12 – A Ilha Nua (1960) de Kaneto Shindô.

A história de A Ilha Nua se passa a oeste do Japão, em um lugar onde se encontram as mais belas paisagens do país. Em uma das ilhas do lugar não há espaço para mais pessoas, além de uma única família que lá habita, uma casal com seu dois filhos. A vida é dura, dado a escassez de água e de alimentos, porém, mesmo assim, esta família vive tranqüilamente, até que um dia acontece uma desgraça que faz com que tudo mude. Tudo, exceto a luta particular e silenciosa dos homens contra os adversos elementos da natureza. Com a participação do professor Cláudio Pereira (Pos Afro-Ufba)
 

 


Colóquio África-Afro-Brasilidade na Faculdade da Cidade

postado por Cleidiana Ramos @ 5:16 PM
5 de novembro de 2009
A juíza Luislinda Valois é uma das palestrantes do colóquio. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

A juíza Luislinda Valois é uma das palestrantes do colóquio. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Começa, hoje, às 19 horas, o I Colóquio sobre África e Afro-Brasilidade, organizado pela Faculdade da Cidade do Salvador. A  abertura será no Campus I da instituição, localizado no Comércio, e comemora o mês da Consciência Negra.

O encontro vai debater temas como história, religião, comunicação, dentre outros.  Na lista de participantes estão a juíza Luislinda Valois, a professora-doutra Fátima Ribeiro, Makota  Valdina, Marlon Marcos, dentre outros.  Eu também vou estar lá participando. Para conferir a programação clique aqui. 


Lançamento da segunda edição de Rumores de Festa

postado por Cleidiana Ramos @ 5:29 PM
5 de outubro de 2009
Ordep Serra lança Rumores do Sagrado, na quarta. Foto: Fernando Amorim - AG. A TARDE

Ordep Serra lança Rumores de Festa, na quarta. Foto: Fernando Amorim - AG. A TARDE

Na próxima quarta-feira tem lançamento da 2ª edição do livro Rumores de Festa: o Sagrado e o Profano na Bahia, escrito pelo doutor em antropologia e professor da Ufba, Ordep Serra.

O lançamento começa às 18 horas na sede da Apub, na Rua Padre Feijó, nº 18, Canela. O autor também vai apresentar uma outra obra de sua autoria: O Reinado de Édipo.

Rumores de Festa é um estudo sobre as festas populares, um dos mais deliciosos e instigantes fênomenos populares da Bahia.


Os orikis de Abdias

postado por Cleidiana Ramos @ 6:59 PM
28 de setembro de 2009
Lindinalva Barbosa estudou obra poética de Abdias do Nascimento. Foto: André Luiz Santana

Lindinalva Barbosa estudou obra poética de Abdias do Nascimento. Foto: André Luiz Santana

Foi defendida hoje à tarde, na Uneb, a dissertação de mestrado intitulada As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho: a poética negra de Abdias do Nascimento. A autoria é de uma autoridade no assunto: Lindinalva Barbosa.

A agora mestre em Estudos de Linguagens analisou o único livro de poesias escrito por Abdias cujo título é Axés do Sangue e da Esperança (orikis).

De acordo com o que disse e recomendou a banca, formada pelo professor Sílvio Roberto Oliveira, orientador, pela profesossora Edil Silva Costa e pelo professor Claudio Luiz Pereira, logo, logo, com certeza, teremos um livro reproduzindo esta pesquisa que traz contribuições preciosas não só para os estudos relacionados à literatura, mas também sobre Abdias.


Ceao festeja 50 anos

postado por Cleidiana Ramos @ 10:18 PM
25 de setembro de 2009
A socióloga Paula Barreto é a atual diretora do Ceao. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

A socióloga Paula Barreto é a atual diretora do Ceao. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

O Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao) está completando 50 anos. Nas próximas terça e quarta-feira será realizado um colóquio comemorativo (ver o próximo post).  O Ceao tem o dia 27 de setembro como referência para a celebração do seu aniversário. Quando surgiu em 1959, a partir da iniciativa do humanista português, Agostinho da Silva, a sua missão era aproximar o Brasil dos países da África que começavam a se libertar da política colonialista européia.

“O Ceao tinha a missão de funcionar como um canal de diálogo entre a universidade e a comunidade afro-brasileira, por um lado, e entre o Brasil e os países africanos, mas também os asiáticos”, explica a diretora do Ceao, Paula Cristina da Silva Barreto, doutora em Sociologia.

De acordo com Paula Barreto, a manutenção desta tradição é uma caracerística constante do Ceao e o que o orienta também para o futuro. “As linhas de atuação que marcaram a fundação do CEAO têm desdobramentos até hoje, seja através da realização dos cursos de língua estrangeira, ou do foco para as relações internacionais, em especial, para as relações entre o Brasil e países africanos e asiáticos”, acrescenta.

O Ceao é um órgão ligado à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba (FFCH). Sua principal ação é a realização de pesquisas sobre os temas afro-brasileiros, além de apoio às ações afirmativas implantadas pela Ufba a partir do seu sistema de cotas.

Há em curso uma proposta para transformar o Ceao numa nova unidade de ensino da universidade voltada para os estudos étnicos e africanos.  No Ceao  funciona um programa de pós-graduação, o Pós Afro. Também compõem a unidade o Museu Afro-Brasileiro, uma biblioteca especializada e uma livraria. A revista Afro-Ásia, publicada desde 1965, com tiragem semestral, é o periódico oficial do órgão.

O Ceafro, programa voltado para a educação e profissionalização com o recorte racial e de gênero, também funciona no Ceao. Lá é a sede do Fábrica de Idéias, um curso anual e avançado sobre relações étnicas, raciais e cultura negra. 

