Arquivo da Categoria 'Cultura'


O embalo de Jim Croce para curtir Django Livre

postado por Cleidiana Ramos @ 1:46 PM
2 de agosto de 2014

Além de um bom filme, Django Livre, de Quentin Tarantino, tem uma trilha sonora maravilhosa. Uma das músicas é “I got a name”, de Jim Croce. Vale ouvir a música e ver cenas do filme com um elenco encabeçado pelo maravilhoso Jamie Foxx.


Salvador faz festapara sua majestade, Lamidi Olaywola II, alafim de Oyó

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
31 de julho de 2014
Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Salvador está recebendo a visita de  Lamidi Olaywola Adeyemi III, o alafim de Oyó, estado nigeriano. De Oyó veio o culto ao orixá Xangô, patrono do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca, que é reconhecido como o mais antigo terreiro de nação Ketu do Brasil e que ele visitou na última terça-feira.  A Casa Branca e a sua história tem estreitas ligações com Oyó que foi um grande império na região onde hoje estão Nigéria e seu vizinho Benim, entre os séculos XVII e XVIII. Por uma questão cultural, Adeyemi III é reconhecido como um governante  local. Ele tem o título de alafin, o equivalente a um imperador ou rei.

Hoje à tarde, como último compromisso público na capital baiana, o alafim visita a pedra consagrada em Xangô, localizada em Cajazeiras.

A Nigéria é uma República, mas o título de alafim tem importância cultural e religiosa, pois ele é  representante de orixás na terra como Odudua, ancestral mítico de parte do povo iorubá.

O alafim veio à capital baiana em uma articulação de terreiros que inclui, além da Casa Branca, o Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), o Ilê Axé Opô Afonjá, o Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

Todos esses terreiros são reconhecidos como bens culturais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Inclusive, a visista de Adeyemi III motivou a realização de um seminário sobre patrimônio afro-brasileiro e trocas de experiências entre Brasil e Nigéria.

Abaixo vocês tem acesso a um texto de Meire Oliviera, publicado na edição de terça-feira do jornal A TARDE:

Meire Oliveira

Promover o intercâmbio acerca da preservação de bens culturais e fortalecer os laços históricos é o foco do 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria, que segue até a próxima quinta-feira.

A abertura do encontro – ocorrida ontem (terça-feira) no Salão Nobre do Fórum Ruy Barbosa – contou com a presença do rei do Império de Oyó, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, sua comitiva com 22 integrantes, além de lideranças religiosas do candomblé e autoridades políticas dos dois países.

“É lindo o trabalho de conservação feito aqui pelos templos religiosos, honrando a memória dos nossos antepassados, disseminando a religião tradicional e a identidade iorubá. Diante da ameaça constante, temos que nos unir no compromisso de preservar essa ancestralidade”, disse o rei de Oyó.

A iniciativa é promovida por cinco terreiros baianos, já reconhecidos no país como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan):  Ilê Axé Iyá Nassó Okà (Casa Branca), Ilê Axé Opo Àfonjá, Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

“A nossa meta é unir forças e fortalecer nossa cultura e religiosidade, além de preservar o culto na Nigéria e lutar pelo tombamento de Oyó pela Unesco”, disse Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, babalorixá da Casa de Oxumarê, que pretende realizar uma edição do seminário na Nigéria.

“O Brasil é guardião da nossa cultura. O objetivo é conhecer como se dá a preservação aqui e trocar experiências com a matriz, estreitando os laços”, disse o representante da Embaixada da Nigéria, Misah Wale Akanni.

Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, o evento visa criar mecanismos de preservação.

“É uma oportunidade de revisitar o que temos em comum e discutir o que pode ser feito para salvaguardar a herança que deve ser entendida como parte integrante da formação social, econômica e cultural do Brasil”, afirmou.


Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
24 de abril de 2014
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka (Praça da Sé, Edifício Themis)

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

Cláudio Luiz Pereira

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

*

Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

Serviço
Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé
Autor: Marlon Marcos
Editora: Kawo- Kabiyesile
Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas
Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151
Preço sugerido: $ 20,00


São Jorge recebe homenagens

postado por Cleidiana Ramos @ 4:01 PM
23 de abril de 2014
São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Com uma festa forte, muitos seguidores e uma devoção repleta de significados e ressignificados, como a aproximação com Oxóssi na Bahia e Ogum no Rio de Janeiro, São Jorge continua soberano.

Nem a tranformação da sua festa em opcional, devido à reforma no calendário litúrgico, diminuiu seu prestígio popular. Portanto, saudações a Jorge, o que doma dragões de várias procedências.


Estudo revela força poética da obra de Abdias Nascimento

postado por Cleidiana Ramos @ 1:01 PM
13 de março de 2014
Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Lindinalva Barbosa é autora de As Encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Lindinalva Barbosa é autora de As encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Para quem não conseguiu ler no formato de imagem, texto sobre estudo da obra poética do grande Abdias, que tem centenário de nascimento comemorado amanhã. 

Cleidiana Ramos

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março,  Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do  aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o  dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu.  Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o  universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra.

A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade.
“O  senso comum tem uma noção de  poesia como algo que está apenas  no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem  distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho .

A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias.
Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com ela, embora o livro  traga poesia, ele reflete o espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da  literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum.

Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos  vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência.

“Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com  as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas. Abdias era assim”, diz.

“Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era  ferramenta para a luta contra o racismo;  Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora.

O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu  na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro.

“Em uma de suas biografias, ele coloca que o  momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva.

Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.

O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.


Sobre afros, Afródromo e Carnaval

postado por Cleidiana Ramos @ 4:31 PM
4 de março de 2014
O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto:   Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

 

Hoje termina o Carnaval que teve como um dos seus temas (isso também ficou meio confuso) os 40 anos de blocos afro. Foi uma tentativa de homenagem por meio do Ilê Aiyê, a primeira dessas agremiações a se constituir. O surgimento do Ilê, embora no campo cultural, teve um quê de rebeldia, afinal falar de racismo não se podia durante os anos de governo e ditadura militar no Brasil por conta da Lei de Segurança Nacional.

Além do Ilê, várias outras agremiações com lastro afro-brasileiro comemoraram nese Carnaval o que a gente chama de datas redondas: o afoxé Fihos de Gandhy (65 anos); o Olodum (35 anos); Malê DeBalê (35 anos) e as Filhas de Gandhy (35 anos).

Seria, portanto, o Carnaval ideal para o início do Afródromo, uma tentativa de dar a visbilidade que essas agremiações merecem e que o Carnaval baiano precisa para sacudir a mesmice e fazer jus ao rótulo de diversidade que reivindica.

Agremiação afro tem batida diferenciada de acordo com a característica de cada uma. Aqui recorro a especialistas em música, mas o Ilê tem um toque mais próximo ao feito nos terreiros; o Olodum seguiu um caminho mais sincopado ou pop; o Gandhy segue o passo cadenciado e hipnótico do ijexá; o Okanbí faz experimentação o tempo inteiro e por aí vai.

Além disso, tem alas de dança e figurinos exuberantes como os do Bankoma. Imagina o espetáculo de ver tudo isso junto e misturado como diz o bom baianês. Carlinhos Brown, criador de maravilhas como a Timbalada, bem que tentou. Seu projeto de Afródromo no Comércio não era separação como muita gente entendeu, mas, entendi (e posso estar equivocada também) como uma forma de mostrar porque os afro reivindicam maior visibilidade.

O projeto mudou e foi para o Campo Grande. A mudança de endereço também me pareceu legal, ou seja, seguia para um dos palcos com holofotes da festa. Mas não foi bem isso que rolou por mais que a iniciativa de Brown mereça elogios.

O Afródromo começou com atraso em todos os dias e apenas tornou mais evidente o que as agremiações afro vivem em cada Carnaval: cordeiros somem em busca dos blocos que têm artistas conhecidos; trios apresentam problemas; entidades com equipamentos mais pontentes sufocam suas batidas; no horário não há mais visibilidade na TV e, claro, patrocínio segue a lógica capitalista e dá dinheiro para quem aparece nos espaços midiáticos..enfim…o Afródromo foi apenas uma denominação diferente, pois as entidades agrupadas a cada dia já tinham os seus desfiles agendados para o mesmo horário na programação oficial do Carnaval.

Excetuando-se os holofotes que sempre acompanham o Ilê Aiyê, embora sua história de resistência que vai muito além de um bloco de Carnaval fique praticamente invisível, as outras agremiações afro brilharam onde brilham sempre: no coração e na persistência dos seus seguidores que entendem porque eles teimam em fazer parte do Carnaval mesmo com todas as dificuldades.


