Arquivo da Categoria 'Educação'


Mídia e liberdade de crença

postado por Cleidiana Ramos @ 2:54 PM
2 de outubro de 2009
A partir da esquerda: Joel Zito, Zezé Motta, Manuela Azevedo, Jesus Chedac e eu. Foto: Frei Róger Brunokio

A partir da esquerda: Joel Zito, Zezé Motta, Manuela Azevedo, Jesus Chediack e eu. Foto: Frei Róger Brunokio

Já estou de volta à bela e mágica Salvador após participação no Seminário Nacional sobre Proteção à Liberade Religiosa, realizado pela Seppir no Rio de Janeiro. Na mesa-redonda intitulada Meios de Comunicação e Respeito à Liberdade Religiosa contei um pouquinho desta experiência de abordagem dos temas ligados à identidade negra e religiosidade por meio de reportagens e dos cadernos especiais em comemoração à Consciência Negra publicados em A TARDE a partir de 2003. Claro que abordei também o Mundo Afro.

Tive o prazer de dividir o debate com o cineasta e pesquisador em Comunicação, Joel Zito; com o diretor de Cultura e  Lazer da Associação Brasileira de Imprensa (ABI),   Jesus Chediack e com a superintendente de Promoção da Igualdade Racial do Rio de Janeiro, Zezé Motta. A mediação ficou com a subsecretária de Planjamento e Formulação Política da Seppir, Manuela Pinho Azevedo e com Alexandro da Anunciação Reis, subsecretário de Políticas para as Comunidades Tradicionais, setor também da Seppir.

Além do que aprendi com os debates esta experiência foi proveitosa para conhecer líderes de outras denominações religiosas e dos segmentos de matriz africana do Rio e de outras cidades brasileiras. A foto acima é bem especial, pois foi feita por um leitor do blog: o frei franciscano Róger Brunokio.

Para ver mais sobre o evento cliquem aqui.


Os orikis de Abdias

postado por Cleidiana Ramos @ 6:59 PM
28 de setembro de 2009
Lindinalva Barbosa estudou obra poética de Abdias do Nascimento. Foto: André Luiz Santana

Lindinalva Barbosa estudou obra poética de Abdias do Nascimento. Foto: André Luiz Santana

Foi defendida hoje à tarde, na Uneb, a dissertação de mestrado intitulada As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho: a poética negra de Abdias do Nascimento. A autoria é de uma autoridade no assunto: Lindinalva Barbosa.

A agora mestre em Estudos de Linguagens analisou o único livro de poesias escrito por Abdias cujo título é Axés do Sangue e da Esperança (orikis).

De acordo com o que disse e recomendou a banca, formada pelo professor Sílvio Roberto Oliveira, orientador, pela profesossora Edil Silva Costa e pelo professor Claudio Luiz Pereira, logo, logo, com certeza, teremos um livro reproduzindo esta pesquisa que traz contribuições preciosas não só para os estudos relacionados à literatura, mas também sobre Abdias.


Ceao festeja 50 anos

postado por Cleidiana Ramos @ 10:18 PM
25 de setembro de 2009
A socióloga Paula Barreto é a atual diretora do Ceao. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

A socióloga Paula Barreto é a atual diretora do Ceao. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

O Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao) está completando 50 anos. Nas próximas terça e quarta-feira será realizado um colóquio comemorativo (ver o próximo post).  O Ceao tem o dia 27 de setembro como referência para a celebração do seu aniversário. Quando surgiu em 1959, a partir da iniciativa do humanista português, Agostinho da Silva, a sua missão era aproximar o Brasil dos países da África que começavam a se libertar da política colonialista européia.

“O Ceao tinha a missão de funcionar como um canal de diálogo entre a universidade e a comunidade afro-brasileira, por um lado, e entre o Brasil e os países africanos, mas também os asiáticos”, explica a diretora do Ceao, Paula Cristina da Silva Barreto, doutora em Sociologia.

De acordo com Paula Barreto, a manutenção desta tradição é uma caracerística constante do Ceao e o que o orienta também para o futuro. “As linhas de atuação que marcaram a fundação do CEAO têm desdobramentos até hoje, seja através da realização dos cursos de língua estrangeira, ou do foco para as relações internacionais, em especial, para as relações entre o Brasil e países africanos e asiáticos”, acrescenta.

O Ceao é um órgão ligado à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba (FFCH). Sua principal ação é a realização de pesquisas sobre os temas afro-brasileiros, além de apoio às ações afirmativas implantadas pela Ufba a partir do seu sistema de cotas.

Há em curso uma proposta para transformar o Ceao numa nova unidade de ensino da universidade voltada para os estudos étnicos e africanos.  No Ceao  funciona um programa de pós-graduação, o Pós Afro. Também compõem a unidade o Museu Afro-Brasileiro, uma biblioteca especializada e uma livraria. A revista Afro-Ásia, publicada desde 1965, com tiragem semestral, é o periódico oficial do órgão.

O Ceafro, programa voltado para a educação e profissionalização com o recorte racial e de gênero, também funciona no Ceao. Lá é a sede do Fábrica de Idéias, um curso anual e avançado sobre relações étnicas, raciais e cultura negra. 

Para saber mais sobre o Ceao acesse seu site oficial clicando aqui. Na edição deste sábado, o Caderno 2+ traz uma reportagem especial sobre a instituição. A programação do colóquio comemorativo está num post abaixo. 


Programação do Colóquio comemorativo

postado por Cleidiana Ramos @ 10:11 PM
25 de setembro de 2009
Aniversário do Ceao terá colóquio comemorativo. Foto:  Lúcio Távora | AG. A TARDE

Aniversário do Ceao terá colóquio comemorativo. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

Confiram aqui a programação do colóquio comemorativo aos 50 anos do Ceao, que vai acontecer na próxima terça e quarta-feira. A inscrição é gratuita, mas como há limite de vagas é bom checar antes se ainda é possível participar. Observem também que as atividades vão acontecer em dois espaços: na sede do Ceao, localizada no Largo 2 de julho, e na Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, Centro Histórico. Os telefones do Ceao são 3283-5500/5501 e 5502.O site é o www.ceao.ufba.br

Programação:

Terça- 15 horas- Abertura com homenagem aos ex-diretores e ex-funcionários do Ceao.

16h- Conferência de Abertura- O Campo dos Estudos Africanos no Brasil
Conferencista: Professor Kabenguelê Munanga (Centro de Estudos Africanos- USP)
Local: Faculdade de Medicina da Bahia- Ufba- Centro Histórico, Terreiro de Jesus.

18h30-Lançamento dos seguintes livros:

-África Negra- História e Civilizações. Tomo I, de Elikia M´bokolo
-O Poder dos Candomblés. Perseguição e Resistência no Recôncavo da Bahia, de Edmar Ferreira Santos
-Martiniano Eliseu do Bonfim. Um Princípe Africano na Bahia. Cadernos da Memória, Volume 1, de Marcos Santana
-Revista Afro-Ásia nº 38
-Mapeamento dos Terreiros de Salvador,  de Jocélio Teles dos Santos (Coordenador).
-Lançamento do site do Ceafro e do documentário Diálogos Cotistas: qualificando a permanência na Ufba.
Local: Auditório Milton Santos- Ceao (Largo 2 de julho).

Quarta-feira-9h- Exibição seguida de debate do filme Agostinho da Silva- Um pensamento vivo, de João Rodrigo Mattos. O filme foi realizado pelo neto do fundador do Ceao e apresenta o percurso biográfico do humanista português, passando pelas obras que escreveu durante seu autoexílio de 25 anos no Brasil e indo até sua morte em Portugal em 1994.

11h- Mesa Redonda: A Universidade e as políticas para as comunidades negras- Valnizia Pereira Oliveira (ialorixá do Terreiro do Cobre); Zulu Araújo (presidente da Fundação Cultural Palmares); Luiz Alberto (deputado federal); Luiza Bairros (secretária estadual de Promoção da Igualdade); Bira Coroa (deputado estadual e presidente da Comissão de Promoção da Igualdade da Assembléia Legislativa da Bahia); Ailton Ferreira (secretário municipal da Reparação); Rosângela Costa Araújo (coordenadora do Instituto Nzinga de Capoeira Angola/ professora da Faculdade de Educação da Ufba). 

14 horas- Mesa Redonda- Olhares sobre o Brasil e a Bahia- Prof. Eakin Marshall (Associação de Estudos Brasileiros; Vanderbilt University); Prof. Yussuf Adam (Universidade Eduardo Mondlante, Moçambique) e Prof. Ralph Cole Waddey (Mestre em Economia e Estudos Latino-americanos, University of Florida; pesquisador da música brasileira).

16 horas- Conferência de Encerramento- Percepções da Bahia do final do Século XX: A Conexão Ceao. Conferencista: Prof. Arani Dzidzienyo (Africana Studies, Portuguese Brazilian Studies, Brown University- EUA).
Local: Anfiteatro e área externa da Faculdade de Medicina da Bahia- Terreiro de Jesus, Centro Histórico.


Histórias sobre os cotistas da Ufba

postado por Cleidiana Ramos @ 5:50 PM
24 de setembro de 2009
Documentário retrata rotina dos cotistas da Ufba. Foto: Arestides Baptista|AG. A TARDE

Documentário retrata rotina dos cotistas da Ufba. Foto: Arestides Baptista|AG. A TARDE

Na próxima terça-feira, às 19 horas, no Auditório Milton Santos, Ceao, Largo 2 de Julho, será exibido o documentário Diálogos Cotistas.  O evento está sendo promovido pelo Ceafro.

O documentário foi produzido pelos participantes do sistema de cotas da Ufba durante o projeto Qualificando a Permanência, realizado na universidade em 2007.

