Arquivo da Categoria 'Humor'


Grupos afro celebram Revolta dos Búzios

postado por Cleidiana Ramos @ 5:31 PM
29 de setembro de 2010

Conen é uma das entidades que participa do movimento de amanhã. Foto: Luciano da Matta | Ag. A TARDE| 18.11.2005

Amanhã, a partir das 16 horas, com concentração no Campo Grande, tem festa por conta dos 212 anos da Revolta dos Búzios.

Além de religiosos de matriz africana e representantes das entidades do movimento negro organizado, o evento vai ser embalado pelas bandas do Olodum, Malê Debalê, Os Negões, Muzenza, Cortejo Afro, Okambí, Afoxé Filhos do Congo e Ilê Aiyê.

A organização tem o apoio, além desses grupos culturais afro, da Unegro, Coletivo de Entidades Negras (CEN), MNU, Cordenação Nacional de Entidades Negras (Conen) e Instituto Pedra do Raio.

As principais reivindicações do evento são:  liberdade religiosa, cultura de paz, financiamento público e privado da cultura afro-brasileira, ações para a operacionalização da da Lei 11.645/08, que inclui nos currículos escolares o ensino de História da África, Cultura Afro-brasileira e História e Cultura Indígenas, ações afirmativas na saúde, saneamento básico, emprego e renda, moradia e educação.

A Revolta dos Búzios, ocorrida em 1798, foi um dos mais avançados movimentos em defesa da cidadania. Seus líderes, todos negros, foram mortos pelo poder político da época.


Balaio de Ideias: 325 anos do Rosário dos Pretos

postado por Cleidiana Ramos @ 9:37 PM
28 de setembro de 2010

Artigo celebra história da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE| 28.10.2007

Jaime Sodré

Não sabemos se por auto-definição remetente à África, os “homens pretos” queriam ser tratados como tal, “pretos”, ou por imposição típica da época em que pretos eram apartados dos brancos, ou pelo fato da impossibilidade de freqüentar a “Igreja dos brancos”. Eles queriam uma igreja só para si, “irmandade de pretos” “bi-pertencial” e caridosa.

Assim nascera a Venerável Ordem Terceira Nossa Senhora às Portas do Carmo – Irmandade dos Homens Pretos de Salvador. O franciscano Frei Jaboatão demonstrara o interesse dos “pretos” nas Irmandades, sendo as mais requeridas as de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, “o santo preto de Palermo” informa Renato da Silveira. Frei Agostinho de Santa Maria notificou a existência de 27 imagens de devoção pública e a existência de doze irmandades de “homens pretos”, forros e cativos. Para Antonia Quintão, São Benedito fora o santo preto de maior prestígio, junto a outros “pretos”, como Santa Efigênia, Santo Elesbão, Santo Rei Baltazar e Santo Antonio de Categeró.

As irmandades eram espaços étnicos, associativos, “previdenciários”, local de construção e manutenção de uma identidade “negro-preta”. Eram instaladas em templos seculares ou conventuais, abrigando confrarias, como os altares laterais da Conceição da Praia, que entre outras, resguardava a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário “dos Brancos”, a de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, “dos Pretos”.

Os compromissos definiam a especificidade dessas agremiações, de vínculos corporativos, profissionais, de gênero ou origem, lembra Maria Helena Flexor. Algumas requeriam “pureza de sangue”, ou seja, não admitindo judeu, mouro, índio, negro ou qualquer outra “raça infecta”. Informa Silveira que a Ordem Terceira de São Francisco e Irmandade dos Santos Passos de Cristo, instalada no Convento do Carmo, exigia esta “pureza”. A devoção de Nossa Senhora do Rosário, prestigiada junto aos pretos, cativos e forros, concentrada na antiga Catedral da Sé, remonta ao século XVII. Segundo Frei Agostinho, era “bem mais antiga do que a Senhora do Amparo dos Pardos livres”. A do Rosário dos Pretos tinha o seu compromisso datado de 1685 e entre os anos de 1703 a 1704 iniciara a construção da sua Capela às Portas do Carmo. Outras Irmandades de pretos foram criadas, destacando a de Santo Antonio do Categeró e a de São Benedito da Paria.

Definidas como associações de caráter religiosas leigas, estas confrarias, incentivadas pela Igreja, eram espelhadas em devoções que nos remetem a Portugal, extrapolavam o universo religioso, destacando os seus aspectos recreativo, social, de prestígio e valores da africanidade, ajuda aos enfermos e carentes, funerais, alforria e contra os maus-tratos aos escravos.

Não é a toa que a Irmandade dos Pretos de Salvador tenha como articuladores e construtores do seu templo os oriundos de Angola, onde desde o século XVII já existia naquela localidade uma Igreja do Rosário e imagem de São Benedito. As Irmandades tinha vinculações étnicas: Nossa Senhora dos Remédios era da Costa da Mina; do Senhor Bom Jesus das Necessidades do povo jeje; Barroquinha dos jeje-nagô. Eram espaços das relações entre as culturas européias e africanas, funcionando na preservação e difusão da experiência africana, legitimação da comunidade, reação às coerções católicas, mas também local de controle desta própria Igreja.

A mesa diretora era dirigida pelos da “raça”, visto que o Compromisso de 1820 pedia o afastamento dos brancos da mesma. Em 1769 fora ordenada por um compromisso aprovado por Lisboa, no ano 1781 elevada à categoria de Ordem Terceira. A irmandade requereu o atual terreno e heroicamente construiu a sua Igreja, que tem no seu Altar-Mor Nossa Senhora do Rosário. Parabéns à Mesa Administrativa que tem com Prior o competente Julio César e uma homenagem especial a D. Nolair, a mais idosa Visitadora. À Fundação Palmares: precisamos digitalizar a importante documentação da Irmandade, já sob ação de vândalos travestidos de pesquisadores. “Pesquisadores? Yayá me deixe”.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Seminário celebra aniversário de irmandade do Rosário

postado por Cleidiana Ramos @ 5:10 PM
15 de setembro de 2010

Irmandade do Rosário dos Homens Pretos preserva história de resistência. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE

A importante Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos está comemorando o seu aniversário de 325 anos com um seminário que vai começar amanhã e prossegue até sábado. O encontro é na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, localizada nos Barris.

Atenção para o horário: amanhã e sexta será das 18 às 20 horas e no sábado das 8 horas ao meio-dia.

A irmandade é um grande marco da resistência contra a escravidão. Fundada por escravos e libertos vindos da área onde hoje está Angola desempenhava a função de previdência e, principalmente, de administração de um fundo para a compra de alforrias.

A sua história envolve várias belas passagens e está também ligada ao surgimento de outras associações como a Sociedade Protetora dos Desvalidos e a Irmandade de Nosso Senhor dos Martírios, que ficava na Igreja da Barroquinha e onde, possivelmente, surgiu a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte.

O seminário é uma excelente oportunidade para ouvir estas e outras histórias.  Clique aqui para conferir o blog da Irmandade.


Educaxé: Ancestralidade na perspectiva da Educação

postado por Cleidiana Ramos @ 5:31 PM
27 de agosto de 2010

Jaime Sodré

Antes de nos dedicarmos a uma abordagem mais direcionada aos objetivos que seriam implementados no campo da educação, numa abordagem da africanidade, seria importante abordar a noção de ancestralidade, dentre outras, enquanto um conceito. Ancestral teria como definição básica “as pessoas de quem se descende”, ou seja, nossos ancestrais ou de forma mais simples os nossos antepassados do ponto de vista de uma linhagem biológica, num campo individualizado. Poderemos também aplicar este conceito levando em conta as contribuições materiais herdadas das realizações anteriores, mesmo sendo uma criação independente do pertencimento ao nosso grupo, ou seja, de aplicabilidade universal. Assim é que um invento aplicável à humanidade, sem restrição, fará parte de um repertório de um bem universal aplicável a todos os grupos de indivíduos.

Tem-se como ancestral da espécie humana o surgimento dos Australopitecos, espécie de hominídeos surgido na África no Vale do Rift, Lago Turkawa no Quênia; Garganta Olduai na Tanzânia, Haddar e Vale do Ouro na Etiópia, Taung, Makadansgat na África do Sul, dentre outros. Em um  conceito antropológico este antepassado será considerado pelos seus feitos, objeto de culto. Sua relação com os vivos pode ser resultado de uma genealogia real ou fictícia, digna de reverências, comemorações, transmissão e difusão dos seus feitos às gerações presente e futura.

A ancestralidade no campo do bem material pode ser vista como um patrimônio material e/ou espiritual, entendido como herança de um determinado grupo ou universal, que se perpetua enquanto memória concreta.

Para o africano, o ancestral será um elemento venerado que deixara uma herança espiritual sobre a terra, contribuindo para a evolução da comunidade ao longo da sua existência, e pelos seus feitos é tomado como referencia ou exemplo. Este conceito se alonga à concepção de ações, métodos e instrumentos que proporcionaria vantagens materiais.

