Arquivo da Categoria 'Esporte'


A resistência de Andrade

postado por Cleidiana Ramos @ 6:35 PM
8 de dezembro de 2009
Saudado como primeiro negro a ser campeão brasileiro dirigindo uma equipe. Foto:Divulgação|Vip Comm

Andrade: saudado como primeiro negro a ser campeão brasileiro dirigindo uma equipe. Foto:Divulgação|Vip Comm

Peço desculpas a vocês pela ausência durante estes dias, mas é que tive uma segunda-feira agitada no jornal e ainda estou me recuperando das emoções do último domingo quando o meu Flamengo (desculpem são paulinos, colorados e palmeirenses) ganhou o Brasileirão 2009.  Tinha pensado em evitar o assunto para não dizerem que estou legislando em causa própria, mas como vários comentaristas da área de futebol estão falando sobre o tema acho que o Mundo Afro não deve se omitir.

O técnico do Flamengo, Andrade, está sendo saudado como o primeiro  negro a ganhar um campeonato à frente de uma equipe. O simpático integrante da geração de ouro do Flamengo, que fez um trabalho fantástico sem ser mal educado com a imprensa, sem dar piti à beira de campo e sem fazer pose de salvador do mundo, é também o primeiro a conquistar seis títulos nacionais unindo agora a sua condição de técnico e as  vezes que chegou a estas conquistas como jogador.

A conquista de Andrade é realmente um divisor de águas, pois embora os negros estejam maciçamente presentes dentro de campo poucas vezes vieram à frente para comandar a tática das equipes. Acho que o triunfo  de Andrade é um tapa de luvas na atitude preconceituosa de vários dirigentes, inclusive do próprio Flamengo.  Em entrevistas já após o título Andrade enumerou às vezes que sofreu preconceito  tendo a sua capacidade contestada. No Flamengo era conhecido com um eterno interino e auxiliar até que agora deu a volta por cima.

Resolvi reproduzir aqui um texto sobre o tema assinado por Fabrício Carpinejar, pois acho que diz tudo sobre esta batalha de Andrade. O texto   intitulado O Orfeu das Pranchetas já me  ganhou por citar o livro de Mário Filho- O Negro no Futebol Brasileiro- escrito de uma forma tão competenete e fluente que dá vontade de devorar em poucas horas.

Acho que o texto de Carpinejar diz muito sobre Andrade, que merece todas as homenagens por sua história de luta e resistência. Confiram o texto clicando aqui.

 


Trio é preso por agressão e insulto racista contra jogador

postado por Cleidiana Ramos @ 7:15 PM
1 de dezembro de 2009
Torcedores que agrediram o jogador foram autuados por lesão corporal e racismo. Foto: JOSE PATRICIO| AE

Torcedores que agrediram o jogador foram autuados por lesão corporal e racismo. Foto: JOSE PATRICIO| AE

Não bastasse as emoções da reta final do Campeonato Brasileiro, com quatro times na disputa pelo título, mais uma notícia quente sobre a disputa. Pena que esta foi parar na esfera policial envolvendo acusação de racismo e lesão corporal.

Segundo as versões que estão circulando em portais on line, o jogador do Palmeiras, Vagner Love, foi provocado por três supostos torcedores do time que o culparam pelos maus resultados no final do campeonato.

Eles teriam agredido o jogador também com frases como “negão baladeiro”. O jogador então trocou socos e pontapés com o trio. Os supostos torcedores teriam feito então uma ameaça: “Vamos voltar e te pegar na bala”.

Os três estão presos e tem idades de 19, 20 e 25 anos. Eles foram autuados por lesão corporal e racismo. Um dos integrantes do trio já tem passagens na polícia por lesão corporal e formação de quadrilha.

Já o jogador disse que só vai se pronunciar amanhã. Antes da partida do último domingo, o ônibus dos jogadores do Palmeiras foi apedrejado. Os autores não foram identificados. 