O filme mostra a rotina dos estudantes cotistas na Ufba, seus desafios e as estratégias para superá-los. Mais uma ótima oportunidade para enriquecer o debate sobre o tema.  Outras informações no site www.ceafro.ufba.br.

 


Makota Valdina convida

postado por Cleidiana Ramos @ 5:56 PM
23 de setembro de 2009
Conversa com Makota Valdina será amanhã, no Hotel da Bahia, às 18 horas. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Conversa com Makota Valdina será amanhã, no Hotel da Bahia, às 18 horas. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

O texto abaixo é tão convidativo e a assinatura tão eloquente que dispensa o meu comentário, a não ser o de que um convite desses não se rejeita. Anotem em suas agendas.      

Olá gente negra!
Estou precisando de ombros para derramar minhas lágrimas e de colos para embalar meu sonho de liberdade concreta; isso é o que me leva a convidar para um encontro, uma conversa.

Dia: 24/09/2009
Local: Hotel Tropical (Hotel da Bahia)
Horário: 18 horas

Gunzu!Axé!

Makota Valdina


STF realiza audiência pública sobre as cotas

postado por Cleidiana Ramos @ 5:48 PM
23 de setembro de 2009
O ministro Ricardo Lewandowski quer ouvir a opinião da sociedade civil sobre as cotas. Foto: Elza Fiúza|ABr

O ministro Ricardo Lewandowski quer ouvir a opinião da sociedade civil sobre as cotas. Foto: Elza Fiúza|ABr

Atenção movimento social: a partir do próximo dia 1º começam as inscrições para participação em uma audiência pública que o Supremo Tribunal Federal (STF) vai realizar sobre as cotas para negros na universidade.

O período de inscrição vai até o dia 30 de outubro através do e-mail:acaoafirmativa@stf.jus.br. A audiência será de 3 a 5 de março do próximo ano, mas imagino que o STF tem a dimensão exata da procura por participação para fazer o convite com antecipação.  A lista dos habilitados para participar será publicada no site do STF a partir do dia 13 de novembro.

Esta audiência foi convocada pelo ministro Ricardo Lewandowski, que é o relator da ação de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 186, proposta pelo partido Democratas (DEM), que questiona a criação de cotas para negros na Universidade de Brasília (UnB).  Há também em curso no tribunal o  Recurso Extraordinário (RE) 597285 que contesta a reserva de vagas para estudantes do ensino público e estudantes negros adotada pela  Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O ministro justifica que deseja ouvir o  depoimento de pessoas com experiência e autoridade em matéria de políticas de ação afirmativa no ensino superior.  Devem participar da audiênica, além dos ministros do STF, a presidência do Congresso Nacional e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); A Procuradoria-Geral da República e a Advocacia-Geral da União; o Ministério da Educação; as Secretarias Especiais de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Sepir) e dos Direitos Humanos (SEDH) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Fiz uma matéria há pouco tempo sobre isso, publicada pelo jornal A TARDE, e o advogado constitucionalista entrevistado sobre o tema, José Amando Júnior, informou que, embora a ação envolva a UnB,o seu resultado pode servir de parâmetro para todo o País. O STF é um tribunal que dá a palavra final em questões que envolvem diretamente a Constituição.

Confesso para vocês que esta iniciativa me deixou contente porque ao menos em relação a esta questão o STF se propõe a ouvir o que pensa a sociedade civil. E isto sobre um tema extremamente polêmico. Podemos ao menos imaginar que a decisão dos juízes será definida a partir do que recolherem de um debate amplo.  Para outras informações acessem o site do STF clicando aqui.        

 


Educaxé ganha link em outro blog de A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 10:24 AM
3 de setembro de 2009
Garotada da escola Barbosa Romeu, em São Cristóvão, uma das instituições pioneiras na aplicação da Lei 10.639/03. Foto: Fernando Amorim |AG.A TARDE

Garotada da escola Barbosa Romeu, em São Cristóvão, uma das instituições pioneiras na aplicação da Lei 10.639/03. Foto: Fernando Amorim |AG.A TARDE

Os navegantes da série Educaxé têm mais uma opção para acessar os textos. Eles estão disponbillizados também no blog do Projeto A TARDE Educação. É uma amostra do sucesso que tem alcançado a Educaxé, idealizada, assinada e gentilmente cedida pelo professor Jaime Sodré  para o Mundo Afro.

Desenvolvido pelo Grupo A TARDE, o Projeto A TARDE Educação  é voltado para o uso pedagógico de reportagens. Vocês podem acessar o blog clicando aqui  ou também na galeria Outros Mundos aí ao lado.


Educaxé- O Negro e a Política- Parte IX

postado por Cleidiana Ramos @ 10:23 AM
3 de setembro de 2009
Uma das apresentações que marcou a solenidade de instalação da aplicação da Lei 10.639/03 em Salvador, há quatro anos. A legislação é tema do Educaxé. Foto: Marco Aurélio Martins| AG. A TARDE

Uma das apresentações que marcou a solenidade de instalação da aplicação da Lei 10.639/03 em Salvador, há quatro anos. A legislação é tema da Educaxé. Foto: Marco Aurélio Martins| AG. A TARDE

Chegamos ao final de mais uma edição da série Educaxé. Esta última parte traz sugestão de bibliografia e filmes sobre o tema O Negro e a Política, que abordamos em oito capítulos,  além de filmes e uma lista de movimentos, cuja história pode ser pesquisada e assim enriquecer o debate em sala de aula.  

O professor Jaime Sodré já está preparando novos textos para a série.

Bibliografia

1.BOBBIO, Norberto et al. Dicionário de política. 12. ed. Brasília: UnB, 2002. 2v.
2.______. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral de política. 14. ed. São Paulo: Paz e terra, 2007. (Coleção Pensamento Crítico, 69)
3.BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2007.
4.DIAS, Reinaldo. Ciências política. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
5.HANCHARD, Michael George. O Orfeu e o poder: o movimento negro no Rio de Janeiro e São Paulo (1945-1988). Rio de Janeiro: Eduerj, 2001.
6.LAMOUNIER, Bolivar. (Org.) A ciência política nos anos 80. Brasília: UnB.
7.LANG, Jack. Tradução de Rubia Prates Goldoni. Nelson Mandela – uma lição de vida. São Paulo:  Mundo Editorial. 1. ed. 2007.
8.MALUF, Sahid. Teoria geral do Estado. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
9.MOURA, Clóvis. História do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1989.
10.NASCIMENTO Abdias (Org.) O negro revoltado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
11.SANT’ANA, Luís Carlos. Breve Memorial do Movimento Negro no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: “Papéis Avulsos”, CIEC/UFRJ, no. 53, 1998.
12.SANTOS, José Antônio dos. Raiou a Alvorada: Intelectuais negros e a imprensa, Pelota (1907-1957). Pelotas: Universitária. 2003.
13.SOARES, Mário Lúcio Quintão. Teoria do Estado. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

Movimentos e personagens sócio-políticos

Balaiada
Revolta da Chibata
Embaixadas africanas
Farrapos
Marcus Garvey
Malcom-X
Guarda Negra
Revoluçaõ Malê
Ku-Klux-Klan
Levante de 1814
François Makandal
MNU
MV. Bill
Abdias Nascimento
Osvaldão
Quilombo dos Palmares
Panteras Negras
Revolta dos Alfaiates
Sabinada
Rainha Nzinga
Sociedade Protetora dos Desvalidos
Toussant L´Ouverture
Desmond Tutu

Filmes Indicados

O Rei da Escócia,  Amistad, Faça a Coisa Certa e Hotel Ruanda

 


Contribuições para a preservação da memória

postado por Cleidiana Ramos @ 12:17 PM
2 de setembro de 2009
Da esquerda para a direita: Claudio Pereira, Silverino Ojú e Ayrson Heráclito: Foto: Divulgação

Da esquerda para a direita: Claudio Pereira, Silverino Ojú e Ayrson Heráclito: Foto: Divulgação

Recebi por e-mail um registro de uma das palestras do projeto Iyá Egbé, que é voltado para o resgate da memória do Ilê Axé Opô Afonjá, uma atividade que  noticiei aqui no Mundo Afro. Aproveito então para contar um pouquinho sobre uma das mesas redondas que ainda consegui assistir.

Isto porque trabalhei no sábado da virada do novo projeto gráfico e editorial do jornal A TARDE e saí daqui meia hora depois do horário em que ia começar a palestra, mas deu para chegar a tempo de participar.  Gente foi muito, muito legal. As palestras foram do artista plástico e professor da UFRB, Ayrson Heráclito e do professor da Ufba e doutor em antropologia, Claudio Pereira, com a mediação de Silverino Ojú, que faz parte do Centro de Documentação e Memória do Terreiro (CDM).  Pela manhã e no início da tarde aconteceram outras palestras.

O projeto, coordenado pelo CDM, é uma das ações preparatórias para as comemorações do centenário do Afonjá no ano que vem. O trabalho do professor Ayrson Heráclito a partir do uso do azeite de dendê é extremamente interessante, instigante e uma festa para os olhos. As fotografias e o vídeo que mostraram as instalações de sua autoria deixaram a platéia fascinada. Em seguida, o professor Claudio Pereira, mostrou mais uma vez a facilidade que possui para falar sobre temas complexos. Com sutileza, ele passeou sobre as definições de cultura, iconografia, iconologia, memória e patrimônio, enfim uma aula perfeita.

