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Em entrevista à jornalista Regina de Sá, o doutor em História pela Universidade de Minnesota (EUA) e professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia, João José Reis faz uma reflexão sobre memória da escravidão e persistência do racismo.  

João José Reis faz uma profunda análise sobre a persistência dos impactos da escravidão. Foto: Walter de Carvalho/Ag. A TARDE/  17.11.2010

João José Reis faz uma profunda análise sobre a persistência dos impactos da escravidão. Foto: Walter de Carvalho/Ag. A TARDE/17.11.2010

Regina de Sá 

Em um documento redigido no dia 24 de outubro de 1985, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apresentava uma lista de 38 localidades com potencial para serem reconhecidas como Patrimônio da Humanidade. Naquele ano, o Centro Histórico de Salvador, a primeira capital do Brasil (1549-1763), ganharia a atenção global com o título dado pela Unesco. No maior conjunto colonial urbano tombado do País, com cerca de três mil imóveis erguidos entre os séculos 17 e 19, desde o São Bento até Santo Antônio Além do Carmo, está o Pelourinho, um dos mais visitados cartões-postais da cidade. Porém, no coração do polígono do tombamento não se vê nenhum indício de que ali existiu, de fato, um pelourinho, símbolo máximo do poder da Colônia portuguesa que servia para castigar e marcar com açoites terríveis a pele das pessoas. Além disso, o pelourinho “passeou” pela cidade. Por volta do século 16, o primeiro local onde instalaram a coluna de pedra cantaria com argolas foi na Praça Municipal (por decreto, desde 1949 se chama Tomé de Souza). Depois, levaram o “símbolo da Justiça” para o Terreiro de Jesus, mas os gritos dos açoitados incomodavam os padres e quem mais participasse das cerimônias religiosas e, por Provisão Real de D. João V, acabou levado para as Portas de São Bento (próximo à Praça Castro Alves). O derradeiro destino seria o largo das Portas do Carmo, onde hoje é o Pelourinho. O instrumento de castigo seria retirado, definitivamente, em 1835. Em 1857, colocariam no lugar um chafariz, mas não se sabe que fim levou.

No Prospecto de Caldas, um minucioso trabalho cartográfico da Cidade do Salvador – elaborado entre os anos de 1756 e 1758 pelo engenheiro e militar baiano José Antônio Caldas (1725-1782) -, aparece a indicação da pedra nas Portas de São Bento. O pelourinho-instrumento, de fato, existiu no Pelourinho-bairro, daí a importância de se batizar o lugar com este nome. No entanto, se o pelourinho enquanto marco histórico da era do regime escravista fosse pauta mais frequente nas agendas culturais, turísticas, educacionais e, por que não, acadêmicas, não correria o risco de se apagar da memória a existência de um local público para castigo e tortura. Mas não é esta a opinião de João José Reis, doutor em História pela Universidade de Minnesota (EUA) e professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Para Reis, autor, entre outros livros, de Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês, os demônios do Pelourinho são exorcizados hoje de uma forma positiva com os tambores do Olodum, por exemplo. Reis defende que este espaço de castigo público poderia ganhar muito mais como local de memória se fosse criado um museu da escravidão e da resistência escrava. O local, apesar do nome, reforça o historiador, em parte descolou sua identidade desse passado, sem que, por outro lado, esse passado esteja encoberto.

Há 30 anos, o Centro Histórico de Salvador foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio da Humanidade. No epicentro desta importante área da cidade, está o Pelourinho, local visitado por turistas de todas as partes do Brasil e do mundo. Ali, pessoas de várias partes do País e do mundo buscam um consumo cultural de massa, que abrange diversão, entretenimento e compras. Para o senhor, o Pelourinho perdeu sua identidade?

 

João José Reis – Não existe identidade fixa, “autêntica”, nem de indivíduos, de grupos ou lugares. O Pelourinho não é diferente. Apesar de voltado para o turismo em muitos aspectos, consegue-se ali observar muita manifestação da cultura popular, inclusive no ramo do entretenimento, o que ainda faz daquele um lugar especial. Acho positivo que os tambores do Olodum exorcizem os demônios locais, fazendo desse espaço de tortura pública – e não apenas de tortura de escravos – um ambiente de expressão da liberdade. Não é só de turismo que vive o Pelourinho, apesar de sua mercantilização.

Por que razão, atualmente, não se encontra nenhum resquício de que, durante um longo período, Salvador possuiu uma coluna de pedra com argolas de metal onde se amarravam escravos e criminosos para açoite e ou escárnio público? Ou seja, por que a área conhecida como Pelourinho deixou de possuir um pelourinho (artefato) como testemunho de um passado em que nossa sociedade submeteu seres humanos a castigos cruéis e ignominiosos?

 JJR – O “artefato” desapareceu muito antes de se ter desenvolvido uma política de memória adequada a uma sociedade mais democrática e inclusiva, que, apesar de tudo, o Brasil vem se tornando, aos trancos e barrancos, é verdade, com avanços e recuos – e, nos dias que correm, mais recuos do que avanços. Desconheço alguma imagem que pudesse servir para, por exemplo, reproduzir a coluna de tortura. E, aliás, não acho que seria o caso de se erguer coisa do tipo no atual largo do Pelourinho porque, como disse, o local, apesar do nome, em parte descolou sua identidade desse passado, sem que, por outro lado, esse passado esteja encoberto. Outras formas de lembrança da violência na era do antigo regime escravista poderiam ser criadas, como, por exemplo, um museu da escravidão e da resistência escrava, ou uma seção temática nos museus afros já existentes. Há quem, no movimento negro e na academia, discuta exatamente isso.

  O senhor julga que há, nessa ausência, uma sutil intenção de nossa sociedade em esconder, ou remeter ao esquecimento, este fato?

  JJR – A Bahia já não precisa esconder essas coisas para que os ricos e poderosos continuem a mandar, a usufruir de seus privilégios e a fechar os olhos às desigualdades sociais e raciais. Estamos numa era de cinismo galopante, por um lado, mas também de alguma conquista no que diz respeito a uma compreensão mais inteira do passado. Não é mais possível negar essa parte inconveniente da história. É perfeitamente possível para o Estado e a sociedade combinarem um repúdio à violência do passado, ao mesmo tempo em que toleram ou até promovem o racismo e a violência contra negros, índios, pobres no presente. Veja você que essa violência e o racismo ocorrem e até crescem paralelamente à obrigatoriedade do estudo da história do negro – que inclui o tráfico e a escravidão – nos currículos escolares (Lei 10.639/03). A juventude negra, na maioria pobre, está sendo massacrada pela violência, inclusive a policial, é o que apontam as estatísticas.

 A questão da preservação do patrimônio não estaria também ligada à memória e ao registro da História? Como as gerações futuras vão poder entender o que, de fato, ocorreu onde hoje se conhece como Pelourinho se não são mais visíveis as marcas da escravidão? 

 JJR – Talvez não seja correto dizer que inexistam marcas materiais da escravidão no Pelourinho, porque ali estão casas e igrejas construídas por escravos, e com os lucros da escravidão no Recôncavo e na cidade; lá estão as antigas senzalas urbanas (as chamadas lojas, subsolos dos sobrados e casas), e como contraponto uma igreja erigida por escravos e libertos para abrigar uma irmandade negra, a do Rosário dos Pretos. Existem santos negros nos altares de outras igrejas (por exemplo, São Benedito na Igreja de São Francisco), a Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada por negros livres e libertos em plena vigência da escravidão etc. Não falta então “patrimônio” preservado para se pensar a escravidão, mas também a negociação e a resistência escravas, que estão consignadas por toda parte. O que precisa é passar adiante essas informações. Entenda: não sou contra o Pelourinho ser lembrado e vinculado à violência escravista, mas não vejo necessidade de se repor ali um poste para significar isso. Tente pensar por outro ângulo. O nome do lugar já constitui um componente imaterial do significado histórico, ele substituiu de maneira forte a materialidade da coisa, mais forte, por exemplo, do que naquelas cidades onde o pelourinho sobreviveu enquanto artefato ou monumento histórico. Não há nessas cidades toda uma área da cidade chamada Pelourinho como temos na Bahia. Isso aqui na Bahia é muito forte. Que se entenda isso, que se aproveite isso numa política de memória. Se essa sociedade quisesse realmente “esquecer” a escravidão, teria mudado o nome daquele espaço há muito tempo. Mas o nome está lá a lembrar do que ali acontecia. É coisa que só se vê na Bahia, e é preciso entender por que é assim.

 Estudos recentes apontam para o esvaziamento do Pelourinho como lugar de moradia de camadas mais pobres. Entre os anos 1980 e 2000, 67% da população residente deixou o Pelourinho, em virtude da forma como a intervenção do Estado atuou na região, com vistas a revitalizá-la, ou “restaurá-la”. O processo, conhecido como “gentrificação”, contribuiu para a regeneração da área e reatribuiu significados a esses marcos de memória da sociedade soteropolitana? Apagar por completo a existência do pelourinho também colaborou para afastar dali os “habitantes indesejáveis” do bairro?

 JJR – O que você chama de “gentrificação” (um anglicismo que se poderia evitar) aconteceu muito depois de desaparecido o poste de castigo. Portanto, uma coisa não levou necessariamente a outra. Nas cidades onde o poste se mantem em pé até hoje, como em algumas cidades mineiras, aconteceu o mesmo fenômeno de “requalificação”, o termo burocrático usado pelo Estado não só no Brasil. Nas chamadas cidades históricas brasileiras, gente com dinheiro compra casas para morar ou para segunda residência, assim como residências se tornam lojinhas e restaurantes para servirem à indústria do turismo. Ou seja, com ou sem o poste, o nosso Pelourinho estava destinado a ser parte do circuito turístico e da especulação imobiliária, e essa especulação é um câncer espalhado por toda a cidade. Num sentido mais amplo, o que ali aconteceu com a população se repetiu, antes e depois, em várias áreas de Salvador fora do chamado Centro Histórico. Comunidades de pescadores, por exemplo, foram arrancadas da orla para a construção de praças, estacionamentos, hotéis, edifícios e condomínios. 