Este ano, durante  um jogo entre Grêmio e Cruzeiro pela Libertadores da América surgiu outra acusação de racismo no futebol brasileiro. O jogador do Cruzeiro, Edcarlos, acusou o atacante do Grêmio, Máxi Lopes, de chamá-lo de macaco durante uma disputa por bola. Lopes foi indiciado por racismo.


Consciência Negra 2009: Boxe sob um novo aspecto

postado por Cleidiana Ramos @ 1:06 PM
24 de novembro de 2009

Tem um texto muito legal escrito por Hamilton Borges Walê aí abaixo que analisa o boxe sob um ponto diferente do que a gente está acostumado a ver.

É também um chamado para o torneio da modalidade esportiva que acontece no dia 27, ás 16 horas, na Praça Municipal.


Consciência Negra 2009: Consciência Negra no punhos e mentes

postado por Cleidiana Ramos @ 1:05 PM
24 de novembro de 2009
Hamilton Borges mostra aspecto cidadão da prática do boxe. Foto: Fernando Amorim| AG. A TARDE

Hamilton Borges mostra aspecto cidadão da prática do boxe. Foto: Fernando Amorim| AG. A TARDE

Hamilton Borges Walê

(…) Norman levaria alguma coisa consigo, esperando não ser demasiadamente ambicioso. Pois o boxe peso pesado é quase totalmente negro, tão negro como os bantus.  De modo  que o boxe se tornou mais uma chave para revelações sobre o negro, mais uma chave para emoção negra, a psicologia  negra, o amor negro”  (Norman Mailer, A luta- Companhia das Letras, 1975,pag.42)

O Boxe é considerado um esporte olímpico, uma das maiores expressões esportivas do Brasil e, particularmente, do Estado da Bahia. Infelizmente, não tem a  visibilidade,  apoio  e reconhecimento que o faz um dos esportes mais premiados no mundo. Prêmios, títulos e glórias conquistadas ficam imediatamente esquecidos,o que leva atletas de peso a defenderem bandeiras de outros estados da federação.

Até os anos de 1980, era normal, num dia de luta, vermos o Ginásio Antônio Balbino (O Balbininho) receber mais de 5000 pessoas (público pagante) para espetáculos de boxe com ampla narração e cobertura da grande impressa esportiva. O boxe  é uma realidade social que atinge toda tessitura do território de Salvador. Em cada bairro e região existe uma academia de treino e competição, a maioria nacionalmente premiada.

Boxe sempre fez parte da vida e identidade cultural dos moradores de Salvador. Seja nos desafios orquestrados nos anos 20, entre capoeiras e pugilistas, seja na busca por profissionalização, o que resultou na ascenção de grandes atletas olímpicos e profissionais que até hoje nos presenteiam com prêmios, medalhas e honrarias dignas da “Nobre Arte”.  No entanto, temos conhecimento das péssimas condições de funcionamento das academias que tem formado atletas de ponta para disputarem  títulos nacionais e internacionais com países  com alto grau de investimento neste  esporte, destacando-se  Cuba, EUA, Rússia e Japão.

O treino na laje, a falta de alimentação adequada dos atletas, a falta de recursos e patrocínio podem ser os piores adversários deste segmento esportivo. No que tange sua prática, o Boxe, por suas regras severas garante um baixo nível de letalidade, estando atrás até de esportes como o futebol.

O Torneio Zumbi dos Palmares de Boxe, vem como um simples instrumento para dar visibilidade a esta prática desportiva, criar um espaço de debate e diálogo sobre o boxe, fazer constar na agenda política local informações sobre esse esporte que carrega a marca da luta, da garra e da esperança, como legados do Herói Negro Zumbi dos Palmares.

A data proposta para a realização do Torneio Zumbi dos Palmares de Boxe  revela ainda outra questão de grande importância para nossa atual busca de reparação histórica e humanitária. Temos uma hipótese, não agradável é certo, de que a prática do boxe exercida por atletas em sua maioria negros e negras das classes  populares  carrega um estigma, uma marca histórica de racismo que resulta na falta de apoio para uma parcela significativa da população da cidade. Por isso apresentamos de forma inaugural para esse debate sobre superação de desiguldades raciais um intrumento de Reparação.