A ancestralidade na Educação como meio de transmissão do saber tem como suporte a tradição oral; a tradição escrita; a tradição histórica; o repertório de mitos e lendas; aspectos linguisticos; o campo do lúdico; parlendas; o campo musical; o campo das artes, etc. Em resumo: a ancestralidade na educação atuará no campo da memória individulal ou coletiva.

Ancestralidade e Repertório Temático

Para efeito de sugestões, quanto a ações práticas da Ancestralidade na Educação listamos a seguir o que chamamos de Repertório Temático, elemento que poderá servir de apoio para um planejamento e aplicação em sala de aula.

1. Ancestralidade Cultural Africana- Objetiva informar sobre a diversidade étnica e lingüística africana e destacar os grupos que interagiram com a realidade brasileira, a exemplo dos yorubá, banto e ewe.

2. Ancestralidade e Arte Africana- Destacar o amplo repertório da realização artística africana, sua inserção no cenário mundial inspiradora do cubismo, dentre outras manifestações artísticas; sua continuidade na diáspora, especialmente no Brasil, como estruturante de uma arte afro-brasileira.

3. Ancestralidade e Resistência- Enfocar os aspectos dos processos de resistência dos povos africanos aos processos de colonização desde a África, em especial as lutas contra a escravatura e os quilombos.

4. Ancestralidade e Assistência- Observar as diversas formas de ajuda mútuas experimentadas pelos povos africanos, em especial no regime escravo, tendo com ênfase a Sociedade Protetora dos Desvalidos, sediada em Salvador.

5. Ancestralidade Estética- Observar os diversos arranjos corporais, adereços, vestimentas, trançados, etc., reveladores de uma estética africana, amparada no seu bom gosto estético e particular.

6. Ancestralidade Religiosa-  Observar a diversidade religiosa africana e as suas conseqüências sobre as mais diversas experiências de fé naquele continente, conflitos e acordos, e a sua aplicação na diáspora em especial, em relação ao Candomblé, Voduns etc. Com destaque para uma observação critica quanto a Intolerância Religiosa.

7. Ancestralidade Musical- Observar as mais diversas formas de expressão musical e dança na África e sua aplicação no contexto da diáspora como continuidade e inspiração.

8. Ancestralidade Católica- Observar a atuação da Igreja Católica no âmbito da África e na diáspora suas formas particulares, as irmandades negras, o sincretismo e formas de convivências e conflitos.

9. Ancestralidade Científica, Tecnológica e Filosófica- Destacar as personalidades negras que contribuíram e contribuem para o processo civilizatório brasileiro e mundial, no campo da ciência, tecnologia e filosofia como referencia ao aluno da possibilidade de atuação nestes campos. Ex. André Rebouças, Milton Santos, etc.

10. Ancestralidade Heróica-Destacar personalidades negras como agentes de ações históricas importantes no campo dos conflitos locais e mundiais a exemplo de João Candido, “O Almirante Negro” da Revolta da Chibata;  Maria Filipa, nas ações do 2 de Julho,  Rainha Nzinga de Mutamba, etc.

11. Ancestralidade Política- Destacar personagens e situações onde se revela o empenho de personalidades negras em busca de ideais democráticos e libertários a exemplo da Revolta dos Alfaiates, Sabinada, Guerra dos Farrapos, Cabanagem, Balaiada, Quilombo dos Palmares, etc. Mulheres como Almerinda Gama, primeira deputada estadual negra; Antonieta Barros, Maria Brandão, Benedita da Silva, etc.

12. Ancestralidade Guerreira- Destaque para a Guerra do Paraguai e para os atos de bravura de Cesário alves da Costa, herói do Forte de Curuzu, promovido a sargento; Antonio Francisco Melo, que se destacou na Marinha, na Batalha de  Riachuelo e chegou a capitão; o seu batalhão era formado só por negros; Marcilo Dias, um bravo, foi ferido e morto na Batalha de Riachuelo ao negar a rendição do seu barco, O Paranhayba.

13.Ancestralidade Negróide e Australianos- Os cientistas fizeram uma reconstituição do crânio fóssil mais antigo das Américas, encontrado em Lagoa Santa, Minas Gerais, por uma expedição franco-brasileira em 1975, Perceberam que os traços eram semelhantes aos povos negróides e australianos.

14. Ancestralidade Feminina Guerreira- Nzinga Mbandi Ngola, Rainha Ginga, foi batizada no catolicismo com o nome de Ana de Souza. Seu nome Ngola fora usado pelos portugueses para nomear uma região na África com o nome de Angola. Era contra a escravatura, ao contrario do rei do Congo. Após a sua morte os seus soldados foram vendidos como escravos.

Saiba mais:

África e Brasil Africano – Marina de Mello e Souza- Editora Ática

Atlas Brasileiros- Cultura Popular – Raul Lody- Editora Maianga

História do Brasil- Os 500 anos no País em Obra Completa e Atualizada- Folha de S. Paulo

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religiso do candomblé


Educaxé está de volta

postado por Cleidiana Ramos @ 5:30 PM
27 de agosto de 2010

O Educaxé, realizado pelo professor Jaime Sodré, está de volta ao Mundo Afro. Estava à espera de um tempinho  na agitada agenda do professor para pedir o retorno do projeto.

A iniciativa, cuja ideia foi dele, é direcionada especialmente aos professores para servir como material didático para aplicação da Lei 11.645/08, novo número da que é mais conhecida como 10.639/03, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. A modificação foi para incluir também História e Cultura indígenas.


Balaio de Ideias: Sabor dos saberes

postado por Cleidiana Ramos @ 2:11 PM
23 de agosto de 2010

Professor sugere criação de roteiro gastronômico e cultural. Foto: Eduardo Martins| AG. A TARDE

Jaime Sodré

Perguntado sobre a capoeira Mestre Pastinha disse: “É tudo que a boca come”, ou seja, é PRAZER. COMER É SABOR E SABER. Dr. Carlos Costa Neto, brilhante humanista, amigo comum do Dr. Eraldo Moura Costa, bons de garfo: disse-me: “há coisa mais gostosa que comer?” Pois é, no 1º Seminário Nacional de Turismo Étnico Afro e 1ª Feira da Produção Associada ao Turismo Étnico Afro, realizado este mês no Centro de Convenções da Bahia, promovido pela Bahiatursa, abordei o nosso projeto de culinária nos terreiros, com a boca “cheia d’água” e a qualificada contribuição acadêmica do Prof. Dr. Vilson Caetano. Louvo neste momento o Professor Doutor Vivaldo da Costa Lima, o “Pai da Matéria”.

Pensar o turismo étnico, neste caso afro, exige uma postura de inclusão e valorização das populações afrodescendentes brasileiras, em especial na Bahia e Recôncavo baiano. Como prova de reconhecimento desta valorosa contribuição cultural, esta modalidade turística poderá ser a motivação primordial para a profissionalização, roteiros qualificados, sustentáveis, com preparação para atender a demanda dos prestadores de serviços, além de gerar emprego e renda, enfim preservar a cultura, dentro da sua dinâmica própria, difundir e gerar conhecimentos e uma boa imagem da saborosa Bahia. O nosso projeto teve o nome de “Um Sabor Sacrossanto – a culinária Afro-Baiana”. Permitam-me breve introdução. Culinária baiana seria aquela localizada no Recôncavo e litoral, caracterizada, principalmente, pelo azeite de dendê, leite de coco, pimenta, etc.

Saboreada em comemorações religiosas, familiares, ou no cotidiano. Quanto ao preparo e preservação podemos estabelecer a dicotomia dentro e fora dos terreiros. Modernamente diríamos que esses pratos dialogam com a contribuição indígena e portuguesa. O processo de institucionalizações dos terreiros brinda com a sistematização das receitas e preservação, na obrigação religiosa, indo ao cotidiano. A fé e o sabor encontram harmonia em diversas opções religiosas, como é o caso dos sequilhos do Convento da Lapa e os deliciosos licores do Desterro. O turismo e o candomblé tiveram alguns momentos de conflitos e hoje se busca uma interação respeitosa, inclusive através dos parâmetros estabelecidos por Mãe Stela, regulando esta proximidade, que seja respeitosa, isenta de folclorização e exotismo.

Afinal, somos uma religião. Do Ponto de vista histórico Luis dos Santos Vilhena, falando sobre “as comidas de rua do século XVIII” nomeia: “saem… negros a vender pelas ruas, mocotós, carurus, vatapás, mingaus, pamonha, canjicas… acaçá acarajés, abara, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão-de-ló… roletes de cana, queimados…”, cruel, diz Vilhena, “o que mais escandaliza é a água suja feita com mel…que chamam aluá, que faz de limonada para os negros”.
Afrânio Peixoto, mais generoso, diz ser a Bahia um feliz consorcio entre o melhor de Portugal, da Costa da África e “o pouca coisa do Índio”. O negro brindou a cozinha baiana com o dendê, leite de coco, colorindo e saboreando o cotidiano, ensinou o vatapá, o caruru, mungunzá, etc. Nosso projeto tenciona aproximar o visitante aos sabores sagrados dos deuses, os permitidos, associados a um cardápio mais amplo das especificidades baianas.