Em uma entrevista, o jornalista e escritor Laurentino Gomes, que deverá lançar em 2019 uma trilogia enfocando o tráfico de escravos no Brasil, afirmou que “a escravidão é um cadáver insepulto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a encará-lo”. Simbolicamente falando, é possível que ainda exista um fantasma insepulto no Largo do Pelourinho justamente porque há quem prefira passar uma borracha no nosso passado, selecionando o que deve ou não ser rememorado, e manter apenas o nome como atração turística?

 JJR – Laurentino Gomes poderá escrever sua versão da história da escravidão porque, nos últimos 20, 30 anos, esse é um dos temas mais estudados pela historiografia brasileira, talvez o mais estudado. O número de teses, livros e artigos é enorme e não para de crescer. Depois da publicação do livro de Laurentino, depois da comissão da verdade da escravidão, organizada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o fantasma de que fala aquele autor continuará nos rondando. Já se sabe o suficiente sobre a escravidão para que esse passado passe, mas ele não passará inteiramente enquanto houver o racismo e a desigualdade baseada no perfil racial. É sempre bom que se tenha mais um livro sobre a escravidão, mas já se sabe o suficiente sobre o assunto, e há muito tempo, para inspirar políticas públicas de reparação, as quais, aliás, estão em curso ultimamente, embora muito mais seja necessário nesse aspecto, eu acho. Para lhe ser franco, acho que se devia falar menos de escravidão e mais sobre racismo e desigualdade racial na atualidade. Às vezes escravidão vira ponto de fuga. O racismo tem pernas próprias, tem uma capacidade enorme de se reproduzir em nossa sociedade, e nos dias que correm se reproduz de uma maneira cada vez mais aberta exatamente porque o negro brasileiro deixou de assumir aquele lugar subalterno que lhe tinha sido destinado desde sempre. O avanço da consciência negra e a ocupação negra de espaços antes quase exclusivamente brancos – como a universidade -, por exemplo, hoje explicam o racismo muito mais do que a escravidão.


Balaio de Ideias: Albergaria, nosso Boca do Inferno II

postado por Cleidiana Ramos @ 10:23 AM
11 de julho de 2015
O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott

O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott. Foto:  Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 10.5.2005

 

Luiz Mott

Professor titular de Antropologia da Ufba

Conheci Roberto Albergaria quando ingressou no Departamento de Antropologia da Ufba, há uns 30 anos atrás. Tive o privilégio de dar o parecer reconhecendo sua tese de doutorado defendida em Paris. Sempre disse e reafirmo: Albergaria era o mais culto, inteligente, provocativo e anarquista professor da Ufba. Infelizmente publicou pouco, mas deixou centenas de horas de entrevistas e gravações em rádio e televisão, material riquíssimo que merece virar tema de tese de mestrado e doutorado.

Com seu corpanzil e quase dois metros de altura, tinha a delicadeza de um gay, embora fosse confirmado mulherengo miseravão. Generoso, presenteou-me dois insólitos mimos: belíssimo chifre de um veado galheiro e um chicote de binga de boi – segundo ele, usado pelos cornos do sertão para castigar mulher adúltera. Em meu último aniversário, mandou-me esta mensagem, parece que psicografada pela mesma irreverência piadista de Gregório de Mattos, o Boca do Inferno:

“69 anos é a idade ideal para um putoso – putão idoso! O pururuca do Luizinho já pode broxar sem ter que justificar que ‘isto nunca me aconteceu antes’. Já pode andar com a braguilha aberta, pois ‘em casa de defunto a porta fica sempre aberta’. Já pode deixar de cumprir qualquer obrigação chata sob o pretexto de que se esqueceu: ‘estou ficando gagá mesmo!’ Já pode liberar um dedinho no furico só na manha, sem ter que botar no jornal que está sacrificando seu pobre tobinha apenas para dar um exemplo de militância política, porque menino que dá está brincando de troca-troca, é só estripulia, enquanto velhusco patusco de calça arriada está só esculhambando… pra alegrar seus últimos dias de picardia. E viva a descaração, desencuecada ou não. E viva a brincadeiragem, brincadeira com sacanagem: as melhores dádivas desta triste puta vida que nos pariu!”

Luiz Mott escreve no jornal A TARDE, quinzenalmente, aos sábados  


Bahia perde ícone da inteligência risonha

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
4 de julho de 2015
Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto:  Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/  29.04.2010

Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/
29.04.2010

MORTE/ ANTROPÓLOGO/ ALBERGARIA/ BAHIA

Cleidiana Ramos

Uma das cobranças clássicas a um repórter é o distanciamento ao que se reporta. Em tese, portanto, eu não deveria escrever o obituário de Roberto Albergaria de Oliveira, 63 anos, historiador, antropólogo e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (Ufba), um dos meus amigos mais queridos.

Mas precisei quebrar o cânone para lhe render a homenagem que me foi possível. Além disso, desafiar regras era com ele mesmo.

Nasceu em Cachoeira, embora às vezes dissesse ser de Muritiba para “pirraçar”, segundo ele, cachoeirenses como Ordep Serra, colega na antropologia e na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba.

Doutor em antropologia pela Universidade de Paris VII, a hoje Paris Diderot, Albergaria foi um dos mais brilhantes intelectuais baianos. Recebeu a orientação no doutorado de Michel de Certau (1925-1986), respeitado cientista social da escola francesa.

Sua tese para obter o grau de doutorado mergulha nas imagens simbólicas que o Brasil inspirou, a partir da sua condição de colônia portuguesa. Trata-se de uma análise com profunda inserção em teoria antropológica, mas ele repelia elogios ao seu preparo intelectual. Achava pedante, sem falsa modéstia.

Por isso criou o personagem iconoclasta. Com o tempo percebi que era disfarce para se livrar da chatice dos pretensiosos das mais variadas matizes.

Albergaria gostava de rir, mas tinha uma racionalidade que chocava os desavisados. Era extremamente pragmático, mas generoso.

O problema congênito – um tipo avançado de espinha bífida– foi o seu martírio até o fim. Além de impedir o movimento de uma das pernas, com o tempo desarrumou o sistema nervoso central, o que lhe fez vítima de vários distúrbios, como insônia crônica.

Foi essa dificuldade em lidar com as alterações no sono que o fizeram pedir a aposentadoria da universidade, pois acordava indisposto.
Crítica
Andava chateado com o que considerava a disseminação da “moral de jegue”, seu nome em baianês para falsos moralistas e fazia dos comentários na rádio Metrópole seu instrumento de desabafo contra esse mal.

Dizia invejar em nós, jornalistas, a capacidade de síntese, o que lhe era impossível. Falava pelos cotovelos e o didatismo de professor o fazia enviar complementos em longos textos via fax e depois por e-mail.

Albergaria era consultado por repórteres porque dominava os meandros da teoria antropológica. Conseguia opinar, com propriedade, sobre quase tudo, o que incomodava alguns que confundiam capacidade de explicar de forma didática pensamentos complexos com superficialidade.

Parei de me irritar com esse tipo de crítica, quando percebi que essas análises e até certos tipos de censura, o divertiam. A sua segurança intelectual lhe deu a imunidade necessária.

Não fez adversários ou inimigos. “Minha filha, eu sempre fui tido como maluco. Ninguém briga com doido”, explicava.

Não se casou ou teve filhos. Dizia só ter capacidade para amar mulheres de comportamento irreverente: as “miseravonas”.

Padilhas
Pegou em armas contra a ditadura quando integrou o PCBR. Foi preso durante uma ação frustrada de assalto a banco. Quando saiu da penitenciária foi para o exílio na França.

Não tinha uma crença religiosa, mas admirava o culto aos caboclos e a Exu no candomblé, e as padilhas da umbanda. Em sua casa tinha uma coleção de estátuas dessas entidades.

Nos últimos meses, declarou-se herege, no lugar de ateu. “É que tenho certa imaginação”. Portanto, acredito que essa capacidade o levou a achar o lugar ideal para que sua energia mental descanse em paz.

É tudo o que posso dizer agora

Cláudio Luiz Pereira  

Recebi, consternado, a notícia que Roberto Albergaria está morto. Fico imaginando como isto de fato empobrece a nós todos, retirando-nos certa capacidade de enfrentar com indignação e bom humor esta nossa realidade tão medonha. Morreu provavelmente de overdose de lucidez, recusando toda a carga de tédio que poderia entorpecê-lo, anulá-lo, ou aliená-lo numa velhice que poucos conseguem aceitar, ainda mais ele tão persistentemente jovem no seu pensamento irreverente, loquaz, cheio de uma ciência gaiata.

Para intelectuais como ele o melhor pensamento será sempre uma ação racional perante o mundo real.

Meu respeito por ele como intelectual deriva do fato de que ele fez escolhas, saltando do confortável mundo acadêmico, onde muitos intelectuais atolam numa mediocridade confortável, para o mundo da crítica cultural através do rádio, com sua dinâmica aleatória, delirante, e tão completamente carnavalesca. Provavelmente foi isto que permitiu que ele vivesse os últimos anos de sua vida dignamente, com trabalho, criatividade e, possivelmente, até alguma felicidade intima. Falo daquela felicidade possível aos homens muito inteligentes.

Meu respeito por ele vem também de sua personalidade idiossincrática, de suas ideias mirabolantes e engraçadas, de suas concatenações inesperadas, de suas abstrações lógicas ou ilógicas, mas que nos faziam pensar. Vem, também, do testemunho que posso dar de sua generosidade, do seu senso de justiça, e do seu empenho em apoiar moralmente todos àqueles que eram perseguidos e vilipendiados.

Morreu fazendo uma escolha, dentro das escolhas possíveis com que ele poderia reafirmar sua própria dignidade.