Para saber mais sobre o Ceao acesse seu site oficial clicando aqui. Na edição deste sábado, o Caderno 2+ traz uma reportagem especial sobre a instituição. A programação do colóquio comemorativo está num post abaixo. 


Programação do Colóquio comemorativo

postado por Cleidiana Ramos @ 10:11 PM
25 de setembro de 2009
Aniversário do Ceao terá colóquio comemorativo. Foto:  Lúcio Távora | AG. A TARDE

Aniversário do Ceao terá colóquio comemorativo. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

Confiram aqui a programação do colóquio comemorativo aos 50 anos do Ceao, que vai acontecer na próxima terça e quarta-feira. A inscrição é gratuita, mas como há limite de vagas é bom checar antes se ainda é possível participar. Observem também que as atividades vão acontecer em dois espaços: na sede do Ceao, localizada no Largo 2 de julho, e na Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, Centro Histórico. Os telefones do Ceao são 3283-5500/5501 e 5502.O site é o www.ceao.ufba.br

Programação:

Terça- 15 horas- Abertura com homenagem aos ex-diretores e ex-funcionários do Ceao.

16h- Conferência de Abertura- O Campo dos Estudos Africanos no Brasil
Conferencista: Professor Kabenguelê Munanga (Centro de Estudos Africanos- USP)
Local: Faculdade de Medicina da Bahia- Ufba- Centro Histórico, Terreiro de Jesus.

18h30-Lançamento dos seguintes livros:

-África Negra- História e Civilizações. Tomo I, de Elikia M´bokolo
-O Poder dos Candomblés. Perseguição e Resistência no Recôncavo da Bahia, de Edmar Ferreira Santos
-Martiniano Eliseu do Bonfim. Um Princípe Africano na Bahia. Cadernos da Memória, Volume 1, de Marcos Santana
-Revista Afro-Ásia nº 38
-Mapeamento dos Terreiros de Salvador,  de Jocélio Teles dos Santos (Coordenador).
-Lançamento do site do Ceafro e do documentário Diálogos Cotistas: qualificando a permanência na Ufba.
Local: Auditório Milton Santos- Ceao (Largo 2 de julho).

Quarta-feira-9h- Exibição seguida de debate do filme Agostinho da Silva- Um pensamento vivo, de João Rodrigo Mattos. O filme foi realizado pelo neto do fundador do Ceao e apresenta o percurso biográfico do humanista português, passando pelas obras que escreveu durante seu autoexílio de 25 anos no Brasil e indo até sua morte em Portugal em 1994.

11h- Mesa Redonda: A Universidade e as políticas para as comunidades negras- Valnizia Pereira Oliveira (ialorixá do Terreiro do Cobre); Zulu Araújo (presidente da Fundação Cultural Palmares); Luiz Alberto (deputado federal); Luiza Bairros (secretária estadual de Promoção da Igualdade); Bira Coroa (deputado estadual e presidente da Comissão de Promoção da Igualdade da Assembléia Legislativa da Bahia); Ailton Ferreira (secretário municipal da Reparação); Rosângela Costa Araújo (coordenadora do Instituto Nzinga de Capoeira Angola/ professora da Faculdade de Educação da Ufba). 

14 horas- Mesa Redonda- Olhares sobre o Brasil e a Bahia- Prof. Eakin Marshall (Associação de Estudos Brasileiros; Vanderbilt University); Prof. Yussuf Adam (Universidade Eduardo Mondlante, Moçambique) e Prof. Ralph Cole Waddey (Mestre em Economia e Estudos Latino-americanos, University of Florida; pesquisador da música brasileira).

16 horas- Conferência de Encerramento- Percepções da Bahia do final do Século XX: A Conexão Ceao. Conferencista: Prof. Arani Dzidzienyo (Africana Studies, Portuguese Brazilian Studies, Brown University- EUA).
Local: Anfiteatro e área externa da Faculdade de Medicina da Bahia- Terreiro de Jesus, Centro Histórico.


Ideias em palavra: Resignificação da negritude

postado por Cleidiana Ramos @ 6:25 PM
16 de setembro de 2009
Jocélio Teles analisa em livro inserção da questão negra no Estado brasileiro. Foto: Elói Corrêa|AG. A TARDE

Jocélio Teles analisa em livro inserção da questão negra no Estado brasileiro. Foto: Elói Corrêa|AG. A TARDE

O livro O Poder da Cultura e a Cultura no Poder- a disputa simbólica da herança cultural negra no Brasil, de autoria do doutor em antropologia, Jocélio Teles, e editado pela Edufba, é ideal para quem deseja compreender como aconteceu a inserção de questões ligadas à identidade negra e religiões de matrizes africanas na pauta do Estado.

O autor discute como estes temas se tornaram um assunto crucial para as instâncias de poder e as formas como as organizações do movimento negro político e também o religioso se movimentaram neste contexto.

Um outro ganho do livro de Jocélio é a linguagem. Apesar da complexidade do tema, o livro tem uma escrita leve, capaz de ser compreendida de primeira, diferente de algumas abordagens acadêmicas que de tão intricadas faz quem não está acostumado com os meandros da teoria abandonar a leitura.

O períoodo de análise do livro vai dos anos 60 aos 90 e é interessante constatar como os símbolos afro-brasileiros foram ganhado novos significados  para o Estado e para os próprios movimentos sociais.

É também interessante as informações sobre o período de perseguição aos terreiros  de candomblé e o contexto em que saiu o decret0 do governo baiano acabando com a necessidade da retirada de autorização para a realização dos cultos em 1976 .