Para mim, que estou trabalhando nesta área, inclusive sob a orientação do professor Claudio, foi uma tarde de aprendizagem inesquecível, sem falar do cenário do encontro: a escola Eugênia Anna dos Santos, uma das pioneiras no ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira em Salavador, princípio determinado pela Lei 10.639/03 que foi modificada no ano passado pela 11.645/08 para incluir também o ensino de História e Cultura Indígenas.  Fiquei encantada com a decoração da sala de aula onde aconteceu a mesa redonda: tudo muito lúdico, mas claramente com função pedagógica.

A inciativa do CDM é mais uma ação de resgate da memória e documentação que os terreiros de Salvador e de outras cidades tem feito tão bem, muitas vezes com recursos e esforços próprios e que tem um valor incalculável. Parabéns às comunidades do Afonjá, do Gantois, do Pilão de Prata e do São Jorge da Goméia que são alguns dos terreiros com iniciativas deste tipo já sedimentadas.        


Educaxé- O negro e a Política- Parte VIII

postado por Cleidiana Ramos @ 3:14 PM
1 de setembro de 2009
Tiradentes passou de rebelde a herói nacional e, na Bahia, patrono da Polícia Militar. Foto: Xando Pereira| AG. A TARDE

Tiradentes passou de rebelde a herói nacional e patrono da Polícia Militar. Foto: Xando Pereira| AG. A TARDE

Tiradentes e os Afrodescendentes

Jaime Sodré

Os feriados registram momentos históricos, outrora plenos de significados e reflexões. Hoje é, para alguns, um “domingo” de meio de semana. 21 de Abril de 1792 lembra o sacrifício de Tiradentes, feriado nacional. É interessante a sua evolução de herói sem rosto à imagem de Cristo, como aborda Maria Alice Milliet.  Os “inconfidentes” dividiam-se quanto ao tratamento da “questão da escravidão”. Historiadores dizem que apenas Gonzaga defendia a libertação dos cativos, desde que nascidos no Brasil. Deste modo, estaria inaugurada a categoria de “afro-brasileiros”, mas sem vantagens econômicas e sociais.

A questão da escravidão era um ponto contraditório. Como iriam libertar logo aqueles que geravam as suas riquezas?  Mais tarde, o movimento abolicionista incorpora Tiradentes no ideário libertário da escravatura. O reconhecimento dos negros viria na forma carnavalesca, através do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano, gerando o inesquecível samba Exaltação a Tiradentes, de autoria de Mano Décio, Estanislau Silva e Penteado, uma pérola de síntese, se o elevarmos à “categoria de brevíssima tese acadêmica”: “Joaquim José da Silva Xavier morreu a 21 de Abril pela Independência do Brasil, foi traído e não traiu jamais a Inconfidência de Minas Gerais…” Breque.

Abortada a “conspiração”, presos e julgados os envolvidos, caberia a Tiradentes a culpa maior, revela os Autos da Devassa da Inconfidência de Minas e a sentença da Alçada. Ouviram-se graças a Deus pela descoberta da “conjura”, considerada uma injúria à soberana, pia e clemente, D. Maria.

Frei Raimundo de Penaforte, do convento franciscano de Santo Antonio, assistiu ao condenado, fervoroso católico, que foi enforcado e esquartejado diante de uma multidão que o viu passar sem queixume ou temor, “fronte de soldado que se sacrificara pela pátria”. Fatos relatados por um anônimo na  Memória do êxito que teve a Conjuração de Minas.

Louvores à Rainha por comutar as penas dos demais condenados. Quanto a Tiradentes, teria aceitado com serenidade o seu destino. Em sua beatitude, pede perdão aos companheiros, beija as mãos e os pés do carrasco e caminha para a forca com ar de resignado, faz solilóquios tendo às mãos um crucifixo.

Para os futuros republicanos, este ato não inaugurava um herói cívico e, sim, um mártir cristão. Disputas históricas resultam em antagonismos. As discussões giravam em torno do papel do alferes e do movimento revolucionário. Alguns alegavam que este acontecimento não passou de uma idéia generosa na sua essência, mas mesquinha enquanto à forma. Uma boa intenção abortada. Sobre Joaquim José este não passava de um homem que não morreu como um patriota, com olhar triunfante para os seus algozes, com coragem e sem culpa. Teria Tiradentes, devoto que fora da Santíssima Trindade, sugerido a incorporação do triângulo à bandeira dos inconfidentes? Ou seria uma referência maçônica?

O certo é que a fusão na figura do herói de civismo e religiosidade estaria bem ao gosto da empatia popular. O fato é que a Conjuração Mineira e o martírio de Tiradentes geraram consequências históricas, no mínimo, estimulando um crescente nacionalismo, desejo de liberdade, independência, e alerta quanto à exploração colonial. Tiradentes era o patriota consciente, “que dá a sua vida por uma ideal”. O cristão e o revolucionário não são incompatíveis, convivem na imagem do herói.

Surgiriam outros movimentos emancipacionistas, antagônicos aos poderosos e não simples agentes da discórdia. Castro Alves proclama: Ei-lo, o gigante da praça/ o Cristo da multidão/ é Tiradentes que passa, deixem passar o Titão… mais tarde pende no alto seu corpo a rodar, balançante, e no outro dia, a sua cabeça encima um poste, no centro da praça, e seu corpo dilacerado. Estava assim reduzido o idealista alferes.

Gradualmente, a comemoração do dia 21 de abril foi generalizando-se. Em Tiradentes reluz a aurora do sacrifício heróico, pela liberdade e república. Figura nos manuais de história. A lei 7.919, de dezembro de 1889, aprova  Tiradentes como herói nacional, mas Deodoro, por ter sido militar, encontra resistência entre os congressistas. Hoje, sobrevive, no Livro de Aço dos Heróis Nacionais, Tiradentes junto a Zumbi dos Palmares. 

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

O que foi a Inconfidência Mineira?

Qual o contexto da Proclamação da República no Brasil?

Quem foi Zumbi dos Palmares?

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé.  


Educaxé em dose dupla

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
28 de agosto de 2009

Hoje tem Educaxé em sessão dupla. O caráter extraordinário é por conta de imprevistos terem me impedido de colocar os capítulos na terça e na quinta-feira. Agora, a dívida está integralmente paga aí abaixo. Aproveitem.


Educaxé- O Negro e a política- Parte VI

postado por Cleidiana Ramos @ 2:12 PM
28 de agosto de 2009
Ruas do Santo Antônio Além do Carmo, onde o professor Jaime Sodré, ainda criança, assistia, com os colegas, o desfile diário de D. Maria Brandão. Foto: Fernando Amorim |  AG. A TARDE

Ruas do Santo Antônio Além do Carmo, onde o professor Jaime Sodré, ainda criança, assistia, com os colegas, o desfile diário de D. Maria Brandão. Foto: Fernando Amorim | AG. A TARDE

Maria Brandão – Negra e comunista

Jaime Sodré

Estávamos no Santo Antonio Além do Carmo, sentados à Rua dos Perdões, nas escadarias do Convento, onde, segundo contavam, o cardeal Da Silva agredira uma feira. Um bairro cheio de estórias e histórias. Os Perdões é a passagem do desfile de 2 de Julho, onde saudávamos os nossos heróis, em especial “os cabocos”.

Subindo regularmente, ia dona Romana, nossa velha baiana de acarajé em direção à Quitandinha do Capim, onde se instalava, após arremessar pequenos acarajés e água, a título de saudar os caminhos e abrir a venda. Naquela mesma artéria, em direção contrária, desfilava garbosa, semelhante à dona Romana, a personagem que conseguia calar as nossas conversas, admirados da sua postura, história e estórias. Era dona Maria Brandão.

Em nossos ouvidos vibrava o que se contava sobre ela: “Ela é Negra e Comunista” ou “Imagine, Negra e Comunista”. Para nós uma figura admirável, soava-nos como símbolo de coragem, tão ao gosto da juventude. Pouco sabíamos sobre ela, alem do rosto redondo e a sua roupa leve, aos ventos da liberdade, a caminho do Corta Braço.

O pouco que sei contarei, relatos como o de Carlinhos Marighela, recomendando-me para aliviar a minha curiosidade, buscar o Sr. Contreiras, esposo da ex-deputada Amabília, além do ex-deputado Fernando Santana. Contarei o que encontrei em publicações escassas. Seguirei pesquisando, prometo-me.

Recordo das palavras de um militante negro, que dizia, evidentemente magoado, sobre as agressões insanas da tortura, onde o que mais ouvira de seus  algozes era a frase: “Já viu negro se meter em política e ainda comunista”. Voltemos a Maria Brandão. Encontro-me nas páginas do livro Mulheres Negras no Brasil.  Monumental trabalho de Shuma Schumaher e Érico Vital Brazil, uma foto exibe D. Maria, mãos ao queixo, pensativa.

Nascida a 22 de julho de 1900 em Rio de Contas. Maria Brandão dos Reis, segundo os autores, “foi um exemplo de mulher negra envolvida na política”. Impressionou-lhe a passagem da Coluna Prestes, avivando o amor pelo Partido Comunista Brasileiro. Idealista, mudou-se para Salvador como destacada liderança. Abriu uma pensão na Baixa dos Sapateiros, (daí o seu deslocamento pela Rua dos Perdões) onde, além de alimentar e hospedar estudantes, caprichava na instrução política destes “filhos adotivos”, ampliando-a para as questões sociais. Piedosa, ajudava aos necessitados.

Em 1947, entrou em ação concreta quando os moradores do Corta Braço foram ameaçados de perderem as suas casas. Ela os ajudou, organizando-os em uma vigília e vibrante passeata de protesto. Como devotada da paz engajou-se na campanha do partido em 1950, encarregando-se da fundação de diversos conselhos em vários municípios. Por sua atitude determinante e incansável, recebeu a indicação de “Campeã da Paz”.