 

 Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do MAE/Ufba


Entrevista: “A memória da Bahia não pode ser seletiva”, Zulu Araújo, diretor da FPC

postado por Cleidiana Ramos @ 4:38 PM
16 de março de 2015
Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9.  2010

Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9. 2010

O arquiteto e gestor cultural  Zulu Araújo é o novo diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão que integra a Secretaria Estadual de Cultura (Secult). Durante algum tempo, a instituição era vista, pelo senso comum, apenas como a guardiã da memória dos ex-governadores. Mas a a partir das últimas gestões, com destaque para a do professor Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013), iniciada em 2006, a FPC e o seu trabalho em outras linhas ganhou maior visibilidade. Em entrevista que concedeu ao jornal A TARDE há nove anos, o professor Ubiratan chegou a afirmar que iria fazer do órgão o “instituto do Jacaré”, numa referência ao orador popular que, do alto de um improvisado tablado feito com caixa de madeira para guardar maçãs, fazia discursos contra o governador Octávio Mangabeira. A citação do professor Ubiratan era para lembrar que a fundação, então sediada no Palácio Rio Branco, também estava aberta para o povo, afinal ela é  a responsável pela guarda de bibliotecas, do arquivo público e de projetos como o de valorização e divulgação dos eventos relacionados à Independência da Bahia, comemorado anualmente em 2 de julho. Nessa entrevista, o novo diretor, Zulu Araújo, destaca a continuidade, em sua gestão, das ações para aproximar ainda mais a fundação dos variados segmentos da população baiana. Ele também afirma que dará continuidade aos projetos que encontrou e providenciará a implantação de novos, além de realizar um esforço para resolver o crônico problema de uma sede mais adequada para o Arquivo Público. A ideia é transferi-lo da Baixa de Quintas para garantir o tratamento mais adequado para o acervo de documentos.

Cleidiana Ramos: Muita gente ainda imagina que a Fundação Pedro Calmon (FPC) é apenas o local da guarda de memória dos ex-governadores. Seria interessante o sr. resumir quais as funções do órgão.

Zulu Araújo: A Fundação Pedro Calmon é uma instituição da Secretária de Cultura (Secult) que trabalha com memória, arquivo público, livro e leitura, além das bibliotecas públicas. Ela é o órgão responsável por formular e implantar políticas públicas nessas áreas.

CR: O Arquivo Público sediado na Baixa de Quintas vem passando há anos por problemas na estrutura física. A instalação elétrica já chegou a ficar desligada por prevenção contra incêndios. Quais as suas ideias para resolver essa questão?

ZA: Assumi o compromisso público e estou convocando outros setores para me ajudar a realizar a transferência do arquivo para um espaço mais adequado. O prédio onde ele está atualmente, apesar da importância arquitetônica, não possui condições para abrigar o acervo. Não há também como adequá-lo. Tenho essa certeza não só como arquiteto mas também por conversas que já mantive com técnicos do Ipac. Estamos, portanto, estudando a transferência para outros locais como o Centro Histórico, o Instituto do Cacau, no Comércio, e até mesmo a construção de um prédio adequado. Claro que isso depende da articulação com outros setores, verbas públicas e também sensibilização nesse sentido. Confio que vamos conseguir esse objetivo. Já na minha posse (no último dia 9), vários parlamentares se dispuseram a nos ajudar com emendas nesse sentido. Quero ressaltar que os gestores anteriores a mim fizeram todo o esforço que lhes foi possível, inclusive uma reforma no telhado. Mas o tempo já comprovou que reformas não resolvem o problema do Arquivo Público.

CR: Sob a guarda da FPC também estão os centros de memória que administram o acervo de arquivos privados. Não só na capital, mas também no interior há muitas coleções desse tipo. 

ZA: Sim. Os arquivos privados são de pessoas físicas que os adquiriram ao longo da vida e os conservaram como foi possível. Mas até mesmo para adquirir novos arquivos temos que ter espaço adequado. Atualmente, o centro de memória para esse fim funciona em duas salas da Biblioteca dos Barris. Estamos estudando outras possibilidades para a sua ampliação como a antiga sede do Inema, localizada em Monte Serrat. Também estamos avaliando, com a ajuda do Ipac, a opção do Palácio da Aclamação que passando por uma reforma será um espaço bem adequado afinal foi a morada oficial dos governadores. Ali é um complexo que também envolve o Passeio Público. Teremos uma reunião essa semana para tratar desse assunto. Mas vamos discutir não apenas a melhoria física do prédio, mas a possibilidade para dotá-lo das condições necessárias à manutenção e aquisição de novos acervos.

CR: O professor Ubiratan Castro,que foi um dos seus antecessores na FPC, dizia que queria fazer do órgão o “instituto do Jacaré” numa alusão a torná-lo mais próximo do povo. O sr. acha que a FPC caminha nesse sentido?

ZA: Quero render minhas homenagens ao professor Ubiratan pelo excelente trabalho na Fundação Pedro Calmon. Aqui ele ampliou e implantou projetos criativos como o denominado “Independência do Brasil na Bahia”, além de a ter aproximado mais da população, com certeza. Meu compromisso é dar continuidade a esse trabalho e nunca retroagir nem sair desse rumo. A FPC pretende, de maneira objetiva, aprofundar o trabalho que o professor Ubiratan vinha fazendo. Estamos também pensando em memória da Bahia no sentido mais amplo, ou seja, com as contribuições cigana, indígena, negra e européia. A memória da Bahia não pode ser seletiva para dar conta e respeitar a sua diversidade.


Lições da narrativa de Solomon

postado por Cleidiana Ramos @ 8:43 PM
10 de março de 2014
Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

De cinema como técnica e linguagem artística não entendo absolutamente nada. Os poucos filmes que vi até hoje me seduziram no plano mais intuitivo mesmo. Com a literatura minha relação é mais próxima, embora minha escolha sempre recaia em livros que me façam viajar para outras épocas e mundos e me levem a rir, sentir raiva em determinados trechos, chorar ou ficar com uma saudade imensa do personagem quando chego ao fim da última página. Tudo isso é para dizer um pouco da minha sensação após ter lido 12 anos de escravidão, o relato biográfico de Solomon Northup que deu nome ao filme  ganhador em categorias dos prêmios de prestígio como Oscar e Globo de Ouro.

Ganhei o livro de presente da colega em A TARDE, Regina de Sá, depois de comentar com ela que fui ver e gostei do filme, primeiro passo para uma matéria que precisava fazer. O filme é impactante não apenas pelo que diz de forma explícita, mas pelas nuances. Está lá, nas entrelinhas, mas não menos eloquente, a violência da escravidão em sua vileza crua e detalhista atingindo em níveis diferentes e  impactantes também crianças e mulheres.

Ele também aborda a perda da humanidade à beira da patologia de quem estava em cada peça de comando do sistema. Afinal, o que fica de humano em alguém que engana e sequestra um homem ou mulher para condená-lo ao trabalho forçado? Onde está a humanidade de alguém, que considera o outro algo que pode ser espancado, queimado, amarrado e violentado das mais diversas formas? O cinema tem o recurso da imagem, que torna tudo ainda mais forte.

É exatamente por isso que o livro me impressionou mais ainda. A narrativa feita em primeira pessoa por Solomon Northup é objetiva, descritva nas paisagens e até econômica nas emoções, mas é daquelas capazes de atingir o fundo da alma. Não há como ficar indiferente a um relato feito por alguém que viveu aquele horror de forma real. O drama de Solomon não é ficção, mas um relato de alguém de carne e osso que viveu os extremos de uma experiência humana.

Em pouco mais de 200 páginas, o horror de um sistema que vitimou mulheres e homens livres de variadas partes da África, arrasou civilizações e dispersou povos inteiros para terras que nem sequer imaginavam conhecer, além de escravizar seus descendentes, ganha cores, formas e concretude. Torna-se, no mínimo incômodo, conhecer detalhes de como seres humanos foram tranquilamente submetidos à bárbarie e encarados como nada por tantos que levavam a consciência do ápice do que é ser gente.

Solomon Northup rasga o véu que a passagem do tempo pode estender sobre o entendimento do que foi esse horror e nos ajuda a entender porque questões como o racismo continuam tão presentes até em algo tão lúdico como deveria ser o futebol. Por que será que ainda, hoje, não é difícil encontrar gente que acha legal contar uma piada que compara negros a macacos ou que considera discussão sobre racismo coisa de gente que gosta de confusão?

Que bom que o filme e  livro vão ser usados como ferramenta didática nas escolas americanas.Seria ótimo que histórias como a de Luiz Gama, conhecida e recontada em várias obras literárias fossem mais abordadas no Brasil. Li recentemente que ela vai chegar à TV pela parceria de Ana Maria Gonçalves,autora do fabuloso livro Defeito de Cor, e Fernando Meireles.

Mas, além de Gama tem outras figuras como Manoel Grave, cuja história vem sendo remontada pela pesquisadora do curso de história da Ufba, Cida Gonzaga, que, gentilmente, me relatou em detalhes para a matéria que saiu na edição do último dia 2. (Inclusive, aproveito para pedir desculpas a Cida, pois na nossa conversa por telefone entendi o sobrenome como “Graze” e é “Grave”).

Quem sabe com mais produção artística capaz de não apenas narrar, mas problematizar a questão da escravidão em aspectos que andem além do já conhecido as pessoas comecem a entender que questão racial não é assunto que se resolve numa conversa trival na roda de amigos ou com o sentimento de quem entende como “a cultura negra é linda!”

Por isso, ao  ver o sucesso de obras como o livro e o filme sobre Solomon Northup prefiro me deixar levar bem mais pela emoção do que entrar em discussões sobre tecnicidade ou armadilhas de indústria cultural.

Digo isso porque essas duas obras conseguiram reavivar o sentimento, que já carrego, de responsabilidade com meus ancestrais negros. Foi a sua firmeza e coragem para descobrir estratégias de resistência às várias brutalidades– que lhes infligiram com o silêncio e o apoio de religiões, Estado, governos e homens e mulheres de boa fé– que me trouxeram até aqui para que possa, no mínimo, a cada dia, fazer uma prece agradecida e reconhecida em sua memória.

Em tempo: no Brasil, o livro foi publicado pela Editora Seoman e custa em média R$ 19. Tem 232 páginas.


Sobre afros, Afródromo e Carnaval

postado por Cleidiana Ramos @ 4:31 PM
4 de março de 2014
O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto:   Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

 

Hoje termina o Carnaval que teve como um dos seus temas (isso também ficou meio confuso) os 40 anos de blocos afro. Foi uma tentativa de homenagem por meio do Ilê Aiyê, a primeira dessas agremiações a se constituir. O surgimento do Ilê, embora no campo cultural, teve um quê de rebeldia, afinal falar de racismo não se podia durante os anos de governo e ditadura militar no Brasil por conta da Lei de Segurança Nacional.

Além do Ilê, várias outras agremiações com lastro afro-brasileiro comemoraram nese Carnaval o que a gente chama de datas redondas: o afoxé Fihos de Gandhy (65 anos); o Olodum (35 anos); Malê DeBalê (35 anos) e as Filhas de Gandhy (35 anos).