O livro também apresenta um panorama de como o racismo foi tratado pelas várias representaçõs do Estado brasileiro neste período.

Jocélio Teles, atualmente, é coordenador do Programa de Pós Graduação em Estudos Étnicos e Africanos (Pós Afro), mantido pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba e sediado no Ceao.

É também autor do estudo O Dono da Terra- o caboclo nos candomblés da Bahia, que a gente já não acha facilmente. Trata-se de uma obra que precisa de uma reedição urgente, pois é muito valiosa, afinal ainda são poucos os estudos sobre candomblé de caboclo, diante da sua continuidade e cada vez mais crescente inserção nos terreiros.

Ele foi também diretor do Ceao e coordenador da pesquisa Mapeamento dos Terreiros de Salvador, publicada há dois anos. As livrarias onde é mais fácil encontrar O Poder da Cultura e a Cultura no Poder  são as especializadas como a do Ceao, as da Edufba e a LDM.


Siobá festeja aniversário

postado por Cleidiana Ramos @ 6:10 PM
15 de setembro de 2009
Membros do Siobá, vestidos de branco e na primeira fila, assistem palestras de seus convidados em cerimônia realizada no Teatro Gregório de Mattos. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Membros do Siobá, vestidos de branco e na primeira fila, assistem palestras de seus convidados em cerimônia realizada no Teatro Gregório de Mattos. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

A Irmandade Beneficente de Ojés, Ogãs e Tatas ( Siobá ) está completando cinco anos de suas atividades. Para festejar, no próximo dia 25,  haverá um ciclo de palestras no Cepaia (Largo do Carmo, Centro Histórico).

A programação começa às 18h30. A primeira palestra é a intitulada Hierarquias Sacerdotais na África Ocidental que será proferida pelo professor da Ufba e doutor em antropologia, Nicolau Parés, autor do livro A Formação do Candomblé.

Em seguida o professor Marco Aurélio Luz, autor do livro Agadá, vai falar sober os postos de ogãs, ojés e tatas no Brasil.

A última palestra da noite será feita pelo professor José Santana Sobrinho sobre a hierarquia do candomblé na comunidade de Babá Egun.

Para quem pesquisa ou se interessa sobre candomblé esta é uma oportunidade de ouro. Parabéns para a Siobá por escolher um evento que, além de festa, está gerando circulação do conhecimento.


Contribuições para a preservação da memória

postado por Cleidiana Ramos @ 12:17 PM
2 de setembro de 2009
Da esquerda para a direita: Claudio Pereira, Silverino Ojú e Ayrson Heráclito: Foto: Divulgação

Da esquerda para a direita: Claudio Pereira, Silverino Ojú e Ayrson Heráclito: Foto: Divulgação

Recebi por e-mail um registro de uma das palestras do projeto Iyá Egbé, que é voltado para o resgate da memória do Ilê Axé Opô Afonjá, uma atividade que  noticiei aqui no Mundo Afro. Aproveito então para contar um pouquinho sobre uma das mesas redondas que ainda consegui assistir.

Isto porque trabalhei no sábado da virada do novo projeto gráfico e editorial do jornal A TARDE e saí daqui meia hora depois do horário em que ia começar a palestra, mas deu para chegar a tempo de participar.  Gente foi muito, muito legal. As palestras foram do artista plástico e professor da UFRB, Ayrson Heráclito e do professor da Ufba e doutor em antropologia, Claudio Pereira, com a mediação de Silverino Ojú, que faz parte do Centro de Documentação e Memória do Terreiro (CDM).  Pela manhã e no início da tarde aconteceram outras palestras.

O projeto, coordenado pelo CDM, é uma das ações preparatórias para as comemorações do centenário do Afonjá no ano que vem. O trabalho do professor Ayrson Heráclito a partir do uso do azeite de dendê é extremamente interessante, instigante e uma festa para os olhos. As fotografias e o vídeo que mostraram as instalações de sua autoria deixaram a platéia fascinada. Em seguida, o professor Claudio Pereira, mostrou mais uma vez a facilidade que possui para falar sobre temas complexos. Com sutileza, ele passeou sobre as definições de cultura, iconografia, iconologia, memória e patrimônio, enfim uma aula perfeita.

Para mim, que estou trabalhando nesta área, inclusive sob a orientação do professor Claudio, foi uma tarde de aprendizagem inesquecível, sem falar do cenário do encontro: a escola Eugênia Anna dos Santos, uma das pioneiras no ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira em Salavador, princípio determinado pela Lei 10.639/03 que foi modificada no ano passado pela 11.645/08 para incluir também o ensino de História e Cultura Indígenas.  Fiquei encantada com a decoração da sala de aula onde aconteceu a mesa redonda: tudo muito lúdico, mas claramente com função pedagógica.

A inciativa do CDM é mais uma ação de resgate da memória e documentação que os terreiros de Salvador e de outras cidades tem feito tão bem, muitas vezes com recursos e esforços próprios e que tem um valor incalculável. Parabéns às comunidades do Afonjá, do Gantois, do Pilão de Prata e do São Jorge da Goméia que são alguns dos terreiros com iniciativas deste tipo já sedimentadas.        


Estudo diz que negros são maiores vítimas da violência

postado por Cleidiana Ramos @ 4:45 PM
26 de agosto de 2009
Movimentos como a Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morto, realizado em Salvador, tem feito alertas contra a violência. Foto: Claudionor Junior | AG. A TARDE

Movimentos como a Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta, realizado em Salvador, têm feito alertas contra a violência. Foto: Claudionor Junior | AG. A TARDE

Uma pesquisa da Universidade Federal do  Rio de Janeiro (UFRJ) veio confirmar o que muita gente já sabia e que tem sido uma pauta contínua dos movimentos negros organizados: a violência atinge mais os negros.