Filme com diretor e atores negros é premiado

postado por Cleidiana Ramos @ 7:46 PM
3 de março de 2014
Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme "12 anos de escravidão". Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme “12 anos de escravidão”. Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Cinema também é feito de símbolos por isso o dia de ontem foi especial. Na cerimônia do Oscar,  “12 anos de escravidão” ganhou o prêmio de melhor filme. Além disso, a queniana Lupita Nyong´o levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Valeu driblar o sono e aguentar as partes arrastadas da cerimônia, como as piadas nem sempre engraçadas da apresentadora Ellen DeGeneres, para ver a vitória de um filme que traz um exemplo do que tem feito a historiografia moderna sobre a escravidão ao, por meio da história de indíviuos reais, apresentar informações mais amplas sobre o contexto dessa tragédia vivida por africanos e seus descendentes nas Américas por mais de 300 anos.

O filme conta a história de Solomon Northup que, mesmo livre, foi raptado e reescravizado. Inclusive, na edição de domingo do jornal A TARDE publicamos histórias reais de nascidos livres em Salvador que foram escravizados.

Mas além da vitória de um filme contundente e muito interessante o que me chamou a atenção foi a proeminência de artistas negros na cerimônia do Oscar. Will Smith apresentou a categoria “melhor filme”; Jamie Foxx, maravilhoso em Django Livre, apresentou os prêmios para trilha sonora. Ainda houve uma participação emocionante de Sidney Poitier ao lado de Angelina Jolie.

Além disso, ao receber o Oscar de melhor filme, o diretor inglês Steve MCQueen fez um discurso de como a escravidão é real também para os negros e negras de hoje. Quando a TV brasileira terá uma inserção dos afro-brasileiros desse tipo?


Candomblé se despede do alabê Erenilton

postado por Cleidiana Ramos @ 11:52 AM
17 de fevereiro de 2014
Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, "Os homens que chamam os deuses pra terra". Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, “Os homens que chamam os deuses pra terra”. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

A pedidos de pessoas que não conseguiram ler a matéria sobre a passagem para o orum do ogã Erenilton, publicada no último sábado em A TARDE, estou reproduzindo aqui o texto.

Cleidiana Ramos

Calou-se, no plano terrestre, a voz de um dos membros da grande escola dos sacerdotes músicos do candomblé: Erenilton Bispo dos Santos, 70 anos, foi sepultado ontem no Jardim da Saudade. Ele foi também um incansável defensor da sobrevivência dos afoxés por meio do grupo Filhos de Korin Efan, do qual era presidente.

Filho de Omolu, ogã Erenilton era alabê – título usado pelos sacerdotes músicos na tradição ketu – do Terreiro Oxumarê, localizado no bairro da Federação.

Dono de um vasto conhecimento sobre os cantos e ritmos do candomblé, era recebido com um toque especial dos atabaques nos terreiros das variadas nações.

“Ele tocava para o orixá. Era um prazer vê-lo cantar. Foi meu irmão, meu amigo, uma pessoa que dedicou sua vida ao candomblé e ao afoxé”, afirma Tânia Bispo. Ela é mayé do Terreiro Oxumarê, título para o mais alto posto no grupo das ekedes (sacerdotisas que não entram em transe) e irmã biológica do ogã Erenilton.

Ele gozava de um extremo respeito também entre os xicarangomas e huntós, como são chamados, respectivamente, os sacerdotes músicos nas nações angola e jeje.

Herança “Sabemos que ele está no outro plano junto com aqueles que já partiram para reforçar a nossa caminhada”, diz o tata Xuxuca Moxingoma, nome sagrado de Esmeraldo Emetério, xicarangoma do terreiro Tumba Junçara.

Segundo tata Xuxuca, ogã Erenilton será sempre lembrado pela insistência e luta para manter a coerência dos ritmos do candomblé e o comportamento elegante.

“Ele sempre esteve preocupado em marcar a diferença entre o toque religioso e o recreativo usado nos grupos musicais. Não aceitava a mistura”, diz.

Conhecido por, nos últimos anos, reger a orquestra do candomblé apenas com a voz – sentado em um banco e segurando uma toalha para enxugar o suor –, o sacerdote tinha um apreço especial pela correção tanto da melodia como da pronúncia.

“Meu mestre tinha uma marca especial que era a busca da perfeição. Cantar ou tocar errado era motivo para correção imediata. Ele pegava o gã e ensinava”, relata o historiador Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara e oloiê do Bogum.

Sodré também destaca o amor incondicional que ogã Erenilton tinha pelos afoxés. “Essa manifestação era a sua tentativa de mostrar como o povo de santo deve se portar no espaço carnavalesco”.

De acordo com Sodré, o ogã Erenilton formou uma grande dupla com o ogã Alcides, conhecido como Cidinho, também do Oxumarê. “Eles são representantes de um estilo típico dos mais antigos que tem um sonoridade cadenciada”, completa.

Alabê do terreiro Casa Branca, Edvaldo de Araújo Santos, conhecido como Papadinha, destaca as lições deixadas pelo ogã Erenilton.

“O orum deve estar cheio de alegria com a sua chegada. É o último dos grandes do passado, mas deixou discípulos. Tive a honra de vê-lo junto a outros dos antigos, como Cipriano e Jorge”, acrescenta.

Sacerdote ilustra especial de A TARDE

Ogã Erenilton Bispo dos Santos foi um dos personagens da capa do especial “Os homens que chamam os deuses pra terra”, publicado em 20 de novembro de 2012 por A TARDE, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. O especial foi premiado na categoria mídia impressa, na edição do ano passado do Prêmio Abdias Nascimento. A premiação é uma das mais importantes do jornalismo brasileiro


Balaio de Ideias: Sucateiro, sucateiro…

postado por Cleidiana Ramos @ 2:50 PM
13 de fevereiro de 2014
Ilustração: Bruno Aziz

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos

Seis horas da manhã. Ouço vozes que vêm da movimentada rua que fica em frente ao quarto em que hoje estou dormindo. A casa está em reforma. Ai que saudade do meu quarto no fundo da casa… Em vez de vozes, eu escutava o lindo canto dos passarinhos, que de tão acostumados com o ambiente já penetravam casa adentro, entrando e saindo como se estivessem em seus próprios ninhos. Saudade do antigo quarto, e excitação com as novas experiências de amanhecer neste outro quarto.

Muita gente pode pensar que seis horas é um bom horário para acordar, eu também acho. Acordar às cinco horas é ainda melhor. É muito bom renascer a cada dia junto com o sol, sendo despertada pelo cantar de um galo. Entretanto, toda essa imagem romântica se transforma em uma realidade concreta quando, em vez do cantar do galo, ouço um alto-falante com um som de má qualidade anunciando a venda de pamonhas; quando o sol, tão preguiçoso quanto eu, teima em continuar adormecido em cima de uma acolchoada e fresca nuvem enegrecida. Confesso que a palavra pamonha me estimula a acordar mais rápido.

A imaginação foi tanta que cheguei até a sentir o cheiro inebriante de um bom café. Voltar a dormir estava fora de cogitação, o pregão da rua já tinha invadido minha mente: “Olha a pamonha, olha a pamonha, pamonha quentinha pro seu café da manhã”; “Acaçá de milho bem feito, tem de milho e tem de leite”; “Banana-da-terra, batata-doce, melão, melancia, ovos”. A essa altura, meu simples café imaginário com pamonha já se transformava em um banquete.

A imaginação fica solta quando o corpo está cansado e preso a uma cama. Hoje posso me dar a esse delicioso luxo, pois ontem varei a noite fazendo nascer para a vida espiritual mais um filho. Momento em que foram entoados muitos cânticos que atraíssem boa sorte, prosperidade, alegria, união, saúde, enfim, tudo de bom que uma pessoa precisa ter para caminhar com dignidade na vida. Enquanto minha imaginação vagava entre o passado recente de um ritual e o futuro próximo de um café da manhã, não foi pequeno o susto que levei ao ouvir uma voz que parecia querer ser ouvida por todo o universo:

“Sucateiro, sucateiro, compro sucata pra reciclagem”. A voz do sucateiro me assustou, mas o que ele queria comprar para reciclar me surpreendeu. “Quem tem ilusão pra vender? Quem precisa se desfazer de suas ilusões? Quem quer me entregar suas ilusões? Preciso de ilusões para reciclar, preciso de ilusões para transformar em sonhos! Olha o sucateiro…” – insistia o sucateiro.