Seria, portanto, o Carnaval ideal para o início do Afródromo, uma tentativa de dar a visbilidade que essas agremiações merecem e que o Carnaval baiano precisa para sacudir a mesmice e fazer jus ao rótulo de diversidade que reivindica.

Agremiação afro tem batida diferenciada de acordo com a característica de cada uma. Aqui recorro a especialistas em música, mas o Ilê tem um toque mais próximo ao feito nos terreiros; o Olodum seguiu um caminho mais sincopado ou pop; o Gandhy segue o passo cadenciado e hipnótico do ijexá; o Okanbí faz experimentação o tempo inteiro e por aí vai.

Além disso, tem alas de dança e figurinos exuberantes como os do Bankoma. Imagina o espetáculo de ver tudo isso junto e misturado como diz o bom baianês. Carlinhos Brown, criador de maravilhas como a Timbalada, bem que tentou. Seu projeto de Afródromo no Comércio não era separação como muita gente entendeu, mas, entendi (e posso estar equivocada também) como uma forma de mostrar porque os afro reivindicam maior visibilidade.

O projeto mudou e foi para o Campo Grande. A mudança de endereço também me pareceu legal, ou seja, seguia para um dos palcos com holofotes da festa. Mas não foi bem isso que rolou por mais que a iniciativa de Brown mereça elogios.

O Afródromo começou com atraso em todos os dias e apenas tornou mais evidente o que as agremiações afro vivem em cada Carnaval: cordeiros somem em busca dos blocos que têm artistas conhecidos; trios apresentam problemas; entidades com equipamentos mais pontentes sufocam suas batidas; no horário não há mais visibilidade na TV e, claro, patrocínio segue a lógica capitalista e dá dinheiro para quem aparece nos espaços midiáticos..enfim…o Afródromo foi apenas uma denominação diferente, pois as entidades agrupadas a cada dia já tinham os seus desfiles agendados para o mesmo horário na programação oficial do Carnaval.

Excetuando-se os holofotes que sempre acompanham o Ilê Aiyê, embora sua história de resistência que vai muito além de um bloco de Carnaval fique praticamente invisível, as outras agremiações afro brilharam onde brilham sempre: no coração e na persistência dos seus seguidores que entendem porque eles teimam em fazer parte do Carnaval mesmo com todas as dificuldades.


Filme com diretor e atores negros é premiado

postado por Cleidiana Ramos @ 7:46 PM
3 de março de 2014
Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme "12 anos de escravidão". Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme “12 anos de escravidão”. Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Cinema também é feito de símbolos por isso o dia de ontem foi especial. Na cerimônia do Oscar,  “12 anos de escravidão” ganhou o prêmio de melhor filme. Além disso, a queniana Lupita Nyong´o levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Valeu driblar o sono e aguentar as partes arrastadas da cerimônia, como as piadas nem sempre engraçadas da apresentadora Ellen DeGeneres, para ver a vitória de um filme que traz um exemplo do que tem feito a historiografia moderna sobre a escravidão ao, por meio da história de indíviuos reais, apresentar informações mais amplas sobre o contexto dessa tragédia vivida por africanos e seus descendentes nas Américas por mais de 300 anos.

O filme conta a história de Solomon Northup que, mesmo livre, foi raptado e reescravizado. Inclusive, na edição de domingo do jornal A TARDE publicamos histórias reais de nascidos livres em Salvador que foram escravizados.

Mas além da vitória de um filme contundente e muito interessante o que me chamou a atenção foi a proeminência de artistas negros na cerimônia do Oscar. Will Smith apresentou a categoria “melhor filme”; Jamie Foxx, maravilhoso em Django Livre, apresentou os prêmios para trilha sonora. Ainda houve uma participação emocionante de Sidney Poitier ao lado de Angelina Jolie.

Além disso, ao receber o Oscar de melhor filme, o diretor inglês Steve MCQueen fez um discurso de como a escravidão é real também para os negros e negras de hoje. Quando a TV brasileira terá uma inserção dos afro-brasileiros desse tipo?


Eventos debatem religiosidade afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 10:15 AM
23 de setembro de 2013
Registro do I Encontro de Nações, realizado em 1981. O primeiro à esquerda é o professor Vivaldo da Costa Lima e a última à direita Mãe Olga de Alaketo. Foto: Cedoc A Tarde

Registro do I Encontro de Nações, realizado em 1981. O primeiro à esquerda é o professor Vivaldo da Costa Lima e a última à direita Mãe Olga de Alaketo. Foto: Cedoc A Tarde

Reproduzo aqui a matéria que saiu na edição do último domingo. Um daqueles eventos que tem tudo para fazer história:

 

Cleidiana Ramos

 

Membros das religiões afro-brasileiras  vão realizar, a   partir da próxima terça-feira (amanhã, dia 24), mais uma edição de um evento marcante: o III Encontro de Nações de Candomblé. Realizada pela primeira vez em 1981, a reunião este ano tem a novidade de contar com a representação das tradições de outra regiões da Bahia, como o jarê e  o pegi, originários da Chapada Diamantina e Jacobina, respectivamente. De forma simultânea vai acontecer o I Simpósio de Estudos da Religião Afro-Brasileira. Os eventos serão na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no Terreiro de Jesus.

O simpósio  apresentará  estudos do Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Ufba, sediado no Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), instituição promotora das duas iniciativas. “O encontro ganhou uma dimensão que está nos surpreendendo”,  diz Márcia Souza que, ao lado de Lindinalva Barbosa e dos doutores em antropologia Cláudio Pereira e Jeferson Bacelar, forma a comissão organizadora.

“Será um espaço onde os religiosos de matriz africana vão atualizar as discussões de interesse e ter notícias da diversidade que caracteriza a prática religiosa”, aponta Lindinalva Barbosa. Ela também destaca a presença de jovens pesquisadores no simpósio. “O interessante é que muitos deles também são de candomblé”, completa. Para  Jeferson Bacelar, será a oportunidade de perceber como o candomblé está lidando com questões atuais.

“O candomblé tem uma dinâmica muito interessante, tanto interna como externa. Mesmo mantendo  tradições, ele precisa dialogar com o moderno”, diz. Homenagem Escolhido para ser homenageado, o doutor em antropologia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Júlio Braga, vai realizar uma palestra intitulada O Antropólogo na Encruzilhada, tema de um dos livros dele.

“É uma reflexão a partir de uma pergunta que sempre me faziam. As pessoas consideram contradição pesquisar a religião que se professa. Cada vez que me perguntavam sobre isso tinha vontade de xingar. Para não fazê-lo, preferir escrever”, conta Braga, em meio a gargalhadas. Ele tem extensa produção sobre o candomblé, inclusive livros que se tornaram clássicos, como O  Jogo de Búzios .

A saudação inicial aos dois eventos será feita pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi. Já a conferência de abertura do simpósio terá Vagner Gonçalves como palestrante. [veja entrevista com o estudioso na página ao lado]. Para participar é necessário fazer inscrição no Ceao, que fica no Largo 2 de Julho. A inscrição custa R$  20 (estudante) e R$ 30 (público em geral). Para ver a programação acesse www.ceao.ufba.br

Povo de Santo não foge à discussão

O I Encontro de Nações de Candomblé, realizado em 1981, nasceu da ideia de um curso de extensão sobre as religiões afro-brasileiras.  Na primeira edição, já foi comemorada a participação de representantes da nação angola que foi pouco mencionada nos estudos clássicos. A palestra de abertura do encontro foi feita pelo antropólogo Vivaldo da Costa Lima, autor do texto clássico sobre o uso do conceito de nação para definir as tradições do candomblé. Os demais  palestrantes foram escolhidos a partir de sugestões do  povo de santo. O patrono foi o orixá Ogum. O segundo encontro foi realizado em 1995 e teve como patrono o orixá Oxóssi. Esse ano, Xangô foi escolhido como o regente do evento.

A reunião para discutir as tradições é uma prática antiga no candomblé baiano. Mesmo quando a organização parte de pesquisadores, o povo de santo deixa uma marca muito forte. Manifesto Foi assim no II Congresso Afro-Brasileiro. Sediado em Salvador, o congresso foi organizado por Édison Carneiro, Aydamo Couto Ferraz e Reginaldo Guimarães, em 1937, mas não teria acontecido sem a colaboração do babalaô Martiniano do Bonfim, e contou com um texto de Mãe Aninha sobre culinária ritual.  De 17 a 23 de julho de 1983, foi realizada na capital baiana a II Conferência Mundial da Tradição Orixá e Cultura. O evento gerou um manifesto, liderado por Mãe Stella, defendendo a autoafirmação do candomblé como religião.


Carlos Moore lança nova edição de seu livro na Casa de Angola

postado por Cleidiana Ramos @ 2:27 PM
24 de setembro de 2012

Hoje tem lançamento de nova edição da obra de Carlos Moore na Casa de Angola. Foto: Divulgação

Hoje, a partir das 18 horas, na Casa de Angola (Barroquinha) tem atração de peso. O lançamento do livro “Racismo e Sociedade” de Carlos Moore encerra o III Encontro de Estudantes Guineenses em Salvador.

Moore é um dos mais brilhantes intelecutais do mundo contemporâneo. Sua análise sobre o racismo, um mal que insiste em persistir no mundo moderno é contudente.

O lançamento é um investimento da Editora Nandyala, da Casa de Angola, e do espaço cultural Katuka- Mercado Negro.

SERVIÇO
Evento: Lançamento da 2ª edição de Racismo e Sociedade: novas bases epistemológicas para se entender o racismo, de Carlos Moore.
Promoção: Editora Nandyala, Casa de Angola na Bahia, Katuka – Mercado Negro.
Quando: 24 de setembro de 2012, às 18h, na Casa de Angola, encerrando o IIIº Encontro de Estudantes Guineenses na Bahia.
Local: Praça dos Veteranos, Gravatá, na Casa de Angola ( Barroquinha – r, frente ao Corpo de Bombeiros), tel.: 3321-4495.
Mais informações:
Katuka – Mercado Negro: (71) 3321-0151


Câmara homenageia mulheres

postado por Cleidiana Ramos @ 11:21 PM
22 de julho de 2011

Mônica Kalille será uma das homenageadas. Foto: Xando Pereira| AG. A TARDE | 20.11.2009

Segunda Feira é o Dia da Mulher Negra Americana Latino Caribenha. Por esse motivo a Comissão em Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara Municipal de Salvador vai realizar a cerimônia de outorga do Prêmio Mulher Guerreira Maria Felipa.