O boxe é um instrumento sócio-educativo de grande importância no combate a violência instalada nas comunidades pobres e periféricas, sobretudo, e que atinge preferencialmente a juventude. A prática do boxe tem servido ao propósito de direcionar  esta juventude a uma alternativa de cidadania plena e responsável.

O Torneio Zumbi dos Palmares de Boxe, vai acontecer no dia 27 de Novembro de 2009, na Praça Municipal em frente ao Elevador Lacerda. Ao tempo em que celebra a consciência negra em nosso município, busca dar visibilidade à pratica esportiva do boxe e o reconhecimento aos atletas do passado que deixam seu legado de luta e resistência.Os propósitos deste torneio são sociais e pretendem criar espaços de diálogos intersetoriais  para o fortalecimento desse esporte, já vitorioso em nosso município e Estado.

Nesse mês  em que  celebramos a consciência negra tendo Zumbi dos Palmares como símbolo, parece que nós, praticantes do Boxe pedimos ao poeta Limeira um verso emprestado, é que a cada rodada de lutas que  fazemos  Palmares  se reinventa, Palmares surge  novamente de novo, e novo é entender que por dentro da dor instalada pela violência a juventude negra e pobre de Salvador vai criando alternativas pelo esporte, pela luta.

Hamilton Borges Walê,militante do Movimento Negro e praticante de Boxe

 


Grêmio condena racismo. Finalmente!

postado por Cleidiana Ramos @ 1:24 PM
4 de julho de 2009

No final da tarde de ontem, o presidente do Grêmio, Duda Kroeff, prometeu que vai tentar identificar os torcedores que agrediram com gestos racistas o jogador do Cruzeiro Elicarlos. Quando se preparava para entrar em campo,  em Porto Alegre, na última quinta-feira,  Elicarlos foi recebido pela torcida gremista com gestos e sons que imitavam um macaco.

Parte da torcida já tinha feito os mesmos gestos para um outro jogador do Cruzeiro, também negro, Leonardo Silva. Elicarlos disse que o argentino Maxi López, jogador do Grêmio, o chamou de macaco durante uma disputa por bola no primeiro jogo entre as duas equipes por uma vaga na final da Copa Libertadores da América. A polícia mineira instaurou inquérito para apurar a agressão, pois o jogo foi disputado em Belo Horizonte.

Segundo Kroeff, haverá consulta às câmeras instaladas no estádio Olímpico, palco da partida. Ele prometeu que os torcedores identificados serão impedidos de assistir a jogos no local.  Mas admitiu que haverá problemas para encontrar os autores da prática racista no meio de  um público formado por 50 mil pessoas.

“O Grêmio rejeita essa atitude. É lamentável, é ridículo, é errado. Aqui no clube, convivemos com todos os tipos de raças e de religiões. O Grêmio tem uma estrela em sua bandeira como homenagem ao Everaldo, um atleta negro. É o único clube que fez isso. Olha, eu gostaria de poder identificar as pessoas que fizeram isso para que nunca mais voltem ao Olímpico”, disse. 

O pronunciamento do presidente do Grêmio, é válido. Mas até agora nem a Conmebol, que organiza a Copa Libertadores, nem a CBF, que representa o futebol brasileiro, fizeram qualquer tipo de menção ao caso e muito menos à disposição de tomar uma providência mais  dura, como impor sanções ao Grêmio. É isto que pelo menos acontece no Brasil quando torcedores invadem o campo ou provocam confusões nas arquibancadas. Clubes da Europa já foram punidos por conta de manifestações racistas das suas torcidas.

A Fifa tem reiteradamente tentado combater o racismo nos campos de futebol via a campanha “Diga não ao racismo”, inclusive com a prática de que capitães das equipes leiam, antes do jogo, um comunicado condenando este crime. Pelo bem do futebol, vale torcer para que a existência do racismo no esporte receba o tratamento de combate que merece.