Meu corpo se esqueceu de que estava exausto e deu um pulo da cama (ainda bem que ele não se esqueceu de pegar a bengala). Parece que a curiosidade é um grande despertador na vida e da vida. Sabendo que minhas pernas não tinham a rapidez necessária para alcançar o comprador de ilusões, precisei pedir a alguém que o trouxesse até minha presença. Ainda zonza de sono, não sabia se tinha alguma ilusão para vender, até porque não estava entendendo como era o funcionamento daquele comércio. Sabia apenas que precisava conhecer aquele estranho comerciante.

O sucateiro de ilusões aproximou-se de mim muito contente. Pensei que ele estava acreditando que iria fazer um excelente negócio comigo. Seu contentamento, segundo ele próprio, era simplesmente pelo fato de conhecer mais uma pessoa. Para meu espanto, fiquei sabendo que seu grande prazer era quando encontrava alguém que não tinha nenhuma ilusão para lhe vender e que o prazer era muito maior quando encontrava pessoas que já sabiam reciclar suas próprias ilusões em verdadeiros sonhos possíveis de serem concretizados, independentemente do tempo que eles precisassem para se realizarem.

Eu não sabia se alguma ilusão ainda estava viva em mim. Sonhos, eu sabia que ainda tinha muitos. Após uma longa e frutífera conversa, o sucateiro se despediu. Eu fiquei ponderando sobre a inusitada situação que acabava de vivenciar e relembrei do ritual da noite passada, cujos cânticos têm a função maior de reciclar as cabeças dos iniciados e do iniciante, que estava entregando sua cabeça ao comando de seu orixá.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Iemanjá Black festeja cultura negra

postado por Cleidiana Ramos @ 8:08 PM
31 de janeiro de 2014
Madá e Jorge organizam a festa Iemanjá Blac. Foto: Divulgação

Madá e Jorge organizam a festa Iemanjá Blac. Foto: Divulgação

No próximo domingo, dia de Iemanjá, o que não vai faltar na cidade são eventos culturais para festejar a Rainha do Mar. Mas a terceira edição da festa Iemanjá Black é mais do que especial. Organizada pelo ator Jorge Washington e pela estilista Madá, da grife Negrif, a comemoração começa a partir das 11 hroas, no Sunshine Bar (que fica próximo à Colônia de Pescadores Z1 do Rio Vermelho).

A festa vai ser embalada pelo som de Denise Correia com a banda Na Veia da Nêga e o grupo Samborim. O ator Érico Brás e os cantores Tonho Matéria e Savannah Lima já confirmaram presença. O kit de acesso – camisa com uma estampa exclusiva da Negrif–e ticket da feijoada custa R$ 50 e pode ser adquirido na Boutique da Negrif (Rua Carlos Gomes, Edifício Bariloche, nº 616, bairro 2 de julho).

O espaço da festa é climatizado, tem capacidade para 500 pessoas e fica pertinho da Colônia de Pesca de onde sai o presente principal para Iemanjá.


Balaio de Ideias: O retempero de Daniela

postado por Cleidiana Ramos @ 6:09 PM
3 de janeiro de 2014
Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Marlon Marcos

Tem horas que Salvador assombra em surpresas bem agradáveis: o que fez , meu Deus, Daniela Mercury nessa versão 2014 no Projeto Pôr do Som? Por mais que empreendam negar a força artística desta mulher, muito por seu temperamento desencontrado, o que ela fez e faz na gente é inevitavelmente grande e importante em termos de criação individual e coletiva para atestar nossa tal “baianidade”. O que não se atesta enfim, se vive.

Muito de nos orgulhar da nossa vocação para a festa, mas banhado na criatividade selada em nossa negritude e em variantes do universo musical popular: isso é a Bahia! Daniela se retemperou para fazer vibrar uma cidade que há muito eu não via imersa na poesia típica do Ilê e do Olodum… Ao lado deles, mais Banda Didá, foi magistral.

Que noite, que ingresso quente e positivo nessas coisas do tempo fictício que praticamos. Do que vi nessas celebrações de fim de ano: foi o que mais me emocionou; e isso conta muito pra mim, quando no dia anterior, meus amores maiores ( Gal, Caetano, Gil)  também fizeram uma espécie de festa. E Daniela nem precisou sair do Carnaval para mostrar porque conquistou o Brasil e, de certa forma, o mundo.

Estava afiada, linda e consagrada como a branca que tem trânsito e voz no Ilê Aiyê. Deixou um pouco de lado o tom conferencista e realçou a cantora.  Ivete pode ganhar mais, cantar com Gil e Caetano, ser um fenômeno em carisma, vender como ninguém, ter uma voz mais bonita, mas artista é Daniela Mercury. Nem vou citar a do The Voice para não baixar o nível e ofender os anteriores.

Noite linda que queria dedicar à grandeza de Cláudio Marques pelo texto corajoso e procedente que escreveu no blog Teatro Nu,  uma narrativa imaginativa, proto-notícia, buscando momentos mais amplos e irrestritos para a cultura da Bahia; dedicar a Marques e pedir licença para expressar minha tristeza com a postura de Gilberto Gil, nosso mestre, recorrendo à polícia para afirmar censura à postura histórica, brincadeira séria, do cineasta. Confesso que fiquei um pouco envergonhado pelo amor-admiração que tenho por Gil. Tenho me pelado de medo com as retrancas que marcam censura a biografias, a críticas, a mobilizações intelectuais ou jornalísticas que nos façam querer um lugar melhor como cidade, como país, como planeta.

Mas Daniela, o assunto deste texto, muito me emocionou. Ilê e Olodum: a força viva do que somos capazes de fazer, magistrais aprendizes e professores de Gil Caê Gal, sendo conduzidos pela maestra do Canto da Cidade que, mesmo ao meio de tantos exageros, do canto por vezes preciosista, diz muito ao que veio fazer em palcos e trios à luz da sua arte. Ela reitera-se e faz no centro da cultura negra baiana. E, mesmo sem ser negra, merece aplausos.

 Isso é o Brasil.

 Daniela, obrigado.

Marlon Marcos é poeta, antropólogo e jornalista


Feliz 2014 com um abraço afro-brasileiro!

postado por Cleidiana Ramos @ 4:25 PM
31 de dezembro de 2013

 

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Um 2014 recheado das boas energias trazidas pelas forças do bem! Axé!


Mais um livro, mais um presente

postado por Cleidiana Ramos @ 1:11 PM
18 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Foi assim que meus filhos escreveram no início do convite para o lançamento do próximo livro que estarei entregando ao público. Se permitir que a colocação da referida chamada fosse colocada, foi porque, na verdade, considero que editar mais um livro é, sim, um grande presente. Um grande presente para mim! Afinal, livros nos conectam uns aos outros, fazendo com que eu possa estar presente na vida de pessoas que nunca sonhei em trocar ideias.

Além do mais, continuar devolvendo ao mundo o que recebi dele faz com eu me mantenha presente no momento presente. Meu tempo será sempre o agora! Se escolho, geralmente, o mês de dezembro para lançar os livros que escrevo é exatamente porque neste período o desejo de conexão fica intensificado.

Sendo assim, convido a todos para estarem comigo hoje, quarta-feira, 18 de dezembro, na Academia de Letras da Bahia, para juntos celebrarmos o destino, tema sobre o qual trata a Coleção Odu Adajó: Coleção de Destinos, que pretende ser composta por 16 volumes.

A Coleção Odu Adajó tem a pretensão de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o legado da cultura yorubá, que hoje é entendida por quem nos visita como cultura baiana. Por que, então, o povo da Bahia/Brasil estuda tanto a mitologia dos deuses gregos e romanos e não estuda a mitologia dos orixás? Por que se interessam apenas por oráculos que estão distantes de nós, como Cabala, Tarô, e não procuram conhecer aquele que atrai tanta gente de fora do estado (e do país) em busca de ajuda e apoio espiritual, que é o Jogo de Búzios?…

Foram essas as perguntas que durante muito tempo me fiz. Recusei-me a acreditar no “chavão” do preconceito e fui a “campo” pesquisar. Perguntei a uma “filha de santo” minha por que ela estava estudando Cabala e não os odus, que são os caminhos do destino indicados pelo oráculo da cultura à qual ela estava vinculada – o candomblé. A resposta foi simples: “Sobre Cabala encontro livros que ajudam em minha busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento, sobre a tradição africana nada ou pouca coisa  encontro”.

Ouvi a resposta e pensei: Se eu sou uma religiosa, preciso colaborar no sentido de facilitar a busca de conexão das pessoas com sua parcela divina, sua espiritualidade. E uma das importantes etapas desse processo é conhecer, aceitar e cumprir o destino. Resolvi, então, tentar cobrir a falta que me foi alertada pela minha filha, escrevendo e publicando livros que podem ser de interesse de muitos.