De acordo com o estudo, o número de negros assassinados é duas vezes maior do que o de brancos, mesmo com os grupos tendo proporcionalidades parecidas na população geral do Brasil. 

O levantamento foi feito pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais da UFRJ. Os dados foram apurados a partir de registros do SUS referentes a 2006 e 2007. 

De acordo com o estudo em dois anos foram mortos 59.896 negros e 29.892 brancos. A diferença maior entre os grupos envolve pessoas com idades de 10 a 24 anos. Já na faixa de 40 anos, o total de homicídios é quase igual entre negros e brancos.

Para o coordenador do estudo, Marcelo Paixão, esta é uma amostra de que os negros estão mais expostos a riscos do que os brancos em várias partes do pais.

Dentre os fatores de risco está a moradia situada em áreas mais violentas. Um outro dado apresentado pelo estudo foi o de que a morte provocada por policiais tem mais negros como vítimas do que brancos. No Nordeste a disparidade dentre os grupos é a maior do Brasil: são 10 negros mortos para um branco. As informações são do  do portal UOL.

Quem tem um estudo muito interessante sobre este caráter étnico-racial da violência, inclusive a que envolve policiais em Salvador, é a socióloga Vilma Reis. Eu continuo na torcida para que ela publique seu interessante e valioso trabalho o mais rápido possível para acrescentar muito ao debate sobre segurança pública na Bahia.   

 

 


Educaxé- O negro e a Política- Parte IV

postado por Cleidiana Ramos @ 3:14 PM
18 de agosto de 2009
Conflitos políticos impedem o desenvolvimento em regiões da África, como a República Democrática do Congo. Foto: Reuters| Antony Njuguna

Conflitos políticos impedem o desenvolvimento em regiões da África, como a República Democrática do Congo. Foto: Reuters| Antony Njuguna

Instabilidade Política 

Jaime Sodré

Hoje destacamos os golpes de Estado ocorridos na África desde a década de 60. Confiram a lista:   

Fevereiro de 1966- Gana: O exército derruba o presidente Kwane Nkrumah que realizava uma visita oficial a Pequim.

Setembro de 1969- Líbia: Um Conselho da Revolução proclama a República na ausência do rei Idriss, que estava recebendo tratamentos médicos na Turquia.

Janeiro de 1971- Uganda: Idi Amín Dada aproveita a ausência do presidente Milton Obote para tomar o poder. O chefe de Estado de Uganda estava em Cingapura, após ter participado de uma conferência da Commonwealth.

Julho de 1975- Nigéria: O exército derruba o general Yakabu Gowon. Gowon estava em Kampala para assistir à cúpula anual da Organização da Unidade Africana.

Junho de 1977- Seychelles: O primeiro-ministro Albert René toma o poder aproveitando-se da visita do presidente James Mancham a Londres para uma conferência da Commonwealth.

Setembro de 1979- República Centro-Africana: O imperador Bokassa, em visita oficial à Líbia, é derrubado. David Dacko, ex-presidente que havia sido deposto por Bokassa em 1966, retoma o poder e restabelece a República.

Dezembro 1984-Mauritânia: O tenente coronel Ould Haidalla, em visita ao Burundi para acompanhar a 11ª. cúpula África-França, é destituído. O coronel Maauiya Ould Taya toma o poder.

Abril de 1985- Sudão: O presidente Gaafar Nimeiry, em visita oficial ao Egito, é derrubado pelo exército.

Setembro de 1987- Burundi: O coronel Jean-Baptiste Bagaza, que estava em Quebec acompanhando a cúpula de países francófonos, é derrubado pelo major Pierre Buyoya.

 Julho de 1994- Gâmbia: O presidente Dawda Jawara, no poder desde 1965, é derrubado por militares dirigidos por Jammeh.

Agosto 1995- São Tomé e Princípe: Miguel Trovoada é derrubado por militares. Retoma o poder uma semana depois, após uma lei de anistia.

Setembro de 1995- Comores: Mercenários dirigidos por Bob Denard derrubam o regime de Said Mohamed Djohar. Uma intervenção militar francesa põe fim ao golpe de Estado.

Janeiro de 1996- Serra Leoa: Valentine Strasser é afastado pela junta que dirigia o país depois de quatro anos.

Janeiro de  1996- Nigéria: Uma junta militar presidida pelo coronel Ibrahim Baré Manassara destitui o presidente Mahamane Ousmane.

Julho de 1996- Burundi: Um golpe de Estado leva ao poder Pierre Buyoya depois da destituição de Sylvestre Ntibantunganya.

Maio de  1997- Zaire: Laurent-Désiré Kabila, à cabeça de uma rebelião após oito meses, se autoproclama chefe de Estado. O Zaire, dirigido depois de 32 anos por Mobutu Sese Seko, se torna República Democrática do Congo. Em janeiro de 2001, Kabila é assassinado por um de seus seguranças. Seu filho, Joseph Kabila, o sucede.

Maio de 1997- Serra Leoa: o presidente Ahmad Tejan Kabbah é derrubado por uma junta dirigida por Johnny Paul Koroma. É restabelecido em suas funções em 1998 depois de uma intervenção de uma força oeste-africana.

Outubro de  1997- Congo-Brazzaville: Denis Sassou Niguesso (1979-1992) retoma o poder depois da vitória de suas milícias sobre as de Pascal Lissouba.