O lado dramático desta história registra-se em um desapontamento imperdoável. Segundo os autores, a premiação pelo seu feito e sua convicção pacificadora, deveria ser realizada em Moscou, onde D. Maria Brandão receberia pessoalmente e merecidamente, o reconhecimento pelo seu idealismo, mas por decisão do partido, ela foi substituída por uma “jovem intelectual”. Esta nem se quer recusou, colaborando com esta desconsideração a uma “senhora negra” de jovens ideias e comprovadas lutas. Mas este fato não passou impune, pois manifestou veementemente a sua revolta frente às lideranças comunistas, registrando para a história desta agremiação política um capitulo menos digno.

Veio o golpe militar de 1964, D. Maria mobiliza-se para escapar da prisão, refugiando-se. De volta a Bahia, em 1965 foi alcançada pela polícia e submetida a interrogatório sobre o seu envolvimento com as idéias comunistas. O inquérito não evoluiu, talvez por reconhecê-la com um verdadeiro agente da paz e que apenas, por sua generosidade, queria um povo feliz, bem alimentado e instruído, conforme demonstram as suas ações naquela pensão, e para isso escolhera a política.

D. Maria Brandão dos Reis, encerrou a sua atividade em nosso mundo em 1965, aguardando o nosso reconhecimento, com o seu nome, quem sabe, nomeando uma das nossas ruas ou na fachada de uma escola?

Em tempo:
Por conta da repercussão desse nosso artigo, publicado na página de Opinião de A TARDE, orgulhou-me a ligação do professor-doutor Luiz Henrique, referencia dos historiadores, que registrou o seu afeto, afirmando tê-la conhecido pessoalmente; agradeço a gentileza da Sra. Consuelo Mascarenhas, oferecendo-nos um livro do seu pai, alusivo a D. Maria; os amigos George Gurgel, do Diretório do PPS-BA, manifestou interesse sobre o tema, e Antonio Codes, solicitou alguns esclarecimentos.

Ebomi Cidália solicitou que registre-se a simpatia da sua mãe D. Maria Santiago Piedade, na época leitora do jornal “O Momento”, admiradora de Carlos Prestes.  O Sr. Enéas Estrela informou o local de nascimento de D. Maria em Rio de Contas, Bahia. Ele conhece os familiares da mesma, os quais necessitam de ajuda. Enéas reafirmou o empenho de D. Maria em proteger perseguidos políticos.  

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

Quando surgiu o Partido Comunista do Brasil?

O que foi a Coluna Prestes?

Quais os acontecimentos envolvendo o Partido Comunista durante o Estado Novo?

Qual a diferença entre o Partido Comunista e o Partido Comunista do Brasil?

 

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé. 


Educaxé- O negro e a política- Parte VII

postado por Cleidiana Ramos @ 2:11 PM
28 de agosto de 2009
As frentes de luta atual ganharam novas configurações, como o movimento quilombola. Foto:  Lúcio Távora | AG. A TARDE

As frentes de luta atual ganharam novas configurações, como o movimento quilombola. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

Frente Negra Brasileira 2

Jaime Sodré

Ainda nos rastros luminosos da Senhora Maria Brandão, envolto nas movimentações ideológicas da comunidade negra, enveredo-me pelo binômio “negro e a política”, trazendo a Frente Negra Brasileira, fundada em 16 de setembro de 1931, instalada à Rua da Liberdade, em São Paulo, dirigida por um Grande Conselho de 20 membros, tendo criado uma organização caracterizada como “milícia frente-negrina”, uniformizados de camisa branca, com treinamento militar.

Não sabemos ao certo as razões da milícia, pois não era do seu propósito confronto contra quem quer que seja ao menos suponho. Francisco Lucrécio mencionava que a FNB foi fundada por seus companheiros, sob a luz de um poste de iluminação publica, demonstrando a precariedade dos primeiros dias.

Lucrécio foi ex-combatente da Guerra Civil Constitucionalista de 1932. Haviam criticas acirradas contra a organização, acusada de “fazer racismo ao contrario”, embora idealizada com objetivos assistencialistas. Com o amadurecimento dos seus militantes transformou-se em um importante instrumento contra o racismo no começo do século XX.

Para a identificação, os seus integrantes portavam uma carteira de filiação com retrato de frente e perfil. Segundo relatos, quando as autoridades policiais encontravam um negro com este documento o, respeitava, pois sabia que era “frente-negrino”, ou seja, uma pessoa de bem. Um dos feitos atribuído a Francisco Lucrécio e seus companheiros, foi pleitear com sucesso a entrada de negros na Força Pública de São Paulo. A Frente inscreveu cerca de 400 homens, sendo que alguns deles seguiram carreira militar.

A Frente viveu tempo de divergências ideológicas. Seu primeiro presidente, Arlindo Veiga dos Santos, desejava impor aos demais uma visão ideológica “monarquista”. Esta tendência levou a entidade a simpatizar com ações “direitistas”, aproximando-se do integralismo. Informa-se também que existiam militantes simpáticos às ideias socialistas, que chegaram a fundar a Legião Negra Brasileira.

O seu jornal a Voz da Raça estampava o slogan “Deus, Pátria Raça e Família”, uma evidente adaptação de “Deus, Pátria e Família”, posteriormente modificado. Uma outra estratégia foi criar núcleos em diversos Estados, incluindo a Bahia.
Avaliando os êxitos alcançados, os seus dirigentes empenharam-se em transformar a entidade em partido político. Possuía todos os requisitos e as exigências da Justiça Eleitoral. O pedido neste sentido foi feito em 1936. Pensou-se até em lançar candidato à presidência, mas membros do Tribunal empenharam-se em evitar tal ousadia, alegando as “tendências racistas da pleiteante”.

Finalmente o registro foi concedido, mas pouco durou, pois em 1937, com o golpe de Estado efetuado por Getulio Vargas, foram dissolvidos  os partidos políticos- o Integralista, o Partido Comunista, incluindo a Frente Negra. Houve uma grande frustração e a entidade definhou. Raul Joviano do Amaral tentou conservá-la, mudando-lhe o nome para União Negra Brasileira, porém o ambiente não favorecia o associativismo. O jornal a Voz da Raça silenciou. A União, que tencionava reerguer a organização original, desapareceu em 1938, quando se comemorava 50 anos da Abolição da Escravatura. Apesar do golpe mortal, a comunidade negra tentou manter-se mobilizada, agora em associações culturais e esportivas.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

1. Qual era o contexto para tratamento da questão racial no Brasil nos anos 30?

2. Qual a relação das obras de Gilberto Freyre com a questão da identidade do povo brasileiro?

3. Quais as principais caracteríticas do movimento integralista?

4. O que foi o movimento constitucionalista?

 5.  Quem é Abdias do Nascimento?

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé.


Educaxé- O negro e a política- Parte V

postado por Cleidiana Ramos @ 5:51 PM
20 de agosto de 2009
As lutas ganharam várias frentes, atualmente, como os quilombos. Foto: Antonio Queirós| AG. A TARDE| 25.6.2004

As lutas ganharam várias frentes, atualmente, como os quilombos. Foto: Antonio Queirós| AG. A TARDE| 25.6.2004

A Frente Negra Basileira

Jaime Sodré

O texto de hoje é um trecho extraído do depoimento de Francisco Lucrécio para o livro Frente Negra Brasileira:
 

“A Frente Negra Brasileira foi fundada em 16 de setembro de 1931 e durou até 1937, tornando-se partido político em 1936. Foi a mais importante entidade de afrodescendentes na primeira metade do século, no campo sócio-político. A Frente Negra foi um movimento social que ajudou muito nas lutas pelas posições do negro aqui em São Paulo.

Existiam diversas entidades negras. Todas essas entidades cuidavam da parte recreativa e social, mas a Frente veio com um programa de luta para conquistar posições para o negro em todos os setores da vida brasileira. Um dos seus departamentos, inclusive, enveredou pela questão política, porque nós chegamos à conclusão de que, para conquistar o que desejávamos, teríamos de lutar no campo político, teríamos de ter um partido que verdadeiramente nos representasse.

A consciência que existia na época eu acho que era muito mais forte que a que existe agora. Quando o negro sente uma pressão, quando qualquer agrupamento humano sente uma pressão, procura um meio de defesa. A pressão era tão forte que muitos jornais publicavam: “Precisa-se de empregado, mas não queremos de cor”.

Havia alguns movimentos também no interior, principalmente nos lugares em que os negros não passeavam nos jardins, mas na calçada. Muitas famílias não aceitavam, inclusive, empregadas domésticas negras; começaram a aceitar quando se criou a Frente Negra Brasileira. Chegou-se ao ponto de exigir que essas negras tivessem as carteirinhas da Frente.

Então, essa consciência era muito mais acentuada do que nos dias atuais. Porque hoje os jovens negros, a meu ver, estão muito acomodados, não sei se por receio ou não. A Frente Negra funcionava perfeitamente. Lá havia o departamento esportivo, o musical, o feminino, o educacional, o de instrução moral e cívica. Todos os departamentos tinham a sua diretoria, e o Grande Conselho supervisionava todos eles. Trabalhavam muito bem.

Dessa forma, muitas entidades de negros que cuidavam de recreação filiaram-se à Frente Negra. E existiam diversas sociedades em São Paulo e pelo interior afora. Por isso a Frente cresceu muito, cresceu de uma tal maneira que tinha delegação no Rio de Janeiro, na Bahia, no Rio Grande do Sul, e, Minas Gerais etc.”