A Coleção Odu Adajó se destina, portanto, a qualquer pessoa que busque ter uma visão mais ampliada da existência, aos estudiosos de culturas diversas e, principalmente, aos iniciados da religião que é conhecida no Brasil pelo nome de candomblé.

Sendo eu uma iniciada, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora chega ao conhecimento do público, assim como os livros anteriores. A ousadia vem sempre da necessidade e a coragem, sempre da permissão dos orixás. Diante da modernidade, da internet, essa ficou sendo a minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar.

Quatro volumes da coleção em questão já estão escritos, mas apenas um já foi editado, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Optou-se por usar todas as palavras em yorubá com a grafia correta como forma de preservação da língua, mas isto não é motivo de preocupação, uma vez que a tradução das rezas, dos provérbios, etc. pode ser encontrada logo em seguida.

Conhecer a cultura africana não transforma ninguém em cultuador de orixás. Cada um tem sua crença, a qual deve sempre ser respeitada por todos. Entretanto, conhecer a cultura em que se vive é muito mais do que uma obrigação, pode ser um delicioso prazer. É apenas isso que pretendo oferecer: prazer com uma boa dose de ampliação de conhecimentos, que possa vir a colaborar com a diminuição do preconceito e uma melhor qualidade de presença na sociedade em que se vive.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Mãe Stella lança novo livro

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
13 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Na próxima quarta-feira, às 18 horas, na Academia de Letras da Bahia (ALB),  Mãe Stella de Oxóssi dá mais um presente para a comunidade que dirige, o Ilê Axé Opô Afonjá, mas também a todos que professam o candomblé ou se interessam pelos temas que envlvem essa religião. Trata-se do primeiro volume da coleção Odu Àdájo, com tradução livre para o português como Coleção de Destinos. Com maestria, Mãe Stella apresenta toda a beleza que cerca um dos mais importantes pilares para essa tradição religiosa: o oráculo que, no Brasil, é conhecido como Jogo de Búzios e que se baseia nos odus, ou seja, o conhecimento sobre o destino.

Mas este conhecimento é muito mais complexo do que a ideia simplista de conhecer o futuro a partir da consulta a uma sacerdotisa ou sacerdote. Também não significa que conhecer o destino é poder evitar qualquer tipo de problema como os céticos gostam de dizer para diminuir a sabedoria sobre oráculos.

No universo afro religioso, ter informações sobre o “destino” é, antes de tudo, conquistar o auto conhecimento que abre os caminhos para uma vida de paz acima de tudo. São explicações como essa que a coleção, cuidadosamente preparada por Mãe Stella, vem trazer.

O primeiro livro, por exemplo, começa pelo 16º odu, que é Ofun Méji, no sistema oracular da divindade Ifá. No Merindinlogun, um dos nomes que se dá ao Jogo de Búzios, ele ocupa a décima posição.  “Ofún Méjì é, portanto, um odu de extrema complexidade, que como símbolo da síntese universal, carrega em Si a responsabilidade pela “Criação” e por todo tipo de criação, que acontece por oposição ou complementação dos opostos, enfim, através de permanente movimento”, diz a introdução do livro.

No prefácio, Mãe Stella explica que a sua iniciativa em abordar um tema tão complexo e ao mesmo tempo tão caro ao candomblé foi a forma que encontrou para suprir a necessidade de mostrar mais uma face da riqueza que a filsofia iorubá, a qual o Afonjá está vinculado, possui. Ela, inclusive, faz questão de ressaltar que o conhecimento que transmite na coleção é o que recebeu nesta comunidade específica, o que condiz com o respeito que sempre demonstrou e demonstra em seus livros diante das outras tradições religiosas de matrizes africanas.

Fiel a esse princípio da oralidade, Mãe Stella deu um toque diferente a essa coleção. É um livro que dialoga com a oralidade e a escrita. Dessa forma, Mãe Stella, assina o livro na parte de tradição oral. A tradição escrita ficou sob a responsabilidade de Graziela Domini,filha de Iemanjá da casa.

Essa é, portanto, mais uma inovação de uma sacerdotisa que fica muito à vontade para transitar entre as duas linguagens, mas que, neste caso, diante do caráter especial que tem o tema, preferiu repartir, desde a capa, o domínio dos dois códigos de linguagem. Mais uma atitude “ousada”, como ela define sua iniciativa em preparar esta coleção, mas que é mais uma amostra da sua maestria com a literatura a ponto de ter se tornado a primeira líder religiosa do candomblé a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia (ALB).

Em tempos de Internet que ela reconhece a importância, mas que também entende como um meio que, devido a rapidez, não dá o tratamento adequado a temas tão complexos, Mãe Stella conta que optou por fazer o uso da parceria entre oralidade e escrita para transmitir sua reflexão sobre o oráculo de origem africana que continua preservado na Bahia.

É um passeio pelo meio dos mistérios mas sem a necessidade de revelar aquilo que se chama “fundamento”,  reservado apenas para quem conquistou o direito de ter acesso a ele, um dos pilares básicos do candomblé.

“Como iniciada que sou, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora entrego ao público. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem veio da permissão dos orixá. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar. Quero deixar claro que o que aqui transmito tem como base o candomblé como é professado no Il]e Axé Opo Afonjá, na Bahia”, escreve Mãe Stella no prefácio.

A nós leitores cabe recohecer a profundidade deste presente e a generosidade de uma sacerdotisa que tem feito do seu conhecimento uma forma de diálogo tanto com aqueles que são da religião dos orixás,como também com os que se sentem próximos pelos mais variados caminhos.

Serviço:
O que: Lançamento de Ofun (Coleção Odu Àdájo- Coleção de Destinos)
Quando: Dia 18/12, quarta-feira, a partir das 18 horas
Onde: Academia de Letras da Bahia (ALB), Avenida Joana Angélica, 198, Nazaré


Autor quer eliminar cabelo black de novela

postado por Cleidiana Ramos @ 6:45 PM
21 de outubro de 2013
Autor quer que ator mirim corte o cabelo black. Foto: Divulgação

Autor quer que ator mirim corte o cabelo black. Foto: Divulgação

As telenovelas são uma paixão nacional e mexem muito com todo mundo. Por isso mesmo essa confusão arrumada por Walcyr Carrasco, autor de Amor à Vida, veiculada pela Rede Globo,  merece mais um pouco de atenção.

O autor que está se notabilizando por perder a mão com o que começa como boa ideia, exigiu, segundo vários blogs e sites especializados, que cortem o cabelo do ator que faz o menino órfão Jayminho (Kaiky Gonzaga).

Na trama do chamado horário nobre da Globo, Jayminho é adotado pelo casal homoafetivo Niko (Thiago Fragoso) e Eron ( Marcello Antony).

Chateado com as críticas depois que a história da exigência do corte de cabelo vazou, o autor ameaçou interromper a história na novela. Segundo ele, o menino precisa passar por mudanças pois quando uma criança é adotada ganha roupas novas e brinquedos. Disse ainda que está mais preocupado em mostrar um garoto negro sendo adotado por um homem branco.

O problema que vejo nessa frase de Walcyr Carrasco é extamente o que ele não disse. O menino adotado muda, ganha roupas novas e o complemento possivelmente seria “não pode ter um cabelo como aquele”.

O que a gente pode imaginar da frase inacabada do autor é que o cabelo natural de um menino negro e preservado como tal só pode ser indício de menino que vive em um orfanato.

O problema é que o dono desta conclusão trabalha com um produto que cativa milhões de brasileiros e vende na cifra de milhões. Portanto, o que a gente está entendendo nessa entrelinhas é que um personagem negro para ser “engolido” no horário nobre da Globo tem que ser “embranquecido” e negar sua identidade negra quando melhora o padrão de vida.

Um menino negro, mesmo adotado, não pode manter o cabelo “black” porque isso é símbolo de pobreza e de rejeição. O personagem já disse que várias pessoas desistiram de adotá-lo.

É preocupante essa postura do autor que, aliás, vem retrocendo no que pretendia mostrar como avanços. No caso do casal em questão, por exemplo, já arrumou uma mulher para um dos parceiros se envolver que é Amarilys vivida por Danielle Witinis.

Embora o casal homoafetivo tenha aparecido como bem resolvido e apaixonado, nas brigas entre Niko e Amaralys Eron sempre fica a favor da moça.  Já foi divulgado em sites especializados que Eron vai preferir Amarilys.

O outro homossexual da novela, Félix, vivido por Mateus Solano, também já se sabe que vai abandonar o namorado que foi o estopim para que assumisse seu desejo por homens para ficar com a esposa.Parece que Walcyr Carrasco começa as polêmicas, mas não sabe como enfrentá-las.