A cerimônia será no Centro de Cultura da Câmara a partir das 19 horas. As homenageadas escolhidas pela comissão presidida pela vereadora Eron Vasconcelos (DEM) são: Nolay Bonfim (Irmandade do Rosário de Nossa Senhora dos Homens Pretos); Capitã Denice (Centro Maria Felipa da PM); Hilda das Virgens (Casa Maria Felipa); Dalva Tavares (Associação Maria Felipa de Itaparica); Eny Kleyde Vasconcelos (Biógrafa de Maria Felipa); Mônica Kallile (presidente do grupo A Mulherada).

Durante a entrega do prêmio, vai ter apresentação da radionovela Maria Felipa: uma heroína esquecida, da Quatro Produções, além das apresentações da cordelista Sandra Mamede, dos músicos Carlos Oliveira, descendente de Maria Felipa, e Alexandre Guedes (Motumbá)


2 de Julho: Axé para a Bahia e os baianos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:05 AM
2 de julho de 2011

Hoje, mais do que festejar uma data que começou a ser celebrada por inspiração popular, no mais puro estilo de brincadeira dos baianos, é também dia de saudar os donos da terra, os caboclos.

Portanto, que o 2 de Julho consiga sempre superar qualquer tipo de censura, mesmo aquela surgida com a melhor das intenções. Viva o verdadeiro espírito da baianidade.


Balaio de Ideias: 25 de maio–Bênção, Mamãe África

postado por Cleidiana Ramos @ 4:46 PM
25 de maio de 2011

Em artigo, Mãe Stella celebra o Dia da África. Foto: Diego Mascarenhas | Ag. A TARDE | 09.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Ainda de pouco conhecimento da sociedade é o fato de no dia 25 de maio se comemorar o Dia da África. Data escolhida porque em 1963 a Organização de Unidade Africana, hoje com o nome de União Africana, foi fundada, com o objetivo de ser, internacionalmente, a voz dos africanos.

Hoje, dia 25 de maio de 2011, o Terreiro Ilê Axé Opo Afonjá está recebendo uma média de cinqüenta professores da rede municipal, juntamente com seu secretário, para conosco comemorar este dia, que se constitui em uma tentativa de que os olhos e os corações do mundo se preocupem e se ocupem de cuidar do povo desse continente, mas também de aprender e apreender sua sabedoria, que como neta de africana e iniciada em uma religião que tem em África sua matriz, foi a mim transmitida.

Oportunidade que tudo faço para não desperdiçar. Muitas sementes da sabedoria dos africanos, em mim plantadas, ainda não encontraram terreno fértil para germinar, mas não desisto e, por isso, cuido desse terreno em todo momento. Outras há, no entanto, que cresceram e até deram frutos.

Foi assim refletindo que resolvi homenagear o berço da humanidade – a África -, aproveitando esse precioso espaço de comunicação que a mim foi concedido para, humildemente, tentar espalhar essas sementes, na esperança que elas caiam em terrenos férteis.

Foi através da tradição oral, chamada na língua yorubá de ìpitan, que entrei em contato com a maravilhosa arte de viver do africano, que tem na alegria um de seus fundamentos. Entretanto, nós brasileiros, que temos nesse povo uma de nossas descendências, não devemos correr o risco de sermos megalomaníacos e considerar a filosofia africana a melhor.

Todo povo possui sua sabedoria, mas Sabedoria, assim como Deus, é uma só. A mesma base, os mesmos fundamentos, apenas transmitidos de acordo com a cultura e o lugar de viver correspondente. Se foi através da tradição oral que aprendi, é agora na escrita, ìwe-kikó, que encontro condições favoráveis para transmitir, para um maior número de pessoas possível, os ensinamentos absorvidos e os quais ainda pretendo assimilar, de maneira profunda.

Conheçamos, então, um pouco do muito que possui a filosofia do povo africano: É na alegria e na generosidade que se encontra a força que se precisa para enfrentar os obstáculos da vida: “Lé tutu lé tutu bó wá” = “Sigamos em frente alegremente, sigamos em frente iluminados, dividindo o alimento adquirido”.

A palavra tem o poder de materializar o que existe em potencial no universo, por isso os africanos falam muito e alto, quando precisam canalizar sua energia em direção ao que é essencial, mas silencia nas horas necessárias. Um orin nos faz entoar: “Tè rolè… Mã dé tè rolè. Báde tè role” = “Eu venero através do silêncio… Eu pretendo cobrir meus olhos e calar-me. Ser conveniente, respeitando através do silêncio”.

Nosso maior inimigo (como também nosso maior amigo) somos nós mesmos: “Dáààbòbò mi ti arami” = “Proteja-me de mim mesma”. O cuidado com o julgamento do outro e também com o instinto de perversidade: “Bí o ba ri o s’ikà bi o ba esè ta ìkà wà di méjì” = “Se vir o corpo de um perverso e chutá-lo, serão dois os perversos”. O respeito às diferenças: “Iká kò dógbà” = “Os dedos não são iguais”. A necessidade de um permanente contato com a Essência Divina que cada um possui: Eti èmí óré dé ìyàn. Àroyé èmí óré dé ìyà” = “Na dificuldade de decisão e no debate, a Essência Divina amplia a visão para argumentar”.

Como se vê, o corpo da tradição oral africana, que é composto de itan – mito, oriki – parte do mito que é recitada em forma de louvação e evocação, orin – cântico de louvação, adurá – reza, ówe – provérbio serve para nos disciplinar.

Entretanto, nenhuma sabedoria tem mais valor do que a filosofia do ìwà, palavra que pode ser traduzida como conduta, natureza, enfim, caráter. Devemos estar atentos aos nossos comportamentos. Pois, como falam os africanos após enterrar um amigo, “ó kù ó, ó kù ó ìwà ré”, querendo dizer, “não podemos lhe acompanhar no resto de sua viagem, agora só fica você e seus comportamentos”.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Viva a África

postado por Cleidiana Ramos @ 4:38 PM
25 de maio de 2011

Hoje, Dia da África, nada melhor para comemorar do que um artigo temático escrito por Mãe Stella, publicado, quinzenalmente na página de Opinião de A TARDE. Aproveitem.


Homenagem a Abdias

postado por Cleidiana Ramos @ 5:24 PM
24 de maio de 2011

Acabo de ver que meu colega  Claudio Leal, de quem sou fã de carteirinha,  conseguiu o que me faltou: escreveu um texto e tanto sobre a morte de Abdias. Leal entrevistou Abdias para o caderno especial sobre a II Ciad publicado em A TARDE há cinco anos.

Depois, com Leal já atuando pela Terra Magazine, aconteceram várias outras entrevistas que renderam textos, sempre polêmicos, como gostava Abdias.   Cliquem aqui para conferir o belíssimo texto de Leal.


A despedida do grande Abdias

postado por Cleidiana Ramos @ 5:11 PM
24 de maio de 2011

Abdias Nascimento é um ícone da luta contra o racismo. Foto: Xando Pereira |Ag. A TARDE |13.11.2002.

Alguém já me disse que um acontecimento é importante quando você consegue lembrar exatamente o que estava fazendo naquele momento quando recebeu a notícia sobre ele.

Da mesma forma existem também pessoas que acionam essas lembranças. Uma delas é Abdias Nascimento. Nunca vou esquecer que estava numa sessão do V Encontro de Estudantes Africanos, na Faculdade de Economia da Ufba quando chegou a informação sobre a sua morte, na manhã de hoje.

Quem me falou, com toda a gentileza e cuidado peculiar aos filhos de Oxalá, foi o professor Jaime Sodré. Ele me chamou a um canto, preocupado em encontrar a melhor forma de abordar o assunto para a plateia.

A notícia só foi compartilhada após a leitura emocionada de um poema que o grande Limeira, um perfeito tradutor das emoções de uma alma descendente de africanos, compôs em homenagem a Abdias e Lelia Gonzalez.

A narrativa desta emoção coletiva foi a única forma que encontrei de tentar traduzir o que significa essa passagem de Abdias, pois produzir um texto sobre ele  está além da minha capacidade tanto informativa como de criação.

Basta pensar que este homem militou durante 80 anos pelo combate ao racismo em vertentes tão diversas como o teatro, a poesia e a política.

Acho que uma frase do professor Jaime resume tudo: ganhamos hoje mais alguém no plano ancestral para zelar por todos nós. Axé!


Bença enfoca o respeito aos mais velhos

postado por Cleidiana Ramos @ 3:27 PM
12 de maio de 2011

Bença, espetáculo do Bando de Teatro Olodum está de volta. Foto: João Meirelles | Divulgação

Pessoal, olha só que legal: a nova temporada de Bença, espetáculo do Bando de Teatro Olodum, está de volta às sextas e sábados, ate o dia 29, no Teatro Vila Velha. No domingo, o espetáculo vai contar com a participação de representantes do candomblé de nação jeje da Bahia e do Maranhão.

A sessão especial, marcada para as 17 horas, vai ter representantes do Seja Hundê, também conhecido como Roça do Ventura, localizado em Cachoeira e considerado um dos mais antigos terreiros do Brasil; do Bogum, situado em Salvador; e da tradicional Casa das Minas, que fica no Maranhão. As apresentações nas sextas e sábados começam às 20 horas.

Bença celebra os 20 anos do grupo e faz uma homenagem ao respeito que se deve ter aos mais velhos.

Os ingressos custam R$ 40 ( inteira) e R$ 20 ( meia) todos os dias. Os 50 primeiros ingressos, de cada sessão serão disponibilizados a R$ 15 (preço único).   A promoção é válida até 24 horas antes de cada espetáculo.