O visitante, nos espaços sociais dos terreiros, através da formação de interlocutores da comunidade religiosa, saberá da história e apreciará a sua culinária. Para êxito do projeto a Bahiatursa, através da sua competência, realizará capacitação, adequação das instalações com equipamentos, capital de giro, indumentária, intermediação com as agências credenciadas ou guias de turismo e selo de qualidade.

Um roteiro sugestivo foi exibido, tomando com referência o bairro da Federação. O circuito seria iniciado com um café da manhã em um terreiro, merenda das 10 em outro, almoço em outro, merenda das 15 em outro, mingaus e uma sessão de chás, digestivos ou não, em outros.  Um cafezinho será bem vindo. No mais, o resultado é  um bom apetite e conhecimento ampliado. Ah, para a sobremesa… Picolé Capelinha, coisas com a cara da  Bahia. Um aviso aos acolhedores: Dr. Costa Neto disse que posso comer feijão fradinho, mas controlado. Acabou a “quizila”. SALVE O PRAZER.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Festa para Ebomi Cidália de Iroko

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
21 de agosto de 2010

Homenagem aos 80 anos de Ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro|Ag.A TARDE|19.10.2007

Dia emocionante ontem. Com o professor Jaime Sodré á frente, fizemos uma homeangem aos 80 anos de nascimento de Ebomi Cidália Soledade.

O anfitrião da homeangem foi o Terreiro Oxumarê. Na parte da manhã, ela teve um encontro comigo e mais três jornalistas: Juliana Dias, Marlon Marcos e Meire Oliveira. Foi uma delícia o bate-papo, com histórias fantásticas. Falamos da sua infância, juventude e também, claro, de candomblé.

Na parte da tarde, autoridades de vários terreiros deram o seu depoimento sobre a que é considerada “A Enciclopédia da Bahia”. Enfim, uma homenagem linda e merecida que está apenas na sua primeira parte.

O resultado desse dia fantástico, por exemplo,  logo, logo vai ser publicado. A espera vai valer a pena.


A bela festa da Boa Morte começa amanhã

postado por Cleidiana Ramos @ 9:45 PM
12 de agosto de 2010

A festa de Nossa Senhora da Boa Morte vai até terça-feira em Cachoeira. Foto: Xando Pereira|Ag. A TARDE|15.8.2003

Amanhã, todos os caminhos levam à bela e histórica Cachoeira para a abertura dos festejos de Nossa Senhora da Boa Morte.

A irmandade, símbolo da resistência e do brio de mulheres negras, muitas das quais nascidas escravas e que ascenderam socialmente e compraram a liberdade com muito trabalho, a ponto de ostentar esta conquista nas vestes e joias que envergam, nasceu na Igreja da Barroquinha em Salvador, em meados do século XIX.

Porque a irmandade foi para a Cachoeria não se sabe ao certo. Alguns apostam em que elas decidiram proteger o culto católico visível, mas que também e, principalmente, envolve saberes ancestrais de origem africana, da perseguição que se abateu sobre os africanos e seus descendentes após a rebelião dos malês ocorrida na capital baiana em 1835.

Cachoeira se tornou então a sede dessa bela história de uma festa organizada e preservada por uma confraria de mulheres com critérios especiais, como o de ser aceita apenas na maturidade pós 40 anos.

Sabe-se muito da parte católica da festa que é a celebração da dormição, pois segundo a tradição católica, Maria apenas adormeceu enquanto se preparava a assunção do seu corpo e alma aos céus. É a lógica da teologia, afinal o corpo que carregou o próprio Deus encarnado não poderia ser decomposto como acontece com todas as mulheres e homens comuns.

A relembrar essa tradição, as irmãs também rezam para que elas e todos tenham uma “boa morte”, uma aspiração ainda mais desejada em tempos de tanta violência e desrespeito pela vida humana.

Da parte do candomblé que está envolvida na festa não se sabe quase nada, pois segredo é um dos princípios básicos desta confraria. Mas a importância do que se guarda é infinita, afinal entre as irmãs estão ocupantes da alta hierarquia do candomblé baiano.

Até a próxima terça-feira, pois após a festa do domingo ainda tem samba de roda e distribuição de comida, afinal a generosidade é uma marca do povo de santo, Cachoeira estará cheia de turistas novos e outros que retornam, pois é difícil resistir a tanto encanto e brilho.

Sinto, devido a várias circunstâncias, não poder presenciar esta edição da festa na minha Cachoeira natal e que, além do seu belo casario e as mágicas águas do Paraguaçu reúne tantas outras preciosidades: a sabedoria dos ogãs Boboso e Bernardino do Seja Hundé ou Roça do Ventura; a herança da força de Gaiaku Luiza; a resistência da Lira e da Minerva cachoeiranas; a beleza da Ponte Dom Pedro II e da estação ferroviária.

Para quem vai estar lá vale a pena brigar para achar um lugarzinho no que conheço como “restaurante do português”, ali bem pertinho do porto ou dar uma esticadinha até a Pousada Paraguaçu em São Félix, onde até hoje me intriga o filé de pititinga presente no cardápio, mas que não consegui provar pois estive lá durante a baixa estação do pescado.

Quem for retornar para Salvador pode dar uma passadinha em São Brás (no meio do caminho entre Cachoeira e Santo Amaro)  onde tem um restaurante com uma comida baiana deliciosa. Mas claro que essas sugestões culinárias só valem para quem não puder esperar a disribuição da comida preparada pela irmandade ou para os horários alternativos.

Vale, antes de conferir a programação da festa aí abaixo, dar uma olhada no blog do professor Cacau Nascimento, especialista na história e antropologia da Irmandade. Cliquem aqui para acessá-lo.

Agora, vejam a programação da festa:

Dia 13/08 – Sexta-feira
18h – Cortejo anunciando a morte de Maria
19h – Missa pelas almas das irmãs falecidas
21h – Sentinela, Ceia Branca na sede da Irmandade

Dia 14/08 – Sábado
19h – Missa simbólica de Corpo Presente de Nossa Senhora da Boa Morte e procissão do enterro..

Dia 15/08 – Domingo
09h – Missa festiva da assunção da Nossa Senhora da Glória seguida de procissão
12h – Almoço das irmãs e convidados, na sede da Irmandade.
14h – Samba de roda no Largo da Ajuda

Dia 16/08- Segunda-feira
20h – Cozido – seguido de samba-de-roda no Largo d’ Ajuda

Dia 17/08 – Terça-feira
20h – Caruru – seguido de samba de roda no Largo d’Ajuda


Bando de Teatro Olodum realiza seminário

postado por Cleidiana Ramos @ 5:04 PM
10 de agosto de 2010

Bando de Teatro Olodum organiza seminário sobre estudos africanos. Foto: Wendell Wagner / Divulgação

Estão abertas as inscrições para o seminário Outras Áfricas, promovido pelo Bando de Teatro Olodum. O evento vai ser realizado de 18 e 25 de agosto no Teatro Vila Velha, das 9 às 12 horas. E boa notícia, gente:  é gratuito e aberto ao público.

O seminário faz parte de um projeto homônimo realizado pelo Bando em parceria com o Fundo Nacional de Cultura.  O objetivo é  valorizar a herança africana e reconhecer a importância da cultura afro-brasileira para a identidade nacional.

Para acessar o local de inscrições on line clique aqui.  Também é possível se inscrever no Teatro Vila Velha (Passeio Público, Campo Grande).

Cada dia será abordado um tema por dois especialistas que vão interagir com a plateia. No dia 18, o tema será História da África e os convidados são Artemisa Odila Cande Monteiro, de Guiné Bissau, doutora em Sociologia e mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela Ufba e Antônio Cosme, mestrando em história pela Uneb e dono de larga experiência na formação de professores para aplicar a Lei 11.645/08 (que reformulou a 10.639/03 e estabelece a obrigatoriedade do ensino de História da África, Cultura Afro-Brasileira e História e Cultura Indígenas).

No dia 25 será a vez do tema Panorama da África Contemporânea com o professor Jacques Depelchin, natural do Congo e doutor em História da África e o professor Márcio Paim, mestrando em Estudos Étnicos e Africanos pela Ufba.

O seminário é uma ótima oportunidade para educadores interessados em África e temas ligados à cultura afro-brasileira. Imperdível, portanto.


Câmara faz homenagem à Irmandade do Rosário dos Pretos

postado por Cleidiana Ramos @ 9:50 PM
9 de agosto de 2010

Câmara faz homenagem a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. Foto: Fernando Vivas |AG. A TARDE

Quarta-feira, às 18 horas, é dia de festejar muito em Salvador pois a respeitada, no melhor sentido da palavra, Irmandade do Rosário dos Homens Pretos vai ser homenageada na Câmara Municipal por seu aniverario de 325 anos.

A justa homenagem foi proposta pela vereadora Olívia Santana (PCdoB),  presidente a Comissão de Educação e Cultura da Câmara.

A irmandade tem uma bela obra de resistência. Fundada por homens e mulheres vindos de onde hoje está Angola funcionava como previdência e caixa para compra de alforrias.