Em tempo: o autor parece ter uma obsessão  com os cabelos dos atores e atrizes da sua novela. A outra confusão foi com  Marina Ruy Barbosa que não quis cortar os longos cabelos ruivos para o período em que sua personagem faria tratamento contra um câncer. Resultado: ele matou a personagem e a obrigou a vagar, em algumas cenas, como um fantasma.


Afro Imagem: Festa das crianças no Terreiro do Cobre

postado por Cleidiana Ramos @ 12:16 PM
14 de outubro de 2013

A festa da criançada no Terreiro do Cobre foi um sucesso. Muita diversão e oficina literária. Segundo Mãe Valnizia de Ayrá, ano que vem tem mais.

Turma concentrada na oficina literária. Foto: Josafá Araújo/Divulgação

Turma concentrada na oficina literária. Foto: Josafá Araújo/Divulgação

A tarde foi de muita brincadeira e jogos educativos. Foto: Josafá Araújo

A tarde foi de muita brincadeira e jogos educativos. Foto: Josafá Araújo/Divulgação

 


Balaio de Ideias: Um Adeus ao Alapini

postado por Cleidiana Ramos @ 9:47 AM
8 de outubro de 2013
Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Emanoel Araujo

Há poucos dias visitei o meu querido amigo e irmão Deoscóredes Maximiliano dos Santos, que estava deitado, meio adormecido. Beijei sua mão longa e delicada. Ele me sussurrou algumas palavras pela surpresa da minha aparição sem anunciar. Por momentos estive com Juana dos Santos, sua inseparável companheira de tantos e tantos anos, sua fiel e apaixonada mulher como foram as do rei Xangô. Ela organizava, como fruto desse amor, a grande homenagem que lhe seria prestada no dia 2 de dezembro nos seus 96 anos, o siré dos 96 anos do Mestre Didi, e me mostrava a lista dos amigos que seriam convidados para a festa. Disse-lhe também que, em novembro, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, lhe prestaria uma homenagem para celebrar os 25 anos do livro “A mão afro-brasileira”. Qual a minha surpresa com a sua morte.

Mestre Didi sempre foi um homem voltado para a cultura e a vida afro-brasileira, desde os muitos livros que publicou sobre o culto dos ancestrais, no qual tinha o honroso cargo de Alapini. Foi um artista escultor de lindas obras, cuja temática falava desse extraordinário universo das coisas da África mítica, onde os deuses estão na terra, e por isso suas esculturas eram totêmicas, saíam do chão para alcançar o infinito. Ele sabia desafiar o espaço com a linha que se desdobrava em volutas encimadas por pássaros, numa alusão a Oxalá, ou se desdobrava em formas triangulares como os oxês de Xangô ou as palmas forradas de dores fortes de tecidos protegendo a natureza. Os fios de palmas se transformavam em xaxarás, ibiris, paxorôs com miçangas coloridas, adornadas com fatias de couro de muitas cores.

Esse era o artista no seu pequeno atelier, dando forma e vida à mitologia, às lendas dos orixás, às complexidades dessa cultura milenar: do sofrimento, da alma, do espírito, da dor e das raízes encravadas na memória do tempo e do espaço, diante da incompreensão dos ignorantes. Ele foi um sábio e um homem voltado para o sagrado, talvez ensinado pela sua madrinha Dona Aninha, por sua mãe Dona Senhora, talvez até na atmosfera verde e selvagem do Ilê Axé Opô Afonjá, com todas aquelas ebames num coro uníssono para Xangô, o justiceiro. Mas houve um outro Mestre Didi, amigo de Lídio, de Camafeu, de Waldeloir Rego, de Carybé, de Jorge Amado, de Vivaldo Costa Lima, de Tibúrcio Barreiros, de Dorival Caymmi, e de muitos amigos pelo Brasil afora, pelo mundo afora, pela África afora.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, sacerdote do culto dos Egunguns, Alapini do Ilê Asipa, mestre sagrado do culto dos ancestrais, artista escultor cuja obra encantou brasileiros e estrangeiros no “Magiciens de la Terre”, em Paris, na sala especial da Bienal internacional de São Paulo, na grande exposição no Museu Afro Brasil, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira em Salvador. Comendador da ordem do mérito da cultura nacional, foram muitos os degraus de sua obra artística e sacerdotal. Pairou por esse mundo de Olodumare e, como o deus Oxalá, transformou o barro e a palha com miçangas coloridas em seres vivos que falam da eterna e milenar cultura de um povo, e também a cultura viva, que pulsa no espírito do novo mundo. Adeus, Alapini, vá ao encontro de suas outras mulheres, que lhe amaram como um filho pródigo: Dona Aninha e sua mãe, Dona Senhora, verdadeiras rainhas do Ilê Axé Opô Afonjá. Kaô Kabecilê.

Emanoel Araujo é escultor e diretor-curador do Museu Afro Brasil, em São Paulo


Lembranças de Mestre Didi

postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
6 de outubro de 2013
Na foto: Mestre Didi Foto: Divulgação

Mestre Didi faleceu na manhã de hoje em Salvador. Foto: Divulgação

Devia ter mais ou menos um ano de profissional do jornalismo, mas era ainda “foca”, o nome que se dá aos repórteres iniciantes. Acho que o apelido é porque, nesse período, nossos gestos são completamente afoitos, estabanados e desajeitados.

Minha missão era entrevistar Mestre Didi para um “freela” que, no jargão do jornalismo, a  gente usa para chamar um trabalho temporário.

Como uma “foca” aplicada fiz o dever de casa: pesquisei, li alguns textos sobre ele e me lembrei muito bem da recomendação dos coordenadores do trabalho: “Não grave a entrevista porque a voz dele não pode ser desvirtuada, devido à sua posição sacerdotal”.

Fiquei tão presa à recomendação que me supreendi quando vi o Mestre frente a frente: sorriso aberto, gestos elegantes e uma extrema simpatia. E aí o lado atrapalhado da foca falou mais alto. Ataboalhadamente disse: “Eu sei que o senhor não fala, mas preciso de uma declaração”. Ele deu uma gargalhada e retrucou: “Falar eu falo. O que não costumo fazer é dar entrevista, principalmente gravada”.

Logo em seguida a conversa foi entabulada com a intermediação da sua esposa, a antropóloga Juana Elbein. Infelizmente, esse foi meu único contato pessoal com Mestre Didi. Passei a conhecer mais sobre ele apenas por meio dos seus livros, obras e notícias sobre o afoxé Pai Burokô.

Hoje, diante da sua partida para a dimensão ancestral que, por meio do seu sacerdócio como alapeni conectava com o mundo terreno, no culto aos Babás (a energia de origem), percebo o quanto de multifacetada foi a trajetória do Mestre: escultor, escritor e sacerdote.

Cada uma dessas dimensões sempre estiveram dialogando juntas e preservando as tradições também do culto de orixás, afinal era filho biológico da grande Mãe Senhora. Mestre Didi deixa hoje o espaço terreno, mas cumpriu a missão de eternizar a herança ancestral a qual devotou seu sacerdócio.


Salve Iroko!

postado por Cleidiana Ramos @ 10:20 AM
30 de setembro de 2013
SEMINÁRIO PARA IROKO

Iroko fica na entrada do DPT. Foto: Welton Araújo/ Ag. A TARDE/ 01.09.2008

Manter a memória é fundamental. A saudosa ebomi Cidália partiu para a reunião ancestral, mas o rito em honra de Iroko que ela comandava todos os anos no Departamento de Polícia Técnica (DPT) consegue se manter. A liderança sacerdotal agora é do babalorixá Air José, líder religioso do Terreiro Pilão de Prata. O rito aconteceu na manhã de ontem.  A árvore sagrada também é uma lembrança ao terreiro de Júlia Bugã que funcionou no local até a chegada do DPT.


Infância sagrada

postado por Cleidiana Ramos @ 2:22 PM
27 de setembro de 2013
Os santos católicos adultos viram meninos. Foto: Agência A TARDE/

Os santos católicos adultos são representados como meninos. Foto: Agência A TARDE/25.09.2012

Hoje é dia de São Cosme e São Damião, os santos médicos e, portanto, adultos da Igreja Católica. Mas a gente lembra mesmo é das divindades meninas, um efeito da ressignificação resultante do encontro entre as religiões afro-brasileiras e o catolicismo.

Assim, os santos adultos são um pretexto para comemorar os deuses e encantados crianças que gostam de caruru, comida dos ibejis e dos vunjis das tradições ketu e angola, respectivamente, e de doces.