Instituições e escolas terão descontos na compra acima de 20 ingressos. Cada ingresso ficará no valor de R$ 15 (preço único). Contatos pelo telefone: 71 -3083-4607

E-mail: bando2@gmail.com

Blog: www.bandodeteatro.blogspot.com


Diálogo duplo com Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 6:03 PM
25 de abril de 2011

Mãe Stella participa do projeto Com a Palavra o Escritor da Fundação Jorge Amado. Foto: Xando Pereira |Ag. A TARDE|26.08.2010

Na próxima quarta-feira, Mãe Stella será a convidada do projeto Com a Palavra o Escritor, desenvolvido pela Fundação Casa de Jorge Amado. O encontro será às 17 horas na sede da institutição, localizada na Ladeira do Pelourinho.

Além disso, quarta-feira é o dia da publicação quinzenal do artigo da yalorixá na página de Opinião de A TARDE. Eu já tive o privilégio de ler o dessa semana, gentileza do editor Jary Cardoso, e, para não estragar a surpresa, só posso dizer a vocês: não o percam. Está maravilhoso como tem sido todos.

Para só refrescar a memória, aqui vai a lista dos cinco livros publicados por Mãe Stella: E Daí Nasceu o Encanto (em co-autoria com Cléo Martins ); Meu Tempo é Agora; Oxóssi – O Caçador de Alegrias; Òwe – Provérbios;  e Epé Laiyé – Terra Viva, que é dirigido ao público infanto-juvenil, principalmente. Um programa imperdível.


Balaio de Ideias: Orixá Ilu e Orixá Igbó

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
21 de abril de 2011

Antropólogo faz reflexão sobre a associação religiosa. Foto: Fernando Amorim| Ag.A TARDE| 22.09.2006

Vilson Caetano

Neste texto vamos abordar o desconfortável tema do sincretismo afro-católico. Desconfortável não por ser algo revisitado suficientemente por outros autores, mas pela série de estigmas que ao longo da história das religiões de matriz africana no Brasil, este conferiu a estas. Desta maneira, gostaríamos de iniciar esta reflexão retomando a afirmação de que o fenômeno do sincretismo é universal e por isso acompanha os grandes modelos religiosos do inicio de sua formação aos dias de hoje.

Pena que tal tema, nos estudos afro-brasileiros, ao aparecer na década de 30, serviu, dentre outras coisas, para legitimar a idéia da suposta inferioridade do pensamento africano, elaborada no século XIX a partir das teorias racistas. Assim por muito tempo, tal assunto quando apareceu nos estudos afro-brasileiros sugeriu leituras preconceituosas que desautorizavam as visões de mundo africana, graças a relação que estas desde cedo estabeleceram com o catolicismo português.

As leituras limitadas de tais relações se deram a partir da concepção de uma teoria conspiratória. Em outras palavras, alguns estudos apresentam as relações entre negros e brancos no Brasil colônia a exemplo de um campo de futebol: de um lado os negros, do outro lado os brancos. É certo que na colônia, como ainda hoje, as relações entre os não brancos e os que designaram-se brancos ainda continuam sendo algo predefinido. Atentar-se a isso talvez seja o primeiro passo para desmascarar o racismo brasileiro, racismo sutil, silencioso, cordial, camarada que empurra o homem e a mulher negra para o mundo do “deixa disso”, do “para com isso”, mas que sempre está ali constituindo as relações mais “familiares”.

Essa suposição da teoria conspiratória, ou da ação dos indivíduos a partir de “um lugar” sugeriu a teoria da dissimulação, que seria uma espécie de “faz de conta”. Desta maneira, as relações estabelecidas desde cedo entre o universo religioso africano com outros grupos seria explicada a partir desse faz de conta onde, por exemplo, os santos católicos através de um jogo de correspondências, de analogias externas, seriam uma espécie de máscara branca no rosto de ancestrais africanos.

Tal idéia nos anos 80, a partir da caminhada de quase vinte anos de movimentos negro e da presença de alguns intelectuais nos terreiros provocou uma espécie de mal estar no universo afro-brasileiro, ao menos para os participantes da II Conferência Mundial da Tradição Orixá e Cultura, realizada na cidade de Salvador. Quando se refletia sobre a o retorno à África, foi elaborado um documento, na forma de manifesto, que afirmava a fim de garantir à África mítica e pureza africana, ser necessário romper com o sincretismo afro-católico, expresso através da correspondência entre santos católicos e orixás, da ida das comunidades terreiros ao recinto católico por ocasião de algumas festas e da presença de altares católicos no barracão dos terreiros.

Não estamos bem certos se o objetivo do documento produzido no encontro era mesmo desconstruir as relações entre o candomblé e catolicismo a fim de legitimar o primeiro como religião, mas com certeza quando algumas lideranças religiosas assinaram tal texto, transformado pela mídia num Manifesto anti-sincretismo, era a defesa de suas tradições como religião que tinham em mente. Esse fato foi abordado pela Prof. Dra. Josildeth Gomes Consorte que estudou tal documento durante dez anos.

A partir das contribuições de seu trabalho realizamos uma pesquisa publicada sob forma de livro intitulado: Orixás Santos e Festas, onde chamamos a atenção para o fato de, diferentemente de como se apresenta, o fenômeno do sincretismo é sentido de forma diversa pelas pessoas. Em outras palavras, ao contrário da idéia de “faz de conta”, mistura, fusão, justaposição, jogo de correspondências, analogias, confusão, dentre outras, o fenômeno do sincretismo tem a ver mesmo com atribuição de significados, com sentimentos.

Desta maneira, a menos nas religiões de matriz africanas deve ser entendido como algo além das máscaras e disfarces, até mesmo porque não se reduz  apenas a vivências externas, ao contrário, em alguns momentos chega a ser constituidor de ritos específicos reconstruídos no Brasil, como fez o próprio Cristianismo quando se deparou com as religiões antigas, contemporâneas a sua formação.

Dizer que o sincretismo afro-católico não pode ser reduzido a relações exteriores, nem ao faz de conta explicado a partir da teoria da dissimulação é ao mesmo tempo reconhecer a capacidade que homens e mulheres negros tiveram de, contrariando a teoria conspiratória, romper com os lugares impostos a estes na sociedade e intervir a partir de seus lugares, tornando-os livres para criar, reinventar e dar continuidade a universos fragmentados pela escravidão que não foram destruídos graças à capacidade de diálogo com elementos simbólicos que se depararam numa verdadeira colônia.

O viver em colônia facilitou o diálogo entre africanos, ameríndios, portugueses, mouros, ciganos, cristãos novos, espanhóis, holandeses e muitos outros povos. O resultado foi a produção de modelos religiosos onde símbolos provenientes de várias matrizes culturais não apenas circulam externamente, mas dentro do corpo dos próprios iniciados. É interessante também observar que tais relações só foram possíveis, graças à dinâmica de juntar do pensamento africano somado à proximidade do universo católico português.

Em outras palavras, o catolicismo chegado da Península Ibérica, ao contrário do que havia se afirmado no século XIX era, por exemplo, tão sensual quanto o pensamento africano, basta olharmos para os santos barrocos que se não choravam nas igrejas, lamentavam a má sorte em alguns oratórios ao serem submetidos a um verdadeiro ritual de tortura pelos devotos. Depois, como chamou a atenção certa ocasião a Yalorixá Olga do Alaketu, orixás e santos da igreja no Brasil eram estrangeiros. Isso no seu entender significava o primeiro passo para o dialogo e entendimento de relações que não podiam ser reduzidas a algo superficial e externa.

Em alguns terreiros de candomblé de tradição jeje-nagô guarda-se ainda a expressão igbó para designar os não negros. Tal palavra também era utilizada por alguns povos de língua yorubá para chamar os seus vizinhos, os estrangeiros, aqueles vistos como “de fora”, categoria bem entendida pelas ciências sociais. Quanto às relações que desde cedo os universos africanos estabeleceram com os “estrangeiros” é algo que ainda esta para ser melhor estudada. Fato é que se não foram confundidos, desde cedo estes estrangeiros submetidos também à distância de suas terras de origem foram incorporados no universo religioso reconstruído no Brasil como estrangeiros, à semelhança dos ancestrais africanos.

Talvez esse fato comece a explicar a presença não somente de altares católicos em locais públicos onde se realizam as festas de candomblé, como também a tradução de rezas católicas para as línguas africanas, sem falar na evocação de orações católicas e alguns santos em momentos rituais protegidos dos olhares até mesmo daqueles que elaboraram a teoria do faz de conta. Verdade é que até mesmo os santos católicos apresentados aos africanos no contexto da escravidão, não foram vistos por eles como seus senhores.

Isso deu a possibilidade destes serem invocados ao lado dos orixás Ilu. Ilu, a terra distante, aquela deixada para trás, trazida apenas na memória e nas lembranças. Foram essas terras, o sentimento de fidelidade a elas que possibilitou às religiões de matriz africana juntar num mesmo sentimento religioso os orixás ilu com os orixás igbó, transformando essa experiência em algo que ainda hoje continua desafiando o pensamento ocidental greco-romano-cristão acostumado a dividir as coisas, a vida e o mundo.

Vilson Caetano é doutor em antropologia, professor da Ufba e religioso do candomblé


Exposição traz imagens de quilombos

postado por Cleidiana Ramos @ 1:20 PM
20 de abril de 2011

Anotem na agenda: na próxima segunda-feira, dia 25, começa a exposição Gente de Quilombo. A abertura será às 18 horas, na Casa da Música, em Itapuã.

A mostra traz fotografias de Álvaro Villela, Márcio Lima e Rita Cliff sobre a rotina em comunidades quilombolas de Barra e Bananal (Rio de Contas), Mangal Barro Vermelho (Sitio do Mato) e Rio da Rãs (Bom Jesus da Lapa).

Estas localidades foram as primeiras a receber a titulação da terra como quilombos na Bahia.

É a segunda temporada da exposição que fica até o dia 29 de maio de terça à sabado das 9h às 17h, e domingo das 9h às 16h. Clique aqui para ver as fotografias da exposição.


Cinquenta anos do Pilão de Prata

postado por Cleidiana Ramos @ 2:22 PM
8 de fevereiro de 2011

Articulista faz registro da história do Pilão de Prata. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Jaime Sodré

Sentimento de orgulho leva-nos a registrar a trajetória de famílis negras que descendem de núcleos familiares africanos, das mais variadas procedências, todas dignas. À dolorosa situação compulsória na condição de escravos, somava-se a quebra do vínculo comunitário e familiar. Famílias negras, algumas núcleos das religiões de matriz africana, povoaram com dignidade a cidade do Salvador. Entre estas, registramos as famílias Alaketu, Asipá, Alakija. Esta introdução conduz-nos ao nosso assunto: a família Bangbosé, a trajetória do Làjoumim e do Ilê Odô Ogê, que remonta às origens do candomblé no Brasil.