É belíssima a sua igreja, atualmente em reforma, situada no Largo do Pelourinho, onde todas as terças-feiras acontece uma missa com elementos afro-brasileiros, que é emocionante e de arrepiar.

Enquanto as obras não são concluídas a irmandade está provisoriamente instalada na Igreja do Carmo.


Bahia vai sediar seminário de turismo étnico afro

postado por Cleidiana Ramos @ 5:21 PM
5 de agosto de 2010

A festa da Boa Morte em Cachoeira é uma das bases do turismo étnico na Bahia. Foto: Xando Pereira|Ag. A TARDE| 13.08.2003

Quem se interessa por turismo ou quer conhecer mais sobre o chamado turismo étnico tem agora uma oportunidade de ouro. O governo da Bahia está disponibilizando até a próxima segunda-feira as pré-inscrições para participação no I Seminário Nacional Turismo Étnico-Afro.

O evento vai acontecer de 11 a 13 de agosto no Centro de Convenções da Bahia. A organização é da Secretaria de Turismo e da Bahiatursa. A discussão vai envolver o povo-de-santo, capoeiras, organizadores das festas populares e quilombolas.

O público alvo é formado por representantes de empresas de turismo e afins, produtores culturais, comunidades quilombolas, artistas, ativistas do movimento social, religiosos de candomblé,  professores, pesquisadores, estudantes, dentre outros.

Depois da pré-inscrição é só aguardar a confirmação. Para fazê-la é só acessar o site www.bahia.com.br. O evento também vai contar com uma feira de produtos afro que é aberta ao público


Salvador recebe exposição sobre culto aos voduns

postado por Cleidiana Ramos @ 3:12 PM
3 de agosto de 2010

Casa do Benim recebe exposição sobre culto aos voduns na África e no Brasil. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Na quinta-feira, às 19 horas, estará aberta na Casa do Benin (Pelourinho), a exposição Zeladores de Voduns. A mostra é composta de imagens  feitas pelo fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos.

As fotografias exibem os templos religiosos do Benin e do Maranhão, com ênfase na Casa das Minas. O trabalho de Vasconcelos teve o apoio do doutor em antropologia e professor da Universidade Federal de Sergipe,  Hippolyte Brice Sogbossi.

A principal proposta do trabalho de Vasconcelos é  mostrar a atual situação dos templos religiosos e seus sacerdotes tanto no Benin como no Maranhão.

Lá foram visitadas as cidades de Cotonou, Abomey, Allada, Uidá, Calavi e Porto Novo. O projeto venceu o edital de apoio à Produção Cltural da Secretaria de Cultura do Maranhão e também ganhou o 1º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras.


Estatuto da Igualdade: lamentar ou seguir em frente?

postado por Cleidiana Ramos @ 2:53 PM
3 de agosto de 2010

Articulista analisa o Estatuto da Igualdade Racial que suprimiu menções a direitos de quilombos como o de Tijuaçu. Foto: Patrícia Navarro | Divulgação

Olívia Santana

O presidente Lula acaba de sancionar a Lei 12.288/2010, que institui o Estatuto da Igualdade Racial. Vale lembrar que a militância negra reagiu com veemência ao relatório do senador Demóstenes Torres (DEM) que, numa só canetada, pôs por terra artigos que instituía as cotas nas universidades, reservava vagas  para negros na Lei eleitoral, definia políticas específicas para a saúde da população negra e titulação das terras de quilombos, quando o projeto de Lei ainda tramitava na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Aliás, o senador vem se notabilizando por sua posição sistemática de oposição às políticas voltadas à eliminação do racismo no Brasil sob o pretexto de defender a unidade nacional. Por ocasião da audiência pública ocorrida no Supremo Tribunal Federal que discutiu a Argüição por Descumprimento de Preceitos Fundamentais, movida pelo DEM contra o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão da UNB, que instituiu as cotas para negros, Demóstenes chegou a debochar das mulheres que viveram o horror da escravidão dizendo que leu Gilberto Freire e por isso sabia que não houve estupro durante o escravismo. Segundo ele, as coisas aconteceram de “forma muito mais consensual.”

Na verdade, os setores conservadores de plantão tentaram impor uma derrota completa ao Estatuto, mas não conseguiram. Portanto, diante de uma Lei aprovada e sancionada, mais do que remoer o que foi suprimido do texto é preciso virar a página sem esquecer a história. Vale muito o que foi mantido, pois é, essencialmente, o resultado de uma década de debates e enriquecimento do projeto de autoria do Senador Paulo Paim que iniciou com 30 artigos e se tornou uma Lei de 64 artigos.

Pela primeira vez na história do país, temos formalizado o direito às ações afirmativas destinadas ao enfrentamento das desigualdades étnicas no tocante à educação, cultura, esporte , lazer, saúde, segurança, trabalho, moradia, meios de comunicação de massa, financiamentos públicos, acesso a terra, à Justiça, e outros, conforme determina o artigo 4º do Estatuto.

O Estatuto da Igualdade Racial soma-se a um conjunto de conquistas iniciadas no final do século XX, a exemplo da criminalização do racismo na Constituição de 1988, da Lei 7.716/89 que pune os crimes de racismo, da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o Ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana, dentre outras que quebraram o jejum desde a restrita Lei 353/1888 – a Lei Áurea.

O desafio agora é materializar direitos. Com base no Estatuto, temos de garantir a aprovação do PL 3.627/04,que institui o Sistema Especial de Reserva de Vagas para estudantes egressos de escolas públicas, negros e indígenas, nas instituições públicas federais de educação superior. Além disso, derrubar a ADPF-186 contra as cotas na UNB e a Ação Direta de Inconstitucionalidade contra o Decreto Presidencial 4887 que regulariza as terras de quilombos, também movida pelo DEM junto ao Supremo Tribunal Federal.

Ação afirmativa agora é Lei no Brasil. Não como estratagema para reafirmar classificações raciais a serviço da segregação, como alguns teimam em querer rotular. Mas para remover obstáculos e encurtar distâncias entre brancos e negros no acesso aos direitos econômicos, educacionais, culturais e sociais.

Mas há diferença entre o legal e o real. Nunca foi e não será através de leis que promoveremos mudanças estruturais no país. A legislação é uma ferramenta importante, mas há que se realizarem amplos processos de reestruturação do Estado democrático que resulte em desconcentração da renda, em elevação da qualidade da escola pública em todos os níveis, que forme quadros capazes de responder ao novo ciclo de desenvolvimento da nação, que crie oportunidades para todos e elimine as desigualdades salariais baseadas em cor e sexo.

Não se pode mais aceitar democracia racial como retórica e nem as iniqüidades entre homens e mulheres, pobres e abastados. O Estado brasileiro deve se lançar ao desafio da refundação da unidade nacional, com valorização da diversidade e com a efetiva consagração dos direitos de todos.

Olívia Santana é vereadora presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer


Afro Imagem: Homenagem a Mãe Aninha

postado por Cleidiana Ramos @ 2:25 PM
31 de julho de 2010

Dentre as atividades de comemoração dos 100 anos do Ilê Axé Opô Afonjá, que vão até amanhã, aconteceu a inauguração do busto de Mãe Aninha, fundadora do terreiro. No clique do repórter fotográfico Fernando Vivas, da Agência A TARDE, Mãe Stella contempla a escultura em homenagem à primeira ialorixá do Afonjá.


Assembleia de sacerdotes negros divulga carta

postado por Cleidiana Ramos @ 7:48 AM
31 de julho de 2010

A obra de Aleijadinho foi uma das discutidas durante o encontro. Foto: Reprodução do livro Arte Brasil| AG. A TARDE

Em mais uma contribuição do frei Róger, transcrevo abaixo a carta da 22ª Assembleia de Bispos, Padres e Diáconos Negros. O encontro, encerrado ontem, ocorreu em São João Del Rei, Minas Gerais, e discutiu, principalmente, a contribuição dos artistas negros para a chamada arte sacra brasileira.

A referência foi o Estado de Minas. A assembéia foi uma promoção do Instituto Mariama (IMA). 

 
Mensagem da 22ª Assembleia do IMA

Nós, bispos, presbíteros e diáconos do Instituto Mariama, reunidos na XXII assembleia, em São João Del Rei, nos dias 26 a 30 de julho do corrente ano, refletimos sobre a contribuição dos nossos Antepassados na arte-sacra, a partir de Minas Gerais.

Num clima de intensa fraternidade e partilha, com irmãos vindos dos mais diferentes Estados do Brasil, trouxemos inquietações a respeito da causa do nosso povo negro e da postura do presbítero negro em meio a esta realidade tão desafiadora. Faz parte da opção que fizemos, como Igreja, identificarmo-nos com a realidade do nosso povo, fazendo valer direitos, superando preconceitos e promovendo a vida. Assim acreditamos contribuir na construção de uma sociedade mais justa e solidária, sinal do Reino de Deus.