É uma manifestação bela que consegue nos lembrar de forma mágica e lúdica o quanto a infância é sagrada, pura, alegre e forte o bastante para nos fazer esquecer, pelo menos por alguns momentos,  as agruras do dia-a-dia.

Festejar a infância é de certa forma lembrar o quanto as crianças precisam de respeito e atenção e mais uma prova de como os africanos e seus descendentes entendiam dos mistérios da vida.


“Exu é ideal para esse debate. É mensageiro e é movimento”. Entrevista: Vagner Gonçalves

postado por Cleidiana Ramos @ 10:36 AM
23 de setembro de 2013
Vagner Gonçalves fará palestra de abertura do I Simpósio de Estudos da Religião Afro-Brasileira. Foto: Divulgação

Vagner Gonçalves fará palestra de abertura do I Simpósio de Estudos da Religião Afro-Brasileira. Foto: Divulgação

Cleidiana Ramos

Um dos principais pesquisadores das religiões afro-brasileiras no Brasil, Vagner Gonçalves vai fazer a conferência de abertura do I Simpósio de Estudos da Religião Afro- Brasileira, que começa em Salvador, na próxima terça-feira. Professor da Universidade de São Paulo (USP), ele escolheu falar sobre as diversas dimensões de Exu na África negra e em países da diáspora, como o Brasil.

Qual a principal linha de abordagem da sua palestra na abertura do simpósio?

A figura de Exu e a circularidade cultural. As religiões afro-brasileiras são muito impactadas por um diálogo transantlântico. Não dá para entendê-las se não percebemos as diversas redes que interligam Brasil, países da África, Haiti e Cuba. Valores e conhecimentos circulam por essas rede. Esses processos resultam numa cultura afro-atlântica que extravasa o plano local.  Exu é ideal para discutir essa questão, pois é o mensageiro e o  movimento.

Exu é uma figura controversa mesmo no âmbito das religiões afro-brasileiras.

Sim e a minha fala com certeza vai ser bem controversa também (risos). O que aconteceu no Brasil e também nos outros espaços do Atlântico negro foi uma demonização de Exu. Mas ao mesmo tempo isso provoca uma humanização do demônio. É um processo complexo que vou tentar  explicar.  Quando duas culturas entram em contato, ambas saem modificadas. No caso brasileiro, por exemplo, o Exu associado à umbanda  tem sua imagem mais próxima da ideia de mal. No candomblé, ele é mais puro, mais autêntico.

Como a ideia de Exu transforma a ideia de demônio?

Veja bem. O demônio é sempre relativizado com a ideia de mal. Mas com este mal não se faz um pacto. Mesmo na umbanda, onde Exu se aproxima mais da ideia de mal do que no candomblé, você pode conversar com ele, fazer um pacto e conseguir coisas boas. Na concepção cristã o demônio é um anjo caído. Ora, se você pode convencê-lo a fazer  uma coisa boa, ele volta a vestir, de certa forma, sua pele de anjo. Há, portanto, a inversão da lógica do argumento original.

O candomblé já foi perseguido, depois passou a ser até marca identitária de um povo, como é na Bahia. Em que fase ele está agora ?

Na verdade, acho que ele não tem fases cronológicas tão divididas. O candomblé, desde o seu surgimento, tem várias características ao mesmo tempo. Foi perseguido pelo Estado, tanto na monarquia, como na república, mas agora é perseguido por igrejas evangélicas. Sabemos que no século XIX, várias pessoas da elite frequentavam o candomblé. Além disso, o  povo de santo está presente na cultura nacional. Os grandes ícones da cultura brasileira como o Carnaval e a capoeira são espaços de sociabilidade dos negros que formaram o candomblé. Portanto, ele sempre foi perseguido, mas exerceu atração. Hoje em dia, ele não está sendo perseguido pelo Estado, mas por adversários que vêm do próprio campo religioso popular. É o vizinho que se tornou  evangélico; o filho que tem pais de candomblé, mas se tornou evangélico. O Estado, em alguns casos, passou de perseguidor  à condição de quem ajuda com os tombamentos e outros apoios.

Recentemente, o jornal Extra, do Rio de Janeiro, publicou uma matéria denunciando a perseguição a religiosos do candomblé feita por traficantes de drogas  evangélicos. Este é um fenômeno recente?

Sim e é um fenômeno bastante complexo. Os evangélicos acabam fornecendo um tipo de proteção política ao mundo do tráfico. Essa proteção também é entendida pelo traficante na dimensão religiosa. Esses mundos acabam ficando muito confusos, divididos e dificíeis de entender. Mas o fenômeno mostra que os evangélicos têm feito alianças em várias dimensões: com o mundo político; com o tráfico e  elas sempre se refletem de forma muito negativa para o candomblé.


Eventos debatem religiosidade afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 10:15 AM
23 de setembro de 2013
Registro do I Encontro de Nações, realizado em 1981. O primeiro à esquerda é o professor Vivaldo da Costa Lima e a última à direita Mãe Olga de Alaketo. Foto: Cedoc A Tarde

Registro do I Encontro de Nações, realizado em 1981. O primeiro à esquerda é o professor Vivaldo da Costa Lima e a última à direita Mãe Olga de Alaketo. Foto: Cedoc A Tarde

Reproduzo aqui a matéria que saiu na edição do último domingo. Um daqueles eventos que tem tudo para fazer história:

 

Cleidiana Ramos

 

Membros das religiões afro-brasileiras  vão realizar, a   partir da próxima terça-feira (amanhã, dia 24), mais uma edição de um evento marcante: o III Encontro de Nações de Candomblé. Realizada pela primeira vez em 1981, a reunião este ano tem a novidade de contar com a representação das tradições de outra regiões da Bahia, como o jarê e  o pegi, originários da Chapada Diamantina e Jacobina, respectivamente. De forma simultânea vai acontecer o I Simpósio de Estudos da Religião Afro-Brasileira. Os eventos serão na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no Terreiro de Jesus.

O simpósio  apresentará  estudos do Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Ufba, sediado no Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), instituição promotora das duas iniciativas. “O encontro ganhou uma dimensão que está nos surpreendendo”,  diz Márcia Souza que, ao lado de Lindinalva Barbosa e dos doutores em antropologia Cláudio Pereira e Jeferson Bacelar, forma a comissão organizadora.

“Será um espaço onde os religiosos de matriz africana vão atualizar as discussões de interesse e ter notícias da diversidade que caracteriza a prática religiosa”, aponta Lindinalva Barbosa. Ela também destaca a presença de jovens pesquisadores no simpósio. “O interessante é que muitos deles também são de candomblé”, completa. Para  Jeferson Bacelar, será a oportunidade de perceber como o candomblé está lidando com questões atuais.

“O candomblé tem uma dinâmica muito interessante, tanto interna como externa. Mesmo mantendo  tradições, ele precisa dialogar com o moderno”, diz. Homenagem Escolhido para ser homenageado, o doutor em antropologia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Júlio Braga, vai realizar uma palestra intitulada O Antropólogo na Encruzilhada, tema de um dos livros dele.

“É uma reflexão a partir de uma pergunta que sempre me faziam. As pessoas consideram contradição pesquisar a religião que se professa. Cada vez que me perguntavam sobre isso tinha vontade de xingar. Para não fazê-lo, preferir escrever”, conta Braga, em meio a gargalhadas. Ele tem extensa produção sobre o candomblé, inclusive livros que se tornaram clássicos, como O  Jogo de Búzios .

A saudação inicial aos dois eventos será feita pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi. Já a conferência de abertura do simpósio terá Vagner Gonçalves como palestrante. [veja entrevista com o estudioso na página ao lado]. Para participar é necessário fazer inscrição no Ceao, que fica no Largo 2 de Julho. A inscrição custa R$  20 (estudante) e R$ 30 (público em geral). Para ver a programação acesse www.ceao.ufba.br

Povo de Santo não foge à discussão

O I Encontro de Nações de Candomblé, realizado em 1981, nasceu da ideia de um curso de extensão sobre as religiões afro-brasileiras.  Na primeira edição, já foi comemorada a participação de representantes da nação angola que foi pouco mencionada nos estudos clássicos. A palestra de abertura do encontro foi feita pelo antropólogo Vivaldo da Costa Lima, autor do texto clássico sobre o uso do conceito de nação para definir as tradições do candomblé. Os demais  palestrantes foram escolhidos a partir de sugestões do  povo de santo. O patrono foi o orixá Ogum. O segundo encontro foi realizado em 1995 e teve como patrono o orixá Oxóssi. Esse ano, Xangô foi escolhido como o regente do evento.