 


Educaxé- O negro e a Política- Parte IV

postado por Cleidiana Ramos @ 3:14 PM
18 de agosto de 2009
Conflitos políticos impedem o desenvolvimento em regiões da África, como a República Democrática do Congo. Foto: Reuters| Antony Njuguna

Conflitos políticos impedem o desenvolvimento em regiões da África, como a República Democrática do Congo. Foto: Reuters| Antony Njuguna

Instabilidade Política 

Jaime Sodré

Hoje destacamos os golpes de Estado ocorridos na África desde a década de 60. Confiram a lista:   

Fevereiro de 1966- Gana: O exército derruba o presidente Kwane Nkrumah que realizava uma visita oficial a Pequim.

Setembro de 1969- Líbia: Um Conselho da Revolução proclama a República na ausência do rei Idriss, que estava recebendo tratamentos médicos na Turquia.

Janeiro de 1971- Uganda: Idi Amín Dada aproveita a ausência do presidente Milton Obote para tomar o poder. O chefe de Estado de Uganda estava em Cingapura, após ter participado de uma conferência da Commonwealth.

Julho de 1975- Nigéria: O exército derruba o general Yakabu Gowon. Gowon estava em Kampala para assistir à cúpula anual da Organização da Unidade Africana.

Junho de 1977- Seychelles: O primeiro-ministro Albert René toma o poder aproveitando-se da visita do presidente James Mancham a Londres para uma conferência da Commonwealth.

Setembro de 1979- República Centro-Africana: O imperador Bokassa, em visita oficial à Líbia, é derrubado. David Dacko, ex-presidente que havia sido deposto por Bokassa em 1966, retoma o poder e restabelece a República.

Dezembro 1984-Mauritânia: O tenente coronel Ould Haidalla, em visita ao Burundi para acompanhar a 11ª. cúpula África-França, é destituído. O coronel Maauiya Ould Taya toma o poder.

Abril de 1985- Sudão: O presidente Gaafar Nimeiry, em visita oficial ao Egito, é derrubado pelo exército.

Setembro de 1987- Burundi: O coronel Jean-Baptiste Bagaza, que estava em Quebec acompanhando a cúpula de países francófonos, é derrubado pelo major Pierre Buyoya.

 Julho de 1994- Gâmbia: O presidente Dawda Jawara, no poder desde 1965, é derrubado por militares dirigidos por Jammeh.

Agosto 1995- São Tomé e Princípe: Miguel Trovoada é derrubado por militares. Retoma o poder uma semana depois, após uma lei de anistia.

Setembro de 1995- Comores: Mercenários dirigidos por Bob Denard derrubam o regime de Said Mohamed Djohar. Uma intervenção militar francesa põe fim ao golpe de Estado.

Janeiro de 1996- Serra Leoa: Valentine Strasser é afastado pela junta que dirigia o país depois de quatro anos.

Janeiro de  1996- Nigéria: Uma junta militar presidida pelo coronel Ibrahim Baré Manassara destitui o presidente Mahamane Ousmane.

Julho de 1996- Burundi: Um golpe de Estado leva ao poder Pierre Buyoya depois da destituição de Sylvestre Ntibantunganya.

Maio de  1997- Zaire: Laurent-Désiré Kabila, à cabeça de uma rebelião após oito meses, se autoproclama chefe de Estado. O Zaire, dirigido depois de 32 anos por Mobutu Sese Seko, se torna República Democrática do Congo. Em janeiro de 2001, Kabila é assassinado por um de seus seguranças. Seu filho, Joseph Kabila, o sucede.

Maio de 1997- Serra Leoa: o presidente Ahmad Tejan Kabbah é derrubado por uma junta dirigida por Johnny Paul Koroma. É restabelecido em suas funções em 1998 depois de uma intervenção de uma força oeste-africana.

Outubro de  1997- Congo-Brazzaville: Denis Sassou Niguesso (1979-1992) retoma o poder depois da vitória de suas milícias sobre as de Pascal Lissouba.

 Abril de 1999-Comores: O exército dirigido pelo coronel Azali Asoumani toma o poder.

 Maio de 1999- Guiné-Bissau: João Bernardo Vieira é derrubado por uma junta em rebelião desde 1998 e dirigida pelo general Ansumane Mané.

Dezembro de 1999-Costa do Marfim: Um motim militar se transforma em golpe de Estado, o primeiro do país. O general Robert Gue  anuncia a destituição do presidente Henri Konan Bédié e a implantação de uma junta.

Março de  2003- República Centro-Africana: O chefe da rebelião, o general François Bozizé, toma o poder após um golpe de Estado enquanto o presidente Ange-Félix Patassé estava fora do país. O avião do governante, que deveria retornar a Bangui procedente de Niamei (Níger), onde havia participado de uma cúpula de chefes de Estado, teve sua frota desviada para Yaundé, capital camaronesa.

Julho de 2003-São Tomé e Príncipe: Uma junta militar liderada pelo major Fernando Pereira derruba o presidente Fradique de Menezes, que realizava uma visita à Nigéria. Após intensas pressões internacionais, o presidente retorna ao seu país e chega a um acordo com os militares para restaurar a ordem constitucional.

Setembro de 2003-Guiné-Bissau: Kumba Yala é afastado por uma junta dirigida pelo general Veríssimo Correia Seabra, morto mais tarde num ataque contra o quartel-general do exército.

Agosto de  2008- Mauritânia: Sidi Ould Cheikh Abdallahi, primeiro presidente democraticamente eleito, é derrubado 15 meses mais tarde pelo general Mohamed Ould Abdel Aziz.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

Quando começaram as lutas pela indpendência dos países da chamada África Negra?

O que é pan- africanismo?

Quais os países da África Negra que, atualmente, convivem com ditaduras?

Sugestão de filme: Hotel Ruanda

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé.


Produção jornalística de Pierre Verger é tema de debate

postado por Cleidiana Ramos @ 1:45 PM
17 de agosto de 2009
Angela Luhning é a palestrante convidada do projeto Conversando com a História, amanhã. Foto: Divulgação| Ascom-Fundação Pedro Calmon

Angela Lühning é a palestrante convidada do projeto Conversando com a sua História, amanhã. Foto: Divulgação| Ascom-Fundação Pedro Calmon

Programa legal amanhã a partir das 17 horas, no Centro de Memória da Bahia, localizado na Biblioteca Pública do Estado, nos Barris: a professora da Ufba e diretora da Fundação Pierre Verger, Angela Lühning, participa da aula pública do projeto Conversando com sua História, da Fundação Pedro Calmon, órgão da Secretaria Estadual de Cultura (Secult).

O tema é a atuação de Pierre Verger na revista O Cruzeiro, que foi um periódico de grande circulação no Brasil e famoso pelas grandes reportagens tanto escritas como visuais.  A professora Angela vai falar exatamente sobre esta produção jornalística de Verger, inclusive a escrita, que muito pouca gente conhece.

Verger fez parte do quadro de repórteres de O Cruzeiro, de 1946 a 1959, onde realizou mais de 200 reportagens embora nem todas tenham sido publicadas. O projeto Conversando com a sua História é desenvolvido pelo Centro de Memória da Fundação Pedro Calmon e acontece sempre às terças-feiras.

“A palestra abordará a atuação de Pierre Fatumbi Verger ligada à revista O Cruzeiro, em geral como fotógrafo, acompanhando os textos de vários jornalistas. Muitas delas foram publicadas e muitas outras ficaram sem alcançar o público naquela época. O que é pouco conhecido é que Verger escrevia muitos dos textos das reportagens, especialmente nos anos 50, quando trabalhava para O Cruzeiro Internacional”, explica a professora. Doutora em Etnomusicologia, Angela tem trabalhos com ênfase em temas como música, candomblé e cultura afro-brasileira.

Em Pierre Verger – repórter fotográfico, livro de autoria da pesquisadora, foram publicadas reportagens inéditas rejeitadas por  O Cruzeiro. Hoje,  este material está preservado na Fundação Pierre Verger. Nesta coleção fica patente o crescente interesse de Verger pela África. “É a devolução à sociedade de um material que Verger pensou para um momento importante. Ele queria mostrar mais da cultura africana”, destaca Angela.

Segundo ela, O Cruzeiro chegou a sugerir que os textos fossem transformados em um único artigo. “Verger respondeu que não daria para juntar devido à importância dos diferentes aspectos ali contidos”, relata.

Viram que o papo realmente promete?  Outras informações com o Centro de Memória: 3117-6030/6050

 


Abertas inscrições para curso preparatório a concursos

postado por Cleidiana Ramos @ 7:22 PM
16 de agosto de 2009
Curso é voltado para a qualificação de afrodescendentes. Foto: Edson Ruiz | AG. A TARDE| 26.10.2005.

Curso é voltado para a qualificação de afrodescendentes. Foto: Edson Ruiz | AG. A TARDE| 26.10.2005.

A partir de amanhã, (segunda-feira), começam as inscrições para o curso que vai preparar afrodescendentes para concursos. Denominado Projeto Integrado de Ação Afirmativa: Formação para Concurso Público e Qualificação Sócio-Profissional, o curso é realizado pela Secretaria Estadual de Trabalho, Emprego Renda e Esporte (Setre) em parceria com a Uneb.

As inscrições podem ser feitas pelo site www.selecao.uneb.br/afirmativo. Já as presenciais serão realizadas na unidade central do SineBahia, na Avenida ACM, em Salvador.  As inscrições vão até quinta-feira. Será preciso fazer entrega da documentação que comprova as informações pedidas no ato de inscrição. Esta entrega vai ser feita em qualquer uma das dez unidades do SineBahia (Central, as que ficam nos shoppings Barra, Iguatemi, Salvador e as localizadas no Comércio, Pau da Lima, Periperi, Liberdade, Pernambués e Cajazeiras).

O projeto é voltado, preferencialmente, para homens e mulheres negros, de baixa renda, concluintes do ensino médio, que venham da escola pública e com idades a partir de 18 anos.  A carga horária do curso é de 410 horas, distribuídas ao longo de oito meses.