Com informações do Globo.com


Tenha força, Elicarlos!

postado por Cleidiana Ramos @ 10:00 AM
3 de julho de 2009
Fabinho do Cruzeiro disputa com Maxi López acusado de agressão racista. Foto: AP Photo | Emanuel Pinheiro

Fabinho do Cruzeiro disputa a bola com Maxi López acusado de agressão racista. Foto: AP Photo | Emanuel Pinheiro

O jogador do Cruzeiro, Elicarlos, voltou ontem a sofrer insultos racistas durante a partida entre o seu clube e o Grêmio em Porto Alegre. E agora o testemunho da agressão não veio do jogador nem de um colega de equipe como da outra vez, mas do próprio som ambiente.  Bastou Elicarlos entrar em Campo para a torcida do Grêmio fazer gestos de macaco e imitar os sons que costumam ser produzidos pelo animal.

Antes a torcida, em menor escala, já havia feito os gestos para outro jogador do Cruzeiro, também negro: Leonardo Silva. Na partida da semana passada- a vaga para a  final da Libertadores é decidida em dois jogos- Elicarlos disse ter sido chamado de macaco pelo jogador do Grêmio, Maxi López.

Após o jogo que aconteceu em Minas Gerais, Elicarlos procurou a polícia e registrou queixa. Formou-se uma confusão e toda a delegação do Grêmio foi parar na delegacia. Está aberto um inquérito para apurar o caso classificado pela polícia de “injúria qualificada”.

Foram poucos os órgãos de comunicação que trataram do assunto de uma maneira mais aprofundada. A maioria optou pelo silêncio, pois o medo e o preconceito de discutir racismo no Brasil abertamente e de forma inteligente  continua. Quando acontece é de forma incoerente, com lugares comuns e envolvendo gente que nem sempre sabe do que está falando.   

O problema é que este não é o primeiro caso. E os que dizem que isto é coisa do calor da partida calam-se diante do argumento de que até agora  o insulto  “macaco”  não foi dirigido a um jogador de pele clara.  Mais grave ainda é que agora a agressão virou grito de torcida.

Não é mais a palavra de um jogador contra a do outro. Na semana passada, por exemplo, Maxi Lopez, que é argentino negou o insulto, afirmando que nem conhece a palavra “macaco” em português.  Elicarlos tem a seu favor o testemunho de um colega de time e as imagens de TV que mostram a indignação dos jogadores do Cruzeiro, inclusive apontando para a pele. Vale lembrar que no momento da  possível agressão o Cruzeiro ganhava de 3X0.

Enquanto isso a Conmebol, que é organizadora do torneio, não disse nada sobre o assunto. A CBF, representante do futebol brasileiro, também não se pronunciou.

Na Itália e na Espanha clubes tiveram que jogar com portões fechados por conta de manifestações racistas de suas torcidas.  O brasileiro Roberto Carlos e o camaronês Samuel Eto´o  são exemplos dos que foram chamados de macaco por lá.

Ramires, outro jogador do Cruzeiro,  também negro, afirmou que foi agredido com o mesmo  insulto em outras partidas da Libertadores. O presidente do Cruzeiro, Zezé Perrella lamentou as ocorrências e  passou a bola para a Conmbebol. Disse que é a associação que deve tomar providências.

Ontem, quando Elicarlos entrou em campo um comentarista de TV saiu com essa: “Vai entrar agora o causador de toda a confusão no jogo passado”. Elicarlos não criou confusão. Fez apenas o que a Lei brasileira lhe dá direito: buscar punição para alguém que ele afirma ter lhe dirigido um insulto racista.  Se este é o tipo de raciocínio que vai ser seguido ele pode de possível  vítima passar a vilão. 

O problema é que Elicarlos parece sozinho nesta batalha. Corre o risco de  sofrer mais hostilidades pois vai jogar outras vezes contra o Grêmio e o seu clube, o Cruzeiro, enfrenta agora o Estudiantes da Argentina, que tem no seu elenco ninguém menos que Desábato,  jogador que em 2005  acabou preso por acusação de racismo. A denúncia foi feita pelo então jogador do São Paulo, Grafite, após a partida no Morumbi.  Grafite hoje declara que não deveria ter denunciado, pois no futebol do  Brasil “isto é comum e não dá em nada”.  