A reunião para discutir as tradições é uma prática antiga no candomblé baiano. Mesmo quando a organização parte de pesquisadores, o povo de santo deixa uma marca muito forte. Manifesto Foi assim no II Congresso Afro-Brasileiro. Sediado em Salvador, o congresso foi organizado por Édison Carneiro, Aydamo Couto Ferraz e Reginaldo Guimarães, em 1937, mas não teria acontecido sem a colaboração do babalaô Martiniano do Bonfim, e contou com um texto de Mãe Aninha sobre culinária ritual.  De 17 a 23 de julho de 1983, foi realizada na capital baiana a II Conferência Mundial da Tradição Orixá e Cultura. O evento gerou um manifesto, liderado por Mãe Stella, defendendo a autoafirmação do candomblé como religião.


Ecos da posse de Mãe Stella na ALB

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 PM
15 de setembro de 2013

Pessoal: como não pude postar nada aqui sobre a posse de Mãe Stella, estou publicando abaixo o texto que elaborei para o editorial da edição de sexta-feira de A TARDE.

Lições da trajetória de Mãe Stella

MAE ESTELLA DE OXOSSI / TOMA POSSE MA ACADEMIA DE LETRAS

 

 

Fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1910, Eugênia Anna dos Santos, carinhosamente chamada de Mãe Aninha, dizia que todo negro com um anel no dedo deveria colocá-lo aos pés de Xangô.

Simples, mas profundas, as palavras de Mãe Aninha evocam o quanto era difícil para um afrodescendente ter acesso à escola. Mas significa também que os vitoriosos deveriam agradecer à ancestralidade que, no caso de Xangô, governa coisas tão belas como a Justiça e a alegria. Ao voltar, o dono do anel reforça um ciclo, pois quem vence desafios, geralmente, inspira.

Coube, portanto, a Maria Stella de Azevedo Santos, uma filha do Afonjá e ocupante do posto que já foi de Mãe Aninha poder colocar aos pés de Xangô símbolos, que assim como o anel de formatura, significam a conquista do saber formal.

Formou-se em enfermagem numa época em que a habilitação era para poucos; é doutora honoris causa da Uneb; foi a primeira ialorixá a se tornar articulista de um jornal de grande circulação ao passar a escrever artigos em A TARDE e agora é membro da Academia de Letras da Bahia (ALB).

Mãe Stella não perseguiu nenhum destes títulos. Eles vieram como resultado da sua capacidade de mostrar como é possível absorver um código sem precisar abrir mão dos seus próprios.

Olhando a produção literária de Mãe Stella percebemos como a matriz oral, que é a base da sua formação religiosa, dialoga com a formalidade da escrita. Seu discurso é simples, mas profundo e próximo de quem o acessa , características tão presentes na oralidade.

A trajetória da filha de Oxóssi, orixá que é o provedor da comunidade, vira, no plano simbólico, alimento para novas gerações que descobrem o quanto o anel é necessário no mundo além dos terreiros. Mas o que não devem esquecer é a riqueza da ancestralidade preservada nestes espaços. Ela é a chave para não perder o caminho da origem, que permite lembrar quem se é de fato.


Escrever livros, ter livros, plantar árvores

postado por Cleidiana Ramos @ 4:56 PM
11 de setembro de 2013
A foto é para lembrar que amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

A foto é para lembrar que, amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

Maria Stella de Azevedo Santos

No  dia 22 de setembro começa uma nova estação. No hemisfério sul (onde se localiza o Brasil) é o início da Primavera, quando todos se vinculam à beleza colorida e passageira das flores. Geralmente, as árvores são esquecidas. Lembramos, então, que este ser vivo, tão fundamental para a existência da espécie humana, deverá ser comemorado, em 2013, no dia 21 de setembro.

Diferentemente das flores, algumas árvores são tão longevas que guardam segredos do início dos tempos. Tal é o caso de Baobá, uma das mais grandiosas árvores, que vive milênios, e foi imortalizada pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, em seu famoso livro O Pequeno Príncipe. É dito, inclusive, que a inspiração surgiu quando, em visita ao Brasil, o escritor conheceu um exemplar de Baobá, na cidade de Natal-Rio Grande do Norte. Baobá, considerada mãe de todas as árvores, é originária do Continente Africano, existindo poucos exemplares em nosso país. Um deles é, exatamente, o que ainda vive em Natal.

Homenagearei todas as árvores através do seguinte mito africano, que como todos os mitos precisam de uma reflexão profunda, a fim de que seus importantes ensinamentos possam ser internalizados: No centro da África, habitava uma alta e frondosa árvore – Baobá. Foi nela  que Coelho encontrou o conforto que buscava. Exausto, ele se abrigou à sombra da árvore que mais parecia uma Grande Mãe. Extasiado, Coelho exclamou: “Que sombra acolhedora e amiga você tem, muito obrigado!”.

A árvore, que não costumava receber palavras de agradecimento, ficou muito alegre e confiante. Coelho procurou logo aproveitar-se do momento e disse: “Sua sombra é muito boa, mas seus frutos não me parecem tão bons”. Aquela foi uma forma indecente de Coelho fazer com que a árvore lhe desse seus frutos. Baobá sentiu em seu coração a desnecessária artimanha de Coelho, mas preferiu pensar que ele agia daquele jeito por inocência. Ela lhe deu seu delicioso e nutritivo fruto. Coelho voltou a usar uma fala doce para suas atitudes mesquinhas:

“Sua sombra é boa, seu fruto é bom, mas nada sei sobre seu coração. Será ele doce como o interior de seu fruto ou duro e seco como sua casca?”. A árvore hesitou em mostrar quão belo era seu coração. Abrir o coração para alguém é sempre perigoso, mas também é tão divino, que a árvore não resistiu: lentamente foi abrindo seu tronco, até deixar que fosse visto seu lindo coração; um tesouro, que a árvore transformou em moedas, joias, e ofereceu a seu “amigo” Coelho.

Foi para sua esposa que Coelho entregou o tesouro para ser guardado, mas ela preferiu usar as joias: ela queria matar de inveja suas amigas. A primeira que ela encontrou foi Hiena, que quis saber onde aquele tesouro tinha sido encontrado. Coelha, manifestando ostensivamente sua arrogância, disse a Hiena que fosse falar com seu marido. Com medo do agressivo animal, Coelho contou seu segredo. No dia seguinte, exatamente ao meio-dia, Hiena repetia passo a passo o que Coelho havia feito para conquistar o tesouro: deitou-se e elogiou a sombra da frondosa árvore; pediu-lhe um fruto e o elogiou; finalmente, pediu para ver seu coração. Contente, por pensar que tinha conseguido um outro amigo, a árvore, desta vez, nem hesitou: foi abrindo seu tronco lentamente, agora para poder saborear cada minuto de entrega.

Mas Hiena, impaciente, pulou com suas garras no tronco da árvore, gritando: “Abra logo esse coração, eu não aguento esperar! Eu quero todo esse tesouro para mim!”. A generosa árvore ficou apavorada, fechando imediatamente seu tronco, deixando Hiena de fora a uivar desesperada, sem conseguir pegar nenhuma joia. E por mais que ela arranhasse a árvore, ela nada conseguiu.

A partir desse dia é que a hiena ganhou o costume de vasculhar as entranhas dos animais mortos, pensando encontrar ali algum tesouro. Ela não conseguiu entender que esse tesouro só existe dentro dos corações puros, que batem forte por amor ao próximo. Baobá, a partir de então, só permite que entre em seu imenso tronco, pessoas sábias e íntegras, que conhecem seus mistérios e por isto podem respeitá-los.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Ceao recebe Ogum´s Toques

postado por Cleidiana Ramos @ 10:46 AM
21 de agosto de 2013
Limeira e Semog

Os escritores Limeira e Éli Semog prometem noite de homenagem à literatura e música. Foto: Divulgação/Ceao

Na próxima sexta-feira, a partir das 18 horas, no Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao/Ufba) os escritores Éle Semog e Limeira comandam o evento chamado de “Ogum´s Toques”.

A dupla promete muita poesia, diálogo e música.

O Ceao fica no Largo 2 de Julho, no centro da cidade. É uma excelente opção de programa para a sexta-feira.


Ceao recebe programação sobre gênero

postado por Cleidiana Ramos @ 6:50 PM
24 de julho de 2013
Ceao recebe evento que une atividades lúdicas e discussão científica. Foto:  Lúcio Távora/ Ag. A TARDE/16.07.2009

Ceao recebe evento que une atividades lúdicas e discussão científica. Foto: Lúcio Távora/ Ag. A TARDE/16.07.2009

Pessoal: segue aí a sugestão de um programa legal, que une o lúdico e obtenção de conhecimento.