O professor, historiador e especialista em arte sacra, Antonio Gaio Sobrinho, em sua brilhante reflexão, nos ajudou a perceber que, embora não seja tarefa muito fácil encontrar referências documentais sobre a contribuição dos negros na arte sacra, sabemos que trouxeram da África técnicas, habilidades, saberes e conhecimentos artísticos, que aqui foram utilizados e ressignificados. Muitos negros e mulatos se distinguiram como mestres em diferentes artes. Citamos: Aleijadinho, Aniceto de Sousa Lopes, Venâncio do Espírito Santo, João da Mata, Ireno Batista Lopes, Luiz Batista Lopes, Monoel Dias de Oliveira e Pe. José Maria Xavier. Isso leva a crer que, mesmo diante do ocultamento histórico, os artistas negros conseguiram imprimir seus traços no embelezamento e na riqueza cultural e religiosa do nosso país.

Sobre isso, vale lembrar o que disse o saudoso papa João Paulo II, escrevendo aos artistas em 1999: “Através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a história da arte não é apenas uma história de obras, mas também de seres humanos. As obras de arte falam dos seus autores, dão a conhecer o seu íntimo e revelam a contribuição original que eles oferecem à história da cultura”.

A espiritualidade do encontro nos levou a participar na vida das comunidades que nos acolhiam e, assim, auxiliados por D. Zanoni, e pelo Documento de Aparecida, aprofundamos a dimensão da missionariedade, no desejo de crescermos na comunhão e na participação em uma Igreja, chamada a deixar a pastoral da conservação para ir ao encontro das pessoas em sua realidade concreta. Este passo deve ser dado a partir do reencantamento com a pessoa de Jesus Cristo, como seus verdadeiros discípulos missionários.

Não podemos deixar de registrar a grande perda que tivemos recentemente, com o falecimento dos nossos quilombolas, Pe. Getúlio, liturgista, e Pe. Antônio Aparecido da Silva (Pe. Toninho), grande incentivador da caminhada da pastoral afro e co-fundador do Instituto Mariama. Teólogo de grandeza que, com sua simpatia e simplicidade, nos ajudou na construção de um pensar teológico negro. Ecoa em nossos corações um de seus dizeres: “sozinhos, morremos, juntos viveremos”.

Bendizemos ao Deus da vida, Criador de todas as coisas, pelo testemunho de tantos negros e negras, que investem o melhor de suas forças para maior dinamicidade na evangelização da Igreja. Diante de forças que negam vida plena aos negros e negras na sociedade, nós ministros ordenados, na medida em que assumimos, com consciência, a nossa negritude, explicitamos melhor a identidade da nossa Igreja, marcada, desde o seu nascimento, pela diversidade cultural, num discipulado reparador, missionário e dialogante. Fazemos isto iluminados pelo Documento de Aparecida, que afirma: “A Igreja, com a sua pregação, vida sacramental e pastoral, precisará ajudar para que as feridas culturais injustamente sofridas na história dos afro-americanos, não absorvam nem paralisem, a partir do seu interior, o dinamismo de sua personalidade humana, de sua identidade étnica, de sua memória cultural, de seu desenvolvimento social nos novos cenários que se apresentam” (DAp, n. 533).

Sob a proteção da Negra Mariama, convidamos a todos para o próximo encontro na diocese de São Mateus – Espírito Santo, de 25 a 29 de julho.

Com a força e inspiração do Espírito Santo!

Instituto Mariama.

Fonte: site da CNBB
 


Festa dupla na capital: Steve Biko e 100 anos do Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 4:48 PM
30 de julho de 2010

Tuma de uma das ações da Steve Biko que está comemorando 18 anos. Foto: Margarida Neide| AG. A TARDE 2.8.2004

Festa dupla hoje na capital baiana. Além do início das comemorações pelo centenário do Ilê Axé Opô Afonjá (cliquem aqui para conferir a programação) tem a comemoração do  aniversário de 18 anos do Instituto Steve Biko.

Vejam como o tempo passa rápido. Os “bikudos”, como são carinhosamente chamados os integrantes do instituto, já chegaram à maioridade, com um trabalho que merece todas as homenagens possíveis. Até agora cerca de mil estudantes que passaram pelo curso pré-vestibular gratuito do Steve Biko estão na universidade.

A programação de aniversário começa hoje com um seminário no auditório da Biblioteca Pública dos Barris, a partir das 18 horas. O encontro terá a participação de Ceres Santos, Geri Augusto, Edenice Santana e dos Talentos Bikud@s.

Amanhã, sábado, na Praça Tereza Batista no Pelourinho, a partir das 16 horas, tem Talentos Bikud@s, Os Negões, DJ Sankofa, RBF, Afro Jhow, Didá, Aloísio Menezes, Juliana Ribeiro, Grupo Aro 7 e Lazzo Matumbi. Festa show de bola, como o Instituto Steve Biko merece.


Centenário da Casa de Xangô

postado por Cleidiana Ramos @ 1:06 PM
28 de julho de 2010

Mãe Stella coordena as comemorações do centenário do Afonjá. Foto: Diego Mascarenhas| Ag. A TARDE

Essa semana, o Ilê Axé Opô Afonjá realiza uma série de atividades para comemorar o seu centenário. A programação começa na sexta-feira, a partir das 19 horas, é aberta, mas pede-se traje branco. Os eventos acontecerão no barracão de festas do terreiro.

Confiram abaixo as atividaes programadas:

Sexta-Feira, dia 30:

19h- Saudação à Casa: Alabês do Terreiro
19h20- Composição da Mesa de Abertura do Evento: Mãe Stella de Oxóssi e ogã José de Ribamar Feitosa Daniel, presidente da Sociedade Cruz Santo do Axé Opô Afonjá.
20h-Performance do dançarino e coreógrafo norte-americano Clyde Morgan.
20h30- Lançamento de selo personalizado e carimbo pelos Correios.
21h- Apresentação do afoxé Filhos de Gandhy e convidados.

Sábado, dia 31
8h- Inscrição e entrega de material aos participantes
9h- Saudação ritual aos ancestrais e inauguração do busto de Mãe Aninha
9h30-Saudação à Casa e boas vindas
9h40- Mesa Redonda: As Ialorixás do Ilê Axe Opô Afonjá
Mediadora: Professora Yeda Pessoa de Castro
Palestra: Mãe Aninha
Palestrante: Obá Muniz Sodré
Palestra: Tia Cantu- Iyá Egbe do Ase
Palestrante: Babalorixá Bira de Xangô (RJ)
Palestra: No Tempo de Mãe Bada
Palestrante: Ubiratan Castro

11h- Intervalo
11h20-Palestra: No Tempo de Mãe Senhora
Palestrante: Obá Luis Domingos
Palestra: No Tempo de Mãe Ondina
Palestrante: Egbón Adilson Almeida
Palestra: Mãe Stella, a Ialorixá dos 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
Palstrante: Jaime Sodré
13h- Engerramento do dia- Tarde Livre
17h- Lançamento de publicações- Livro de Contos, de Tia Detinha e Xangô, de Raul Lody
18h- Exibição do vídeo-memória E Daí Nasceu o Encanto: 100 anos do Candomblé de São Gonçalo
20h- Apresentação do bloco Cortejo Afro e convidados

Domingo- 1º de agosto de 2010
9h- Abertura do Dia- Saudações/atabaques
9h30-Palestra: Em busca das raízes gurunsi do Ilê Axé Opô Afonjá: Uma jornada ao norte de Gana
Palestrante: Maria Paula Adinolfi
10h20- Apresentação dos alunos do grupo de Capoeira do Terreiro
11h- Apresentação dos alunos da oficina de dança do Ilê Axé Opô Afonjá
11h30- Apresentação da Banda Aiyê (Ilê Aiyê e convidados)


As histórias que moram em acervos privados

postado por Cleidiana Ramos @ 3:17 PM
26 de julho de 2010

História da escravidão continua a ser escrita e revista. Foto: Reprodução| Arquivo A TARDE

Fazer estudos sobre escravidão no Brasil ainda é um desafio por conta da pouca documentação disponível. Pois, durante o último final de semana que passei em Iaçu tive mais uma vez uma certeza do quanto de informação sobre este e outros assuntos deve está contida nos chamados arquivos privados.

Lá na minha cidade foi feito um trabalho brilhante por Valdemar Ferraro, agora com 90 anos. Por mais de 40 anos, como procurador de uma família em disputa por posse de terras no município ele colecionou documentos que contam a cadeia sucessória da área onde Iaçu se formou.

Vale ressaltar que ele não só conservou, mas descobriu e até traduziu documentos como uma carta de donatária que estava em português antigo.

No meio destes papéis estão informações preciosas como a que coloca o principal distrito de Iaçu, João Amaro, como uma vila formada ainda no final do século XVII.

E não fica por aí. Um documento da década de 30 do século XIX conta a história de Francisco José Simplicío e sua relação com “uma parda” de nome Joana com quem teve quatro filhos. O texto é o seu testamento.

Nele, Simplício diz, em meio a todas as nuances de uma redação jurídica do século XIX, que não quer deixar os quatro  filhos pobres e desamparados e transfere bens, mas também dá informações sobre escravos que trabalham em sua fazenda e os de ganho.