Personalidades como iyá Detá, iyá Kalá e Iyá Nassô implantaram a liderança feminina na formação do culto de base africana em Salvador, associadas a líderes masculinos como babá Asipá, Bangbosé Obitikô (Rodolfo Martins Andrade), que trouxera em sua companhia o seu Òsú em seu Orí, o fundamento do culto a Xangô.

Destacado integrante do reino de Oyó, Bangbosé era o acólito que carregara o oxé, instrumento associado ao poder do orixá Xangô. Conhecedor dos ritos do candomblé, Obitikô era a presença que possuía o embasamento fundamental na consolidação deste culto. Associado aos conhecimentos de iyá Nassô e Marcelina Obatossí entre outras, Bangbosê torna-se um dos patronos do candomblé na nova África-Brasil.

Do Iyá Omin Asé Airá Intilé na Barroquinha, Ilê Asé Nassô Oká, a Casa Branca, nasce o Terreiro Làjoumim, em 1941, cuja direção competente e generosa caberia a Caetana América Sowzer, nobre herdeira da tradição e do axé Bangbosé.

A reverendíssima iyá Caetana, Mãe dos Olhos D´Água, filha de Felisberto Américo Sowzer, Oguntosi, instrutor da sua disciplina religiosa, esta, transmitida por seu bisavô, Làjoumim assumira a continuidade da tradição Bangbosé, tendo como antecessores Maria Andrade Sangôbiyí, a filha dileta de Obitikô, e Felisberto Benzinho, respeitado babalaô. É no terreiro de Felisberto Benzinho, no Luiz Anselmo, que cresce a promissora Làjoumim, a Mãe dos Olhos D´Água, mãe Caetana, com sensibilidade e clarividência nata para elucidação dos enigmas religiosos, por isso muito respeitada. Elegante, em uma nobreza legítima, gosto requintado, refletido em suas roupas, verdadeira “alta costura” do candomblé, e nos objetos que refletem a nobreza típica do seu orixá.

A fertilidade do Terreiro Làjoumim procriou o Ilê Odô Ogê, o Pilão de Prata, tendo na sua lidernça, o gentilíssimo e competente babalorixá Air José de Souza, de Oxaguian, filho de Tertuliana Souza de Jesus, Tibúsè. Sobrinho querido de mãe Caetana, responsável por sua iniciação, pai Air é um legítimo seguidor da família Bangbosê, nos seus ritos e tradição.

Pai Amilton Costa cedeu-lhe o terreno, no qual Pai Air segue a sua missão instalando o Pilão de Prata. Com os estímulos dos irmãos da Casa Branca e o incentivo de mãe Caetana, a direção do Làjoumim ficaria a cargo da sua sobrinha, iyalaxé Haydée, filha dileta de Xangô.

Embora separados pelo espaço geográfico, o Pilão de Prata, situado no Alto do Caxundé, na Boca do Rio, e o Làjoumim, localizado na Rua Xisto Bahia, na Vasco da Gama, formam uma grande família, digna da sua tradição. Pai Air empregou os seus esforços na instalação do Memorial Làjoumim, uma justa homenagem a mãe Caetana no seu primeiro axexê. Localizado no Pilão de Prata, o memorial é composto de objetos refinados, elementos associados ao bom gosto de Mãe Caetana.

Para apoio às virtudes intelectuais dos fiéis do candomblé e da comunidade, pai Air construiu a Biblioteca Làjoumim, inaugurada em 2000, na cerimônia dos sete anos de falecimento de mãe Caetana. Coube também a ele a criação da Sociedade de Presevação do Asé Bangbosé, encarregada da administração do patrimônio material, cultural e religioso do Làjoumim e Pilão de Prata. Reformas no entorno do terreiro culminam com a instalação de um monumento a mãe Caetana. São cinquenta anos de resistência do legado religioso africano. O Ilê Odô Ogê é referência e orgulho do povo da Bahia e do axé.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em HIstória Social e religioso do Candomblé


Dia de saudar a orixá que governa a cabeça

postado por Cleidiana Ramos @ 7:19 PM
1 de fevereiro de 2011

Tudo pronto para saudar a rainha do mar. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Amanhã é dia de saudar Iemanjá. O trecho da praia do Rio Vermelho, onde fica a colônia de pesca Z-1, cujos integrantes organizam a homenagem, vai ser tomada pelos devotos da orixá que governa a cabeça.

Iemanjá recebe um carinho especial na Bahia. É considerada a mãe de todos os orixás, pois conta um mito iorubá que eles saíram dos seus seios partidos.

Aqui, ela também ampliou ainda mais o seu império. Se nos locais de cultura iorubá, onde estava o seu culto, governava as águas doces, na capital baiana ganhou o mar como palácio.

Isso porque o culto do seu pai, Olokun, soberano do oceano, não se firmou. Assim, Iemanjá ficou com as águas salgadas e Oxum com as águas doces.

Por isso, pouca gente sabe, mas no início da madrugada de amanhã, Oxum vai ganhar sua oferenda nas águas do Dique, do Tororó, em um ritual que também é comandado por Mãe Aíce, a responsável pelas obrigações de Iemanjá.

Vale também lembrar que Iemanjá é o único orixá que tem uma festa exclusiva, sem nenhuma associação com santo católico, em sua homenagem na capital da Bahia.

Portanto, que receba todas as honras possíveis. Odoyá!


Comunidade do Seja Hundé celebra vitória

postado por Cleidiana Ramos @ 12:18 PM
24 de janeiro de 2011

Seja Hundé, também conhecido como Roça do Ventura, ganhou proteção federal. Foto: Marco Aurélio Martins| Ag. A TARDE| 08.12. 2008

Após muita luta da sua comunidade, o Seja Hundé, um dos mais tradicionais terreiros de nação jeje do País, localizado em Cachoeira, no recôncavo baiano, já desfruta de proteção federal.

Isso porque o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) publicou, no último dia 10, a notificação sobre o processo de tombamento do terreiro.

É um passo seguro até o tombamento e que já protege a Casa de agressões como o desmatamento de seu espaço sagrado  que aconteceu recentemente.

Esse reconhecimetno nacional para o Seja Hundé é mais uma vitória no caminho da reparação aos templos de matriz africana que já foram tão perseguidos pelo Estado em suas variadas representações.


Conexão com a África

postado por Cleidiana Ramos @ 3:23 PM
21 de janeiro de 2011

Os laços entre a capital da Bahia e o Benim podem ficar ainda mais fortes. No Pelourinho já fica uma representação cultural de lá. Foto: Rejane Carneiro| Ag.A TARDE| 12.07.2006.

Soube hoje pelo colega Donaldson Gomes que o presidente da Abav-Ba, Pedro Galvão, em reunião com o ministro do Turismo, Pedro Novaes, levou a reivindicação do trade baiano  de um voo saindo de Salvador para países africanos.

A proposta animou o ministro e a expectativa é que a ideia seja posta em prática ainda esse ano. Os destinos mais cotados do outro lado do Atlântico para a nova linha são a República do Benim ou a Costa do Marfim.


Itaparica tem exposição sobre caboclos

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
11 de janeiro de 2011

Caboclos são tema de exposição em Itaparica. Foto: Gal Meirelles|Divulgação

Uma mostra bem interesssante está rolando em Itaprica desde o último dia 7, data em que são comemoradas as lutas pela Independência na Bahia travadas na localidade. Trata-se da Exposição Fotográfica Caboclos de Itaparica, instalada na Praça do Campo Formoso e que segue até o dia 7 de fevereiro.

As fotos são de Armando Corrêa Ribeiro, Gal Meirelles, Patrícia Carmo e Paulo Lima e a curadoria da exposição é de Justino Marinho.

As imagens registram os festejos que giram em torno do grupo Os Guaranis, guardião, desde 1939, do Caboclo Tupinambá. Foram registrados os preparativos, o carro dos caboclos percorrendo as ruas de Itaparica dentre outros temas.

As fotografias foram realizadas de 5 a 10 de janeiro do ano passado e é resultado de um projeto apoiado pelo governo da Bahia através do edital Matilde Matos de apoio a exposições de artes visuais da Fundação Cultural do Estado.


Novidade na área de História

postado por Cleidiana Ramos @ 1:05 PM
1 de dezembro de 2010

Livro reconstrói história do alufá Rufino. Foto: Divulgação

Mais um bom lançamento literário na área. Na próxima sexta-feira, das 18 às 21 horas tem lançamento do livro intitulado O Alufá Rufino.

A publicação tem assinatura tripla: João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J.M. de Carvalho.

O trabalho é muito interessante, pois traz novidades sobre escravidão e religiosidade.

O lançamento será na Livraria LDM, situada na Rua Direita da Piedade, 22 (Piedade). A livraria fica próxima ao Banco do Brasil e ao prédio da Secretaria de Segurança Pública.


Cartilha celebra memória do protesto dos 500 anos

postado por Cleidiana Ramos @ 2:31 PM
24 de novembro de 2010

Cartilha resgata protestos dos movimetnos sociais ocorridos na festa dos 500 anos em 2000. Foto: Antonio Saturnino| Ag. A TARDE| 22.4.2000

Amanhã, quinta-feira, às 18 horas, no Cepaia (Largo do Carmo, 4, Centro Histórico), tem o lançamento da cartilha Zumbi apareceu na Coroa Vermelha. Trata-se da recupração da história do Movimento Brasil outros 500, que deu origem aos protestos durante a celebração dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil. 

O ponto  de partida das reflexões é o papel do Quilombo Palmares, um acampamento instalado nas imediações de Coroa Vermelha. 

Durante o lançamento, haverá depoimetnos de militantes que estavam lá durante os confrontos com a polícia. A promoção da cartilha é do Movimento Negro Unificado (MNU).


Panáfricas é uma nova ponte entre a África e sua Diáspora

postado por Cleidiana Ramos @ 11:59 AM
9 de novembro de 2010

Parte da equipe do Panáfricas: Paulo Rogério, Carlos Moore e André Santana. Foto: Divulgação

Uma equipe de jovens comunicadores, acompanhados pelo intelectual Carlos Moore, está fazendo um belíssimo trabalho sobre a África e sua Diáspora. Preferi transcrever abaixo um texto muito interessante sobre esta experiência, que pode também ser acompanhada em um blog que vocês acessam clicando aqui.