Amanhã, quinta-feira, 25, a partir das 18 horas, no Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao), localizado no Largo 2 de Julho, acontece a atividade intitulada “Canto às mulheres africanas, afro-latino- americanas e afro-caribenhas”.

Na programação tem roda de prosa sobre a mulher negra a partir da África para os países da diáspora, comandada por Rasidat Lola Akanni, Vilma Reis, Alicia Sanabria, Emanuelle Góes e Nisseti Falu, com a mediação de Solange Matos.

Em seguida tem a apresentação do núcleo de pesquisa gênero, raça, etnia e geração com a doutora Elisabete Pinto; apresentação musical com o cantor Renato Alves e a exposição de fotografias “O pente que me penteia- um tributo à negra carapinha” e a mostra de telas “A Casa da Solidão” do artista plástico Fernando Bernardes.


Ponte educacional vai marcar Semana da África

postado por Cleidiana Ramos @ 7:06 PM
19 de maio de 2013
25 de maio dia da Âfrica.

Aplicação da Lei 10.639/2003 será também discutida durante os dias do seminário. Fernando Amorim/Ag. A TARDE/ 20.05.2005

Começa amanhã (segunda-fiera, dia 20) a VII Semana da África. O evento, que vai até o dia 25,  é organizado por estudantes africanos que têm atividades acadêmicas na Bahia, em parceria com colegas brasileiros.

As atividades serão distribuídas por quatro locais:  Centro Cultural da Câmara de Vereadores; Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba (Ceao), localizado no Largo 2 de Julho; Faculdade de Economia da Ufba, na Piedade; e campus da Uneb, no Cabula.

O objetivo do evento é marcar o Dia da África, celebrado no dia 25 de maio.

As atividades reúnem estudantes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

“Identidades africanas na produção audiovisual em África e sua diáspora” é o tema da sétima edição.
A ideia é mostrar como o cinema, a TV e demais produções visuais abordam questões relacionadas à população negra, ao continente africano e às expressões culturais afro-brasileiras.

O evento também vai discutir os avanços e desafios da Lei 10.639/2003, que estabelece o ensino de história da África e cultura afro-brasileira. A legislação foi modificada pela Lei 11.645/2008 para incluir história e cultura indígena.

A primeira edição da Semana da África foi realizada em 2006 e passou a ser anual. Sua realização permite a divulgação de pesquisas sobre a questão étnico-racial no Brasil e também sobre o continente africano.

Pesquisadores como Carlos Cardoso, Claudio Luiz Pereira (Ufba), Mohamed Bamba, Claudio Furtado, Wilson Matos, Lívio Sansone, Fatoumata Kandé,  dentre outros, estão inscritos como palestrantes.

Além de palestras, o evento vai oferecer oficinas para professores de escolas da rede pública de Salvador. Estão também previstos na programação shows, exibição de filmes e espetáculos teatrais.

Os detalhes da programação, como os horários de cada atividade, temas e locais das palestras, podem ser conferidos no blog www.semanadaafrica.blogspot.com.br.

As informações sobre inscrições também podem ser conferidas no blog. As inscrições são gratuitas e quem obtiver 75% da frequência terá direito a receber certificado.

O credenciamento dos inscritos será feito a partir das 9 horas na sede do Ceao.


Balaio de Ideias: O que as folhas cantam

postado por Cleidiana Ramos @ 11:13 AM
2 de maio de 2013

O aniversário é de Mãe Stella, mas quem ganha o presente somos nós. Como estava fora na quarta-feira passada em que saiu seu artigo em A TARDE, aproveito que hoje é  o aniversário dessa fonte de sabedoria para publicar mais um de seus belos ensinamentos e desejar  saúde e mais muitos anos de vida entre nós. Axé, Mãe Stella.   

Mãe Stella faz aniversário hoje. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

O universo pulsa; o universo fala. Escutar o universo é escutar as batidas do próprio coração. Não as batidas físicas, mas o pulsar abstrato, entusiasmado, de um coração pleno. Quando falo pleno, provavelmente levo as pessoas a pensarem em cheio de alegria, prosperidade, beleza… Engano!  Quando falo pleno, refiro-me a um coração cheio de experiências vividas e absorvidas de maneira completa.

Tenham sido essas experiências sentidas como felizes ou dolorosas. O universo fala, as folhas falam, tanta para quem canta para encantá-las, quanto para as pessoas que conversam com elas ou simplesmente lhes dão um bom dia a cada dia que amanhece. As folhas, ou melhor, as plantas são seres vivos, como é vivo todo o universo.

É por isso que no candomblé temos um ritual para reverenciar as folhas e tudo o que elas nos ensinam. Nas folhas não existem apenas substâncias químicas usadas pelos laboratórios para curar nossas doenças físicas; nelas estão contidos ensinamentos ancestrais, que ao serem traduzidos por aqueles que se permitem escutar o universo são verdadeiros remédios para a alma, que ajudam a curar, mas também a prevenir feridas que retardem ou impeçam que a mesma encontre seu destino.

Transmitirei um pouco do que “escutei” de algumas das folhas para quem cantei durante setenta e quatro anos da minha vida sacerdotal.

Alfavaquinha-de-cobra – É a folha que acalma os olhos. A folha que nos faz “videntes”, que amplia a nossa visão, e ao mesmo tempo impede de vermos aquilo que não é necessário ou que não nos agrada. Folha que vem sempre em primeiro lugar, silenciosamente canta a serenidade, alertando a todos para a necessidade do falar pouco, para sofrer menos. A calma é sempre cantada, chamada, em primeiro lugar. Não se pode, ou melhor, não se deve entrar em um ambiente sem que seu olhar esteja manifestando calma, um olhar calmo o suficiente para enxergar as coisas com clareza e nitidez, sob todos os ângulos.

A calma é parceira inseparável do silêncio. Verdadeiros tratados podem ser escritos sobre o silêncio, porém, “silenciosamente” se pode dizer: silêncio é não falar o que não é necessário ser falado. Basta, portanto, não falar aquilo que não é preciso, que a pessoa pode considerar-se em estado de silêncio, passo fundamental para que se possa atingir o estado de calma. Estar calado não necessariamente é estar em silêncio. E o oposto é verdadeiro, no silêncio muito se diz.

Bilreiro – É desta árvore que são tirados os bilros usados pelas rendeiras para fazer um dos mais ricos artesanatos de nosso país. Folha de Xangô que ilumina do alto, nos protegendo e nos erguendo. É a folha do trovão que, como o forte grito de Xangô, acorda quem está dormindo. Afinal, “quem muito dorme nada aprende e nada vê”. E é Xangô, Deus do Trovão, orixá de “olhos de orogbo”, sempre abertos e atentos, que com sua voz rouca grita para que nos levantemos e, como guerreiros, enfrentemos a nossas lutas diárias.

Vassourinha-de-Oxum – Cultuamos com muita força a folha mais doce que o mel, para que ilumine nossos mistérios. O mel é símbolo da doçura natural, isto é, aquela que nos é oferecida pela natureza. Oxum, assim como o mel, representa a fala doce que nos embriaga.  A planta conhecida popularmente como vassourinha-de-oxum nos ensina a termos cuidado como as pessoas muito adocicadas, que podem estar usando a fala doce para nos deixar embriagados, conseguindo tirar de nós aquilo que desejam.

Bambu – Folha de vida longa, que é firme e escapa das tempestades, a quem suplicamos que nos torne  fortes e vigorosos.  O bambu segue em direção ao céu com a humildade e a sabedoria dos grandes mestres. No seu caminhar, reconhece a necessidade de se inclinar perante forças maiores, como a da tempestade. O Bambu é sábio: para não quebrar ele enverga.

Espada-de-Oxossi – Para a folhas com formato de espada pedimos que sejamos bastante fortes para que, rapidamente, possamos cortar o mal e as armadilhas que são feitas para atrapalhar a nossa existência. Afinal, a espada é símbolo de destruição da injustiça, da maleficência e da ignorância.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Mais festa para Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 7:20 PM
29 de abril de 2013

Essa eleição  de Mãe Stella para a Academia de Letras da Bahia continua emocionando todo mundo.  E quando a emoção é expressa por um grande artista ganha ainda mais cor. Vejam que espetáculo a charge produzida por Cau Gomez e publicada no jornal A TARDE, na edição do último domingo, dia 28.


Mãe Stella na Academia

postado por Cleidiana Ramos @ 1:58 PM
26 de abril de 2013

Mãe Stella mais uma vez fazendo história: nova integrante da Academia de Letras da Bahia.  A simbologia dessa eleição me deixa sem palavras para um registro maior. A História realmente consegue dar guinadas surpreendentes. Toda a nossa luta e herança afro-brasileira ganharam mais energia. Axe!