Os conteúdos são relacionados a administração, direito constitucional, legislação, atualidades, matemática, língua portuguesa, além de abordar a temática de gênero e raça na contemporaneidade e planejamento de carreira. O curso também vai discutir a geração de renda por meio do cooperativismo, associativismo e empreendedorismo.

O curso terá cinco turmas, das quais quatro com obrigatoriedade de comparecimento presencial. Estas turmas vão funcionar na unidade central do SineBahia, Colégio Estadual Hamilton Lopes (Comércio), Centro Comuintário da Igreja Nossa Senhora da Luz (Pituba) e no Cepaia-Uneb (Largo do Carmo). Uma turma será da modalidade à distância, via Internet, com a obrigatoriedade de um comparecimento presencial semanal aos sábados, no Centro de Tecnologia de Lauro de Freitas.    

 


Educaxé: O negro e a política -Parte III

postado por Cleidiana Ramos @ 10:01 AM
13 de agosto de 2009

 

Imagem do livro África e Brasil Africano que mostra planta do Buraco do Tatu em Itapuã, no século XVIII. Foto: Reprodução| AG. A TARDE

Imagem do livro África e Brasil Africano que mostra planta do Buraco do Tatu em Itapuã, no século XVIII. Foto: Reprodução| AG. A TARDE

Mocambos na Bahia

Jaime Sodré

Na Bahia também se formaram mocambos e o mais conhecido deles era o Buraco do Tatu, próximo a Salvador, datado de meados do século XVIII. A base da sua economia era a agricultura, mas os quilombolas praticavam alguns roubos às fazendas. Esse mocambo acabou destruído e alguns quilombolas mortos ou presos por uma expedição militar realizada em 1763.

Além da formação de quilombos, os escravos baianos utilizaram outras estratégias de resistência ao sistema escravista. Por volta de 1789, no engenho de Santana, em Ilhéus, os escravos revoltosos assassinaram o mestre de açúcar e fugiram para a floresta. Elaboraram, então, um “Tratado de Paz”, reivindicando melhores condições de trabalho, incluindo dois dias de folga por semana, a permissão para cultivar suas próprias lavouras, comercializar a produção e realizar festas.

Nesse documento, pode-se perceber, além dessas reivindicações, a forma como os escravos organizavam-se, levando em conta a sua origem, pois os revoltosos eram crioulos e faziam questão de se distinguir dos africanos, a quem chamaram genericamente de “negros minas”. Vale a pena citar alguns trechos deste Tratado de Paz:

Meu senhor nós queremos paz e não queremos guerra; se meu senhor também quiser nossa paz há de ser nessa conformidade, se quiser estar que nós quisermos a saber.

Em cada semana nos há de dar os dias de sexta-feira e de sábado para trabalharmos para nós não tirando um destes dias por causa do dia santo.

Para podermos viver nos há de dar rede, tarrafa e canoas.

Não nos há de obrigar a fazer camboas, nem a mariscar, e quando quiser fazer camboas e mariscar mandes os seus pretos Minas.

Faça uma barca grande para quando for para Bahia nós metermos as nossas cargas para não pegarmos fretes.

[...] A tarefa de cana há de ser de cinco mãos, e não de seis, e a dez canas e, cada freixe.

Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de outros com a nossa aprovação.

[...] Poderemos plantar nosso arroz onde quisermos, e em qualquer brejo, sem que para isso peçamos licença, e poderemos cada um tirar jacarandás ou qualquer pau sem darmos parte para isso.

A estar por todos os artigos acima, e conceder-nos estar sempre de posse de ferramenta, estamos prontos para o servimos como dantes, porque não queremos seguir os maus costumes dos mais Engenhos.

Poderemos brincar, folgar, e cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso licença.

Entretanto, em 1790, os revoltosos foram reprimidos e seu líder, preso. Depois de passados vários anos, na década de 1820, os cativos do mesmo engenho, muitos dos quais descendentes daqueles primeiros insurgentes, promoveram algumas rebeliões e acabaram organizando quilombos no meio da floresta. Os quilombolas construíram cabanas, teares, depósitos de sal, produziam peixe seco e farinha de mandioca, e dedicavam-se à produção de café, mandioca, cana e algodão.

 Textos extraídos do livro: História e Cultura afro-brasileira de Regiane Augusto de Mattos – Editora Contexto (recomendamos)

 Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

1. Qual a diferença entre mocambo e quilombo?

2. Quando começou e terminou o quilombo de Palmares?

3. Quem foi Zumbi?

Dica de filme: Amistad, de Steven Spielberg    

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé.

 

 


Sobre apoio pedagógico e generosidade

postado por Cleidiana Ramos @ 3:20 PM
11 de agosto de 2009
Jaime Sodré escreve os textos da série Educaxé aqui no Mundo Afro. Foto: Rejane Carneiro

Jaime Sodré escreve os textos da série Educaxé aqui no Mundo Afro. Foto: Rejane Carneiro

Para os que já acompanham, está aí abaixo mais um capítulo da série Educaxé. Aos navegantes de primeira viagem explico:

Trata-se de uma série de textos produzidos pelo professor Jaime Sodré para servir de apoio pedagógico para o cumprimento da Lei 11.645/08 (mais conhecida pelo número da sua primeira versão- 10.639/03) que estabelece a obrigatoriedade de ensino de História da África, Cultura Afro-Brasileira e História e Cultura Indígenas em todas as escolas brasileiras.

Na primeira parte da série tratamos  do Engenho Velho da Federação, um dos bairros com população predominantemente negra em Salvador, além de ser o endereço de terreiros de candomblé das mais variadas tradições.  O passeio pelo bairro aconteceu, principalmente, via  a história do  Bogum.

Agora nesta segunda parte estamos abordando o tema O Negro e a Política. Cada texto traz perguntas que podem auxiliar a pesquisa de assuntos pertinentes ao que é abordado no capítulo. Portanto, aproveitem este gesto de generosidade de compartilhar conhecimentos, feito pelo professor Jaime. Obrigada mais uma vez e, a benção, mestre!


Educaxé: O negro e a Política- Parte II

postado por Cleidiana Ramos @ 3:19 PM
11 de agosto de 2009
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi um dos canais de apoio à população negra do período colonial. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi um dos canais de apoio à população negra do período colonial. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Formas de Resistência ao Sistema Escravista

Jaime Sodré

Os escravos reagiam de diferentes maneiras diante da violência e da opressão provocadas pelo sistema escravista. Da mesma forma que promoviam fugas e revoltas, aproveitavam a existência de pequenos espaços para a negociação. Espaços que eles próprios conquistaram ao mostrarem aos senhores a necessidade de terem certa autonomia para o bom funcionamento do sistema escravista.

Os senhores conscientes de que dependiam do trabalho escravo – que não raro era especializado – permitiam uma margem para a negociação. Por meio de várias estratégias, que iam desde o enfrentamento direto até a obediência e a fidelidade para com o senhor, encontravam formas para alcançar a liberdade. Uma delas a carta de alforria.

A partir do século XVII, os escravos que sofriam de maus-tratos do seu proprietário, podiam trocar de senhor ou entrar com uma ação judicial de liberdade. Os escravos tomavam também a iniciativa de acionar as autoridades judiciais, muitas vezes com o apoio das irmandades religiosas destinadas aos negros, contra os proprietários que tentavam dificultar a obtenção da alforria.

A alforria poderia ser adquirida gratuitamente ou por meio do pagamento em dinheiro, prestações ou em uma só vez. Outra forma era o depósito de um outro escravo em seu lugar. Contudo, a alforria era sempre revogável. Assim como o proprietário assinava a carta de liberdade, ele poderia anulá-la a qualquer momento. Isso poderia ser feito tendo como justificativa o mau comportamento do escravo.

A maioria das cartas de alforria era onerosa, pelas quais o escravo deveria pagar uma quantia em dinheiro para ressarcir o prejuízo do proprietário ou recompensá-lo indiretamente com a prestação de serviços, permanecendo em sua companhia até a morte, servindo ao cônjuge e  “não ser ingrato ou dar desgosto”.

Essa última condição significava não cometer nenhuma atitude que colocasse em risco a propriedade do senhor ou a sua produção; não atacar física ou moralmente  o proprietário e a sua família e socorrê-lo em caso de doença. Dessa maneira, os proprietários adiavam a liberdade do escravo, pois este deveria primeiramente trabalhar para conseguir pagá-la ou se dedicar aos cuidados do senhor. Apenas uma parcela pequena das cartas de alforria era totalmente gratuita, não exigindo nenhuma contrapartida do escravo.

Assim, o escravo tratava de conseguir dinheiro para comprar sua alforria, obtendo-a como empréstimo ou doação. Para tanto, a rede de solidariedade era fundamental ao cativo. Membros de sua família, amigos, vizinhos, padrinhos, nesse momento contribuíam, de maneira significativa, para o sonho de liberdade tornar-se realidade.

É preciso lembrar que o casamento podia ser considerado uma possibilidade palpável para a obtenção da alforria. Assim, esta raramente aparecia como um projeto individual. Havia, então, o envolvimento do cônjuge, que muitas vezes acabava por libertar seu companheiro. A instituição do casamento tornava-se ainda mais importante para os escravos de origem africana, pois eram estrangeiros em terra de brancos. Tentavam encontrar no matrimônio um apoio, uma segurança.

Um tipo de alforria muito recorrente era aquela apresentada como a última vontade do proprietário, isto é, em testamento. Podia ser incondicional, pela qual o escravo ganhava a liberdade assim que era aberto o testamento, ou condicional, quando ele tinha de cumprir alguma determinação do seu proprietário antes de receber a carta de alforria. Africano de distintos grupos étnicos, crioulo, pardo ou mulato, homem ou mulher, jovem ou idoso, o escravo era lembrado, com frequência, no testamento do seu proprietário.