Vamos torcer para que Elicarlos tenha a coragem de levar esta história até o fim no âmbito competente que é a Justiça. Tomara que a CBF e a Conmebol tenham a postura da Fifa que desenvove uma campanha contra o racismo nos campos de futebol do mundo. Vale lembrar que este é também um tipo de violência capaz de virar organizada, como fez ontem a torcida do Grêmio. A diretoria do clube gaúcho não fez ainda nenhum tipo de declaração de repúdio ao gesto dos torcedores.  


Racismo no futebol volta à tona

postado por Cleidiana Ramos @ 12:54 PM
25 de junho de 2009
O jogador argentino Maxi López é acusado de ofensa racista contra jogador do Cruzeiro. Foto: Pedro Vilela|AE

O jogador argentino Maxi López é acusado de ofensa racista contra jogador do Cruzeiro. Foto: Pedro Vilela|AE

Vejam só as ironias do futebol e não estou me referindo aqui ao supreendente resultado de 2X0 dos EUA em cima da badalada equipe espanhola:  na tarde de ontem, durante a partida da Copa das Confederações o que mais apareciam nas imagens eram as placas com a mensagem da campanha da Fifa contra o racismo.

Pois à noite um caso de ofensa racial fez acabar em confusão o jogo entre os times brasileiros Cruzeiro e Grêmio pela Copa Libertadores da América.   

O jogador Elicarlos do Cruzeiro, que é negro, contou, durante entrevista ao ser substituído, que foi chamado de ‘macaco” pelo jogador argentino do Grêmio, Maxi López.

“Disputei uma bola com Maxi, ele não gostou, virou para mim e disse: “macaco”. O Wagner também ouviu, ficou p…, e foi para cima dele. Na hora, não acreditei naquilo, fiquei sem reação”.

Elicarlos disse mais:

“Foi algo muito duro, difícil de aceitar. Fiz a coisa certa, fui à polícia denunciá-lo. Nem sei se ele vai ser punido ou suspenso. Não sei se posso perdoá-lo”.

Só quem já foi vítima de racismo sabe o quanto dói. É exatamente o que Elicarlos definiu: primeiro a gente não acredita no que está ouvindo,  depois a supresa vai dando lugar a uma indignação e sentimento de prostração. Mas Elicarlos teve o sangue frio necessário para fazer a coisa certa: deu queixa numa delegacia que fica dentro do estádio Mineirão, onde aconteceu o jogo.

A polícia foi buscar o argentino acusado para depor, mas como ele já estava no ônibus da delegação do Grêmio uma confusão se formou  quando integrantes da comissão técnica do time gaúcho quiseram impedir a ação. No final todo mundo foi parar na delegacia. A polícia ouviu os dois jogadores e abriu inquérito. 

Na próxima semana os dois times voltam a se enfrentar em Porto Alegre, com mando de campo do Grêmio, o que é um anúncio de mais confusão.

O que me deixou impressionada é o desconforto da imprensa esportiva em tratar o assunto. Teve comentarista de televisão que chegou a usar o argumento de que ofensa é “normal” num jogo de futebol.

Não é a primeira vez que isso acontece no futebol brasileiro. O goleiro baiano Felipe, hoje do Coríntians, quando defendia o Vitória  denunciou o presidente do clube, Paulo Carneiro, por agredi-lo com ofensas racistas em 2005 após o clube ter sido rebaixado para a terceira divisão do campeonato brasileiro.

No mesmo ano, uma outra confusão, também na Libertadores, envolveu um jogador brasileiro e outro argentino: Grafite, então no São Paulo, disse ter sido chamado de “macaco” por Désabato jogador do Quilmes.

Grafite levou o caso para a polícia, mas há poucos dias li um depoimento seu para o blog de Cosme Rímoli dizendo que nem queria dar queixa e o fez por pressão da direção do São Paulo e do delegado. Justificou sua resistência com o argumento de que sabia que não ia dar em nada e que acontece o tempo todo nos campos de futebol.