 Abril de 1999-Comores: O exército dirigido pelo coronel Azali Asoumani toma o poder.

 Maio de 1999- Guiné-Bissau: João Bernardo Vieira é derrubado por uma junta em rebelião desde 1998 e dirigida pelo general Ansumane Mané.

Dezembro de 1999-Costa do Marfim: Um motim militar se transforma em golpe de Estado, o primeiro do país. O general Robert Gue  anuncia a destituição do presidente Henri Konan Bédié e a implantação de uma junta.

Março de  2003- República Centro-Africana: O chefe da rebelião, o general François Bozizé, toma o poder após um golpe de Estado enquanto o presidente Ange-Félix Patassé estava fora do país. O avião do governante, que deveria retornar a Bangui procedente de Niamei (Níger), onde havia participado de uma cúpula de chefes de Estado, teve sua frota desviada para Yaundé, capital camaronesa.

Julho de 2003-São Tomé e Príncipe: Uma junta militar liderada pelo major Fernando Pereira derruba o presidente Fradique de Menezes, que realizava uma visita à Nigéria. Após intensas pressões internacionais, o presidente retorna ao seu país e chega a um acordo com os militares para restaurar a ordem constitucional.

Setembro de 2003-Guiné-Bissau: Kumba Yala é afastado por uma junta dirigida pelo general Veríssimo Correia Seabra, morto mais tarde num ataque contra o quartel-general do exército.

Agosto de  2008- Mauritânia: Sidi Ould Cheikh Abdallahi, primeiro presidente democraticamente eleito, é derrubado 15 meses mais tarde pelo general Mohamed Ould Abdel Aziz.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

Quando começaram as lutas pela indpendência dos países da chamada África Negra?

O que é pan- africanismo?

Quais os países da África Negra que, atualmente, convivem com ditaduras?

Sugestão de filme: Hotel Ruanda

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé.


Produção jornalística de Pierre Verger é tema de debate

postado por Cleidiana Ramos @ 1:45 PM
17 de agosto de 2009
Angela Luhning é a palestrante convidada do projeto Conversando com a História, amanhã. Foto: Divulgação| Ascom-Fundação Pedro Calmon

Angela Lühning é a palestrante convidada do projeto Conversando com a sua História, amanhã. Foto: Divulgação| Ascom-Fundação Pedro Calmon

Programa legal amanhã a partir das 17 horas, no Centro de Memória da Bahia, localizado na Biblioteca Pública do Estado, nos Barris: a professora da Ufba e diretora da Fundação Pierre Verger, Angela Lühning, participa da aula pública do projeto Conversando com sua História, da Fundação Pedro Calmon, órgão da Secretaria Estadual de Cultura (Secult).

O tema é a atuação de Pierre Verger na revista O Cruzeiro, que foi um periódico de grande circulação no Brasil e famoso pelas grandes reportagens tanto escritas como visuais.  A professora Angela vai falar exatamente sobre esta produção jornalística de Verger, inclusive a escrita, que muito pouca gente conhece.

Verger fez parte do quadro de repórteres de O Cruzeiro, de 1946 a 1959, onde realizou mais de 200 reportagens embora nem todas tenham sido publicadas. O projeto Conversando com a sua História é desenvolvido pelo Centro de Memória da Fundação Pedro Calmon e acontece sempre às terças-feiras.

“A palestra abordará a atuação de Pierre Fatumbi Verger ligada à revista O Cruzeiro, em geral como fotógrafo, acompanhando os textos de vários jornalistas. Muitas delas foram publicadas e muitas outras ficaram sem alcançar o público naquela época. O que é pouco conhecido é que Verger escrevia muitos dos textos das reportagens, especialmente nos anos 50, quando trabalhava para O Cruzeiro Internacional”, explica a professora. Doutora em Etnomusicologia, Angela tem trabalhos com ênfase em temas como música, candomblé e cultura afro-brasileira.

Em Pierre Verger – repórter fotográfico, livro de autoria da pesquisadora, foram publicadas reportagens inéditas rejeitadas por  O Cruzeiro. Hoje,  este material está preservado na Fundação Pierre Verger. Nesta coleção fica patente o crescente interesse de Verger pela África. “É a devolução à sociedade de um material que Verger pensou para um momento importante. Ele queria mostrar mais da cultura africana”, destaca Angela.

Segundo ela, O Cruzeiro chegou a sugerir que os textos fossem transformados em um único artigo. “Verger respondeu que não daria para juntar devido à importância dos diferentes aspectos ali contidos”, relata.

Viram que o papo realmente promete?  Outras informações com o Centro de Memória: 3117-6030/6050

 


Angela Davis- Parte III

postado por Cleidiana Ramos @ 6:33 PM
10 de agosto de 2009

Angela-Davis-04

AT – O que pensa a Sra. pensa sobre as ações afirmativas no Brasil?
AD-Não tenho acompanhado esta discussão rigorosamente. Mas, na minha primeira visita ao Brasil, em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, as pessoas estavam apenas começando a reconhecer que o Brasil não era uma democracia racial. As ações afirmativas ainda estão sendo muito atacadas nos EUA, mas têm sido responsáveis pela integração de várias instituições em lugares, por exemplo, como a África do Sul. Eu sei que aqui no Brasil elas acontecem no que diz respeito às universidades. As ações afirmativas são um instrumento muito importante. O discurso nos EUA modificou-se. No lugar de se falar sobre ações afirmativas fala-se agora sobre diversidade, o que é problemático. A administração de George Bush foi a administração mais diversificada na história dos EUA antes da administração de Obama. Mas ele colocou em seu governo negros e latinos conservadores. Essa diversidade tem sido definida como a diferença que não faz a diferença.