Em um outro documento da coleção, Simplício divide com a esposa oficial os seus bens, incluindo escravos, colocando ao lado os nomes e relacionando os que tem “crias” e o seu valor.

Isso me fez ficar pensando o quanto João Amaro, atualmente uma localidade de pouco mais de dez mil habitantes, deve ter sido vibrante neste período, afinal se tinha escravos de ganho era porque existia uma forte atividade urbana.

Além disso, o quanto de cultura africana também herdou devido a esta presença negra que a gente ainda percebe em meio a uma parte significativa da sua população.  Dá para começar a imaginar o porque da presença de cultos que são diferentes, mas tem também semelhanças com o candomblé da capital e do recôncavo.  Imaginem o quanto faz falta que essas histórias se façam presentes nas escolas municipais.

Em João Amaro,  ainda resistem construções que encantam como a igreja dedicada a Santo Antônio que há sete anos foi tombada pelo Ipac e outra que ainda consegue manter a sua beleza, mesmo sem nenhum tipo de proteção ou conservação como a estação ferroviária que é a mais antiga da Chapada Diamantina.

Enfim, imaginem historiadores quantos acervos deste tipo estão espalhados por esta Bahia prontos para revelar detalhes da história negra também nos sertões baianos.

Foi, aliás, essa coleção que sustentou boa parte do livro Os Caminhos da Água Grande, publicado por mim em 1998 e que é resultado do meu trabalho de conclusão do curso em jornalismo.


Gantuá- a estrela mais linda

postado por Cleidiana Ramos @ 10:17 AM
26 de julho de 2010

Professor Jaime destaca homenagem da Unesco ao Gantois. Foto: Margarida Neide | Ag. A TARDE| 04.03.2001

Jaime Sodré

Desde tempos pretéritos que a humanidade escolhera a Natureza como objeto de culto, temendo ou adorando-a. Refiro-me a África Ancestral, quando no Vale do Rift, no Lago Turkawa no Quênia, garganta de Olduvai na Tanzânia, Haddar e Vale do Ouro na Etiópia, e Taung, Makapansgat, na agora familiar África do Sul, o homem e a mulher põem-se de pé e fé na religiosidade primária.

Para Elikia M’Bokolo: “estamos hoje mais autorizados a dizer de maneira mais radical que a questão da anterioridade africana se impõe no próprio cerne dos processos de hominização”, logo, África berço da humanidade. O caráter de preservação da religiosidade de base africana, característica de humanização, decorre da longevidade e ações de resistência nos enfretamentos das pretensões expansionistas do Islã, evangelizadoras do catolicismo e do protestantismo.

Processos sincréticos, como solução estratégica de sobrevivências, foram experimentados. E tudo chegou sobrevivente nos tumbeiros. Os primeiros bantos implementaram o “calundu”, “tataravô” do modelo atual do Candomblé, prestando assistência e serviço religioso até mesmo ao branco colonizador-opressor, com rezas, unguentos, garrafadas, etc. mesmo sob olhar repressor das autoridades.

Mais tarde, essas manifestações religiosas eram realizadas já em ambiente residencial, discreto, nas “lojas” dos africanos livres, fazendo as obrigações iniciáticas em casas localizadas no centro histórico. A forma estruturada do Candomblé, como hoje conhecemos, como síntese de contribuição banto, gege e nagô, teve o seu modelo original nas ações “das tias” Iya Kalá, Iya Detá e Iya Nassô, inaugurando o famoso Candomblé da Barroquinha, matriz de muitos outros, a exemplo da Casa Branca, do Ilê Axé Opô Afonjá que completa 100 anos de existência, e do terreiro da nossa Mãe Menininha.

Os esforços dessas sacerdotisas conseguiram preservar, em um sentido profundo, o que existia de fundamental de suas raízes religiosas. Assim, no século XIX, viu-se inaugurar a implementação de um complexo cultural afro, na forma de egbé, agora já expulsos do centro da cidade para espaços chamados “terreiros”, onde se consagram os cultos das divindades africanas e de ancestrais ilustres, os égun. Esses terreiros adquiriram caráter especial através de identificação em forma de nações, e ultrapassam os limites territoriais, vencendo preconceitos e ameaças, interagindo com a comunidade baiana, expandindo-se. Resistência e fé passaram a ser o compromisso.

Agora, com aliados ilustres, podemos saber sobre a trajetória vitoriosa desta matriz religiosa. Bons hábitos fazem quem lê jornal e, melhor ainda, a coluna de July. Local onde circula, de forma respeitosa e elegante, as notícias do povo-de-santo. O terreiro do Gantuá é noticia com o título Unesco.

O Egbé Oxóssi, Ilê Axé Iya Omin Iyamassê, comunidade religiosa fundada no Alto do Gantuá, no início do século XIX, pela Iyalorixá Maria Julia Figueiredo inaugurando uma linhagem com D. Pulquéria da Conceição Nazaré, D. Maria dos Prazeres Nazaré e a “estrela mais linda” Mãe Menininha do Gantuá, seguindo-se Mãe Creuza e Mãe Carmem, preservam a tradição e a seriedade dos seus ritos.

Em Dezembro de 2002, o Ministério da Cultura homologa o tombamento do terreiro como bem histórico nacional. “Deu na coluna de July” e aqui no Mundo Afro que a Iyalorixá Mãe Carmem fora homenageada pela Unesco com a Medalha dos Continentes I, entregue pelo presidente do Conselho Executivo do Benin para a Unesco, embaixador Olabiyi Babalola Joseph Yai, um amigo da Bahia, em reconhecimento a este terreiro que tem Oxóssi como patrono, comprometido com o diálogo intercultural e que não efetua ações de proselitismo, nem distinções negativas para com outros segmentos religiosos de concepções diversas.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Peças de cultura e religião afro vão sair do DPT

postado por Cleidiana Ramos @ 4:50 PM
20 de julho de 2010

As peças ligadas à religião e cultura afro que estão sob a guarda do Departamento de Polícia Tecnica (DPT) não vão ser mais exibidas no Museu Estácio de Lima pertencente à institiuição.

A Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi) já determinou o início do inventário das peças e vão ser realizados estudos para determinar a sua procedência.

O governo estadual tomou esta medida, após publicação de uma matéria assinada por mim e veiculada na edição de domingo do jornal A TARDE contando sobre o retorno de peças para o DPT. Os artefatos  estavam no Museu da Cidade desde 1997 por recomendação do Ministério Público.

Isto porque elas ficavam ao lado de um acervo formado por peças como feto de duas cabeças e armas de crimes. Até 1971 as cabeças degoladas de cangaceiros como Lampião e Maria Bonita faziam parte do acervo.

De acordo com o que consegui apurar as peças retornaram para o DPT por força de uma liminar conseguida pela ex-diretora do órgão, Maria Theresa Pacheco que faleceu em maio deste ano.

O movimento para a retirada de peças foi liderado por pessoas como o doutor em antropologia e ogã da Casa Branca, Ordep Serra, o saudoso ogã do terreiro Agnelo Pereira e representantes da ong Koinonia.

Vale destacar que os primeiros estudos sobre candomblé foram feitos por médicos, geralmente professores da Faculdade de Medicina da Bahia, como Nina Rodrigues e Estácio de Lima. Eles consideravam esta religião uma patologia.

Daí a gravidade dessas peças voltarem para o mesmo ambiente de medicina legal onde eles militaram e defenderam posições como essas que reforçam preconceitos não só sobre a religião mas também sobre os negros de modo geral.

Portanto, valeu a pena a mobilização que causou a resposta rápida do governo.


O busto de Milton Santos já é realidade

postado por Cleidiana Ramos @ 5:19 PM
15 de julho de 2010

A Ufba vai inaugurar um instituto em homenagem a Milton Santos. No local também será erguido um busto do grande intelectual. Foto: Maria Adélia de Souza | Sesc TV | Divulgação

Olha só a força que a palavra escrita às vezes tem. Publiquei aqui no Mundo Afro um artigo do professor Jaime Sodré pedindo um monumento a Milton Santos. O texto já havia sido publicado no jornal A TARDE. A causa como já era de se esperar mobiliza muita gente, afinal Milton Santos é um patrimônio da Bahia para quem sabe das coisas.

Pois ontem recebi do professor Jaime um e-mail com uma ótima notícia: o busto em homenagem a Milton Santos vai ser inaugurado. O monumento, viabilizado pela Secretaria Municipal da Reparação (Semur), fará parte de uma homenagem ainda maior: o  Instituto Milton Santos da Ufba. A cerimônia do marco luminoso no local onde ficará o instituto (Campus de Ondina) será no próximo dia 31.

Portanto, celebremos aqui a força da palavra e da visão do professor Jaime Sodré.


Ceao promove curso para educadores

postado por Cleidiana Ramos @ 11:13 AM
14 de julho de 2010

A Escola Barbosa Romeu em São Cristóvão é uma das consideradas referências no cumprimento da Lei 11.645/08. Foto: Fernando Amorim| Ag. A TARDE|20.05.2005.