No ano passado foi a vez do jogador Carlos Alberto, então no Botafogo, reclamar de agressão racista por parte da torcida do Coritiba. São vários outros casos envolvendo sempre jogadores negros como vítimas, mas tudo acaba ficando no esquecimento até que acontece de novo. Claro que tentar condenar alguém no Brasil por crime de racismo não é fácil.

Além do famoso preconceito do brasileiro em ter preconceito, como disse Florestan Fernandes, a crença na democracia racial  por aqui impera.  Quem fala algo que desmente isto é criador de caso, complexado e por aí vai. E, no futebol, um esporte que rende milhões e que cria no jogador uma extrema necessidade de estar bem com torcida, opnião pública e mídia, o mais comum é baixar as armas e deixar pra lá.  

Sem falar que racismo  é inafiançavel, ou seja, o agressor tem que ficar preso. Aí, no máximo, os delegados fazem a ocorrência de “injúria”.

Outra dificuldade é o testemunho. Elicarlos, por exemplo, disse que seu colega de time, Wagner, ouviu tudo. Resta saber se o colega vai testemunhar e se o Cruzeiro vai apoiar seu jogador, afinal na próxima semana o time vai a Porto Alegre, casa do Grêmio, para a partida de volta e deve querer amenizar o clima de guerra que já se formou.

Espanta também o silêncio da  CBF, da organização da Libertadores e dos clubes sobre o assunto, quando a Fifa manda até que capitães de seleções nacionais leiam um comunicado contra o racismo antes de partidas tão importantes como as da Copa das Confederações. A Fifa tem intensificado sua campanha contra o racismo, principalmente, porque a África do Sul, onde imperou o vergonhoso apertheid, vai sediar a Copa do Mundo no ano que vem.   

A falta de punição mais rigorosa só abre espaço para que o crime continue.


Sonhos de uma manhã de futebol

postado por Cleidiana Ramos @ 6:26 PM
14 de junho de 2009
Iraque e África do Sul abriram a Copa das Confederações. Foto: AFP PHOTO | ALEXANDER JOE

Iraque e África do Sul abriram a Copa das Confederações. Foto: AFP Photo | Alexander Joe

Sou daquelas que enxergam num jogo de futebol muito mais do que 20 homens correndo atrás de uma bola, dois tentando fazer que ela fique longe deles e três tentando colocar ordem no palco da peleja que é o gramado.

Naqueles 90 minutos que dura a partida costumo ter sentimentos contraditórios- raiva, desespero, frustração, alegria, esperança, leveza e tantas outras manifestações da paixão humana.

Mas sobretudo gosto de futebol pelo simbolismo de que algumas partidas se revestem. Nos gramados acontecem encontros felizes e triunfos quase impossíveis de acontecer na vida real. E digo isso ainda atordoada pela pancada de 5 X 0 que o Coritiba, chamado de Coxa, imaginem só!, aplicou no meu pobre e bagunçado Flamengo.

Ainda bem que, hoje pela manhã, antes de assistir ao vexame do meu adorado rubro-negro, pude presenciar um destes acontecimentos cheios de simbolismo do futebol durante a partida entre África do Sul X Iraque pela abertura da Copa das Confederações.

Claro que já passei da idade de ver apenas a poesia nas coisas e sei muito bem que o futebol é um centro do capitalismo mais feroz, movimentando milhões e dono de uma força política na maioria das vezes usada para o mal em seu sentido mais puro. Não é por bondade que a Fifa escolheu a África do Sul como país anfitrião desse torneio e para sede da milionária Copa do Mundo no ano que vem.

Mas o futebol também proporciona mesmo que por apenas 90 minutos coisas que o mundo fora dos estádios paga caro por não ver acontecer.

Assim, nesta manhã, estava no gramado um time sul-africano formado por dez jogadores negros e apenas um branco. Ali estavam eles representando um país onde a minoria branca oprimiu por décadas a maioria negra via o vergonhoso sistema de apertheid racial.