AT – Quando foi implantada a política de ações afirmativas nos EUA?
AD- Em 1977, tivemos o primeiro desafio jurídico às ações afirmativas. Isso aconteceu num caso levantado por um homem branco que não foi admitido para a Universidade da Califórnia e desde então há o caso de vários outros processos judiciais impetrados por brancos que argumentam ser vítimas de um racismo às avessas.

AT – No Brasil, o STF prepara-se para julgar a constitucionalidade das cotas a partir de uma provocação do DEM.
AD- A meu ver, deve-se desafiar pressuposições de que o caso trata apenas de homens brancos como indivíduos e mulheres negras como indivíduos que estão ali lutando por um emprego. As ações afirmativas nunca foram concebidas para ajudar indivíduos apesar do fato de que indivíduos se beneficiam das mesmas. A ideia é soerguer uma comunidade inteira. Trata-se de uma população que foi objeto de discriminação. Tanto nos EUA como no Brasil nós ainda vivemos com o sedimentos da escravatura. A escravidão não é somente algo que existe no passado. Habita o nosso mundo hoje em dia, com toda a pobreza, o analfabetismo. As ações afirmativas são um passo inicial em termos de se abordarem questões de escravatura, colonização. Esquece-se tudo isso. Parece que existem só duas pessoas: um homem branco e um homem negro, ou um homem branco e uma mulher negra.

AT – A Sra. vem de uma geração muito politizada. Como analisa a ação política da juventude do mundo atual?
AD-Eu estou muito entusiasmada. Não sou o tipo de pessoa que gosta de deitar nos louros da minha geração. Eu sei que cada geração abre uma nova trilha. Frequentemente pessoas que se engajaram em movimentos pressupõem que cada geração tem de fazer a mesma coisa da mesma forma. A minha postura é a de aprender com os jovens, porque sempre são eles que provocam as mudanças radicais. Grande parte do meu ativismo é contra o complexo industrial carcerário. Este é um movimento cuja maioria é constituída por jovens que utilizam métodos diferentes. Eles utilizam representações culturalistas, como música, e usam novas formas de comunicação, como facebook. Estou aprendendo muito com isso.

AT – É um movimento interessante, então.
AD-Estou feliz que eles tenham feito isso, porque se transforma o terreno para que se possa desenvolver novas ideias, expandindo o nosso conhecimento sobre as possibilidades para a liberdade. Por isso eu acho tão importante prestar atenção nos jovens. Eu não acredito nessas pessoas que dizem que os jovens são apáticos que eles não estão fazendo nada. Nós precisamos acompanhar este movimento, de maneira que estas noções de liberdade se expandam e se tornem mais abrangentes porque eu não acredito que chegaremos num ponto no qual possamos dizer “isto é liberdade, nós chegamos ao topo da montanha e podemos parar de lutar”. Acho que será uma luta infinita e as vitórias que conquistamos nos permite imaginar novas liberdades. O discurso de Martin Luther King, conhecido como Eu tenho um sonho, fala sobre chegar ao topo da montanha. Ele nunca diz o que se vê ao chegar ao topo da montanha. Acredito então que cada geração vai criar novas imaginações do significado de ser livre.


Entrevista com Angela Davis em A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 11:04 AM
8 de agosto de 2009
Angela Davis veio a Salvador para participar da XII edição do programa Fábrica de Idéias. Foto: Fernando Amorim| Ag. A TARDE

Angela Davis veio a Salvador para participar da XII edição do programa Fábrica de Idéias. Foto: Fernando Amorim| Ag. A TARDE

Esta semana ganhei um destes presentes que a atividade de repórter quase sempre nos oferece: fui escalada para entrevistar a famosa ativista do movimento negro e dos direitos para as mulheres nos EUA, Angela Davis. O resultado sai na edição de amanhã do jornal A TARDE.

Dona de uma inteligência cativante e de uma linha de raciocínio que transforma em clareza idéias bastante complexas, Angela Davis, ícone de movimentos como o Panteras Negras, veio a Salvador para participar da XII edição do programa Fábrica de Idéias.

Coordenado pela doutora em sociologia Ângela Figueiredo e pelo doutor em antropologia Lívio Sansone, a Fábrica, como é mais conhecido, é sediado no Ceao e promove o treinamento de jovens pesquisadores na área dos estudos étnicos.


Ruy Barbosa e Abolição

postado por Cleidiana Ramos @ 3:08 PM
4 de agosto de 2009

Amanhã, a partir das 17h30 acontece a palestra Ruy Barbosa: Abolição e Cidadania no Brasil, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).

A palestra será proferida pela doutora em História, Wlamyra Albuquerque, professora da Ufba. Mais informações no site do IGHB (www.ighb.org.br). A entrada é gratuita.


Lançamento de Imagens do Sagrado

postado por Cleidiana Ramos @ 7:14 PM
24 de julho de 2009

Bom programa para amanhã, sábado: a partir das 18 horas, na Galeria do Livro (Espaço Unibanco de Cinema-Glauber Rocha, na Praça Castro Alves), tem o lançamento do livro Imagens do Sagrado, de Fernando de Tacca.

O livro é um belo estudo sobre as imagens de candomblé veiculadas nas revistas O Cruzeiro e Paris Match na década de 50. Com fotografias sobre a iniciação, processo conhecido como “feitura”, as reportagens causaram uma intensa polêmica no mundo religioso afro-brasileiro e entre a intelectualidade da época, principalmente por meio de severas críticas aos autores das reportagens.