Atenção educadores: estão abertas até o dia 6 do próximo mês as inscrições para o Curso de formação de Professores para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileiras. Podem se inscrever professores,coordenadores e diretores das redes públicas federal, estadual e municipal.

O curso é promovido pelo Centro de Estudos Afro-Orientais com o apoio do Ministério da Educação através da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC).

Para saber mais tem um site específico ( www.cursoensinoafro.ufba.br) e o telefone 3283-5519. O serviço telefônico funciona de segunda a sexta-feira, das 13 às 17 horas. Ao ligar procurar a professora Zelinda ou Lucylanne.

Por conta da Lei 11.645/08 (que reformulou a 10.639/03) todas as escolas brasileiras de ensino fundamental são obrigadas a promover o ensino das disciplinas História da África e Cultura Afro-Brasileira, além de História e Cultura Indígenas.


Jaime Sodré de volta

postado por Cleidiana Ramos @ 11:41 AM
13 de julho de 2010

Depois de algum tempo, que para nós tem a saudade de séculos, eis que o Mundo Afro volta a contar com artigos do professor Jaime Sodré. E nada melhor para este retorno do que uma reflexão sobre o nobre professor Milton Santos. Aproveitem. O artigo está postado abaixo.


Um monumento em honra de Milton Santos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
13 de julho de 2010

O professor Milton Santos foi um dos grandes intelectuais brasileiros. Foto: Arquivo A TARDE

Jaime Sodré

Permitam-me apresentar o currículo; Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas das USP; pesquisador 1A do CNPq; visiting professor, Stanford University, 1997/98; bacharel em direito, Universidade Federal da Bahia, 1948; doutor em geografia, Université de Strasbourg, França, 1958; doutor honoris causa das universidades de Toulouse, Buenos Aires, Complutense de Madrid, Barcelona, Nacional de Cuyo-Barcelona, Federal da Bahia, de Sergipe, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, Estadual de Vitória da Conquista, do Ceará, Unesp e de Passo Fundo.
Prêmios: Internacional de Geografia Vautrin Lud, 1994; USP/1999(orientador de melhor tese em ciências humanas); Mérito Tecnológico, 1997 (Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo); Personalidade do Ano, 1997 (Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro); Jabuti, 1997 (melhor livro de ciências humanas: A Natureza do Espaço, Técnica e Tempo).

Medalhas: Mérito Universitário de La Habana, 1994; Comendador da Ordem Nacional do Mérito Cientifico, 1995; Colar do Centenário do Instituto Histórico e Geográfico de  São Paulo, 1997; Anchieta, da Câmara  Municipal de São Paulo, 1997; Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, 1997; Lecionou nas universidades de Toulose, Bordeaux, Paris, Lima, Dar-es-Salaam, Columbia, Venezuela e do Rio Janeiro. Consultor da ONU, OIT, OEA e Unesco, junto aos governos da Argélia e Guiné-Bissau e ao senado da Venezuela.

Publicou mais de quarenta livros e trezentos artigos em revistas cientificas em português,francês, inglês e espanhol. Baiano de família de professores, com o avô e avó professores primários, mesmo antes da abolição, que o ensinaram a olhar mais para frente do que para trás. Família remediada, os pais ensinaram boas maneiras, francês e álgebra. Foi aluno interno e neste ambiente começara a ensinar antes da faculdade. Foi para a faculdade de Direito formado-se em 1948.

O fato: segundo o mesmo, seu maior desejo era a Escola Politécnica, mas havia uma ideia generalizada que esta escola “não tinha muito gosto de acolher negros, então fui aconselhado fortemente pela família – tinha um tio advogado – a estudar Direito, e daí mudei para a Geografia, que comecei a ensinar desde os quinze anos”. Havia uma crença na sociedade da época que na Politécnica os obstáculos eram maiores. Escrevera no jornal A Tarde, como correspondente na região do Cacau onde lecionava, por iniciativa do ministro Simões Filho que o descobriu para a imprensa. Ensinara na Universidade Católica e preparava-se para entrar na pública, onde fez concurso em 1960, após o doutorado em Geografia na França.

O pleito: Quando saíamos do Colégio Central em turma na direção da Sé, era comum a brincadeira entre as estátuas do Barão do Rio Branco e Castro Alves. Os mais espirituosos diziam: “Castro Alves estendia a mão em direção ao Barão pedindo uns trocados para libertar os negros. Rio Branco, com a mão no bolso, dizia tenho mas não dou”. Coisas da juventude.

Recentemente a Semur solicitou-me uma relação de estátuas e monumentos de negros e negras, em nosso espaço urbano. Inspirou-me para o que segue. Diante do currículo exposto do Professor Dr. Milton Santos, sinto-me autorizado a pleitear, quem sabe à própria Semur, a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação.

Ainda de posse de uma das suas brilhantes frases, que estaria no monumento merecido – “Quem ensina, quem é professor, não tem ódio” – em tempo de cotas, melhor local não seria adequado, se não em pleno ambiente acadêmico da Escola Politécnica, cumprindo um desejo do grande mestre, calado outrora pela mentalidade maldosa, inibidora da época.

Aposso-me de uma frase, lugar comum neste gesto, na certeza do apoio de muitos, “ao mestre com carinho”. Esta justíssima homenagem, traduzirá, com certeza, a admiração do povo brasileiro aos seus filhos ilustres, registrando aqui homenagem a alguém que o mundo não se cansou de reconhecer e homenagear. Placidez, serenidade, sorriso permanente aberto, humanidade, sabedoria, sem perder a ternura diante das dificuldades, poderão inspirar o escultor a modelar em material nobre este nobre baiano.

Jaime Sodré é historiador, escritor, professor universitário e religioso de candomblé


Festa para o Ilê Axé Opô Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 1:06 PM
12 de julho de 2010

Terreiro comandado por Mãe Stella completa 100 anos. Foto: Diego Mascarenhas| Ag. A TARDE

O Ilê Axé Opô Afonjá está comemorando 100 anos. Fundado por Mãe Aninha em 1910, a casa consagrada a Xangô se tornou um dos mais importantes candomblés brasileiros com governos marcados pelo carisma de suas sacerdotisas.

A atual, Mãe Stella de Oxóssi, é admirada não só por seu saber religioso, mas também por sua inteligência aguda traduzida nos livros que escreve. Um deles, Meu Tempo É Agora, está em sua  segunda edição.

Amanhã, às 18 horas, na Câmara Municipal tem sessão especial para comemorar os 100 anos do Afonjá. A seção foi proposta pela vereadora Olívia Santana (PCdoB).

No final do mês tem mais comemorações. Dia 30, a partir das 19horas , acontecerá saudação à casa pelos alabês do terreiro, seguida de performance do dançarino e coreógafo norte-americano Clyde Morgan, lançamento de selo e carimbo pelos Correios e apresentação do afoxé Filhos de Gandhy. O traje pedido para participar da festa é branco.

No dia seguinte, a partir das 8 horas tem mesa redonda e palestras com a particpação de Yeda Pessoa de Castro, Muniz Sodré, babalorixá Bira de Xangô, Ubiratan Castro, Luis Domingos, Adilson Almeida e Jaime Sodré. Nesse mesmo dia  às 17  horas tem o lançamento do Livro de Contos de Tia Detinha e Xangô, de Raul Lody. Às 18 horas será exibido o vídeo-memória E Daí nasceu o Encanto: 100 anos do candomblé de São Gonçalo. Em seguida começa a apresentação do bloco Cortejo Afro e convidados.

No domingo, 1º de agosto, a partir das 9 horas tem palestra com Maria Paula Adinolfi, apresentação dos alunos do grupo de capoeira e da oficina de dança do terreiro e apresentação da Banda Aiyê e convidados.

No dia 26 de agosto o Afonjá vai sediar o encontro de secretários de educação dos municípios da Bahia para discutir a Lei 11.645/08 (que atualizou a Lei. 10.639/03 que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira). O evento chama-se Ofin ni Olope (Lei em Ação).

A Escola Eugênia Anna dos Santos que funciona no Afonjá é referência nacional na aplicação da Lei por conta de sua metodologia inovadora que parte de mitos africanos para aplicar todos os conteúdos.


Homenagem a Dom Timóteo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:10 PM
12 de julho de 2010

Centenário de Dom Timóteo é comemorado hoje. Foto: Arestides Baptista | Ag. A TARDE

Hoje completam-se 100 anos do nascimento de dom Timóteo Amoroso Anastácio. Às 18 horas, na Fundação João Fernandes da Cunha, Largo do Campo Grande, nº 8, acontece uma sessão comemorativa à data.

Dom Timóteo, monge beneditino, teve uma papel importante em Salvador.

Abade do Mosteiro de São Bento a partir de 1965, defendeu perseguidos pela ditadura militar. Era também um defensor da liberdade religiosa e mantinha uma forte amizade com sacerdotisas do candomblé como Mãe Menininha do Gantois e Mãe Olga de Alaketu.