Aqueles rapazes de uniformes e calçados com chuteiras compunham a representação do resultado de uma luta digna e sofrida de muitos, dentre os quais Nelson Mandela, que é um guerreiro sobrevivente.

Um time sul-africano formado maciçamente por negros era algo impossível de acontecer há apenas alguns anos. Mas hoje eles estavam ali para mostrar que a irracionalidade acabou de forma oficial e a gente fica na torcida para que desapareça de fato.

 Do outro lado estavam os representantes de um povo não menos sofrido, por conta dos desmandos do seu ditador local, agora morto, mas também em consequência da loucura de George W. Bush que achava que podia mandar no mundo, sem limites, ao sentar no trono do governo americano.

Na era Bush, que já parece passado distante diante da histórica vitória de Barack Obama, o povo iraquiano viu cair sobre si a pecha do “mal maior” que amedronta o mundo ocidental, quando na verdade é mais uma vítima dos meandros da disputa de poder.

Por isso que os homens que hoje entraram em campo me comoveram. Eles não ganham milhões como os astros brasileiros das chuteiras Kaká e Robinho. Não atraem os astronômicos patrocínios das empresas esportivas. Além disso mostraram uma técnica anos luz distante da genialidade possível de um Pelé ou Garrrincha.

Apesar disso eles emocionaram esta pobre sonhadora a quilômetros de distância e me fizeram viajar na idéia de que a igualdade sul-africana é realmente possível.

Ela está provando ser capaz de ensinar a nós brasileiros, que convivemos com um apertheid racial, embora camuflado, principalmente para as suas maiores vítimas e por isso tão perverso.

Ali também eu vi que é possível imaginar que o povo iraquiano vai sobreviver ao horror que lhe persegue há anos se ainda há espaço para apostar nesta nostalgia que o esporte dá.

É por isso que gosto tanto de futebol. Ele, às vezes, ao menos nos faz lembrar que a humanidade pode corrigir as bobagens que apronta contra si mesma.

Em tempo: Para quem se interessa por este aspecto do futebol como geopolítica tanto do ponto de vista positivo como negativo, sugiro o documentário intitulado O Dia em que o Brasil Esteve Aqui

O  filme de Caíto Ortiz mostra o chamado jogo da paz entre a Seleção Brasileira e a do Haiti, realizado em 2004. Vi na HBO, mas é possível que esteja disponível também em locadoras.


Acordes de uma sinfonia para Exu

postado por Cleidiana Ramos @ 4:37 PM
6 de maio de 2009
Um dos símbolos de Exu, o mensageiro. Foto: Xando P. |AG A TARDE

Um dos símbolos de Exu, o mensageiro. Foto: Xando P.| AG A TARDE

Adilson Borges, o editor de Política de A TARDE, que está de repouso por conta de uma pegadinha do seu coração me mandou um aviso de um texto escrito por ele no embalo da final do Campeonato Baiano e postado no seu blog Coisas do Coração. Fui lá conferir e me embolei de tanto rir como a gente diz em gostoso baianês.

Ele acha que a vitória do Vitória (engraçada essa construção !) é coisa de Exu, embora não  considere o orixá mensageiro um torcedor rubro-negro. Tá bom companheiro, mas que domingo o rubro negrismo triunfou pelo Brasil afora é fato, com destaque para  o meu amado Flamengo Penta-Tri.

Com o talento que as divindades lhe deram, o nosso escriba convalescente, mas que, graças a todos os caboclos, inquices, orixás, santos e voduns, não perdeu o humor, elaborou um excelente texto e olhem que o rapaz é tricolor.

Aproveito para colocar aqui o link  e vou fazer o que já devia ter feito há muito tempo: acrescentar na lista de blogs o que é feito pelo nosso colega durante o aquecimento para a sua grande volta.

Não demore não campeão, pois todos sentimos muito a sua falta. E só para constar: eu e Jaime Sodré continuamos defendendo que sua cabeça não é do povo que veste branco como você faz questão de teimar.