A polêmica envolveu nomes como José Medeiros, autor das fotos para O Cruzeiro, Henri-Georges Clouzot, que produziu o material para a Paris Match, Roger Bastide, Alberto Cavalcanti, Pierre Verger, Odorico Tavares, dentre outros.

Com farto material documental, entrevistas e imagens, o trabalho de Tacca, fotógrafo, doutor em antropologia e professor da Unicamp,  é leitura obrigatória para os que se interessam pelo universo do candomblé e, principalmente, por sua relação com a mídia.


Fábrica de Ideias realiza workshop

postado por Cleidiana Ramos @ 2:02 PM
20 de julho de 2009
A professora Ângela Figueiredo coordena o seminário Fábrica de Idéias. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

A professora Ângela Figueiredo coordena o seminário Fábrica de Idéias. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Nos próximos dias 30 e 31 vai acontecer o workshop intitulado Corpo, Poder e Identidade. A atividade é organizada pela Fábrica de Ideias, um curso avançado de estudos étnico-raciais, que acontece no Ceao/Ufba.

A expectativa é reunir pesquisadores dos diferentes níveis da trajetória acadêmica que tenham interesse no tema. Em destaque as relações entre o corpo, poder, identidades e sua afirmação, política, religião e cultura em variadas regiões do mundo.  

“Acreditamos que dialogar e socializar experiências e práticas de pesquisa sobre o tema enriquecerá a todos nós”, diz Ângela Figueiredo, coordenadora do seminário Fábrica de Ideias.

Para participar do workshop é necessário enviar um e-mail para fabrica@ufba,br. O e-mail deve ter as seguintes informações: nome do interessado, titulação,instituição, tema da pesquisa e um resumo sobre ela de até 15 linhas. 
 

 


Ideias em Palavras: O clássico de Fanon

postado por Cleidiana Ramos @ 9:57 AM
15 de julho de 2009
Livro traz abordagem sobre a complexidade do racismo.  Foto: Reprodução | Divulgação

Livro traz abordagem sobre a complexidade do racismo. Foto: Reprodução | Divulgação

Seguindo a sugestão da leitora do blog,  Missione Mour, vou sempre que possível sugerir algumas leituras sobre temas ligados a etnicidade e religiosidade afro-brasileira. Começo esta seção com Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon.

Uma nova edição em português foi lançada no ano passado pelo Ceao,  editado pela Edufba, com o apoio do Uniafro, programa ligado à Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação (Mec). O livro de Fanon é uma importante obra contemporânea sobre o racismo e seus impactos.

Natural da Ilha da Martinica o autor morreu jovem, aos 36 anos, nos EUA, mas deixou uma produção intlectual significativa.  No prefácio do livro, Lewis R. Gordon, presidente da Associação Filosófica Caribenha, afirma  que abordar a obra de Fanon em uma aula, nas décadas e 1960 e 1970 era se arriscar a perder o emprego, o que já dá uma idéia da força das suas afirmações.

Em Pele Negra, Máscaras Brancas, Fanon critica a negação do racismo contra a população negra na França, algo que ainda é atual, inclusive no Brasil.  Mas quem disse que ele para por aí? A polêmica vai mais além, pois Fanon afirma que esta negação é feita também por pessoas negras. O autor não generaliza a prática racista, mas examina o problema em variados níveis, inclusive no campo da construção do conhecimento.

Uso aqui  um trecho do prefácio de  Lewis R. Gordon:

“O livro fala por si mesmo, mas também é um livro que fala através de si mesmo e contra si mesmo. Fanon literalmente põe em xeque a maneira como entendemos o mundo e também provoca um desconforto na nossa consciência que aguça ansiosamente o nosso senso crítico”.

Com uma linguagem que passeia por vários formatos, inclusive a poesia, o trabalho aborda racismo, colonialismo, publicidade e linguagem. Esta, inclusive, é para o autor uma questão crucial, pois dominar a linguagem significa assumir uma identidade cultural.

O problema é que, segundo ele,  no caso dos negros, esta legitimidade cultural não se cumpre mesmo com o domínio do idioma.

“Muitos negros acreditam neste fracasso de legitimidade e declaram uma guerra maciça contra a negritude. Este racismo dos negros contra o negro é um exemplo da forma de narcisismo no qual os negros buscam a ilusão dos espelhos que oferecem um reflexo branco. Eles literalmente tentam olhar sem ver, ou ver apenas o que querem ver“, explica o autor do prefácio que, realmente, funciona como uma ótima introdução para o livro.

Pele Negra, Máscaras Brancas  foi traduzido pelo doutor em antropologia, professor da Ufba e artista plástico, Renato da Silveira, também autor da capa. A ideia de Renato aproveita exemplos que Fanon expõe ao longo do seu livro para explicar suas análises sobre a construção da imagem do negro na publicidade.

Na época em que fiz a matéria sobre o livro para o Caderno 2 de A TARDE, a explicação de Renato foi a seguinte:

“Decidi fazer uma pesquisa e escolhi imagens do negro que aparecem, principalmente, na propaganda comercial francesa, entre 1890 e 1950. São inclusive imagens citadas no texto de Fanon”.

Quem quiser mais informações sobre o livro,  a matéria que eu fiz e citei acima saiu na edição de A TARDE de 07/04/2008  no Caderno 2.  Um bom lugar para fazer pesquisas de edições antigas do jornal é o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), que funciona de segunda à sexta a partir das 14 horas.