O eterno retorno à Terra Mãe

Até o próximo dia 16 de novembro, o Projeto Panáfricas estará na África registrando sons e imagens do continente de onde saíram para o mundo milhões de seres humanos, com sua rica cultura, arte, ciência e forma de vida. O material colhido na viagem à Nigéria, Gana e África do Sul – primeira etapa do projeto – integrará uma série de televisão sobre o panafricanismo e a diáspora africana.

Essa descoberta das origens dos afrodescendentes e sua luta pela cidadania está sendo conduzida pelo historiador cubano, Carlos Moore, grande conhecedor da trajetória de ícones da luta negra pelo mundo, com os quais conviveu em diferentes países,como Fela Kuti, Cheikh Anta Diop, Aimé Cesaire, Malcolm X, dentre outros.

O ativista Carlos Moore está retornando à África após mais de duas décadas, para fazer o lançamento da versão africana do livro: Fela: this bitch of the life, biografia de Fela Kuti, lançada originalmente em 1982 e que em breve terá sua versão em português. Trata-se da primeira biografia escrita sobre um artista africano.

A equipe do Panáfricas é formada pelo publicitário Paulo Rogério Nunes, produtor executivo do projeto, e pelos jornalistas André Santana, Lucas Santana e Mateus Damasceno, que também é cineasta e está sendo responsável pelas imagens. Damasceno é o presidente da Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV). Paulo Rogério e André Santana são diretores da série de TV Panáfricas e integram o Instituto Mídia Étnica, organização social que há cinco anos vem realizando projetos sobre mídia, tecnologia e relações étnicas, utilizando, inclusive, o audiovisual.

Alguns vídeos  produzidos pelo Instituto Mídia Étnica podem ser conferidos no Portal Correio Nagô (www.correionago.com.br). Mateus Damasceno e Lucas Santana fazem parte da produtora baiana Caranguejeira, que tem experiência na produção de cinema e vídeo, com produtos premiados como o documentário: Bolívia, para além de Evo, fruto da experiência dos profissionais no país latino-americano. Mateus é o diretor de fotografia da série Panáfricas e Lucas, o técnico de áudio e som direto.

Roteiro de viagem

A entrada na África aconteceu em 8 de outubro pela Nigéria, país de 140 milhões de habitantes. A pauta principal no país foi o legado político e musical de Fela Kuti, criador do Afrobeat e principal referência para os nigerianos. A equipe visitou as cidades de Abuja, capital da Nigéria, Abeokuta, onde Fela Kuti nasceu e Lagos, a segunda maior cidade da África e que tem o maior contigente negro do mundo. Foi em Lagos onde Fela criou uma comunidade chamada Kalakuta, que propunha a liberdade e solidariedade entre seus habitantes. Em Lagos também está o Africa Shrine, casa de show que se eternizou na história da música pelas apresentações de Fela e hoje é conduzida por seus filhos, a produtora Yeni e o músico Femi Kuti.

O Panáfricas entrevistou amigos, músicos e familiares de Fela, cinco dos seus filhos e duas das suas ex-esposas. Além de registrar o cotidiano de Lagos, com sua tumultuada rotina de megalópole (mais de 15 milhões de habitantes) e sua flagrante desigualdade social. Na segunda etapa da viagem, a equipe visitou Accra, capital de Gana,primeira nação africana a ser tornar independente do colonialismo europeu, em 1957.

A pauta principal em Gana foi a importância de Kwame Nkrumah, herói da independência e primeiro presidente do país livre e W.E.B. Du Bois, intelectual e ativista afro-americano, que escolheu viver em Gana. Ambos são considerados os pais do panafricanismo, pela contribuição ideológica e prática na luta pela soberania africana e união entre as nações africanas e os países da diáspora.

O Panáfricas registrou uma importante entrevista com Carlos Moore sobre o panafricanismo. As locações foram o Instituto de Estudos Africanos, da Universidade de Ghana, o Panafrican Centre, Memorial Kwame Nkrumah.

Em Gana, além da capital, a equipe visitou as cidades de Cape Coast e Elmina no litoral do país, onde registrou imagens dos fortes de onde embarcaram para as Américas milhares de africanos sequestrados pelo comércio escravista. A última parada dessa primeira etapa do Projeto Panáfricas está sendo a África do Sul, país que ficou marcado pelo regime segregacionista do apartheid, cujas leis estabeleciam as diferentes oportunidades e direitos entre brancos e negros, até o início da década de 1990. No país que sediou a última Copa do Mundo estão sendo enfocadas as contribuições de ativistas como Steve Biko e Nelson Mandela, através de entrevistas e registros nas cidades de Joanesburgo e Pretoria.

O Panáfricas fez imagens surpreendentes dos arredores de Joanesburgo, a mais desenvolvida cidade da África subsaariana, onde estão localizados os township (comunidades segregadas criadas pelo apartheid): Soweto e Lenasia. Assim como Soweto era o local reservado aos negros, tornando-se ícone da luta contra o apartheid, Lenasia mantinha a populacão indiana bem distante do centro de Joanesburgo.

A viagem começou no dia 8 de outubro e o retorno ao Brasil será no dia 16 de novembro. O projeto pretende filmar também em outros países africanos e da diáspora negra como Etiópia, Tanzânia, Martinica,Jamaica, Estados Unidos e Índia.


Irmandade dos Pretos celebra Nossa Senhora do Rosário

postado por Cleidiana Ramos @ 11:40 AM
22 de outubro de 2010

Irmandade do Rosário dos Pretos festeja sua padoreira. Foto: Claudionor Júnior| Ag. A TARDE

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos já está celebrando a sua padroeira, mas o ponto alto será neste domingo com a missa, seguida de procissão, às 10 horas.

É bom lembrar que a missa acontecerá na Igreja do Carmo, pois a que pertence à irmandade, na Ladeira do Pelourinho, está em reforma.

Na segunda-feira acontecerá a missa em homenagenagem aos antepassados às 9 horas. A missa de terça-feira, às 18 horas, encerra os festejos.

A irmandade que está comemorando 325 anos tem uma belíssima história de resistência. Formada originalmente por escravos vindos da região onde hoje estão Angola e Congo, a associação cumpria fins que hoje podem ser definidos como previdênciários, pois garantia pensão para os familiares dos seus associados em caso de morte ou invalidez. Além disso tinha um fundo pecuniário para compras de aforria.

Uma outra das muitas histórias interessantes sobre a irmandade: eles servem durante o aniversário um bacalhau com toucinho. O costume é resultado do escudo que  representantes da irmandade usaram contra acusações perigosas, e que poderiam levar à morte ou deportação, de que teriam acobertado os participantes da Revolta dos Malês em 1835. A ideia era mostrar, ao comer porco, que não eram islâmicos.


Seminário destaca história da nação angola na Bahia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:21 AM
21 de outubro de 2010

Seminário destaca história da nação angola na Bahia, com destaque para a vertente denominada angolão paquetan que tem Tata Mutá Imê como um dos representantes. Foto: Aristides Alves| Divulgação

Hoje, às 19 horas, no Museu Carlos Costa Pinto, Corredor da Vitória, tem o seminário sobre a nação angola na Bahia. O debate vai ser conduzido pelo Tata de Inquice, Mutá Imê, o  doutor em Antropologia, Renato da Silveira, eu e a diretora do Ceao e coordenadora do Grupo de Capoeira Nzinga, Paula Barreto.

O seminário é mais uma atividade para marcar o lançamento dolivro A Casa dos Olhos do Tempo que Fala da Nação Angolão Paquetan. A publicação traz artigos sobre a história do candomblé angola na Bahia, a linhagem do Terreiro de Mutá Lambô ye Kaiongo, comandado por Tata Mutá, informações sobre etno-botânica religiosa, dentre outras.

No museu também estão em exposição as fotografias sobre o terreiro feitas pelo fotógrafo Aristides Alves que é o coordenador da publicação.  A exposição fica até o dia 20 de novembro e pode ser visitada de segunda a sábado, exceto na terça-feira, das 14h30 às 18 horas


Homenagem à Nação Angola

postado por Cleidiana Ramos @ 11:41 AM
19 de outubro de 2010

Livro apresentação detalhes sobre a Nação Angolão Paquetan. Foto: Aristides Alves | Divulgação

Hoje temos, às 19 horas, no Museu Carlos Costa Pinto, Corredor da Vitória, um lançamento de um livro que promete marcar história: A Casa dos Olhos do Tempo que fala da Nação Angolan Paquetan.  O destaque da publicação é contar um aspecto da história do candomblé angola que tem tão poucos estudos disponíveis, apesar da sua importância e pioneirismo no candomblé.

Publicada com o apoio do Ministério da Cultura, via Fundação Cultural Palmares, e organizada pelo fotógrafo Aristides Alves, a obra traz artigo de Renato da Silveira sobre as origens do culto angola no Brasil; um assinado por mim que fala da história da família de santo do Terreirro Mutá Lambô ye Kaiongo; uma análise etnobotânica dos biólogos Aion Sereno Alves da Silva e Ana Paula de Sales A. Alencar, além de ilustrações do professor Marco Aurélio Damasceno.

Além disso, o livro tem um belíssimo ensaio fotográfico feito por Aristides Alves e informações sobre culinária, ferramentas sagradas e um CD que traz os cânticos da nação.

Amanhã tem mais celebração com a abertua da exposição fotográfica de Aristides sobre o Terreiro de Mutá Lambô ye Kaiongo. A exposição fica até o dia 20 de novembro e pode ser visitada de segunda a sábado, exceto na terça-feira, das 14h30 às 18 horas também no museu.

Na quinta-feira tem um seminário sobre a nação angola na Bahia a partir das 19h30 com a participação do Tata de Inquice Mutá Imê; Renato da Silveira, eu e Paula Barreto, diretora do Ceao e coordenadora do grupo de capoeira Nzinga.

Para saber mais sobre o livro, que terá distribuição gratuita, dêem uma olhada na edição do Caderno 2+ da edição de hoje de A TARDE que traz um artigo do jornalista e antropólogo Marlon Marcos.