Centenário do Afonjá e do nascimento de dom Timóteo

postado por Cleidiana Ramos @ 1:28 PM
10 de julho de 2010

Tive o privilégio de escrever para a edição de domingo do jornal A TARDE uma matéria sobre os 100 anos do Ilê Axé Opô Afonjá e outra  sobre o centenário de dom Timóteo Amoroso Anastácio. Confiram o jornal amanhã.

Depois coloco aqui mais detalhes sobre estes dois acontecimentos de extrema importância para a memória da Bahia.


O dia da festa do povo

postado por Cleidiana Ramos @ 3:59 PM
1 de julho de 2010

Cortejo do 2 de julho é uma festa inigualável. Foto: Iracema Chequer | AG. A TARDE

Considero o 2 de julho a mais bonita festa da Bahia. Isso porque é difícil ver nas outras uma mistura tão bem acabada de política, religião e festa.

Afinal, onde existe uma parada cívica com capoeiristas, gente vestida de baiana e vaqueiros devidamente trajados misturados às representações oficiais da Polícia Militar e da Marinha?

Além disso, muita gente vai ali para fazer orações e agradecimentos aos caboclos do 2 de julho já sincretizados às entidades homônimas saudadas nos candomblés baianos. E como ignorar o surgimento desta festa?

No dia 2 de julho de 1823, o povão, no mais puro baianês, estava retado. Depois de tantas promessas o Brasil estava livre de Portugal, mas descendentes de índios, escravos e libertos, muitos dos quais tinham entrado na guerra ou perdido familiares nos combates, continuavam do mesmo jeito: pobres e sem liberdade nenhuma.

Aquela história de Exército Libertador não apagou as diferneças entre elite e povo. Tudo continuava como dantes no quartel de Abrantes para este último.

E talvez tenha sido aí que começou a tomar forma um outro famoso ditado baiano: “Vá chorar no pé do caboco”. Ou seja: “se virem”. O povo resolveu apelar para o caboclo, literalmente.

Um movimento popular fez o mesmo caminho que as tropas tinham feito um ano antes tendo à frente uma canhoneira portuguesa transformada em carroça que levava um velho descendente de índio. Era uma caricatura da entrada das tropas brasileiras vencedoras. Simbólico que à frente estivesse um representante do povo.

E ai de quem tentou alterar o que os donos da festa decidiram fazer. Conta-se, por exemplo, que no final do século XIX o comandante de armas que era uma espécie de prefeito da cidade decidiu que a estátua do caboclo, pois ela já havia sido feita, não iria sair mais. A decisão era por conta do símbolo de Portugal na estátua: uma serpente sendo morta pelo caboclo.

O cidadão era descendente de português e se sentiu ofendido. No lugar do caboclo ele queria uma imagem feminina para homenagear Catarina Paraguaçu.

Pois a associação dos veteranos da guerra mandou um recado: ou o caboclo saía ou eles iam pegar em armas e ia correr sangue. Seria uma guerra civil em defesa do caboclo. O comandante recuou, o caboclo foi para a rua e melhor ainda: ganhou uma companhia feminina, a cabocla.

Ou seja: no 2 de julho, como diz o professor Cid Teixeira, autoridade é que é penetra. Mesmo com todo o discurso de festa cívica a irreverência original está lá nesta característica de parada militar embolada a manifestações culturais diversas.

Lembro que um maestro de uma banda militar me contou que na primeira vez em que foi reger no desfile ficou sem entender nada. Carioca, ele imaginava que a festa da Independência da Bahia, a maior data cívica do Estado, era uma espécie de 7 de setembro.

Para a sua surpresa o que viu foi o povo gritando e aplaudindo o carro dos caboclos, correndo para tocá-los. Na confusão o seu quepe foi jogado para longe e ele teve que se virar para reger a banda como deu.

A surpresa do integrante da Marinha é a típica reação de quem é de fora quando vê o 2 de julho, o que só prova a sua característica de festa especial.

Que bom que o povo baiano consegue manter essa sua rebeldia. No 2 de julho o povo aplaude quem acha que deve, vaia quem acha que merece e não é à toa que políticos se esforçam para seguir atrás do cortejo rodeado de cabos eleitorais.

Aliás o 2 de julho é termômetro para quem se aventura na disputa das urnas para saber se está bem ou em baixa.

Mas a volta dos caboclos alguns dias depois é ainda mais irreverente. Não tem cerimônia oficial, mas muita festa.

Enfim, o 2 de julho é uma celebração de independência desse jeito povão de ser. E viva aos caboclos! Atrás deles só não vai quem não pode.

Em tempo: o cortejo sai, amanhã, às 8 horas da Lapinha por conta do jogo da Seleção Brasileira. Vão montar um telão na Praça Muncipal para quem quiser acompanhar a partida.


Sessão especial celebra os 100 anos do Afonjá

postado por Cleidiana Ramos @ 3:38 PM
10 de junho de 2010

Mãe Stella é a atual ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro que está comemorando 100 anos. Foto: Margarida Neide| Ag. A TARDE

Amanhã, a Assembléia Legislativa da Bahia faz uma sessão especial para comemorar o centenário do Ilê Axé Opô Afonjá.  A sessão, proposta pelo deputado estadual Bira Corôa (PT-BA) vai começar às 9h30 no plenário da Casa.

O Afonjá é um dos mais tradicionais terreiros de tradição ketu do Brasil. Foi fundado por Mãe Aninha em 1910 e teve uma importante participação na luta contra o preconceito que pairava sob o candomblé.

Mãe Aninha foi uma das mais importantes ialorixás baianas. De uma inteligência e mobilidade políticas impressionantes, soube contornar obstáculos como a proibição do uso dos atabaques conseguindo uma liberação do governo federal por meio do conhecimento que tinha com Osvaldo Aranha, homem forte do primeiro governo Vargas.

Ela também teve uma participação importante no Congresso Afro-Brasileiro, organizado por Édison Carneiro e Martiniano do Bonfim. Mãe Aninha investiu na recuperação de tradições do reino de Oyó e Ketu, de  onde o culto de Xangô é originário. Um dos exemplos dessa reconstrução histórica é o Conselho dos Obás, implantado no Afonjá. Eles são considerados os ministros do culto de Xangô.

Outra ialorixá de destaque foi Mãe Senhora, que conquistou um imenso respeito por seus modos imponentes— era filha de Oxum— e seu conhecimento litúrgico.

Em 1976 a Casa foi assumida pela atual ialorixá, Mãe Stella. Na década de 80 ela foi  repsonsável por um manifesto que conclamava os integrantes do candomblé a reafirmarem sua religião, afastando-se do sincretismo que é o nome dado à associação entre santos católicos e orixás, inquices e voduns. Além disso, até então, era muito comum que ritos do candomblé tivessem algum tipo de correspondência com o catolicismo, como iaôs irem assistir missa após as cerimônias internas nos terreiros.

O manifesto ganhou repercussão e foi assinado também por Mãe Menininha, Olga do Alaketu e Doné Ruinhó. Mãe Stella também tem feito um trabalho de divulgação da filosofia do candomblé por meio da literatura. Ela é autora dos seguintes ivros: E daí aconteceu o Encanto, escrito em parceria com Cléo Martins; Meu Tempo é Agora; Oxóssi o Caçador de Alegrias; Owé- Provérbios e Epé Laiyé- Terra Viva, voltado para o público infanto-juvenil.

Foram também ialorixás do Afonjá: Mãe Bada, sucessora de Mãe Anininha e Mãe Ondina, sucessora de Mãe Senhora.


13 de maio: data para revisar a História

postado por Cleidiana Ramos @ 2:26 PM
13 de maio de 2010

Lei que aboliu a escravidão não trouxe nenhum tipo de reparação e possui apenas dois parágrafos. Reprodução: Ana Nascimento |ABr

O Brasil completa hoje 122 anos de fim oficial da escravidão. De lá para cá, algumas batalhas contra esse sistema peverso foram vencidas, mas as suas marcas ainda produzem desigualdade, racismo, dentre outros males.

Daí porque esta data não é considerada emblemática pelos movimentos negros organizados. Para que comemorar uma decisão tomada apenas apenas diante do esgotamento do modelo, embora durante anos ela tenha sido interpretada como um ato de bondade de Isabel, a princesa regente?

A principal crítica à forma como a escravidão foi abolida no Brasil é que não se deu nenhum tipo de compensação a quem até então era considerado sub humano e não tinha nenhum direito.  Como iniciar uma nova vida sem ser reconhecido como cidadão capaz de vender uma mão-de-obra que era explorada de graça?

São razões como estas que ainda hoje sustentam lutas como a da implantação de ações afirmativas.  Mas a data vale , por exemplo, como lembrete para conferir peças da historiografia que tem apresentado reflexões sobre a resistência negra durante a escravidão e outras estratégias para sobreviver a ela.

Aqui vão algumas das minhas sugestões de livros bem interessantes:  Rebelião Escrava no Brasil e Domingos Sodré, um sacerdote africano, de João José Reis; O Jogo da Dissimulação- Abolição e Cidadania Negra no Brasil; e Histórias de Negro, de Ubiratan Castro.