Sugestões de locais onde o livro pode ser encontrado: 

Livraria do Ceao 
Avenida Carlos Gomes (das 14 às 18 horas)
Telefone: 3283-5516

Livraria Edufba – 3283-7075 e 3283-6165

 


Seminário une Brasil e França

postado por Cleidiana Ramos @ 8:11 PM
9 de julho de 2009

Atenção pesquisadores sobre as questões de gênero, raça, classe e identidade social: estão abertas as inscrições para o seminário que une Brasil e França. O encontro vai acontecer de 5 a 8 de agosto em Salvador na Escola Politécnica da Ufba.

As instituições que representam o Brasil na organização do evento são o Neim-Ufba, Uneb, UFC, UFF, Univasf e Associação de Pesquisadores Negros da Bahia (APNB). Já as representantes da França são CRBC e EHESS.    

Podem participar estudantes de graduação, especialização, mestrado e doutorado.  As inscrições vão até o dia 25 deste mês. Mais informações no site do Neim. É só clicar aqui.

 


Candomblé e Umbanda em foco

postado por Cleidiana Ramos @ 8:24 AM
6 de julho de 2009
Uma das fotografias que fazem parte da pesquisa. Foto: Arestides Baptista | Arquivo A TARDE | 10.08.82

Uma das fotografias que fazem parte da pesquisa. Foto: Arestides Baptista | Arquivo A TARDE | 10.08.82

É hoje a exibição das fotos no Ceao que fazem parte da minha pesquisa para o mestrado. Intitulado Imagens das Religiões Afro-Brasileiras no Arquivo Fotográfico do Jornal A TARDE, o estudo traz registros que mostram rituais e outros aspectos do candomblé e da umbanda a partir da visão de fotojornalistas.

O encontro, que tem como objetivo reunir membros dos terreiros da cidade e fotojornalistas, principalmente, para auxiliar na identificação de autoria das imagens e  dos seus personagens, começará às 16 horas. O Ceao fica no Largo 2 de julho.


Exibição de fotos no Ceao

postado por Cleidiana Ramos @ 1:21 PM
19 de junho de 2009
A foto retrata a purificação de ferramentas que serão utilizadas para o corte de árvores sagradas na Casa Branca. Foto: Arquivo A TARDE

A fotografia retrata a purificação de ferramentas utilizadas para a poda de árvores sagradas na Casa Branca. Foto: Arquivo A TARDE

Peço licença aqui para legislar em causa própria, mas é por um bom motivo: no próximo dia 6 estarei apresentando uma coleção de 50  fotos que fazem parte da minha pesquisa de  mestrado. Elas pertencem a um conjunto de 1432 imagens que abordam aspectos das religiões afro-brasileiras no acervo documental do jornal A TARDE. 

A exibição será no Ceao, das 16 às 18 horas. O meu objetivo e do meu orientador, professor Claudio Luiz Pereira, é reunir membros dos terreiros de candomblé e umbanda, repórteres fotográficos de A TARDE e demais interessados.

Isto porque o maior obstáculo que encontrei no processo de pesquisa é que em uma boa parte dos registros não há identificação dos seus autores ou dos personagens retratados. O crédito das fotografias nas páginas do jornal só passou a ser rotina a partir da década de 1980. Antes, ele só acontecia em situações muito especiais.

Como já estou finalizando a dissertação e estou numa correria danada- trabalhar muito e estudar muito ao mesmo tempo é fogo!-  imaginamos que uma exibição coletiva ajuda e muito. Sou aluna do mestrado, que faz parte do Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Ufba (Pos Afro).

O interessante do meu estudo é que ele traz uma abordagem de como o candomblé e a umbanda, principalmente, foram representados pelo fotojornalismo.

As fotos em sua maioria são das décadas de 70 e 80, mas tem também registros dos anos 50, 60, 90 e 2000. Posso garantir para vocês que tem algumas raridades e sofri muito para fazer esta seleção diante da riqueza do material,  mas não vou entrar em detalhes para não estragar as expectativas.


África X Genocídio

postado por Cleidiana Ramos @ 9:25 AM
12 de junho de 2009

Bom programa para pesquisadores e estudantes dos temas étnicos e relacionados à África: segunda-feira, 15, das 18h30 às 20h30, o professor Herbert Ekwe-Ekwe profere, no Ceao, a palestra A África, o Estado, Genocídio e o Futuro.

Herbet Ekwe é nigeriano, formado em Ciências Políticas e autor de pesquisas sobre a África e questões de genocídio. Ele também é especialista em literaturas africanas e autor do livro  Biafra Revisited e Chinua Achbe: literature in defense of history.

Um outro livro seu está prestes a ser publicado:Readings from Reading: Essays in African Politics, Genocide, Literature.


Os laços entre a Bahia e o Benin

postado por Cleidiana Ramos @ 4:44 PM
23 de abril de 2009

Amanhã, sexta-feira, tem palestra boa no Ceao. Trata-se de O Brasil na HIstória e Historiografia do Daomé-Benin, proferida pelo professor Elisée Soumonni, a partir das 18h30. 

O Ceao fica no Largo 2 de julho. A palestra é uma promoção da instituição, em parceria com o Programa de Pós Graduação em Estudos Étnicos e Africanos (Pós Afro) e com o Programa de Pós Graduação em História, todos da Ufba. 

Elisée Soumonni é professor visitante do Posafro neste semestre, onde ministra um curso juntamente com o professor da Ufba, Luis Nicolau Parés. Ele é Phd em História da África pela Universidade de Ifé, Nigéria e dedicado à pesquisa e ao ensino tanto na Nigéria como no Benim. 

O foco das suas publicações é o Daomé pré-colonial e os retornados brasileiros que foram da  Bahia para o Benin durante o século XIX. A palestra abre o ciclo de eventos comemorativos dos 50 anos do Ceao.