Recebia recompensas pelos “bons serviços” prestados ao dono e demais parentes da casa, sendo deixado liberto após a morte do senhor. Os escravos que recebiam alforria ainda em vida do seu senhor tinham esse benefício reforçado em testamento.Deve ser esclarecido que o senhor não concedia a liberdade ao seu escravo somente por generosidade. Havia um cálculo político por detrás dessa ação, na medida em que o senhor controlava o comportamento do cativo, através do oferecimento da possibilidade da sua alforria. Dessa maneira, procurava fazer com que esse obedecesse e realizasse os seus serviços de forma satisfatória. Por outro lado, na esperança da recompensa, o escravo cumpria s sua parte no “trato”, visando alcançar a liberdade.

Nota-se que, nos testamentos, as mulheres escravas, além de serem contempladas em número maior com a alforria, apareciam com mais frequência como herdeiras dos bens do proprietário. Em geral, as libertas eram herdeiras de mulheres solteiras ou viúvas. Nesse caso, havia entre a senhora e a escrava um certo vínculo de amizade, poder-se-ia até dizer afetivo. A escrava era sua companheira, com quem contava para seus serviços e seus cuidados. Também as mulheres recebiam com mais frequência a alforria por conta do seu valor menor no mercado em relação aos escravos homens. Dessa forma, a sua substituição custaria menos ao proprietário.

No entanto, após atingirem o seu maior objetivo – a liberdade -, os então libertos tiveram que sobreviver por conta própria e se inserir na sociedade. O preconceito se fazia presente, inclusive na Constituição do Império, que os impedia de adquirir direitos eletivos. Podiam somente participar de eleições primárias. Também não podiam se candidatar, sendo-lhes proibido o exercício de cargos como jurado, juiz de paz, delegado, subdelegado, promotor, conselheiro, deputado, senador, ministro, magistrado ou referentes ao corpo diplomático e eclesiásticos.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

1. O que foi a Revolução dos Búzios?
2. Quais os mecanismos utilizados pelos escravos para a obtenção da alforria no Brasil?
3. Qual o papel das irmandades religiosas negras nas estratégias para a obtenção de liberdade em meio à escravidão?
4. Quando surgiu a Irmande de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos na Bahia e quais as suas principais características?
5. Quando surgiu, na Bahia, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e quais as suas principais características?
6. O que você sabe sobre a Sociedade dos Desvalidos em Salvador?
7. Quais destas associações negras surgidas no período colonial ainda estão em atividade na Bahia?

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé.    


A seção Educaxé está de volta

postado por Cleidiana Ramos @ 2:57 PM
6 de agosto de 2009

O professor Jaime Sodré coloca  à nossa disposição a segunda parte deste rico, eficiente e solidário auxílio pedagógico chamdo Educaxé.  

Agora os textos disponibilizados estarão tratando da política e suas relações com a questão étnico-racial. O primeiro capítulo já está disponível aí abaixo. Aproveitem. Lembro que os capítulos serão publicados às terças e quintas. 


Educaxé: O negro e a política- Parte I

postado por Cleidiana Ramos @ 2:52 PM
6 de agosto de 2009
Nicolau Maquiavel é o autor do célebre livro "O Princípe". Foto: Reprodução| Arquivo A TARDE

Nicolau Maquiavel é o autor do célebre livro "O Princípe". Foto: Reprodução| Arquivo A TARDE

Jaime Sodré

Entende-se por política, dentre muitas definições, a atividade que resulta em organização, direção ou administração de ações em beneficio de uma comunidade. A grosso modo podemos dividi-la entre política interna e política externa. Em uma sociedade democrática esta atividade pode corresponder às ações dos cidadãos que ocupam cargos públicos, levados ao poder pelo voto, efetivada pelos seus co-cidadãos.

A palavra Política é de origem grega. Os gregos estavam organizados em cidades-estado chamadas Polis, nome do qual se origina a palavra Politike, no sentido geral, e Politikós no sentido de cidadãos.  Para Aristóteles, “o homem é um animal político”.

Em termo de ações básicas, a arte da política implica em gerenciar o modo de governo por meio de uma organização política; aplicar meios adequados e licítos para a obtenção de vantagens, o que, segundo Bertrand Russel seria “o conjunto de meios que permitem alcançar os efeitos desejados”.

Já para Nicolau Maquiavel, no célebre O Príncipe, seria “a arte de conquistar, manter e exercer o poder”, ou seja, o governo. Na época contemporânea, política ganhou novos significados, tais como: ciência do Estado, doutrina do Estado, ciência política ou filosofia política.

A política é exercida pela conquista do poder, que poderá, em síntese, significar o “poder econômico”, ou seja, a posse de certos bens ou fatores de produção. Histórica fonte de poder em relação às classes que detêm a força de trabalho, logo, quem tem fartura de poder econômico poderá determinar o comportamento de quem não o tem, mediante promessa ou concessão de vantagens.

Já o “Poder ideológico” baseia-se na influência que as ideias exercem sobre a visão e conduto de grupos sociais, responsáveis pelas ações e coesão dos grupos. O “Poder político” serve-se de diversos instrumentos, objetivando ações aplicadas a um determinado grupo social, extensiva às ações de força, que a detém, exclusivamente, em relação aos grupos sob a sua influência.

O que a política pretende, em suma, é alcançar por suas ações democráticas a unidade do Estado, garantia de direitos e deveres iguais, estabilidade, o bem-estar coletivo, a prosperidade, a liberdade, os direitos civis e políticos, os direitos humanos, a independência nacional, dentre outros benefícios.

Propomos que vocês observem a aplicação do “exercício político” por parte de “grupos negros”, no decorrer da história do Brasil, África e a diáspora, identificando ações antagônicas ou de coesão, dentro de um mesmo grupo racial ou etnias antagonistas.

Sugerimos também o levantamento dos partidos políticos e seus ideários, principalmente no Brasil, e a relação de políticos negros ou não, comprometidos com os anseios da comunidade afro-brasileira.     

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema: 

1. O que é política?

2. Quem foi Aristóteles?

3. Quais as principais conclusões de Maquiavel em seu livro O Princípe? 

 

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé
 

 


DEM perde o primeiro round

postado por Cleidiana Ramos @ 8:57 PM
31 de julho de 2009

A permanência das cotas para estudantes negros nas universidades brasileiras venceu um round na noite desta sexta-feira: o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, negou o pedido de liminar do DEM.

O partido pediu a suspensão do sistema de cotas adotado pela Universidade de Brasília (UnB). Decisões do STF servem como parâmetros para outros casos semelhantes. As cotas vão ainda a julgamento em plenário.    

 


Parabéns para o Instituto Steve Biko

postado por Cleidiana Ramos @ 12:04 PM
31 de julho de 2009
Instituto é presidido por Silvio Humberto. Foto: Rejane Carneiro|AG. A TARDE

Instituto é presidido por Silvio Humberto. Foto: Rejane Carneiro|AG. A TARDE

Hoje é dia de festa para a juventude negra. O Instituto Cultural Steve Biko comemora 17 anos. Para marcar a data, hoje tem o lançamento, a partir das 18h30, do II Manual Antirracismo e Direitos Humanos para Jovens.

O lançamento será no Forte da Capoeira (Forte de Santo Antônio Além do Carmo, no Largo de Santo Antônio, Santo Antônio).  O Biko tem feito um brilhante trabalho em Salvador no sentido de promoção de cidadania e formação educacional dos jovens negros.

Cerca de mil meninos e meninas que pasaram pelo curso pré-vestibular da Biko já conseguiram sua vaga na universidade. Além das disciplinas básicas exigidas nos vestibulares, os participantes recebem formação política, por meio da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra).

Um outro projeto da Biko é o Oguntec, voltado para o incentivo à pesquisa científica e reforço em disciplinas como matemática, biologia, física, química, informática, português e inglês. O público alvo são os estudantes afrodescendentes de escolas públicas.

Para saber mais sobre o Instituto Steve Biko clique aqui.


Mais sobre o julgamento das cotas pelo STF

postado por Cleidiana Ramos @ 11:54 AM
31 de julho de 2009
O chefe da AGU, José Antônio Toffoli, defende a manutenção das cotas. Foto: Elza Fiúza|ABr

O chefe da AGU, José Antônio Toffoli, defende a manutenção das cotas. Foto: Elza Fiúza|ABr

A Advogacia-Geral da União (AGU) entrou na briga em defesa das cotas. O órgão, chefiado por José Antõnio Toffoli,  enviou um parecer defendendo esta política de ação afirmativa nas universidades brasileiras para o Supremo Tribunal Federal (STF) que deve se pronunciar sobre a questão.

A representação que pede a inconstuticonalidade das cotas no ensino superior  foi encaminhada ao STF pelo DEM. Curioso é que, segundo a reportagem, os integrantes do DEM na Bahia não concordam com a orientação do partido.

Mais informações sobre esta questão estão na edição de hoje de A TARDE, numa reportagem assinada pela repórter Ludmilla Duarte, da Sucursal do jornal em Brasília. O texto está bem interessante e vale a pena ser lido por quem está atento a esta discussão.


Cotas vão ser julgadas pelo STF

postado por Cleidiana Ramos @ 10:20 AM
29 de julho de 2009
Ações afirmativas tem levado estudantes às ruas. Foto: Fernando Vivas|AG. A TARDE

Ações afirmativas têm levado estudantes às ruas. Foto: Fernando Vivas|AG. A TARDE

Vem por aí uma definição judicial sobre a questão das cotas para afrodescendentes nas universidades. O DEM, que há algum tempo vem combatendo esta ação afirmativa, resolveu apelar para o Supremo Tribunal Federal (STF). O partido cobra que o tribunal declare as cotas inconstitucionais e, consequentemente, as elimine de todas as universidades brasileiras.

Até agora cada universidade segue o seu princípio de autonomia e pode adotá-las ou não. Ótimo que o STF tome posição sobre o assunto. O problema é que os seus ministros decidam sobre algo sem levar em consideração a complexidade que ele carrega.

A questão da desigualdade sócioeconômica tem raízes nas consequências de uma economia centrada na mão-de-obra escrava que operou no Brasil por mais de 300 anos. Mas, mesmo com dados e dados de instituições como o Dieese provando isso, a discussão na sociedade brasileira não consegue sair da dicotomia racismo X não racismo.

É público e notório que o brasileiro tem sérias dificuldades para discutir um assunto como as implicações de cor da pele. Esta dificuldade é fruto de um discurso, disseminado pelo Estado brasileiro, principalmente a partir da década de 30, de que formávamos uma “democracia racial” por conta da herança de três povos.

A teoria nem sempre se aplica à prática. Para começar é difícil conceber que o pensamento de que existia um povo superior- o europeu- e outro inferior- o  africano-  que vigorou por 300 anos no Brasil apagou todas as suas consequências em apenas 121 anos (a escravidão foi abolida em 1888).

Além disso, a Lei que acabou com a escravidão tinha apenas dois artigos. O primeiro decretava o fim do uso de mão-de-obra escrava e o segundo revogava as disposições em contrário. E o que foi feito com os que até então estavam submetidos à escravidão? Receberam uma indenização por anos trabalhados? Não. Saíram de mãos vazias.

Imaginem o que foi que aconteceu com estas pessoas. Foram morar onde? Passaram a comer como? Tinham condições de disputar postos de trabalho? Natural que eles e seus descendentes vivam em situações de desigualdade em relação a quem sempre foi tratado como cidadão desde que o Brasil é Brasil. E esta herança não acaba de um dia para o outro. O Estado brasileiro nem ao menos instituiu um debate sobre isso.

Durante décadas, pesquisadores da área de ciências sociais se dedicaram sobre estas questões. A pobreza teria ou não teria cor? Um destes estudiosos, Florestan Fernandes, cunhou uma frase que resume bem o que é o pensamento mais geral no País  sobre isso: “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”.

Com o advento do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978, a questão da discriminação racial e suas implicações ganharam maior visibilidade. Na última década, as ações afirmativas começaram a conquistar contornos para aplicação, principalmente na área de educação, via a criação de cotas nas universidades.

O problema é que há muito mito sobre as cotas, com gente dizendo ter opinião formada sobre elas, quando na verdade nem conhece a forma de sua aplicação. As cotas tem prazo de validade para acabar. O objetivo é equiparar os números do acesso à universidade com o índice de pretos e pardos nos locais onde elas são aplicadas.

Os estudantes cotistas não tomam a vaga de não-negros até porque concorrem entre eles mesmos. Também não entram na universidade com privilégios, pois se submetem ao vestibular e tem que alcançar o mesmo índice de corte, ou seja, a nota mínima.

É certo que a ação poderia ser evitada se tívessemos oportunidades educacionais iguais para todos, mas não é o que acontece. Invocar a Constituição Federal para dizer que as cotas a desrespeitam é um argumento que beira o pueril, afinal a própria lei reconhece que o princípio da igualdade encobre, às vezes, a desigualdade.

Outro argumento de que os cotistas teriam notas menores nos cursos não se sustenta. Os dados da própria Ufba, que já adotou as cotas, mostram que eles tem notas às vezes até maiores do que as do não cotistas. Claro que como todo o sistema as cotas universitárias tem falhas, equívocos e precisam de aperfeiçoamento. Agora é de fazer pensar qual é a motivação do DEM para combater tanto as cotas ou as políticas de defesa dos quilombos. O que será que move o partido para tanto vigor em relação a estes assuntos?

Vamos aguardar para ver, mas com base no nível das explicações dos ministros do STF para eliminar a exigência do diploma para o exercício do jornalismo dá para ficar com o pé atrás sobre o que vem por aí. Opniões divergentes são próprias da democracia, mas decidir sobre o que não se conhece direito é temerário para este princípio conquistado a duras penas no País.


Primeiro bloco encerrado

postado por Cleidiana Ramos @ 2:08 PM
16 de julho de 2009

Com a publicação do quinto capítulo, o bloco do Educaxé sobre o Bogum está finalizado. O professor Jaime Sodré já prepara uma nova série de textos bem interessantes. A idéia inicial é que ela discuta a participação de militantes negros na política brasileira.

Lembro que os capítulos estão sendo publicados às terças e quintas com o objetivo de fornecer material para o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira.


Educaxé- Bogum Parte V

postado por Cleidiana Ramos @ 2:00 PM
16 de julho de 2009
Comunidade do Bogum reunida durante visita do ator Danny Gloover em 2003. Foto: Fernando Vivas

Comunidade do Bogum reunida durante visita do ator Danny Gloover em 2003. Foto: Fernando Vivas

 

Respeito e Admiração

As autoridades religiosas do Bogum gozam do respeito da comunidade do povo-de-santo. São citados em reconhecimento os nomes das Donés Emiliana, Ruinhó, Nicinha e Índia, inclui-se a Deré Romaninha de Pó, ekede Santa e os huntós ou ogãs Manoel da Silva, Romão, Amâncio de Melo, Edvaldo, Duarte, Lídio, Sargento Celestino, Gilberto Roque, Antonio Jorge, Jackson, Ailton, Luizinho, Tico, dentre muitos outros.

As suas festas são freqüentadas por centenas e centenas de amigos, simpatizantes e admiradores. O Bogum convive harmoniosamente com os templos vizinhos, a exemplo do Ilê Obá do Cobre, Tanuri Junçara, Casa Branca, Odé Mirim, Unzó Oquinin Bamborucema, Terreiro de Oxumaré, Terreiro do Gantois e outros distantes, incluindo os localizados em outros Estados em especial os do Maranhão (também reduto jeje) e os do Rio de Janeiro. Do ponto de vista internacional existem laços com o Benim e Haiti.

Citada em inúmeras obras, a comunidade jeje do Bogum recebe um bom conceito por suas práticas litúrgicas na etnografia dos cultos afro-brasileiros.

O Zoogodô Bogum Malê Rundó resiste ao tempo e aos desafios através do empenho da Nandoji Índia na manutenção das regras que sempre caracterizaram o povo do Bogum, educando os seus fiéis com valores elevados da sua história e digna resistência.

É um trabalho que necessita do empenho dos seus filhos para a perpetuação da Casa como símbolo de referência da comunidade religiosa afro-brasileira. Com a força dos voduns, apesar dos problemas, decorrentes da condição humana, assim será.

Bibliografia de apoio:
 

Lendas Africanas dos Orixás -Pierre Fatumbi Verger
Orixás- Pierre Fatumbi Verger
Olóòrìsà – Escritos sobre a religião dos orixás- Vários autores
Candomblés da Bahia- Édison Carneiro
Ancestralidade Afro-Brasileira o Culto de Babá Egum- Júlio Braga
A refuge in thunder candomblé andalternative spaces of blackness- Rachel E. Harding
Candomblé – Religião e Resistência Cultural- Raul Lody
O candomblé da Bahia- Roger Bastide
Os orixás – na vida dos que neles acreditam- Maria de Lourdes Siqueira
As Américas Negras-  Roger Bastide


Educaxé- Bogum Parte IV

postado por Cleidiana Ramos @ 9:48 AM
14 de julho de 2009
Um exemplar da divindade Loko, cultuada no Bogum. Foto:  Xando Pereira| AG. A TARDE

Um exemplar da divindade Loko, cultuada no Bogum. Foto: Xando Pereira| AG. A TARDE

Fitolatria 

Jaime Sodré 

O Terreiro do Bogum está intimamente associado às árvores. Assim é que a Gameleira (Fícus doliaria), representa uma divindade, uma hierofania do vodum Loko, a exemplo de um exemplar localizado no Caminho de São Lázaro, na Federação.

O exemplar anterior foi destruído, segundo dizem por ação de adversários religiosos do Candomblé ou simplesmente vândalos, ou fieis que colocavam velas na proximidade desta árvore. Outros atribuem a sua destruição a uma espécie de auto-combustão.

Conta-se da vinculação do Bogum com o Gantois através do fato de uma avó de Mãe Menininha, conhecida como Salakó, ter plantado naquele terreiro uma árvore consagrada a Azanodô.

O crescimento urbano, descontrolado, tem vitimado o “espaço floresta” dos Candomblés e o Bogum também tem sido vítima. A árvore-sacrário, vodum Azonodô, que habitava próximo ao terreiro tombou em 1979, de acordo com Jheová de Carvalho. Segundo ele, por ações de vândalos que a envenenaram sistematicamente até a sua morte. Dizem que ela teria gemido ao tombar.

No Bogum junto à casa de Omolu encontra-se uma árvore de Loko, objeto de culto, além de uma jaqueira, também sagrada. Existe ainda um bilreiro sagrado.

Encontramos uma acácia consagrada a Azonodô. Como elemento do reino vegetal, podemos ver as janelas e portas decoradas com mariô (  folhas desfiadas de palmeiras) relacionado ao vodum Gu.

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

1. O que é fitolatria? Este fenômeno existe em outras religiões?
2. Quais os outros terreiros localizados no bairro da Federação?

Jaime Sodré é historidador, professor e religioso do candomblé